Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

17 de março de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #3

O ateísmo tem formas diversas. Há um ateísmo filosófico, que, incorporando Deus à natureza, se recusa a aceitar que Ele tenha uma personalidade própria e reduz tudo às dimensões da inteligência humana; nada é Deus, tudo é divino. Este ateísmo acaba por desembocar num panteísmo, que assume a forma de uma ideologia qualquer. O ateísmo científico afasta a hipótese de Deus por considerá-la pouco conveniente para a pesquisa, e dedica-se a explicar o mundo unicamente pelas propriedades da matéria, evitando perguntar-se de onde ela vem. Mais radical ainda, o ateísmo marxista não somente nega a existência de Deus, mas até o mandaria passear se Ele existisse: a sua presença importuna bloquearia o livre jogo da vontade humana.

Além desses, existe ainda um ateísmo muito difundido e que eu conheço bem, o ateísmo imbecil; era o meu. O ateu imbecil não se questiona. Acha natural estarmos colocados sobre uma bola de fogo recoberta por uma tênue camada de lama seca, que gira sobre si mesma numa velocidade supersônica e descreve círculos em torno de uma espécie de bomba de hidrogênio, a qual é por sua vez arrastada pelo movimento de milhões de outras luminárias desse tipo, cuja origem é enigmática e cujo destino é desconhecido.

André Frossard, Deus em Questões, págs. 28-9.

Apesar de a prática de não questionar-se ser comumente atribuída aos religiosos, é cada vez mais comum os ateístas que não param para refletir acerca da questão de Deus, e acham que, por exemplo, o darwinismo, sozinho, é capaz de oferecer-lhes uma cosmovisão consistente. Em primeiro lugar, porém, o darwinismo não tem nenhum valor quando se busca explicar se há um criador. Além do mais, a Biologia não pode explicar muitos detalhes fundamentais sobre o Universo, e justamente por isso Richard Dawkins repete em seus discursos que não deveríamos perder as esperanças de que aparecerá uma explicação darwinista para a Física.

Isso levanta uma questão realmente interessante: é mais plausível tirar conclusões baseadas nas evidências que temos ou confiar que supostas evidências futuras vão sustentar o que gostaríamos de concluir? A onipotência da ciência é, definitivamente, uma das grandes utopias do século XXI, e o próprio Dawkins, junto com Peter Atkins e outros cientificistas modernos são a prova de que a decisão de não aceitar a possibilidade de Deus está influenciando conclusões que, até onde sabemos, deveriam ser imparciais.



Antes mesmo de começar essa postagem, foi preciso que eu respirasse fundo, porque o vídeo apresentado é do tipo capaz de causar uma parada cardíaca a quem o assiste - antes de assisti-lo, tenha certeza de estar blindado contra metralhadoras de clichês e falácias recheadas com muita desonestidade e cobertas com uma peculiar arrogância. Estamos diante de um leitor de Richard Dawkins, afinal - e um que aprendeu bem a lição dada pelo mestre. O autor do vídeo acima se destaca pela tentativa de ser quem ele não é ou, no mínimo, saber o que ele não sabe. Mas o que é mesmo curioso é a tentativa de estar representando alguém, ou estar falando em nome de alguma autoridade - às vezes como se ele estivesse repassando informações mundialmente aceitas como verdadeiras no meio intelectual. Chega a ser engraçado, e é difícil acreditar que seja real, mas é.

Após um breve deboche, o autor propõe-se a falar do criacionismo literal e imediatamente associa isso ao movimento conhecido como Intelligent Design, deixando claro que não faz ideia do que está falando. Apesar de o ID ser normalmente associado ao criacionismo e promovido por religiosos, não é por propor que um Deus onipotente criou o Universo em seis dias. A hipótese do ID diz que a complexidade que encontramos no Universo e nas formas de vida é melhor explicada por uma causa inteligente, em vez da seleção natural. Isso não tem absolutamente nada a ver com criacionismo bíblico literal. E para mostrar que é um completo ignorante no assunto, após essa grande confusão, o autor afirma que essa hipótese - ID - se baseia nas cinco vias de São Tomás de Aquino. No entanto, a quinta via de Aquino e o Intelligent Design apresentam uma grande diferença, e essa diferença torna as duas hipóteses incompatíveis.

Chamemos a hipótese de Aquino, como faz Francis J. Beckwith, de Design Tomístico. São Tomás acreditava, como Santo Agostinho, na criação ex nihilo, e que já no momento da criação foram dadas as leis que tornam possível a ordem e a vida no Universo. Dessa forma, a intervenção divina é necessária apenas nesse momento da criação, pois, a partir dela, tudo se desenvolve a partir do que já existe, sem que Deus necessite interferir novamente a cada momento. A visão de São Tomás é, na verdade, mais consistente com o darwinismo, uma vez que, tendo Deus criado um Universo que possa desenvolver-se autenticamente, a Evolução encaixa-se perfeitamente na descrição de processo utilizado para chegar à vida, sem que intervenções posteriores fossem necessárias - devemos lembrar que, se as leis do Universo não fossem exatamente como elas são, a vida não teria surgido na Terra: e a visão de Aquino assemelha-se justamente a uma descrição do princípio antrópico.

Agora, entendamos que, enquanto São Tomás defendia um Universo cujas leis dispensava a intervenção divina para alcançar seu fim, defensores do ID sugerem que a inteligência descrita na hipótese se manifestara durante o processo evolutivo, ou seja, houve intervenção em diversos momentos desse processo, o que segundo os defensores da hipótese, é mais plausível que a seleção natural. Seja como for, Design Inteligente e Design Tomístico são ideias incompatíveis, e não se pode dizer que os defensores do ID se baseiam nas premissas tomistas. Além disso, é improvável que São Tomás fosse defensor da interpretação literal do Gênesis: não há evidência alguma de que o fora. William Carroll escreve: "O que é essencial para a fé cristã, de acordo com Aquino, é o 'fato da criação', 'não a maneira ou modo da formação do mundo'" (William E. Carroll, Aquinas and the Big Bang, págs 18-20). Portanto, a crítica do vlogger falha de todas as formas possíveis.

Depois dessa confusão, chegamos, de fato, às cinco vias de São Tomás, que segundo o autor apresentam premissas logicamente inválidas. Atente para as três imagens a seguir: págs. 111-2págs. 112-3pág. 114 - disponíveis em Google books: Deus, um delírio. O autor do vídeo não fez nada além de repetir exatamente o que está escrito no livro de Dawkins. Mas o divertido é a omissão quanto a esse fato - parece que alguém estava tentando seguir o conselho do vlogger comentado na última postagem (http://www.caosdinamico.com/2011/03/brasil-terra-dos-palpiteiros-2.html) e ser "original". Bastante irônico: enquanto um despreza completamente qualquer referência, outro se prende tanto à referência que chega a soar como um porta-voz.

Ora, as cinco vias não tentam provar nada cientificamente, como sugere o autor. Aliás, o autor certamente nunca chegou a lê-las: deve pensar que os argumentos da Suma Teológica estão exatamente como na reciclagem apresentada por Dawkins. E como o próprio Dawkins, o rapaz mostra sua sagacidade ao lidar com a série de eventos que levam a uma regressão infinita. Ambos acreditam que Aquino considerava Deus imune a tal regressão - não sei se deveria usar "ambos", já que um apenas repete o argumento do outro -, mas ao fazerem isso, demonstram não ter entendido o argumento. Não foi para preencher uma lacuna que São Tomás chamou de Deus o motor imóvel, mas porque as características que esse motor deve necessariamente possuir são características comuns a Deus.

"Aquino, em suas cinco vias, prova existência de um motor imóvel, e diz: 'et hoc omnes intelligent Deum' ('e a isso entedemos por Deus'). Alguns críticos tomaram isso como a maneira dele contornar a dificuldade de passar de uma Primeira Causa para Deus; no entanto, essa noção é enganosa à luz do fato de que seções seguintes da Suma Teológica oferecem argumentos cuidadosos e elaborados para que a Primeira Causa seja completamente real, imutável, simples, única, imaterial, perfeita, boa, e inteligente. Assim, Aquino está simplesmente ressaltando o fato de que o teísta entenderá o motor imóvel como sendo Deus" (J.P. Moreland e William Lane Craig, The Blackwell Companion to Natural Theology, pág. 25).

Ademais, tempo e espaço surgiram com o Big Bang, e insistir em uma cadeia de eventos - que pressupõe tempo - em um plano atemporal mostra a incapacidade de Dawkins em sequer começar a entender os argumentos de São Tomás. Caso contrário, não perguntaria com tanta frequência: "Quem criou o criador?"



Nesse ponto, as piadas começam a fluir: temos as primeiras demandas cientificistas e a pretensão de representar autoridades. O autor diz não conhecer nenhum filósofo respeitável moderno cujas conclusões apontam para Deus, ou seja, não há, atualmente, filósofos respeitáveis teístas, segundo ele. Será? Alvin Plantinga, Brian Leiter, Dallas Willard, Dean Zimmerman, Gary Habermas, J.P. Moreland, John Lennox, Norman Geisler, Paul Copan, Paul K. Moser, Peter van Inwagen, R. Douglas Geivett, Richard Swinburne, Robert Adams, William Alston, William Dembski, William Lane Craig, William T. Davis, etc. são todos filósofos, Ph.Ds, e defensores da fé cristã. Mas talvez o Dr. Daniel Dennett supere sozinho a todos esses, ou talvez o próprio Dawkins, que até aqui tem se mostrado, de fato, um filósofo promissor. Bem, não seria justo esquecer que o autor disse não ver esses filósofos, então, não é bem uma questão de eles não existirem: é a ignorância dele que não o permitiu conhecê-los.

Quando ele fala em especialistas em lógica, adentramos a outro campo problemático. Dawkins não oferece nenhum nome em seu livro, ele apenas afirma que especialistas demonstraram uma suposta incompatibilidade entre onipotência e onisciência. Porém, isso parte de uma evidente ignorância por parte de Dawkins quanto ao que é onipotência - talvez ele pense que um ser onipotente pode tudo, inclusive o impossível. São Tomás escreve: "Em geral, todos confessam que Deus é onipotente. Mas parece difícil determinar a razão da onipotência. Pois pairam dúvidas sobre o conteúdo desta afirmação: Deus pode todas as coisas. Mas, bem considerando, já que a potência se refere ao possível, quando se diz: Deus tudo pode, o mais correto é entender que pode tudo o que é possível e por isso se diz onipotente" (ST I, 25, 3).

Realmente, é divertido vê-lo falar em "especialistas". Já o vlogger, para dar a impressão de que conhece tais especialistas, decide citar apenas um deles, mas a verdade é que, na condição de estar repetindo os argumentos de Dawkins, ele desconhece completamente qualquer especialista, e o exemplo utilizado, até onde sabemos, não é válido. Dawkins cita Karen Owens apenas para reforçar, com um "paradoxo cativante", sua ideia anterior, e não como se tal autor fosse um dos referidos - ou melhor, não referidos - especialistas. Karen Owens, se é que estamos falando da mesma pessoa, estuda o comportamento infantil e adolescente, campo completamente distinto dos abordados por Dawkins. E o rapaz tem coragem de chamar os teístas de desonestos, quase que a cada minuto...

Em seguida temos uma exposição de ideias utópicas e mesmo um indício de onipotência do autor: ele espera que a ciência traga as respostas que ainda não temos sobre este assunto, e ainda afirma que isso não acontecerá nos próximos duzentos anos. Finalmente o autor revela que a "refutação" oferecida é de Dawkins, mas isso não muda o fato de ele ter tentado, até ali, parecer autêntico. Após isso, ridiculariza o argumento ontológico sem nem mesmo tê-lo entendido. Mas o mais importante é que, sejamos francos, o autor não está em condições de ridicularizar nada. Na verdade, seria justo chamar seu vídeo de uma grande auto-ridicularização, pois é isso que temos notado até aqui. E que tal chamar o argumento teleológico de argumento "teológico"? Não se preocupem: já está feito!

Precisamente no argumento do design chegamos ao clímax do vídeo, já que, como era de se esperar, trata-se do argumento central de Deus, um delírio: darwnismo vs. design. Mas Dawkins não escolhera esse argumento como mais forte por ele ser, de fato, o mais forte, mas por ele ser o único com o qual Dawkins conseguiria lidar. Vejam que conveniente: já que ele não sabe lidar com os outros argumentos, por que não ridicularizá-los e dizer que o relevante é o único que ele compreende? Mas, ainda assim, a tentativa de usar o darwinismo para explicar a complexidade é falha em vários níveis, pois, diferente do que ocorre no argumento de São Tomás, o princípio antrópico permanece ignorado. Pensar em darwinismo só faz sentido se pensarmos primeiro em um Universo que possibilita o fato da Evolução.

Os físicos Barrow e Tipler, Martin Rees e Lee Smolin mostram que o Universo parece ter sido projetado, desde o Big Bang, para que houvesse vida no nosso planeta. Stephen Hawking escreve: "Se a taxa de expansão do Universo, um segundo depois do Big Bang, tivesse sido menor, ainda que na proporção de uma unidade em um bilhão, o Universo teria revertido ao colapso antes de atingir o tamanho atual". É precisamente por observações como essas que Richard Dawkins apela à utopia da ciência onipotente. "A ciência vai chegar lá", ele diz, mas uma das premissas que todo cientista deveria levar a sério, é aquela que diz que os preconceitos do experimentador não devem interferir na conclusão do experimento. Será que os cientificistas estão respeitando isso? Segundo Robert Jastrow, o princípio antrópico "é o resultado mais teísta já revelado pela ciência". Portanto, é razoável suspeitar que Dawkins não o toleraria: sugeriu que esperemos uma explicação darwinista para a física.

O importante, aqui, é perceber que a ciência moderna tem apontado para a possibilidade de um criador, mas Dawkins tem coragem de chamar de irracional quem porventura admite tal hipótese como mais plausível, tendo para nos oferecer contra isso apenas a crença de que a ciência irá superar essa hipótese. O discurso de seguir as evidências com certeza não passa disso: discurso. A prática, como é possível notar, foi completamente esquecida - se é que um dia existiu. Nosso vlogger palpiteiro não é nem um pouco menos contraditório: já no final de sua apresentação, admite a existência de lacunas no registro fóssil, para um minuto depois dizer que a teoria da evolução é comprovadamente verdadeira em todos os seus aspectos.

Para alguém que chama Carl Sagan de filósofo, é realmente difícil imaginar o que não é possível. A única coisa que eu não consigo imaginar é um Brasil onde as pessoas pensem antes de falar qualquer bobagem, pois se eu pudesse imaginar tal realidade, seria eu o garoto perdido em meio a uma utopia. Resta-nos, por fim, um último mistério: se Bertrand Rousseau refutou completamente alguns argumentos para a existência de Deus, será que Jean-Jacques Russell teria, de fato, nascido na França?


Referências e recomendações:
  1. Deus em Questões
  2. Intelligent Design vs. Thomistic Design
  3. A Brief History of Time
  4. The Anthrophic Cosmological Principle
  5. Just Six Number
  6. God and the Astronomers
  7. So many atheists, so little time
  8. Alvin Plantinga
  9. Richard Swinburne
  10. Peter van Inwagen
  11. Dean Zimmerman
  12. William Lane Craig
  13. John Lennox
  14. J.P. Moreland
  15. "Representantes da ciência"
  16. What's So Great About Christianity
  17. The Dawkins Delusion?
  18. Sthephen Meyer vs. Michael Shermer
  19. Como Dawkins destrói a ciência
  20. Deus é onipotente? 
  21. Aquinas and the Big Bang 
  22. The Blackwell Companion to Natural Theology

    15 de março de 2011

    Brasil: terra dos palpiteiros #2

    Um dos slogans mais populares do ateísmo é aquele que diz que as pessoas religiosas não se questionam. Ateístas não tem problema algum pensando em religiosos como um bando de gente preguiçosa que não perdeu um único segundo da vida para questionar-se. O ateu, pelo contrário, não faz outra coisa a não ser pensar e refletir. Para "provar" que o cristão não se questiona, ele pode argumentar sobre o absurdo de crer nas histórias fantasiosas da Bíblia, em que pessoas ressuscitam, o mar se divide e carruagens de fogo levam homens para o céu.

    Além disso, alega-se que o cristianismo nada mais é que uma compilação de mitos antigos, tendo importado de outras culturas eventos como a Arca de Noé e mesmo o mais decisivo de sua história: a crucificação e ressurreição de Cristo. A conclusão é que, se o cristão não parou para pensar no quão absurdo é tudo isso, ele não se questiona: acredita por medo, por fraqueza. O ateu é forte o suficiente para encarar a realidade, pois, por mais confortante que seja acreditar em um Deus que nos ama e é justo, é precisa olhar para os fatos. Afinal, já passamos do tempo em que superstições da Idade do Bronze eram levadas a sério; hoje temos livros, revistas e acesso a todo tipo de informação. É hora de evoluir.

    Como não poderia deixar de ser, tal discurso não passa de um guia prático de falácias. E como as falácias são inerentes ao discurso do palpiteiro, analisaremos, dessa vez, aquelas que giram em torno da auto-promoção (self-selling) e ridicularização da fé alheia.


    O vídeo acima é o exemplo perfeito de tentativa de ridicularização da fé cristã. Há, sim, algo de aproveitável no que é exposto, que é a crítica aos cristãos adeptos ao cristianismo self-service, ou seja, os cristãos que pensam poder escolher o que seguir e o que ignorar nas Escrituras, como se cada pessoa fosse o seu próprio árbitro moral, o que acaba inevitavelmente em um cristianismo relativizado. Contra isso eu nada tenho a dizer,  já que esse é, de fato, um dos maiores problemas que encontramos entre os cristãos, atualmente - a Igreja está ciente desse problema desde seu início, e é divertido ver os críticos tratando o problema como se fosse uma novidade cuja importância ninguém, senão o próprio crítico, percebeu.

    De qualquer forma, a ridicularização do autor consiste em criticar a doutrina do pecado original a da expiação, sugerir que Deus é um assassino e, por fim, que a interpretação alegórica de certos Livros Sagrados se deu por uma espécie de necessidade em face a avanços do conhecimento humano. O mundo está cheio de ateus que pensam ser teólogos, e a crítica às interpretações é causada normalmente pela ideia de que, após o darwinismo, a ideia da criação em seis dias teria se tornado insustentável, o que forçou a Igreja a admitir que as Escrituras precisariam de um sentido metafórico para resistir aos avanços da ciência. É basicamente o mesmo pensamento referente ao caso Galileu, ainda que a ideia tenha tomado proporções globais somente após Darwin.

    Já que discutir questões teológicas não é relevante para a postagem, analisémos as alegações referentes a maneira de interpretar as Escrituras e ao evento de Sodoma e Gomorra, que não é alegórico. Os gêneros da Bíblia incluem narrativa, poesia, literatura proverbial, discurso de sabedoria, um tratado (Deuteronômio), códigos legais, genealogias, biografia (Evangelhos), cartas pessoais e cartas em geral, retórica, réplica, e apocalíptica. Essas características já eram reconhecidas pelos judeus; a Igreja primitiva também estava seguramente ciente de tais características. Qualquer um que alegar que os eventos bíblicos se tornaram convenientemente metafóricos, precisa mostrar que, de fato, o sentido alegórico de certas passagens foi devido à incompatibilidade desses eventos com o avanço científico. Se esse não for o caso, a crítica se mostra insustentável, baseada em opinião extremamente descartável, que só verdadeiros palpiteiros professam ou aplaudem.

    Sobre as interpretações, entre os cristãos destacam-se Orígenes de Alexandria (185 - 232) e Santo Agostinho (354 - 430), que já apresentavam interpretações alegóricas do Gênesis, e sugeriam que havia nele uma espécie de teologia da Criação, em vez de uma descrição histórica dos eventos. Entre os judeus, destaca-se Fílon de Alexandria (25 a.C. - 50 d.C.). Em seu De Genesi ad litteram, Santo Agostinho escreve: "Devemos ficar atentos ao oferecer argumentos que sejam incertos ou opostos à ciência, e assim expor a palavra de Deus à ridicularização dos incrédulos". Também sugeriu que o Universo foi criado através de eventos que se desenrolavam em certos períodos de tempo, através de condições dadas já no momento em que a matéria veio a existir. O bispo de Hipona foi também o primeiro a dizer que Deus havia criado o tempo junto com a matéria - a ciência posteriormente confirmou que o tempo e a matéria passaram a existir em um momento conhecido como Big Bang. Ele ainda alertou que a interpretação da criação é difícil, e que por isso devemos estar dispostos a mudar de ideia conforme novas informações apareçam.

    Além disso, o físico e historiador da ciência Stanley Jaki argumenta que o literalismo bíblico surgiu por volta do Século XVI, com o surgimento do protestantismo (Stanley Jaki, Bible and Science, págs. 110-11). Portanto, acusar a Igreja de convenientemente ter "metaforizado" as Escrituras - por não poder resistir aos avanços científicos e fácil acesso à informação com "histórias absurdas" - não passa de uma grave ignorância histórica: evidentemente irônica; sutilmente bizarra.

    Já a acusação de que Deus seja assassino, genocída, etc. vem direto de grandes teólogos como Richard Dawkins. A tentativa de retratar Deus como imoral por ter condenado pessoas à morte obrigatoriamente despreza o contexto dos eventos e os motivos que levaram Deus a condená-las. Ademais, como o próprio autor lembra, não se pode considerar certas afirmações bíblicas ao passo que se ignora outras, e a interpretação das Escrituras é algo mais delicado que a maioria das pessoas parece perceber.

    A saída é, como bem disse o atuor, respeitar tudo que há na Bíblia ou ignorá-la completamente. De forma que averiguar a hipótese de um Deus assassino pressupõe levar em conta tudo quanto há nas Escrituras, o amor, justiça, retidão e bondade divinas não podem ser deixados de lado convenientemente, e essas características divinas são fundamentais e da própria natureza do Criador - segundo a própria Bíblia -, o que significa que o ateu precisa primeiro desprezar certas passagens bíblicas para, então, mostrar que Deus é como ele alega. Tendo a crítica do autor deixado claro que ele despreza as alegações convenientes ao nosso propósito, seria divertido vê-lo lidando com as alegações convenientes expostas em sua ridicularização. A verdade é que o autor mostrou-se verdadeiramente apto a contradizer-se. Temos, pois, um palpiteiro genuíno.


    Sobre esse segundo vídeo, gostaria de alertar, antes de mais nada, que o autor é um palpiteiro assumido. Encontramos a seguinte descrição: "Meu ponto de vista sobre as engrenagens da religião. Como ela funciona e como ela afeta as pessoas". Após lê-la, resolvi comentar o vídeo, apontando a falta de referências. Em resposta, o autor me disse que não há referências por se tratar de uma opinião pessoal, e para eu não me prender às ideias dos outros e ser original.

    Traduzindo, se eu quiser começar um vídeo falando sobre eventos históricos, eu não preciso de referências para isso, basta eu ser original e inventar a história que eu quiser. Prender-me a outros autores significa limitar minhas possibilidades, mas isso não é necessário: que acredite em mim aqueles que assim desejarem. Ótimo, pois eu sempre quis contar para o mundo que eu fui o mestre de Sun Tzu, e que o seu livro foi, na verdade, inspirado nos ensinamentos que eu lhe passei. Obviamente, agora estou reencarnado em outro corpo, e apesar de não poder provar, fica a critério de cada um acreditar em mim ou não. O importante é ser original.

    Enfim, como se esse papo de originalidade não passasse de uma grande besteira - tão grande quanto a possibilidade de eu ter reencarnado -, o conteúdo do vídeo não fica atrás, e as falácias acontecem a cada dez segundos. O autor argumenta que, "desde a colonização do nosso país, nosso povo era obrigado a se adaptar às leis exercidas pela Igreja Católica; leis [ditatoriais] e indecentes". Ele acrescenta que a Igreja não considerava índios e negros como seres humanos, e permitia que esses fossem escravizados. E, por fim, afirma que a cultura e crenças dos europeus eram impostas ao povo.

    Resumindo, um amontoado de clichês ecoados por professores e apostilas do ensino médio. Chega a ser estranho o autor não ter citado os jesuítas e os descrito como um grupo de assassinos, como comumente sugere a cartilha. As alegações, no entanto, fundamentam-se em várias premissas ocultas: falsas na maioria das vezes. A primeira é a de que, de alguma forma, a Igreja não só esteve presente em cada evento particular da colonização, mas também foi responsável por tais eventos. A segunda é a de que a Igreja tentara converter os nativos à força. Porém, o processo de colonização não era, de forma alguma, coordenado pela Igreja, e foi precisamente a Igreja que primeiro se levantou contra os métodos de colonização cuja brutalidade parecia razoável aos europeus.

    Segundo o historiador Lewis Hanke, a primeira reprovação contra a política colonial europeia ocorrera em 1511, na ilha de Hispanhola (atual Haiti e Republica Dominicana), e viera de um frade dominicano chamado Antonio de Montesinos (Lewis Hanke, The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, pág. 17).  O discurso do frade causara tanta polêmica, que ele foi convidado a ir novamente ao público, na esperança de que se retratasse. Tendo repetido exatamente o mesmo discurso, suas palavras chegaram ao ouvido do rei Fernando, na Espanha. Montesinos viajou para lá, e tendo compartilhado com o rei seu dramático testemunho, conseguiu com que esse reunísse um grupo de teólogos e juristas com a missão de elaborar leis que regulassem as relações dos oficiais europeus com os indígenas. Assim nasceram as Leis de Burgos (1512) e de Valladolidi (1513). A aplicação dessas leis em benefício dos nativos revelou-se desapontadora, mas mostrava um primeiro esforço crítico, que acabou preparando o terreno para o trabalho mais sistemático e duradouro dos grandes juristas e teólogos do Século XVI (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, págs. 129-131).

    Enquanto o autor do vídeo descreve a Igreja como ditadora e indecente, historiadores parecem sugerir o exato oposto. Mas novamente caímos naquela questão: vamos dar crédito à pesquisa ou à "originalidade"? O rapaz certamente ficaria surpreso ao descobrir que esses primeiros esforços culminaram em algo muito maior, o Direito Internacional. Apesar de tragédias terem acontecido, lá estava a Igreja para levar luz em meio à escuridão. O choque entre os povos foi a oportunidade perfeita para se discutir o direito dos nativos, e a maneira como todos os povos estranhos deviam se relacionar - algo que não acontecera em nenhuma outra civilização, até ali. A verdade é que, se alguém tem a pretensão de acusar a Igreja como culpada pelas injustiças que ela, na verdade, foi a primeira a combater, é preciso levar um pouco mais a sério a pesquisa, e deixar de lado essa bobagem de "ser original".

    No Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, lemos: "A colonização foi marcada também por escolhas e preferências dos índios, que os portugueses, em número muito menor e precisando de segurança para instalar suas colônias, diversas vezes acataram. Muitos índios foram amigos dos brancos, aliados em guerras, vizinhos que se misturaram até virar a população brasileira de hoje. 'Os índios transformaram-se mais do que foram transformados', afirma a historiadora Maria Regina Celestino de Almeida na tese Os Índios Aldeados no Rio de Janeiro Colonial" (Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, pág. 31). Narloch ainda informa que foram os portugueses que, por exemplo, ensinaram os índios a preservar a natureza - outra informação que muito difere do que lemos em nossas "acuradas" apostilas.

    As alegações de cultura e religião impostas logo vão abaixo, e a ideia de que o povo brasileiro não guarda mágoas supõe uma realidade que nunca existiu: é mera especulação do autor. Após essa introdução completamente equivocada, chegamos ao tema principal do vídeo, que segundo seu título, já implica em falácia genética. O autor alega que (1) o inferno foi criado para causar medo nas pessoas, e que ele pode dizer isso, já que (2) na sua época de evangélico, havia um ambiente de constantes alertas contra os pecadores. Mas a verdade é que, se o rapaz ignorou completamente a História, com a lógica repetiu-se a mesma tragédia. Não se chega logicamente de (1) a (2), e ele não pode simplesmente requisitar para si uma autoridade que ele não possui. A veracidade de uma ideia não depende das implicações sociais dessa ideia em determinadas amostras ou populações.

    Depois, vem uma das pistas do motivo do rapaz ser ateu: a ideia de que Deus julgará a humanidade não é compatível com a sua ideia de ser livre, afinal, como falar em liberdade, se há um conjunto de regras que inevitavelmente a limita e não o deixa viver? Outra confusão é feita pelo autor: segundo ele, a felicidade eterna significa não se divertir nessa vida, mas isso não passa de outro grande equívoco. Como escreveu Santo Agostinho, "fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti", o que significa que, para os cristãos, a maior alegria vem da companhia de Deus, e que não podemos encontrar harmonia senão n'Ele mesmo. Deus nos criou para que sejamos felizes, e não para que soframos e depois consigamos uma compensação ao sofrimento, uma recompensa, como se estivéssemos falando de uma indenização. Deus não quer que apostemos em viver nessa vida ou depois dela, mas que vivamos ambas de maneira plena.

    Posterior a isso, o autor entra em um campo de estereótipos, alegando que não há espaço para questionamentos dentro da religião - outra alegação que ele não demonstra e, portanto, deve ser ignorada. Há aí uma curiosa retomada da acusação da fé imposta, quando o autor alega que os líderes religiosos obrigam seus seguidores a crer em algo que não não podem ver. Mas, até onde sou capaz de recordar, ninguém nesse país é obrigado a seguir os ensinamentos que outros querem compartilhar. Aliás, o próprio autor afirmou que, enquanto antigamente a religião era imposta ao povo, hoje esse mesmo povo a segue por livre e espontânea vontade. O nome disso? Contradição! Me pergunto se é mesmo tão difícil ser coerente, já que a coerência é raríssima nas apresentações dos vloggers brasileiros. Ao final, vemos uma série de argumentos confusos e mais alegações não demonstradas. O autor se mostra verdadeiro expert na arte de palpitar - talvez o mais notável até aqui.

    Ora, enquanto a tentativa de ridicularizar a fé alheia ou mesmo explicá-la tenta tornar o crítico superior ao que crê, uma investigação das alegações oferecidas mostram que, longe de estarmos lidando com críticas válidas baseadas em um realidade sólida e verificável, estamos diante de pensamentos verdadeiramente falaciosos. Me pergunto como se tornou tão comum essa insistência em pisar em campo minado, opinar sobre o que não foi perguntado. Por que falar, se não sabemos do que estamos falando? Por que palpitar, se é mais razoável ficar calado? Eis um mistério que acompanhará o futuro do pensamento brasileiro. Afinal, que a verdade seja dita: estamos na verde e amarela terra dos palpiteiros.


    Referências e recomendações:
    1. Why critics do not deserve the benefit of the doubt
    2. O Deus assassino
    3. Self-selling
    4. Crenças justificadas
    5. Teologia do corpo
    6. Obra de Santo Agostinho
    7. Orígenes de Alexandria
    8. Fílon de Alexandria
    9. Bible and Science
    10. The Contemporary Relevance of Augustine
    11. Técnica: a Bíblia manda matar
    12. The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America
    13. How the Catholic Church Built Western Civilization
    14. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
    15. Confissões
    16. Antonio Montesino

    13 de março de 2011

    Thank God for the four horsemen!

    Em setembro escrevi algumas dezenas de parágrafos sobre Richard Dawkins, para mostrar um pouco da sua desonestidade e incompetência ao encarar assuntos que são de seu interesse. Como "um pouco" não é o bastante, e tendo em vista como o professor atinge níveis imensuráveis de ignorância, mau-caratismo e prepotência, resolvi compilar mais evidências que demonstram suas peculiaridades. Dessa vez, porém, decidi estender a exploração aos seus grandes companheiros de causa e mostrar por que eles só conseguem a atenção de crianças rebeldes ou adultos que esqueceram de amadurecer.
    Me refiro aos chamados quatro cavaleiros do ateísmo: Christopher Hitchens, Dr. Daniel Dennett, Richard Dawkins e Dr. Sam Harris. Essa postagem, ao contrário da primeira, não focará apenas na desonestidade do neo-ateísmo ou em suas fraudes intelectuais, mas em algumas ideias dos ateístas citados e as implicações dessas ideias, bem como uma resposta às que não parecem legítimas.

    Um dos maiores problemas que se enfrenta ao dirigir uma crítica a alguém, é ferir a possível autoridade que este alguém representa. Um dos mais frequentes ataques aos meus primeiros comentários sobre Dawkins, foi justamente o fato de eu não ser um biólogo renomado, autor de vários livros, etc. Quanto a isto, cabe alguns esclarecimentos. O fato de uma pessoa ter autoridade para falar de determinado assunto x, não a garante autoridade para falar de assuntos a, b, c ou d, principalmente quando ela os desconhece completamente. Se a está razoavelmente ligado a b, mas completamente desligado de m, pode-se razoavelmente compreender que aquele que domina a entenda um pouco sobre b, mas não se pode razoavelmente esperar que ele mesmo domine o mínimo sobre m. Por exemplo, podemos esperar que um administrador domine um mínimo sobre Contabilidade, mas não podemos esperar que este administrador domine um mínimo sobre Física Quântica. Este conhecimento é, a princípio - ou provavelmente -, alheio ao seu domínio. Isto não significa que o administrador não pode conhecer a Física Quântica; significa apenas que isto não é uma obrigação ou, muito menos, uma necessidade.

    Qualquer pessoa pode facilmente compreender isso. Ou melhor, qualquer pessoa deveria facilmente compreender isso. Em uma discussão em um fórum do Orkut, fiz a acusação de que Dawkins erra ao debater sobre aquilo que não conhece nem o mínimo necessário. Em ordem para demonstrar isso, utilizei exemplos referentes à Filosofia, História e Teologia. Para minha surpresa, me acusaram de estar afirmando que não se pode falar sobre aquilo que nossos diplomas não autorizam. Isto, obviamente, é fruto da incapacidade de entender que: (1) pode-se falar daquilo que nosso diploma não autoriza; desde que (2) conheçamos apropriadamente aquilo que nosso diploma não nos garante. Se estudamos quatro anos para receber o primeiro título do campo que nos interessa, por que não dedicar alguns meses ou anos para compreender outros campos que nos interessam de maneira semelhante?

    Como futuro administrador, nada me impede de me aprofundar em Biologia, História ou Literatura; o que não me é lícito, por exemplo, é não ter sequer dedicado uma ou duas semanas a compreender o Darwinismo, e afirmar que "é ridícula uma teoria que diz que o homem evoluiu do macaco". Isto é, sem dúvida, uma prova de ignorância e desonestidade, porquanto não é isto que diz a teoria, e se eu a tivesse estudado, conheceria ao menos os seus conceitos básicos. Pois é precisamente isto que os quatro cavaleiros do neo-ateísmo fazem, mas em relação às religiões. Baseado nos seus comentários "épicos" em livros, palestras e afins, não se pode razoavelmente admitir que eles tenham dedicado mais do que dez minutos das suas vidas a compreender os temas que eles mais frequentemente tem abordado. Estando isto fixado, cabe a mim demonstrar minhas alegações.
    Daniel Dennett é certamente um filósofo modesto. Segundo ele, o termo ateu deveria ser abandonado e substituído por brilhante. O quê? Exatamente isso: uma vez que o termo ateu pode ser mau recebido, é hora dos ateus serem chamados como realmente merecem. Ele escreve: "Chegou a hora de nós brilhantes sairmos do armário. O que é um brilhante? Um brilhante é uma pessoa com uma visão de mundo naturalista [...]. Nós, brilhantes, não acreditamos em fantasmas, elfos, nem no Coelho da Páscoa - ou em Deus" (http://www.nytimes.com/2003/07/12/opinion/the-bright-stuff.html). Por que não levantar nossas taças em celebração a este discurso verdadeiramente... ah... brilhante?

    Antes de responder às afirmações de Dennet, porém, eu gostaria de atentar para a sua formação acadêmica. É formado em Filosofia pela Universidade de Harvard, e Ph.D. pela Universidade de Oxford. E por que isso tem importância? Vejam, no solo cada vez mais cientificista em que pisamos, tornou-se comum a prática de desprezar a Filosofia, o que se deve ao pensamento de que esta estaria sendo substituída pela Ciência. O maior exemplo disso é Stephen Hawking, que disse, em seu livro The Grand Design: "Como podemos entender o mundo em que nos encontramos? Como o Universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? De onde tudo vem? O universo precisou de um criador? Muitos de nós não gasta parte do nosso tempo se preocupando com essas questões, mas todos nós sempre acabamos nos preocupando com elas em algum momento. Tradicionalmente, essas questões são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta" (Stephen Hawking and Leonard Mlodinow, The Grand Design, pág. 5).

    A afirmação de Hawking não é uma ofensa aos filósofos, mas uma ofensa a humanidade. A ciência, tal como a concebemos, não pode ser justificada sem uma filosofia. A ciência não é auto-suficiente e não é um conjunto de saberes que dispensa a necessidade de outros conjuntos: se desprezarmos os pressupostos da ciência, que a antecedem e não podem ser por ela comprovados, não haverá ciência nenhuma. Mais notável ainda é que, quando o físico afirma que a "filosofia está morta", ele mesmo está recorrendo à filosofia. Hawking se tornou uma referência em seu campo, um dos maiores, definitivamente, mas não se pode esquecer que até os grandes cometem erros, e nesse caso, precisamente, é mais adequado chamar o erro de infantil; uma verdadeira bobagem.

    E essa não é a maior bobagem que encontramos no livro. Lemos: "A teoria M prediz que vários universos foram criados do nada. Sua criação não requer a intervenção de qualquer ser sobrenatural ou deus. Então, esses múltiplos universos surgem naturalmente das leis físicas". Com isso, Hawking nos mostra que, na verdade, não é a filosofia que morreu, mas a capacidade dele mesmo em compreendê-la. Se a teoria M - teoria do tudo - prediz que vários universos foram criados do nada, como afirmar, uma linha depois, que esses universos surgiram das leis físicas? Ora, isso implica em, no mínimo dizer que as leis físicas são esse "nada", o que não tem sentido, já que, se leis físicas, não se pode dizer que elas não são algo. "Nada" significa não ser, e se as leis físicas são, como o ser pode ser e, ao mesmo tempo, não ser? A contradição é óbvia.

    William Lane Craig escreve: "o que precisamos perguntar ao Professor Hawking aqui é: como está sendo usada a palavra 'nada' nessas declarações? Pela palavra 'nada', ele quer dizer o que o metafísico ou filósofo diz, ou seja, 'não ser'? Ele quer dizer literalmente 'nada' no sentido de 'não ser'? E, se ele está usando nesse sentido filosoficamente correto, então ele precisa lidar com os problemas metafísicos de como seres podem surgir de não ser. Se a teoria dele sugere que seres surgem literalmente de não ser, sem nenhum tipo de causa, então eu acho que isso é metafisicamente problemático e requer uma explicação. [...] Não há nada, e o 'nada' não pode ser limitado, porque o 'nada' não é uma coisa, é um 'não ser'. Então, ele precisa lidar com estes problemas metafísicos. Craig lembra que, "se há leis [...], então não é verdade que 'não há nada'. Então, a declaração é em si mesma contraditória". Ele encerra atentando para uma famosa frase de Einstein: "O homem de ciência é um filósofo pobre"; e diz que "o livro de Hawking e Mlodinow testemunha a sagacidade de Einstein" (http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=8415).

    O que tudo isso tem a ver com Dennett? William Lane Craig, assim como ele, é um filósofo, e justamente por isso, é acusado de ser um pensador inútil por aqueles que compartilham a ideia contraditória proposta por Hawking, já que, se a filosofia perdeu seu espaço, é melhor que os ditos filósofos se calem de uma vez por todas. Vários usuários do Youtube menosprezam frequentemente a formação acadêmica de Craig, Ph.D. em Filosofia e Ph.D. em teologia, como vemos no seguinte vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=VHpz5G2gsMQ. Eis a descrição: "Debate entre Christopher Hitchens (jornalista, escritor e crítico literário formado na Universidade de OXFORD) [vs] William Lane Craig (professor de Filosfia [na] Universidade de Biola). Vejam a imbecilidade de Craig para refutar o gênio Christopher Hitchens". Notamos uma ênfase na formação de Hitchens e um desprezo pela formação de Craig, que sequer é relatada, e isso acontece justamente pelo desprezo generalizado que os neo-ateus têm pela Filosofia - mais deixemos o caso de Hitchens para depois.

    Aí está, justamente, a ironia do caso de Dennett. Sendo ele um filósofo com as mesmas qualificações acadêmicas que Craig, a primeira atitude dos neo-ateus para com ele deveria ser a de equivalente desprezo. Pela maneira neo-ateísta de pensar, Dennett é um mero filósofo que não tem o direito de se meter com os reais assuntos da ciência. Se o Dr. Craig deve ser ignorado por representar uma disciplina inútil que já foi enterrada, como o Dr. Dennett pode ser tolerado e até mesmo aplaudido por representar a mesma disciplina? A incoerência neo-ateísta é facilmente explicada: William Lane Craig é cristão; Dennett é ateu. Para os ateus, o problema não é realmente a Filosofia, mas para que fins a Filosofia está sendo defendida. Sendo ela fundamental à defesa do caso teísta, a pré-disposição a rejeitá-la precocemente é natural, mas se ela beneficiar o lado ateísta, é possível abrir uma exceção. Aparentemente, Stephen Hawking não é o único perdido em meio a contradições infantis.

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    De qualquer forma, deixemos de lado a maneira conveniente de pensar dos neo-ateus e foquemos nas ideias do filósofo "brilhante". Quando Dennett afirma que os brilhantes não acreditam em Deus da mesma maneira que não acredita em fantasmas e elfos, já está sendo desonesto o bastante para equiparar a crença teísta com  contos infantis. Temos, então, a ridicularização da crença, a sugestão de que que as evidências esperadas para Deus se assemelham com as esperadas para fantasmas, elfos, Coelho da Páscoa, Papai Noel, etc., e principalmente o self-selling em proporções bizarras. Dennett é brilhante em comparação aos pobres e ingênuos teístas, não acredita em Deus porque não há evidências para crer que Ele exista e situa esta ausência de evidências no mesmo plano em que se encontra os personagens fictícios que ele descreve.

    Mas, especialmente nesse caso, não nos foi dada nenhuma evidência de que Dennett ou nenhum outro ateu é brilhante - superior a qualquer outra pessoa -, não foi explicado de que maneira a crença em Deus é invalidada da mesma forma que a dos personagens citados e muito menos quais as evidências esperadas para cada um dos casos. Portanto, ainda que Dennett estivesse certo, ele não estaria dando ao leitor bons argumentos para sustentar sua posição; ele simplesmente está alegando, se vendendo, esperando que as pessoas, sem nenhum motivo plausível, simplesmente confiem e acreditem nele. Mas assim como não há evidências para acreditarmos na existência de elfos, não nos foi dado evidências para acreditar na existência do brilhantismo de Dennet, e nesse sentido, é preferível assumir, pelos mesmos critérios que ele propôs, que não há brilhantismo algum.

    Estaria bom se isso fosse o pior que se pode encontrar na obra do auto-proclamado gênio. Em seu livro Quebrando o Encanto, ele ressalta o "lastimável legado de perseguição aos seus próprios cientistas", referindo-se a Igreja Católica. Mas esse legado se resume sempre ao mesmo episódio: o caso Galileu. O interessante, no entanto, é que, se fosse verdadeiro esse legado de perseguição, Galileu seria um dos piores exemplos para ilustrá-lo. O caso já foi abordado em outra postagem (http://www.caosdinamico.com/2010/11/grandes-mitos-sobre-igreja-catolica-1.html), e o que se pode concluir é que o caso Galileu não caracteriza nenhuma perseguição, nenhum exemplo do conflito entre a Igreja e a ciência e, mais importante, tem um principal culpado: o próprio Galileu. Como os detalhes já foram expostos na postagem referida, apenas acrescentarei o que diz Arthur Koestler: "A ideia de que o julgamento de Galileu foi uma espécie de tragédia grega, um confronto entre a fé cega e a razão iluminada, está ingenuamente equivocada". Também recomendo o seguinte breve documentário: http://www.youtube.com/watch?v=SxhZBT6jgS0.

    É de se espantar que uma pessoa brilhante possa ser tão ignorante sobre um dos pilares de sua aversão à religião, isto é, os eventos históricos. Ignorância histórica é o que há por baixo da máscara do brilhantismo ateísta, mas seria ótimo se Dennett fosse o único que usasse essa máscara tão frágil. Além disso, quando não há necessariamente ignorância, são abertas muitas brechas. Segundo Dennett, "o terrorismo da Al Qaeda e do Hamas ainda é de responsabilidade do Islã, e as explosões de clínicas de aborto ainda são de responsabilidade do cristianismo". E como diz Dinesh D'Souza: "Pois bem! Aceitemos o critério de Dennett. Entretanto, seguindo esse mesmo critério, os milhões de assassinatos cometidos por Stalin, Hitler e Mao - sem mencionar os de uma série de tiranos menores - são todos de responsabilidade do ateísmo". Imediatamente, os ateus gritarão diante de tamanha "mentira", pois, como "bem sabemos", os crimes dos regimes nacional-socialista e internacional-socialista não foram cometidos em nome do ateísmo.

    O problema é que, segundo Dinesh, quando se tenta culpar um cristão, que nunca queimou ninguém em uma fogueira, pela Inquisição, é perfeitamente "justo" culpar um ateu pelos crimes do ateísmo, ainda que o ateu também não tenha feito nada. A discussão acaba, inevitavelmente, na acusação de que o ateísmo não prega a violência e a morte, ao passo que é impossível imaginar uma religião sem essas características. E já que chegamos em um momento oportuno para falar de distorções, passemos para as ideias de Sam Harris - talvez o mais inimaginavelmente desonesto não só entre os neo-ateus, mas entre todos os seres humanos vivos nesse exato momento. Segundo ele, o stalinismo e o maoísmo foram "um pouco mais que uma religião política", já que, para livrar a responsabilidade do ateísmo nas ideias socialistas, parece mais sábio comparar esses regimes às religiões, já que o produto que se nota ali são parecidos com as tragédias que as religiões produziram durante a História.

    Mas Harris vai além. Em seu The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason, diz que "o ódio aos judeus na Alemanha [...] foi uma herança direta deixada pelo cristianismo medieval", e que "o Holocausto marcou o auge de [...] duzentos anos de ataques cristãos contra os judeus"; ou seja, "conscientemente ou não, os nazistas foram agentes da religião". Verifiquemos essas alegações. Dinesh explica que, "durante sua ascenção ao poder, Hitler precisou do apoio do povo alemão - tanto dos católicos bávaros como dos luteranos prussianos - e, para garanti-lo, de vez em quando usava em sua retórica frases do tipo 'estou fazendo a obra do Senhor'. Alegar que essa retórica identifica Hitler como cristão é confundir oportunismo político com convicção pessoal. O próprio Hitler diz em Mein Kampf que suas declarações públicas devem ser entendidas como propagandas sem compromisso com a verdade, mas com o objetivo de influenciar as massas" (Dinesh D'Souza, A Verdade Sobre o Cristianismo, págs. 245-6).

    O "cristianismo" de Hitler também já foi abordado aqui (http://www.caosdinamico.com/2010/10/o-valor-da-discussao-religiosa-na.html), e a alegação de que o ódio aos judeus foi uma herança do cristianismo medieval pressupõe que os cristãos sempre odiaram os judeus e, nesse caso, principalmente a Igreja Católica - muitos ateus assumem que, inclusive, a Igreja colaborou com Hitler; outros chamam Bento XVI de nazista, e por aí vai. Cito aqui alguns judeus que testemunharam o que houve, de fato, na época. Segundo Albert Einstein, "só a Igreja Católica protestou contra o assalto hitlerista à liberdade"; o Dr. Alexandre Safran, rabino-chefe da Romênia, escreveu em 1944: "Nestes tempos duros, nossos pensamentos, mais que nunca, voltam-se com respeitosa gratidão ao Soberano Pontífice, que fez tanto pelos judeus em geral... No nosso pior momento de provação, a generosa ajuda e o nobre apoio da Santa Sé foram decisivos. Não é fácil encontrar as palavras adequadas para expressar o alívio e o consolo que o magnânimo gesto do Supremo Pontífice nos deu, oferecendo vastos subsídios para aliviar os sofrimentos dos judeus deportados. Os judeus romenos jamais esquecerão esses fatos de importância histórica". Quando os Aliados libertaram Roma, uma Brigada Judaica afirmou em seu Boletim: “Para a glória perene do povo de Roma e da Igreja Católica Romana, podemos afirmar que o destino dos judeus foi aliviado pelas suas ofertas verdadeiramente cristãs de assistência e abrigo. Mesmo agora, muitos ainda permanecem em lares religiosos que abriram suas portas para protegê-los da deportação e da morte certa" (Joseph Sobran sobre A Difamação de Pio XIIhttp://www.olavodecarvalho.org/convidados/sobran.htm).

    A verdade é que as acusações de Harris não são preocupadas com qualquer tipo de investigação sobre o que realmente aconteceu, mas em uma tentativa pura e simples de pregar contra o cristianismo, como é de praxe entre os neo-ateus. Mais sobre as desonestidades de Sam Harris pode ser lido aqui: Religião como loucuraTolerância religiosa. Apesar de ele ser o mais desonesto, ele não é o mais popular, por isso reservarei as maiores críticas a Hitchens e Dawkins. Para mostrar que a ignorância histórica, desonestidade e canalhice são inerentes a cada um dos quatro cavaleiros, deixo o que Harris diz sobre a relação entre a Igreja e a ciência (http://www.caosdinamico.com/2011/02/cristianismo-e-ciencia.html). Segundo ele, a Igreja destaca-se por "torturar estudiosos até o ponto da loucura pelo simples fato de especularem sobre a natureza das estrelas". Um homem que não sente remorso ao mentir desse jeito não merece nada além do desprezo total da humanidade. Botar-se diante dos religiosos como portador da razão e ser tão desonesto é a prova definitiva da falta de caráter dos líderes neo-ateus (http://quebrandoneoateismo.com.br/2010/11/01/quatro-pontos-que-diferenciam-um-ateu-tradicional-de-um-neo-ateu/).

    Christopher Hitchens é o ateísta que aparentemente não só não acredita em Deus, mas odeia a mera possibilidade d'Ele existir. Alguns discursos de Hitchens deixam claro o seu ódio para com o que ele chama de "ditador celestial". Bem como Darwin, Hitchens parece não poder perdoar um Deus que comete tantas injustiças, ou melhor, que permite tantas injustiças e priva-nos da nossa liberdade, como uma espécie de espião que nos observa durante cada segundo de nossa vida. Não é uma surpresa tão grande descobrir que seu irmão, Peter Hitchens, que se converteu ao cristianismo, escreveu um livro entitulado The Rage Against God (A Raiva Contra Deus), pois é precisamente isso que percebemos em Christopher.

    Apesar de Hitchens ser considerado por muitos o mais notável entre os quatro cavaleiros, seus confrontos com cristãos lhe saíram muito caro. Os admiradores do jornalista inglês tendem a desenvolver uma grande aversão a Dinesh D'Souza, com quem já debateu várias vezes. São bastante curiosas as acusações de que Dinesh distorce informações, é desonesto e covarde, pois são precisamente essas características que mais notamos nos neo-ateus, e Hitchens não é exceção. Quando debateu com William Lane Craig, deixou clara a sua incompetência como defensor de uma postura que ele julga racional, fugiu das perguntas, não mostrou argumentos em favor do ateísmo e chegou a ter como recompensa toda a plateia rindo de sua cara. O website ateísta commonsenseatheism.com, escreveu sobre o debate entre Hitchens e Craig: "Francamente, Hitchens foi espancado feito uma criança bobinha" (http://commonsenseatheism.com/?p=1230). Mas é engraçado ver que há muitos ateístas que pensam que Hitchens massacrou Craig - vide exemplo dado alguns parágrafos acima -, e eu realmente não consigo imaginar como chegar a tal conclusão.


    Os argumentos de Hitchens giram em torno de uma revolta pessoal contra Deus e a ideia de que o mundo seria muito melhor sem religiões. No mesmo debate contra Craig, ele citou as atrocidades causadas em nome da religião, e a resposta de Craig, quando instigado a comentar sobre as atrocidades ateístas no século passado, foi que isso era irrelevante para o debate, e que ele estava preocupado com qual visão de mundo estava certa, e não com seu impacto social. Acuado, Hitchens disse concordar completamente, e que só citou isso para mostrar que pessoas más usam Deus para justificar suas más atitudes. Mas em seus debates com Dinesh, usou e abusou dos mesmos argumentos, pois para ele a religião é necessariamente um sinônimo de maldade.

    Hitchens também promoveu, junto com Dawkins, a campanha que pretendia prender o Papa Bento XVI, além de já ter tentado processá-lo. Por quê? Por Bento XVI ter supostamente acobertado um crime de pedofilia em 1979. Acontece que, ao invocar a Justiça, Hitchens precisa respeitar essa Justiça, mas essa parte ele parece "pular". O padre acusado em 1979 de abusar de um menino de onze anos na cidade alemã de Essen nunca foi julgado nem muito menos condenado pela Justiça comum. Não havendo a respeito uma sentença transitada em julgado, ninguém tem, em nome da Justiça, o direito de proclamar que houve crime. Se nem o crime é confirmado, como pode sê-lo o seu "acobertamento"? Pela lógica, é preciso provar primeiro uma coisa, depois a outra, não ao contrário. O que houve, em vez de prova judicialmente válida, foi apenas uma suspeita séria, com base na qual o então cardeal Ratzinger ordenou que o acusado fosse submetido a tratamento psiquiátrico e removido para um posto administrativo em Munique onde não tivesse contato com crianças (http://www.olavodecarvalho.org/semana/100322dc.html).

    A tentativa de Hitchens de condenar alguém por acobertar um crime que a Justiça não disse que foi cometido retrata perfeitamente o seu caráter mesquinho e a sua tentativa baixa de vingança contra todos que representam o Deus que ele odeia. Como um homem assim quer falar em justiça ou acusar alguém de algum crime? Se alguém deve ser acusado de algum crime nessa história, é ele mesmo, que quer culpar alguém por um crime que nem ele pode dizer se foi cometido. Acusar religiosos de imorais e ao mesmo tempo agir dessa maneira? Mais uma prova de que o neo-ateísmo não é capaz de se manter vivo a não ser pelo self-selling - e não é estranho que quem é normalmente convencido por essas conversas não tem maturidade nenhuma, além de compartilhar a mesma rebeldia que Hitchens nunca foi capaz de superar.

    Quanto a Richard Dawkins, apesar de eu já ter dedicado um texto só para ele, é impressionante como ele continua surpreendendo. Mas em meio às suas propagandas e discursos para adolescentes, veio a notícia de que ele participaria de uma discussão em que o Dr. Craig também estaria presente. Era a oportunidade pela qual muitos esperavam, e apesar de não ter sido um confronto direto e haver pouco tempo para cada convidado fazer sua defesa de caso, foi o suficiente para deixar claro o motivo de Dawkins ter tanto medo de debater com Craig, face to face. Dessa vez, no entanto, a ridicularização do adversário e um discurso de superioridade não bastariam para convencer a plateia. O debate na íntegra está disponível aqui: http://quebrandoneoateismo.com.br/2010/11/22/debate-craig-e-dawkins-legendado-agora-tambm-com-udio-original/. O resultado vergonhoso para Dawkins, abaixo.


    Os teístas que estão cientes dos discursos neo-ateus e têm acompanhado os admiradores das falácias personificadas provavelmente sabem que os fãs de Richard Dawkins adoram tratar Craig como um simples mentiroso, irracional, mero filósofo que não sabe usar a Lógica. Esse é, aliás, o discurso do próprio Dawkins. Porém, se há algo que esse debate deixou claro, foi isso: no campo da Lógica, Dawkins provou ser completamente incompetente. A incoerência do seu discurso e evasão frequente diante dos argumentos adversários não depõem em seu favor. Apenas os jovens cujas vidas foram mudadas pelo Deus, um delírio, não conseguem aceitar isso.

    Outro episódio interessante, refere-se ao fórum de Dawkins, que foi extinto. Em seu lugar, foi aberto uma área de discussão, mas com uma grande novidade: os comentários são moderados (http://www.youtube.com/watch?v=BgqZU3n0jbc). Apologistas cristãos participavam frequentemente no fórum, respondendo diariamente às afirmações neo-ateístas. Qual a melhor maneira de vencê-los? Impendindo-os de se manifestar. Agora o website funciona basicamente da seguinte maneira: um tópico é aberto, e os ateus estão livres para comentar, inclusive contra os religiosos, mas se um religioso quiser respondê-los, é grande a chance de seu comentário não acabar na página de discussão. Eis os defensores da razão mostrando como vencer a fé cega cristã.

    Voltando à carreira de Dawkins como debatedor, além de ter recusado debater diretamente com William Lane Craig, ele também recusou confrontar Dinesh D'Souza, Michael Behe e, pior do que ter recusado debater com esses citados, também negou ter debatido com o rabino Boteach, em 1996 - debate que Dawkins perdeu, segundo votação dos alunos. O rabino, ao descobrir que Dawkins havia negado o debate, imediatamente disponibilizou uma gravação no Youtube, desmentindo de uma vez por todas o biólogo. Atualmente, há até uma petição online que visa pressionar Dawkins a aceitar o desafio de Craig (http://manawatu.christian-apologetics.org/sign-the-dawkins-petition/).

    Sobre a recusa de debater com Dinesh, o Dr. Jamie Glazov escreveu: "D'Souza debateu com Daniel Dennett, Christopher Hitchens, Peter Singer, Michael Shermer, Dan Baker e outros ateus conhecidos. Ele cortou esses caras em pedaços, intelectualmente. Harris e Dawkins estão apenas com medo de encarar D'Souza". Em adição às críticas destinadas a postura covarde de Dawkins, vale apresentar as críticas ao seu livro em defesa do ateísmo, The God Delusion. Andrew Brown, da Prospect Magazine, escreve: "Há anos estava claro que Dawkins estava prestes a escrever um livro sobre religião, mas quem seria capaz de imaginar que ele escreveria um tão ruim? Negligente, dogmático, desconexo e auto-contraditório, não tem nada do estilo ou energia de suas obras antigas". Terry Eagleton, do London Review, diz: "Racionalistas de carteirinha como Dawkins são de alguma forma os menos preparados para entender o que eles castigam, já que eles acreditam que não há nada para eles entenderem, ou nada que valha a pena entender".

    Eagleton está certo, Dawkins realmente não acredita que há algo a ser entendido, e assumiu isso publicamente, talvez com a resposta mais infantil da história do neo-ateísmo, quando comentou a importância da teologia: "A maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante". Bravo, Mr. Dawkins! Para seus fãs, tal resposta é tão plausível, que se botariam em pé para aplaudi-la. E por que digo isso? Por que já se levantaram para aplaudir muito menos...



    Então, é realmente triste ver que pessoas tão ignorantes em História e Filosofia, e completamente cientificistas são tão aclamadas injustamente. Ao mesmo tempo é confortante saber que o neo-ateísmo se sustenta fundamentalmente na promoção de mentiras; não há veracidade em suas alegações, não há escrúpulos em seus métodos nem ética em seus ensinos. Se há alguém que não pode falar uma única palavra contra as religiões, esse alguém é precisamente o neo-ateu. Liderado por covardes mentirosos e desonestos, o movimento depende de adolescentes ingênuos e rebeldes de várias idades para crescer.

    Não importa a técnica utilizada, a tentativa de ridicularizar a fé alheia ou a tentativa sem fim de se vender: não há nada tão fácil quanto desmascarar o neo-ateísmo. Se eles acreditam sinceramente que o cristinianismo cairá diante desse choro infantil que eles vem ecoando, vão morrer sem ver os resultados de sua birra. A basear-se nos cabelos brancos de três deles, eu não seria tão otimista. Enquanto o cristianismo está vivo há mais de dois mil anos, é difícil acreditar que o neo-ateísmo durará um único século.

    Enquanto Dawkins e Harris fogem de debates e Hitchens e Dennet não conseguem se sair bem, mesmo os ateus reconhecem a competência dos cristãos. O ateu Luke Muehlhauser escreve: "William Lane Craig [...] é o melhor debatedor - em qualquer tópico - que eu já conheci. Até onde eu sei, ele venceu praticamente todos os seus debates com ateus" (http://commonsenseatheism.com/?p=392). Ateus também reconhecem que o então cardel Joseph Ratzinger vencera o ateu Paolo d'Arcais. Marcelo Coelho escreve: "Flores d'Arcais não sai vitorioso, entretanto, do debate com Joseph Ratzinger. Quando se trata de defender princípios universais e inalienáveis, como os direitos humanos, nosso ateu de plantão cai na armadilha do relativismo" (http://paginadoenock.com.br/home/post/5032). É possível até desconfiar por que os neo-ateus preferem fugir, palestrar, moderar seus fóruns, etc. Se alguém que se diz racional consegue ser derrotado por alguém que é tido como ápice da irracionalidade, é necessário desconfiar um pouco mais da alegação ateísta. Parece que as coisas funcionam ao contrário do que eles nos descrevem, afinal...




    Referências e recomendações:
    1. The root of all evil
    2. Dawkins and Boteach
    3. The Dawkins Delusion
    4. The Dawkins Delusion?
    5. All about Dawkins failures
    6. Why Critics of the Bible Do Not Deserve the Benefit of the Doubt
    7. The Grand Design
    8. Papai Noel, Fadas do Dente, e Deus
    9. Difamação pura e simples
    10. Simpósio sobre Pio XII e Hitler
    11. Hitchens contra o Papa
    12. Dawkins contra o Papa
    13. Hitchens, um neo-ateu de segunda divisão
    14. Ratzinger vs. d'Arcais
    15. Truques neo-ateístas
    16. What's So Great About Christianity
    17. How the Catholic Chruch Built Western Civilization
    18. Reasonable Faith
    19. On Guard
    20. The Rage Against God

    7 de março de 2011

    Brasil: terra dos palpiteiros #1

    Os populares vlogs, que já há um bom tempo têm sido uma das maiores manias nacionais, estão apresentando uma característica comum bastante curiosa: a crítica religiosa baseada em palpites. É um fenômeno difícil de explicar, mas fácil de desmentir, já que não há opinião insensata que resista a um argumento sério.

    Mas talvez o verdadeiro problema seja a estranha estima que o público desses vlogs tem pelas opiniões extremamente ignorantes de seus autores. Aplaudir a ignorância das pessoas me parece tão estranho e inadequado quanto o Presidente Lula dizer que o ENEM 2010 "foi um sucesso extraordinário", quando, na verdade, a edição do exame foi, no mínimo, assustadora.

    Talvez seja um fenômeno tipicamente brasileiro: é possível que a inigualável cara-de-pau do ex-Presidente tenha contaminado a população, apesar de ser mais sensato aceitar que ele é, de fato, o reflexo perfeito do povo brasileiro - sua popularidade é a primeira evidência disso. O mais triste, porém, não é admitir esta dura realidade, mas perceber que nossos jovens foram por ela tão afetados. Tendo eu mesmo vinte e um anos, seria impossível não notar o tamanho do estrago, que se faz presente em cada canto em que se vai. As novas gerações já nascem corrompidas por gerações antigas para as quais não há mais solução.

    Não cito o "grande" Luiz Inácio aleatoriamente! Talvez essa característica peculiar do brasileiro de falar daquilo que não sabe seja perfeitamente personificada por ele. Encontramos o melhor exemplo disso no episódio em que Lula, em uma tentativa frustrada de ser climatologista, disse que a "questão do clima é delicada [...] porque o mundo é redondo". Sua sucessora, Dilma Rousseff, também pode ser lembrada como expert na admirável arte de palpitar. Segundo ela, "o meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável". Mas também não seria certo julgá-la por esta falha; afinal, deve ser difícil falar sobre algo que ela mesma sequer imagina o que seja, e é possível suspeitar que seja comum se confundir com discursos elaborados por terceiros.

    Palpitar certamente soa muito informal para quem quer falar sério, mas não há maneira melhor de descrever esta prática nacional que está no sangue de nosso povo. E se já se tornou comum dizer que os homossexuais já nascem homossexuais - ainda que a própria ciência nada tenha confirmado sobre isso -, por que não dizer a mesma coisa sobre outras características que parecem pertencer à genética? Ora, se o homossexual nasce homossexual porque já quando pequeno tende a manifestar comportamentos homossexuais, posso brasileiramente defender que o palpiteiro já nasce palpiteiro porque já pequeno tende a manifestar comportamentos comuns daqueles que palpitam - com os vlogs e o conteúdo neles exposto pelos jovens temos uma evidência científica melhor que a que temos no caso do gene gay, aliás.

    Aqui começa uma aventura em busca de evidências que confirmem a minha hipótese, embora os exemplos de Lula e Dilma me pareçam suficientes para ela receber o status de teoria - mas o que é suficiente para mim pode não ser para outras pessoas, é claro. Infelizmente me limitarei a investigar as opiniões de vloggers que falaram sobre religião, mas é evidente que a arte de palpitar se verifica em outras centenas de temas eventual ou comumente abordados por eles. A seguir estão os exemplos que eu considero mais oportunos e os meus comentários sobre cada um deles.


    A primeira coisa que precisa ser dita sobre o vídeo acima, é que não fica explícito qual religião o autor está acusando. Por isso é necessário supor que a maioria das críticas se dirige aos cristãos, e já aqui adianto que a suposição pode estar equivocada. O faço porque o cristianismo é a religião mais praticada no Brasil, e acho muito improvável que o autor, sendo brasileiro, estivesse falando de outros países, já que isso nem mesmo fica implícito. Ele admite estar fazendo generalizações, mas mesmo que esse fosse o caso, um conhecimento mais apurado ao menos sobre as religiões mais populares do mundo seria requerido. Porém, tal conhecimento não se verifica no vídeo em momento algum. Seja como for, se a suposição de que o alvo principal é o cristianismo estiver realmente equivocada, supor que ele esteja falando de alguma religião cuja raiz se encontra na tradição semítica pode resolver esse problema.

    Vemos no vídeo a seguinte afirmação: "Eu acredito que a religião é o maior problema da humanidade". Supor-se-ia que após tal afirmação, viria a justificativa que a suporta e lhe confere veracidade, mas isso não acontece. Há, logo após a afirmação, um desvio repentino do objeto de discussão: abandona-se a religião e passa-se a falar do religioso. Talvez se possa identificar tal situação como distração, mas só seria lícito relevá-la se a afirmação não fosse fundamental ao próprio discurso que segue. Se a religião é o maior problema da humanidade e é partir dessa afirmação que se entende todo o contexto posteriormente apresentado, não se pode deixá-la solta, faltando com a responsabilidade de oferecer ao espectador um bom argumento que valide tal conclusão.

    Dirão que não há nem uma única justificativa porque a intenção do autor não é de convencer, pois, como ele mesmo deixa claro, as ideias apresentadas são opiniões pessoais. Porém, vemos que o autor diz que existem pessoas religiosas inteligentes, mas que elas são aquelas que um dia deixarão de ser religiosas. Portanto, tendo com isso assumido um compromisso com a própria inteligência, se espera que ele mesmo venha a respeitá-la. Qualquer pessoa poderia facilmente concordar que não é inteligente expor uma opinião que pretende ser inteligente sem que haja alguma base convincente apoiando tal opinião.

    Eu poderia dizer que as maçãs são o maior problema da humanidade e que sou profundamente decepcionado com todas as pessoas que gostam de maçãs. Mas eu seria facilmente taxado de louco - e com razão dos que viessem a assim me taxar - se dissesse que pessoas inteligentes deixariam de gostar de maçãs. Isso porque, em nenhum momento, eu forneci qualquer argumento válido apoiando a minha ideia de que maçãs são o maior problema da humanidade. Eu simplesmente afirmei, dei a minha opinião. Mas se a minha opinião não está baseada em nada que qualquer ser humano possa chamar de coerente, inteligente, ou, no mínimo, aceitável, qual o sentido em compartilhá-la com alguém? O que vemos no vídeo, mantendo o exemplo das maçãs, poderia ser explicado da seguinte maneira: primeiro eu digo que as maçãs são o maior problema da humanidade e, logo após, em vez de explicar porque as maçãs são esse problema, eu começo a dizer que as pessoas que gostam de maçãs são desse ou daquele jeito problemático, deixando de lado a explicação que eu deveria fornecer.

    É evidente que, se as pessoas que gostam de maçãs são problemáticas, não se conclui logicamente que a causa desses problemas é a maçã. Portanto, somente uma argumentação que justifique a afirmação de que as maçãs são o maior problema da humanidade pode ser considera plausível. Justificar tal afirmação apelando para o comportamento de determinados consumidores de maçã caracteriza, pois, um non sequitur. Há de se reconhecer que, diante disso, a pessoa que viesse a chamar o rapaz de arrogante, como ele mesmo supõe, não estaria, de fato, equivocada. Se há a pretensão de caracterizar os religiosos como intelectualmente inferiores, não é a custa de falácias que ficará justificada essa inferioridade.

    Como isso não é tudo, é necessário analisar o discurso dirigido às pessoas religiosas, pois também aí pode-se identificar outras incoerências. A religião é exposta, no vídeo, como uma filosofia criada por alguma coisa que não existe e visa auxiliar as pessoas a se tornarem melhores que elas mesmas através de ensinamentos impraticáveis. E mesmo que elas não pratiquem tais ensinamentos, elas fingem que os praticam e acabam se considerando melhores que as pessoas que não são religiosas. A pessoa religiosa é mais hipócrita que a não religiosa por considerar-se superior à não-religiosa, mas ser tão pecadora quanto esta última. Por fim, as punições, que existem em todas as religiões, valem para todas as pessoas, menos para a pessoa que pertence a essa ou aquela religião.

    Notamos ali a alegação de que a filosofia de uma religião é criada por algo que não existe. Temos, então, uma alegação que precisa ser demonstrada, pois o ônus é de quem afirma. Se eu afirmo, por exemplo, que Deus existe, me cabe demonstrar a existência. Da mesma forma, se eu afirmo que não existe, me cabe demonstrar a inexistência. Porém, o vlogger não demonstra sua alegação, novamente comprometendo o seu discurso em que muito se afirma, mas nada se confirma. O mesmo se aplica a praticamente todas as alegações seguintes: não é demonstrado que os ensinamentos são impraticáveis, que as pessoas fingem praticá-los ou que elas se consideram melhores que quem não os pratica.

    Para identificar algo como impraticável, primeiro deve-se expor o que deve ser praticado e demonstrar que nenhum ser humano foi capaz de praticar o proposto. No vídeo, não é dado um único exemplo de mandamento ou ensinamento impraticável, portanto, é impossível dizer se eles são, de fato, praticáveis ou não. Quanto à alegação de que as pessoas religiosas fingem praticar algo e considerarem-se superiores a quem também não o pratica, seria necessário demonstrar que absolutamente todos os religiosos fingem praticá-lo e que todos consideram-se superiores a quem não o pratica. É razoável identificar tal afirmação como medíocre, pois somente um ser onisciente poderia verificá-la. Nota-se, naturalmente, que a generalização feita conscientemente pelo autor é completamente inadequada. Imaginem que eu diga que todos os torcedores do São Paulo consideram-se superiores aos torcedores do Palmeiras porque o uniforme do São Paulo tem três cores: além de precisar demonstrar que todos os torcedores do São Paulo consideram-se superiores aos torcedores do Palmeiras, ainda precisaria demonstrar que o motivo alegado é o que justifica tal sentimento de superioridade. A afirmação de que todos os religiosos consideram-se superiores aos não religiosos simplesmente por serem religiosos é tão absurda quanto esse exemplo dos torcedores.

    Como uma ideia segue a outra, estando uma equivocada, é muito fácil equivocar-se em todo o discurso. Assim, não estando demonstrado que os religiosos consideram-se melhores que os não religiosos, não segue que o primeiro seja mais hipócrita que o segundo. Eu, enquanto religioso, não me considero melhor que o não religioso, pois uma das ideias fundamentais da religião que sigo diz que todos os homens são iguais e todos eles pecadores. Que dentro desta religião haverá hipócritas, qualquer criança poderia entender, mas que absolutamente todos os seguidores desta religião sejam hipócritas, nem o mais louco dos homens poderia admitir.

    Se todas essas ideias confusas não bastassem, ainda há a afirmação de que as punições que encontramos nas religiões se aplicam exclusivamente aos não religiosos, ou seja, no inferno só há ateus. Eu me sinto envergonhado diante de tamanho absurdo; não consigo imaginar em que Igreja esse rapaz possa ter entrado - se é que entrou em alguma uma única vez. O cristianismo, por exemplo, diz que todos os homens são pecadores, exceto Cristo, que é também Deus. E quanto ao inferno, segundo Apocalipse 21: 8, "pelo que toca aos covardes, aos incrédulos, aos execráveis, aos homicidas, aos fornicadores, aos feiticeiros, aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no tanque ardente de fogo e de enxofre, que é a segunda morte". Talvez ele ficaria feliz ao descobrir que a Igreja sempre esteve ciente da hipocrisia de muitos "fiéis", e mais ainda que essas pessoas que se consideram superiores a alguém tem um destino tão "promissor" quanto os infiéis que elas possivelmente acusarem. Seja como for, é admirável que cinco minutos possam abrigar tanta falta de sentido. Definitivamente, torna-se curioso entender como um pensador autêntico não se tornará um ateu; e lamento muito o fato de eu não mais poder pensar, já que a religião castrou o meu livre-pensamento: é uma pena.

    Após isso, ouvimos mais uma vez que todas as pessoas que seguem uma doutrina fazem questão de não pensar a respeito, e que as religiões se dizem democráticas, mas, no fundo, qualquer questionamento resulta em marginalização do questionador. Segundo o autor, quem está em uma religião ou já fez parte, sabe como é. Infelizmente, eu não sei: ou melhor, sei que não é dessa maneira, mas novamente corro o risco de estar sendo enganado pelo meu cérebro limitado. Portanto, não seria justo que eu confiasse na minha própria experiência, principalmente por que todas as religiões são como ele descreve. Após tantas alegações seguidas de abundantes evidências e demonstrações, sinto ter faltado o convite: "Venha ser ateu: abrace a inteligência hoje". Diante de tal apresentação praticamente científica, resta-nos aplaudir.


    O segundo vídeo tinha como título original "Ser ateu no Brasil é como ser católico no inferno", mas talvez por uma má repercussão o autor tenha optado por algo mais suave. Ele faz o vídeo em resposta ao vídeo anterior, e começa dizendo que concorda com tudo que foi dito pelo outro rapaz. Seu primeiro acréscimo se refere à influência histórica da religião no nosso país. O autor, de maneira estranha, parece se conformar com a origem do nome da cidade de São Paulo, mas demonstra não concordar com os vários outros casos - como se São Paulo fosse a única cidade cuja origem depara-se com o cristianismo.

    O autor argumenta de maneira confusa e pouco convincente, mas o mais interessante é a confusão - que se nota no vídeo todo - entre Estado laico e Estado laicista ou ateu. O fato de termos símbolos religiosos em repartições públicas não fere, de maneira alguma, a laicidade. O Estado é laico, pois nenhuma religião é imposta a ninguém no Brasil: há liberdade para ser cristão tanto quanto há para ser ateu. O que muitos ateus não conseguem ou não querem entender, é que o povo brasileiro é majoritariamente cristão, e esse povo tem o direito de manifestar a religião, inclusive publicamente, como assegura o Art. 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Poder-se-ia, obviamente, sugerir que os ateus insatisfeitos com a laicidade do Estado brasileiro se mudassem para algum Estado islâmico, mas acredito que eles preferirão, mesmo, continuar nesse Estado "pseudo-laico" em que estão.

    Acontece que muitos ateus veem a laicidade como uma ofensa pessoal, e para que se repare uma injustiça que ele supostamente sofreu, seria apropriado retribuir a ofensa, talvez criminalizando as práticas de determinada religião. O Estado laico visado por muitos ateus é o Estado que proíbe a liberdade de uma maioria para que uma minoria não se sinta marginalizada. Ver um jovem ser suspenso de um colégio por usar um terço talvez não lhes parecesse uma ofensa à Constituição, mas quem sou eu para propor adivinhações?

    O autor do vídeo parece se ofender porque há a palavra Deus na Constituição, e o faz por pensar que Estado laico significa um Estado ateu que não permite a presença do transcendental, ainda que mais de 80% da população creia nesse mesmo Deus por livre e espontânea vontade. Bem como a PL122/2006 tentara criminalizar qualquer discordância com a prática homossexual, o ateu vê na palavra laico uma obrigação de criminalizar e abolir a religião do âmbito social.


    Ainda podemos alertar o autor sobre uma parte da História que ele parece não conhecer. Ele sugere que a religião não ajuda os doentes, já que precisamos de hospitais, mas o que ele parece não saber é que, se existem hospitais, é por causa da Igreja, portanto, não é apropriado dizer que a religião não ajuda os doentes. De qualquer forma, cavemos este buraco um pouco mais fundo: no Século IV, foi a Igreja que começou a patrocinar a fundação de hospitais em larga escala. Mais que isso, historiadores apontam para a Igreja como a fundadora das primeiras instituições atendidas por médicos, onde se faziam diagnósticos, se prescreviam remédios e se contava com um corpo de enfermagem (Alvin J. Schmidt, Under the Influence, págs. 153-5).

    O historiador da medicina Fielding Garrison diz que, antes de Cristo, "o espírito com que se tratava a doença e o infortúnio não era o de compaixão, e cabe ao cristianismo o crédito pela solicitude em atender o sofrimento humano em larga escala" (Fielding H. Garrison, An Introduction to the History of Medicine, pág. 118). Foi uma mulher cristã que, em um ato de penitência, fundou o primeiro grande hospital público em Roma. O historiador Thomas Woods escreve que ela "percorria as ruas em busca de homens e mulheres pobres e enfermos necessitados de cuidados" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 166). Diante disso, será mesmo justo dizer que a religião é um placebo que nada faz? Aliás, tendo a Igreja presenteado o mundo com essa instituição indispensável a qualquer sociedade, não fica mais fácil entender por que há um crucifixo adornando a recepção dos hospitais? Não fica mais fácil entender por que o símbolo mais marcante desses mesmos hospitais é uma cruz? Antes de uma "preferência", como questiona o autor do vídeo, os crucifixos em repartições públicas representam justiça e reconhecimento a quem é devido.

    Talvez a afirmação mais bizarra do vídeo seja a de que a Rede Globo seja casada com a Igreja Católica. Só para recordar, as novelas da Globo estão promovendo o homossexualismo como nunca na história da televisão brasileira, a Retrospectiva 2010 divulgou a falsa informação de que o Papa houvera liberado a camisinha, e já não é de hoje que a emissora promove fortemente o espiritismo - Chico Xavier, que é frequentemente exaltado pela emissora, já teve filmes e minisséries em sua homenagem. Parece-me que de todas as coisas que se pode chamar de paranoia genuína, acreditar que a Globo tem uma relação de afeto com a Igreja é sem dúvida uma das mais absurdas - ou, nesse caso, sensatas. 

    Para o final, fica uma crítica raivosa contra a posição da Igreja quanto a camisinha. A objeção se baseia na possibilidade de superpopulação e de transmissão de doenças. Mas a argumentação é frágil e desonesta, pois o autor ignora convenientemente a defesa da Igreja acerca da castidade. Além disso, a posição da Igreja é consciente, e mesmo especialistas confirmam a sensatez de sua postura. Segundo Edward Green, diretor do Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS, do Centro de Estudos sobre População e Desenvolvimento de Harvard, as evidências que existem apontam que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África. Na verdade, ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. "O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos 'risco compensação'".

    Aparentemente, não é a Igreja que está prestando um desserviço à população, e sim aqueles que confiam cegamente em resoluções que mesmo a ciência não está apta a recomendar como eficaz. Como se a palavra de um pesquisador de campo não fosse o suficiente, podemos lembrar o caso de Uganda, que se tornou modelo no combate a AIDS: o sucesso veio através da abstinência e fidelidade. Surpreendente, não?

    E ainda resta a alegação sobre os casos de pedofilia, que, segundo o autor, são frequentes. Para botar um ponto final à questão, nada melhor que as palavras de um ateu que enxerga além da propaganda anticatólica. Segundo Brendan O'Neill, reconhecido colunista inglês, "a frase ‘sacerdote pedófilo’ se converteu em parte habitual do jargão cultural cotidiano e fez com que muitos, quando leram no jornal Independent (da Inglaterra) na semana passada que mais de 10 mil crianças saíram à luz para dizer que foram violadas (por sacerdotes católicos), pensassem provavelmente: ‘sim, é possível’. Mas o certo é que isto não é verdade". O'Neill desmascarou a fraude praticada pela mídia ao reportar sobre casos de pedofilia na Igreja e fez um favor a todos que têm preguiça de se informar com o mínimo de seriedade: frequentemente esse é o meu caso. As conclusões do colunista podem ser acessadas integralmente na lista de referências.

    Imagino que não se poderia esperar muito de um vlogger que começara sua apresentação elogiando um vídeo cuja grande atração é a falta de compromisso com a verdade: quem não nutriu expectativas fez muito bem. E se é verdade que o ateu no Brasil é como o católico no inferno, poderíamos lembrar ao segundo autor que, como bem alertou aquele que ele elogiara, o inferno é apenas para aqueles que não têm religião. Não deve haver católicos no inferno, certo? Ou será que não há ateus no Brasil, afinal? Há quem ficará confuso.


    Referências e recomendações:
    1. Lula sobre ENEM
    2. ENEM 2010 
    3. Lula sobre o clima
    4. Dilma sobre o meio ambiente 
    5. Cultura religiosa e Estado laico
    6. Estudante suspenso por usar terço 
    7. Homossexualismo na rede Globo
    8. Rede Globo vs. Bento XVI 
    9. AIDS Prevention Research Project
    10. Media coverage of papal comments on AIDS 
    11. "As a liberal, I say the Pope is right" 
    12. Uganda contra a AIDS 
    13. Brendan O'Neil sobre a pedofilia na Igreja 
    14. Estado laico ou laicista?
    15. Sã laicidade
    16. Um fundamento cristão
    17. O Papa e os preservativos
    18. Especialista afirma que o Papa está certo
    19. O exemplo de Uganda
    20. A mente moderna contra a Igreja
    21. Under the Influence
    22. An Introduction to the History of Medicine
    23. How the Catholic Church Built Western Civilization
    24. The Church Confronts Modernity: Catholic Intellectuals and the Progressive Era
    25. What's So Great About Christianity
    26. Reasonable Faith
    27. A caridade
    28. Baixeza de PC
    29. Técnica: Ciência permite discussão, religião não

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