15 de março de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #2

Um dos slogans mais populares do ateísmo é aquele que diz que as pessoas religiosas não se questionam. Ateístas não tem problema algum pensando em religiosos como um bando de gente preguiçosa que não perdeu um único segundo da vida para questionar-se. O ateu, pelo contrário, não faz outra coisa a não ser pensar e refletir. Para "provar" que o cristão não se questiona, ele pode argumentar sobre o absurdo de crer nas histórias fantasiosas da Bíblia, em que pessoas ressuscitam, o mar se divide e carruagens de fogo levam homens para o céu.

Além disso, alega-se que o cristianismo nada mais é que uma compilação de mitos antigos, tendo importado de outras culturas eventos como a Arca de Noé e mesmo o mais decisivo de sua história: a crucificação e ressurreição de Cristo. A conclusão é que, se o cristão não parou para pensar no quão absurdo é tudo isso, ele não se questiona: acredita por medo, por fraqueza. O ateu é forte o suficiente para encarar a realidade, pois, por mais confortante que seja acreditar em um Deus que nos ama e é justo, é precisa olhar para os fatos. Afinal, já passamos do tempo em que superstições da Idade do Bronze eram levadas a sério; hoje temos livros, revistas e acesso a todo tipo de informação. É hora de evoluir.

Como não poderia deixar de ser, tal discurso não passa de um guia prático de falácias. E como as falácias são inerentes ao discurso do palpiteiro, analisaremos, dessa vez, aquelas que giram em torno da auto-promoção (self-selling) e ridicularização da fé alheia.


O vídeo acima é o exemplo perfeito de tentativa de ridicularização da fé cristã. Há, sim, algo de aproveitável no que é exposto, que é a crítica aos cristãos adeptos ao cristianismo self-service, ou seja, os cristãos que pensam poder escolher o que seguir e o que ignorar nas Escrituras, como se cada pessoa fosse o seu próprio árbitro moral, o que acaba inevitavelmente em um cristianismo relativizado. Contra isso eu nada tenho a dizer,  já que esse é, de fato, um dos maiores problemas que encontramos entre os cristãos, atualmente - a Igreja está ciente desse problema desde seu início, e é divertido ver os críticos tratando o problema como se fosse uma novidade cuja importância ninguém, senão o próprio crítico, percebeu.

De qualquer forma, a ridicularização do autor consiste em criticar a doutrina do pecado original a da expiação, sugerir que Deus é um assassino e, por fim, que a interpretação alegórica de certos Livros Sagrados se deu por uma espécie de necessidade em face a avanços do conhecimento humano. O mundo está cheio de ateus que pensam ser teólogos, e a crítica às interpretações é causada normalmente pela ideia de que, após o darwinismo, a ideia da criação em seis dias teria se tornado insustentável, o que forçou a Igreja a admitir que as Escrituras precisariam de um sentido metafórico para resistir aos avanços da ciência. É basicamente o mesmo pensamento referente ao caso Galileu, ainda que a ideia tenha tomado proporções globais somente após Darwin.

Já que discutir questões teológicas não é relevante para a postagem, analisémos as alegações referentes a maneira de interpretar as Escrituras e ao evento de Sodoma e Gomorra, que não é alegórico. Os gêneros da Bíblia incluem narrativa, poesia, literatura proverbial, discurso de sabedoria, um tratado (Deuteronômio), códigos legais, genealogias, biografia (Evangelhos), cartas pessoais e cartas em geral, retórica, réplica, e apocalíptica. Essas características já eram reconhecidas pelos judeus; a Igreja primitiva também estava seguramente ciente de tais características. Qualquer um que alegar que os eventos bíblicos se tornaram convenientemente metafóricos, precisa mostrar que, de fato, o sentido alegórico de certas passagens foi devido à incompatibilidade desses eventos com o avanço científico. Se esse não for o caso, a crítica se mostra insustentável, baseada em opinião extremamente descartável, que só verdadeiros palpiteiros professam ou aplaudem.

Sobre as interpretações, entre os cristãos destacam-se Orígenes de Alexandria (185 - 232) e Santo Agostinho (354 - 430), que já apresentavam interpretações alegóricas do Gênesis, e sugeriam que havia nele uma espécie de teologia da Criação, em vez de uma descrição histórica dos eventos. Entre os judeus, destaca-se Fílon de Alexandria (25 a.C. - 50 d.C.). Em seu De Genesi ad litteram, Santo Agostinho escreve: "Devemos ficar atentos ao oferecer argumentos que sejam incertos ou opostos à ciência, e assim expor a palavra de Deus à ridicularização dos incrédulos". Também sugeriu que o Universo foi criado através de eventos que se desenrolavam em certos períodos de tempo, através de condições dadas já no momento em que a matéria veio a existir. O bispo de Hipona foi também o primeiro a dizer que Deus havia criado o tempo junto com a matéria - a ciência posteriormente confirmou que o tempo e a matéria passaram a existir em um momento conhecido como Big Bang. Ele ainda alertou que a interpretação da criação é difícil, e que por isso devemos estar dispostos a mudar de ideia conforme novas informações apareçam.

Além disso, o físico e historiador da ciência Stanley Jaki argumenta que o literalismo bíblico surgiu por volta do Século XVI, com o surgimento do protestantismo (Stanley Jaki, Bible and Science, págs. 110-11). Portanto, acusar a Igreja de convenientemente ter "metaforizado" as Escrituras - por não poder resistir aos avanços científicos e fácil acesso à informação com "histórias absurdas" - não passa de uma grave ignorância histórica: evidentemente irônica; sutilmente bizarra.

Já a acusação de que Deus seja assassino, genocída, etc. vem direto de grandes teólogos como Richard Dawkins. A tentativa de retratar Deus como imoral por ter condenado pessoas à morte obrigatoriamente despreza o contexto dos eventos e os motivos que levaram Deus a condená-las. Ademais, como o próprio autor lembra, não se pode considerar certas afirmações bíblicas ao passo que se ignora outras, e a interpretação das Escrituras é algo mais delicado que a maioria das pessoas parece perceber.

A saída é, como bem disse o atuor, respeitar tudo que há na Bíblia ou ignorá-la completamente. De forma que averiguar a hipótese de um Deus assassino pressupõe levar em conta tudo quanto há nas Escrituras, o amor, justiça, retidão e bondade divinas não podem ser deixados de lado convenientemente, e essas características divinas são fundamentais e da própria natureza do Criador - segundo a própria Bíblia -, o que significa que o ateu precisa primeiro desprezar certas passagens bíblicas para, então, mostrar que Deus é como ele alega. Tendo a crítica do autor deixado claro que ele despreza as alegações convenientes ao nosso propósito, seria divertido vê-lo lidando com as alegações convenientes expostas em sua ridicularização. A verdade é que o autor mostrou-se verdadeiramente apto a contradizer-se. Temos, pois, um palpiteiro genuíno.


Sobre esse segundo vídeo, gostaria de alertar, antes de mais nada, que o autor é um palpiteiro assumido. Encontramos a seguinte descrição: "Meu ponto de vista sobre as engrenagens da religião. Como ela funciona e como ela afeta as pessoas". Após lê-la, resolvi comentar o vídeo, apontando a falta de referências. Em resposta, o autor me disse que não há referências por se tratar de uma opinião pessoal, e para eu não me prender às ideias dos outros e ser original.

Traduzindo, se eu quiser começar um vídeo falando sobre eventos históricos, eu não preciso de referências para isso, basta eu ser original e inventar a história que eu quiser. Prender-me a outros autores significa limitar minhas possibilidades, mas isso não é necessário: que acredite em mim aqueles que assim desejarem. Ótimo, pois eu sempre quis contar para o mundo que eu fui o mestre de Sun Tzu, e que o seu livro foi, na verdade, inspirado nos ensinamentos que eu lhe passei. Obviamente, agora estou reencarnado em outro corpo, e apesar de não poder provar, fica a critério de cada um acreditar em mim ou não. O importante é ser original.

Enfim, como se esse papo de originalidade não passasse de uma grande besteira - tão grande quanto a possibilidade de eu ter reencarnado -, o conteúdo do vídeo não fica atrás, e as falácias acontecem a cada dez segundos. O autor argumenta que, "desde a colonização do nosso país, nosso povo era obrigado a se adaptar às leis exercidas pela Igreja Católica; leis [ditatoriais] e indecentes". Ele acrescenta que a Igreja não considerava índios e negros como seres humanos, e permitia que esses fossem escravizados. E, por fim, afirma que a cultura e crenças dos europeus eram impostas ao povo.

Resumindo, um amontoado de clichês ecoados por professores e apostilas do ensino médio. Chega a ser estranho o autor não ter citado os jesuítas e os descrito como um grupo de assassinos, como comumente sugere a cartilha. As alegações, no entanto, fundamentam-se em várias premissas ocultas: falsas na maioria das vezes. A primeira é a de que, de alguma forma, a Igreja não só esteve presente em cada evento particular da colonização, mas também foi responsável por tais eventos. A segunda é a de que a Igreja tentara converter os nativos à força. Porém, o processo de colonização não era, de forma alguma, coordenado pela Igreja, e foi precisamente a Igreja que primeiro se levantou contra os métodos de colonização cuja brutalidade parecia razoável aos europeus.

Segundo o historiador Lewis Hanke, a primeira reprovação contra a política colonial europeia ocorrera em 1511, na ilha de Hispanhola (atual Haiti e Republica Dominicana), e viera de um frade dominicano chamado Antonio de Montesinos (Lewis Hanke, The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, pág. 17).  O discurso do frade causara tanta polêmica, que ele foi convidado a ir novamente ao público, na esperança de que se retratasse. Tendo repetido exatamente o mesmo discurso, suas palavras chegaram ao ouvido do rei Fernando, na Espanha. Montesinos viajou para lá, e tendo compartilhado com o rei seu dramático testemunho, conseguiu com que esse reunísse um grupo de teólogos e juristas com a missão de elaborar leis que regulassem as relações dos oficiais europeus com os indígenas. Assim nasceram as Leis de Burgos (1512) e de Valladolidi (1513). A aplicação dessas leis em benefício dos nativos revelou-se desapontadora, mas mostrava um primeiro esforço crítico, que acabou preparando o terreno para o trabalho mais sistemático e duradouro dos grandes juristas e teólogos do Século XVI (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, págs. 129-131).

Enquanto o autor do vídeo descreve a Igreja como ditadora e indecente, historiadores parecem sugerir o exato oposto. Mas novamente caímos naquela questão: vamos dar crédito à pesquisa ou à "originalidade"? O rapaz certamente ficaria surpreso ao descobrir que esses primeiros esforços culminaram em algo muito maior, o Direito Internacional. Apesar de tragédias terem acontecido, lá estava a Igreja para levar luz em meio à escuridão. O choque entre os povos foi a oportunidade perfeita para se discutir o direito dos nativos, e a maneira como todos os povos estranhos deviam se relacionar - algo que não acontecera em nenhuma outra civilização, até ali. A verdade é que, se alguém tem a pretensão de acusar a Igreja como culpada pelas injustiças que ela, na verdade, foi a primeira a combater, é preciso levar um pouco mais a sério a pesquisa, e deixar de lado essa bobagem de "ser original".

No Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, lemos: "A colonização foi marcada também por escolhas e preferências dos índios, que os portugueses, em número muito menor e precisando de segurança para instalar suas colônias, diversas vezes acataram. Muitos índios foram amigos dos brancos, aliados em guerras, vizinhos que se misturaram até virar a população brasileira de hoje. 'Os índios transformaram-se mais do que foram transformados', afirma a historiadora Maria Regina Celestino de Almeida na tese Os Índios Aldeados no Rio de Janeiro Colonial" (Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, pág. 31). Narloch ainda informa que foram os portugueses que, por exemplo, ensinaram os índios a preservar a natureza - outra informação que muito difere do que lemos em nossas "acuradas" apostilas.

As alegações de cultura e religião impostas logo vão abaixo, e a ideia de que o povo brasileiro não guarda mágoas supõe uma realidade que nunca existiu: é mera especulação do autor. Após essa introdução completamente equivocada, chegamos ao tema principal do vídeo, que segundo seu título, já implica em falácia genética. O autor alega que (1) o inferno foi criado para causar medo nas pessoas, e que ele pode dizer isso, já que (2) na sua época de evangélico, havia um ambiente de constantes alertas contra os pecadores. Mas a verdade é que, se o rapaz ignorou completamente a História, com a lógica repetiu-se a mesma tragédia. Não se chega logicamente de (1) a (2), e ele não pode simplesmente requisitar para si uma autoridade que ele não possui. A veracidade de uma ideia não depende das implicações sociais dessa ideia em determinadas amostras ou populações.

Depois, vem uma das pistas do motivo do rapaz ser ateu: a ideia de que Deus julgará a humanidade não é compatível com a sua ideia de ser livre, afinal, como falar em liberdade, se há um conjunto de regras que inevitavelmente a limita e não o deixa viver? Outra confusão é feita pelo autor: segundo ele, a felicidade eterna significa não se divertir nessa vida, mas isso não passa de outro grande equívoco. Como escreveu Santo Agostinho, "fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti", o que significa que, para os cristãos, a maior alegria vem da companhia de Deus, e que não podemos encontrar harmonia senão n'Ele mesmo. Deus nos criou para que sejamos felizes, e não para que soframos e depois consigamos uma compensação ao sofrimento, uma recompensa, como se estivéssemos falando de uma indenização. Deus não quer que apostemos em viver nessa vida ou depois dela, mas que vivamos ambas de maneira plena.

Posterior a isso, o autor entra em um campo de estereótipos, alegando que não há espaço para questionamentos dentro da religião - outra alegação que ele não demonstra e, portanto, deve ser ignorada. Há aí uma curiosa retomada da acusação da fé imposta, quando o autor alega que os líderes religiosos obrigam seus seguidores a crer em algo que não não podem ver. Mas, até onde sou capaz de recordar, ninguém nesse país é obrigado a seguir os ensinamentos que outros querem compartilhar. Aliás, o próprio autor afirmou que, enquanto antigamente a religião era imposta ao povo, hoje esse mesmo povo a segue por livre e espontânea vontade. O nome disso? Contradição! Me pergunto se é mesmo tão difícil ser coerente, já que a coerência é raríssima nas apresentações dos vloggers brasileiros. Ao final, vemos uma série de argumentos confusos e mais alegações não demonstradas. O autor se mostra verdadeiro expert na arte de palpitar - talvez o mais notável até aqui.

Ora, enquanto a tentativa de ridicularizar a fé alheia ou mesmo explicá-la tenta tornar o crítico superior ao que crê, uma investigação das alegações oferecidas mostram que, longe de estarmos lidando com críticas válidas baseadas em um realidade sólida e verificável, estamos diante de pensamentos verdadeiramente falaciosos. Me pergunto como se tornou tão comum essa insistência em pisar em campo minado, opinar sobre o que não foi perguntado. Por que falar, se não sabemos do que estamos falando? Por que palpitar, se é mais razoável ficar calado? Eis um mistério que acompanhará o futuro do pensamento brasileiro. Afinal, que a verdade seja dita: estamos na verde e amarela terra dos palpiteiros.


Referências e recomendações:
  1. Why critics do not deserve the benefit of the doubt
  2. O Deus assassino
  3. Self-selling
  4. Crenças justificadas
  5. Teologia do corpo
  6. Obra de Santo Agostinho
  7. Orígenes de Alexandria
  8. Fílon de Alexandria
  9. Bible and Science
  10. The Contemporary Relevance of Augustine
  11. Técnica: a Bíblia manda matar
  12. The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America
  13. How the Catholic Church Built Western Civilization
  14. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
  15. Confissões
  16. Antonio Montesino

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