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30 de agosto de 2011

A verdade que muda #2

 Depois de ter escrito sobre a grande idiotice de acreditar em si mesmo, concluo, agora, comparando o exposto à situação que marca, definitivamente, a hipocrisia humana em sua plenitude, acusada anteriormente. A verdade que muda é essa marca, e tentarei explicá-la apropriadamente.

O mundo moderno diz, dia após dia, que não se deve mudar para agradar aos outros. É uma ideia perfeitamente razoável, mas apenas sob uma condição: só não deve haver mudança quando o que se pretende mudar está correto. Isso é muito simples: se uma pessoa é honesta, e alguém deseja torná-la desonesta, ela deve permanecer imóvel, deve resistir à pressão externa. Ora, uma pessoa não deve acreditar em si mesma justamente para que não corra o risco de acreditar em qualquer coisa, pois a única coisa em que se deve acreditar é na verdade: e a verdade não muda.

Se a verdade muda, ela deixa de ser verdade, ou seja, uma verdade que muda é necessariamente uma mentira. Se algo é verdadeiro hoje, mas não é amanhã, signigica que que não foi verdadeiro nunca, pois a verdade está além do tempo. Da mesma forma, se algo é verdadeiro para um indivíduo, mas falso para outro, siginifica que no mínimo um deles está errado, pois duas pessoas não podem divergir sobre a mesma coisa e continuarem ambas corretas; assim, a verdade está, também, além da subjetividade humana. Se 1+1=2 for verdadeiro, precisa ser 1+1=2 ontem, hoje e amanhã; se 1+1=2 for verdadeiro para mim, precisa ser verdadeiro para todos os outros.

O acreditar em em si mesmo é uma ofensa direta à verdade; é um ataque à ordem das coisas, pois rouba da verdade o dever de estar acima de todos os homens, para que passe a estar subordinada à vontade particular de cada homem. Andar no caminho da verdade significa estar correto; andar fora da verdade significa estar errado. O homem que acredita em si mesmo estando convicto das coisas erradas está necessariamente em desacordo com a verdade; está, portanto, errado. Os modernos querem, obviamente, que esta noção de certo e errado seja removida dos indivíduos, para que, assim, a verdade possa pertencer a todos, o que possibilitaria que todos estivessem certos sem nunca precisar de mudanças. Como já foi dito, o único erro seria dizer que há algum erro.

Assim, todos estão certos, a verdade é subjetiva, e o importante é ser feliz. Cada afirmação não tem relação lógica nenhuma entre si, mas se há algo que o mundo esqueceu, é justamente da lógica. A lógica é ferramente da verdade, e só é útil para o mundo moderno à medida que é mal utilizada. Dizem que, desde que dois indivíduos estejam felizes, eles não precisam concordar sobre as coisas, mesmo as que estão além da subjetividade. Por exemplo, um pode acreditar que a constante gravitacional universal equivale a x, e o outro pode acreditar que ela equivale a 100x, e certamente ambos poderiam viver suas vidas tranquilamente, sem ninguém para impedir um deles de voar.

Mas há quem diga que as pessoas devem necessariamente concordar sobre determinadas coisas, e que a verdade não muda, mas é a mesma sempre. Dentre os que o fazem, está a velha Igreja Católica, que, além de dizer que a verdade é objetiva, ainda ousa dizer que ela conhece esta verdade, e que ela é responsável pela preservação dessa verdade. E é justamente quando esta ousada Igreja entra em cena que a hipocrisia do mundo se revela. Enquanto o mundo está disposto a admitir que todos estão certos, a Igreja Católica insiste em dizer que todos estão errados. E esse é o único erro que o mundo não é capaz de tolerar. Daí, o mesmo mundo que prega que não devemos mudar para agradar aos outros, é o mesmo mundo que vive tentando mudar a Igreja, talvez por ela ter cometido o único erro inadmissível: ela disse que o erro existe.

Ela diz muito mais que isso: ela diz que praticamente tudo está errado, e isso o mundo moderno não é capaz de suportar. Logo, a Igreja Católica está errada: ela deve mudar. Assim, no mundo em que não há erros e não se deve mudar pela vontade alheia, eis que surge alguém errado e que deve mudar pela vontade dos homens.

E por ter citado o filme I love you, Philip Morris anteriormente, aproveitarei a homossexualidade como primeiro exemplo. Muitos héteros e homossexuais compartilham a opinião de que a homossexualidade é tão correta, tão natural, quanto a heterossexualidade, e se essa opinião fosse equivocada, que diferença faria? A lógica moderna diz que "o importante é ser feliz". E quão mais belo seria o mundo se não existisse alguém dizendo por aí dizendo que, na verdade, a homossexualidade é um erro. Pois, de fato, é isso a única coisa que a Igreja faz: ela não persegue os homossexuais, e inclusive já foi muitas vezes acusada de ser refúgio de muitos deles; o que a Igreja faz é muito pior que perseguição, pois a perseguição afetaria apenas aos verdadeiramente perseguidos, ao passo que o que ela faz afeta a todos, sem exceção. A Igreja diz que o comportamento homossexual é um pecado; ela não diz que é um crime, não diz que não há saída: pelo contrário, como para todo o pecado, ela oferece perdão.

Mas o mundo não quer perdão, o mundo quer estar certo. O mundo quer felicidade, e curiosamente, parece que a felicidade depende, mais do que se imagina, da verdade. Então, em vez de o mundo adequar-se à verdade, ele quer que a verdade se adeque a ele, para que, ao final, o efeito prático seja o mesmo, ou seja, para que possam ser felizes. E a Igreja não muda: a Igreja não muda, mas como seria belo se ela mudasse; e como todos os nossos problemas seriam resolvidos... Por que insistir que existe o pecado, sendo que seria tão melhor se o pecado não existisse?

O homem poderia ser perfeito, mas a Igreja insiste em dizer que ninguém pode ser perfeito. Ironicamente, muitas pessoas, na maioria das vezes ateístas hostis ao catolicismo, desenvolveram uma ideia bizarra de que os católicos estão longes de ser perfeitos, e, por isso, saem gritando para o mundo que, se alguém quer perfeição, que não vá buscá-la na Igreja Católica. Ora, mas a Igreja nunca disse: "Se queres conhecer homens perfeitos, venha à Missa"; mas ela pode muito seguramente dizer: "Se queres conhecer os homens mais imperfeitos e mais terríveis da Terra, venha à Missa". E não estará contradizendo-se ao dizê-lo. Foi justamente quando percebi isso que percebi, consequentemente, uma das maiores belezas do catolicismo.

Antes de me juntar ao catolicismo, eu me julgava um soldado melhor que todo aquele exército junto. Eu não possuia metade de suas fraquezas, nem me sentia culpado por metade de suas falhas. Mas quando eu fui à Igreja e entendi porque tantas pessoas piores que eu estavam lá, eu entendi quase que em um reflexo que elas não eram piores do que eu. Quando eu olhava para elas, me perguntava se elas eram capazes de merecer o perdão de Deus; quando olhei para mim mesmo, porém, me perguntei se Deus era capaz de me perdoar. E assim o segredo da imperfeição dos homens me comoveu como nada houvera me comovido em toda a minha vida: ninguém ali merecia o perdão de Deus, e mesmo assim Deus estava disposto a nos perdoar.

E a cada novo dia em que eu me dirigia à Igreja, ia muito animado para ouvir o padre dizer que nós estamos errados, e que somos imperfeitos. Se eu quisesse ouvir que eu estava certo, e que a perfeição é possível, bastaria eu ligar a televisão, pois lá alguém estaria dizendo: "Basta que você acredite em si mesmo". Mas a Igreja não estava disposta a dizer isso, e ela foi a primeira a saber que isso era uma grande mentira. O homem quer se convencer de que é suficiente para si mesmo, mas a Igreja quer convencê-lo de que ele não é nada sem Deus.

O mundo moderno está em guerra contra a Igreja hoje, mas a Igreja está em guerra com o mundo moderno desde que nasceu. Para ela não existe mundo moderno: existe apenas o mundo; e se há algo que a Igreja faz bem há dois mil anos, é isso: dizer que o mundo está errado. Isso sempre foi tudo o que eu queria ouvir, eu só não sabia até pouco tempo atrás. Estudar a história do mundo não nos faz concordar com os modernos, com essas bobagens de que todos estão certos, e que as convicções mudam com o tempo, e que o que é certo hoje não é certo amanhã, e o que é certo para mim pode não ser para você: isso tudo é, de fato, uma grande bobagem.

A Igreja dirá que todos estão errados, e que as convicções não mudam com o tempo, e que o que é certo para um é certo para todos. Ela mesma é o exemplo vivo de que é possível estar convicto hoje do que se esteve convicto dois mil anos atrás. Os homossexuais continuarão pedindo que a Igreja os aceite, mas provavelmente não perceberão que ela já os aceita. E outros pedirão que ela aceite os que utilizam métodos contraceptivos, mas provavalmente não perceberão que ela já os aceita. A Igreja a todos aceita, desde que aquele que é aceito entenda que é ele quem, primeiro, deve aceitá-la. A Igreja aceitou me corrigir porque eu aceitei que estava errado. Eu não fui à Igreja porque eu queria ouvi-la dizer que eu estava certo, mas porque eu queria ouvi-la dizer que eu estava errado.

A Igreja aceita os homossexuais, mas não aceita que o comportamento homossexual esteja correto, assim como ela aceita os mentirosos, mas não aceita que a mentira esteja correta. Em suma, ela aceita toda a sorte de pecador, mas não aceita sob nenhuma circustância que o pecado esteja correto. Se alguém quer ouvir que não tem pecados, pode ir a muitos lugares do mundo, mas à Igreja vão aqueles que querem ouvir que têm pecados. É possível encontrar pessoas que compartilham a ideia de que todos estão corretos sorrindo em cada esquina, como se fossem modelos de uma propaganda da fé em si mesmos. Mas na Igreja estarão aqueles monstros horríveis, que por serem monstros não distraem uns aos outros, e assim concentram-se na única coisa ali que não é monstruosa, a única coisa que é divina: o mistério da fé; fé em Deus, não no homem.

E assim acontece como era no princípio, agora e sempre, porque se há alguém que pode falar em nome da verdade, esse alguém precisa primeiro acreditar na verdade. Qual é o sentido em acreditar que se está certo e, ao mesmo tempo, acreditar que todos estão certos? Isso equivale a acreditar que todos estão errados, e talvez seja por isso que a Igreja chamou minha atenção: ela disse que apenas uma pessoa estava certa, e que essa pessoa era Deus.

Lembro-me que, há algum tempo, eu me perguntava por que Jesus disse ser o caminho, a verdade, e a vida. Tendo instruído seus discípulos e a humanidade sobre qual chão deviam pisar, era fácil entender o que dizia com "o caminho". Tendo vindo para oferecer ao homem a redenção, a nova chance de viver eternamente, era fácil entender o que dizia com "a vida". Mas eu não entendia por que Ele dizia ser a verdade. Então, lembrei que a verdade deve estar acima de todos os homens, e não subordinada à vontade de cada um deles. E Jesus foi homem, mas também é Deus, e por isso é maior que todos os homens, e a Igreja é seu legado, e por isso ela está, também, acima dos homens.

Isso explica facilmente o motivo de a Igreja não atender aos desejos incontroláveis de um mundo insano. A insanidade corrompeu homens inteligentes e belos, mas não corrompeu aos monstros humildes que vão à Missa aos domingos de manhã. O mundo não entende que a Igreja não mudará ainda que todos os loucos estejam contra ela, mas a Igreja entende que os loucos devem estar contra ela. Jesus é a verdade, e a Igreja é quem deve preservá-la, pois à medida que se preserva a verdade, também se preserva a Deus.

Os homens querem ser Deus; e eles talvez pudessem ter a ilusão de ser Deus, não fosse a Igreja, mais uma vez, dizendo que eles não são. Primeiro, Jesus disse: "Antes que Abraão fosse, Eu sou"; e depois a Igreja passou mais de dois mil anos convicta das mesmas ideias, combatendo os mesmos pecados. Tudo isso me fez entender que a verdade poderia ser uma pessoa, e que fazia muito sentido que fosse Essa pessoa. A verdade não muda, está além do tempo, está além da subjetividade humana, e Jesus dissera exatamente isso. Ao meu quebra-cabeça faltava apenas uma peça, mas, então, eu a encontrei: e essa peça chamava-se coincidência, que mais tarde eu descobri não ser, de fato, coincidência; era algo mais.

Seja como for, me parece que o mundo deveria estar feliz. Afinal, a ideia de que não se deve mudar para agradar aos outros não só foi sempre praticada pela Igreja, como parece ter, de fato, surgido na Igreja. A grande diferença é que o mundo fala, mas não faz; sugere, mas não vive a sugestão. O mundo é hipócrita: hoje mais do que ontem. E a Igreja é quem sempre vê essa hipocrisia: hoje tão bem quanto amanhã.


Referências e recomendações:
  1. A dignidade da dúvida
  2. A verdade que muda #1

29 de agosto de 2011

A verdade que muda #1

Há algo curioso sobre o coração da geração moderna, que se refere à personalidade de cada ser humano tomado individualmente. Dizem que nós não devemos mudar para agradar aos outros, e que devemos ser nós mesmos, acreditar em nós mesmos, etc. - ideia que é muito bem retratada nas mais famosas entre as recentes produções do cinema mundial: certo homem com certas convicções passa por toda a sorte de dificuldades durante sua delicada história, e por mais que digam a ele que suas convicções são a causa de seu sofrimento, ele não as abandona, até que finalmente tem seu final feliz e prova a todos que ele conseguiu sem se render, o que acaba causando um forte impacto no público, que se emociona a ponto de sentir que uma nova esperança começa a partir do momento que aquela história de superação termina.

Eu não tenho nenhuma objeção contra a ideia de que não devemos mudar para agradar aos outros: é a ideia de que não devemos mudar, de que devemos permanecer fieis a nós mesmos, que me preocupa. Quando decidimos que seremos fieis a nós mesmos, e que nada no mundo mudará as nossas convicções, nos qualificamos automaticamente para estrelar qualquer um dos filmes hollywoodianos modernos, porque nos tornamos o certo personagem que sofre, mas não abandona aquilo em que acredita.

Soa belo, inspirador, mas não passa de uma sutil representação da maior marca do mundo moderno: a hipocrisia humana em sua plenitude. O que parece ser a principal lição dessas histórias é, na verdade, sua maior armadilha: justamente a fidelidade às nossas próprias convicções. Essa é a coisa mais absurda que o mundo moderno poderia incentivar! No entanto, ele o faz descaradamente, e ainda consegue encher de lágrimas os olhos de praticamente todo o mundo. Muitas vezes, envolvidos pelos mistérios de uma trama, deixamos passar despercebido o fato de que muitos personagens sofrem sem abandonar suas convicções porque estão convictos de coisas erradas.

E é exatamente nesse ponto que Hollywood encontrou a fórmula do sucesso: removeu de suas histórias a possibilidade do erro, o que permite a cada personagem estar de acordo com aquilo em que acredita, ao passo que nunca está de acordo com aquilo em que acredita o personagem de algum outro filme, que diverge de um terceiro, e assim por diante, o que resulta em um Universo em que ninguém concorda com ninguém, todos estão certos, e o único erro possível é dizer que alguém está errado: a verdade é aquilo em que cada um escolhe acreditar; todo o sofrimento pelo qual cada um passa é a peça chave para o grand finale, que nos mostrará como, independente daquilo em que o personagem acredita, se ele confiar nele mesmo e não se render às pressões externas, o final feliz baterá à sua porta.

Esse Universo, porém, não é meramente hollywoodiano, e seria injusto jogar em Hollywood essa culpa. Esse Universo é apenas o reflexo do que o nosso mundo idealiza, e a "fábrica de sonhos" apenas dá acabamento ao que é esboçado no mundo real. Para ilustrar o que digo, podemos pensar no filme I love you, Philip Morris, possivelmente o único filme de Jim Carrey que eu não quero ver uma segunda vez. O filme é baseado na história real de um sujeito que faz o possível e o impossível para ficar com o amor de sua vida. Mas não é por se tratar de um romance homossexual que escolhi o filme como exemplo, mas por causa das coisas que são feitas pelo protagonista nessa aventura amorosa: ele rouba a própria empresa em que trabalha, ele conhece seu parceiro na cadeia, foge da cadeia, é recapturado, foge novamente e chega até ao inacreditável momento em que consegue se passar por um portador do vírus HIV, com uma mais inacreditável falsificação de exames somada a uma dieta bizarra.

Essa é a história de Steven Jay Russell, um dos criminosos mais difíceis de engolir das últimas décadas, dada a quantidade de crimes que cometeu sem o mínimo de preocupação ética ou moral. Mas, para Hollywood, essa é a história de Steven Jay Russell, um dos românticos mais excêntricos das últimas décadas, que, dada a quantidade de loucuras que fez por amor, mereceu ter sua emocionante aventura retratada nas telonas, para que mais pessoas também se motivem a ser loucas por amor. Esse filme retrata melhor do que qualquer outro o que a sociedade moderna vem incorporando como dogma fundamental para si mesma: primeiro a felicidade, depois a responsabilidade - ou talvez responsabilidade nenhuma, nunca.

Tornou-se comum dizer que, "não importa em que se acredita, o importante é ser feliz". Certamente, essa é uma frase que deve aliviar a dor de muitos criminosos no mundo inteiro, como fez com Jay Russell. Imagino que as pessoas não se dão conta de que esse dogma do mundo moderno já virou rotina, um verdadeiro clichê. Hollywood tem espalhado essa semente de maneira incrível, mas ainda não o faz tão bem quanto o mundo real. O mundo real está cheio de criminosos piores que meros fugitivos de prisões, ou meros assassinos e ladrões; ele está cheio de destruidores da nossa própria espécie, inimigos da humanidade.

Um inimigo da humanidade não derrama o sangue de nenhum homem, mas motiva milhares de homens inocentes a derramar o sangue de milhões de outros homens tão inocentes quanto eles. Um inimigo da humanidade não usa uma arma, mas uma ideia. Um inimigo da humanidade não incentiva outros homens a se rebelarem contra seus vizinhos, mas contra a sua própria família.

Não é difícil identificar quem são estes inimigos. Por exemplo, aqueles que repetem ou concordam com aquela bobagem de que o homem é o único problema do mundo: eles são inimigos da humanidade. Se, como eles dizem, o homem está destruindo o mundo, e se o mundo estaria melhor sem o homem para lhe matar a beleza, a solução óbvia é que o homem precisa abandonar o mundo. E este é o altruísmo de um inimigo da humanidade: temendo que o mundo não seja capaz de aniquilar o homem, ele toma para si as dores do mundo e planeja formas de realizar a limpeza que devolverá ao mundo sua verdadeira beleza e perfume.

O que um inimigo da humanidade faz, então? Escreve um livro, um romance, uma novela. Mostra aos outros homens como 1) é belo lutar pela felicidade; 2) como é belo não desistir dos seus sonhos (mesmo dos mais impossíveis); e 3) como é belo buscar a felicidade numa causa nobre e ter como sonho essa causa. Jay Russell é o exemplo dos dois primeiros anseios; as utopias modernas são o exemplo do terceiro. Para que os dois primeiros se alinhem ao terceiro, é necessário, antes de mais nada, remover do mundo todos os seus escrúpulos. Lutar pela felicidade é uma grande aventura, o grande problema é que normalmente há muitos obstáculos entre uma pessoa e a felicidade. O que ela faz? Talvez ela ignore o obstáculo, talvez encontre outro caminho, mas se isso não resolver, basta destrui-lo.

Um obstáculo pode ser uma barreira lícita. Sabemos que muitas pessoas sonham em ser milionárias, mas é difícil tornar-se um milionário: é preciso esforço, dedicação, astúcia, diferencial. Porém, a verdade é que muitas pessoas possuem tais características, e a maioria delas não chega nem perto de ser milionária. Por outro lado, pessoas sem tais qualidades alcançam este sonho de maneira simples demais, talvez com a loteria ou em um reality show. Penso até que há muito mais milionários que ficaram ricos contando apenas com a sorte, que aqueles que o fizeram por merecimento. É uma realidade cruel, mas verdadeira. O que Jay Russell faz? Ele rouba! Sim, eis a terceira opção: pular a barreira lícita; caminhar no solo em que o limite é invisível, uma mera construção dos homens do outro lado, dos homens que não pularam a barreira.

Talvez aqueles sejam os homens que entendem que algumas barreiras são intransponíveis, e que só existem porque atrás delas há um terrível abismo. É neste momento que Hollywood nos surpreende: talvez Jay Russell até veja o abismo, mas ele não teme a queda, ele pula a barreira corajosamente, e antes que caia, ele bate as asas e voa. E ele só conseguiu porque acreditou em si mesmo. Ele não deixou que o dissessem que ele não era capaz, ou que ele iria morrer se de lá pulasse: ele simplesmente obedeceu seu coração.

Não é difícil perceber qual é a verdadeira diferença entre Hollywood e o mundo real: no mundo real não há efeitos especiais. No papel do poeta moderno, Jay Russell pode até ser corajoso, astuto, romântico, convicto e vencedor, mas no papel do homem sensato, Jay Russell está morto, é um fracassado, um suicida. E é exatamente isso que os inimigos da humanidade querem: transformar todos os homens em suicidas. Então, quando o último homem pular a barreira e se esborrachar no chão duro e insensível, aquele altruísmo bonito e sutil tornar-se-á uma realidade sublime. Não será mais apreciado por nenhuma mente, pois nenhuma mente existirá. É possível, afinal, que Carl Sagan estivesse errado, e nós não sejamos a forma do cosmos conhecer a si mesmo.

A causa nobre do inimigo da humanidade é livrar o cosmos de uma coisa chamada homem. O inimigo da humanidade comporta-se como um Jay Russell cósmico, e altruísta. E um altruísta cósmico não faz uma bondade do tamanho da lua, ele faz uma bondade muito maior que a Via Láctea: ele extermina algo que, aos olhos do Universo, é muito menor que o piolho que vive na cabeça de uma formiga - isso, é claro, se formigas tivessem piolhos, o que certamente seria divertido, e de certo modo até merecido. O nobre altruísta cósmico está certo; afinal, muitas doenças são causadas por bactérias que o olho não é capaz de ver. É possível que o homem seja a bactéria que o Universo não vê, mas que o próprio homem vê, e é por isso que o homem se sente capaz e até mesmo obrigado a ajudar o Universo.

No fim das contas, algumas coisas ficam claras. A mais óbvia é que as bactérias de verdade são mais unidas e mais inteligentes que os homens: elas não atacam umas às outras, mas atacam aos homens. Outra coisa não tão óbvia e menos divertida é que os inimigos da humanidade estão tendo notável êxito em convencer os homens a pular daquele abismo: esses são os homens que vão ao cinema. A terceira e muito mais terrível é que alguns homens, antes de pularem, tiveram a trágica sorte de nunca terem ido ao cinema, mas, muito pior que isso, tiveram o azar de terem lido um livro ruim; estes são os homens que, antes da queda, empurram todos que os rodeiam, e por isso o estrago é muito maior. Eles não são o Jay Russell em busca de amor, mas o Jay Russell cósmico que acredita ter encontrado a cura para o Universo. O Jay Russell suicida faz loucuras que resultarão no seu próprio fim; o Jay Russell cósmico faz loucuras que resultarão no fim de todos os outros loucos, e também de todos os sensatos.

Eis o poder de acreditar em si mesmo: ele possibilita a destruição da potência, até que nada mais seja possível. A maior ironia é que esse final que os modernos tanto anseiam será um final que não é seguido pelos créditos; é um final que não é seguido por nada; provavelmente o final mais sem graça de toda a História. A mais imbecil das utopias pretendeu criar um novo homem, e não é errado dizer que ela, de fato, o criou: é novo em folha e nunca antes visto esse homem que tem como maior objetivo criar não um novo homem, mas um novo mundo: um mundo sem homem algum.


Referências e recomendações:
  1. Ortodoxia
  2. Cosmos
  3. I love you Philip Morris
  4. O Homem que foi quinta-feira

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