Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

30 de maio de 2011

A razão do sucesso do Ocidente

O cristianismo é a razão do sucesso do Ocidente, dizem os chineses - por Tom O'Gorman

No Ocidente, nós estamos fazendo o nosso melhor para destruir a nossa herança cristã, mas, na China, intelectuais chineses estão chegando a conclusão de que é precisamente essa herança que tornou o Ocidente tão bem-sucedido.

Dominic Lawson, ex-editor do Sunday Telegraph, em um review no Sunday Times, sobre o novo livro de Niall Ferguson, Civilization: The West and the Rest, traz uma citação de um membro da Chinese Academy of Social Sciences [Academia Chinesa de Ciências Sociais] em que ele tenta explicar o sucesso do Ocidente, até hoje.

Ele diz: "Uma das coisas que pediam para a gente analisar era o que explicava o sucesso, ou melhor, a superioridade do Ocidente no mundo todo".

"Nós estudamos tudo que podíamos da perspectiva histórica, política, econômica e cultural. Primeiro, pensamos que era porque vocês [do Ocidente] tivessem armas mais poderosas do que nós tinhamos.

"Depois, pensamos que era porque vocês tinham um sistema político melhor. Em seguida focamos em seu sistema econômico.

"Mas, nos ultimos vinte anos, nós percebemos que o coração da sua cultura é a sua religião: o cristianismo. É por isso que o Ocidente é tão poderoso.

"O alicerce moral cristão da vida social e cultural foi o que tornou possível o surgimento do capitalismo e, então, o êxito na transição para políticas democráticas. Nós não temos nenhuma dúvida quanto a isso".

Note a fonte. Não é de um líder religioso, ou de um poço de ideias religiosas. A Chinese Academy of Social Science é um instrumento do Governo Comunista chinês que gasta uma considerável quantia de tempo e dinheiro perseguindo cristãos e é oficialmente ateísta.

Se essa é a conclusão a qual eles chegaram, talvez a Europa precisa reconsiderar se não deveria apoiar, em vez de erradicar, o cristianismo.

Incidentalmente, só para fixar o ponto, Lawson também refere-se a essa informação oferecida no livro de Ferguson: Wenzhou, a cidade chinesa classificada como a mais empresarial do país, é também a casa de 1400 Igrejas.

Lawson atenta para uma frase, no livro, de um proeminente líder de negócios de Wenzhou, Sr. Hanping Zhang, que diz que "uma ausência de confiança tem sido um dos principais fatores que atrasam a China; mas ele sente que pode confiar em seus companheiros cristãos porque sabe que eles serão honestos em suas negociações com ele".

Há muito é aceito que o cristianismo é um dos elementos centrais da civilização Ocidental; é pouco compreendido que também é um dos segredos do notável sucesso dessa civilização.


Iona Institute
Tom O'Gorman

Original em http://www.ionainstitute.ie/index.php?id=1336: Christianity the reason for West's success, say the Chinese.
Traduzido por Vinicius Oliveira.

25 de maio de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #4

Deve haver milhares de vídeos no Youtube atacando desonestamente alguma religião ou grupo de religiosos, talvez milhões; escolher apenas alguns para uma breve análise do que é dito não é tarefa fácil, e assisti-los várias vezes para não perder os detalhes é trabalho doloroso. Especialmente quando a propaganda apresenta-se como substituta da verdade, roubando para si um status que não lhe é merecido: o de confiável.

A propaganda só é tão confiável quanto a verdade para quem acredita que a verdade não existe, é relativa. No entanto, se este é o caso, um debate à luz da razão não passa de um evento essencialmente contraditório, pois se não há a intenção de confrontar duas ideias opostas e estabelecer qual é e qual não é válida, a razão não faz-se necessária, desempenhando, assim, papel de mera modeladora da mentira, cuja finalidade é vazia no momento de decidir quem está certo: quem tem razão, afinal, se a razão não direciona para a verdade e pode colorir atrativamente aquilo que é falso, tentando torná-lo também verdadeiro, como se fosse possível duas afirmações contraditórias entre si serem ambas verdadeiras?

Se há tanto apelo à racionalidade, situando-a como maior árbitro de todos os confrontos, é porque ela pode dizer que alguém está errado e que alguém está certo. Quem está certo afirma o que é verdadeiro; quem está errado afirma o que é falso: o contrário de verdadeiro é necessariamente falso. Não é possível estar certo afirmando o falso, nem errado afirmando o verdadeiro. Assim, é razoável dizer que a verdade existe, e que a razão pode alcançá-la. Se alguém assume que a verdade não existe, e que cabe a cada ser humano entender de sua própria maneira a realidade, que não pode ser entendida de forma objetiva, não há sentido em convocar a razão como árbitro de decisão alguma, já que a razão não ajudará a alcançar a verdade última, justamente porque esta verdade não existe, o que torna inútil qualquer esforço de confrontar contradições.

Acabamos em um cenário onde x, contrário de y, é verdadeiro, e y, contrário de x, também. Tanto os defensores de x quanto os de y estão igualmente corretos, e isso dispensa a necessidade de um ir até o outro e dizer: "você está errado". Mais digno seria abrirem uma taça de vinho e comemorarem o fato de que quem quer que esteja errado está tão certo quanto quem quer que esteja certo está errado.



Não conheço nenhum vídeo feito por algum ateu que desrespeite tanto a lógica formal e apele tão desonestamente para a propaganda quanto este. Acredito que eles existem, apenas não os conheço. Seja como for, já nos primeiros segundos nota-se essa propaganda de que falo. Lemos que "houve uma época em que a religião reinava como verdade absoluta[,] e quem não aceitava esta 'verdade absoluta' era considerado herege, pagando um alto preço[:] a sua própria vida. Contudo, existiram aqueles que romperam com as ditas 'verdades absolutas' e perturbaram a 'frágil' calmaria da religião, com razão, bom senso e pensamento crítico". Pois bem, analisémos essas alegações que correspondem à indtrodução do vídeo.

Temos 1. a alegação de que a religião reinava como verdade absoluta; 2. que rejeitar tal verdade implicava em heresia; e 3. que essa rejeição levava à pena de morte. Olhando para essas três considerações, podemos notar, primeiramente, uma compreensão falha do que é verdade absoluta. Depois, adentrando ao contexto da Inquisição, que ali é aludida, notamos mais equívocos históricos que, infelizmente, são comumente aceitos por um grande número de pessoas.

Parece que muitos concebem o absoluto como sinônimo de inquestionável, quando, na verdade, absoluto "significa 'solto de': o que não está preso a nada, o que não depende de nada", como diz Luiz Gonzaga de Carvalho. Daí se pode concluir que uma religião não pode reinar como "verdade absoluta", pois ela própria depende de uma série de outros fatos e circustâncias; não é auto-suficiente e não existe por si mesma. É possível que uma religião seja verdadeira, mas a sua veracidade depende da veracidade de outros eventos, que estão condicionados à realidade, que por sua vez abriga leis físicas que condicionam a maneira como esses eventos se dão nessa realidade, e assim por diante. Nada que depende de outro, que depende outro, que depende de outro pode ser caracterizado como absoluto, pois o absoluto é aquele que não depende de nada ou de nenhum outro. A religião pode, portanto, afirmar uma verdade absoluta, mas jamais poderá ser essa verdade absoluta. E se não é, não pode reinar como tal.

Uma pessoa disposta a desqualificar "racionalmente" a própria religião deve estar atenta a esse detalhe que, apesar de sutil, já revela uma falta de entendimento apropriado daquilo que se está desqualificando. Mas vamos assumir que a religião "reinava como verdade absoluta", para o bem do argumento. Mesmo que esse fosse o caso, a rejeição desta verdade não implicaria em heresia, como sugere o autor do vídeo. Heresia "é um erro do intelecto, pelo qual uma pessoa batizada nega pertinazmente uma verdade revelada por Deus e proposta pela Igreja à nossa fé para crermos" (Teodoro da Torre del Greco, Teologia Moral, pág. 128). No catolicismo, herege não é aquele que nega uma verdade proposta pela Igreja, mas um católico que nega uma verdade proposta pela Igreja. Tal distinção é fundamental, porquanto se ignorada abre espaço para aquela ideia de que a Inquisição ocupou-se de qualquer pessoa que de alguma forma discordasse da Igreja Católica, mesmo não a ela estando submetida. Ora, quando falamos em heresia lembramos do arianismo, do nestorianismo, catarismo, etc.: ateísmo, budismo, islamismo, etc. não são heresias e, portanto, não poderiam e continuam não podendo ser tratados como tal.

Acredito que não são poucos os que pensam que alguém que não acreditásse em Deus era condenado a fogueira, enforcado, etc., porém, esta é uma visão historicamente equivocada, produto tanto de ignorância como de propaganda excessiva que deturpou a possibilidade de uma noção mais acurada sobre o tema. Tais equívocos já foram abordados em outra postagem (http://www.caosdinamico.com/2010/11/grandes-mitos-sobre-igreja-catolica-1.html). Aí também está corrigida a noção de que heresia implicava em pena de morte; certamente é uma das alegações mais comuns entre neo-ateus, que geralmente veem na Inquisição uma máquina de matar sedenta por sangue inocente - visão já desmentida por diversos historiadores, os quais são citados na postagem referida.

Jean-Baptiste Carrier
Resta-nos o seguinte: "Contudo, existiram aqueles que romperam com as ditas 'verdades absolutas' e perturbaram a 'frágil' calmaria da religião, com razão, bom senso e pensamento crítico". Sendo o autor um leitor de Richard Dawkins, é razoável supor que o trecho faz alusão ao Iluminismo, talvez mais especificamente a Galileu e Hume, como faz o próprio Dawkins. Se este é o caso, não foi com razão e bom senso que os iluministas fizeram isso, vide exemplos da Revolução Francesa - tão exaltada por milhões de idiotas úteis -, como os Afogamentos de Nantes, cujo líder, Jean-Baptiste Carrier, declarou: "Nunca me diverti tanto como ao ver as últimas caretas dos padres enquanto morriam".

Porém, mais notável que qualquer exemplo de martírio, é a história daquilo que é quase cultuado por grande número de ateus: a ciência. Dizer que a religião falhava com a razão e com o bom senso é dizer que as bases da ciência moderna eram irracionais e insensatas, já que a quase-deusa dos ateístas nasceu, para a infelicidade de muitos deles, na Igreja (http://www.caosdinamico.com/2011/02/cristianismo-e-ciencia.html). Acredito que para muitos deles tal revelação soaria como piada de muito mau gosto, o que, de forma alguma, anula a sua veracidade. A verdade é que essas frases com as palavras "razão", "pensamento crítico", etc. por parte de alguns ateístas não passam de self-selling, mera propaganda, um discurso ignorante destinado a outros ignorantes, e nada mais. Não devemos esquecer, ainda, que Galileu, um dos heróis de muitos ateus, era católico, e certamente não era menos racional por isso. Enfim, em nossa linha do tempo, o autor nem pronunciou uma única palavra, e quantas mentiras tivemos que reconsiderar?!

O autor, Marcello Carino, fez esse vídeo em resposta a um cristão chamado Demétrio, cuja exposição em defesa do cristianismo me pareceu completamente inapropriada, com argumentos fracos e confusos. Posteriormente, o sr. Demétrio postou novas respostas ao vídeo do sr. Marcello, mas igualmente fracas e confusas. De qualquer forma, meu objetivo não é me envolver na discussão dos dois, mas analisar determinadas alegações do sr. Marcello que me pareceram completamente bizarras, independente do contexto da discussão com o sr. Demétrio.

São elas: 1. "Isso é muito diferente: se dizer algo, e ser algo, praticar algo; essa é uma grande diferença entre o ateu e os cristãos. Os cristãos se dizem bons: não é o que nós vemos por aí"; 2. "Fidelidade não tem nada a ver com religião: basta você ler a Bíblia, que você vai ver que isso se comprova. Aonde? Salmos [...]. Davi enviou Urias para a batalha, para morrer, parar ficar com sua mulher. Então, ser fiel, dentro do cristianismo?! Você me desculpa, mas eu dispenso". 3. "Com relação também ao que você diz, que cristãos aprendem valores morais, de retidão, que constroem uma sociedade melhor: ledo engano, também. Porque o que nós vemos, hoje, [são] pastores que roubam, padres pedófilos, [etc.]"; 4. "E com relação a vocês serem fiéis nos negócios [...], não é verdade! Por um simples motivo: existe um mercado, isso é fato, de CDs, DVDs evangélicos piratas. Bem, se existe esse mercado, é porque existe consumo. [...] Quem consome são os cristãos [...], logo, vocês não podem ser fiéis nos negócios".

Quanto ao item 1.: dizer ser é realmente diferente de ser de fato. Agora, após tal afirmação, dizer que essa é uma diferença entre ateus e cristãos e que os cristãos se dizem bons, coisa que não vemos, só tem sentido no raciocínio bizarro do sr. Marcello. Cada alegação não tem nenhuma relação com a outra: quando ele diz que ser algo é diferente de meramente afirmar ser algo, está expressando um juízo neutro, cuja veracidade pode ser comprovada a partir da coerência entre o discurso e comportamento de qualquer pessoa. Essa não é uma diferença entre ateus e cristãos, já que, tanto ateus quanto cristãos podem afirmar ser algo que não são. Não há dado ou informação que sequer sugira que a hipotética incoerência entre discurso e comportamento seja observada com mais frequência neste grupo do que naquele ou naquele outro.

Mais absurdo que tudo isso é a afirmação de que os cristãos se dizem bons e a sugestão implícita de que não são, já que não notamos isso "por aí". Tirando o talvez irrelevante fato de eu nunca ter visto um cristão afirmando: "eu sou bom" - muito menos num contexto que essa bondade confronte com a falta de bondade de um outro -, é notável no cristianismo a orientação de que seus fiéis não sejam orgulhosos, mas que sejam humildes. E o fato de o sr. Marcello não ver um cristão bom "por aí" não impede a possibilidade de haver um cristão bom, bem como o fato de eu nunca ter visto um cristão declarando-se bom não impede a possibilidade de haver algum cristão fazendo tal declaração. Não é porque alguém não viu algo que algo é necessariamente falso; e ainda que fosse o caso de não existirem cristãos bons, isso não mudaria a orientação cristã de se praticar o bem, e se não há cristão praticando o bem, é porque não há cristão algum, já que, como disse o autor, dizer ser algo é muito diferente de ser algo, de fato.

O cristianismo comanda seus fiéis a praticar o bem. O ateísmo não pode fazer isso, já que não possui regras de comportamento: é moralmente neutro. Ateísmo não implica em bondade, não implica em maldade, não implica em fidelidade, nem implica em infidelidade; implica apenas na crença de que não há Deus. O cristianismo não implica apenas na crença de que há Deus, mas em uma série de valores a serem seguidos por aqueles que creem em sua veracidade. Mais próximo de ser o mero oposto do ateísmo talvez seja o deísmo, que implica apenas na crença de que há um Deus, mas que não relaciona-se com a humanidade de forma alguma, nem se importa com o que fazemos ou deixamos de fazer. A verdade é que o raciocínio exposto no vídeo é completamente incoerente: um verdadeiro fracasso, tão ruim quanto o argumento do sr. Demétrio sobre os 5% do conhecimento.

Quanto ao item 2.: Aqui o mais bizarro não é nem a afirmação de que a fidelidade independe de religião, mas a tentativa de provar tal afirmação usando a Bíblia - e de uma maneira tão vergonhosa. Se dispôssemos o argumento em premissas e conclusão, teríamos: 1. Davi era servo de Deus; 2. Davi traiu seu amigo; 3. Logo, o cristianismo não prega a fidelidade. 4. Logo, fidelidade independe de religião. É indescritível o grau de imbecilidade e incoerência que se nota no raciocínio. Para que 3. seja verdadeiro, é necessário assumir uma série de premissas ocultas, como, por exemplo: que a validade de um mandamento divino depende da disposição dos homens para praticá-lo; que os escolhidos de Deus devem ser perfeitos; que, se não são perfeitos, e por não serem perfeitos e não cumprirem sempre o que Deus ordena, o mandamento divino é invalidado; e, ainda, que por um escolhido ter errado, todos os outros fiéis imitariam esse erro, cuja prática tornar-se-ia modelo, mesmo sendo violação do mandamento divino.

Assim, por Davi ser servo de Deus e ter pecado, todos os fiéis de Deus o imitariam em seu erro, cuja prática demonstra que a religião cujas bases remetem a muitos ensinos revelados através de Davi não prega a fidelidade, já que o próprio Davi falhou nesse sentido. Ora, os cristãos sabem que todos os homens são pecadores, inclusive os mais próximos de Deus. O único homem que não pecou foi Jesus, que era também Deus. O fato de um servo de Deus ter pecado não faz com que o pecado torne-se uma virtude e deva ser praticada. O sr. Marcello dispensa a fidelidade no cristianismo não por essa não existir, mas porque o seu modo completamente deficiente de raciocinar não permitir-lhe o devido entendimento de uma questão extremamente simples. Esse tópico é particularmente vergonhoso, ainda mais pelo tom arrogante que o enuncia.

O item 3. falha no mesmo sentido que o item 2., e no item 4. temos o assassinato doloroso e definitivo do raciocínio lógico. Temos: 1. Cristãos não devem apoiar a pirataria; 2. Há consumo de produtos evangélicos piratas; 3. Os consumidores são cristãos; 4. Logo, cristãos não são fiéis nos negócios. Ou seja, porque alguns cristãos cometem tal erro, nenhum cristão pode ser fiél nos negócios, já que, se um cristão é ou age de tal maneira, todos os cristãos são ou agem de tal maneira. Da mesma forma: 1. Ateísmo é moralmente neutro; 2. Houve genocídios ateístas em países comunistas; 3. Comunistas são ateus; 4. Logo, todo ateu é comunista e genocida. Ora, se um ateu é ou age de tal maneira, todos os ateus são ou agem de tal maneira. Vejam, é óbvio que esse argumento não tem sentido: a conclusão não segue das premissas. E é verdadeiramente frustrante ter que assisistir a um vídeo em que esse tipo de ignorância e desonestidade são aplaudidas pela grande maioria dos expectadores.

Non sequitur, generalização apressada, falácia de composição, acidente invertido e por aí vai. Um show de falácias gratuito, uma plateia de imbecis. No fim das contas, a verdade se afoga, enquanto a propaganda acena cinicamente para os bobos maravilhados. A desonestidade brilha, e quem aparece como vilão é a própria verdade que não mais respira, já que ninguém na plateia ousaria levantar-se e oferecer a ela socorro algum. Fim do ato: aplausos, por favor!

Referências e recomendações:
  1. O que é religião?
  2. Teologia Moral
  3. Mártires cristãos
  4. A Revolução Francesa
  5. More on French Revolution
  6. Jean-Baptist Carrier
  7. Thank God for Dawkins
  8. The Catholic Church: Builder of Civilization
  9. How the Catholic Church Built Western Civilization
  10. Atrocidades anti-católicas
  11. Lógica e Dialética
  12. The Begginings of Western Science
  13. A Inquisição
  14. Escândalos de pedofilia
  15. Thank God for the Four Horseme
  16. Técnica: presidiários são cristãos

6 de maio de 2011

Riqueza e religião

Um rapaz chamado Daniel Fraga, vlogger já comentado em outra postagem, gravou um vídeo em que fala sobre a relação entre riqueza e religião, cujo conteúdo revela uma trágica falta de conhecimento e uma curiosa dificuldade em entender a relação que há entre as duas coisas. O vídeo despertou a atenção de muitos teístas, que ficaram indignados com a ingenuidade do sujeito, ou mesmo com certa desonestidade intelectual, enquanto, curiosamente, a maioria dos ateus disse: "Amém".



Vamos a análise do conteúdo. Segundo pesquisa feita em 114 países, divulgada pela Gallup, "quanto mais religioso, mais pobre tende a ser um país" (http://www1.folha.uol.com.br/quanto-mais-religioso-mais-pobre-tende-a-ser-um-pais.shtml). O próprio artigo atenta para detalhes importantes na interpretação dos dados levantados. Nele lemos: "Desde o século 19, a sociologia tem preferido apostar na tese de que a pobreza facilita a expansão da religião", e essa frase é muito importante para que não se construa, a partir da pesquisa, uma argumentação equivocada sobre a relação entre a pobreza e a religião. Aí sugere-se que a pobreza facilita a expansão da religião, e não que a religião facilita a expansão - ou é a causa - da pobreza.

Citemos alguns exemplos práticos dessa realidade. Philip Jenkins, em A Próxima Cristandade, expõe alguns dados interessantes: Há um século, menos de 10% da África era cristã, mas hoje esse número subiu para 50% - dez milhões, em 1900, para trezentos e cinquenta milhões, hoje. Vale ressaltar que esse crescimento não se deu em consequência da colonização europeia no continente africano, no século XVIII, mas após o fim dessa colonização. De modo geral, a África não tem crescido economicamente, mas a religião, em contra-partida, tem crescido de forma implacável, e, mais importante, pela livre e espontânea vontade de seu povo; em alguns casos, mesmo em face de terríveis perseguições, comuns em regiões majoritariamente islâmicas. Dinesh D'Souza escreve que, "enquanto os pregadores ocidentais normalmente imploram às pessoas que venham à Igreja aos domingos ocupar os bancos, alguns pregadores africanos pedem a seus membros que se limitem a participar dos cultos a todo segundo ou terceiro domingo, a fim de darem oportunidade para que outros ouçam a mensagem" (Dinesh D'Souza, A Verdade Sobre o Cristianismo, pág. 29).

The Christian Martyrs' Last Prayer, de Leon Gerome
E não se pode esquecer que o próprio surgimento e crescimento do cristianismo se deu entre os humildes, leigos, que também foram duramente perseguidos. Ser cristão nos primeiros séculos era saber que a própria vida corria grande risco - muitas vezes era a certeza de uma sentença de morte -, mas isso não impediu que o número de cristãos crescesse de forma inexplicável, tornando insignificante o efeito de qualquer perseguição contra o povo, que ao invés de amedrontar as pessoas, parecia dar-lhes uma coragem sobrenatural. Se o sr. Daniel Fraga supõe que associando pobreza ao cristianismo está desferindo aos seus seguidores um golpe doloroso, é porque desconhece a verdadeira história dessa religião que tanto despreza.

Mas, voltando à pesquisa, o próprio título já revela uma forma desonesta de expor o que foi pesquisado, uma vez que o mais adequado seria Quanto mais pobre, mais religioso tende a ser um país, o que para os leigos palpiteiros seria extremamente esclarecedor e evitaria muita bobagem em consequência de uma desonestidade que já começou na mídia (que surpresa!). Para melhorar, a notícia da Folha apresenta algo que, para pessoas sérias, só pode ser entendido como uma piada de mal gosto: não daquelas que incomodam, mas que fazem gargalhar de verdade. Falo da opinião de Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, cujas declarações revelam um sujeito que, longe de conhecer o mínimo do assunto ali abordado, faz papel de garoto propaganda de uma causa que só pessoas igualmente ingênuas seriam capazes de abraçar.

Segundo ele, a própria religião é a causa da pobreza; ele chega a chamá-la de "fator ópio do povo", e diz que "ela promove o fatalismo e o deus-dará". Ora, essa ideia de que os teístas devem se auto-definir como seres inúteis que devem esperar que a intervenção divina seja o motor de suas vidas é um dos clichês ateístas mais repetidos nos últimos tempos; o que, de forma alguma, o torna verdadeiro. Analisemos, portanto, a afirmação do sr. Sottomaior à luz de alguns exemplos contra essa ideia de "sentar e esperar". Especialmente para os cristãos, agir em benefício de toda a espécie humana em vez de esperar que um milagre aconteça levou-os a presentear todos os seres humanos com uma das práticas mais bem-vistas no mundo: a caridade. Qual é o sentido em juntar pessoas e arrecadar fundos para ajudar os necessitados, se basta esperarmos que um milagre aconteça? Não é mais fácil ajoelhar-se e pedir a Deus que alimente o faminto, que efetivamente ir até o faminto e alimentá-lo o mais rápido possível? É óbvio que os cristãos confiam e esperam em Deus, mas não é por isso que se projetam como seres passivos cuja vida limita-se a pedir que recebam um milagre; pelo contrário, é justamente por confiarem e esperarem em Deus que projetam-se como o próprio milagre, e por conta própria - e inspirados por Deus - tentam fazer a diferença para os que deles precisam.

Voltaire, conhecido pelo seu rígido anti-catolicismo, declarou: "Talvez não haja nada maior na terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana, cuja vista causa tanta aversão à nossa sensibilidade. Tão generosa caridade tem sido imitada, mas de modo imperfeito, por gente afastada da religião de Roma" (Michael Davies, For Altar and Throne: The Rising in the Vendée, pág. 13). Será que é plausível crer que a religião causa nas pessoas essa característica de sentar e não agir por conta própria, como sugere o presidente da ATEA? Vamos mais longe: segundo William Lecky, "não se pode sustentar nem na prática, nem na teoria, nem nas instituições fundadas, nem no lugar que a ela foi atribuído na escala dos deveres, que a caridade ocupasse na Antiguidade um lugar comparável àquele que atingiu no cristianismo" (William E.H. Lecky, History of European Morals from Augustus to Charlemagne, vol. 1, pág. 83).

Cristo nos manda que amemos uns aos outros, inclusive os nossos inimigos. Ele nos manda que amemos a todos os seres humanos, e amor é algo muito maior que uma expressão banalizada pelos jovens do século XXI; é o mais nobre dos sentimentos humanos, capaz de levar alguém a dar a própria vida pelo bem de outro, e o bem dos outros é urgente, pois nenhum ser humano que tem amor pelo próximo consegue sentir conforto com a miséria alheia e esperar que essa miséria desapareça magicamente. Quem ama o próximo só se alegra quando toda a tristeza do próximo está aliviada, e não há sentido em esperar que este alívio venha milagrosamente se ele pode vir através dos nossos próprios atos. E que não pensem que estas palavras tentam excluir o papel de Deus em todas as coisas, pois, como já exposto antes, por que esperarmos pelo milagre se, de certa forma, podemos ser o milagre - ainda que não literalmente?

Que Daniel Sottomaior guarde suas propagandas para os associados da ATEA, porque é isso que ele revela em suas afirmações: apenas propaganda. Outros exemplos desse caráter propagandístico do rapaz já foram expostos e desmascarados no Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo (campanha-atea-porto-alegre-e-salvador/campanha-atea-nao-vai-mais-circular/).

À luz da História, é falso que a religião "não apenas não gera valor como sequestra bens, dinheiro e mentes que deixam de ser empregados em atividades econômicas e de desenvolvimento". Aliás, sendo para os ateus tão importante insistir na questão econômica e no desenvolvimento, cabe refletir sobre o papel da religião nesses aspectos fundamentais à sociedade. Comecemos por um gigante: a agricultura. O papel dessa arte prática ao longo da História é facilmente reconhecido por todas as pessoas, não só pelo que representou no passado, bem como pelo que representa ainda hoje, mas o que poucos sabem é da relação que os monges tiveram com tal prática. Segundo o historiador francês François Guizot, "os monges beneditinos foram os agricultores da Europa; transformaram-na em terras de cultivo em larga escala, associando agricultura e oração" (John Henry Newman, Essays and Sketches, vol. 3, págs. 264-5). Henry Goodell declarou, no início do século XX: "Eles salvaram a agricultura quando ninguém mais poderia fazê-lo. Praticavam-na no contexto de uma nova forma de vida e de novas condições, quando ninguém mais ousava empreendê-la" (Henry H. Goodell, The Influence of the Monks in Agriculture, discurso em 23/08/1901).

O historiador Thomas E. Woods escreve: "Aonde quer que tenham ido, os monges introduziram plantações, indústrias ou métodos de produção desconhecidos do povo. Aqui introduziam a criação de gado e de cavalos, ali a elaboração de cerveja, a criação de abelhas ou a produção de frutas. Na Suécia, o comércio de cereais deve a sua existência aos monges; em Parma, a produção de queijo; na Irlanda, a pesca do salmão e, em muitos lugares, as vinhas de alta qualidade. Os monges represavam as águas das nascentes a fim de distribuí-las em tempos de seca. Foram os monges dos mosteiros de Saint Laurent e Saint Martin que, observando as águas das fontes espalharem-se inutilmente pelos prados de Saint Gervais e Belleville, as canalizaram para Paris. Na Lombardia, os camponeses aprenderam dos monges a irrigação, o que contribuiu poderosamente para tornar a região tão famosa em toda a Europa pela sua fertilidade e riqueza (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, págs.32-3). É necessário ressaltar que este parágrafo descreve muito pouco das contribuições dos monges à civilização: para um aprofundamento mais detalhado, consultar o capítulo 3 do livro referido.

Mais notável é que esses monges compõem apenas um dos vários grupos cristãos que contribuíram de forma louvável ao Ocidente. Aqui os uso apenas como exemplo para questionar as alegações de Sottomaior, já mostradas falsas. Negligenciar o papel dos monges no desenvolvimento da Europa é apenas uma das várias formas de admitir para o público, ainda que não de forma explícita, que naquelas declarações não há preocupação com a verdade, mas com um mero marketing ateísta.

Quando se fala em economia, a situação termina ainda mais embaraçosa para os ateus, especialmente para Daniel Fraga, que tanto discorreu sobre a riqueza em seu vídeo. A própria ciência econômica possui raízes no pensamento cristão, em que destacam-se os escolásticos. Jean Buridan (1300-1358) demonstrou que o dinheiro surgiu livre e espontaneamente no mercado, como meio de simplificar as trocas (Murray N. Rothbard, An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, vol. 1, págs. 73-4), o que veio a ser confirmado pelo grande economista Ludwig von Mises, no século XX. Nicolau Oresme (1325-1382) escreveu Um tratado sobre a origem, natureza e transformação do dinheiro, considerado "um marco na ciência monetária". Oresme foi chamado "o pai e fundador da ciência monetária" (Jörg Guido Hülsmann, Nicholas Oresme and the First Monetary Treatise, http://mises.org/daily/1516). Schumpeter escreveu sobre os escolásticos: "Foram eles, mais do que qualquer outro grupo, os que chegaram mais perto de ser os fundadores da ciência econômica" (Joseph A. Schumpeter, History of Economic Analysis, pág. 97). Aqui também é preciso ressaltar que, não só os escolásticos contribuíram muito mais à Economia do que esta descrito no parágrafo, como contribuíram abundantemente a várias outras disciplinas.

Ora, não se pode alcançar riqueza sem que se proponham meios adequados para fazê-lo. Entra aí, mais uma vez, o papel fundamental da religião, e novamente o cristianismo mostra-se indispensável. É sabido que tanto católicos quanto protestantes contribuíram para o desenvolvimento do pensamento econômico, e caso o sr. Fraga não ache justo negligenciar a História como ela é, deveria reconhecer esse papel e rever seus conceitos ao tentar rivalizar o progresso e a religião. Ela não é a causa da pobreza, e é fácil até para uma criança entender que a Europa está se tornando menos religiosa conforme sua população apega-se mais vigorosamente às conquistas materiais, e não conquistando algo a mais por tornar-se menos religiosa.

Dizer que os Estados Unidos são uma exceção, e que, portanto, é irrelevante ao caso abordado é a prova definitiva da ignorância do sujeito. Ora, se um país religioso não é necessariamente pobre, fica claro que não é, pois, a religião a causa da pobreza, e que essa causa precisa ser averiguada em outra pesquisa. Aliás, os EUA não são o único exemplo de país rico e religioso, e o próprio gráfico da pesquisa mostra isso. O salto lógico de Daniel Fraga - a religião é a causa da pobreza - é insustentável perante os próprios dados fornecidos pela pesquisa, e muito mais sob uma análise devida dos argumentos por ele expostos. Esta era a ideia central que precisava ser refutada; o resto do vídeo consiste na apresentação de vários red herrings, como a tentativa de expor como inimigas a razão e a religião, considerando que a razão é o motor do progresso, e não a religião. A razão é, de fato, o motor do progresso, mas a religião é o motor da razão e, portanto, a incoerência só existe na cabeça do sr. Fraga. A cereja do bolo vem em frases de efeito de velhos conhecidos nossos, como Richard Dawkins e Ayn Rand. Não se pode dizer que o sujeito não é divertido, afinal...

Em resposta às alegações acima analisadas, foi postado um vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=zHfpKA5NLos) por Leonardo Bruno, do blog http://cavaleiroconde.blogspot.com/.

Não é necessário comentar o vídeo, mas é bom atentar para o que o próprio Daniel Fraga comentou ali. Vejam: a religião, em países pobres, é a causa da pobreza, porém, em países comunistas, o ateísmo não tinha nada a ver com nada; a culpa era apenas do comunismo. Concordo com ele, o ateísmo não é a causa do atraso em países comunistas, mas, pela lógica dele mesmo, é possível concluir que o ateísmo seja essa causa - não por ter sido, de fato, mas por que a lógica é falha. Não se chega a uma conclusão verdadeira dispondo de premissas falsas. Quando Daniel Fraga diz que a razão é a fonte do progresso, supõe que a religião é inimiga da razão, e, portanto, inimiga do progresso. Mas a religião não é inimiga da razão, e por isso foi fácil mostrar que também não é inimiga do progresso.

Ademais, se ele não se confundiu com as palavras, admitiu que a religião foi, historicamente, o motor do desenvolvimento, ressaltando, no entanto, que poderia ter sido diferente. Agora, perguntemo-nos o seguinte: devemos nos basear na realidade como ela é ou em como ela poderia ter sido? Para alguém que repete exaustivamente a importância da razão, não convém aceitar a realidade objetiva, em vez de propor realidades hipotéticas para negligenciar o papel de algo com o qual não se parece simpatizar?

A religião é o motor do progresso, bem como o ateísmo é o motor do comunismo. Historicamente foi e continua sendo assim, então, qual o sentido em propor algo que poderia ser diferente, se, efetivamente, a especulação pode seguir qualquer caminho, mas jamais possuir evidências que corrobore para nenhum? Que não se conclua, também, como é comum entre os ateus, que dizer que o ateísmo é parte fundamental do comunismo implica em dizer que todo ateu é comunista ou coisas relacionadas. De fato, é muito difícil para os ateus admitir que o ateísmo era fundamental ao comunismo, principalmente para aqueles que gostam de culpar as religiões pacíficas pelo terrorismo de Bin Laden, por exemplo. Se o ateu aplica a si mesmo o seu próprio critério, estará chamando para si a responsabilidade que obviamente não é dele, mas que, pela própria incoerência, acaba o afetando.

Seja como for, fiquemos atentos às típicas desonestidades ateístas, principalmente com essas que parecem encontrar fundamentos em dados autênticos, publicados por institutos de pesquisa sérios, etc. Saber interpretar os dados é fundamental, mas mais importante é saber identificar as fraudes intelectuais de pessoas desonestas que tentam ofender descaradamente a própria sensatez humana, independente do humano que a defende. A argumentação neo-ateísta é aquela de sempre, e quando o debate já está perdido, nada tão eficaz quanto apelar para a ridicularização somada ao ataque em bando...


Referências e recomendações:
  1. What's So Great about Christianity
  2. Nero persecutes the christians
  3. The Next Christendom
  4. For Altar and Throne
  5. History of European Morals from Augustus to Charlemagne
  6. Essays and Sketches
  7. How the Catholic Church Built Western Civilization
  8. How the Monks Saved Civilization
  9. An Austrian Perspective on the History of Economic Thought
  10. Jean Buridan
  11. Nicole Oresme
  12. The First Monetary Treatise
  13. History of Enomic Analysis
  14. Ateísmo e comunismo
  15. Técnica: Ataque em bando
  16. Técnica: Religião é uma etapa passada na História

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