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5 de novembro de 2011

Seleção natural

Poucas décadas atrás, não se tinha notícias de alunos desrespeitando professores, nem de alunos espancando professores, nem de alunos assassinando professores. O jovem respeitava o mais velho, e a autoridade do professor era entendida mesmo pelo aluno que não entendia nada. Infelizmente, já há algum tempo esse deixou de ser o caso. Talvez nem seja necessário selecionar algum exemplo específico ou alguma atitude específica para reforçar essa ideia: primeiro, porque esses casos não deveriam existir; segundo, porque eles são cada vez mais frequentes. Não que isso nunca tenha acontecido em outras épocas, mas, se aconteceu, certamente era raro; e o problema maior é justamente a frequência. Algo que deveria ser raro se tornou cotidiano, e isso é perigoso.

Não bastasse, especialmente em países como o Brasil, o descaso com a motivação de professores, levando em conta os salários ruins e a situação precária de algumas escolas, agora quem pretende ser professor deve botar na sua balança a alta probabilidade de sofrer alguma agressão - é assustador que essa agressão, muitas vezes, vem de crianças com pouco mais de dez anos. O que é ainda mais assustador é o incentivo a tais práticas: um fenômeno que não é explícito, mas que certamente está por trás dessa situação, enraizado na cultura do mundo inteiro.

Para entender esse cenário, é necessário, primeiro, entender como os filhos são educados pelos pais atualmente, e como essa educação é afetada por diversos influentes externos. As pessoas do século XXI simplesmente odeiam ser contrariadas: elas querem estar certas, sempre! Isso é bastante evidente, e pode ser exemplificado pela ligeira associação que as pessoas fazem entre ser sincero e ser desagradável. Sabemos, por experiência própria, que expressar o que realmente sentimos sobre uma pessoa pode, com notável facilidade, desagradar essa pessoa. Por isso, é muito comum vermos alguém elogiando um estranho, mas dificilmente vemos alguém critiando um estranho - falo, obviamente, de confrontos face a face, já que fora desse contexto tudo é muito fácil e os limites se esticam. Vejo, frequentemente, uma garota qualquer elogiando o penteado de alguma amiga; nunca vi, em contrapartida, uma garota dizendo a uma amiga que o penteado dela era horrível - nem mesmo quando o penteado era indiscutivelmente horrível.

Em relação aos defeitos e problemas que alguém possa ter, se dirigir a esse alguém de forma sincera é considerado ofensivo, e isso não só é evidente a qualquer pessoa disposta a enxergar, como inspirou uma das fórmulas mais populares de psicoterapia, que dominou por um longo tempo e que ainda hoje continua sendo utilizada: falo da person-centered psychotherapy (PCT) [psicoterapia centrada na pessoa], também conhecida como rogerian therapy, desenvolvida pelo psicólogo Carl Rogers. Uma das ideias centrais expostas por Rogers foi a consideração positiva incondicional (UPR), que diz que o terapeuta deve aceitar o cliente incondicionalmente, sem julgamento ou desaprovação. O impacto social de medidas desse tipo são tão populares que já se tornaram banais: mulheres acima do peso, por exemplo, não aceitam que alguém diga que elas estão acima do peso, mesmo quando elas próprias estão convictas de que estão acima do peso. Nós sabemos que as consequências desse tipo de "julgamento" podem ser drásticas: enquanto o espelho parece não poder mentir, as pessoas são obrigadas a fazê-lo pelo bem da auto-estima alheia.

Como poderia, afinal, uma sociedade que não aceita ser contrariada ou reprovada produzir crianças que caminham em outra direção? As crianças são o reflexo dos adultos, e os adultos são a própria sociedade. O psicólogo Dr. Ray Guarendi explica que educadores de hoje, em geral, são instruídos a se comunicar com crianças através de uma linguagem que exclui o julgamento moral. Assim, uma criança que diz palavrões age de forma inapropriada e seu comportamento é inaceitável: ela não age de forma errada e o comportamento dela não é ruim; pois errado e ruim são conceitos que implicam julgamento moral. Ele fala também sobre o fenômeno da auto-estima, que explodiu nos anos 70: "A teoria era, particularmente para as crianças: 'nós precisamos incentivar a auto-estima saudável, e da auto-estima fluirá tudo que é bom'". Ele sugere o seguinte exercício: pesquisar por "child self steem" [criança auto estima] e por "child humility" [criança humildade]. Intrigado, fui ao Google e realizei a busca: para o primeiro caso, "aproximadamente 140.000.000 resultados", para o segundo, "aproximadamente 14.400.000 resultados" - isto é, pouco mais de 1%. Para o Dr. Guarendi, "os especialistas não incentivam a humildade como uma virtude que alguém deveria buscar".

Por que se espantar, portanto, com a seguinte nota: "Diretores autodenominam-se 'gestores escolares', gabam-se de ter sucesso no projeto de suas instituições porque seus alunos 'são vistos e respeitados como clientes'. Ora, cliente é quem contrata um serviço ou adquire, mediante um valor, um bem ou produto; a educação, portanto, passou a ter – equivocadamente, por certo – essa definição. Desse modo, temos o seguinte quadro: o contratante ou comprador desse produto ou serviço é o aluno ou, em outra hipótese, seus pais; de qualquer modo, segundo a lei do comércio, 'cliente sempre tem razão'. Será possível estabelecer, nesses parâmetros, uma relação pedagógica saudável entre professor e aluno?" (SINPRO/RS, Violência contra os professores).

"A familiarização com a agressividade e a violência as tornam, como analisam psicólogos e sociólogos, matéria do cotidiano, corriqueiras a ponto de serem consideradas 'normais'. Entretanto, a proliferação indiscriminada desses comportamentos mostra que a escola perdeu - ou vem perdendo - o poder normativo e ignora ou negligencia os recursos pedagógicos para o estabelecimento de limites entre o que é aceitável e o que ultrapassa essa condição. O professor, nesse contexto, é destituído de autoridade e autonomia, e essa lacuna dá margem para que o aluno mesmo ou sua família, em sala de aula, no espaço da escola ou fora dela, arbitre sobre o que é justo ou injusto, certo ou errado, segundo sua visão pessoal. A violência é, assim, relativizada em seu valor de transgressão, e seus autores não se sentem transgressores: pelo contrário, agem com tranqüilidade, não se julgando fora dos princípios da boa educação ou da ética, pois se conduzem de acordo com o que estipulam ser o preceito correto e legítimo" (Ibid.). Aqui chegamos ao coração do problema: a relativização, fenômeno que conta com o patrocínio do marxismo desde que a tinta da caneta de Marx tocou seus pálidos cadernos.

Tentei abordar o problema do relativismo em uma série de duas postagens, e não pretendo repetir o que já está exposto. Recomendo, então, a leitura das postagens em questão (A verdade que muda: 1. Acreditar em si mesmo; e 2. Ordem, subjetividade e tempo). A ideia é simples: nós devemos viver como se fôssemos o centro do mundo - o nosso mundo, como se existisse um mundo para cada pessoa. Nossa preocupação deve ser apenas com nós mesmos, e devemos cortar dos nossos círculos de relacionamentos as pessoas que nos contrariam: nossos amigos de verdade são aqueles que nos apoiam mesmo quando estamos errados, e não aqueles que que têm aquela irritante mania de apontar os nossos erros. Nossos pais não estão certos: eles simplesmente não nos entendem.

Essa ideia pode parecer irrelevante ao descaso dos alunos com o ensino, mas é precisamente a base do problema. Allan Bloom argumenta que por trás da indisposição educacional está a convicção universal dos estudantes de que toda verdade é relativa e que, portanto, não vale a pena buscá-la. Ele escreve: "Há algo de que todo professor pode ter certeza: quase todos os estudantes entrando em universidades acreditam, ou dizem acreditar, que a verdade é relativa. [...] O relativismo é necessário para a tolerância; e essa é a virtude, a única virtude, que toda educação primária, por mais de cinquenta anos, tem se dedicado a impor. Tolerância - e o relativismo que a torna a única posição plausível face a várias afirmações de verdade e vários estilos de vida e tipos de seres humanos - é o grande insight do nosso tempo. O estudo da história e da cultura ensina que todo o mundo era louco no passado; os homens sempre pensaram que estavam certos, e isso causou guerras, perseguições, escravidão, xenofobia, racismo e chauvinismo. O ponto não é corrigir os erros e estar realmente certo; em vez disso, é não pensar que você está certo de nenhum modo". (Allan Bloom, The Closing of the American Mind, págs. 25-6).

Não esqueçamos que o relativismo tende a entrar em conflito com a ideia de autoridade, e o motivo é bastante simples: se uma autoridade representa uma ideia, por que essa ideia, com a qual eu não concordo, deve ser imposta a mim? Nós temos bons exemplos do constante conflito entre a os efeitos do relativismo e a noção de autoridade, especialmente quando esse produto é a rebeldia, tão comum nos jovens. Há um bom exemplo recente em nosso país: o caso recente que se desenrolou entre alunos e policias na USP. Estudantes reagiram e protestaram contra policiais que cumpriam o seu dever, o que resultou na danificação de veículos e ferimento de alunos e policiais. Não é necessário dizer que os alunos estão convictos de que que é a polícia que está errada, e que eles estão certos em agir como agiram. Essa é precisamente a justificativa do aluno abordada pela nota do SINPRO/RS.


A polícia também tem sido atacada frequentemente em campanhas em redes sociais, mas a maioria das críticas dirigidas aos policias nunca me convenceu. Me parece que a maioria das pessoas que afirma que a polícia é pior que o bandido não parou pra pensar que a polícia não precisaria existir se não existisse o bandido. Essa é a principal causa de todos os julgamentos injustos que as pessoas dirigem aos policiais, mas outras considerações são possíveis. Às vezes tenho a impressão de que algumas pessoas pensam que policiais deveriam ser robocops perfeitos, ou seja, policiais robôs destinados exclusivamente ao cumprimento da lei, sem que sentimentos ou fraquezas humanas interfiram em sua tarefa. Essa é a única explicação razoável à reclamação de que alguns policiais são corruptos e também infringem a lei, pois alguns jornalistas, políticos, cabeleireiros e professores estão sujeitos a essa mesma acusação. Além disso, sempre me pareceu óbvio que, se as pessoas estivessem realmente preocupadas com o nível ruim de trabalho dos policiais, seria desejo inquietante dessas pessoas se juntar à polícia e ajudar a melhorar esse nível. Mas, curiosamente, poucas pessoas desejam ser policiais: na verdade, muitas pessoas gostariam de ser qualquer coisa, menos policiais.

Se as pessoas entendessem que todas as pessoas são pessoas, elas poderiam finalmente se livrar da rotina de acusar as pessoas por serem simplesmente o que elas são. Sim, existem policiais detestáveis que merecem estar na cadeia, assim como existem médicos e advogados que deveriam ser companheiros de cela desses policiais. Suponho que nenhuma pessoa veja na afirmação de que existem médicos corruptos um argumento contra a necessidade de existir médicos que sirvam a quem deles precisa. Se existem médicos que não estão cumprindo adequadamente sua função, a sociedade precisará de médicos que a cumpram adequadamente, e esses médicos surgirão justamente da sociedade que precisa deles. Assim, a grande insatisfação contra os policiais é, na verdade, um motivo para que o insatisfeito torne-se policial, fornecendo assim o policiamento adequado à sociedade da qual ele faz parte.

Sempre acreditei que existem mais policiais honestos do que policiais corruptos, já que sempre me pareceu óbvio que existem mais pessoas que cumprem a lei do que pessoas que ignoram a lei. Não consigo ver por que o policial seria exceção a essa realidade, já que a polícia é composta por pessoas que trabalham, erram e acertam como qualquer outra. Não é o caso do bandido, que por definição está fadado ao erro. Enquanto o policial pode escolher ser honesto ou corrupto, todo bandido já está entregue à corrupção, e a partir do momento em que a sociedade vê menos culpa no conjunto de bandidos, que é composto apenas por corruptos, do que no conjunto de policiais, em que apenas uma parte é composta por corruptos, algo deve estar errado. Para a minha alegria, a maioria das pessoas são sensatas o suficiente para não se deixar seduzir pelo julgamento precoce que é comum de certas pessoas que não nos servem como modelo. As pessoas entendem que anarquia nunca foi solução para nenhum problema, e que direito implica dever: deve haver um limite, e as pessoas concordam com os limites porque são justamente elas que os constroem. O caso da USP reafirma, mais do que qualquer outro caso recente, a necessidade da polícia, e o fato de que a maioria dos alunos é a favor do policiamento no campus da universidade mostra que a perca do bom senso dificilmente atinge a maior parte das pessoas.

O leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o título da postagem: "Seleção natural". Acontece que esse plano de fundo é essencial a compreensão do que segue, e temo que o que é óbvio para mim talvez não seja óbvio a todos, já que o que é óbvio para uma pessoa pode ser misterioso para outra, fato que experienciamos, por exemplo, quando não encontramos um objeto qualquer. É talvez um dos maiores mistérios da juventude o que quase sempre acontece: chamamos pela nossa mãe, e ela revela que o objeto estava o tempo todo diante de nossos olhos.

Essa postagem pretende investigar a possível causa para o seguinte problema: o futuro do pensamento está fadado a se tornar cada vez mais relativista? Será possível ressurgir a sociedade em que o aluno respeita o professor, em que o cidadão respeita o policial, em que a humildade é tida como virtude e em que a sinceridade não machuca ninguém? Se depender dos métodos seletivos adotados em vestibulares no país, atualmente, a resposta dificilmente será positiva. Quando foi divulgada a prova do ENEM, algumas questões me deixaram intrigado, como aquela que dizia que alguns bispos queriam excomungar o café, e que o Papa batizou a bebida após tê-la experimentado.

Não fosse suficientemente inútil ao aluno de ensino médio saber o que certo grupo de pessoas pensava sobre determinada bebida, ele é contemplado com a ideia absurda de que sacramentos e excomunhões se aplicam a coisas: talvez depois disso queira levar roupas ou acessórios à Igreja mais próxima para também batizá-los. A questão, obviamente, é formulada a fim de ridicularizar um grupo religioso - o cristianismo, nesse caso - através de mentiras exageradas, pois a ideia exposta é realmente absurda. Mas, para que eu não sofra da acusação da mera paranoia, não falarei sobre questões religiosas. Ademais, comentários contra a credibilidade do ENEM são simplesmente desnecessários. Não é de hoje que o exame termina mal, mas confesso que é reconfortante lembrar das palavras de Lula sobre a edição de 2010: "O ENEM foi um sucesso extraordinário". Suspeito que, se adotarmos os padrões do então Presidente da República, o ENEM 2011 foi um sucesso ainda maior.

Seja como for, foi a UEL - Universidade Estadual de Londrina - que, de fato, ultrapassou todos os limites do bom senso ao propor uma questão associando heróis de comic books norte-americanos à ideais racistas. Não que o ENEM já não tenha, há muito tempo, ultrapassado esses limites: a diferença é que os formuladores do ENEM foram um pouco mais delicados; apesar de a prova ser revestida de ideologias, há uma camada protetora que impede boa parte dos alunos de identificá-las, e é justamente essa camada que as questões da primeira fase do vestibular da UEL conseguiu romper. Vamos à questão:
O Super-Homem ganha poderes pelos efeitos dos raiossolares, mas tem uma fraqueza: o minério criptonita. O Homem-Aranha adquire habilidades depois da picada de um aracnídeo. O Quarteto-Fantástico nascedos efeitos de uma tempestade cósmica. Um a um, oselementos da natureza tornam-se importantes para onascimento de vários super-heróis. Porém, mais doque superpoderosos, esses heróis de Histórias emQuadrinhos (HQ) também "escondem um segredo":
I. Reforçam a ideologia de uma nação soberana,a estadunidense, protegida dos inimigos, o quea credenciaria como mantenedora da liberdademundial.
II. Veiculam subliminarmente a crença da supremaciados brancos, enquanto suposta raça mais forte e inteligente face aos demais grupos étnicosdo planeta.
III. Defendem a ideologia da igualdade necessáriaentre as classes, sem a qual o mundo não poderiaviver em paz e em harmonia.
IV. Reconhecem que os verdadeiros super-heróis nãoprecisam de superpoderes, desde que sejam pessoasboas e altruístas.
Assinale a alternativa correta:
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e III são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
Segundo o gabarito da prova, a altenativa a) é a correta, ou seja, nossas tão queridas DC e Marvel comics provavelmente trabalham a fim de divulgar o pensamento nazista para crianças, jovens e adultos do mundo todo. Enquanto o Capitão América, talvez o herói mais associado a noções patrióticas de todos os quadrinhos, enfrentava Hitler em sua primeira edição, vem agora a UEL nos revelar que, na verdade, ele também "esconde um segredo": compartilha os mesmos ideias de Hitler sobre a supremacia ariana, e só o enfrentou naquela edição por não achar que o bigode de Hitler fosse digno de um verdadeiro líder - um problema que certamente não existiu com Stalin.

Deve haver, portanto, outros segredos por trás disso tudo: não sobre os super-heróis, mas sobre quem formulou essa pergunta. Lembrem-se do título da postagem para que não pensem que estou atacando a universidade como um todo, ou generalizando o pensamento dos professores. Enquanto alguns comentários sobre a questão apareceram em blogs populares, como o de Reinaldo Azevedo, foi possível perceber que a maior parte dos leitores desses blogs, que estão espalhados pelo país inteiro, não tem contato com alunos da universidade: não é o meu caso; muitos de meus amigos estudam ou já estudaram na UEL, que é a universidade mais bem conceituada da região, e um dos autores desse blog é aluno da universidade há três anos - foi ele, inclusive, o primeiro a me enviar os vários disparates promovidos pelo vestibular.

A questão é claramente anti-americana, mas também é muito mais que isso: a questão é explicitamente marxista, e é formulada de tal modo que os EUA sejam associados a uma ideologia ruim, detestável, racista. Enquanto isso, a afirmativa III. fala sobre igualdade entre classes, a fim de que não reste dúvidas sobre qual ideologia ilumina a mente de quem formulou a questão. Alguns professores se manifestaram sobre o assunto, como reporta o Jornal de Londrina: "O professor de história do Colégio Londrinense, Rafael Ferreira, considerou a questão impertinente e irresponsável. 'Compromete nosso trabalho. A gente se esforça nas aulas para fazer com que o aluno chegue na prova isento de qualquer tendência política. O maior problema não é a postura política de quem elaborou a prova, mas é colocar isso num exame de vestibular para adolescentes. Ela adota descaradamente um posicionamento', disse. Segundo ele, a questão colocada não condiz com a realidade e faz com o que o aluno que pensa de outra forma, fique fora do vestibular".

Aqui chegamos ao ponto fundamental: o aluno que pensa de outra forma fica fora do vestibular. Ora, mas o que tem sido os exames e vestibulares nacionais, senão peneiras ideológicas que separam os grãos saudáveis das impurezas que não são úteis aos propósitos dos militantes políticos, que são compostos, em grande parte, por professores de universidades e universitários de diversos cursos, especialmente de humanas? O que me levou a desistir da ideia de cursar História na UEL foi precisamente uma conversa com uma estudante de História da UEL, que relatou que a maior parte dos alunos são marxistas. Aliás, esse é o caso da minha própria universidade, e provavelmente o caso de quase todas as universidades públicas do país. Não é como se nós, universitários, estivéssemos falando de algo que nós nunca vimos e apenas suspeitamos: estamos falando de algo que vivemos todos os dias. A verdade é que as universidades são movidas pelo pensamento marxista, e o conservador que nelas estuda está se convidando à rotina da frustração semestral - antes a frustração fosse efeito das matérias, o que evidentemente seria mais suportável que a frustração causada por anseios políticos de professores e outros alunos.

Essa questão sobre super-heróis revela o quanto esses anseios são, ao mesmo tempo, óbvios e secretos. É transparente para quem vive, mas é embaçado para quem vê de fora, de longe; e enquanto algumas pessoas a veem como mera questão infeliz, uma exceção, é mais plausível admitir que questões como essa, apesar de serem, de fato, infelizes, estão longe de serem raras: são tão comuns quanto os casos de professores agredidos por alunos ou de pessoas que culpam os policiais pelo crime dos bandidos. Mais uma vez, a maioria das pessoas se manifestou contra a questão, mas algumas a defenderam e alegaram que ela é perfeitamente apropriada. Essas são as mesmas pessoas que apoiam os protestos na USP, que preferem os bandidos e preterem os policiais, e que declaram que o ENEM é um sucesso extraordinário.

O Jornal de Londrina também expôs a opinião de um quadrinista sobre a questão: "Para o quadrinista Gustavo Duarte, de São Paulo, a questão é 'patética' e todas as alternativas apresentadas estão incorretas. 'A pergunta não tem resposta, é subjetiva. Cada aluno poderia responder o que quisesse', avaliou. Segundo ele, os quadrinhos são entretenimento. [...] 'Se tivesse uma resposta que falasse da supremacia dos alienígenas sobre os seres humanos eu colocaria essa como correta, por causa do super-homem'". Não é necessário listar heróis de outras etnias ou a etnia dos criadores de tais heróis: o abuso da boa vontade e do intelecto de quem lê a questão é tão forte que dispensa tal trivialidade. A questão não foi formulada de forma a rivalizar apenas brancos e negros, como alguns sugeriram, mas a rivalizar brancos e todas as outras etnias que existem, ou seja, é alegar, sem nenhum peso na consciência, que os norte-americanos, populares por seu conservadorismo, são algum tipo de nazistas introvertidos.

Não é de hoje que a associação entre a direita e o nazismo é divulgada, e ela sempre parte de socialistas - mas de socialistas que curiosamente não são curiosos o suficiente para perceber que os nazistas pertenciam ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Isso, como eu disse anteriormente, não relaciona-se ao debate religioso, e eu pude ver religiosos e ateístas denunciando esse assalto à inteligência das pessoas: trata-se apenas de mais um caso em que a ideologia é posta a frente da verdade. Trata-se, antes de tudo, de uma ideologia que afirma que a verdade não existe, e, desse modo, a opção correta também não existe: tudo que existe é a seleção natural, que, afinal, não é tão natural como deveria.


Referências e recomendações:
  1. Violência dos alunos provoca stress pós-traumático em professores
  2. 83% dos professores querem punição mais rígida contra violência nas escolas
  3. Só 10,6% dos professores de SP se sentem seguros na escola
  4. Megaestudo da Unesco mostra que falta segurança nas escolas
  5. Professores apontam violência nas escolas
  6. SINPRO/RS: Violência contra professores
  7. Alunos detidos querem PM fora da USP e liberação da maconha no Brasil
  8. Seis veículos da polícia são danificados durante confronto na USP
  9. Alunos prometem ocupar prédio até fim do convênio da USP com a PM
  10. Fascistas encapuzados da USP perdem assembléia
  11. Lula sobre ENEM 2010
  12. Psychology and the Church
  13. The Closing of the American Mind
  14. The Enemy at Home
  15. JL: Super-heróis “escondem” supremacia dos brancos
  16. Prova de vestibular obriga alunos a responder que super-heróis escondem supremacia dos brancos

9 de outubro de 2011

"Supostamente"

Eis a resposta automática dada por um grande número de ateus quando questionados sobre os crimes cometidos por ateístas ao longo da História. São os que vão além daqueles que simplesmente negam um vínculo entre o ateísmo e o comunismo: não admitem sequer que os ditadores comunistas sejam associados ao ateísmo. Assim, os crimes comunistas foram cometidos por "supostos ateus" - e é impressionante o quanto a palavra supostamente aparece nos discursos ateístas. Certamente, antes que possamos ter certeza, nenhuma conclusão pode ser tomada, e é justamente nesse ponto que precisamos perguntar: é possível ter certeza? Essa postagem pretende lidar com essa questão e com outros problemas a ela relacionados.

Parece haver uma atitude um tanto injusta que parte de alguns ateístas preocupados em livrar o ateísmo da responsabilidade de ter participado de eventos que derramaram sangue inocente ao longo da História. Acredito que isso aconteça, principalmente, pelo fato de que muitos desses ateístas costumam usar esse mesmo tipo de evento para rejeitar algumas religiões: podem, por exemplo, rejeitar o cristianismo por causa da Inquisição e Cruzadas; ou o islamismo por causa da Jihad. Independente do fato de que muitos desconhecem o que, de fato, foram esses eventos que utilizam para acusar de sanguinária a alguma religião, por vezes desconhecem, também, a motivação por trás dos regimes ateístas do século passado.

Essa tentativa de livrar, a qualquer custo, o ateísmo de ter sido responsável por mortes e destruição revela um comportamento que seria muito mais fácil de compreender se viesse de religiosos - que normalmente estão comprometidos a defender sua religião. O fato de ateus terem cometido crimes terríveis contra a humanidade não deveria preocupar o ateu, já que, evidentemente, o mero ateísmo não implica em ideologia alguma. Ora, nem mesmo no caso dos religiosos as Cruzadas ou a Jihad deveriam preocupar o cristão ou o muçulmano, uma vez que eles, em sua grande maioria, não andam com bombas em sua cintura ou serviram em uma guerra que já terminou muitos séculos atrás.

Portanto, minha primeira consideração é que o ateu preocupado em livrar o ateísmo de qualquer acusação referente a crimes ateístas ao longo da História sugere um ateísmo que toma forma de religião, ou seja, preocupa-se com a defesa de algo que não precisa ser defendido, como se existisse uma obrigação moral com algo que reconhecidamente não pressupõe nenhuma defesa ou obrigação. Ateísmo não pressupõe moralidade, o que não significa dizer que o ateu é imoral. Ateísmo não pressupõe virtudes, o que não significa dizer que o ateu não possui virtudes. Significa apenas que o fato de um indivíduo ser imoral ou ser virtuoso independe do fato de ele ser ateu. O ateu é, como imagino que todos os ateus concordarão, apenas o indivíduo que não acredita na existência de Deus.

Assim, é possível entender que os crimes de um ateu não podem, em hipótese alguma, ser utilizados para culpar outros ateus, pois o ateísmo não é uma instituição que compartilha um dever-ser aplicável a todos os membros dessa instituição. O fato é que ateísmo não pressupõe dever-ser algum: é neutro quanto a qualquer aspecto moral. Culpar um bom ateu pelos crimes de Stalin equivale a culpar um prato limpo pelo gosto ruim do arroz. Não é contra essa ideia que pretendo escrever nessa postagem.

Meu objetivo é averiguar até que ponto o ateísmo pode ser identificado e considerado a motivação de crimes ateístas que alguns ateus insistem em tratar como livres de qualquer aversão religiosa, isto é, livre de qualquer motivação antirreligiosa. Então, pode, afinal, o ateísmo ter sido a motivação dos regimes comunistas? Os religiosos perseguidos nesses regimes foram perseguidos por pertencerem a alguma religião? O que dizer quanto aos ateus que também foram perseguidos por esses regimes?

Espero que eu tenha sido claro ao dizer que ateísmo não implica em uma ideologia de sorte alguma. Logo, o ateísta não está, obviamente, comprometido com qualquer ideologia que porventura seja ateísta. Nem todo ateu é comunista, ainda que todo comunista seja ateu - não discuto aqui a questão dos religiosos que se dizem comunistas, já que me interessa apenas o comunismo como exposto por seus idealizadores. Estando isso claro, imagino que o ateu não sentirá ser necessário me acusar de estar cometendo alguma generalização.

Enquanto muitos ateus sabem, por exemplo, que Marx via a religião como algo desprezível, acreditam que sua visão sobre a religião desempenhava um papel secundário ou irrelevante à concepção do comunismo. Mas esse não era o caso! Na introdução de A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right, escrevera: "Para a Alemanha, a crítica da religião foi essencialmente completada, e o crítica da religião é o pré-requisito de toda crítica. A profana existência do erro é comprometida logo que sua celeste oratio pro aris et focis ["discurso para os altares e lares", i.e., por Deus e pelo país] é refutada" (Karl Marx, A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right, publicado originalmente em Deutsch-Französische Jahrbücher, 1844).

A ideia fundamental de Marx visa libertar o homem da autoridade divina, da limitação do agir que essa autoridade representa. Removendo Deus, o certo e o errado deixam de ser valores objetivos e passam a depender da autoridade do homem: a relativização da moral é crucial para o sucesso do comunismo; o homem decide o que é certo, e nenhuma autoridade transcendental pode impedi-lo de lutar pela sua causa acusando-o de lutar por uma causa ruim. Ruim é o que se opõe à revolução; bom, o que a beneficia. Em 1894, Engels escrevia: "Tanto o cristianismo quanto o socialismo pregam salvação futura da servidão e miséria; o cristianismo situa essa salvação em uma vida de outro mundo, posterior à morte, no céu; o socialismo a situa nesse mundo, na transformação da sociedade" (Frederick Enges, On the History of Early Christianity, publicado originalmente em Die Neue Zeit, 1894).

"A abolição  da religião como a felicidade ilusória das pessoas é a exigência para a verdadeira felicidade delas", escreveu Marx no já citado artigo de 1844. "A crítica da religião desilude o homem, fazendo com que ele pense, aja e molde sua realidade como um homem que descartou suas ilusões e recuperou seu juízo, para que ele então se mova em volta dele mesmo como seu próprio e verdadeiro Sol. A religião é apenas o Sol ilusório que gira em torno do homem contanto que o homem não gire sobre si mesmo" (ibid.). A ideia de que o ateísmo é a condição para libertar o homem dos limites impostos por Deus não estão apenas implícitos no discurso de Marx; ele defendeu essa ideia sem o menor receio, como se pode averiguar em vários momentos de diversas obras suas.

"A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, poder material deve ser derrubado por poder material; mas teoria também se torna poder material logo que se apodera das massas. Teoria é capaz de apoderar-se das massas quando argumenta e demonstra ad hominem, e argumenta e demonstra ad hominem quando se torna radical; ser radical é atacar a raiz do problema. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, consequentemente, de sua energia prática, é que resulta de uma resoluta positiva abolição da religião. A crítica da religião termina com o ensinamento de que o homem é a mais alta essência do homem. [...] Vamos resumir o resultado: A única emancipação da Alemanha que é praticamente possível é a emancipação do ponto de vista daquela teoria que declara o homem como ser supremo para o homem" (ibid.).

O que isso começa a deixar claro, é que a religião não é uma questão secundária quando se fala de comunismo. Ao contrário, parece ser o ponto central da crítica marxista. Já começa a ficar difícil concordar com a ideia de que os altos números de religiosos perseguidos em regimes comunistas foram pura coincidência, mas voltarei a esse ponto posteriormente. Me permitam enfatizar, por enquanto, outras declarações de comunistas quanto ao papel do ateísmo no regime. Em Lenin, encontramos afirmações particularmente reveladoras: "As bases filosóficas do marxismo, como Marx e Engels repetidamente declararam, é o materialismo dialético, que remonta totalmente as tradições históricas do materialismo do século dezoito na França e de Feuerbach (primeira metade do século XIX) na Alemanha - um materialismo que é absolutamente ateísta e positivamente hostil a todas as religiões. [...] A religião é o ópio do povo - essa máxima de Marx é a pedra angular de toda perspectiva marxista sobre a religião" (Vladimir Ilyich Lenin, The Attitude of the Workers’ Party to Religion, Lenin Collected Works, vol. 15, págs. 402-13).

"Marxismo é materialismo. Como tal, é implacavelmente hostil à religião como era o materialismo dos enciclopedistas do século XVIII ou o materialismo de Feuerbach. Não há dúvidas quanto a isso. Mas materialismo dialético de Marx e Engels vai além dos enciclopedistas e de Feuerbach, pois aplica a filosofia materialista ao domínio da história, ao domínio das ciências sociais. Nós devemos combater a religião - esse é o ABC de todo materialismo, e consequentemente do marxismo. Mas o marxismo não é um materialismo que parou no ABC. O marxismo vai além. Ele diz: Nós devemos saber como combater a religião, e em ordem para fazer isso nós devemos explicar a fonte da fé e da religião entre as massas de um modo materialista. O combate à religião não pode limitar-se a pregação ideológica abstrata, e não deve ser reduzido a tal pregação. Ele deve ser vinculado com a prática concreta do movimento de classe, que visa eliminar as raízes sociais da religião" (ibid.).

O que Lenin defende explicitamente é que o marxismo, além de dever ser positivamente hostil à religião, deve fornecer meios para explicá-la como mero fenômeno social,  a fim de descredibilizá-la. Isso pode ser facilmente entendido na popular abordagem nietzschiana do cristianismo, que o atacara como sendo a religião dos fracos. O resultado dessa explicação é que o cristianismo não é digno de ser levado a sério: é uma crença ridícula, de escravos, inaceitável no mundo moderno. Essa ideia tem, atualmente, diversas formas, e pode ser percebida culturalmente com facilidade. As recomendações de Lenin podem nos ajudar a entender, por exemplo, a ideia tão disseminada de que absolutamente todas as crenças podem ser explicadas como fruto da ignorância ou do medo. "Eles não sabiam explicar um fenômeno natural, então, declaravam que era obra de Deus". Pessoas que nunca dedicaram dez minutos de suas vidas para averiguar o pensamento de certas civilizações estão predispostas a aceitar tal explicação como plausível sem nem mesmo conhecer tais civilizações.

A ideia de que algumas crenças eram razoáveis em uma época, mas não são atualmente, também tornou-se notavelmente popular. Chesterton já a denunciava em seu tempo: "Surgiu na controvérsia moderna o hábito imbecil de dizer que tal e tal crença pode ser sustentada numa época, mas não em outra. Alguns dogmas, dizem, eram críveis no século XII, mas não no século XX. Alguém poderia igualmente dizer que determinada filosofia pode ser abraçada na segunda-feira, mas não se pode acreditar nela na terça. Alguém poderia falar que determinada visão de mundo é adequada à três e meia, mas não às quatro e meia. Aquilo em que um homem pode acreditar depende de sua filosofia, não do relógio ou do século" (G.K. Chesterton, Ortodoxia, págs. 123-4). O que Lenin pregara tornou-se, hoje, uma realidade óbvia: as pessoas acreditam nessas ideias como ideias garantidas, simplesmente porque as aprenderam assim. O questionamento nem toca a consciência como mera possibilidade ou como se representasse algo importante.

Esse é o plano de fundo que facilmente explica o fato de a maior parte da juventude ateísta pensar na religião como algo irracional: ela não vê justificativa plausível para a religião; vê tudo que se relaciona a ela como algo simples e facilmente explicável pela sociologia mais barata. Acreditam que o cristianismo só cresceu de forma assustadora porque no primeiro século os homens eram bastante estúpidos e supersticiosos. A mais cretina explicação que parece cobrir razoavelmente os fatos cruciais acerca de um evento é suficiente para o jovem aceitá-la, ainda que a hipótese que envolva o sobrenatural seja, de fato, a mais plausível.

Essa superficialidade é a grande marca da nossa juventude, seja ela religiosa ou ateísta. É a superficialidade que notamos quando o ateu recusa-se a admitir as motivações ateístas do comunismo por pensar que o comunismo não passa de uma simples política cega de morte. É a superficialidade que notamos quando o ateu se presta a admitir alegremente a religiosidade de Hitler baseado em algumas fotografias - fato que sempre me intrigou de forma especial. Enquanto negam com forte convicção a mera possibilidade de os ditadores comunistas terem encontrado no ateísmo a justificação de seus crimes, aceitam, e com semelhante convicção, a possibilidade de o nazismo justificar-se em alguma religião.

Não discuto, aqui, o fato de Hitler ter sido ou não um cristão, mas não posso deixar de dizer que os argumentos normalmente oferecidos não servem para justificar a afirmativa. As fotografias de Hitler com padres ou pastores provam seu catolicismo ou protestantismo tanto quanto a imagem à esquerda prova a religiosidade Dilma Rousseff, que em sua primeira semana como Presidente, retirou a Bíblia e o Crucifixo de seu gabinete. Pela mesma lógica bizarra, Richard Dawkins poderia ser acusado de ser cristão por ter gravado trechos de seus documentários dentro de Igrejas, já que, aparentemente, não importam as declarações do indivíduo acerca do cristianismo, mas apenas a imagem em si.

Contra isso, o ateu pode argumentar que Hitler, de fato, dizia estar fazendo a obra de Deus. Obviamente, eu não posso negar a possibilidade de ele possuir tal convicção, mas o próprio Richard Dawkins e muitos de seus admiradores insistem em retratá-lo como católico romano, sendo que os dogmas católicos foram os únicos contra os quais Hitler realmente se manifestou. Há algum tempo tive contato com um livro intitulado Hitler's Table Talk, que apresenta diversas citações em que Hitler explicitamente condena o cristianismo. Mas, suspeitando da possibilidade de alterações, resolvi averiguar se Hitler realmente dissera, entre outras coisas, que o cristianismo era uma doença. Foi quando me deparei com um artigo do ateísta Richard Carrier, em que ele mostra que muitas dessas citações foram, de fato, alteradas, traduzidas inapropriadamente. Ainda assim, as citações originais, em alemão, revelam informações interessantes: Carrier chega à conclusão de que Hitler acreditava em sua própria forma de cristianismo; um tipo que inclusive possuía um Cristo ariano.

Entre as frases originalmente ditas por Hitler, lemos que a transubstanciação "é a coisa mais absurda já inventada pela mente humana em suas ilusões, uma zombaria de tudo que é divino". Carrier sugere que Hitler criticara apenas uma forma de cristianismo, e acreditava seguir o "verdadeiro cristianismo". As críticas de Hitler eram quase sempre dirigidas ao catolicismo, segundo o próprio autor. Uma de suas frases indica uma comparação do catolicismo, especificamente, à sífilis. No dia 13 de Dezembro de 1941, Hitler declarou: "Cristo era ariano. Mas Paulo usou seus ensinamentos para mobilizar o submundo e organizar um proto-bolchevismo". Richard Carrier escreve: "Primeiro, Hitler não nega a Cristo, mas o clama para si mesmo [...]. Segundo, ele ataca não o cristianismo, mas a tradição Católica".

O que fica evidente é que Hitler, se possuía alguma crença, não se tratava de nada nem mesmo remotamente relacionado ao catolicismo ou a alguma outra forma tradicional de cristianismo. E, até aqui, eu sequer trouxe à discussão qualquer abordagem política, como o fato de o Partido Nazista ter tomado uma postura religiosa somente após o fracasso de sua campanha original inspirada no comunismo soviético.

O cristianismo positivo soa basicamente como uma estratégia inteligente, e ninguém precisa negar o fato de que muitos padres e pastores realmente apoiaram o nazismo: mas isso não significa apoio formal por parte de nenhuma Igreja como um todo. E, novamente, as maiores críticas dirigem-se contra a Igreja Católica, que curiosamente foi a instituição que mais ajudou a salvar judeus na ocasião. Teve a gratidão de comunidades judaicas por salvar milhares de vidas; e mesmo Albert Einstein se pronunciou defendendo-a. Mas nada disso bastou contra a imbecilidade desse tempo, que pode ser muito bem ilustrada pelo livro intitulado O Papa de Hitler, em que Pio XII é acusado, em um livro que clamava para si uma autoridade historiográfica que nunca existiu, de ter apoiado o que Einstein chamou de "assalto hitlerista à liberdade", contra o qual o próprio Einstein disse que "apenas a Igreja Católica protestou [...]. Hoje sinto uma grande admiração por ela, que teve a coragem de combater sozinha pela verdade espiritual e pela liberdade moral" (Pinchas E. Lapide, Three Popes and the Jews, pág. 133).

Não bastasse os colégios e movimentos católicos suprimidos pelo Partido - notavelmente na Polônia, com 6 bispos, 1.923 sacerdotes e 63 seminaristas mortos -, ou a Encíclica Mit brennender Sorge de Pio XI, ou os esforços diários de Pio XII para denunciar o regime, ou os depoimentos de judeus em agradecimento ao Pontífice e à Igreja: ela ainda precisa, graças à mentalidade desmesurada moderna, lidar com a acusação, insustentável sob todos os aspectos possíveis, de ter apoiado o Nazismo; ou ainda com a mais trágica acusação de que Hitler era um nobre e adorável membro da Igreja. Não comento tudo isso para desviar o foco original, que é o comunismo; mas é impossível esboçar uma explicação aceitável à negação da relação entre comunismo e ateísmo sem considerar essa superficialidade tão evidentemente expressa no caso de Hitler.

Até aqui, expus algumas declarações de Marx, Engels e Lenin, que acredito serem suficientes para demonstrar tanto a essencial hostilidade do comunismo contra a religião quanto a necessidade de se remover da sociedade qualquer limite que venha de algo que não seja o homem: eles são bem claros quanto a isso. É justamente nesse sentido que podemos propor a a questão: Algum crime comunista ocorreu em nome do ateísmo? Não é uma pergunta simples; exige bastante cautela. Primeiro, é preciso entender o que significa "em nome do". Se, por exemplo, tomássemos como referência a Jihad representando crimes em nome do islamismo, verificaríamos que eles são praticados sob o pretexto de beneficiar o Islã, de modo que a religião supere ou sobressaia às outras através da guerra santa. Assim, seria possível argumentar que os crimes comunistas ocorreram em nome do ateísmo no sentido estrito de que foram praticados para que abolissem toda e qualquer forma de religião - o ABC do comunismo -, a fim de que o ateísmo - condição necessário ao comunismo - viesse a ser a única cosmovisão possível.

O sucesso do comunismo depende do sucesso do ateísmo, e é a partir dessa relação que se entende a alegação de Marx de que "o comunismo começa desde o início com o ateísmo" (Karl Marx, Private Property and Communism, em Economic and Philosophic Manuscripts, 1844). O comunismo não pode existir sem o ateísmo, portanto, o ateísmo é uma condição para que o comunismo possa, de fato, existir. Marx via no ateísmo a solução de todos os problemas da sociedade: "A forma mais rígida de oposição entre o judeu e o cristão é a oposição religiosa. Como uma oposição é resolvida? Tornando-se impossível. Como a oposição religiosa torna-se impossível? Abolindo-se a religião" (Karl Marx, On the Jewish Question, publicado originalmente em Deutsch-Französische Jahrbücher, 1844).

Como eu disse no início dessa postagem, não é meu objetivo culpar nenhum ateu pelos crimes comunistas. É meu objetivo, porém, combater a noção popular e amplamente divulgada de que o comunismo suprimiu religiões e perseguiu religiosos por mera coincidência, como se o ateísmo não tivesse um papel fundamental em todos esses eventos. O fato de o ateísmo desempenhar esse papel fundamental, no entanto, não compromete, de forma alguma, nenhum ateísta. Ironicamente, qualquer eventual comprometimento decorrerá da imprudência do próprio ateísta, caso tente culpar o cristão de hoje por algo que se julga ter sido um crime no passado, ou o muçulmano pacífico por algum comportamento suicida dos muçulmanos terroristas.

Infelizmente, muitas vezes esse tem sido o caso. Em Quebrando o Encanto, Daniel Dennet escreve: "É verdade que os fanáticos religiosos raramente são, se é que alguma vez foram, inspirados ou guiados pelos melhores e mais profundos princípios dessas tradições religiosas. E daí? O terrorismo da Al Qaeda e do Hamas ainda é de responsabilidade do Islã, e as explosões de clínicas de aborto ainda são de responsabilidade do cristianismo". A única desculpa possível para essa alegação seria dizer que esses crimes representam a verdadeira face da religião, mas o próprio Dennet parece não estar abordando o tema dessa forma. E é exatamente essa atitude que dará ao cristão o direito de culpar o ateísmo pelos crimes de Stalin e Mao. Se o cristão age de forma não cristã e o cristianismo deve responder por tal atitude, por que, então, o ateísmo estaria livre de responder pela atitude do ateu? A única diferença é que, no primeiro caso, se ignora um corpo de regras religioso; no segundo, devido à neutralidade religiosa, se ignora um corpo de regras civis. O fato é que nem o ateu nem o religioso deveriam trocar esse tipo de acusação.

E ainda há perguntas a serem respondidas. Até agora lidei com a questão teórica da relação entre o ateísmo e o comunismo, mas cabe analisarmos o que, de fato, o comunismo representou historicamente, e como essa teoria se desenvolveu na prática. Essa é a forma mais apropriada de se verificar se as perseguições religiosas não passaram de coincidências infelizes. Bem sabemos que Stalin, Mao, Pol Pot e Fidel foram, juntos, responsáveis por milhões de mortes: foram responsáveis pelas mortes de seu próprio povo. Cometeram, também, crimes bastante específicos, muitos dos quais basearam-se nas exatas recomendações teóricas já expostas.

"Religião é veneno: proteja suas crianças"
O historiador Thomas Woods explica que, na Rússia "tornaram um crime envolver-se em educação religiosa para qualquer menor de dezoito anos. [...] Estabeleceram, fomentaram e encorajaram propagandas ateístas. Em alguns casos, Igrejas foram substituídas por banheiros públicos, como forma de se mostrar o maior desdém possível pela fé cristã das pessoas". Ele argumenta que no começo de 1920, o governo começa uma campanha que visa tomar das Igrejas tudo que fosse de valor, como metais preciosos. Alegou-se que era preciso derreter esses objetos para que se conseguisse dinheiro para combater a fome que o país sofria.

"Claramente, era uma tentativa de derrubar a Igreja Católica. Eles não precisavam, de fato, daquele dinheiro para combater a fome, já que os EUA e outros países enviavam dinheiro para a Rússia a fim prover auxílio contra a fome, e agora sabemos - agora que os arquivos soviéticos foram abertos - que o governo estava tomando aquele dinheiro auxiliar para comprar armas da Alemanha. Eles não precisavam de dinheiro para aquele fim. Na verdade, o Papa Bento XV, que foi Papa de 1914 a 1922, chegou a fazer uma oferta ao governo russo: ele disse que o Vaticano daria uma quantidade de dinheiro equivalente àqueles objetos, desde que eles fossem deixados em paz. Ele nunca obteve uma resposta" (Thomas E. Woods, The Anti-Catholic Atrocities that History Forgot, em The Catholic Church: Builder of Civilization).

Igrejas foram vandalizadas e padres foram condenados e executados por simplesmente realizarem funções sacerdotais cotidianas. Um padre foi condenado pelo crime de "cair ostensivamente sobre seus joelhos". O historiador Richard Pipes diz que a Rússia "foi o primeiro país da Terra a ilegalizar a lei". A condição para que alguém pudesse ser um juiz era que essa pessoa fosse simplesmente alfabetizada. "Os primeiros julgamentos públicos ocorreram sob o governo de Lenin, quando padres foram postos sob julgamento por terem defendido suas propriedades ou por terem realizado as mais simples e benignas funções sacerdotais. O objetivo era humilhá-los e derrubá-los", conclui Woods (ibid.).

Quarenta e quatro museus antirreligiosos foram abertos na União Soviética. O maior deles era o Museu da História da Religião e Ateísmo (The Museum of the History of Religion and Atheism) na Catedral Kazan, em Leningrado. Entre 1927 a 1940, sob Stalin, o número de Igrejas Ortodoxas caiu de 29,584 para menos de 500. Entre 1917 e 1935, 130,000 padres ortodoxos foram presos. Desses, 95,000 foram executados. A destruição da Catedral de Cristo, o Salvador foi filmada a pedido do governo, por Vladislav Mikosha - o vídeo pode ser acessado nas referências. Na Romênia, o pastor Richard Warmbrand foi aprisionado e mantido preso durante quatorze anos. Ele relata que as técnicas de lavagem cerebral adotadas eram praticadas diariamente, de forma exaustiva, e visavam ridicularizar a religião.


A Igreja Católica ucraniana tinha 2.772 paróquias, 8 Bispos, 4.119 igrejas e capelas, 142 mosteiros e conventos, 2.628 sacerdotes, 164 monges, 773 freiras e 4 milhões de fiéis leigos. Ao fim da mais ampla supressão de fiéis religiosos da história mundial, o conjunto inteiro tinha sido reduzido à zero. Em 1999, a revista The Christian Century reportou que a "China tem perseguido os crentes por meio de assédio, detenção prolongada, e encarceramento na prisão ou em campos de 'reforma-pelo-trabalho' e fechamento policial de lugares de adoração". Mesmo contra atuais esforços do governo chinês para suprimir a religião, mandando possuidores da Bíblia para campos de trabalho, por exemplo, o cristianismo na China tem crescido explosivamente. A Coréia do Norte, oficialmente ateísta, comete, até hoje, atrocidades contra os cristãos - ver detalhes nas referências.

Obviamente, a história do comunismo contra a religião possui assunto para vários livros, mas acredito que essa exposição tenha sido suficiente para mostrar que o comunismo foi e continua sendo, seja na teoria ou na prática, um regime essencialmente antirreligioso, cuja aversão à religião está longe de ser uma mera coincidência. Não me parece ser necessário comentar muito sobre os ateístas perseguidos em regimes comunistas: é bastante óbvio que esses regimes vitimaram toda a sorte de pessoas. Ninguém pensará no absurdo de um regime comunista amigo de determinados grupos.

Se é possível dizer alguma coisa quanto a isso, diremos que os regimes comunistas foram inimigos da espécie humana. Espero que essa postagem possa ajudar na compreensão de pontos importantes sobre a relação entre o ateísmo e o comunismo, e espero mais ainda que a disputa entre ateus e religiosos quanto a quem foi responsável por derramar mais sangue deixe de existir. Suponho que a superficialidade de nosso tempo seja um mal fixado no coração da sociedade, mas acredito sinceramente que o menor esforço de luta contra essa superficialidade seja digna e louvável. Se há, aqui, uma verdade, é essa: o problema não está, nesse caso, na religião ou não falta de religião; o problema está nas pessoas.

Finalmente, eu apenas recomendaria uma leitura complementar das próprias obras marxistas, que podem ser consultadas integralmente nas referências, abaixo. É interessante notar como Lenin, por exemplo, traça cuidadosamente as diretrizes da propaganda ateísta. Ele explica que a propaganda pode ser desnecessária em certos momentos, e que deve ser evitada, por exemplo, em épocas de eleições, a fim de que não espantem os eleitores. Lenin aborda até a questão de espalhar ideias comunistas dentro das próprias Igrejas, o que representaria uma grande vantagem à causa: "Nó não apenas devemos admitir no partido trabalhadores que preservam sua fé em Deus, mas deliberadamente buscar recrutá-los; seremos absolutamente contra oferecer a menor ofensa às suas convicções religiosas, mas os recrutamos de forma a educá-los em nosso programa, e não de forma a permitir uma luta ativa contra ele" (Vladimir Ilyich Lenin, The Attitude of the Workers’ Party to Religion, Lenin Collected Works, vol. 15, págs. 402-13). O quanto isso reflete o momento político e religioso atual chega a ser quase assustador, mas não é graças a dois confortos possíveis: ao religioso, manter firme sua convicção em Deus; ao ateu, manter firme sua convicção de que tudo é uma grande coincidência, uma paranoia.


Referências e recomendações:
  1. A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right
  2. On the History of Early Christianity
  3. The Attitude of the Workers’ Party to Religion
  4. On The Jewish Question
  5. Merry Anti-Christmas!
  6. Christ, the Savior 
  7. Dilma retira Bíblia e Crucifixo de gabinete
  8. The Catholic Martyrs of the Twentieth Century 
  9. Marxism and Revisionism
  10. Private Property and Communism
  11. Marx and Engels on Religion
  12. Mártires do século XX
  13. Atrocities that history forgot
  14. Por que matar é essencial
  15. On Hitler's christianity
  16. What's So Great About Christianity 
  17. Mit Brennender Sorge
  18. Pio XII e a Segunda Guerra Mundial  
  19. Defamation of Pius XII
  20. Ortodoxia
  21. A Igreja dos apóstolos e dos Mártires
  22. China send Bible owners to labor camp
  23. Chinese internal document puts new squeeze on religion
  24. Christianity growing in China
  25. North Korean and chinese atrocities against Christians Worsen
  26. Kodean reds targeting christians

6 de outubro de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #5

A série Brasil: terra dos palpiteiros foi originalmente criada para analisar o discurso do vlogger Paulo Cézar Siqueira acerca do tema religião, e desde então lidou com alegações expostas em outros vlogs populares, como o de Cauê Moura e o de Daniel Fraga. Essa postagem será a quinta - e provavelmente última - da série, e será destinada a analisar considerações de Yuri Grecco sobre o argumento cosmológico e sobre a Igreja Católica.

Enquanto lia algumas das postagens antigas, notei que por vezes minhas respostas tomaram um tom agressivo, que pode ser facilmente explicado pelo fato de que qualquer ser humano tende a frustrar-se ante bobagens de proporções catastróficas. Tanto o ateu quanto o religioso experienciam esse fato diariamente, o que me livra da acusação de estar sendo simplesmente insensível.

De qualquer forma, há algum tempo passei a perceber que essa agressividade por vezes expressa não beneficia de forma alguma o conteúdo da postagem. Por isso, venho tentando abandoná-la, já que estou sinceramente convencido de sua inutilidade, ainda que, de fato, seja difícil ser sempre suficientemente moderado. Isso pode ser entendido como um pedido de desculpas e como um comprometimento a evitar essa postura nessa postagem que, finalmente, inicio.

Não deixe de conferir, também, as outras quatro postagens da série:
O primeiro vídeo é uma resposta de Yuri a algumas alegações no mínimo confusas - como ele mesmo alerta - de um cristão. O "diálogo" entre eles é irrelevante ao propósito dessa postagem. Em geral, os questionamentos levantados pelo cristão são tolos e mal formulados, e não é minha intenção apoiar nada que ele tenha dito. Aqui quero apenas me preocupar com o que o ateísta diz sobre o argumento cosmológico (quinto minuto do vídeo).



Segundo Yuri, o argumento cosmológico "falha em diversos pontos", e, para ele, é válido ressaltar dois desses pontos: 1. que o argumento parte de uma falsa premissa; e 2. que o argumento recorre à falácia da alegação especial. A premissa falsa é a seguinte: tudo no Universo tem uma causa. A alegação especial é que tudo tem uma causa, menos Deus. Antes de mais nada, não posso deixar de comentar que, ao que tudo indica, o cristão no vídeo sequer sabe o que é o argumento cosmológico, o que torna bastante improvável a hipótese de que esteja defendendo alguma versão do argumento; mas isso é, admito, apenas uma suspeita pessoal.

Novamente, isso é irrelevante. É verdade que, nesse caso, o ateísta não precisaria se preocupar com os "argumentos" do cristão, mas o resultado disso é que foi possível descobrir que havia mais alguém que não sabia o que é o argumento cosmológico. Mas, para ser justo, talvez seja melhor dizer que havia alguém que "não foi cuidadoso o suficiente ao falar do argumento cosmológico", até porque o cristão pedia uma resposta a seus questionamentos, e é nobre que alguém tenha atendido ao pedido. Seja como for, atento à falta de cuidado porque o argumento cosmológico possui variações, e algumas delas são muito mais plausíveis e dignas de atenção que as versões espantalho oferecidas por alguns ateístas, e aqui posso incluir a versão oferecida por Yuri.

Assistindo ao vídeo, não pude deixar de lembrar da versão do argumento cosmológico oferecida pela ateísta Dra. Rebecca Goldstein em seu livro 36 Arguments for the Existence of God, em que ela expõe e refuta 36 argumentos para a existência de Deus. Yuri nos diz que o argumento cosmológico defende a seguinte premissa: tudo no Universo tem uma causa. Já a Dra. Goldstein diz que, segundo o argumento cosmológico, tudo que existe deve ter uma causa. A ideia é a mesma, e a própria refutação é semelhante. Eis o que ela alega ser a falha do argumento: "Se tudo que existe deve ter uma causa, quem causou Deus? Os teístas dizem que suas premissas têm ao menos uma exceção, mas não explicam por que Deus precisa ser a única exceção. O próprio Universo poderia existir sem causa. Já que a responsabilidade precisa ir para alguém, por que não para o Universo?".

Nesse caso, estamos, de fato, diante da falácia da alegação especial, que Yuri corretamente identificou. Porém, antes de prosseguir, gostaria de ressaltar que há duas formas de alegação especial que podem ser identificadas na exposição de Yuri: a primeira cometida pelo cristão e a segunda referente ao próprio modelo de argumento cosmológico oferecido por Yuri. A primeira forma ocorre quando se afirma que o oponente não possui qualificações suficientes para compreender um ponto de vista: é a que ocorre quando o cristão afirma que "Deus não pode ser entendido pelo raciocínio humano". A segunda forma ocorre quando alguém se refere a algo como exceção a uma regra, princípio, etc. geralmente aceitos, sem justificar a exceção.

Assim, se tudo no Universo tem uma causa, por que Deus estaria livre dessa regra? Yuri Grecco e a Dra. Goldstein identificaram a mesma falha no argumento, que se refere à exceção não justificada. Se tudo que existe deve ter uma causa, quem afirma que Deus existe está obviamente se comprometendo com a alegação de que Deus deve ter uma causa, pois:
1. Tudo que existe tem uma causa;
2. Deus existe;
Logo,
3. Deus tem uma causa.
Não há do que discordarmos até aqui: o argumento, se é que serve pra alguma coisa, serve apenas para rejeitar o teísmo. Mas, seria essa, de fato, a versão do argumento cosmológico proposta por São Tomás de Aquino ou atualmente defendida pelos teístas? Segundo o Dr. William Lane Craig, "esse espantalho jamais foi defendido por nenhum filósofo na história do pensamento" - referindo-se à versão oferecida pela Dra. Goldstein.

Isso porque "nenhuma versão do argumento cosmológico encontrada nos trabalhos de seus maiores defensores afirma a premissa (1)  [tudo que existe deve ter uma causa] de Goldstein", o que significa que Yuri estava certo ao declarar que a versão que ele mesmo propôs do argumento cosmológico é equivocada, pois a premissa de que tudo no Universo tem uma causa não só é falsa, como nunca foi defendida por nenhum proponente do argumento cosmológico. "Em vez disso, a premissa apresentada nos argumentos deles será algo como: 1´. Tudo que começa a existir tem uma causa; ou 1´´. Tudo que existe tem uma explicação de sua existência (seja na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa)", diz o Dr. Craig.

Encontramos (1´) no argumento cosmológico kalam e (1´´) na terceira via de Aquino. A versão kalam utiliza evidências científicas para justificar sua segunda premissa: o Universo começou a existir. Isso tornou-se sustentável cientificamente a partir da proposta e aceitação do Big Bang. Ainda assim, não se trata, obviamente, de um argumento científico: é um argumento filosófico que utiliza a ciência apenas para justificar sua segunda premissa:
1. Tudo que começa a existir tem uma causa;
2. O Universo começou a existir;
Portanto,
3. O Universo tem uma causa.
Posteriormente, se argumenta que as características da causa assemelham-se aos principais atributos que reconhecemos em Deus. Objeções plausíveis ao argumento cosmológico kalam podem ser encontradas na obra do Dr. Quentin Smith, que já debateu com o Dr. Craig o tópico "Deus existe?" - a transcrição do debate pode ser acessada nas referências.

A terceira via oferecida por São Tomás de Aquino na Suma Teológica é disposta da seguinte forma, e corresponde a (1´´):
• Encontramos, entre as coisas, as que podem ser ou não ser, uma vez que algumas nascem (pela geração, elas são) e perecem (pela corrupção, deixam de ser, não são mais).
• Mas é impossível ser para sempre o que é de tal natureza: o que pode não ser, não é em algum momento (o que é eterno não pode não ser). Ou seja, o que pode não-ser necessariamente deve ter sido gerado, e aquilo que foi gerado, começou a partir do não-ser.
• Se é verdade que tudo pode não ser, pode ter havido um momento em que nada havia, mas então nada hoje existiria, pois o que não é só passa a ser por intermédio de algo que já é. É necessário, pois, que sempre algo seja.
• Assim, nem todos os entes são possíveis, mas é preciso que algo seja necessário entre as coisas, e tudo o que é necessário tem, ou não, a causa de sua necessidade de um outro.
• Aqui também não é possível continuar até o infinito na série das coisas necessárias que tem uma causa da própria necessidade, como acontece entre as causas eficientes (2ª via).
• Portanto, é necessário afirmar a existência de algo necessário por si mesmo, que não encontra em outro lugar a causa de sua necessidade, mas que é causa da necessidade para os outros: o que chamamos Deus* [ver nota de Edição* no caderno original, listado nas referências].
Craig observa que "Goldstein cria sua premissa (1) confundindo essas duas versões do argumento cosmológico. Ao combinar (1´) e (1´´), ela afirma uma premissa que nenhum proponente do argumento defende, que 'tudo que existe' - retirado de (1´´) - 'tem uma causa' - retirado de (1´)". Esse espantalho me parece bastante popular entre alguns ateístas, e é basicamente o exposto por Yuri Grecco. A mesma versão pode ser encontrada em Deus, um delírio: Dawkins também propõe a mesma questão que a Dra. Goldstein e Yuri, mas de forma um pouco diferente. Ele pergunta: "Quem criou o Criador?".

Não é de meu interesse demonstrar a plausibilidade do argumento cosmológico. Pessoalmente, considero-o o argumento mais forte em favor do teísmo, e a exposição de Yuri Grecco me chamou a atenção por não ter lidado com nenhuma das três versões populares do argumento: kalam, tomista ou leibniziano - defesas dos três modelos podem ser encontradas nas referências. Em vez disso, o vlogger nos apresentou uma versão encontrada apenas em obras ateístas: algo no mínimo curioso, já que é difícil imaginar um ateu que queira fornecer a alguém um argumento que prove a existência de Deus. Fosse esse o caso, o próprio ateísmo de tal pessoa seria um irônico mistério.

Mas eu fiquei particularmente intrigado com as declarações de Yuri ao final de seu vídeo: ele diz que todos os teístas que têm contato com o argumento cosmológico concordam que o argumento é "pura bobagem". Ele ainda afirma que "é impossível tentar enfiar lógica na tentativa de explicar a existência de Deus". Ora, podemos admitir facilmente que todos os teístas que tenham visto tal versão do argumento cosmológico o tenham taxado como "pura bobagem": é exatamente isso que ela é. Porém, essa não é versão do argumento comumente utilizada para se demonstrar a existência de Deus, e é possível que apenas quem pense que ela o seja possa também acreditar que é impossível lidar com a existência de Deus através da lógica.

Finalmente, ele sugere que os teístas abandonem o argumento cosmológico para que se evite a consequente desonestidade intelectual da tentativa de provar logicamente a existência de Deus. Me parece uma sugestão sincera, mas acredito que antes de acusar falhas e desonestidades decorrentes dessas falhas em um argumento, seja igualmente recomendável que se conheça o argumento em questão. A isso chamamos prudência, e sempre tive a forte impressão de que homens verdadeiramente sinceros cometeram terríveis injustiças por terem sido imprudentes.



Agora, falando em terríveis injustiças, é válido tratar de um dos vídeos mais injustos que já vi sobre a Igreja Católica. Basicamente, porque reúne muitos dos preconceitos mais injustos sobre ela. Aqui, é exposto de forma dramática um discurso de ódio; mas, novamente, de um ódio sincero. Eis a descrição do vídeo: "Me desculpem pelos palavrões, mas não conheço forma mais adequada para me referir à Igreja Católica". Não é meu objetivo, nesse momento, opinar sobre os motivos que fizeram brotar esse ódio: é meu objetivo mostrar quais motivos temos para nos livrar dele.

Tudo começa com a iniciativa da Igreja de se aproximar de ateus e agnósticos. A notícia revela que representantes da Igreja se encontrariam com representantes do ateísmo, e já nesse ponto Yuri se manifesta: "eu não votei em ninguém". Talvez ele estivesse brincando, mas se esse fosse o caso, ele não diria que não sabia que descrentes tinham representantes. Ora, um representante não necessariamente é alguém escolhido por voto. O próprio exemplo da Igreja é suficiente para mostrar isso: os fiéis não votam nos padres que representam as suas cidades. Mas isso não significa que os padres não podem ser considerados representantes desses fiéis. É provável que a repulsa de Yuri seja causada por alguma associação entre tal situação com a ideia de uma ateísmo organizado, o que assemelharia o ateísmo a alguma religião. Porém, essa é outra especulação minha, e não há como afirmar algo baseado no pouco que é ali expresso.

Talvez esse não seja um ponto tão importante, pois o importante, de fato, é a sugestão que o vlogger dirige à Igreja. Ele divide a sugestão em oito pontos: 1. que a Igreja devolva todas as propriedades e riquezas usurpadas de famílias inteiras desde a Idade Média; 2. que leve à justiça comum todos os padres, bispos, cardeais, etc. pedófilos e estupradores, em vez de acobertá-los; 3. que indenize povos e culturas destroçados pela Igreja - inocentes, na maioria dos casos; 4. que se desfaça de todos os tesouros e invista em programas de educação sexual; 5. que pague impostos; 6. que se responsabilize pelo auto índice de disseminação de AIDS, especialmente na África e na Índia; 7. que retire toda a sua influência dos atuais avanços científicos, comprometendo-se a não opinar quanto a qualquer procedimento científico; e 8. que não interfira e ou se manifeste quanto a qualquer decisão social, política ou econômica de qualquer país.

Após atender a tais sugestões, conclui ele, poderia se pensar em alguma negociação. Ele encerra comentando sobre uma época que, "não à toa, é chamada de Idade das Trevas": quando a Igreja tinha poder, torturava e matava os descrentes, mas a agora que está em crise, quer aproximar-se dessas pessoas. Eu poderia comentar cada ponto individualmente, bem como o encerramento, mas alguns pontos podem ser tratados em conjunto - ou podem simplesmente ser ignorados. Antes disso, gostaria de comentar a única objeção necessária a todo o conteúdo do vídeo: Yuri não oferece evidências que apoiem nenhum de seus oito pontos. Ele simplesmente alega, mas não demonstra. Isso fica muito claro já no primeiro item: de que famílias a Igreja tomou propriedades e riquezas? Além disso, para alguém tão familiarizado com falácias, soa bastante traioçoeira a seguinte afirmação: "Só existem dois tipos de padres: pedófilos e acobertadores de pedófilos".

Ora, eu poderia muito bem gritar contra as injustiças cometidas pelos regimes comunistas, mas o mínimo que se esperaria de minha parte seria o apropriado detalhamento de quais injustiças, bem como as devidas provas de que tais injustiças aconteceram. Se estamos diante de fatos garantidos, isso será o menor dos problemas. Da mesma forma, posso afirmar que há apenas dois tipos de ateus: os assassinos e os que apoiam assassinatos. Quão absurda soa tal generalização? É possível que a fúria tenha atrapalhado o raciocínio de Yuri, e o produto disso foi algo extremamente lamentável. Tão lamentável que torna intrigante o fato de que pouquíssimos espectadores tenham levantado a voz contra essa óbvia imbecilidade. E aqui não digo "imbecilidade" recorrendo àquela agressividade que prometi abandonar, mas pelo motivo evidentemente justificável de não haver maneira mais adequada de referir-me a essas acusações.

Enfim, posso iniciar tratando das acusações 1. e 3., referentes a famílias, povos e culturas que sofreram pelas mãos da Igreja. O fato de não haver ali a mínima especificação ou a exposição de quaisquer evidências que suportem os eventos citados deveriam ser suficientes para descartarmos a objeção, mas vamos partir dos séculos em que a Idade Média realmente sofreu de um terrível retrocesso e assalto à cultura: qual foi o papel da Igreja nesse cenário? O historiador Thomas Woods escreve: "Quanto aos séculos VI e VII [...] restam poucas dúvidas de que foram marcados por um retrocesso cultural, como se pode observar na educação, na produção literária e em outros âmbitos semelhantes. Terá sido culpa da Igreja?". Segundo Woods, o historiador agnóstico Will Durant "defendeu a Igreja dessa acusação, atribuindo a causa do declínio não a ela - que fez de tudo para impedi-lo -, mas às invasões bárbaras do fim da Antiguidade" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 12).

Durant escreve: "A principal causa do retrocesso cultural não foi o cristianismo, mas a invasão bárbara; não a religião, mas a guerra. Os aluviões humanos arruinaram ou empobreceram cidades, mosteiros, bibliotecas, escolas, e tornaram impossível a vida dos estudantes e dos cientistas. Mas a ruína talvez fosse muito maior se a Igreja não tivesse mantido uma certa ordem em uma civilização que se desintegrava" (Will Durante, Caesar and Christ, pág. 79). Quão bem encaixa essa descrição às acusações que Yuri faz contra a Igreja?

O historiador Christopher Dawson argumenta que esses povos consideravam o homicídio uma ocupação honrosa, e que viam na vingança uma forma de justiça. Woods explica que "o impacto das incursões bárbaras sobre o Império Romano variou de acordo com cada tribo germânica. Os godos [...] não eram hostis aos romanos [...]. Já os vândalos nutriam uma inimizade implacável por tudo o que não fosse germânico: saquearam a cidade de Roma no século V e depois conquistaram o norte da África, instaurando ali uma autêntica política de genocídio". Quando os visigodos saquearam Roma, em 410, São Jerônimo manifestou-se: "Um terrível rumor chega do Ocidente. Roma está cercada. Os cidadãos salvam a vida a troco de ouro, mas, depois de espoliados, voltam a ser sitiados e perdem a vida depois de terem perdido as riquezas. Não consigo continuar, os soluços interrompem o meu ditado. Foi tomada a Cidade que tomou o mundo inteiro" (Jocelyn N. Hillgarth, Christianity and Paganism 350-750: the conversion of Western Europe, pág. 69)

Após o quase desaparecimento da ordem política e o Império Romano do Ocidente se resumir a retalhos de reinos bárbaros, "bispos, sacerdotes e religiosos lançaram-se a reestabelecer sobre as ruínas os alicerces da Civilização" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 13). Eu poderia, nesse momento, falar sobre as conquistas da Idade Média, começando pela conversão dos bárbaros, falando sobre como os monges preservaram o conhecimento, salvaram bibliotecas e traduziram e copiaram obras de inestimável valor; talvez até sobre como revolucionaram as artes práticas e como quase promoveram uma revolução industrial precoce. Mas tudo isso pretendo comentar em uma outra postagem que planejo, e acredito que essa breve exposição seja mais que suficiente para descartar o que Yuri, de forma notavelmente frágil, tentou empurrar pela garganta de quem o assiste.

Mas ainda há outra ideia a considerar: a ideia de que a Igreja, por ser a única instituição presente em muitos eventos antigos da História, foi o agente de praticamente todos os eventos ruins que a civilização experienciou; ou que, no mínimo, permitiu alegremente o desenrolar desses eventos. Assim, enquanto a Igreja é completamente culpada por instaurar o tribunal da Inquisição ou promover as Cruzadas, também é parcialmente culpada por ter apoiado a colonização dos índios ou o partido nazista. O acobertamente de casos de pedofilia é apenas a versão atualizada de velhas fórmulas do anti-catolicismo dos últimos séculos. E imagino que o notável sucesso que essas fórmulas conseguem atualmente deva-se ao fato de as pessoas de hoje gostarem de parecer socialmente engajadas.

Parecer socialmente engajado é, no entanto, completamente diferente de sê-lo na prática, e essa é a maior lição que essa falsa preocupação pode nos dar. As pessoas fingem se preocupar com os pobres, e por isso denunciam o Vaticano, que parece banhado a ouro. Mas essas mesmas pessoas não se prestam a oferecer um biscoito a uma criança de rua, pois se elas realmente se preocupassem com os pobres, saberiam que, em um mundo em que os pobres eram considerados inferiores aos ricos - seres humanos literalmente inferiores -, a Igreja se prestou a defender que o pobre era igual ao rico: e não ficou só no discurso. A Igreja ajudou os pobres, e fez isso tão bem que conseguiu mostrar a todo o mundo que muitos pobres eram tão dignos quanto alguns ricos, e que às vezes - ou mesmo na maioria das vezes - eram até mais dignos. Para ser justo, devo dizer que, até um tempo atrás, mesmo um anti-católico arrogante seria capaz de admitir que era possível encontrar pessoas boas na Igreja, ainda que muitas pessoas na Igreja fossem, de fato, odiáveis: o mais devoto católico concordará com essa ideia.

Mesmo Voltaire, um dos mais populares propagandistas anti-católicos era capaz de entender essa simples e óbvia realidade. Ele escrevera: "Talvez não haja nada maior na terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana, cuja vista causa tanta aversão a nossa sensibilidade. Tão generosa caridade tem sido imitada, mas de modo imperfeito, por gente afastada da religião de Roma" (Michael Davies, For Altar and Throne: the rising in the Vendee, pág. 13). Mas o anti-católico de hoje olha para a dedicação que tivera a Madre Teresa de Calcutá e só consegue imaginar que talvez ela estivesse ganhando muito dinheiro para fazer o que fazia. E o mais trágico sobre o anti-católico de hoje é que ele pensa que mulheres assim foram raras e estão extintas; ele pensa até que homens assim nunca existiram. Consequentemente, ele critica uma Igreja que nunca existiu, e posso apenas imaginar o quão doloroso seria saber a verdade sobre a Igreja que realmente existiu.

Ele descobriria que não apenas a Igreja pregou a caridade, mas foi caridosa desde que foi fundada. A Igreja foi tão caridosa que ensinou o mundo a ver que a caridade era uma virtude. A maioria das pessoas, por exemplo, admira as ideias de Platão sem se preocupar com o fato de que ele sugeriu que um homem que estivesse muito doente para trabalhar deveria ser deixado para morrer. Então, quando a Igreja Católica ajudou o doente que já estava abandonado e gritou para o mundo todo ouvir que nenhum homem poderia ser abandonado - nem mesmo os nossos inimigos -, algo divertido aconteceu: os anti-católicos puseram suas mãos sobre suas orelhas. Essa, obviamente, é a reação de qualquer pessoal ao ouvir algo que a irrita, mas o problema do anti-católco de hoje seria facilmente resolvido se ele ousasse abrir os olhos.

Dois mil anos atrás era comum relatar-se a indiferença das pessoas, às vezes com os próprios amigos. Moribundos eram abandonados à beira de estradas e a prática do infantifídio era tida como aceitável. Hoje, as notícias de bebês abandonados em lixeiras chocam o mundo e as famílias que entregam seus familiares de forma indiferente aos cuidados de um asilo são repudiadas. Mas o que é realmente curioso é que poucas pessoas se questionam sobre a forma que questões cotidianas foram tão combatidas a ponto de serem quase erradicadas. O mundo passou a vê-las com outros olhos, e ainda assim o mundo não entende o que o levou a desviar seu olhar. Parece razoável supor que essas pessoas pensem que tudo aconteceu em um passe de mágica, mas logo descobrimos que essas mesmas pessoas não acreditam em mágica.

Quando muitos anti-católicos ouvem que a moralidade praticada no Ocidente foi moldada pelo cristianismo, eles negam a afirmação lembrando de algumas ideias de uns filósofos que passaram pelo mundo muito antes de Cristo dar seus primeiros passos em Nazaré. O que eles não lembram ou não sabem é que para que o mundo seja transformado é necessário algo além da simples ideia de transformação. Quando lembram da compaixão de Confúcio, podem até lembrar da compaixão dos apóstolos: mas não entendem que o Ocidente foi transformado pelo sangue dos apóstolos, e não pelas simples ideias que o Mestre dos apóstolos os havia ensinado. E se os apóstolos deram seu sangue por algum ideal, foi também porque seu Mestre havia feito a mesma coisa por eles.

Mais cedo que qualquer anti-católico de hoje, os apóstolos souberam que transformar o mundo requer algo que a mera ideia não era capaz de oferecer. Eles lutaram por essa transformação e o mundo os tratou de modo frio: mas o coração de muitos foi tocado, e logo o que começou com doze se tornara uma incontável multidão: essa multidão podia, de fato, mudar o mundo, e se multiplicou cada vez que aceitou esse desafio. O que vemos hoje nada mais é que uma repetição dessa realidade histórica: a Igreja luta por um ideal e o mundo lhe desfere golpes em todas as partes atingíveis; mas, curiosamente, o ideal continua inabalável, e o ódio do mundo apenas cresce. A Igreja sangra diariamente, mas não cai; e o mundo se desgasta na incansável busca de encontrar o melhor ângulo para levá-la ao chão.

Os próprios comunistas entenderam que a simples ideia não bastava para a mudança, e por isso lançaram-se pela revolução. A única diferença entre o comunismo e a Igreja é que ele quis mudar o mundo à custa do sangue dos inocentes, enquanto a Igreja o mudou às custas do próprio sangue. E é muito fácil perceber o terrível fracasso do comunismo, enquanto poucas pessoas chamariam de fracasso tudo que a Igreja construiu. Há algum tempo notei que muitas das pessoas que chamam a história do cristianismo de fracasso são as mesmas que acreditam sinceramente que as contribuições do cristianismo para humanidade se restringem às artes plásticas ou algo que não vai muito além da arquitetura, o que equivale a eu declarar que a maioria dos Imperadores de Roma eram calvos baseando-me exclusivamente em Sérvio Sulpício Galba.

Acredito que escrevi mais do que deveria, e já devo estar perdendo o foco, por isso me limitarei a responder às objeções de Yuri. Quando ele sugere que a Igreja se desfaça de seus tesouros, me faz pensar que ele talvez seja uma dessas pessoas que possuem tanto conhecimento acerca da história do cristianismo quanto eu possuo acerca da calvice dos Imperadores. É possível que ele pense que algumas das chamadas riquezas do Vaticano estejam registradas no nome de algum clérigo misterioso. Também é possível que pense que essas riquezas estejam lá para entreter o Papa e seus casuais convidados.

Não passa pela cabeça do vlogger que talvez essa riqueza não possa ser vendida: que ela seja patrimônio da humanidade, bem como muitas outras obras valiosas de outros lugares são. Não passa pela cabeça dele que a definição apropriada desse patrimônio não é riqueza no sentido de um bem material de alto valor monetário, mas no sentido de um bem de alto valor simbólico para toda a espécie humana. Não passa pela cabeça dele que talvez a estima que se tem pela obra de Michelangelo no teto da Capela Sistina exista, em boa parte, por tratar-se de uma obra de Michelangelo no teto da Capela Sistina. Não passa pela cabeça dele que dinheiro não é capaz de resolver os problemas da humanidade, e que, ainda que fosse esse o caso, o Vaticano não poderia oferecer grande ajuda, já que apresenta déficit orçamentário há três anos consucutivos: e isso não é inédito. O Vaticano acredita que a oração talvez ofereça mais conforto que o dinheiro, mas o ateu acredita que a oração é a melhor forma de não fazer nada e pensar que está ajudando.

Suponho que esperar que o anti-católico tenha realmente refletido sobre o que ele chama de riquezas do Vaticano signifique dar crédito demais a ele, já que ele talvez pense que tudo que reluz é ouro. É razoável, por outro lado, esperar que ele apele à última objeção possível: que o que a Igreja fez de bom pela humanidade seja muito pouco se comparado ao que ela fez de ruim. Mas, novamente, essa é a objeção que só seria levantada, por exemplo, por alguém que acredita que só existem dois tipos de padres - os pedófilos e os acobertadores de pedófilos -; e isso me lembra que ainda não tratei desse tema.

Felizmente, a pedofilia na Igreja é um ponto que não exige muito do cérebro humano. A primeira observação a se fazer, é que as pessoas pensam ser algo que começou a acontecer há poucos anos. As pessoas evitariam essa impressão se atentassem para o fato de que a Igreja nunca esteve livre das populares heresias. O que as heresias demonstram é que o caminho do cristianismo nunca esteve livre de pedras, e que em boa parte do caminho essas pedras estavam dentro da própria Igreja - e até hoje é isso que se nota. Membros do Clero e leigos que cometeram atrocidades dentro da Igreja eram, no passado, tão reais quanto são hoje. Mas tudo isso só pode ser usado contra a Igreja por pessoas verdadeiramente imbecis, e, insisto, não digo isso para que pareça uma ofensa.

Acontece que, em primeiro lugar, essas pedras no caminho da Igreja nunca chegaram ao ponto de fazer com que sua carruagem abandonasse sua rota, e é fácil imaginar que não são necessárias muitas pedras para machucar alguns cavalos. O fato é que sempre houve muito mais cavalos puxando a carruagem do que pedras lhes impedindo de caminhar: é, de novo, a ideia que mesmo Voltaire entenderia sem muito esforço. Os membros da Igreja sempre foram, normalmente, pessoas como nossas velhas e adoráveis avós, que ainda hoje são parte dos grupos mais devotos da maioria das paróquias. Pode-se admitir que o anti-católico de hoje pense que a própria avó fora uma maníaca em sua juventude, mas não se pode admitir que ele pense que todas as avós foram maníacas.

Quando olhamos para qualquer grupo de pessoas, notamos que é mais provável que haja mais pessoas honestas do que corruptas entre esse esse grupo, a menos que trate-se, obviamente, de um grupo de políticos - e mesmo nesse caso é possível que isso aconteça. Dessa forma, não seria preciso lembrar que a maioria dos membros da Igreja são pessoas honestas: o que é preciso ressaltar é que essa honestidade não se limita às nossas avós. Padres, bispos e papas são tão humanos quanto aqueles que sentam no banco de trás para assistir à Missa, e, embora alguns deles eventualmente tenham negligenciado o próprio cristianismo que os acolheu, isso nunca esteve perto de ser o caso da maioria desses padres, bispos, etc. Nem mesmo hoje, que as coisas parecem tão catastróficas, isso é diferente.

Chesterton escrevera que o mundo não estava ficando pior, mas que os meios de comunicação simplesmente estavam ficando melhores: isso não só é verdadeiro, como explica todo o drama acerca da pedofilia na Igreja. A verdade é que os casos de pedofilia na Igreja sempre foram algo muito menor do que quiseram nos fazer acreditar. O exemplo dos Estados Unidos pode ilustrar o que digo: "a Conferência Episcopal encomendou um estudo independente ao John Jay College of Criminal Justice", uma das maiores autoridades em criminologia dos EUA. O estudo revelou que "de 1950 a 2002, num universo de 109.000, 4.392 sacerdotes americanos foram acusados de ter relações sexuais com menores", ou seja, 4,0% - um número obviamente pequeno, o que já seria suficiente para descartar todo o alarde que se faz sobre os terríveis "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica.

Talvez um plano de fundo sirva para evidenciar melhor o motivo de as acusações serem inapropriadas: "No mesmo período em que uma centena de sacerdotes americanos era condenada por abuso sexual de menores, o número de professores de educação física e técnicos de equipes esportivas juvenis – também esses em sua maioria casados – julgados culpados do mesmo delito pelos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos poderiam continuar, não só nos EUA. E, sobretudo, segundo os relatórios periódicos do governo americano, cerca de dois terços das doenças sexuais de menores não são transmitidas por estranhos ou professores – incluindo padres e pastores protestantes – mas por familiares: padrastos, tios, primos, irmãos e, infelizmente, também, pais".

O estudo ainda mostra que "pouco mais de uma centena foram condenados por tribunais civis. O baixo número de condenações por parte do Estado deriva de diversos fatores. Em alguns casos as verdadeiras ou supostas vítimas denunciaram sacerdotes já mortos, ou foram consumados os prazos de prescrição. Em outros, à acusação e à condenação canônicas não corresponde nenhuma violação a qualquer lei civil: é o caso, por exemplo, em diversos Estados americanos, do sacerdote que tinha uma relação consensual com uma – ou mesmo um – menor com mais de 16 anos. Mas também aconteceram muitos casos clamorosos de sacerdotes inocentes acusados. Esses casos foram multiplicados nos anos 1990, quando alguns escritórios de advocacia perceberam que poderiam obter transações milionárias com base em meras suspeitas".

E quanto às medidas e novos casos, lemos que "em relação aos EUA as cifras não se alterariam de forma significativa se somássemos o período 2002-2010, pois o estudo feito pelo John Jay College já observava o 'declínio claríssimo' dos casos no ano 2000. Os novos inquéritos são poucos, e as condenações, pouquíssimas, graças a medidas rigorosas introduzidas seja pelos bispos americanos, seja pela Santa Sé". Aqui é oportuno levantar minha segunda e terceira objeções às ascusações contra a Igreja: dizem que o Clero nunca tomou medidas para erradicar o problema da pedofilia, mas isso sempre foi o contrário da realidade: a única afirmação cabível é que quem acusa o Clero de não tomar medidas contra a pedofilia nunca passou dez minutos da vida investigando o assunto de forma apropriada. Depois, temos ainda o fato de que boa parte das pessoas "tão preocupadas" com o abuso sofrido por menores normalmente desconhecerem os escândalos fora da Igreja.

Isso, obviamente, se explica pela pouca ênfase que a mídia dá a esses casos; mas, principalmente, ao fato de aquele engajamento social do qual já falei ser, na maioria dos casos, algo que não existe: as pessoas simplesmente querem parecer preocupadas, mas só parecem realmente preocupadas quando leem alguma notícia no jornal ou quando visam montar um caso cumulativo contra a Igreja, e o fazem utilizando esse mesmo jornal. Muitos dos que se mostram tão chocados com os escândalos de pedofilia da Igreja nunca ouviram falar dos escândalos de pedofilia da ONU, por exemplo. Em documento entitulado The under-reporting of child sexual exploitation and abuse by aid workers and peacekeepers, a entidade britânica Save the Children reportara que "crianças que vivem em áreas atingidas por conflitos ou desastres continuam sofrendo abuso sexual por parte de funcionários de ONGs e membros de tropas de paz [...]. As tropas de paz da ONU 'são uma fonte particular do abuso em várias localidades, especialmente no Haiti e na Costa do Marfim'". Mais notável que a ignorância popular acerca dessas informações é o fato de que esses casos não são casos novos, e mesmo assim são poucos os "socialmente engajados" que levantam a voz contra esses abusos.

Vale ressaltar que, segundo Carina Charky, autora do documento, a maioria dos casos não é denunciada e [...] os responsáveis seguem impunes". Assumo que isso deveria ser muito mais chocante que o que ocorre na Igreja Católica, uma vez que a Igreja sempre se mostrou rigorosa no combate à pedofilia, a exemplo do declínio de casos nos EUA ou das Normas sobre os crimes mais graves, apresentadas por Federico Lombardi em 2010. E isso me leva à minha quarta objeção necessária: a má interpretação da palavra acusação. Pois é possível que o anti-católico argumente que o próprio Papa Bento XVI fora acusado de acobertar casos de pedofilia. E o problema é que boa parte das pessoas não percebe que uma acusação não caracteriza um fato, e que muitas vezes não significa nada. Eu posso muito bem acusar meu vizinho de ser o responsável pelas folhas que sujam meu quintal, alegando que elas caem de alguma árvore que o pertence. Mas os fatos de haver uma árvore no meu próprio quintal e de não haver árvore alguma no quintal de meu vizinho não me impedem de acusá-lo, e a origem das folhas que caem no meu quintal é tão escandalosa quanto os casos de pedofilia na Igreja: trata-se de um ou mais indivíduos demasiadamente preguiçosos - física ou mentalmente - querendo botar a culpa de algo em alguém que poderia ser culpado, mas a quem as evidências não parecem culpar de forma alguma.

Além disso, os jornais frequentemente reportam que Bento XVI "novamente é acusado de acobertamento", mas não explicam que trata-se de uma só acusação repetida várias vezes. A mesma acusação da terça-feira refeita na quinta-feira não caracteriza um novo caso, mas o mais importante é que nenhuma acusação deve ser levada adiante na ausência de provas: ninguém deve ser condenado na ausência de provas para a condenação. Isso é o resumo do que acontece contra o Papa, cujo caso refere-se a um episódio de abusos na Arquidiocese de Munique. "Veio à tona em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em 1986; no julgamento ficou provado, entre outras coisas, que a decisão de acolher na arquidiocese o sacerdote em questão não foi tomada pelo cardeal Ratzinger e não era sequer do seu conhecimento". Disso, entre outras coisas, tentou-se promover a prisão do Papa, como aconteceu na Inglaterra, por iniciativa de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, que o acusavam de crimes contra a humanidade. A desonestidade que isso revela torna-se mais trágica quando se descobre que o acusado do crime nunca foi condenado pela justiça comum, o que torna intrigante a mera possibilidade de se condenar o acobertamento do crime. Essas são minhas quatro objeções necessárias sobre a pedofilia na Igreja, mas, a quem interessar, possuo outros pares.

Quanto às sugestões restantes de Yuri, pouco precisa ser dito. Sobre a disseminação da AIDS, bastaria alertá-lo, se possível, do que disse o médico e antropólogo Edward Green, diretor do APRP (Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS) e uma das maiores autoridades mundiais no estudo das formas de combate à expansão da AIDS: "as evidências que existem apontam que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África". Ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. Ao Ilsuodiario, afirmou: "O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos 'risco compensação' [...]. Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, freqüentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa".

Na melhor das hipóteses, isso revela que quem precisa investir em educação sexual é o próprio Yuri, que na cega e devota tentativa de condenar a Igreja, dá-nos um verdadeiro motivo para querer libertá-la de quaisquer algemas, principalmente das algemas de meros preconceitos. Ademais, o Papa defende um conceito que os ateus costumam ter dificuldade em entender: trata-se da castidade. Na lógica de muitos ateístas, não recomendar o uso da camisinha implica em recomendar o sexo desregrado; e o curioso é que o cristianismo sempre teve muitas regras acerca do sexo, inclusive a de que ele só é lícito após o casamento, e exclusivamente entre marido e mulher. 

Finalmente, chego às últimas sugestões de Yuri, de que a Igreja deveria calar-se acerca de avanços científicos, e também sobre qualquer decisão política, econômica ou social de qualquer país. Ora, se essa análise deixou algo claro, espero que tenha sido o fato de que o único que deveria se calar acerca de todos esses pontos é o próprio Yuri, que, além de não ter fornecido evidências para nenhuma de suas alegações, tratou a Igreja de forma ofensiva e recorreu explicitamente a falácias e generalizações no mínimo cômicas. A Igreja deveria se calar se estivesse errada sobre aquilo que comumente fala, mas parece que a Igreja costuma estar certa sobre o que diz, e ainda que seja difícil admitir essa possibilidade, tratarei com mais seriedade aquele que, antes de mim, também buscar ser o mínimo sério.

É desnecessário ressaltar que Yuri sequer sabe o que é um herege - fato que ele admitiu no vídeo ao qual respondi em uma postagem entitulada Challenge Accepted -, e por isso termina seu discurso alegando que a Igreja torturou e queimou os descrentes que a ela se opuseram. Minha resposta, que gentilmente o enviei, talvez ainda não tenha sido lida por ele - possibilidade que eu admiti ser plausível, devido à falta de tempo de Yuri e pelo próprio tamanho da resposta. Mas se ele a leu, deve saber, para o seu alívio, que um herege não é um descrente, e que a Igreja nunca se aproveitou de poder algum para perseguir quem dela discordasse. Quanto a acusação de que a Idade Média não à toa é chamada de Idade das Trevas, é algo que, como disse anteriormente, responderei de forma definitiva em uma postagem futura.

O dramático discurso de Yuri contra a Igreja revela algo que me atingiu com enorme força e veracidade. Uma frase do falecido bispo norte-americano Fulton Sheen: "Não há mais de cem pessoas [...] que odeiam a Igreja Católica. Há milhões, no entanto, que odeiam o que elas erroneomente pensam ser a Igreja Católica, o que é, obviamente, uma coisa bastante diferente". O caso de Yuri Grecco parece ilustrar perfeitamente o drama que muitas pessoas sinceramente experienciam, e a minha maior esperança é que chegue o dia em que eles descubram o quanto estão errados. Se eu pudesse voltar no tempo e reviver o dia em que isso aconteceu comigo, passaria os minutos que antecederam ao momento pulando com enorme alegria.


Referências e recomendações:
  1. Special Pleading (I)
  2. Special Pleading (II)
  3. Suma Teológica: a existência de Deus
  4. 36 argumentos para a existência de Deus
  5. Goldstein on the cosmological argument
  6. Objections to the Causal Principle
  7. Whatever begins to existe has a cause
  8. The caused beginning of the Universe
  9. God and the Initial Cosmological Singularity
  10. Leibniz: Principle of Sufficient Reason
  11. William L. Craig vs Quentin Smith: Does God Exist?  
  12. In defense of the kalam cosmological argument 
  13. Quentin Smith: Causation and the logical impossibility of a Divine Cause
  14. The Blackwell Companion to Natural Theology
  15. Quem criou o Criador? 
  16. Déficit orçamentário no Vaticano
  17. As riquezas do Vaticano
  18. The U.N. sexual scandal 
  19. ONG denuncia abusos de crianças por tropas de paz
  20. Vaticano anuncia normas rígidas contra pedofilia
  21. Hitchens contra o Papa
  22. John Jay College sobre pedofilia na Igreja
  23. Papa e especialistas sobre a camisinha
  24. How the Catholic Church Built Westerm Civilization
  25. What's So Great About Christianity
  26. Caesar and Christ
  27. Christianity and Paganism, 350-750
  28. For Altar and Throne
  29. Challenge Accepted
  30. Thank God for the Four Horsemen
  31. Grandes mitos sobre a Igreja Católica
  32. A caridade católica
  33. Os monges
  34. Reasonable Faith
  35. Ortodoxia
  36. Para entender a Idade Média
  37. The Autumn of the Middle Ages
  38. Those Terrible Middle Ages
  39. God and Reason in the Middle Ages
Notas:
  1. É um fato curioso que, em um vídeo em resposta a Myrian Rios - http://www.youtube.com/watch?v=F8KEgkivSDA -, Yuri demonstra indignação porque a deputada generalizou os homossexuais como pedófilos, o que obviamente causa indignação. Porém, a generalização que ele fez quanto aos padres foi ainda mais exagerada e igualmente injusta, o que acaba revelando mais uma incoerência no julgamento do vlogger.

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