29 de agosto de 2011

A verdade que muda #1

Há algo curioso sobre o coração da geração moderna, que se refere à personalidade de cada ser humano tomado individualmente. Dizem que nós não devemos mudar para agradar aos outros, e que devemos ser nós mesmos, acreditar em nós mesmos, etc. - ideia que é muito bem retratada nas mais famosas entre as recentes produções do cinema mundial: certo homem com certas convicções passa por toda a sorte de dificuldades durante sua delicada história, e por mais que digam a ele que suas convicções são a causa de seu sofrimento, ele não as abandona, até que finalmente tem seu final feliz e prova a todos que ele conseguiu sem se render, o que acaba causando um forte impacto no público, que se emociona a ponto de sentir que uma nova esperança começa a partir do momento que aquela história de superação termina.

Eu não tenho nenhuma objeção contra a ideia de que não devemos mudar para agradar aos outros: é a ideia de que não devemos mudar, de que devemos permanecer fieis a nós mesmos, que me preocupa. Quando decidimos que seremos fieis a nós mesmos, e que nada no mundo mudará as nossas convicções, nos qualificamos automaticamente para estrelar qualquer um dos filmes hollywoodianos modernos, porque nos tornamos o certo personagem que sofre, mas não abandona aquilo em que acredita.

Soa belo, inspirador, mas não passa de uma sutil representação da maior marca do mundo moderno: a hipocrisia humana em sua plenitude. O que parece ser a principal lição dessas histórias é, na verdade, sua maior armadilha: justamente a fidelidade às nossas próprias convicções. Essa é a coisa mais absurda que o mundo moderno poderia incentivar! No entanto, ele o faz descaradamente, e ainda consegue encher de lágrimas os olhos de praticamente todo o mundo. Muitas vezes, envolvidos pelos mistérios de uma trama, deixamos passar despercebido o fato de que muitos personagens sofrem sem abandonar suas convicções porque estão convictos de coisas erradas.

E é exatamente nesse ponto que Hollywood encontrou a fórmula do sucesso: removeu de suas histórias a possibilidade do erro, o que permite a cada personagem estar de acordo com aquilo em que acredita, ao passo que nunca está de acordo com aquilo em que acredita o personagem de algum outro filme, que diverge de um terceiro, e assim por diante, o que resulta em um Universo em que ninguém concorda com ninguém, todos estão certos, e o único erro possível é dizer que alguém está errado: a verdade é aquilo em que cada um escolhe acreditar; todo o sofrimento pelo qual cada um passa é a peça chave para o grand finale, que nos mostrará como, independente daquilo em que o personagem acredita, se ele confiar nele mesmo e não se render às pressões externas, o final feliz baterá à sua porta.

Esse Universo, porém, não é meramente hollywoodiano, e seria injusto jogar em Hollywood essa culpa. Esse Universo é apenas o reflexo do que o nosso mundo idealiza, e a "fábrica de sonhos" apenas dá acabamento ao que é esboçado no mundo real. Para ilustrar o que digo, podemos pensar no filme I love you, Philip Morris, possivelmente o único filme de Jim Carrey que eu não quero ver uma segunda vez. O filme é baseado na história real de um sujeito que faz o possível e o impossível para ficar com o amor de sua vida. Mas não é por se tratar de um romance homossexual que escolhi o filme como exemplo, mas por causa das coisas que são feitas pelo protagonista nessa aventura amorosa: ele rouba a própria empresa em que trabalha, ele conhece seu parceiro na cadeia, foge da cadeia, é recapturado, foge novamente e chega até ao inacreditável momento em que consegue se passar por um portador do vírus HIV, com uma mais inacreditável falsificação de exames somada a uma dieta bizarra.

Essa é a história de Steven Jay Russell, um dos criminosos mais difíceis de engolir das últimas décadas, dada a quantidade de crimes que cometeu sem o mínimo de preocupação ética ou moral. Mas, para Hollywood, essa é a história de Steven Jay Russell, um dos românticos mais excêntricos das últimas décadas, que, dada a quantidade de loucuras que fez por amor, mereceu ter sua emocionante aventura retratada nas telonas, para que mais pessoas também se motivem a ser loucas por amor. Esse filme retrata melhor do que qualquer outro o que a sociedade moderna vem incorporando como dogma fundamental para si mesma: primeiro a felicidade, depois a responsabilidade - ou talvez responsabilidade nenhuma, nunca.

Tornou-se comum dizer que, "não importa em que se acredita, o importante é ser feliz". Certamente, essa é uma frase que deve aliviar a dor de muitos criminosos no mundo inteiro, como fez com Jay Russell. Imagino que as pessoas não se dão conta de que esse dogma do mundo moderno já virou rotina, um verdadeiro clichê. Hollywood tem espalhado essa semente de maneira incrível, mas ainda não o faz tão bem quanto o mundo real. O mundo real está cheio de criminosos piores que meros fugitivos de prisões, ou meros assassinos e ladrões; ele está cheio de destruidores da nossa própria espécie, inimigos da humanidade.

Um inimigo da humanidade não derrama o sangue de nenhum homem, mas motiva milhares de homens inocentes a derramar o sangue de milhões de outros homens tão inocentes quanto eles. Um inimigo da humanidade não usa uma arma, mas uma ideia. Um inimigo da humanidade não incentiva outros homens a se rebelarem contra seus vizinhos, mas contra a sua própria família.

Não é difícil identificar quem são estes inimigos. Por exemplo, aqueles que repetem ou concordam com aquela bobagem de que o homem é o único problema do mundo: eles são inimigos da humanidade. Se, como eles dizem, o homem está destruindo o mundo, e se o mundo estaria melhor sem o homem para lhe matar a beleza, a solução óbvia é que o homem precisa abandonar o mundo. E este é o altruísmo de um inimigo da humanidade: temendo que o mundo não seja capaz de aniquilar o homem, ele toma para si as dores do mundo e planeja formas de realizar a limpeza que devolverá ao mundo sua verdadeira beleza e perfume.

O que um inimigo da humanidade faz, então? Escreve um livro, um romance, uma novela. Mostra aos outros homens como 1) é belo lutar pela felicidade; 2) como é belo não desistir dos seus sonhos (mesmo dos mais impossíveis); e 3) como é belo buscar a felicidade numa causa nobre e ter como sonho essa causa. Jay Russell é o exemplo dos dois primeiros anseios; as utopias modernas são o exemplo do terceiro. Para que os dois primeiros se alinhem ao terceiro, é necessário, antes de mais nada, remover do mundo todos os seus escrúpulos. Lutar pela felicidade é uma grande aventura, o grande problema é que normalmente há muitos obstáculos entre uma pessoa e a felicidade. O que ela faz? Talvez ela ignore o obstáculo, talvez encontre outro caminho, mas se isso não resolver, basta destrui-lo.

Um obstáculo pode ser uma barreira lícita. Sabemos que muitas pessoas sonham em ser milionárias, mas é difícil tornar-se um milionário: é preciso esforço, dedicação, astúcia, diferencial. Porém, a verdade é que muitas pessoas possuem tais características, e a maioria delas não chega nem perto de ser milionária. Por outro lado, pessoas sem tais qualidades alcançam este sonho de maneira simples demais, talvez com a loteria ou em um reality show. Penso até que há muito mais milionários que ficaram ricos contando apenas com a sorte, que aqueles que o fizeram por merecimento. É uma realidade cruel, mas verdadeira. O que Jay Russell faz? Ele rouba! Sim, eis a terceira opção: pular a barreira lícita; caminhar no solo em que o limite é invisível, uma mera construção dos homens do outro lado, dos homens que não pularam a barreira.

Talvez aqueles sejam os homens que entendem que algumas barreiras são intransponíveis, e que só existem porque atrás delas há um terrível abismo. É neste momento que Hollywood nos surpreende: talvez Jay Russell até veja o abismo, mas ele não teme a queda, ele pula a barreira corajosamente, e antes que caia, ele bate as asas e voa. E ele só conseguiu porque acreditou em si mesmo. Ele não deixou que o dissessem que ele não era capaz, ou que ele iria morrer se de lá pulasse: ele simplesmente obedeceu seu coração.

Não é difícil perceber qual é a verdadeira diferença entre Hollywood e o mundo real: no mundo real não há efeitos especiais. No papel do poeta moderno, Jay Russell pode até ser corajoso, astuto, romântico, convicto e vencedor, mas no papel do homem sensato, Jay Russell está morto, é um fracassado, um suicida. E é exatamente isso que os inimigos da humanidade querem: transformar todos os homens em suicidas. Então, quando o último homem pular a barreira e se esborrachar no chão duro e insensível, aquele altruísmo bonito e sutil tornar-se-á uma realidade sublime. Não será mais apreciado por nenhuma mente, pois nenhuma mente existirá. É possível, afinal, que Carl Sagan estivesse errado, e nós não sejamos a forma do cosmos conhecer a si mesmo.

A causa nobre do inimigo da humanidade é livrar o cosmos de uma coisa chamada homem. O inimigo da humanidade comporta-se como um Jay Russell cósmico, e altruísta. E um altruísta cósmico não faz uma bondade do tamanho da lua, ele faz uma bondade muito maior que a Via Láctea: ele extermina algo que, aos olhos do Universo, é muito menor que o piolho que vive na cabeça de uma formiga - isso, é claro, se formigas tivessem piolhos, o que certamente seria divertido, e de certo modo até merecido. O nobre altruísta cósmico está certo; afinal, muitas doenças são causadas por bactérias que o olho não é capaz de ver. É possível que o homem seja a bactéria que o Universo não vê, mas que o próprio homem vê, e é por isso que o homem se sente capaz e até mesmo obrigado a ajudar o Universo.

No fim das contas, algumas coisas ficam claras. A mais óbvia é que as bactérias de verdade são mais unidas e mais inteligentes que os homens: elas não atacam umas às outras, mas atacam aos homens. Outra coisa não tão óbvia e menos divertida é que os inimigos da humanidade estão tendo notável êxito em convencer os homens a pular daquele abismo: esses são os homens que vão ao cinema. A terceira e muito mais terrível é que alguns homens, antes de pularem, tiveram a trágica sorte de nunca terem ido ao cinema, mas, muito pior que isso, tiveram o azar de terem lido um livro ruim; estes são os homens que, antes da queda, empurram todos que os rodeiam, e por isso o estrago é muito maior. Eles não são o Jay Russell em busca de amor, mas o Jay Russell cósmico que acredita ter encontrado a cura para o Universo. O Jay Russell suicida faz loucuras que resultarão no seu próprio fim; o Jay Russell cósmico faz loucuras que resultarão no fim de todos os outros loucos, e também de todos os sensatos.

Eis o poder de acreditar em si mesmo: ele possibilita a destruição da potência, até que nada mais seja possível. A maior ironia é que esse final que os modernos tanto anseiam será um final que não é seguido pelos créditos; é um final que não é seguido por nada; provavelmente o final mais sem graça de toda a História. A mais imbecil das utopias pretendeu criar um novo homem, e não é errado dizer que ela, de fato, o criou: é novo em folha e nunca antes visto esse homem que tem como maior objetivo criar não um novo homem, mas um novo mundo: um mundo sem homem algum.


Referências e recomendações:
  1. Ortodoxia
  2. Cosmos
  3. I love you Philip Morris
  4. O Homem que foi quinta-feira

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