17 de março de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #3

O ateísmo tem formas diversas. Há um ateísmo filosófico, que, incorporando Deus à natureza, se recusa a aceitar que Ele tenha uma personalidade própria e reduz tudo às dimensões da inteligência humana; nada é Deus, tudo é divino. Este ateísmo acaba por desembocar num panteísmo, que assume a forma de uma ideologia qualquer. O ateísmo científico afasta a hipótese de Deus por considerá-la pouco conveniente para a pesquisa, e dedica-se a explicar o mundo unicamente pelas propriedades da matéria, evitando perguntar-se de onde ela vem. Mais radical ainda, o ateísmo marxista não somente nega a existência de Deus, mas até o mandaria passear se Ele existisse: a sua presença importuna bloquearia o livre jogo da vontade humana.

Além desses, existe ainda um ateísmo muito difundido e que eu conheço bem, o ateísmo imbecil; era o meu. O ateu imbecil não se questiona. Acha natural estarmos colocados sobre uma bola de fogo recoberta por uma tênue camada de lama seca, que gira sobre si mesma numa velocidade supersônica e descreve círculos em torno de uma espécie de bomba de hidrogênio, a qual é por sua vez arrastada pelo movimento de milhões de outras luminárias desse tipo, cuja origem é enigmática e cujo destino é desconhecido.

André Frossard, Deus em Questões, págs. 28-9.

Apesar de a prática de não questionar-se ser comumente atribuída aos religiosos, é cada vez mais comum os ateístas que não param para refletir acerca da questão de Deus, e acham que, por exemplo, o darwinismo, sozinho, é capaz de oferecer-lhes uma cosmovisão consistente. Em primeiro lugar, porém, o darwinismo não tem nenhum valor quando se busca explicar se há um criador. Além do mais, a Biologia não pode explicar muitos detalhes fundamentais sobre o Universo, e justamente por isso Richard Dawkins repete em seus discursos que não deveríamos perder as esperanças de que aparecerá uma explicação darwinista para a Física.

Isso levanta uma questão realmente interessante: é mais plausível tirar conclusões baseadas nas evidências que temos ou confiar que supostas evidências futuras vão sustentar o que gostaríamos de concluir? A onipotência da ciência é, definitivamente, uma das grandes utopias do século XXI, e o próprio Dawkins, junto com Peter Atkins e outros cientificistas modernos são a prova de que a decisão de não aceitar a possibilidade de Deus está influenciando conclusões que, até onde sabemos, deveriam ser imparciais.



Antes mesmo de começar essa postagem, foi preciso que eu respirasse fundo, porque o vídeo apresentado é do tipo capaz de causar uma parada cardíaca a quem o assiste - antes de assisti-lo, tenha certeza de estar blindado contra metralhadoras de clichês e falácias recheadas com muita desonestidade e cobertas com uma peculiar arrogância. Estamos diante de um leitor de Richard Dawkins, afinal - e um que aprendeu bem a lição dada pelo mestre. O autor do vídeo acima se destaca pela tentativa de ser quem ele não é ou, no mínimo, saber o que ele não sabe. Mas o que é mesmo curioso é a tentativa de estar representando alguém, ou estar falando em nome de alguma autoridade - às vezes como se ele estivesse repassando informações mundialmente aceitas como verdadeiras no meio intelectual. Chega a ser engraçado, e é difícil acreditar que seja real, mas é.

Após um breve deboche, o autor propõe-se a falar do criacionismo literal e imediatamente associa isso ao movimento conhecido como Intelligent Design, deixando claro que não faz ideia do que está falando. Apesar de o ID ser normalmente associado ao criacionismo e promovido por religiosos, não é por propor que um Deus onipotente criou o Universo em seis dias. A hipótese do ID diz que a complexidade que encontramos no Universo e nas formas de vida é melhor explicada por uma causa inteligente, em vez da seleção natural. Isso não tem absolutamente nada a ver com criacionismo bíblico literal. E para mostrar que é um completo ignorante no assunto, após essa grande confusão, o autor afirma que essa hipótese - ID - se baseia nas cinco vias de São Tomás de Aquino. No entanto, a quinta via de Aquino e o Intelligent Design apresentam uma grande diferença, e essa diferença torna as duas hipóteses incompatíveis.

Chamemos a hipótese de Aquino, como faz Francis J. Beckwith, de Design Tomístico. São Tomás acreditava, como Santo Agostinho, na criação ex nihilo, e que já no momento da criação foram dadas as leis que tornam possível a ordem e a vida no Universo. Dessa forma, a intervenção divina é necessária apenas nesse momento da criação, pois, a partir dela, tudo se desenvolve a partir do que já existe, sem que Deus necessite interferir novamente a cada momento. A visão de São Tomás é, na verdade, mais consistente com o darwinismo, uma vez que, tendo Deus criado um Universo que possa desenvolver-se autenticamente, a Evolução encaixa-se perfeitamente na descrição de processo utilizado para chegar à vida, sem que intervenções posteriores fossem necessárias - devemos lembrar que, se as leis do Universo não fossem exatamente como elas são, a vida não teria surgido na Terra: e a visão de Aquino assemelha-se justamente a uma descrição do princípio antrópico.

Agora, entendamos que, enquanto São Tomás defendia um Universo cujas leis dispensava a intervenção divina para alcançar seu fim, defensores do ID sugerem que a inteligência descrita na hipótese se manifestara durante o processo evolutivo, ou seja, houve intervenção em diversos momentos desse processo, o que segundo os defensores da hipótese, é mais plausível que a seleção natural. Seja como for, Design Inteligente e Design Tomístico são ideias incompatíveis, e não se pode dizer que os defensores do ID se baseiam nas premissas tomistas. Além disso, é improvável que São Tomás fosse defensor da interpretação literal do Gênesis: não há evidência alguma de que o fora. William Carroll escreve: "O que é essencial para a fé cristã, de acordo com Aquino, é o 'fato da criação', 'não a maneira ou modo da formação do mundo'" (William E. Carroll, Aquinas and the Big Bang, págs 18-20). Portanto, a crítica do vlogger falha de todas as formas possíveis.

Depois dessa confusão, chegamos, de fato, às cinco vias de São Tomás, que segundo o autor apresentam premissas logicamente inválidas. Atente para as três imagens a seguir: págs. 111-2págs. 112-3pág. 114 - disponíveis em Google books: Deus, um delírio. O autor do vídeo não fez nada além de repetir exatamente o que está escrito no livro de Dawkins. Mas o divertido é a omissão quanto a esse fato - parece que alguém estava tentando seguir o conselho do vlogger comentado na última postagem (http://www.caosdinamico.com/2011/03/brasil-terra-dos-palpiteiros-2.html) e ser "original". Bastante irônico: enquanto um despreza completamente qualquer referência, outro se prende tanto à referência que chega a soar como um porta-voz.

Ora, as cinco vias não tentam provar nada cientificamente, como sugere o autor. Aliás, o autor certamente nunca chegou a lê-las: deve pensar que os argumentos da Suma Teológica estão exatamente como na reciclagem apresentada por Dawkins. E como o próprio Dawkins, o rapaz mostra sua sagacidade ao lidar com a série de eventos que levam a uma regressão infinita. Ambos acreditam que Aquino considerava Deus imune a tal regressão - não sei se deveria usar "ambos", já que um apenas repete o argumento do outro -, mas ao fazerem isso, demonstram não ter entendido o argumento. Não foi para preencher uma lacuna que São Tomás chamou de Deus o motor imóvel, mas porque as características que esse motor deve necessariamente possuir são características comuns a Deus.

"Aquino, em suas cinco vias, prova existência de um motor imóvel, e diz: 'et hoc omnes intelligent Deum' ('e a isso entedemos por Deus'). Alguns críticos tomaram isso como a maneira dele contornar a dificuldade de passar de uma Primeira Causa para Deus; no entanto, essa noção é enganosa à luz do fato de que seções seguintes da Suma Teológica oferecem argumentos cuidadosos e elaborados para que a Primeira Causa seja completamente real, imutável, simples, única, imaterial, perfeita, boa, e inteligente. Assim, Aquino está simplesmente ressaltando o fato de que o teísta entenderá o motor imóvel como sendo Deus" (J.P. Moreland e William Lane Craig, The Blackwell Companion to Natural Theology, pág. 25).

Ademais, tempo e espaço surgiram com o Big Bang, e insistir em uma cadeia de eventos - que pressupõe tempo - em um plano atemporal mostra a incapacidade de Dawkins em sequer começar a entender os argumentos de São Tomás. Caso contrário, não perguntaria com tanta frequência: "Quem criou o criador?"



Nesse ponto, as piadas começam a fluir: temos as primeiras demandas cientificistas e a pretensão de representar autoridades. O autor diz não conhecer nenhum filósofo respeitável moderno cujas conclusões apontam para Deus, ou seja, não há, atualmente, filósofos respeitáveis teístas, segundo ele. Será? Alvin Plantinga, Brian Leiter, Dallas Willard, Dean Zimmerman, Gary Habermas, J.P. Moreland, John Lennox, Norman Geisler, Paul Copan, Paul K. Moser, Peter van Inwagen, R. Douglas Geivett, Richard Swinburne, Robert Adams, William Alston, William Dembski, William Lane Craig, William T. Davis, etc. são todos filósofos, Ph.Ds, e defensores da fé cristã. Mas talvez o Dr. Daniel Dennett supere sozinho a todos esses, ou talvez o próprio Dawkins, que até aqui tem se mostrado, de fato, um filósofo promissor. Bem, não seria justo esquecer que o autor disse não ver esses filósofos, então, não é bem uma questão de eles não existirem: é a ignorância dele que não o permitiu conhecê-los.

Quando ele fala em especialistas em lógica, adentramos a outro campo problemático. Dawkins não oferece nenhum nome em seu livro, ele apenas afirma que especialistas demonstraram uma suposta incompatibilidade entre onipotência e onisciência. Porém, isso parte de uma evidente ignorância por parte de Dawkins quanto ao que é onipotência - talvez ele pense que um ser onipotente pode tudo, inclusive o impossível. São Tomás escreve: "Em geral, todos confessam que Deus é onipotente. Mas parece difícil determinar a razão da onipotência. Pois pairam dúvidas sobre o conteúdo desta afirmação: Deus pode todas as coisas. Mas, bem considerando, já que a potência se refere ao possível, quando se diz: Deus tudo pode, o mais correto é entender que pode tudo o que é possível e por isso se diz onipotente" (ST I, 25, 3).

Realmente, é divertido vê-lo falar em "especialistas". Já o vlogger, para dar a impressão de que conhece tais especialistas, decide citar apenas um deles, mas a verdade é que, na condição de estar repetindo os argumentos de Dawkins, ele desconhece completamente qualquer especialista, e o exemplo utilizado, até onde sabemos, não é válido. Dawkins cita Karen Owens apenas para reforçar, com um "paradoxo cativante", sua ideia anterior, e não como se tal autor fosse um dos referidos - ou melhor, não referidos - especialistas. Karen Owens, se é que estamos falando da mesma pessoa, estuda o comportamento infantil e adolescente, campo completamente distinto dos abordados por Dawkins. E o rapaz tem coragem de chamar os teístas de desonestos, quase que a cada minuto...

Em seguida temos uma exposição de ideias utópicas e mesmo um indício de onipotência do autor: ele espera que a ciência traga as respostas que ainda não temos sobre este assunto, e ainda afirma que isso não acontecerá nos próximos duzentos anos. Finalmente o autor revela que a "refutação" oferecida é de Dawkins, mas isso não muda o fato de ele ter tentado, até ali, parecer autêntico. Após isso, ridiculariza o argumento ontológico sem nem mesmo tê-lo entendido. Mas o mais importante é que, sejamos francos, o autor não está em condições de ridicularizar nada. Na verdade, seria justo chamar seu vídeo de uma grande auto-ridicularização, pois é isso que temos notado até aqui. E que tal chamar o argumento teleológico de argumento "teológico"? Não se preocupem: já está feito!

Precisamente no argumento do design chegamos ao clímax do vídeo, já que, como era de se esperar, trata-se do argumento central de Deus, um delírio: darwnismo vs. design. Mas Dawkins não escolhera esse argumento como mais forte por ele ser, de fato, o mais forte, mas por ele ser o único com o qual Dawkins conseguiria lidar. Vejam que conveniente: já que ele não sabe lidar com os outros argumentos, por que não ridicularizá-los e dizer que o relevante é o único que ele compreende? Mas, ainda assim, a tentativa de usar o darwinismo para explicar a complexidade é falha em vários níveis, pois, diferente do que ocorre no argumento de São Tomás, o princípio antrópico permanece ignorado. Pensar em darwinismo só faz sentido se pensarmos primeiro em um Universo que possibilita o fato da Evolução.

Os físicos Barrow e Tipler, Martin Rees e Lee Smolin mostram que o Universo parece ter sido projetado, desde o Big Bang, para que houvesse vida no nosso planeta. Stephen Hawking escreve: "Se a taxa de expansão do Universo, um segundo depois do Big Bang, tivesse sido menor, ainda que na proporção de uma unidade em um bilhão, o Universo teria revertido ao colapso antes de atingir o tamanho atual". É precisamente por observações como essas que Richard Dawkins apela à utopia da ciência onipotente. "A ciência vai chegar lá", ele diz, mas uma das premissas que todo cientista deveria levar a sério, é aquela que diz que os preconceitos do experimentador não devem interferir na conclusão do experimento. Será que os cientificistas estão respeitando isso? Segundo Robert Jastrow, o princípio antrópico "é o resultado mais teísta já revelado pela ciência". Portanto, é razoável suspeitar que Dawkins não o toleraria: sugeriu que esperemos uma explicação darwinista para a física.

O importante, aqui, é perceber que a ciência moderna tem apontado para a possibilidade de um criador, mas Dawkins tem coragem de chamar de irracional quem porventura admite tal hipótese como mais plausível, tendo para nos oferecer contra isso apenas a crença de que a ciência irá superar essa hipótese. O discurso de seguir as evidências com certeza não passa disso: discurso. A prática, como é possível notar, foi completamente esquecida - se é que um dia existiu. Nosso vlogger palpiteiro não é nem um pouco menos contraditório: já no final de sua apresentação, admite a existência de lacunas no registro fóssil, para um minuto depois dizer que a teoria da evolução é comprovadamente verdadeira em todos os seus aspectos.

Para alguém que chama Carl Sagan de filósofo, é realmente difícil imaginar o que não é possível. A única coisa que eu não consigo imaginar é um Brasil onde as pessoas pensem antes de falar qualquer bobagem, pois se eu pudesse imaginar tal realidade, seria eu o garoto perdido em meio a uma utopia. Resta-nos, por fim, um último mistério: se Bertrand Rousseau refutou completamente alguns argumentos para a existência de Deus, será que Jean-Jacques Russell teria, de fato, nascido na França?


Referências e recomendações:
  1. Deus em Questões
  2. Intelligent Design vs. Thomistic Design
  3. A Brief History of Time
  4. The Anthrophic Cosmological Principle
  5. Just Six Number
  6. God and the Astronomers
  7. So many atheists, so little time
  8. Alvin Plantinga
  9. Richard Swinburne
  10. Peter van Inwagen
  11. Dean Zimmerman
  12. William Lane Craig
  13. John Lennox
  14. J.P. Moreland
  15. "Representantes da ciência"
  16. What's So Great About Christianity
  17. The Dawkins Delusion?
  18. Sthephen Meyer vs. Michael Shermer
  19. Como Dawkins destrói a ciência
  20. Deus é onipotente? 
  21. Aquinas and the Big Bang 
  22. The Blackwell Companion to Natural Theology

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