25 de maio de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #4

Deve haver milhares de vídeos no Youtube atacando desonestamente alguma religião ou grupo de religiosos, talvez milhões; escolher apenas alguns para uma breve análise do que é dito não é tarefa fácil, e assisti-los várias vezes para não perder os detalhes é trabalho doloroso. Especialmente quando a propaganda apresenta-se como substituta da verdade, roubando para si um status que não lhe é merecido: o de confiável.

A propaganda só é tão confiável quanto a verdade para quem acredita que a verdade não existe, é relativa. No entanto, se este é o caso, um debate à luz da razão não passa de um evento essencialmente contraditório, pois se não há a intenção de confrontar duas ideias opostas e estabelecer qual é e qual não é válida, a razão não faz-se necessária, desempenhando, assim, papel de mera modeladora da mentira, cuja finalidade é vazia no momento de decidir quem está certo: quem tem razão, afinal, se a razão não direciona para a verdade e pode colorir atrativamente aquilo que é falso, tentando torná-lo também verdadeiro, como se fosse possível duas afirmações contraditórias entre si serem ambas verdadeiras?

Se há tanto apelo à racionalidade, situando-a como maior árbitro de todos os confrontos, é porque ela pode dizer que alguém está errado e que alguém está certo. Quem está certo afirma o que é verdadeiro; quem está errado afirma o que é falso: o contrário de verdadeiro é necessariamente falso. Não é possível estar certo afirmando o falso, nem errado afirmando o verdadeiro. Assim, é razoável dizer que a verdade existe, e que a razão pode alcançá-la. Se alguém assume que a verdade não existe, e que cabe a cada ser humano entender de sua própria maneira a realidade, que não pode ser entendida de forma objetiva, não há sentido em convocar a razão como árbitro de decisão alguma, já que a razão não ajudará a alcançar a verdade última, justamente porque esta verdade não existe, o que torna inútil qualquer esforço de confrontar contradições.

Acabamos em um cenário onde x, contrário de y, é verdadeiro, e y, contrário de x, também. Tanto os defensores de x quanto os de y estão igualmente corretos, e isso dispensa a necessidade de um ir até o outro e dizer: "você está errado". Mais digno seria abrirem uma taça de vinho e comemorarem o fato de que quem quer que esteja errado está tão certo quanto quem quer que esteja certo está errado.



Não conheço nenhum vídeo feito por algum ateu que desrespeite tanto a lógica formal e apele tão desonestamente para a propaganda quanto este. Acredito que eles existem, apenas não os conheço. Seja como for, já nos primeiros segundos nota-se essa propaganda de que falo. Lemos que "houve uma época em que a religião reinava como verdade absoluta[,] e quem não aceitava esta 'verdade absoluta' era considerado herege, pagando um alto preço[:] a sua própria vida. Contudo, existiram aqueles que romperam com as ditas 'verdades absolutas' e perturbaram a 'frágil' calmaria da religião, com razão, bom senso e pensamento crítico". Pois bem, analisémos essas alegações que correspondem à indtrodução do vídeo.

Temos 1. a alegação de que a religião reinava como verdade absoluta; 2. que rejeitar tal verdade implicava em heresia; e 3. que essa rejeição levava à pena de morte. Olhando para essas três considerações, podemos notar, primeiramente, uma compreensão falha do que é verdade absoluta. Depois, adentrando ao contexto da Inquisição, que ali é aludida, notamos mais equívocos históricos que, infelizmente, são comumente aceitos por um grande número de pessoas.

Parece que muitos concebem o absoluto como sinônimo de inquestionável, quando, na verdade, absoluto "significa 'solto de': o que não está preso a nada, o que não depende de nada", como diz Luiz Gonzaga de Carvalho. Daí se pode concluir que uma religião não pode reinar como "verdade absoluta", pois ela própria depende de uma série de outros fatos e circustâncias; não é auto-suficiente e não existe por si mesma. É possível que uma religião seja verdadeira, mas a sua veracidade depende da veracidade de outros eventos, que estão condicionados à realidade, que por sua vez abriga leis físicas que condicionam a maneira como esses eventos se dão nessa realidade, e assim por diante. Nada que depende de outro, que depende outro, que depende de outro pode ser caracterizado como absoluto, pois o absoluto é aquele que não depende de nada ou de nenhum outro. A religião pode, portanto, afirmar uma verdade absoluta, mas jamais poderá ser essa verdade absoluta. E se não é, não pode reinar como tal.

Uma pessoa disposta a desqualificar "racionalmente" a própria religião deve estar atenta a esse detalhe que, apesar de sutil, já revela uma falta de entendimento apropriado daquilo que se está desqualificando. Mas vamos assumir que a religião "reinava como verdade absoluta", para o bem do argumento. Mesmo que esse fosse o caso, a rejeição desta verdade não implicaria em heresia, como sugere o autor do vídeo. Heresia "é um erro do intelecto, pelo qual uma pessoa batizada nega pertinazmente uma verdade revelada por Deus e proposta pela Igreja à nossa fé para crermos" (Teodoro da Torre del Greco, Teologia Moral, pág. 128). No catolicismo, herege não é aquele que nega uma verdade proposta pela Igreja, mas um católico que nega uma verdade proposta pela Igreja. Tal distinção é fundamental, porquanto se ignorada abre espaço para aquela ideia de que a Inquisição ocupou-se de qualquer pessoa que de alguma forma discordasse da Igreja Católica, mesmo não a ela estando submetida. Ora, quando falamos em heresia lembramos do arianismo, do nestorianismo, catarismo, etc.: ateísmo, budismo, islamismo, etc. não são heresias e, portanto, não poderiam e continuam não podendo ser tratados como tal.

Acredito que não são poucos os que pensam que alguém que não acreditásse em Deus era condenado a fogueira, enforcado, etc., porém, esta é uma visão historicamente equivocada, produto tanto de ignorância como de propaganda excessiva que deturpou a possibilidade de uma noção mais acurada sobre o tema. Tais equívocos já foram abordados em outra postagem (http://www.caosdinamico.com/2010/11/grandes-mitos-sobre-igreja-catolica-1.html). Aí também está corrigida a noção de que heresia implicava em pena de morte; certamente é uma das alegações mais comuns entre neo-ateus, que geralmente veem na Inquisição uma máquina de matar sedenta por sangue inocente - visão já desmentida por diversos historiadores, os quais são citados na postagem referida.

Jean-Baptiste Carrier
Resta-nos o seguinte: "Contudo, existiram aqueles que romperam com as ditas 'verdades absolutas' e perturbaram a 'frágil' calmaria da religião, com razão, bom senso e pensamento crítico". Sendo o autor um leitor de Richard Dawkins, é razoável supor que o trecho faz alusão ao Iluminismo, talvez mais especificamente a Galileu e Hume, como faz o próprio Dawkins. Se este é o caso, não foi com razão e bom senso que os iluministas fizeram isso, vide exemplos da Revolução Francesa - tão exaltada por milhões de idiotas úteis -, como os Afogamentos de Nantes, cujo líder, Jean-Baptiste Carrier, declarou: "Nunca me diverti tanto como ao ver as últimas caretas dos padres enquanto morriam".

Porém, mais notável que qualquer exemplo de martírio, é a história daquilo que é quase cultuado por grande número de ateus: a ciência. Dizer que a religião falhava com a razão e com o bom senso é dizer que as bases da ciência moderna eram irracionais e insensatas, já que a quase-deusa dos ateístas nasceu, para a infelicidade de muitos deles, na Igreja (http://www.caosdinamico.com/2011/02/cristianismo-e-ciencia.html). Acredito que para muitos deles tal revelação soaria como piada de muito mau gosto, o que, de forma alguma, anula a sua veracidade. A verdade é que essas frases com as palavras "razão", "pensamento crítico", etc. por parte de alguns ateístas não passam de self-selling, mera propaganda, um discurso ignorante destinado a outros ignorantes, e nada mais. Não devemos esquecer, ainda, que Galileu, um dos heróis de muitos ateus, era católico, e certamente não era menos racional por isso. Enfim, em nossa linha do tempo, o autor nem pronunciou uma única palavra, e quantas mentiras tivemos que reconsiderar?!

O autor, Marcello Carino, fez esse vídeo em resposta a um cristão chamado Demétrio, cuja exposição em defesa do cristianismo me pareceu completamente inapropriada, com argumentos fracos e confusos. Posteriormente, o sr. Demétrio postou novas respostas ao vídeo do sr. Marcello, mas igualmente fracas e confusas. De qualquer forma, meu objetivo não é me envolver na discussão dos dois, mas analisar determinadas alegações do sr. Marcello que me pareceram completamente bizarras, independente do contexto da discussão com o sr. Demétrio.

São elas: 1. "Isso é muito diferente: se dizer algo, e ser algo, praticar algo; essa é uma grande diferença entre o ateu e os cristãos. Os cristãos se dizem bons: não é o que nós vemos por aí"; 2. "Fidelidade não tem nada a ver com religião: basta você ler a Bíblia, que você vai ver que isso se comprova. Aonde? Salmos [...]. Davi enviou Urias para a batalha, para morrer, parar ficar com sua mulher. Então, ser fiel, dentro do cristianismo?! Você me desculpa, mas eu dispenso". 3. "Com relação também ao que você diz, que cristãos aprendem valores morais, de retidão, que constroem uma sociedade melhor: ledo engano, também. Porque o que nós vemos, hoje, [são] pastores que roubam, padres pedófilos, [etc.]"; 4. "E com relação a vocês serem fiéis nos negócios [...], não é verdade! Por um simples motivo: existe um mercado, isso é fato, de CDs, DVDs evangélicos piratas. Bem, se existe esse mercado, é porque existe consumo. [...] Quem consome são os cristãos [...], logo, vocês não podem ser fiéis nos negócios".

Quanto ao item 1.: dizer ser é realmente diferente de ser de fato. Agora, após tal afirmação, dizer que essa é uma diferença entre ateus e cristãos e que os cristãos se dizem bons, coisa que não vemos, só tem sentido no raciocínio bizarro do sr. Marcello. Cada alegação não tem nenhuma relação com a outra: quando ele diz que ser algo é diferente de meramente afirmar ser algo, está expressando um juízo neutro, cuja veracidade pode ser comprovada a partir da coerência entre o discurso e comportamento de qualquer pessoa. Essa não é uma diferença entre ateus e cristãos, já que, tanto ateus quanto cristãos podem afirmar ser algo que não são. Não há dado ou informação que sequer sugira que a hipotética incoerência entre discurso e comportamento seja observada com mais frequência neste grupo do que naquele ou naquele outro.

Mais absurdo que tudo isso é a afirmação de que os cristãos se dizem bons e a sugestão implícita de que não são, já que não notamos isso "por aí". Tirando o talvez irrelevante fato de eu nunca ter visto um cristão afirmando: "eu sou bom" - muito menos num contexto que essa bondade confronte com a falta de bondade de um outro -, é notável no cristianismo a orientação de que seus fiéis não sejam orgulhosos, mas que sejam humildes. E o fato de o sr. Marcello não ver um cristão bom "por aí" não impede a possibilidade de haver um cristão bom, bem como o fato de eu nunca ter visto um cristão declarando-se bom não impede a possibilidade de haver algum cristão fazendo tal declaração. Não é porque alguém não viu algo que algo é necessariamente falso; e ainda que fosse o caso de não existirem cristãos bons, isso não mudaria a orientação cristã de se praticar o bem, e se não há cristão praticando o bem, é porque não há cristão algum, já que, como disse o autor, dizer ser algo é muito diferente de ser algo, de fato.

O cristianismo comanda seus fiéis a praticar o bem. O ateísmo não pode fazer isso, já que não possui regras de comportamento: é moralmente neutro. Ateísmo não implica em bondade, não implica em maldade, não implica em fidelidade, nem implica em infidelidade; implica apenas na crença de que não há Deus. O cristianismo não implica apenas na crença de que há Deus, mas em uma série de valores a serem seguidos por aqueles que creem em sua veracidade. Mais próximo de ser o mero oposto do ateísmo talvez seja o deísmo, que implica apenas na crença de que há um Deus, mas que não relaciona-se com a humanidade de forma alguma, nem se importa com o que fazemos ou deixamos de fazer. A verdade é que o raciocínio exposto no vídeo é completamente incoerente: um verdadeiro fracasso, tão ruim quanto o argumento do sr. Demétrio sobre os 5% do conhecimento.

Quanto ao item 2.: Aqui o mais bizarro não é nem a afirmação de que a fidelidade independe de religião, mas a tentativa de provar tal afirmação usando a Bíblia - e de uma maneira tão vergonhosa. Se dispôssemos o argumento em premissas e conclusão, teríamos: 1. Davi era servo de Deus; 2. Davi traiu seu amigo; 3. Logo, o cristianismo não prega a fidelidade. 4. Logo, fidelidade independe de religião. É indescritível o grau de imbecilidade e incoerência que se nota no raciocínio. Para que 3. seja verdadeiro, é necessário assumir uma série de premissas ocultas, como, por exemplo: que a validade de um mandamento divino depende da disposição dos homens para praticá-lo; que os escolhidos de Deus devem ser perfeitos; que, se não são perfeitos, e por não serem perfeitos e não cumprirem sempre o que Deus ordena, o mandamento divino é invalidado; e, ainda, que por um escolhido ter errado, todos os outros fiéis imitariam esse erro, cuja prática tornar-se-ia modelo, mesmo sendo violação do mandamento divino.

Assim, por Davi ser servo de Deus e ter pecado, todos os fiéis de Deus o imitariam em seu erro, cuja prática demonstra que a religião cujas bases remetem a muitos ensinos revelados através de Davi não prega a fidelidade, já que o próprio Davi falhou nesse sentido. Ora, os cristãos sabem que todos os homens são pecadores, inclusive os mais próximos de Deus. O único homem que não pecou foi Jesus, que era também Deus. O fato de um servo de Deus ter pecado não faz com que o pecado torne-se uma virtude e deva ser praticada. O sr. Marcello dispensa a fidelidade no cristianismo não por essa não existir, mas porque o seu modo completamente deficiente de raciocinar não permitir-lhe o devido entendimento de uma questão extremamente simples. Esse tópico é particularmente vergonhoso, ainda mais pelo tom arrogante que o enuncia.

O item 3. falha no mesmo sentido que o item 2., e no item 4. temos o assassinato doloroso e definitivo do raciocínio lógico. Temos: 1. Cristãos não devem apoiar a pirataria; 2. Há consumo de produtos evangélicos piratas; 3. Os consumidores são cristãos; 4. Logo, cristãos não são fiéis nos negócios. Ou seja, porque alguns cristãos cometem tal erro, nenhum cristão pode ser fiél nos negócios, já que, se um cristão é ou age de tal maneira, todos os cristãos são ou agem de tal maneira. Da mesma forma: 1. Ateísmo é moralmente neutro; 2. Houve genocídios ateístas em países comunistas; 3. Comunistas são ateus; 4. Logo, todo ateu é comunista e genocida. Ora, se um ateu é ou age de tal maneira, todos os ateus são ou agem de tal maneira. Vejam, é óbvio que esse argumento não tem sentido: a conclusão não segue das premissas. E é verdadeiramente frustrante ter que assisistir a um vídeo em que esse tipo de ignorância e desonestidade são aplaudidas pela grande maioria dos expectadores.

Non sequitur, generalização apressada, falácia de composição, acidente invertido e por aí vai. Um show de falácias gratuito, uma plateia de imbecis. No fim das contas, a verdade se afoga, enquanto a propaganda acena cinicamente para os bobos maravilhados. A desonestidade brilha, e quem aparece como vilão é a própria verdade que não mais respira, já que ninguém na plateia ousaria levantar-se e oferecer a ela socorro algum. Fim do ato: aplausos, por favor!

Referências e recomendações:
  1. O que é religião?
  2. Teologia Moral
  3. Mártires cristãos
  4. A Revolução Francesa
  5. More on French Revolution
  6. Jean-Baptist Carrier
  7. Thank God for Dawkins
  8. The Catholic Church: Builder of Civilization
  9. How the Catholic Church Built Western Civilization
  10. Atrocidades anti-católicas
  11. Lógica e Dialética
  12. The Begginings of Western Science
  13. A Inquisição
  14. Escândalos de pedofilia
  15. Thank God for the Four Horseme
  16. Técnica: presidiários são cristãos

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