25 de fevereiro de 2011

Igreja e ciência

Conteúdo:
1 Considerações iniciais
1.1 Introdução à investigação
2 A Igreja indispensável
2.1 A Igreja e a Ciência
2.2 Outros cientistas notáveis

Há aquela ideia ateísta que diz que o cristianismo significa repressão científica, intolerância, guerras e derramamento de sangue. Proclama-se que as religiões são desnecessárias e deveriam ser extintas, já que apenas atrasam o progresso da humanidade ou resultam em derramamento de sangue. Richard Dawkins disse ser "contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos em não conhecer o mundo"; e no seu website encontramos frases como a de Bertrand Russell: "Eu digo, deliberadamente, que o cristianismo, como organizado em suas igrejas, foi e continua sendo o principal inimigo do progresso moral no mundo"; ou do físico Steven Weinberg, que disse que a "religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos pessoas bondosas fazendo boas coisas e pessoas maldosas fazendo coisas ruins, mas para que pessoas bondosas façam coisas ruins, é necessária a religião".


O cristianismo tem se destacado como o alvo preferido da maioria dos ateístas anti-religiosos. Parece haver um grupo de vozes que gritam unanimemente que a religião é inimiga da ciência, ou que religião é a espada que fere com a justificativa divina. Apesar da pretensão de ser um grito racional, a maior parte dos discursos contra o cristianismo - ou contra as religiões, em geral - é, normalmente, sustentada por premissas puramente emocionais. Os neo-ateístas frequentemente apelam ao paradoxo de Epicuro, e alegam que, se Deus existisse, não permitiria as inúmeras formas de mal e injustiças que a humanidade experiencia diariamente. Em um discurso popular na Universidade da California, Dawkins argumenta que devemos nos sentir ofendidos quando crianças são privadas de educação apropriada, ou ameaçadas de passar a eternidade no inferno, ou quando pessoas são apedrejadas até a morte. E enquanto a plateia o aplaude a cada dez segundos, é necessário notar que tal discurso certamente não é apropriado para as diversas generalizações que Dawkins promove sem o mínimo peso na consciência.

Não me parece inteligente expor alguns anseios que são compartilhados por quase toda a humanidade e acusar a religião de impedir que esses anseios tornem-se realidade. É verdade que é comum ouvirmos sobre mulheres que foram apedrejadas por religiosos, mas suponho que boa parte das pessoas também já ouviu a história da mulher que não foi apedrejada. E quem impediu essa mulher de ser apedrejada parece ter ensinado ao Ocidente que as mulheres não deveriam ser apedrejadas muito antes de Richard Dawkins pensar em se preocupar com esse problema. Me parece razoável esperar que, se uma pessoa deseja criticar alguma religião, ela deve ter coragem de dizer o nome dessa religião, já que a mera generalização pode ser qualquer coisa, mas nunca será honesta. Pois assim como não há um Cristo redentor em todas as religiões, também não se promove a poligamia em todas elas, e a verdade é que, enquanto muitos ateístas acreditam que as religiões são, no fundo e apesar de pequenas divergências, todas iguais, o que se nota é que, no fundo, elas têm pequenas semelhanças, mas são extremamente diferentes.

Chesterton expressou isso de forma muito clara (Ortodoxia, págs. 212-3):
O que pessoas modernas dizem com a maior convicção dirigindo-se a platéias apinhadas geralmente vai contra os fatos: na verdade, são nossos truísmos que são falsos. Aqui está um exemplo. Há uma frase de liberalidade fácil que é proferida muitas e muitas vezes em sociedades éticas e em parlamentos da religião: 'As religiões da terra diferem em ritos e formas, mas são a mesma coisa naquilo que ensinam'. Isso é falso; é o contrário dos fatos.

As religiões da terra não diferem muito em ritos e formas; elas diferem muito naquilo que ensinam. É como se alguém dissesse: 'Não se deixe enganar pelo fato de que os jornais The Church Times e The Freethinker parecem totalmente diferentes; de que um é impresso em papel pergaminho e o outro é esculpido em mármore; de que um é triangular e o outro é hectagonal. Leia-os e você verá que eles dizem a mesma coisa'.

A verdade, naturalmente, é que eles são semelhantes em tudo exceto no fato de que não dizem a mesma coisa. Um corretor ateu da bolsa de Surbiton parece exatamente igual a um corretor swedenborgiano da bolsa de Wimbledon. Você pode observá-los de todos os pontos de vista e submetê-los a uma investigação pessoal e agressiva sem descobrir nada swedenborgiano no chapéu, nem nada particularmente ímpio no guarda-chuva. É exatamente na alma que eles se dividem.

Assim, a verdade é que a dificuldade de todos os credos do mundo não está, como se alega, nesta máxima barata: que eles concordam no significado, mas diferem no mecanismo. É exatamente o oposto. Eles concordam no mecanismo: quase todas as grandes religiões da terra funcionam com os mesmos métodos externos, com sacerdotes, escrituras, altares, irmandades com votos, festas especiais. Concordam no método de ensino; diferem é no que ensinam.

Ambos os otimistas pagãos e os pessimistas orientais teriam templos, do mesmo modo que os liberais e os tóris têm jornais. Os credos que existem para destruírem um ao outro têm escrituras, do mesmo modo que exércitos que existem para destruírem um ao outro têm canhões.
Apesar de terem sido escritas há mais de cem anos, essas palavras soam bastante atuais: mais que isso, elas parecem ter sido escritas sob medida para pessoas como Richard Dawkins. A generalização que se nota em seus discursos é mero fruto de pouca reflexão somada a pouco conhecimento, e isso talvez explique sua tremenda popularidade. No fundo, rejeitar todas as religiões porque uma delas promove esse ou aquele absurdo é tão sensato quanto rejeitar todos os biscoitos porque alguns têm um sabor terrivelmente ruim. O fato é que reclamar do sabor desse ou daquele biscoito não depõe, de forma alguma, contra os biscoitos em geral. Isso pode, no máximo, reforçar uma ideia óbvia que começamos a desenvolver quando estamos amadurecendo: devemos fazer escolhas cuidadosas.

Por isso, não se deve submeter o cristianismo à crítica dirigida ao islamismo pelo simples fato de ambos serem religiões, bem como não se deve submeter Bach à crítica dirigida a Elvis pelos simples fato de ambos serem músicos. O fato de que muitos neo-ateus fazem isso não nos dá um bom motivo para rejeitar essa ou aquela crença, mas certamente nos dá um bom motivo para rejeitar o que eles dizem. Mesmo uma simples velhinha diabética que vê em biscoitos muito doces um risco para a sua própria vida entende que ela sempre pode se deliciar com um biscoito salgado, e ela seria muito mais feliz assim do que se fosse uma senhora revoltada contra todas as fábricas de biscoito do mundo.

De qualquer forma, o verdadeiro problema com o qual essa postagem pretende lidar não envolve apenas a generalização desonesta que se vê em livros e discursos neo-ateístas que são tão comuns quanto as mudanças de humor são às mulheres grávidas. Essa postagem não pretende distinguir o cristianismo de outras religiões, mas distinguir o próprio cristianismo do que normalmente se assume ser o cristianismo. Para muitas pessoas, o cristianismo é sinônimo de violência, tragédia, atraso e repressão - aqueles que acreditam nesses e em outros mitos são, muitas vezes, apenas vítimas de uma conspiração terrível: terrível, principalmente, por não ser, de fato, uma conspiração. Mas a verdade é que no que as pessoas simplesmente acreditam ou o que elas repetem não deve interessar a ninguém. Nossa preocupação deve ser, acima de tudo, com a verdade, e não se chega à verdade repetindo alguns absurdos ou promovendo ideias que parecem razoáveis: à verdade só se chega através do suor de dura dedicação e verdadeiro compromisso com a razão humana.


É certo que muitos dos neo-ateus são completamente ignorantes quanto a História: os "líderes" e proponentes do movimento já deixam isso bem claro (Dawkins, Hitchens, Dillahunty, etc.). E é igualmente certo que pensam dominar o assunto, e por isso o usam para justificar sua aversão a Igreja. Ouvir um ateu dizendo que não admite uma Igreja que fez o que fez durante a Inquisição é a coisa mais normal do mundo. Mas como já foi mostrado aqui, em outras postagens, tais afirmações partem da mais completa e desprezível ignorância, e a ignorância nada tem de bela. Mário Ferreira dos Santos diz que é "dever do homem, porque é homem, [...] aumentar o seu saber, ampliá-lo e purificá-lo dos vícios. Ora, o conhecimento e a ciência são hábitos porque os adquirimos. Não nascemos sábios, mas nos fazemos sábios. [...] Pode uma sociedade humana orgulhar-se de seus homens ignorantes e que nada fazem para ampliar o seu saber? Pode orgulhar-se, sim, de seus homens que tudo fazem para aumentar seu poder. A humanidade não pode conquistar tantos bens, que lhe são úteis, com covardes e ignorantes" (Mário Ferreira dos Santos, Cristianismo: a religião do homem, pág. 47). Os homens que celebram os ignorantes são, eles mesmos, igualmente ignorantes. A humanidade deve abominar esta celebração à falta de conhecimento, tão comum nos dias de hoje.

Com o advento da internet e a facilidade e velocidade de comunicação, surgiu este cenário em que toda opinião tem seu valor e todos estão certos em alguma medida. Somando-se isso à qualidade do ensino oferecido pelas escolas, produziu-se um jovem peculiar, cuja rebeldia sempre lhe permite ter razão e autenticidade para apunhalar tudo que não lhe agrada, mesmo quando sua vítima é um inocente. A verdade é que as vítimas da rebeldia dos jovens de hoje são aquelas que eles decidem se merecem ou não serem apunhaladas - e mesmo os critérios são por eles mesmos decididos. Há ainda aquela ideia de que o jovem é a verdadeira vítima, o que não é totalmente errado, mas essa avaliação se esquece de nos alertar que o jovem não é mais criança, e ele é o primeiro a se julgar capaz de pensar como um adulto.

Pois nesse ambiente bizarro em que não se sabe quem é o lobo e quem é o cordeiro, surgiu a oportunidade perfeita para atacar a religião. Segundo Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, "sem exceção, todos os povos da história humana sempre tiveram alguma religião. Essa presença constante da religião na história humana nos leva a pensar que a religião talvez seja parte integrante daquilo que nos torna humanos e que conhecer as religiões é um meio de nos conhecermos melhor como seres humanos" (http://assinantes.luizgonzagadecarvalho.com/gravacoes-de-aulas/religioes-do-mundo-i/). Segundo uma pesquisa de 2007 (http://www.adherents.com/Religions_By_Adherents.html), estima-se que 84% das pessoas do mundo possuem religião, 8% são teístas sem religião e os outros 8% são agnósticos, ateístas, etc. E ao contrário de um pensamento bastante comum entre não-religiosos, de que as religiões deixaram de crescer, estudos mostram que está acontecendo exatamente o contrário. É a população secular que está diminuindo, enquanto a população religiosa cresce razoavelmente.

Segundo os sociólogos Ron Inglehart e Pippa Norris no livro Sacred and Secular: Religion and Politics Worldwide, algumas das sociedades mais seculares (mais desenvolvidas) estão "gerando cerca de metade do número de crianças necessário para repor a população adulta". Já as sociedades mais religiosas (mais pobres) "apresentam índices de natalidade bem acima do nível de reposição, e muitas estão gerando duas ou três vezes mais o número de crianças necessário para repor a população adulta. O efeito líquido é que a população religiosa está crescendo rapidamente, enquanto a população secular está encolhendo". A Europa, o continente mais secular do planeta, apresenta as taxas de natalidade mais baixas já registradas desde a Peste Negra, em que um a cada três europeus adoeciam. Deste modo, a secularização parece ter uma característica autodestrutiva, que se encontra em sua própria essência. A defesa do aborto e a atual ideia de que filhos podem arruinar a vida dos pais, que já se espalharam pelo mundo todo, acabarão reduzindo cada vez mais a população, proporcionalmente à medida que se promove a própria secularização. Em algumas décadas o secularismo sucumbirá, pois sua própria essência o dirige ao fracasso.

E deve-se abandonar qualquer explicação puramente econômica do fenômeno abordado. Países muçulmanos estão longe de serem os mais pobres do mundo, bem como os judeus, católicos e protestantes norte-americanos estão longe de serem os grupos mais pobres do país, e ainda assim possuem grandes famílias. As baixas taxas de natalidade devem-se principalmente à própria secularização. Em contrapartida, até em países onde a religião é mal vista e religiosos são perseguidos, o número de fiéis vem crescendo. Na China já há cerca de cem milhões de cristãos, e segundo David Aikman em seu livro Jesus in Beijing, a China será, dentro de poucas décadas, o maior país cristão do mundo.

Assim, enquanto em países majoritariamente cristãos os ateus proclamam que Darwin matou Deus, em países ateus em que os cristãos precisam ir até Igrejas subterrâneas ocorre um exemplo de fé e determinação que os próprios darwinistas quebram a cabeça para explicar. Enquanto muitos ateus dizem que o cristianismo só está vivo ainda hoje por ter queimado em suas fogueiras todos que se opunham a ele, novamente notamos que ele continua vivo pela fé que seus adeptos depositam na veracidade da divindade de Jesus Cristo. "Novamente" porque não é algo diferente do que já acontecera no Império Romano, onde o cristianismo cresceu de forma absurda apesar das perseguições que só cessaram no Século IV.

Não é raro ouvir ateístas ligarem a longevidade da fé cristã ao poder que a Igreja sempre teve - esse argumento tenta, inclusive, dar conta das contribuições da Igreja à humanidade, em que se diz que a Igreja só beneficiou a humanidade em certos momentos devido ao seu poder e influência inigualável, e que essas contribuições não valem de nada se comparadas ao atraso científico e repressão social que também são responsabilidades dela. Porém, o argumento falha, primeiramente, por não levar em conta aspectos importantes da história da Igreja - não se descreve, nele, como a Igreja veio a conquistar o poder e influência que ela tem, desconsiderando seu início marcado pelo martírio, por exemplo. Em vez disso, parece que se assume que ela já começara poderosa e influente, de maneira que sempre teve a cristandade à sua mercê. Aliás, é preciso ter cuidado ao se falar de poder, porque há aquele tipo de pessoa que tende a associar poder a algo ruim e, nesse caso particular, a uma conquista ilícita do mesmo, o que não é verdade: se a Igreja tem "poder" e influência, é porque o mereceu; não obrigou que ninguém se submetesse a ela, pois foram as próprias pessoas que decidiram por conta própria a ela se submeterem. O segundo ponto falho é relacionado à uma série de visões distorcidas sobre vários eventos patrocinados pela Igreja, em que se destacam as Cruzadas e a Santa Inquisição - já abordados neste blog (http://www.caosdinamico.com/2010/11/grandes-mitos-sobre-igreja-catolica-1.htmlhttp://www.caosdinamico.com/2010/11/grandes-mitos-sobre-igreja-catolica-2.html).

No entanto, não são apenas os mitos sobre a Igreja que evidenciam a ignorância ateísta que insistirei em acusar, mas também as glórias da Igreja que poucos conhecem, e quando conhecem preferem não acreditar. Esse é um problema sério, visto que, quando a doutrinação contra a instituição se solidifica, nada apresentado em sua defesa penetra a crosta de preconceito que por anos se moldou e se fortaleceu, ainda que tenha se fortalecido à base de mentiras.

Ora, um dos maiores problemas que se enfrenta ao debater com um estranho é a falta de confiabilidade que a estranheza desperta em nós. É possível entender isso facilmente: quando eu tenho uma ideia x, ainda que sem bases justas para tê-la, e uma pessoa questiona minha ideia e sugere que a ideia y seja mais plausível, é possível que, ainda que a pessoa ofereça bons argumentos contra x e a favor de y, eu acabe não convencido de que a ideia y > x. Os motivos podem variar da simples teimosia até o injustificável orgulho. Duvidar dos estranhos e questionar o adversário, porém, não é um erro, mas sim uma necessidade: não é no ceticismo que está o problema. O problema está em, mesmo após uma argumentação convincente a favor de y, eu sequer investigar por conta própria se y é realmente mais plausível que x. Neste caso eu não estaria negligenciando apenas a informação de um estranho, mas sim a minha própria oportunidade de conhecer a verdade, ou seja, estaria admitindo que minha posição se baseia na fé cega, em vez de se basear na realidade - fé no próprio ego e consciência, que resulta na incapacidade de admitir a possibilidade de estar errado.

Muitos de nós nos promovemos à condição de nossa própria autoridade, isto é, nos fazemos inquestionáveis. Não só isso, admitimos que pouquíssimas pessoas tenham autoridade sobre nós, e assim limitamos esta autoridade dos estranhos e mais jovens (normalmente). Vemos que, pela experiência, é comum concedermos autoridade aos mais velhos. Assume-se que a sabedoria é mais plena naquele que mais andou com ela, e por isso questioná-la requer nível de igualdade. Não é errado que façamos tal suposição - é precisamente isto que devemos supor -, mas é importante que lembremos que para toda regra, há exceção. Digo isto para introduzir o esclarecimento de que a autoridade pode ser reconhecida em quem não esperamos naturalmente. Isto implica que, às vezes, o mais novo conhece mais que o mais velho, e que mesmo o estranho tem o direito de ser levado em consideração.

Na prática, isso significa que, se nos é oferecido argumentos que com força abalam nossas próprias ideias, esses argumentos devem ser investigados, ainda que vindos de quem não desperta nossa confiança, pois é injusto que nos façamos inquestionáveis e deixemos de respeitar quem parece estar com a razão. É possível que a supervalorização de si mesmo não nos leve à realidade como ela realmente é, mas, em vez disso, à realidade tal como desejamos que ela seja. Como é sabido, a verdade pode machucar, mas machucar-se ninguém quer.

Tal introdução é necessária porque, diante do que será apresentado aqui, a primeira reação causada será de ceticismo extremo, quando não de desdém. Em uma discussão no Orkut, há alguns meses, um usuário se acabou em gargalhadas porque afirmei que "a Igreja [católica] nunca foi inimiga do conhecimento" (confira). O mesmo rapaz, completamente ignorante sobre o que ensina a Igreja, afirmou, quando confrontado com a importância dada a razão por São Tomás: "não nego a genialidade de São Tomás de Aquino, porém ele mesmo negou as leis morais cristãs no momento em que ele abraçou a razão para testar suas questões". Tudo isso porque, na cabeça do rapaz, razão e fé não se relacionam e o cristianismo vê a razão como uma maldição, e fez justificando-se na própria incapacidade de entender um verso de Jeremias (17: 5), sugerindo que o verso implica em desprezo à razão humana. Vejam que fantástico o raciocínio: um dos santos e doutores mais importantes da Igreja negligenciou a moral da Igreja em suas obras sobre a Igreja, porque usou a razão.

Sugeri ao amigo que desse uma olhada no livro God and Reason in the Middle Ages, de Edward Grant, mas não acredito que ele sequer tenha considerado tal possibilidade. Já na breve discussão que tivemos, ficava clara a aversão a qualquer defesa da Igreja, ainda que contra isso ele só tivesse a própria opinião baseada em nada. Achei irônico que ele reclamasse de uma doutrinação que a Igreja promoveu no mundo, sem ter se dado conta de que também foi vítima de uma doutrinação: a cultural anti-cristã. Um exemplo claro da desconfiança pela estranheza seguida de desinteresse pela busca da verdade.

Ainda vale ressaltar que, quando se tomar uma posição, não se deve ignorar a posição do outro, pois isso prejudica a nossa própria. Se entrarmos em contato com as ideias do oponente e formos capazes de identificar as falhas nelas contidas, mais preparados nos tornamos. Portanto, ouvir o que tem a dizer nosso adversário é vantajoso de qualquer forma: se estamos errados, permite-nos caminhar ao que é certo; se estamos certos, permite-nos lidar com mais falhas que conduzem ao erro. Lembremos, pois, da famosa frase de Sun Tzu: "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas". Conhecer os dois lados de um debate é, assim, honesto e altamente recomendado.

Este é o título do primeiro capítulo do best seller de Thomas Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental. É um exemplo perfeito de must read para qualquer "juiz" que adora condenar a Igreja por ela ser hostil à ciência, inimiga do progresso e câncer em forma de instituição.

Aqui inicio um passeio por algumas páginas desse livro, apontando suas riquezas e atentando para as noções populares do tópico que pretendo esclarecer - a Igreja e a ciência -, opondo-as com informações que por tanto tempo foram sufocadas. Além disso, nenhuma pessoa conseguiria imaginar o mundo sem os benefícios oferecidos pela nossa sede pelo conhecimento e razão (este é, pois, a principal bandeira ateísta), sem universidades, hospitais, instituições de caridade ou sem nossa afeição pela nossa espécie, motivada pelo pensamento de que somos todos iguais e que devemos nos respeitar como família, unidos pelo bem de todos e de nós mesmos, independente da nossa condição, e protegidos por leis que nos garantem o direito à vida, à educação, à propriedade e à liberdade expressão. O que ninguém imagina, no entanto, é que todas essas ideias nasceram na Igreja e através dela se espalharam pelo mundo, fazendo nascer entre nós o que hoje se chama de modelo de vida ideal. E estando tudo isto fixado, é necessário investigar e responder: é a Igreja Católica, de fato, indispensável?

Essa investigação não pode ser presa a um autor ou à opinião de quem desconhece o assunto, portanto, visa evidenciar o consenso entre as autoridades, bem como suas respectivas fontes de informação, porque a isto está diretamente ligada a credibilidade do material. Em relação a isto cabe o exemplo de Leandro Narloch, que mostra em seu livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil que "os historiadores marxistas que engrandeceram Zumbi [dos palmares] tinham um problema: não há sequer um documento dando detalhes da personalidade ou da biografia do líder negro. [...] O historiador gaúcho Claudio Pereira Elmir procurou por cinco anos algum vestígio dos registros policiais que Décio cita. Não encontrou nenhum" (sobre um típico mito literal brasileiro que se celebra em escolas como se fosse verdadeiro).

Não me cabe inventar dados ou distorcer informações - tal como exemplificado acima - para chegar a alguma conclusão; isto seria deveras desonesto e desqualificaria minha pesquisa enquanto busca pela verdade. A História contada a partir de um determinado interesse nunca resultará em um relato acurado da realidade passada - por isso é interessante as citações que o autor faz de outros autores não-católicos ou mesmo anti-católicos -, e para saber como interesses de várias sortes podem afetar o passado, basta abrir uma apostila de ensino médio. Uma coisa é oferecer diversos caminhos que levem a diferentes conclusões; outra bem diferente é oferecer um só caminho que leva a uma conclusão inevitável, ainda que esta não seja realmente válida. Isso se chama doutrinação: w leva a x, y leva a z; como z não serve ao meu propósito, y está descartado. Inevitavelmente, a única conclusão será x, porque somente a ponte que leva a x está disponível. Assim, para chegarmos a z, só alugando um barco ou nadando até o outro lado. Ainda que x não requeira esforço, porquanto nos foi dado, é nossa sede pela verdade que nos motiva a atravessar o rio, mesmo que a nado, pois só conhecendo x e z poderemos analisar honestamente qual conclusão é mais plausível.

Podemos facilmente compreender porque muitas pessoas são levadas a acreditar em mitos sobre a Igreja: é a esta conclusão que muitos querem que elas cheguem. E não se limita a esta questão a variedade de exemplos. A escravidão, tal como aprendemos na escola, nunca relatará que brancos já foram escravizados no passado (http://www.revisionisthistory.org/forgottenslaves.html), ou que negros escravizavam negros e os vendiam aos brancos (http://paginadoenock.com.br/home/post/5479): tais informações ferem diretamente a validade do politicamente correto, e deste modo, reconhecê-las se torna um crime. Também não se lerá em nenhum colégio que o aquecimento global é uma farsa e que não há evidências científicas capazes de suportá-lo (http://www.acquacon.com.br/drenagem/palestras/luizcarlosmolion_artigo.pdf); muito menos que quase 10.000 cientistas com Ph.Ds publicaram uma petição contra essa propaganda de caráter e finalidade exclusivamente políticos (http://www.petitionproject.org). A doutrinação, seja ela pelos meios de "educação" ou pela grande mídia, não se preocupa com a verdade, mas apenas com a consumação do próprio interesse. Todos nós, mesmo os mais ingênuos, já vimos o suficiente para saber como funciona a política, seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo: mentir é uma lei; nunca na história desse país alguém foi eleito dizendo a verdade. E provavelmente, nunca será.

A verdade não é o motor do mundo e só existe pelos poucos que ainda a respeitam. Se você não respeita a verdade, nada do que será escrito nas próximas linhas servirá a você. Aqui, porém, não tratarei de todos os tópicos abordados pelo livro de Woods, pois o ideal é ler o próprio livro, que é de uma riqueza de informações impressionante. Me limitarei a tratar de um dos casos mais distorcidos sobre a Igreja atualmente: sua relação com a ciência. A propaganda se tornou tão forte e persuasiva, que mesmo os católicos se tornaram vítimas das mentiras. Todo mundo "sabe" que a Igreja é inimiga da ciência, certo? A caça aos mitos começa!


A afirmação mais justa a se fazer, antes de qualquer coisa, é a seguinte: a ciência, tal como a conhecemos, deve seu florescimento a Igreja Católica. É uma afirmação um tanto chocante, mas ainda assim verdadeira. O historiador da ciência Stanley L. Jaki, Ph.D. em física, destaca em sua obra como um pensamento fundamental à ciência escapou a civilizações inteiras; a ideia de que o mundo é ordenado e funciona de acordo com padrões: as leis da natureza. A regularidade do Universo é um dos pressupostos imprescindíveis da ciência; sem ordem, que experimento poderia ser repetido e confirmado como certo? A ideia vem do Livro da Sabedoria, de Salomão, que desde Santo Agostinho (354 - 430) já era destacada: sed omnia in mensura, et numero et pondere disposuisti (mas todas as coisas dispuseste com medida, quantidade e peso), Sabedoria 11: 21.

Em seu livro Science and Creation, Jaki  escreve: "O vínculo que há entre a racionalidade do Criador e a constância da natureza merece ser notado porque é aí que se encontra o começo da ideia de que a natureza é autônoma e têm leis próprias". Em Salmos 148: 6-7, lê-se: "Porque Ele disse, e foram feitas as cousas; Ele mandou, e elas foram criadas. Ele as estabeleceu para sempre, e pelo século do século; preceito pôs, e não se quebrantará". E aí podemos perceber que, para o cristão, a ordem sempre existiu, desde o gênesis, e sempre existirá. Por isso que Deus concede-nos a "fértil abundância de uma anual colheita" (Jeremias 5: 24), pois as coisas se repetem e sempre são como foram dispostas: "Isto diz o Senhor, que dá o Sol para a luz do dia, a ordem da Lua e das estrelas para a luz da noite". (Jeremias 31: 35). Todos nós dormimos à noite sabendo que o Sol nascerá de manhã, pois a órbita dos planetas é constante. Se jogarmos um objeto pesado para o alto quatro vezes, assumimos que quatro vezes ele retornará à nossa mão, pois a gravidade não funciona três vezes e na quarta se ausenta.

Uma ideia aparentemente tão óbvia não se manifestou em influentes culturas não-cristãs, e isto, segundo Jaki, fez com que nelas a ciência sofresse um "aborto espontâneo". São elas as culturas árabe, babilônica, chinesa, egípcia, grega, hindu e maia, e o que impediu o nascimento do pensamento científico foi a carência da crença em um Criador que dotou a sua criação de leis físicas consistentes, que os levaram a conceber o mundo de modo panteísta. A única exceção é a cultura árabe (maometana), que concebe um Deus único, mas tão soberanamente livre que não se submeteria nem mesmo às leis da racionalidade que Ele mesmo criou. Isto significa que, de acordo com o Islã, a ordem pode ser alterada se assim Allah desejar: o Sol não é uma certeza do próximo dia, a força da gravidade pode ser alterada, o bem de hoje pode ser mal amanhã, etc. Por isso, na condição de olhar para o Universo e tentar desvendá-lo, a ciência seria inútil ao islã, pois o que é verdade agora poderia deixar de ser alguns segundos depois, se assim Allah determinasse.

Jaki atenta para o fato de que essas culturas alcançaram notáveis feitos tecnológicos, mas delas não surgiram nenhum tipo de pesquisa científica formal e sustentável. Em adição a isto, diz Rodney Stark: "as primeiras inovações greco-romanas, do Islã, da China Imperial, sem mencionar as realizações dos tempos pré-históricos, não constituem ciência e podem ser descritas mais adequadamente como artesanato, savoir-faire, habilidade, tradição, treinamento, técnica, tecnologia, engenharia ou, simplesmente, conhecimento".

Paul Haffner observa que os babilônicos se destacaram pela observação do céu, coletaram dados astronômicos e desenvolveram rudimentos da álgebra, mas pelo seu ambiente espiritual e filosófico - assumiam que a ordem natural era fundamentalmente incerta -, dificilmente se poderia esperar que dirigissem seus dons práticos para alguma coisa que merecesse ser chamada de ciência. Quanto à China, o historiador O marxista Joseph Needham, em Science and Civilization in China, argumenta: "Não é que, para os chineses, não houvesse ordem no universo, mas, mais exatamente, que não havia uma ordem estabelecida por um ser racional e pessoal; por isso, não existia a convicção de que alguns seres racionais pessoais fossem capazes de transpor para as suas linguagens terrenas inferiores o divino código de leis decretado antes de todos os tempos".

Segundo Jaki, os gregos foram os que chegaram mais perto de desenvolver uma ciência de tipo moderna. Eles atribuíam um propósito aos agentes imateriais do cosmos material. "Aristóteles - exemplifica Woods - explicava o movimento circular dos corpos celestes pela 'afeição' que os 'primeiros motores' de cada esfera celeste - esfera da Lua, esfera do Sol, etc. - teriam por esse tipo de movimento". No que diz respeito ao progresso da ciência, coube aos escolásticos da Idade Média promover uma autêntica despersonalização da natureza.

As maiores contribuições árabes se deram no campo da medicina e da ótica, e uma parte importante da história intelectual no Ocidente se deve à difusão por todo o mundo ocidental, no Século XII, de traduções dos clássicos da antiga Grécia feita por muçulmanos (sobretudo Hipócrates e Aristóteles). Porém, Woods observa que "essas contribuições se deram apesar do islã, mais do que por causa dele". Jaki ressalta que os muçulmanos ortodoxos rejeitaram totalmente qualquer concepção do Universo que envolvesse leis físicas estáveis, já que a autonomia absoluta de Allah não poderia ser limitada pelas leis naturais, caracterizando-as assim como aparentes, não passando de meros "hábitos" que poderiam ser modificados a qualquer momento.

Na contramão de tudo isso, o cristianismo, já no seu nascimento carregava a ideia da ordem. Woods comenta que o catolicismo "admite a possibilidade de milagres e reconhece o papel do sobrenatural, mas a própria ideia de milagre já sugere que se trata de algo incomum; aliás, só faz sentido falar em milagre em contraste com um pano de fundo de um mundo naturalmente ordenado". O raciocínio é muito simples: se não há ordem, como se pode dizer que se quebrou a ordem (que não existe)? Sobre isso Santo Anselmo faz a distinção entre potentia ordinata e potentia absoluta de Deus (poder ordenado e poder absoluto): Deus quis nos revelar algo sobre a Sua natureza, sobre a ordem moral e sobre os Seus planos de redenção, e por isso devemos seguir determinado comportamento, pois podemos confiar que Ele se manterá coerente.

A ciência, como sabemos, se baseia em alguns pressupostos. Ora, foi a filosofia cristã que ofereceu os pressupostos - as bases - da ciência que hoje conhecemos. E apoio a isso encontramos em Nietzsche, que escreve que "não existe uma ciência 'sem nenhum tipo de pressupostos' [...]. Sempre tem de vir em primeiro lugar uma filosofia, uma 'fé', para que a partir dela a ciência possa adquirir uma direção, um significado, um limite, um método, um direito de existir [...]. Continua hoje a ser uma fé metafísica o que sustenta a nossa fé na ciência". Este tema já foi abordado em "Pressupostos da ciência e da religião" (http://www.caosdinamico.com/2010/12/pressupostos-da-ciencia-e-da-religiao.html).

Certos de que o mundo era ordenado e que Deus criou um Universo inteligível às nossas mentes, os católicos estavam preparando o terreno para aquilo que através deles mesmos se tornaria algo muito maior: a ciência moderna, que, exatamente ao contrário do que se pensa, nasceu na Idade Média - ironicamente taxada, hoje, de Idade das Trevas. O conceito de inércia, elemento fundamental da transição da física antiga para a moderna, descrito na primeira lei do movimento de Isaac Newton no Século XVIII, teve precedentes quatro séculos antes de Newton. Quanto a isso se destaca o sacerdote Jean Buridan (1295-1358), que embora não tivesse se livrado completamente dos limites da física aristotélica, ofereceu um profundo avanço teórico: rejeitando a ideia aristotélica de que o movimento dos corpos celestes era eterno, sugeriu que Deus, após tê-los criado, havia lhes conferido o movimento, e que esse movimento nunca se havia dissipado porque os corpos celestes, movendo-se no espaço exterior, não encontravam atrito e, portanto, não sofriam nenhuma força contrária que pudesse diminuir sua velocidade ou interromper seu movimento. Aí estavam contidas as sementes das ideias de momento físico e inércia.

Ao surgimento da ideia do movimento inercial, foi fundamental o contexto cristão, visto que as outras culturas abordadas por Jaki se prendiam à ideia de um Universo eterno, enquanto os cristãos acreditavam na criação ex nihilo, tendo assim um começo absoluto - ideia hoje confirmada pelo Big Bang. Essa percepção decisiva diretamente ligada à fé católica de Buridan teve um profundo efeito na ciência e culminou na primeira lei de Newton, quatro séculos depois. Jaki escreve que, "uma vez que esse consenso amplo se apoia no credo ou na teologia, pode-se dizer que a ciência não é propriamente 'ocidental', mas 'cristã'". Michael White, biógrafo de Newton, revela, aliás, em seu livro "Isaac Newton: The Last Sorcerer", que a fascinação de Isaac pelo rei Salomão o influenciou na percepção da gravitação universal.

Voltando à "Idade das Trevas", já no Século XII - mostra o historiador David C. Lindberg -, na escola da catedral de Chartres, manifestou-se entre seus estudiosos uma grande ânsia para desenvolver explicações baseadas em causas naturais. O estudante de Chartres, Adelardo de Bath (1080-1142) disse que "é pela razão que somos homens. Assim se virássemos as costas para a surpreendente beleza racional do Universo, mereceríamos, sem dúvida, ser expulsos dele, como um hóspede que se comporta mal na casa em que foi recebido. Não pretendo tirar nada de Deus, porque tudo o que existe provém d'Ele [...]. Mas devemos dar ouvidos aos verdadeiros horizontes do conhecimento humano, para só explicar as coisas por meio de Deus depois que o conhecimento racional tiver fracassado".

Guilherme de Conques (1090-1154) comenta que "a natureza da qual [Deus] dotou todas as suas criaturas leva a cabo todo um plano de operações, e essas também se dirigem à sua glória, já que foi Ele quem criou essa mesma natureza". A visão de Adelardo e Guilherme, aliás, em nada se assemelha com o Deus das Lacunas. Deus criou o mundo e as leis e padrões nele contidos, o que significa que Deus criara algo autêntico, cuja natureza não depende de frequente intervenção. O Deus das Lacunas é aquele comumente invocado por quem sequer é capaz de compreender que, ainda que o mundo não necessite ter as pilhas trocadas uma vez por dia, não seria autossuficiente se não fosse projetado como tal. Foi do querer de Deus que o mundo operasse assim, e foi para entender este querer que o homem começou a investigar o Universo, pois à medida que conhecemos melhor o Universo, melhor estamos conhecendo o próprio Deus.

 O historiador da ciência Thomas Goldstein afirma, sobre os estudantes de Chartres: "Formularam as premissas filosóficas; definiram o conceito básico do cosmos a partir do qual viriam a desenvolver-se todas as ciências particulares posteriores; reconstruíram sistematicamente o conhecimento científico do passado e lançaram assim uma sólida base tradicional para a futura evolução da ciência ocidental. Cada um desses passos parece tão crucial que, tomados em conjunto, só podem significar uma coisa: que, em um período de quinze ou vinte anos, por volta de meados do Século XII, um punhado de homens empenhou-se conscienciosamente em lançar as bases do progresso da ciência ocidental e deu todos os principais passos necessários para atingi-lo". Thierry de Chartres rejeitou completamente a ideia de que os corpos celestes tivessem algo de divino - como vemos em Platão - ou fossem compostos de matéria imperecível. E negando a divindade desses corpos, afirmou que todas as coisas "estão sujeitas a mudanças e podem perecer", e deste modo nos contemplou com uma ideia crucial ao desenvolvimento da ciência: que todo o Universo, não só a Terra, está sujeito às mesmas leis. Goldstein antecipa que Thierry ainda será reconhecido como "um dos verdadeiros fundadores da ciência ocidental".

É bem provável que este reconhecimento demore a vir ou talvez nunca venha, já que toda glória relacionada à Igreja deve ser negligenciada, mas o que fica claro é que, além do ambiente propagandista difamatório ao qual estamos todos submetidos, a verdade se mostra claramente a favor da Igreja Católica. E antes essa verdade representasse pouca coisa: mas nem 10% dessas glórias esquecidas foram expostas, até aqui. Após a morte de São Tomás de Aquino, o bispo de Paris compilou 219 proposições aristotélicas inconciliáveis com a visão católica do mundo (Condenações de 1277). Foi esse exato documento que - segundo os historiadores Pierre Duham, A.C. Crombie, Edward Grant e David C. Lindberg - culminou no começo da ciência moderna, porque "forçou os pensadores - escreve Woods - a emancipar-se das restrições da ciência aristotélica e a considerar possibilidades que o grande filósofo nunca imaginara". Aristóteles negava a possibilidade do vácuo, também considerava que os corpos celestes possuíam alma e ainda que o Universo era eterno, por exemplo.

No espírito de desafiar essas contradições entre a doutrina e o filósofo, as Condenações "parecem ter promovido definitivamente um modo mais livre e imaginativo de fazer ciência", segundo o historiador Richard C. Dales. Em seu livro "The De-Animation of the Heavens in the Middle Ages" (A des-animação dos céus na Idade Média), Dales escreve: "Um sistema adequado de dinâmica celestial foi um dos maiores sucessos da 'revolução astronômica' dos tempos modernos". Mesmo depois de as Condenações terem sido esquecidas, a discussão provocada pelas afirmações anti-aristotélicas continuou a influenciar a história intelectual europeia, até o início da Revolução Científica. As Condenações, aliás, não foram feitas pelo Papa; se deram na Universidade de Paris, e apesar de terem chegado até Oxford, não representavam uma obrigação católica.

Não é insensato concluir que, diante deste cenário que se formara, a maioria dos cientistas que viriam a existir seriam católicos; foi exatamente isto que aconteceu. O franciscano Roger Bacon (1214 - 1294) se destacou no campo da matemática e da ótica, e é considerado um dos precursores do método científico. Sobre Santo Alberto Magno (? - 1280), professor de São Tomás de Aquino, afirma o Dictionary of Scientific Biography: "Perito em todos os ramos da ciência, foi um dos mais famosos precursores da ciência na Idade Média". Suas obras abrangiam a física, lógica, metafísica, biologia, psicologia e várias outras ciências. Roberto Grosseteste (1168 - 1253) é conhecido como o primeiro homem a deixar por escrito o conjunto completo dos passos que se devem dar para realizar uma experiência científica.

Em God and Nature: Historical Essays on the Encounter Between Christianity and Science, Lindberg e Numbers relatam que o padre Nicolau Steno "estabeleceu a maior parte dos princípios da geologia moderna" e é chamado de "pai da estratigrafia". Segundo Alan Cutler em seu The Seashell and the Mountaintop, "Steno foi o primeiro a afirmar que a história do mundo podia ser reconstituída a partir das rochas, e assumiu pessoalmente a tarefa de deslindá-la". Hoje temos, inclusive, os Princípios de Steno.

Mas foram os jesuítas que mais se destacaram nas ciências. Segundo Jonathan Wright em seu The Jesuits: Missions, Myths and Histories, eles "contribuíram  para o desenvolvimento dos relógios de pêndulo, dos pantógrafos, dos barômetros, dos telescópios refletores e dos microscópios, e trabalharam em campos científicos tão variados como o magnetismo, a ótica e a eletricidade. Observaram, em muitos casos antes de qualquer outro cientista, as faixas coloridas na superfície de Júpiter, a nebulosa de Andrômeda e os anéis de Saturno. Teorizaram acerca da circulação do sangue, sobre a possibilidade teórica de voar, sobre a maneira como a lua influi nas marés e sobre a natureza ondulatória da luz. Mapas estelares do hemisfério sul, lógica simbólica, medidas de controle de enchentes [...], introdução dos sinais mais e menos na matemática italiana - tudo isso foram realizações jesuíticas, e cientistas como Fermat, Huygens, Leibnitz e Newton não eram os únicos a ter jesuítas entre os seus correspondentes mais apreciados".

J.L. Heilbron, em Electricity in the 17th and 18th Centuries: A Study of Early Modern Physics, considera os jesuítas como a fonte "mais importante de contribuições para a física experimental no Século XVII". Referente à ótica, segundo Ashworth Jr., "praticamente todos os tratados da época foram escritos por jesuítas", que também recolheram seus dados em grandes enciclopédias e difundiram a pesquisa através da comunidade acadêmica. Quando Charles Bossut, um dos primeiros historiadores da matemática, compilou uma lista dos matemáticos mais eminentes de 900 a.C. até 1800 d.C., 16 das 303 pessoas listadas eram jesuítas - um número notável se atentarmos para o fato de que os jesuítas só existiram durante dois desses vinte e sete séculos. Foram os primeiros a levar a ciência ocidental a lugares distantes como China e Índia, e inclusive traduziram obras de matemática e de astronomia para o chinês. Também foram os primeiros a estabelecerem uma ponte cultural entre China e Europa. Foi o jesuíta Jean Joseph Amiot que, em 1772, enviara à França um livro, que ele mesmo traduziu, intitulado A Arte da Guerra, de Sun Tzu - obra do Século V a.C., hoje popular e ainda celebrada em todo o Ocidente.

Os jesuítas também levaram à África e às Américas Cetral e do Sul observatórios destinados a estudos de astronomia, geomagnetismo, meteorologia, sismografia e física solar. O padre Giambattista Ricciolli (1598 - 1671) foi a primeira pessoa a determinar a taxa de aceleração de um corpo em queda livre. Por volta de 1640 elaborou-se, por sua iniciativa, uma enorme enciclopédia de astronomia intitulada Almagestum novum. Com a finalidade de desenvolver um pêndulo que tivesse precisão de um segundo, Ricciolli conseguiu convencer nove confrades a contar cerca de 87.000 oscilações ao longo de um dia inteiro, e graças a esse pêndulo conseguiu calcular a constante da gravidade. Ele e Francesco Mario Grimaldi, seu assistente, mediram a altitude de diversas montanhas lunares e a altura de nuvens terrenas, e produziram um diagrama selenográfico que hoje decora a entrada do National Air and Space Museum, em Washington D.C. Grimaldi também foi quem descobriu a difração da luz, inclusive ele mesmo nomeou o fenômeno. Newton posteriormente chamou o fenômeno de "inflexão", mas o termo de Grimaldi prevaleceu.

Roger Joseph Boscovich
E um dos maiores cientistas jesuítas foi o padre Rogério Boscovich, considerado "uma das maiores figuras intelectuais de todos os tempos" por Sir Harold Hartley. Em Jesuit Geometers, de Joseph MacDonnel, foi considerado "o maior gênio que a Iugoslávia jamais produziu". Era versado em teoria atômica, ótica, matemática e astronomia, e chegou a destacar-se até em poesia e arquitetura; desenvolveu o primeiro método geométrico para calcular a órbita dos planetas; e um século antes de ter surgido a teoria atômica moderna, fez "a primeira descrição coerente de uma teoria atômica" (MacDonnel, pág. 10-11), e segundo o historiador Law Whyte, em Roger Joseph Boscovich , ele foi "o verdadeiro criador da física atômica fundamental, tal como a entendemos". Por fim, ainda aventurou-se como arqueólogo, tendo publicado dois ensaios sobre o tema.

Ainda destaca-se o padre Athanasius Kircher (1602 - 1680), que foi honrado com o título de "mestre dos cem saberes". Alan Cutler o descreve como "um gigante entre os mestres do Século XVII, um dos últimos pensadores que puderam reivindicar, por direito próprio, o domínio de todos os saberes". É também considerado o fundador da egiptologia, tendo sido "o primeiro a descobrir que os hieroglifos tinham valor fonético", segundo Erik Iverson, em The Myth of Egypt and its Hieroglyphs. Ademais, a sismologia é considerada a "ciência jesuítica": foi por iniciativa do padre Frederick Louis Odenbach (1857 - 1933) que nasceu o Jesuit Sismological Association, "a primeira rede sismográfica com instrumentação uniforme estabelecida em cada continental". Há, hoje, uma medalha em honra do padre James B. Macelwane, que é concedida em reconhecimento ao trabalho de jovens geofísicos em destaque. E trinta e cinco crateras na lua têm nomes de cientistas e matemáticos jesuítas. 

Como eu havia dito, este seria um breve passeio por algumas páginas do livro, que de todo o conteúdo não corresponde nem a 15%. Há outros livros que pretendo utilizar nesse texto, e por isso encerro aqui a exploração do primeiro. Também gostaria de encarar algumas objeções a este material, que pude notar em alguns fóruns de internet. Talvez a mais bizarra tenha sido a afirmação de que a Igreja contrata historiadores para reescreverem a História da maneira que a apraz - bizarro porque talvez 90% das informações oferecidas pelo autor sejam desconhecidas do grande público. Eu tive a oportunidade de falar com pessoas que não tinham a menor ideia de quantas coisas a Igreja fez pela civilização; a maioria delas desconhece a relação da Igreja com a ciência - no máximo se lembra de Mendel ou Lemaître, que normalmente são considerados exceções -, desconhecem como uma mulher católica fundou o primeiro hospital em um ato de penitência ou como nasceram as primeiras Universidades por iniciativa da Igreja. Também desconhecem as contribuições de monges para a agricultura, sua importância na Reforma Carolíngia ou mesmo a dificuldade de preservar obras valiosíssimas de ataques bárbaros frequentes - para citar um pouco.

Outra coisa engraçada sobre o argumento de que a Igreja quer recontar a História - além de ninguém estar ouvindo -, é que muitos supõem o que eu, por conta própria, resolvi chamar de premissa do demônio oculto, que se refere à noção de que a Igreja sempre praticou o mal e, além disso, o fez conscientemente, ou seja, a Igreja, que diz ser representante de Deus seria, na verdade, o próprio Satanás em forma de instituição. É uma das suposições mais descabidas que se pode fazer, mas devido à tamanha distorção da realidade do mundo atual, faz perfeito sentido na cabeça de muita gente - o que poderia ser mais bem compreendido com a ajuda de Alexandrovich Bezmenov. Mas tal premissa é descabida por um motivo muito simples: se a Igreja acredita em Deus e pratica o mal conscientemente, ela está conscientemente cavando o próprio caminho para o inferno, algo que só seria compreensível se fosse alta a taxa de padres mentalmente afetados - e eu particularmente nunca vi algum estudo sugerindo tais conclusões. E deste modo, é mais sensato concluir - partindo da ideia de que a Igreja pratica o mal conscientemente por qualquer motivo que seja de seu próprio interesse - que ela seja, na verdade, a maior instituição ateísta que se possa ter conhecimento.

Essa conclusão é, mesmo, mais sensata, mas nenhum ateísta admitiria. Por isso, tratarei de ser mais claro: qual o sentido em falar de um Deus amoroso e misericordioso para o mundo, em contraste a um ser maligno capaz de causar sofrimento eterno às pessoas, acreditando que tanto o ser amoroso quanto o maligno existem, e ainda assim optando pela própria condenação ao sofrimento eterno, apesar de sugerir ao mundo que se busque a eterna felicidade? Para se assumir tal incoerência - para não dizer idiotice -, é preciso aceitar um balde de premissas ocultas quanto a Igreja, mas se esse for o caso, o desafio que o ateu teria em mãos talvez se igualasse ao desafio de explicar como a vida surgiu no planeta Terra. Portanto, seria muito mais fácil admitir que a Igreja sequer acredita na existência da divindade que promove, e que a usa apenas para controlar a população - conclusão que o ateu estaria disposto a aceitar, com exceção da possibilidade de a Igreja ser, ela mesma, uma instituição ateísta. É um dilema divertido, porque a autopromoção ateísta dos dias de hoje implica em taxar religiosos de perversos e ateístas de quase-santos, e o prazer em chamar a Igreja de perversa está justamente no fato de ela ser considerada uma instituição religiosa.

Enfim, eu gostaria de entender o que os ateístas consideram mais plausível no tocante a essa questão, principalmente porque ateísmo é um conceito que implica apenas na descrença em deuses; qualquer padrão moral ou norma de comportamento está fora do conceito de ateísmo, o que permite uma diferença absurda entre o agir de indivíduos que vieram a se considerar de um mesmo grupo. E sem o apoio do absoluto, o ateu mais perverso é tão digno quanto o ateu mais nobre de todos, graças, justamente, ao relativismo a que estão fadados. Mas esta é uma questão que serviria mais para ser ridicularizada pela arrogância que lhes é peculiar, do que para ser respondida seriamente. Por isso, não mais insistirei nela.

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Outro episódio interessante quanto às informações do livro, que eu pude ter contato, se deu em uma comunidade do Orkut. Bem, talvez "interessante" seja um pouco inadequado; melhor dizer "outro episódio vergonhoso". Um rapaz, quando confrontado com o livro de Woods fez o seguinte comentário: "A opinião desse Thomas Woods, e seus argumentos, são profundamente equivocados e falaciosos. De uma ignorância impressionante". O comentário, aliás, não foi feito após a leitura do livro, mas - acreditem - após a leitura da contracapa do livro. É simplesmente inacreditável, ainda mais porque até crianças de cinco anos aprendem que não se julga um livro pela capa - muito menos se deve julgá-lo pela contracapa. Fiz questão de usar o comentário como exemplo ideal da arrogância desonesta que se percebe normalmente em muitas discussões. E estou certo de que muitos ateus concordariam que a atitude do rapaz é desonestidade pura e simples, mesmo. Mas não é para falar de palpites que eu comecei este texto, por isso voltarei ao tema central.


No livro What's So Great About Christianity?, Dinesh D'Souza oferece uma lista de cientistas cristãos - e talvez aqui se identifique os mais populares: Nicolau Copérnico, Johannes Kepler, Galileu Galilei, Tycho Brahe, René Descartes, Robert Boyle, Isaac Newton, Gottfried Leibniz, Pierre Gassendi, Blaise Pascal, Marin Mersenne, Georges Cuvier, William Harvey, John Dalton, Michael Faraday, William Herschel, James Prescott Joule, Charles Lyell, Antoine Lavoisier, Joseph Priestley, Lorde Kelvin, Georg Simon Ohm, André-Marie Ampère, Nicolau Steno, Louis Pasteur, James Clerk Maxwell, Max Planck e Gregor Mendel. Logo após a lista, segue uma resposta àqueles que dizem que a ciência praticada pelos cristãos não tinha relação com a fé e se dava apesar dela. Mesmo que o exemplo dos jesuítas sirva contra esse argumento, lemos a notável frase de Kepler: "Durante muito tempo eu quis ser teólogo. Agora, no entanto, veja como, por meio de meus esforços, Deus está sendo celebrado pela astronomia". Copérnico também manifestara seu apreço pela Criação: "Tão vasta, sem sombra de dúvida, é a obra divina das mãos do Criador Todo-Poderoso".

E não se deve esquecer que, ainda hoje, há muitos cientistas cristãos notáveis, como Alister McGrath, Christopher Isham, Francis Collins, Francisco Ayala e George Ellis. Recentemente, outros cientistas cristãos de sucesso nos deixaram, como Sir Robert Boyd, Stanley Jaki e Allan Sandage - todos eles cientistas de grandes contribuições em seus campos. Diante de tudo isso, chega a ser irônico o apelo que os cientificistas fazem à ciência, como se ela fosse incompatível com a religião. E eu devo ressaltar que Carl Sagan, Richard Dawkins e Michael Shermer - que adoram/adoravam forçar essa ideia - teriam que esperar nascerem muitos cientistas para tentarem encarar o excepcional exército cristão aqui mostrado. Aliás, dois darwinistas que vivem mais à base de autopromoção do que descobertas úteis e louváveis precisam primeiro fazer uma auto avaliação, para depois ousarem falar alguma coisa - mas claro que isso seria dar crédito demais a quem não merece. O blog Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo, junto ao Teísmo.Net, recentemente começou uma campanha que visa, justamente, desmascarar o self-selling ateísta mais comum atualmente (http://quebrandoneoateismo.com.br/2011/02/07/campanha-cincia-no-contra-religio/).

 Para os cristãos cientes da relação entre cristianismo e ciência, que aqui foi apresentada de maneira breve e não tão detalhada, não há nada mais entristecedor que ver pessoas concordando com as mentiras que se repete tão comumente pelo mundo todo. Não se trata de reescrever a história, mas, como diria Edward Grant, revelar um dos maiores segredos guardados. E eu não tenho esperanças de que, com esse texto, algum ateu que promove as mentiras aqui expostas venha a mudar de ideia: até onde eu posso notar, é preciso muito mais que boa vontade. Mas também estou certo de que ninguém é um caso perdido, e por isso não deixo de me esforçar para que estas informações sejam uteis principalmente para os próprios ateus, que normalmente sustentam suas posições sem saber que elas são baseadas em mentiras - problema ao qual também está sujeito o religioso, em certas situações.

De qualquer forma, seria extremamente gratificante saber de algum ateu que conseguiu superar as mentiras que são diariamente proclamadas e veio a desfrutar de um prazer indescritível que surge do relacionamento com Deus. Talvez Chesterton pudesse explicar autenticamente a alegria dessa descoberta. Mas enquanto as pessoas não se aventuram com a Ortodoxia, que se aventurem primeiramente no fantástico mundo da ciência cristã. Não há emoção maior do que descobrir que a Idade Média foi a Idade das Luzes, que as Cruzadas foram uma expedição romântica e que a Igreja, de fato, construiu a civilização.


Referências e recomendações:
  1. Dawkins, UC Berkeley
  2. Dawkins website: quotes
  3. Science and Creation
  4. For the Glory of God
  5. Creation and Scientific Creativity
  6. Science and Civilization in China
  7. The Savior of Science
  8. The Intellectual Life of Western Europe in the Middle Ages
  9. The Origins of Modern Science
  10. The Beginnings of Western Science
  11. Dawn of Modern Science
  12. The De-Animation of the Heavens in the Middle Ages
  13. On the Applicability of Mathematics to Nature: Roger Bacon and His Predecessors
  14. Sacred and Secular: Religion and Politics Worldwide
  15. Jesus in Beijing
  16. Robert Grosseteste and the Origins of Experimental Science
  17. God and Nature: Historical Essays on the Encounter between Christianity and Science
  18. The Popes and Science: The History of the Papal Relations to Science During the Middle Ages and Down to Our Own Time
  19. The Seashell on the Mountaintop
  20. Electricity in the 17th and 18th Century: A Study of Early Modern Physics
  21. Searching the Heavens and the Earth: The History of Jesuit Observatories
  22. Roger Josehp Boscovich
  23. The Myth of Egypt and Its Hieroglyphs in European Tradition
  24. What's So Great About Christianity
  25. How the Catholic Church Built Western Civilization
  26. Cristianismo: a Religião do Homem
  27. Ortodoxia
  28. Bezmenov sobre a corrupção moral
  29. The Politically Incorrect Guide to the Bible
  30. Heróis e Maravilhas da Idade Média
  31. God and Reason in the Middle Ages

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