Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

23 de setembro de 2010

Thank God for Dawkins!

Muitos cristãos não aguentam mais as falsas alegações que a militância ateísta tem espalhado pelo mundo. Pessoas como Dawkins são cada vez mais aclamadas, e cada vez mais o livre ataque direcionado a Igreja é o considerado legítimo, enquanto qualquer defesa dela ou ataque ao ateísmo são considerados formas de opressão ou preconceito.

Apesar do despreparo de Richard Dawkins, são impressionantes suas tentativas de adentrar uma arena em que ele não pode vencer, mas isto resultou em algo positivo, pois ele acabou se tornando o que eu chamaria de grande conforto para todos os cristãos. Explico: deveríamos agradecer a Deus por ele existir, visto que Dawkins é, hoje, nada menos que a melhor amostra da fragilidade intelectual que tem dominado o pensamento neo-ateísta. Além disso, ele parece estar seguro de que veio ao mundo para livrá-lo da ignorância que a Igreja, por dois mil anos, defendeu a todo custo para que o pudesse controlar mais facilmente.

Dawkins sugeriu, em seus livros ou publicamente, as seguintes ideias quanto aos religiosos: que seus argumentos são irracionais e sem base em evidências; que sua inteligência é limitada; e que são, em última instância, patrocinadores de um câncer social [1]. Daí seu engajamento em uma luta intelectualmente radical contra as religiões mais praticadas atualmente. Bem como os outros "cavaleiros do neo-ateísmo", foca seus ataques no cristianismo, um fato bastante evidente nas obras dos quatro autores.

Eles atacam outras religiões, obviamente, mas não com tanta veemência. Dawkins chamou o Papa de inimigo da humanidade [2] por este ter sido, segundo ele, cúmplice dos abusos contra crianças - chegou ao ponto de exigir formalmente, junto com Hitchens, que o Papa fosse preso por crimes contra a humanidade [3]. Curiosamente, nunca falou publicamente sobre os crimes do ditador Ahmadinejad, que não só é cúmplice de criminosos, como têm um histórico não muito louvável contra várias minorias: perseguiu homossexuais [4] e até chegou a negar o Holocausto [5]. Temos visto reais tragédias ligadas ao terrorismo islâmico - e muito mais graves que casos de pedofilia que Dawkins insiste em considerar culpa do Papa. Ahmadinejad já ameaçou publicamente todo o Estado de Israel [6], e defende a completa exterminação deste [7], mas Dawkins nunca ousou chamá-lo de inimigo da humanidade; talvez o considere, de fato, uma espécie de amigo do povo ou um pacificador. É uma questão intrigante, cuja solução é bastante óbvia: ele sabe que os cristãos não farão nada contra ele, mas as certezas são menores quando entram em cena nossos pacíficos amigos radicais do Oriente Médio.

De qualquer forma, deixando de lado essa provável ou possível covardia, atentemos para o mais importante: sua ignorância. Há várias maneiras de identificar as inúmeras ideias inconsistentes do líder ateísta, e listo aqui algumas que ele normalmente divulga em suas publicações: (1) ciência e religião são necessariamente incompatíveis; (2) a fé é ilógica e irracional; (3) todas as religiões são más e fazem mal ao mundo. Mesclarei as premissas tentando analisá-las cuidadosamente; e as conclusões serão apresentadas ao final. Adianto que não há arrogância alguma em minhas considerações, muito menos algum tipo de ódio ou malquerença. O título desta postagem não é, de modo algum, uma ironia.

Comecemos com seu documentário, The Enemies of Reason [8]. Nele, Dawkins diz: "Há duas formas de olhar para o mundo: através da fé e superstição, ou através da lógica, da observação e das evidências". Afirma, ainda: "A ciência nos liberta da superstição e dogma, e permite que todos baseiem seu conhecimento em evidências". É engraçado ouvir algo desse tipo, pois aqui não só fica clara a tentativa de rivalizar conceitos que, de maneira alguma, tem relação direta, mas também se atribui à ciência o status de nova religião - o cientificismo. O cientificista é aquele que pensa que a ciência é onipotente, e que tudo pode ser respondido através dela; e muitos ateístas sabem que isso é simplesmente uma mentira. Há fenômenos, comportamentos e suposições aceitos por todos que a ciência não pode - ainda ou talvez nunca - explicar, por sua própria natureza limitada. Há ateístas que chegam a dizer que "a ciência não explica tudo, mas a religião não explica nada", e esse é o primeiro passo para se entender o quão vago é o raciocínio daqueles que depositam todas as suas fichas na ciência.

Dawkins não entende que religião e ciência são conceitos meramente distintos, em vez de opostos ou inimigos. O pensamento de que a ciência é inimiga da religião é simplesmente absurdo, assim como o contrário. Grandes gênios da humanidade tinham uma ligação muito forte com Deus e com a ciência. Roger Boscovich, pai da Teoria Atômica [9]; Nicholas Steno, pai da estratigrafia [10]; Athanasius Kircher, pai da egiptologia [11]; Gregor Mendel, pai da genética [12]; e Georges Lemaître, pai da Teoria do Big-Bang [13] foram todos monges católicos, e nem por isso menos cientistas. Foram patrocinados pela Igreja e elogiados pelos próprios Papas por suas contribuições [14].

Ainda hoje é grande o número de religiosos envolvidos com a ciência [15], apesar de Dawkins tentar dar a impressão de que a ciência é o campo onde reside o ateísmo e a glória de sua "busca pela verdade", que, para ele, é desprezada por qualquer ser humano religioso. O biólogo Francisco Ayala, cujo trabalho tem ajudado na prevenção e tratamento de várias doenças que afetam milhões de pessoas no mundo todo não só é cristão, como também é especializado em Evolução. Ayala é famoso por ter revolucionado a Teoria da Evolução sendo pioneiro na biologia molecular na investigação de processos evolutivos, o que permitiu uma nova compreensão da origem das espécies, da estrutura genética das populações, das taxas de evolução e a disseminação da diversidade genética. Ele recebeu prêmios, já escreveu mais de oitocentos artigos e quinze livros, não só relacionados a biologia, mas também sobre educação, filosofia, ética e religião [16].

O Dr. Ayala é um ótimo exemplo de biólogo que, de fato, se preocupa com seus estudos e com suas causas; em ajudar pessoas através de seu trabalho. É o tipo de homem que os fãs de Dawkins não conhecem, e que o próprio Dawkins finge não conhecer. É um dos melhores exemplos atuais de que o cristianismo não é inimigo da ciência, nem de Darwin ou da razão. Na verdade, avanços em estudos iniciados por Darwin estão sendo continuados por cristãos. Francisco Ayala chegou a participar de um debate contra William Lane Craig [17] - o mesmo que Dawkins recusou debater -, defendendo a Evolução como superior ao Intelligent Design - uma visão que eu compartilho. Dada a alegada superioridade do ateísmo, parece insustentável a justificação de não debater criacionistas por parte de Dawkins: a impressão é que há uma tentativa de fuga.

Mas, deixando tudo isso de lado e voltando ao The Enemies of Reason, Dawkins afirma que "há trezentos anos, no período do Iluminismo, cientistas e filósofos, de Galileu a David Hume, tiveram a coragem de defender os princípios da intelectualidade e a razão. A ciência racional, da qual foram pioneiros, tem nos dado benefícios tangíveis". A ideia de que Galileu e Hume foram pioneiros da ciência racional, a ideia de que as religiões nunca contribuíram com avanços científicos ou para o progresso da humanidade e a ideia de que o Iluminismo foi a libertação de um mundo que viveu mil e setecentos anos entre trevas e ignorância são todas falsas, apesar de populares.

Já no século XIII notamos casos como o de Roger Bacon, padre franciscano, que afirmara: "Sem experimento, nada pode ser conhecido adequadamente. Um argumento provar teoricamente, mas não garante a segurança necessária para eliminar todas as dúvidas; nem a mente repousará na visão clara da verdade, a menos que ela a encontre por meio de experimento" [18]. O mais digno de nota é que casos assim não eram exceções: qualquer um pode pesquisar sobre este nobre frade inglês e seu momento histórico, e descobrir que, quinhentos anos antes do iluminismo, a razão já era valorizada e a ciência já contava com ideias que, ainda hoje, continuam válidas e extremamente importantes, e que eram bastante comuns, em vez de exclusiva a este ou aquele pensador.

O historiador da ciência Edward Grant propõe uma questão relevante e oferece uma resposta surpreendente:
O que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como consequência natural da ênfase natural posta na razão. Com exceção das verdades reveladas, a razão era entronizada nas universidades medievais como árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais. Os estudantes, imersos em um ambiente universitário, consideravam muito natural empregar a razão para pesquisar as áreas do conhecimento que não haviam sido exploradas anteriormente, assim como discutir possibilidades que antes não haviam sido consideradas seriamente [19].
A objeção mais provável às afirmações de Grant seria a acusação de possível loucura. Afinal, como se pode chamar de historiador alguém que associa conhecimento ao período que é conhecido como "Idade das Trevas"? A maior surpresa seria descobrir que talvez não seja Grant quem está realmente louco.

Quanto ao pensamento de que a concepção de Deus é ilógica e irracional, é algo bastante imaturo: adolescentes pensam assim; um professor de cabelos brancos ter essa visão é simplesmente inadmissível. Entendam: é natural que, para alguns, muitos argumentos não sejam convincentes ou completamente seguros, mas daí não se justifica dizer que são irracionais ou equivalentes a contos de fada. Grandes filósofos ofereceram argumentos plausíveis sobre a existência de Deus, desde a Grécia Antiga. Se alguém ousa dizer que a concepção de Deus é irracional, compromete-se a chamar de irracional alguém tão notável como Aristóteles ou Platão [20].

Em seu livro Deus, um delírio, Dawkins tenta refutar - ou ridicularizar - as vias de São Tomás [21], mas o faz de maneira desonesta e infantil, e acaba não oferecendo refutação alguma, ao passo que sugere conclusões que nem o próprio Santo defendeu. Dawkins diz, no livro, após apresentar os três primeiros argumentos, que, segundo São Tomás, conclui-se que "a única escapatória é Deus" [22]; mas isso nunca aconteceu. Também é falso que tenha sequer sugerido que "Deus é imune à regressão", algo que não se encontra em lugar algum na obra de Aquino. Dawkins expõe um pensamento que não existe, e a partir disso refuta o que está, agora, proposto: um bastante inapropriado espantalho.

Pior é feito com o argumento ontológico de Santo Anselmo, que é totalmente mal compreendido por Dawkins [23]. Não só ele não entende o argumento, como cita algumas refutações e, novamente, dá a impressão de que também não as entendeu. Com certo desdém, ele decreta a derrota de Santo Anselmo sem sequer ter lidado como seu argumento, e sem saber se as refutações são válidas e até que ponto são plausíveis - o que fica evidenciado quando Dawkins cita GauniloIan Logan, autor do Reading Anselm's Proslogion [24], escreve em comentário ao best-seller de Dawkins: "No processo de escrever meu livro sobre o Proslogion, me deparei com centenas de descrições do argumento de Anselmo, algumas mais falhas do que as outras até as mais sérias e influentes às quais tentei responder. Nada, porém, aproxima-se da descrição de Dawkins em termos de pura estupidez" [25].

Quando temos um assunto complexo diante de nós, temos obrigação de conhecer profundamente os dois lados da questão, a fim de que nenhuma desonestidade seja cometida - isso é válido principalmente quando alguém quer de fato se manifestar sobre a questão. A partir de uma análise das melhores defesas de ambos os lados, bem como a indispensável compreensão destas defesas, é muito menor o risco de que se cometam injustiças. Nunca podemos nos esquecer dos limites da ciência, pois esperar que tudo seja por ela confirmado é tão utópico quanto pensar que algum dia algum modelo econômico livrará a humanidade de toda a pobreza que esta, por toda a sua História, foi obrigada a carregar nas costas.

Não é necessário que percamos tempo pensando naquilo que a ciência não pode provar: o método científico não pode confirmar ou negar todas as hipóteses apresentadas; e nele não há espaço para o subjetivo. Isaac Newton resumiu isso em um comentário curto e direto: "Eu consigo calcular o movimento de corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas" [26], e esta frase se encaixa perfeitamente ao nosso contexto. Em debate com Peter Atkins, William Lane Craig esclarece melhor toda a questão e exemplifica estes limites: verdades lógicas e matemáticas, verdades metafísicas, crenças éticas, julgamentos estéticos e a própria ciência não podem ser provados pelo método científico [27].

Portanto, o que a ciência não pode provar não é, necessariamente, falso. Crer na existência de um Deus criador é, na pior das hipóteses, tão válido quanto não crer. O ateu sabe, tão bem quanto o religioso, que a ciência é neutra nesse ponto. Utilizar a ciência como meio para atingir um resultado inatingível é que é, de fato, irracional. Por sua própria definição, Deus não é acessível como objeto. É possível que se crie novos conceitos a fim de invalidar sua possibilidade, mas, no que se refere ao Deus que normalmente se discute, o conceito já foi estabelecido, e não cabe a esse ou àquele argumentador adequá-lo às suas próprias vontades. Aceitemos isso ou paremos aqui.

Referente ao que Dawkins diz sobre o câncer que são as religiões, como se fossem responsáveis por um suposto atraso científico e inimigas do progresso da humanidade, cabe lembrá-lo, mais uma vez, que não são poucos os cientistas, ao longo da história, que estavam e ainda estão verdadeiramente comprometidos com o cristianismo [28][29][30].

Não nos esqueçamos, ainda, das universidades, uma vez que nasceram na Igreja, há mais de oitocentos anos [31]; muito menos da caridade cristã, que há quase dois milênios leva conforto aos necessitados de todas as partes do mundo [32]. Se bem que é possível que, ao olharmos para os livros de História, notemos que foram ateístas como Stalin e Mao Tsé-Tung que passaram a vida pregando o amor ao próximo. Talvez o próprio Dawkins tenha destinado mais fundos a instituições caritativas do que a Igreja em dois mil anos de existência. Afinal, com tantos best-sellers e consciência de responsabilidade social reconhecida, é possível que ele já tenha superado a Igreja nessa "corrida" pelo conforto dos necessitados.

Com apenas algumas ideias, é possível perceber que talvez o discurso de Dawkins sobre o cristianismo tenha falhado em certo sentido. Mas podemos ir além. Suas tentativas de culpar o Papa por crimes de pedofilia cometidos por padres, por exemplo, revelam uma falsa preocupação com as vítimas desses crimes. Ele nunca comentou, por exemplo, os casos de abuso infantil cometidos por tropas da paz da ONU [33]. É válido condenar a Igreja em qualquer situação, por qualquer problema e exigir que ela pague por "seus crimes" e fechar os olhos para o fato de que membros da ONU estão envolvidos com o mesmo tipo de crime? Não estou sugerindo que, pelo fato de haver pedofilia em outras instituições, se deva ignorar o problema na Igreja, mas mantenho que Dawkins parece não se preocupar com as vítimas de nenhum caso, e esteja de fato interessado apenas em atacar a Igreja, seja lá com qual recurso possa fazê-lo. Hitchens fez algo parecido [34].

Em resposta às declarações do Papa Bento XVI relacionando o ateísmo radical aos crimes do nazismo [35] - que não implica em dizer que seja culpa de todos os ateus do planeta ou do mero ateísmo -, Dawkins, completamente inconformado, não hesitou ao condenar a Igreja, contar mentiras e provar que, a essa altura, não se pode negar sua clara desonestidade, que ironicamente é sempre aplaudida por uma multidão de pessoas tão questionáveis quanto ele próprio.

Assistindo ao vídeo [36], sanam-se possíveis dúvidas quanto ao ódio de Dawkins contra a Igreja. Ataca espantalhos, levanta falsas suposições e age com agressividade bastante questionável. Levando em conta que foi o fato de o Papa relacionar o nazismo ao ateísmo extremista que ofendeu profundamente o biólogo, analisemos suas alegações professadas em um momento de notável inconformismo. Antes de falar de Hitler, no entanto, Dawkins levanta certas estatísticas de origem duvidosa e faz questão de parecer conhecedor dos métodos da Igreja para identificar quem é ou não católico. Tudo sem citar fontes, preso no campo da especulação, ou seja, sem apresentar as essenciais evidências.

Dawkins é um homem que trata o cristianismo como uma camiseta, algo comum atualmente. Se você a veste, você é cristão. Não importa se você respeita a doutrina, pratica o que é por ela instruído ou realmente acredita no que ela ensina, contanto que você esteja com a camiseta, você é um verdadeiro cristão. Não vejo relevância em tentar definir o que é um cristão, mas gostaria de comentar a visão de Dawkins sobre o Design Inteligente: o declarou pseudociência [37]. O que é engraçado, já que quando ele julga algo como pseudociência, parece expressar alguma autoridade à qual outros devem se submeter. Mas, nesse caso, a pseudo-religiosidade que ele trata como religiosidade verdadeira não mereceria uma abordagem semelhante? O que Dawkins faz, na verdade, é deixar claro o que há por trás de seu julgamento: "meu discurso, meu critério".

Dawkins parece acreditar tão pouco no bom coração de muitos cristãos, mas acredita apaixonadamente na honestidade de Hitler, que dizia fazer a obra de Deus ao eliminar os judeus. Por Hitler ter se autoproclamado cristão na frente de muitos - fosse por praticar algum tipo particular de cristianismo ou para conseguir o apoio do povo cristão -, o ateísta conclui que, por isso, era um verdadeiro homem de Deus, cujos atos a Igreja deve reconhecer como culpa do catolicismo. O que Dawkins parece ignorar, no entanto, são declarações do próprio Hitler referentes ao seu pensamento sobre o catolicismo: declarou, por exemplo, que a transubstanciação fora "a coisa mais absurda já inventada pela mente humana em suas ilusões" [38]. Hitler acreditava, ainda, que Jesus era ariano: uma ideia nunca defendida no catolicismo ou em qualquer forma popular de cristianismo da época. Chamar Hitler de católico é o pior que Dawkins poderia ter feito: é um golpe suicida; uma admissão de ignorância. 

Não pretendo discutir, nesse momento, a posição da Igreja em relação ao nazismo - um ponto sobre o qual há muita especulação e ignorância por parte dos neo-ateístas -, especialmente porque é mais fácil e útil mostrar o que o próprio Hitler pensava da Igreja. Além disso, o historiador Richard Evans escreve: "Os nazistas viam as Igrejas como maiores e mais fortes reservatórios da oposição ideológica aos princípios que eles - nazistas - acreditavam" [39]. Somadas, essas evidências apenas esboçam uma ideia inicial de como o problema é mais complexo que uma mera questão de batismo, como Dawkins e muitos neo-ateístas sugerem.

Não fosse tudo isso suficiente, ainda há algo digno de comentário: "o inferno de Dawkins". Depois de tudo que já foi exposto sobre o cientista, defensor da razão e da verdade baseada em evidências, foi surpreendente descobrir que ele promove uma das maiores polêmicas científicas das últimas décadas: o aquecimento global. McCormack, também ateu, analisa os discursos do cientista sobre se basear em evidências, e os confronta com frases do próprio Dawkins, que evidenciam lamentáveis contradições [40].

Segue sua afirmação: "Eu não sou bem versado em ciência climática e não me sinto qualificado para ficar do lado dos negadores". McCormack pergunta: "Por acaso Phil Jones, Rajendra Pachauri, Michael Mann ou Al Gore são cientistas que respeitam as evidências?" Lembremos que Al Gore foi acusado por falsificação de informação em seu filme [41][42] que, aliás, Dawkins recomenda a um aluno de Oxford que pergunta se o aquecimento global seria uma ameaça à espécie humana. Dawkins responde: "Sim. Você pode dizer que espécie humana é uma ameaça para a espécie humana. Eu recomendo o filme de Al Gore sobre o aquecimento global. Assista e chore" [43].

A carta aberta de McCormack e a sugestão de Dawkins ao aluno podem ser acessadas nas referências. A maior ironia desse caso, sugere McComarck, é que o homem que sempre insistiu que não deveríamos ensinar sobre um inferno hipotético para crianças a fim de amedrontá-las, agora defende, sem evidência científica e assumindo ser leigo no assunto, que devemos ensinar para as crianças que elas precisam lutar para combater o apocalipse climático que é, em parte, culpa delas mesmas, a fim de que não acabem causando a extinção de todos os seres vivos desse planeta. Isso, definitivamente, não é aterrorizante para os pequenos; a falsa ideia de inferno na terra é muito mais plausível, para ele, do que a falsa ideia de inferno fora dela. Trata-se de uma postura dificilmente defensável e, ademais, é importante entender que, seja o aquecimento global antropogênico fato ou ficção, não é justo aceitá-lo ou negá-lo sem base em evidências, especialmente quando se é tão dramático sobre a importância da evidência em todas as questões.

Fica evidente que não basta dizer-se defensor da ciência e amigo da verdade; o mero discurso é uma ferramenta acessível aos homens mais desprezíveis que vagam por esse planeta - não que Dawkins seja um deles. Assim, reafirmo que devemos agradecer a Deus pela existência de Dawkins, pois é um conforto saber que o maior líder dos neo-ateístas revela-se bastante incoerente e inadequado como juiz de qualquer pessoa ou instituição que comumente ataca. Dawkins é sempre defendido por seus fiéis em fóruns, comunidades e em discussões, ao passo que a intelectualidade dos cristãos e a validade do cristianismo tem sempre sido ofendida sem piedade.

Escrevi tudo isso para mostrar que onde há dois ou três fãs do notável professor de Oxford reunidos, no meio deles estará, possivelmente, um reflexo de sua ignorância. Quando notarmos ateístas atacando a Igreja e defendendo Richard Dawkins, o melhor a fazer é orar por eles, pois mera troca de ataques pode afastá-los ainda mais da verdade. Não devemos ver ateístas como inimigos, e nunca devemos fomentar qualquer atitude violenta contra eles: muito menos devemos admitir que se estimule o ódio contra nós, principalmente quando esse ódio é vazio e despreocupado com os fatos. Encerro essa postagem com a declaração do filósofo ateísta Dr. Michael Ruse: "Deus, um delírio me fez ter vergonha de ser ateu" [44].


Referências:
  1. The Humanist, Is Science a Religion?, jan./fev. de 1997, págs. 26-39. Disponível em thehumanist.org
  2. "Protest the Pope" Rally, 18 de setembro de 2010: Richard Dawkins' speech at Protest the Pope march.
  3. BBC News, Atheist Richard Dawkins backs campaign to arrest Pope, 13 de abril de 2010. Disponível em news.bbc.co.uk.
  4. The Independent, Brutal land where homosexuality is punishable by death, 6 de março de 2008. Disponível em independent.co.uk.
  5. O Globo, Ahmadinejad chama Holocausto de 'grande fraude', 3 de junho de 2009. Disponível em oglobo.globo.com.
  6. Estadão, Ataque contra Irã destruiria Israel, diz Ahmadinejad, 5 de setembro de 2010. Disponível em estadao.com.br.
  7. Reuters, Ahmadinejad says Holocaust a lie, Israel has no future, 18 de setembro de 2009. Disponível em reuters.com.
  8. Richard Dawkins, The Enemies of Reason. Disponível em Amazon.
  9. Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, trad. de Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, págs. 100-3. Disponível em Quadrante.
  10. Ibid., págs. 91-94.
  11. Ibid., págs. 103-4.
  12. Scitable, Gregor Mendel: A Private Scientist. Disponível em nature.com.
  13. A Science Odyssey, Big Bang theory is introduced. Disponível em pbs.org.
  14. Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, págs. 90, 100-1, 108.
  15. Caos & Regresso, "Outros cientistas notáveis", em Igreja e Ciência. Disponível em caosdinamico.com.
  16. The American Association for the Advancement of Science, A conversation with Hana and Francisco J. Ayala, 23 de março de 2006. Disponível em aaas.org.
  17. Reasonable Faith, "Is Intelligent Design viable", Craig vs. Ayala, Indiana University, 5 de novembro de 2009. Disponível em reasonablefaith.org.
  18. Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, pág. 90.
  19. Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages. Cambridge: Cambridge University Press, 2001, pág. 356. Disponível em Amazon.
  20. Não estou dizendo que Aristóteles, Platão ou outros filósofos são inquestionáveis, nem estou de alguma forma apelando para a autoridade que esses nomes evocam naturalmente. Mas mantenho que o título "irracional" seja injusto para eles, o que pode ser evidenciado pela mera leitura de suas obras e influência destas em autores posteriores de períodos distintos.
  21. Richard Dawkins, "As 'provas' de Tomás de Aquino", em Deus, um delírio, trad. de Fernanda Ravagnani. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Disponível em Companhia das Letras.
  22. Ibid., pág. 112.
  23. Ibid., pág. 115 e seguintes.
  24. Ian logan, Reading Anselm's Proslogion: The History of Anselm's Argument and its Significance Today. Oxford: Ashgate Publishing, 2009. Disponível em Ashgate.
  25. The Saint Anselm Blog, The most stupid account of Anselm's argument ever?, 14 de março de 2010. Disponível em anselmblog.
  26. Harvard Magazine, The Damn'd South Sea, mai./jun. de 1999. Disponível em harvardmagazine.com.
  27. Reasonable Faith, "What Is the Evidence for/against the Existence of God", Craig vs. Atkins, Carter Presidential Center, 3 de abril de 1998. Disponível em reasonablefaith.org.
  28. Caos & Regresso, Igreja e Ciência. Disponível em caosdinamico.com.
  29. John Lennox, God's Undertaker: Has Science Buried God? Oxford: Lion UK, 2007. Disponível em Amazon.
  30. Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo, Campanha: Ciência não é contra religião!, 7 de fevereiro de 2011. Disponível em teismo.net.
  31. Thomas E. Woods Jr., "A Igreja e a Universidade", em Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, págs. 46-62.
  32. Alvin J. Schmidt, "Charity and Compassion: their Christian Connection", em How Christianity Changed the World. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 2001. Disponível em Amazon.
  33. UOL Crianças, ONG denuncia novos abusos de crianças por tropas da paz, 27 de maio de 2008. Disponível em criancas.uol.com.br.
  34. Olavo de Carvalho, Christopher Hitchens contra o Papa, 22 de março de 2010. Disponível em olavodecarvalho.org.
  35. BBC Brasil, Papa associa ateus a nazistas e abre nova polêmica em visita, 17 de setembro de 2010. Disponível em bbc.co.uk.
  36. "Protest the Pope" Rally, 18 de setembro de 2010: Richard Dawkins' speech at Protest the Pope march. Disponível em português.
  37. The Guardian, One side can be wrong, 1 de setembro de 2005. Disponível em theguardian.co.uk.
  38. Freedom From Religion Foundation, On the Trail of Bogus Quotes, novembro de 2002. Disponível em ffrf.org.
  39. Citado por Dinesh D'Souza em Townhall, Was Hitler a Christian?, 5 de novembro de 2005. Disponível em townhall.com.
  40. Pete McCormack, An Open Letter to Richard Dawkins, 15 de dezembro de 2009. Disponível em petemccormack.com.
  41. News Busters, Al Gore should lose his 'Oscar' due to ClimateGate, 4 de dezembro de 2009. Disponível em newsbusters.org.
  42. BBC Brasil, Corte britânica vê 'nove erros' em filme de Al Gore, 11 de outubro de 2007. Disponível em bbc.co.uk.
  43. The Independent, Richard Dawkins: You Ask the Questions Especial, 4 de dezembro de 2006. Disponível em independent.co.uk.
  44. Citado por Alister McGrath em AlterNet, The Dawkins Delusion, 26 de janeiro de 2007. Disponível em alternet.org.
*Esse artigo foi reformulado em 20 de junho de 2012. Apesar de os principais pontos permanecerem, o tom da abordagem foi alterado radicalmente - essa alteração particular fora realizada em data anterior. Partes relacionadas a Hitler também foram alteradas, e tudo o que usava como fonte o livro Hitler's Table Talk foi completamente removido. A postagem foi originalmente publicada após visita do Papa à Inglaterra em setembro de 2010, sobre a qual Dawkins reagiu  com muita amargura, o que me causou tanta indignação quanto o Papa aparentemente causou ao próprio Dawkins: esse é o motivo de minha postagem original ter parecido tão amarga.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More