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Caridade ATEA

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Igreja e Ciência

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Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

30 de setembro de 2011

O Gênesis antes de Darwin

"No princípio, Deus criou os céus e a terra", Gênesis 1: 1.

Como a história da criação no Gênesis era interpretada antes de Darwin? - em BioLogos Foundation.

Introdução

Muitas pessoas assumem que a teoria de Darwin deve ter abalado a base da fé cristã por causa da forte diferença entre a evolução e a ideia da criação em seis dias. Na verdade, a interpretação literal de seis dias de Gênesis 1-2 não era a única defendida por pensadores cristãos antes da publicação de A Origem das Espécies. As obras de muitos teólogos e filósofos cristãos primitivos revelam uma interpretação do Gênesis compatível com a teoria de Darwin.

Pensamento cristão primitivo

Orígenes, um filósofo e teólogo do século III, em Alexandria, Egito - um dos maiores centros intelectuais do Mundo Antigo - oferece um exemplo do pensamento primitivo sobre a criação. Mais conhecido por Os Princípios e Contra Celso, Orígenes apresenta as principais doutrinas do cristianismo e as defende contra acusações pagãs. Os Princípios apresenta a seguinte perspectiva sobre a história da criação no Gênesis:
"Que pessoa inteligente, eu pergunto, irá considerar uma afirmação racional que no primeiro e segundo e terceiro dia, em que foi dito haver manhã e tarde, existiu sem sol e lua e estrelas, enquanto o primeiro dia estava sem mesmo um céu? [...] Eu não penso que alguém duvidará que essas são expressões figurativas que indicam certos mistérios através de um retrato da história".
Orígenes foi contra a ideia de que a história da criação deveria ser interpretada como uma descrição histórica e literal sobre como Deus criou o mundo. Houve outras vozes antes de Orígenes que defendederam interpretações mais simbólicas da história da criação. A visão de Orígenes também influenciou outros pensadores da Igreja primitiva que vieram depois dele.

Santo Agostinho de Hipona, um bispo da África do Norte durante o começo do quinto século é outra figura central do período. Apesar de ele ser amplamente conhecido pelas Confissões, Agostinho escrevera outras dezenas de obras, muitas com foco em Gênesis 1-2. Em De Genesi ad litteram, Agostinho argumenta que os dois primeiros capítulos são escritos para servir ao entendimento das pessoas daquele tempo.
"Talvez a Sagrada Escritura em seu estilo usual esteja falando com as limitações da linguagem humana ao lidar com homens de entendimento limitado. A narrativa do escritor inspirado trás o caso à capacidade das crianças"
Em ordem para se comunicar de modo que todas as pessoas pudessem entender, a história da criação foi contada de modo simples, alegórico. Agostinho também acreditava que Deus criara o mundo com a capacidade de desenvolver uma visão que é harmoniosa com a evolução biológica.

Pensamento cristão posterior

Há muitas outras interpretações não literais de Gênesis 1-2 posteriores na história. São Tomás de Aquino, um bastante conhecido filósofo e teólogo do século XIII, foi um padre italiano que era particularmente interessado na relação da ciência e religião. Aquino não temia a possível contradição entre a história da criação no Gênesis e descobertas científicas. William Caroll observa:
"Aquino não pensava que a introdução do Gênesis apresentava qualquer dificuldade para as ciências naturais, já que a Bíblia não é um compêndio sobre as ciências. O que é essencial à fé cristã, de acordo com Aquino, é o 'fato da criação, 'não a maneira ou modo da formação do mundo'".
A interpretação de Aquino sobre a história da criação é evidente na Suma Teológica, em que ele responde à questão de que se todos os seis dias da criação são realmente a descriação de um dia único, uma teoria que Agostinho havia sugerido. Aquino não toma lados no debate, mas tenta encontrar harmonia entre as duas visões. Aquino argumenta em favor da visão de que Deus criou todas as coisas para terem potência:
"No dia em que Deus criou o céu e a terra, Ele também criou todas as plantas no campo, não, de fato, efetivamente, mas 'antes que elas brotassem na terra', isto é, potencialmente. Todas as coisas não foram distinguidas e decoradas juntas, não de uma vontade de poder por parte de Deus, como precisando de tempo para funcionar, mas cuja devida ordem pode ser observada na instauração do mundo. Por isso era conveniente que dias diferentes devessem ser atribuídos aos diferentes estados do mundo, como se cada trabalho posterior adicionasse ao mundo um novo estado de perfeição".
Claramente, Agostinho influenciou fortemente a Aquino.

A perspectiva da criação de Agostinho pode ser vista mesmo tão tarde como no século XVIII - pouco antes de Darwin publicar A Origem das Espécies - nas obras de John Wesley. Ministro anglicano e um dos primeiros líderes do movimento Metodista, Wesley, como Agostinho, pensava que as Escrituras foram escritas em termos que servissem ao seu público. Ele escreve:
"O autor inspirado nessa história [Gênesis] ... [escreveu] primeiro para os judeus e, calculando suas narrativas para o estado infantil da Igreja, descreve coisas pelas suas aparências exteriores sensíveis, e nos deixa, por descobertas posteriores à luz divina, para sermos guiados para o entendimento dos mistérios formulados sob elas".
Wesley também argumenta que as Escrituras "foram escritas não para agradar a nossa curiosidade [por detalhes], mas para nos levar a Deus". A teoria de Darwin da evolução biológica não haveria necessariamente entrado em conflito com as perspectivas de Wesley, Agostinho, Aquino, Orígenes e outros, mas a interpretação do Gênesis era apenas um dos problemas em mãos.

No século XIX, o Seminário Teológico de Princeton era conhecido por sua convicta defesa do Calvinismo conservador e absoluta autoridade da Escritura. Talvez o mais notável teólogo de Princeton daquele tempo, B.B. Warfield, aceitara a evolução como oferencendo apropriada descrição científica da origem humana. Ele acreditava que ouvir a voz de Deus nas Escrituras e as descobertas do sólido trabalho científico não estavam em desacordo. Como o historiador Mark Noll expõe, "B.B. Warfield, o mais hábil denfesor moderno da teológica conservadora doutrina da inerrância da Bíblia, também era um evolucionista".

Conclusão

A história do pensamento cristão não tem sido consistentemente dominada por proponentes de uma interpretação literal do Gênesis. Ainda que uma lista comparável de teólogos que acreditaram em uma criação de seis dias pudesse ser feita, os exemplos citados aqui mostram que pensadores cristãos significativos defenderam não literais, mesmo alegóricas, interpretações do Gênesis muito antes da ciência apresentar evidências em seu favor. As descobertas da ciência moderna não devem ser vistas nem como instigadoras de algum abandono na confiança da Escritura, nem como contraditória à Escritura, mas como sinalizações para um entendimento apropriado do significado das Escrituras.

Santo Agostinho oferece seu conselho:
"Em assuntos que são tão obscuros e muito além da nossa visão, nós encontramos na Sagrada Escritura passagens que podem ser interpretadas de formas bastante diferentes sem prejudicar a fé que recebemos. Nesses casos, nós não devemos partir precipitadamente e tão firmemente tomar posição em um lado que, se progresso posterior na busca pela verdade com justiça prejudicar, nós também caímos com ela. Isso seria lutar não pelos ensinos da Sagrada Escritura, mas por nós mesmos, esperando que ensinos dela se conformem aos nossos, enquanto devemos querer que os nossos se conformem aos da Sagrada Escritura".

Experts consultados:
A Fudanção BioLogos é grata pela assistência de Peter Enns e Alister McGrath para esboçar essa resposta.

Original em http://biologos.org/questions/early-interpretations-of-genesis: How was the Genesis creation story interpreted before Darwin?
Traduzido por Vinicius Oliveira.
*Ver citações e notas no artigo original.

15 de setembro de 2011

Cinismo extraterrestre

Essa semana tive o prazer de descobrir que sou um indivíduo pago pela Igreja para limpar a barra dela suavizando o impacto dos casos de pedofilia com os quais ela está envolvida. Tudo começou em uma discussão no facebook, no perfil do vlogger Daniel Fraga, que compartilhou um link que pretendia demonstrar como a mente do religioso é execrável - um padre deu uma declaração, e na confusa lógica adotada, a declaração de um indivíduo tornava todos os religiosos dignos de desprezo. Mais do mesmo; mas como esse blog é fruto de um trabalho voluntário, foi bom saber que a minha defesa da Igreja me garantirá alguns tostões. Afinal, tudo que eu faço costuma buscar recompensas, como nas vezes que defendi minha mãe de qualquer acusação contra ela: só o fiz porque minha mãe era responsável por prover a minha mesada, e não porque eu a amava, de fato.

Assim, após eu ter defendido a Igreja de algumas acusações feitas por um usuário suspeito, fui acusado de, na verdade, estar sendo pago para proteger com uma defesa incisiva e apaixonada os tais padres pedófilos. A dicussão pode ser acessada no seguinte link: http://www.facebook.com/DanielFragaBR/posts/159035774180232. Após ter alertado sobre a forma de se interpretar dados e sobre o cuidado necessário com a mídia, parti para o único argumento que eu realmente considero necessário: que os erros de determinados membros da Igreja não servem como argumento para que se abandone a Igreja. Expliquei que, "se há erro dentro da Igreja, acredito que meu papel como católico seja o de combater o erro antes que ele destrua a Igreja", em vez de "abandonar a Igreja e permitir que o erro se multiplique". Com isso, queria dizer o óbvio: que é papel do católico combater cada erro cometido por outro católico. E bem como uma mãe não abandona um filho que faz algo errado, mas o corrige, também o católico não abandona a Igreja pelo erro de seu irmão, mas o corrige.

Apelei a um exemplo ainda mais banal, e disse que, apesar de nós brasileiros vez ou outra comentarmos sobre abandonar o país por causa da corrupção, na verdade preferiríamos ver a corrupção abandoná-lo. Lutar para que o Brasil esteja livre da corrupção é um dever primordial de um patriota, e o mesmo vale para o cristão em sua Igreja. Isso, aparentemente, significa que eu apoio a pedofilia. Agora, eu não sei quão bem funciona o cérebro capaz de tal interpretação, pois, se tivéssemos 1. há casos de pedofilia na Igreja; e 2. os erros na Igreja devem ser combatidos; só seria possível concluir que 3. o defensor da segunda premissa apoia a pedofilia na Igreja se a pedofilia fosse considerada por esse indivíduo uma prática correta. Porém, como todo católico sabe e todo ser humano deveria ter a capacidade de supor, a Igreja não considera correta essa prática, mas a condena. Isso sugere - se já não estava explícito - que meu argumento era contra a pedofilia, e não em defesa dos pedófilos.

Mas ao ser humano sensato, toda essa chata explicação seria dispensável. Isso me levou a crer que eu estava discutindo com um alienígena, mas essa é uma hipótese que carece de comprovação. O que de fato aconteceu foi que eu aparentemente estava preso à religião, ao contrário de meu adversário, que por ser ateu podia falar a besteira que quisesse e ainda assim merecer mais crédito que eu. Diante das acusações, pedi que o próprio Daniel Fraga dissesse se eu havia defendido a pedofilia, mas, infelizmente, ele não se manifestou. Lamentei o ocorrido, e aguardei a resposta.

Para a minha surpresa, a resposta seria muito mais trágica do que eu imaginava. Abandonando a discussão, o indivíduo resolveu ir até o meu perfil e coletar informações que, segundo ele, suponho, serviriam como armas contra mim. Ele citou a por mim tão apreciada frase de São Tomás sobre o amor pela verdade, e a ela respondeu com uma frase de Feuerbach. Talvez não seja adequado chamá-la de resposta, pois a frase de Feuerbach não se relaciona nem mesmo remotamente à frase do santo. Ele apenas queria promover um pensamento tolo revestido de algo possivelmente intelectual. Feuerbach foi defensor de ideias que poderiam ter me atraído por volta de meus quinze anos, mas certamente não me atraem hoje. Na verdade, são ideias que, hoje, representam o meu maior inimigo, e nelas não vejo nada de sofisticado ou inteligente.

Independente do anseio da investida, notável mesmo foi o que veio depois: por eu ter me manifestado com repudio às acusações explícitas de que eu fora pago para realizar um serviço sujo para a Igreja, o nobre cavalheiro se manifestou dizendo que a carapuça havia me servido. Era o cinismo em sua forma mais curiosa: era cinismo à luz de testemunhas. Já não havia coerência, já não havia respeito, já não havia sentido. E como todo bolo saboroso precisa de sua cereja, a cereja desse bolo chegara ao meu conhecimento: "Karl Popper constata que 'toda vez que o homem quis trazer o céu para a terra, fez reinar o inferno'", escreveu. Ora, me pergunto se o sujeito realmente sabe o que é o cristianismo, ou mesmo se sabe o que a alegação de Popper representa.

O exemplo mais didático é o comunismo. O cristianismo nunca quis trazer o céu para a Terra, pois sempre disse que aqui é a Terra está aqui e que o céu está ali. Mas o comunismo, ao apagar o céu da História, quis trazer o paraíso para cá, e o resultado foram as tragédias protagonizadas desde Lenin até Fidel. O cristianismo nunca disse que o homem era perfeito, mas sempre ressaltou a sua imperfeição; já o comunismo quis criar um novo homem, perfeito, apesar de só ter conseguido eliminar vários homens velhos. E o mesmo caminho foi trilhado pelo nazismo. Esperava eu que um leitor de Feurbach soubesse bem disso, mas àquela altura o enigma já não era digno de soluções: era digno apenas de riso; aquele riso que quer dizer que todo aquele tempo perdido no enigma fora tempo jogado fora, e que já era chegada a hora de abandoná-lo.

E esse quase foi o fim de um episódio bizarro causado pelo que eu gostaria de chamar de ateísmo extraterrestre. Fosse esse o caso, essa postagem nem existiria, porque eu já havia jogado o enigma na lata do lixo. Mas hoje percebi que ele saiu de lá montado nas costas de uma formiga. E o curioso estava na essência: era apenas o retorno do cinismo e da desonestidade, que para a formiga já estavam pesados demais. Por isso, quis convidar o leitor a visitar a página de discussão e verificar, por conta própria, até onde as coisas chegam quando se dá asas à imbecilidade. Enquanto isso, planejarei ir ao banco receber meu pagamento.

12 de setembro de 2011

Hipátia

Ultimamente tenho encontrado várias pessoas cuja inocência me comove. E como poderia ser diferente? Elas têm um devoção tão sincera àquilo em que acreditam, que utilizam todos os artifícios possíveis para defender sua crença; às vezes, chegam ao ponto crítico de deixar sua devoção tomar o lugar da razão, o que, para uns, é sinal de uma feroz fidelidade, mas, para outros, de uma desprezível fraqueza. E essas pessoas que tanto têm me comovido ultimamente não são, ao contrário do que pensaria Nietzsche, pessoas religiosas; são, na verdade, pessoas iguais ao próprio Nietzsche: elas olham pela janela, veem o vizinho fazendo algo desagradável, mas não percebem que o que pensam ser uma janela é, na verdade, um espelho.

Nietzsche foi provavelmente o maior covarde que muita gente pensou ser corajoso. Se tudo que grita e faz barulho é sinônimo de coragem, Nietzsche seria corajoso, mas não mais que um babuíno: mas nesse caso estaríamos sendo injustos com os babuínos, pois eles são corajosos de verdade, apesar de sequer serem capazes de conceber a ideia de coragem. Rafiki não se deixou intimidar pelo tamanho de Simba, e aplicou-lhe um golpe na cabeça; enquanto Nietzsche, em semelhante situação, estaria pendurado no topo de uma árvore gritando sobre como Simba era covarde por evitar um confronto como o seu passado. Essa foi a coragem de Nietzsche: ele quis provocar um leão, mas nunca ousou descer da árvore. Chesterton me fez perceber isso quando o comparou a Joana d'Arc: "Ela não elogiou a luta, mas lutou".

Suspeito que o tipo de pessoa que vê alguma ousadia no pensamento nietzscheano é exatamente o tipo de pessoa que acredita, no segredo de seus pensamentos, ser mais ousada que seu velho vizinho, mesmo sem nunca tê-lo visto em outro lugar que não fosse o portão. O que é dramático nisso tudo é a inocência: ela acredita na fraqueza do vizinho com total devoção ao seu pensamento, mas não tem coragem de ir até o vizinho e convidá-lo para tomar um café. Isso porque durante o café surgiria a terrível possibilidade de se descobrir que o vizinho era um veterano de alguma guerra.

Isso descreve boa parte dos homens de hoje, e os ateístas não são exceção: são, na verdade, o exemplo perfeito de tudo que digo, por serem justamente os que gritam e se enfurecem com a covardia intelectual dos religiosos, sem nunca perceber que são igualmente covardes. Obviamente, nem todo ateísta é covarde nesse sentido, mas esse ateísta sabe que o mesmo vale para o religioso. Falo daquele ateísta que finge querer ajudar alguém recomendando um livro que ele pensa conter uma revelação fundamental acerca de alguma ideia ou evento, quando, na verdade, a única coisa que o livro revela é que seu autor e quem ousou recomendá-lo deveriam ler outros livros. Mais uma vez, Chesterton tinha algo a me ensinar: "Um bom romance nos diz a verdade sobre seu herói; mas um romance ruim nos diz a verdade sobre seu autor".

Para ser mais objetivo, desejo contestar, mais uma vez, a entediante recomendação dos ateístas que se julgam detentores de um conhecimento que o religioso sequer sabe onde encontrar. Eles dizem: "Se você estudasse, saberia que as coisas aconteceram dessa forma". O problema é que ele afirma algo que ainda não fez: ele não estudou. Isso fica muito claro quando falam, por exemplo, de Galileu ou da Idade Média. Se aquela preocupação com a verdade realmente existisse, descobririam que a verdade sobre Galileu está nas testemunhas de seu tempo, não nos acusadores que viriam séculos depois. Tomam Galileu como símbolo de algo que ele nunca aceitaria representar: uma hostilidade ao cristianismo baseado num cientificismo insustentável e sem sentido. Galileu rejeitaria instantaneamente tamanha tolice.

E presa na jaula das vítimas da intolerância católica, há outra notável figura que vez ou outra vem à mente do ignorante que gosta de sugerir ao seu vizinho que este vá estudar. Trata-se de Hipátia (ou Hipácia) de Alexandria, uma figura histórica que há um bom tempo planejava investigar. Para muitos, a história dela pode ser resumida de forma muito simples: uma bela e notável mulher, à frente do seu tempo, cuja dedicação ao conhecimento só não teve um desfecho digno por causa de uma pedra em seu caminho; e essa pedra era a religião. Mas, especialmente, uma religião: o cristianismo.

Acredito que, para o leitor, isso não soe como uma surpresa. Afinal, como todos nós bem sabemos, a religião sempre foi uma pedra no sapato da humanidade, mas nenhuma dessas pedras machucou tanto quanto a religião cristã. E como poderia, em determinado momento, ter sido diferente? Hipátia fora outro mártir do saber, uma vítima do fanatismo religioso, mais uma prova de que a religião sempre foi o que ainda hoje as pessoas insistem em não enxergar: uma doença a ser erradicada.



O trailer acima, do filme Agora (Alexandria, no Brasil), resume praticamente todos as crenças populares acerca de Hipátia, e adiciona a elas a fórmula hollywoodiana de encantar e comover as pessoas. Lemos, inclusive, que se trata de "uma história real"... Será? É isso que, a partir desse momento, nós iremos descobrir.

David B. Hart, autor do livro Atheist Delusions: The Christian Revolution and Its Fashionable Enemies, escreve: "Enquanto escrevo isso, os dois primeiros do que eu espero serem três suspiros teatralmente aborrecidos saíram de meus lábios [...]. A causa da minha miséria é o lançamento do filme Agora, de Alejandro Amenábar, que pretende ser uma descrição histórica do assassinato da filósofa Hipátia por uma multidão cristã no século V, e (de forma geral) de um alegado conflito que aconteceu no Mundo Antigo entre a ciência grega e a fé cristã [...]. Não que eu culpe completamente o Sr. Amenábar. A história que ele repete vem sendo divulgada já há alguns séculos, frequentemente por historiadores que parecem respeitáveis. A sua premissa é que os cristãos da Antiguidade Tardia eram uma horda brutal de estúpidos supersticiosos, que desprezavam a ciência e a filosofia, e frequentemente agiam para suprimir ambas, além de terem uma opinião particularmente ruim sobre as mulheres. [...] Num dia trágico de 391 d.C. os cristãos de Alexandria destruíram a Grande Biblioteca da cidade, queimando seus pergaminhos, aniquilando o conhecimento acumulado em séculos, e efetivamente inaugurando a 'Idade das Trevas'" (David B. Hart, The Perniciously Persistent Myths of Hypatia and the Great Library, em First Things).

Antes de lidar com o que é importante no filme, ele atenta para um detalhe, citando a historiadora Serafina Cuomo: "Há uma cena em que Hipátia fala da hipótese do heliocentrismo, que - para qualquer um familiarizado com o neoplatonismo ao qual ela era devota ou com o modelo cosmológico aristotélico-ptolomaico em que ela foi instruída - é mais que ridículo. Mas, novamente, esses pequenos toques "artísticos" são apenas adições menores que dificilmente importam para um quadro que já está tão grotescamente distorcido" (ibid.).

Hart publicou esse artigo em 2010, após o lançamento do filme. Mas já antes de ser lançado, alguns já se preocupavam com o seu possível conteúdo. Tim O'Neil escrevia, em 2009: "Parece que alguns mitos pseudo-históricos sobre a história da ciência estão prestes a levar um novo tiro no braço, graças ao novo filme Agora, do diretor chileno Alejandro Amenábar". Ele diz que, normalmente, estaria encantado por alguém estar produzindo um filme sobre o século V, já que não são poucas as histórias notáveis sobre aquele tempo turbulento e interessante. Confessa que estaria ainda mais encantado se o filme realmente parecesse com o século V, em vez de, por acontecer no Império Romano, assumir que todos precisavam usar togas e armaduras. Por fim, ressalta o prazer em ver no elenco a bela Rachel Weisz, como protagonista.

"Então, por que eu não estou encantado?" - escreve O'Neil. "Porque Amenábar escolheu escrever e dirigir um filme sobre a filósofa Hipátia e perpetuar alguns velhos mitos iluministas transformando-o em um conto sobre ciência vs. fundamentalismo". E aqui vem a parte que, temo eu, partirá o coração dos ateístas que poderiam pensar que essa postagem seria mera reprodução de artigos cristãos defendendo cegamente uma versão mais sutil de algo que, de fato, fora terrível: "Como um ateu, eu claramente não sou fã de fundamentalismo - mesmo do tipo de 1500 anos atrás (apesar de manifestações modernas tenderem a ser as preocupantes). E como um historiador da ciência amador, estou mais que feliz com a ideia de um filme que percebe a ideia de que, sim, havia tradição científica antes de Newton e Galileu. Mas Amenábar pegou a (na verdade, fascinante) história do que estava acontecendo na Alexandria no tempo de Hipátia e transformou em um cartoon, distorcendo a história no processo" (Tim O'Neil, Agora and Hypatia: Hollywood Strikes Again, em Armarium Magnum).

É verdade que eu sequer comecei a descrever o que, de fato, aconteceu em Alexandria ou, mais importante, o que aconteceu com Hipátia. Mas penso ser oportuno notar que esse filme é a "perfeita" expressão da imagem popular que se tem dos eventos nele descritos: talvez seja ainda mais exagerada. Dessa forma, contestar as ideias do filme equivale a contestar as noções populares, e eu espero que ao fim a verdadeira história possa ter sido compreendida por todos os leitores, e que esperançosamente ninguém que leia esta postagem repita as bobagens divulgadas sobre a nobre filósofa neoplatônica. Fiquei bastante desapontado quando, já há algum tempo, descobri que pouco havia sobre ela em português, e que o que há não vai além de repetição do faz de conta - faça uma rápida busca no Google e você entenderá o que digo.

"Independente de quão longe você queira levar a parábola de Amenábar, os contornos são claros: Hipátia foi uma cientista e racionalista; foi morta por fundamentalistas que se sentiam ameaçados pela ciência e pelo conhecimento, e isso marcou o início da Idade das Trevas" (ibid.). "Não que haja algo novo ou original sobre isso - há muito tempo Hipátia tem servido como mártir da ciência por aqueles com agendas que não tem nada a ver com a apresentação acurada da história", conclui O'Neil. Ele ainda pergunta: "Por que criar um filme com apenas um mito histórico, se você pode ter dois?". Agora começa com a destruição da segunda biblioteca de Alexandria por uma multidão cristã. O autor argumenta que ao menos o diretor fez seu dever de casa o suficiente para perceber que o declínio da Grande Biblioteca foi uma longa, demorada deterioração, em vez de um único catastrófico evento. "Mas ele ainda se prende ao mito de Gibbon de que uma multidão cristã fora, de alguma forma, responsável".

1.1 A Grande Biblioteca de Alexandria

Então, comecemos pela Grande Biblioteca de Alexandria. Eu achei particularmente irônico que um dos responsáveis por promover o mito de Edward Gibbon tenha sido Carl Sagan: mais que isso, ele foi o responsável por popularizar o mito. E a ironia está no fato de que, bem como Dawkins e outros ditos "defensores da razão", Sagan demonstrou ter um conhecimento histórico muito parecido com o do próprio Dawkins. Para ser mais direto, trata-se de um conhecimento nulo. Sagan fez em seus dias exatamente o que Dawkins continua fazendo hoje: propaganda. Mas a verdade é que, por mais engraçadas ou tocantes que algumas propagandas sejam, elas se destinam sempre a vender um produto. O problema é que o que determina a qualidade de um produto não é a sua propaganda. Imagino que a melhor maneira de se descobrir qual vinho é mais saboroso seja através da degustação, e por isso os amantes de um bom vinho se reúnem para degustar vinhos, em vez se juntarem para assistir propagandas sobre vinhos.

Sagan disse, em seu popular Cosmos, que "a suprema tragédia foi que, quando os cristãos vieram a queimar a Grande Biblioteca de Alexandria, não havia ninguém para pará-los"; isso após culpar São Cirilo pela morte de Hipátia. Assim, para encerrar o seu conto, ele desfere o golpe final: "E eles o fizeram um santo". Quão terrível, não é mesmo? O problema é que o vinho de Sagan pode parecer saboroso, mas, na verdade, é um produto barato e ruim, e por isso nenhum degustador o leva a sério: mas os leigos que costumam tomar vinhos baratos acham até um bom negócio. O efeito prático de um vinho ruim é a embriaguez precoce, porque nenhum tempo é perdido na satisfação do paladar: pois o leitor que aprende história em um livro de Sagan é aquele que não espera por um vinho de qualidade, seja por impaciência ou por descaso com o sabor, e inevitavelmente acaba bêbado; e o argumento desse leitor sobre qualquer evento da História é tão bem fundamentado quanto a explicação de um bêbado sobre os Diagramas de Feynman.

A Dra. Serafina Cuomo, da Universidade de Londres, autora do livro Technology and Culture in Greek and Roman Antiquity, escreve: "A Grande Biblioteca de Alexandria é um dos mais fascinantes mistérios da Antiguidade Tardia. Já entrara na história como algo amplamente lendário. Mesmo Estrabão, que morreu em 23 d.C., só a conhecia como uma fábula do passado. Nós sabemos que ela foi construída como um adjunto ao Grande Museu no Bruchion (o quarteirão real de Alexandria) na primeira metade terceiro século a.C. O seu tamanho, no entanto, é impossível definir. As estimativas em textos antigos variam absurdamente, entre 40.000 pergaminhos (para o Mundo Antigo, um número muito alto, mas ainda plausível) e 700.000 - que é um número quase certamente impossível. E, até agora, arqueólogos falharam em encontrar os restos de qualquer construção suficientemente grande para abrigar uma coleção de qualquer uma das escalas".

"Seja qual for o caso - ela continua -, várias fontes antigas relatam que a biblioteca foi destruída, completamente ou em parte, durante o ataque de Júlio César contra Pompeu, na Alexandria, em 47 ou 48 a.C. Se qualquer parte dela tivesse resistido no Bruchion, provavelmente teria perecido quando o museu foi destruído em 272 d.C., durante as guerras de reunificação imperial de Aureliano. Ela certamente já não existia no ano 391. Porém, havia uma biblioteca 'filha', que poderia estar localizada na área do Serapeu - o grande templo do deus híbrido greco-egípcio de Ptolomeu, Serápis -, posta lá ou no fim do terceiro século a.C., ou no fim do segundo século d.C., quando o Serapeu foi restaurado e expandido" (Serafina Cuomo, Hypatia and Agora Redux, Again, em Armarium Magnum). Ela diz que há boas evidências de que, em certo ponto, pergaminhos foram mantidos nas colunatas do complexo, e que o Serapeu, de fato, foi destruído no ano 391.

A destruição do Serapeu aconteceu  após uma série de tumultos entre comunidades pagãs e cristãs de Alexandria, que era uma das cidades mais violentas do Mundo Antigo, onde tumultos eram uma "reverenciada tradição civil", explica Cuomo (ibid.). Ela conta que uma série de reféns cristãos fora assassinada dentro do Serapeu, e isso levou o Imperador Teodósio a ordenar a demolição do complexo, apesar de ter desculpado os assassinos, enquanto os cristãos mortos foram considerados mártires. O complexo foi desmanchado por soldados romanos com a ajuda de um grupo de cristãos.

Uma versão diferente do ocorrido está na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Serapis), em que lemos que, na verdade, o complexo foi destruído a mando do bispo Teófilo, e que, inclusive, a biblioteca "filha" foi destruída nesse processo. Em um parêntese, lemos que a biblioteca "mãe" foi destruída por Júlio César, mas por acidente. É engraçado como os cristãos conseguiam serem os responsáveis por cada evento trágico da Antiguidade, e sempre intencionalmente, ao passo que, em outros casos, as coisas eram simplesmente acidentais. Mas, de fato, é muito mais engraçado que eles foram responsáveis por tragédias em que sequer ainda existiam ou se faziam presentes. Talvez eles estivessem cometendo essas tragédias em algum outro dos infinitos multiversos que nós não sabemos, igualmente, se existem.

Segundo a Dra. Cuomo, há boas descrições dos eventos da época, pagãs e cristãs, e absolutamente nenhuma delas faz a mínima sugestão de alguma destruição de uma grande coleção de livros. Nem mesmo Eunápio de Sardes - um estudioso pagão que desprezava os cristãos e teria lamentado a perda de textos preciosos - sugeriu algo do tipo. "Isso não é surpreendente, já que provavelmente não havia nenhum livro lá para ser destruído. O historiador pagão Amiano Marcelino, descrevendo o Serapeu não muito após a sua demolição, falou claramente das suas bibliotecas como algo que já não existia. A verdade sobre o assunto é que a lenda inteira foi produto da imaginação de Edward Gibbon, que de forma bizarra interpretou mal uma única frase do historiador cristão Osório, e disso espalhou uma história que não aparece em nenhum outro lugar em todo o corpo das fontes históricas antigas", ela conclui.

Não fossem as distorções de Amenábar mais do que suficientes, ao apresentar o filme em Cannes, ele disse, que não fosse pela destruição da biblioteca, hoje nós estaríamos vivendo em colônias em marte. Para ficar claro, o filme está jogando nas costas dos cristãos a responsabilidade pela destruição da biblioteca que resultou num atraso inimaginável do conhecimento. Não é uma atitude nobre e honesta? Além disso, uma campanha de promoção do filme na Alemanha afirmava que Hipátia foi quem descobriu o heliocentrismo. Parece que a desonestidade, quando misturada ao que chega parecer um ódio desesperado, é capaz de produzir as coisas mais absurdas de que se tem notícia; mas o pior é que as pessoas acreditam.

Em uma discussão sobre o artigo de O'Neil, foi observado que é preciso lembrar que trata-se apenas de um filme, não de um documentário. A isso, ele respondeu: "O problema é que uma das pessoas para quem você precisa lembrar que esse filme não é um documentário é Amenábar. É ele que está dizendo um número de coisas bastante estúpidas sobre a autenticidade histórica do filme. Os publicitários também precisam ser lembrados de que o filme não é um documentário. Eles o promoveram na Alemanha através de um vox populi em que perguntavam quem descobrira o heliocentrismo, e, então, 'revelavam' a 'verdade' de que fora Hipátia. As pessoas não leem livros de história e não verificam as coisas que veem em filmes: elas apenas acreditam. A maioria das pessoas se informa sobre história através da cultura popular, e é por isso que quando um filme como esse tem a sua história completamente equivocada vale a pena apontar as suas distorções" (Tim O'Neil, Hypatia and Agora Redux, Again, em Armarium Magnum).

1.2 Hipátia

Nesse ponto, podemos finalmente partir para a vida de Hipátia e tentar descobrir como fora a sua morte. A historiadora Maria Dzielska, autora do primeiro livro - e atualmente único - dedicado a buscar a Hipátia histórica, escreve: "Pergunte quem Hipátia foi e você provavelmente ouvirá que 'ela era aquela bela jovem filósofa pagã que foi feita em pedaços por monges (ou, mais comumente, por cristãos) na Alexandria, no ano 415'. Essa resposta conveniente seria baseada não nas fontes antigas, mas numa porção de ficção e literatura histórica... A maioria dessas obras apresentam Hipátia como uma vítima inocente do fanatismo do cristianismo nascente, e o seu assassinato como a abolição da liberdade de pesquisa, junto com os deuses gregos" (Maria Dzielska, Hypatia of Alexandria, pág. 1).

No último capítulo do livro Cosmos, Carl Sagan escreve: "Cirilo, o Arcebispo de Alexandria, a desprezava por ela ser próxima ao governador romano, e porque ela era um símbolo da ciência e do conhecimento, que eram amplamente identificados pela Igreja primitiva como paganismo. Sob grande perigo, ela continuou a ensinar e a publicar, até que, no ano 415, a caminho do trabalho, ela foi pega por um grupo de fanáticos da paróquia de Cirilo. Eles a arrancaram de sua carruagem, lhe rasgaram a roupa, e, armados com conchas de abalone, esfolaram a carne de seus ossos. Seus restos foram queimados, suas obras destruídas, seu nome esquecido. Cirilo tornou-se santo" (Carl Sagan, Cosmos, pág. 366). Devo dizer que até agora estou pensando se C.E.S. seria um bom nome para um vinho...

Enfim, comparemos isso ao que escrevera Gibbon em sua História do declínio e queda do Império Romano: "Em um dia fatal, na estação sagrada da Quaresma, Hipátia foi arrancada de sua carruagem, teve as roupas rasgadas e foi arrastada nua para uma igreja. Lá foi desumanamente massacrada pelas mãos de Pedro, o Leitor, e uma tropa de fanáticos selvagens sem misericórdia. A carne foi esfolada dos ossos com ostras afiadas, e os membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas". Vemos que Sagan está apenas transmitindo a mesma ideia com algumas palavras diferentes. E ele também sugere que, na altura da morte de Hipátia, a biblioteca de Alexandria ainda existia, e que seus "últimos restos foram queimados pouco depois da morte de Hipátia" (ibid.). O'Neil escreve que, "nas mãos de Sagan e tantos outros, a história do assassinato de Hipátia e da destruição da Grande Biblioteca são um narrativa cautelosa sobre o que pode acontecer se abaixarmos a guarda e permitir que grupos de fanáticos destruam os defensores da razão" (Tim O'Neil, Agora and Hypatia: Hollywood Strikes Again, em Armarium Magnum).

Robert Barron escreve: "Bem, Hipátia realmente foi uma filósofa e ela realmente foi morta por um grupo em 415, mas praticamente todo o resto da história que Gibbon, Sagan e Amenábar contam é falso". Um exemplo bastante simples refere-se à idade de Hipátia. Dzielska estima que ela tenha nascido por volta de 350 d.C., o que significa que, no ano de sua morte, estaria com 65 anos. O'Neil brinca que, por isso, o filme de Amenábar deveria ser protagonizado por Helen Mirren, em vez de Rachel Weisz. Além disso, o neoplatonismo possuía a ideia de perfeição, chamada de "O Bem", que no tempo de Hipátia, se identificava completamente com um Deus monoteísta em vários aspectos: e mesmo assim, em seu filme, Amenábar tenta passar a ideia de que ela era ateísta, ou que não possuía religião alguma, o que é altamente improvável. Ela também tinha amigos cristãos, tinha alunos cristãos e era bastante admirada por vários deles. O melhor exemplo é o bispo Sinésio, que a escreveu muitas cartas, e disse que ela era "sua mais reverenciada professora". Ele a descrevera como "aquela que legitimamente preside sobre os mistérios da filosofia" (R. H. Charles, The Letters of Synesius of Cyrene, em Armarium Magnum).

Sócrates, o Escolástico, também a elogiara: "Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Téon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu próprio tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia aos seus ouvintes, muitos dos quais vinham de longe receber os seus ensinamentos. [...] Com frequência ela aparecia em público na presença dos magistrados. E também não se sentia envergonhada em participar de uma assembleia de homens" (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII.15). E vários teólogos notáveis da época eram entusiastas do neoplatonismo, como Santo Agostinho e Santo Ambrósio. Isso significa que, dada a influência desses pensadores, as ideias de Hipátia dificilmente teriam sido vistas como perigosas pelos cristãos: se fossem, talvez os dois santos tivessem mais chances de acabar como hereges de que como santos.

"Então, se ela era tão amplamente admirada, e admirada e respeitada por cristãos instruídos, como ela veio a morrer pelas mãos de cristãos? E, mais importante, isso tinha alguma coisa a ver com os seus ensinamentos ou com o seu amor pela ciência?", pergunta O'Neil. A resposta, diz ele, está nos conflitos políticos do começo do quinto século em Alexandria. Mais especificamente, no conflito entre Cirilo, bispo de Alexandria, e Orestes, prefeito da cidade, também cristão, estudante e amigo de Hipátia. Segundo o relato de Sócrates, a disputa entre Cirilo e Orestes tem sua origem quando Orestes tortura até a morte um amigo de Cirilo, Hierax, acusado pela comunidade judaica de ter promovido inimizades contra os judeus. Em resposta, Cirilo ameaçou os judeus, ordenando que eles "desistissem de molestar os cristãos", e os judeus reagiram armando uma emboscada para os cristãos na Igreja de Alexandre, matando alguns deles. Cirilo retaliou os judeus fazendo com que sua tropa os expulsasse (ao menos a alguns deles) para fora da cidade.

Sócrates ainda relata que Cirilo tentou encontrar soluções amigáveis com o prefeito, mas que "Orestes recusou-se a ouvir avanços amigáveis". Após isso, "Cirilo estendeu em sua direção o Evangeliário, acreditando que o respeito pela religião o faria deixar de lado a sua resistência" (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII, 13). Ainda assim, Orestes recusou-se a se reconciliar com o bispo. No filme, há uma completa distorção do evento: Cirilo implicitamente condena Orestes, e não por ele apoiar os judeus, mas por estar sendo influenciado por Hipátia - acontecimento que não é citado em nenhuma fonte. Amenábar vai além, e retrata Cirilo lendo uma passagem da Bíblia em que Paulo condena que uma mulher ensine um homem, e demanda que Orestes se ajoelhe diante da Escritura. Orestes se recusa, e o foco é desviado para Hipátia. O detalhe é que a cena é quase completamente inventada. O'Neil explica que, apesar de o filme mostrar que a retaliação de Cirilo fora causada pela tortura e morte de seu amigo, e pela disputa política entre ele e Orestes, Amenábar inventa uma cena em que Cirilo condena Hipátia por ser uma mulher que ensina homens.

Como escreve Steven Greydanus, "Agora é uma obra de hagiografia, e, nesse caso, de anti-hagiografia. Entre suas pretensões está a ideia de que Hipátia, a celebrada filósofa neoplatônica e matemática, merece ser venerada, e também que Cirilo de Alexandria, santo e doutor da Igreja, não merece" (Steven Greydanus, A History of Violence: Agora, Hypatia and Enlightenment Mythology, em Decent Films). Diante das informações apresentadas até aqui, suponho que já esteja claro que o objetivo do filme não é contar uma "história real", mas alimentar um ódio cultural pelo cristianismo que já há muito tempo virou moda. Cada detalhe do filme busca reforçar estereótipos anticristãos, e cada detalhe da história é manipulado para servir a esse propósito. Nesse momento, que chegamos ao evento da morte de Hipátia, eu espero que isso já esteja suficientemente claro até para o mais teimoso dos céticos sobre a verdade do caso.

Tanto Tim O'Neil, historiador ateísta, quanto Robert Barron, padre católico, concordam que, tenha sido por acaso ou por escolha, o drama de Hipátia, que sempre esteve envolvida com questões civis, foi estar no meio de uma disputa política entre duas grandes forças de Alexandria. A sua morte foi resultado de um ato inconsequente, não de algo planejado ou ordenado. O'Neil esclarece que a tensão começou quando um grupo de monges vindos do deserto chegou a Alexandria para suportar Cirilo, o que resultou num conflito em que Orestes fora acertado por uma pedra, na cabeça. Orestes, não aceitando o ocorrido, capturou o responsável e o submeteu à tortura, o que o levou à morte. Enfurecidos, os seguidores de Cirilo (com ou sem o seu conhecimento), encontraram Hipátia, seguidora política de Orestes, e se vingaram torturando-a até a morte.

As fontes relatam que o episódio foi visto com horror e aversão pelos cristãos, e Sócrates inclusive se manifestou sobre o acontecido: "[Hipátia] caiu vítima do ressentimento político que no tempo prevalecia". Ele descreve, então, os momentos com os quais todos estão familiarizados, da carruagem até a queimada dos restos de Hipátia. "Certamente nada pode ser considerado mais distante do espírito do cristianismo que a concessão de massacres, lutas, e eventos desse tipo", encerra (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII.15). Ele ainda argumenta que vários cristãos acreditavam na calúnia de que ela era a responsável por evitar a conciliação entre Cirilo e Orestes.

À luz desses relatos, é impossível se criar qualquer plano de fundo razoável que justifique a velha crença de que a morte de Hipátia, de alguma forma, fora uma questão de razão contra fundamentalismo religioso. A bela e jovem filósofa retratada como mártir da ciência não é, sob nenhum desses pontos e segundo nenhuma fonte antiga, sustentável. Mas queria eu acreditar que um dia chegará ao conhecimento da maioria dos que a usam como arma anticristã metade dessas informações. E, se chegarem, temo que não cause muita mudança. Já há algum tempo eu tenho insistido em investigar os casos mais polêmicos envolvendo a História da Igreja, e após cada investigação ter terminado eu descubro que praticamente tudo que pregam contra ela é propaganda barata ou, na maioria das vezes, objeções meramente tolas. Mas nunca fiz isso por estar convicto de que mudaria a cabeça de sequer uma pessoa, mas porque a verdade é como ar puro, e precisa estar presente mesmo em lugares desabitados.

Na primeira oportunidade que ouvi sobre Hipátia, recebi exatamente a descrição tão propagada e falsa que aqui tentei combater; e, naquela época, eu não tinha ideia de quem era essa mulher ou se ela merecia a minha admiração. Agora, posso dizer tranquilamente que ela fora uma grande mulher, uma mulher que toda a humanidade merece conhecer. E seria muito mais digno se conhecessem a verdadeira, que é muito mais admirável que a inventada. Mas acredito que as pessoas ainda continuarão a ver em Hipátia uma utilidade na tragédia de sua morte; mas eu finalmente estou livre para ver nela a beleza da aventura de sua vida

David Hart encerra dizendo que ela "foi vítima do que se pode chamar contradição social - uma com que ciência, filosofia ou religião da época nunca tiveram nada a ver". O'Neil encerra mostrando que o filme foi bem recebido e que recebera críticas bastante entusiastas, e que ironicamente o filme Agora mostra quem são os verdadeiros fundamentalistas. "Te faz pensar quem, de fato, são os verdadeiros inimigos da razão", conclui. Maria Dzielska resume Hipátia da seguinte maneira: uma mulher devota ao saber como caminho para o divino, não-pagã e eventualmente simpatizante do cristianismo, que morreu por razões políticas, no contexto de guerras pelo poder.

"Muito provavelmente ela não era uma filósofa original, criativa, mas apenas uma grande erudita do pensamento platônico clássico e tardio. A filosofia era, acima de tudo, o seu caminho de vida para a assimilação do divino. Transportava a visão neoplatônica do mundo e passou-a aos seus discípulos, ensinando-lhes como alcançar altos níveis de virtude ética, e chegar mais perto da perfeição da vida divina. [...] Estava liberta de qualquer inimizade em relação ao cristianismo. Fosse qual fosse o politeísmo que praticava, provinha mais de um sentimento em relação à magnífica tradição grega do que da devoção. O seu helenismo era de natureza cultural e não religiosa. Era a verdadeira filha da grande cultura grega de Alexandria" (Maria Dzielska, O Espelho de Hipátia, em Ípsilon). Enquanto Amenábar viu na morte de Hipátia o marco que iniciaria a "Idade das Trevas", Dzielska argumenta que "a vida intelectual na cidade tornou-se singularmente vigorosa, com toda uma dinastia acadêmica, numerosos filósofos do neoplatonismo religioso, comentadores de Aristóteles, retóricos e gramáticos" (ibid.).

É possível imaginar que a distorção dolorosa e diária da História seguirá implacável pelas caldas da cultura, mas essa dor terrível continuará a afetar apenas aqueles que preferem a embriaguez frequente da ignorância à degustação moderada da sensatez. Essa postagem é um convite para que o leitor duvide não só do caso de Hipátia, mas de todos os casos que têm sido usados para atacar o cristianismo. Que vocês desçam de suas árvores e encararem o leão.


Referências e recomendações:
  1. Hypatia of Alexandria
  2. Saint Cyril of Alexandria
  3. The Mysterious Fate of the Great Library of Alexandria
  4. The Perniciously Persistent Myths of Hypatia and the Great Library
  5. Hollywood Strikes Again
  6. Agora Redux
  7. Agora Redux, Again
  8. A History of Violence: Agora, Hypatia and Enlightenment Mythology
  9. The Dangerous Silliness of the new movie Agora
  10. Fr. Robert Barron on "Agora"
  11. Beware of Agora
  12. Serafina Cuomo
  13. O Espelho de Hipátia
  14. Socrates
  15. Synesius Letters
Notas:
  1. Apesar de tratar-se de uma postagem extensa, ainda há muita informação que eu não traduzi. Portanto, caso surjam dúvidas posteriores, compartilhem nos comentários, e eu tentarei encontrar nas referências uma forma de esclarecê-las.

3 de setembro de 2011

Challenge Accepted!

O vlogger ateísta Yuri Grecco propôs um desafio aos cristãos (confira no vídeo), em que nos convida a falar sobre a relação entre o cristianismo e a razão. Apesar de não ter nenhuma garantia de que essa resposta chegará ao conhecimento dele, resolvi aceitar o desafio, motivado também pelo fato de o vídeo lidar com a História da Igreja, um dos meus temas favoritos. Eu não estou familiarizado com outros vídeos em que ele possivelmente tenha falado da Igreja, nem sei a quem se dirige o vídeo "A Igreja Católica era boazinha", portanto, esta postagem será dedicada ao conteúdo abordado nesse vídeo, exclusivamente.


Me permitam considerar uma ideia geral, para que questões específicas sejam tratadas à medida que se avança nessa ideia. Comecemos, então, com a relação entre a Igreja e a ciência e como esse cenário fora afetado pelo background da Inquisição. Aqueles que já visitaram esse blog sabem que esses são dois dos temas aos quais mais dei atenção em minhas postagens, e a compreensão dessa resposta será melhor se lida com o auxílio dessas postagens: 1) Igreja e ciência; e 2) Revisão sobre a Terra Plana, Santa Inquisição e o caso Galileu.

A ideia do autor do vídeo pode ser resumida da seguinte forma: 1) a Igreja foi contra o avanço do conhecimento científico; 2) a Igreja se opunha a qualquer ideia contrária aos seus dogmas, e muitas vezes essas ideias opostas aos dogmas da Igreja manifestavam-se através da ciência; 3) Não se pode dizer que a Igreja apoiava a ciência; e 4) para os que manifestavam ideias científicas contrárias aos dogmas da Igreja, havia determinada punição. Não será necessário, por hora, que nos aprofundemos em detalhes da Inquisição, uma vez que o caso Galileu pode ser bem compreendido sem esse aprofundamento. Além disso, ficará claro aos que assistiram ao vídeo que a minha exposição das ideias do autor não são transcrições exatas, mas adapatações que, de modo algum, pretendem manipular palavras ou passar ideias falsas que não são do autor. É recomendada, portanto, a vizualição integral do vídeo, para que qualquer falha minha de interpretação não cause problemas.

É fácil entender que, quando se fala de História, deve-se buscar o consenso entre os acadêmicos, os especialistas, os historiadores. Porém, me parece inevitável que surja na mente daqueles que se interessam por temas controversos, a seguinte questão: não estariam os autores católicos, ao professarem qualquer argumento em defesa da Igreja, fazendo-o mais por buscarem retratá-la bem, que por qualquer compromisso com os fatos? Isso certamente dificultaria qualquer conclusão acerca de determinados episódios.

Há, por isso, duas considerações a se fazer, antes de mais nada: a primeira, é que um autor não deve ser descartado por suas convicções pessoais. Imaginemos que um alemão e um francês discutirão o seguinte tópico: "Qual país é melhor: a Alemanha ou a França?". Seria razoável suspeitar que algum deles acabasse, hora ou outra, fornecendo uma defesa mais puramente patriótica de seu país, que uma baseada estritamente nos fatos sobre os dois países. Mas isso não nos daria o direito de dizer: "Que venha, então, um inglês e decida a questão"; a grande tristeza do alemão e do francês seria descobrir que, na verdade, o inglês não sabia nada sobre a Alemanha nem sobre a França, e isso só serviria de argumento contra a Inglaterra. Mas é verdade que o inglês poderia saber mais sobre Alemanha e sobre a França do que sabiam o alemão e o francês sobre elas: o grande impasse seria saber se um inglês seria capaz de decidir a favor da França em alguma questão.

O que quero dizer é que, inevitavelmente, corremos o risco de uma pessoa agir mais de forma emocional e deixar a objetividade de lado. Mas isso é ser humano, e bem como o inglês poderia optar pela Alemanha movido por seu ódio cultural à França, o francês poderia muito bem fazer a mesma coisa pelo mesmo motivo. Assim, se o Papa diz algo em defesa do catolicismo, deve-se buscar entender se a realidade sustenta aquilo que ele afirma, em vez de se usar aquilo em que ele acredita para descredibilizar a sua defesa. É muito mais sensato confiar em quem defende alguma coisa porque acredita naquela coisa, do que confiar em quem acusa alguma coisa pelo fato de nela não acreditar. Isso vale para todos, e é por isso que, se alguém quer entender bem alguma coisa, deve buscar entendê-la como entendem aqueles que nela acreditam. Não se aprende sobre a Igreja Católica apenas dando ouvidos a Andrew Dickson White, pois ele ensinaria algo que nada tem a ver com a Igreja Católica, e me parece razoável que o ateísta suspeitará que não se aprende sobre o ateísmo dando ouvidos a algum padre de sua cidade; certamente, se houvesse algum hipotético curioso fazendo-lhe perguntas sobre o ateísmo, ele preferiria recomendar Bertrand Russell.

Mas, para que não se tenha a impressão errada do que quero dizer, não estou dizendo que não se deve ouvir o que Dickson White tinha a dizer sobre a Igreja, ou que um padre não pode dizer algo sobre o ateísmo: o que estou dizendo é que aprender sobre alguma coisa requer dar ouvidos tanto a quem a ama e quer preservá-la quanto a quem a odeia e quer destrui-la, pois somente assim o curioso poderá confrontar os dois extremos e concluir se quem ama ou odeia aquela coisa, o faz por enxergar nela um fato amável ou odiável, ou se ama ou odeia aquela coisa apesar dos fatos amáveis ou odiáveis sobre ela. Pois é verdade que há muitos cristãos que creem no cristianismo por pura covardia de questionar-se e descobrir algo que os assombre; mas também é verdade que há muitos que não creem no cristianismo por pura covardia de dar a ele uma chance e não mais ser capaz de negá-lo honestamente.

Eu espero ter sido claro, mas peço desculpas se não fui. E depois de todas essas observações, falta a segunda consideração: assim como o francês desconfia do julgamento que o inglês faz sobre a França, também o ateísta pode desconfiar do julgamento que o católico faz sobre a Igreja Católica; mas imaginem a cara do francês ao descobrir que o inglês acabara de escolher a França? Suspeito que até o alemão iria querer saber o que há na França de tão especial. Digo, pois, que no caso da Igreja Católica, para a felicidade do francês, não é só com a França que ele pode contar, mas com a Inglaterra, com a Escócia, e com a Itália. O ateísta pode e deve desconfiar do que os católicos tem a dizer da Igreja Católica, mas que tal ouvir o que os judeus tem a dizer sobre ela, ou os protestantes, ou os próprios ateus? Isso é construir o consenso histórico, e é assim que se descobre se há um fato amável, ou um amor que ignora os fatos.

Feita essa introdução, lidemos com as quatro ideias do autor do vídeo. Eu serei justo: eu não esperaria ouvir nem mesmo de muitos católicos qualquer abordagem diferente àquela exposta por ele. O motivo é simples: todos nós, católicos, agnósticos ou meros jogadores de poker frequentamos as mesmas escolas; e tendo eu passado por lá, como é natural de se esperar, sei bem o que os professores ensinam. Porém, o que os professores ensinam não necessariamente é verdadeiro, e pode-se pensar em inúmeros exemplos que demonstram isso: o professor marxista ensinará que a teoria do valor-trabalho de Marx está correta, ao passo que o professor capitalista ensinará que a teoria está errada. Assim, o aluno que nunca ouviu o que o professor capitalista tinha a dizer sobre a teoria de Marx crescerá sem a mínima preocupação em sequer desconfiar que Marx estava errado, e o aluno que nunca ouviu o que o professor marxista tinha a dizer sobre a mesma teoria crescerá sem a mínima preocupação em sequer desconfiar que Marx poderia estar certo.

Nada disso significa, no entanto, que ambos os professores estejam certos: é até mais fácil acreditar que ambos estão errados. O que quero dizer é que, assim como no colégio de freiras se ensinará que a Igreja foi boa e amável através dos séculos, porque as freiras acreditam nessa bondade e amor da Igreja, também a professora gramsciana da escola comum poderá muito bem ensinar que a Igreja foi ruim e desprezível, porque ela acredita sinceramente na maldade da Igreja. O grande problema é que menos pessoas vão aos colégicos de freiras, e isso explica o fato de mais pessoas pensarem na Idade Média como "Idade das Trevas" do que como "Idade da Luz". Mas o fato de mais pessoas acreditarem em algo não o torna verdadeiro, o os ateus sentem isso quando ouvem a tola recomendação de que se deve crer em Deus porque a maioria das pessoas acredita em Deus.

Digo isso para que se possa entender que determinado conhecimento padrão não implica no conhecimento de um fato, mas meramente no que se acredita ser um fato. Mas descobrir se aquilo realmente é um fato requer cavar mais fundo do que a ferramenta do conhecimento padrão nos permite cavar. É por isso que as pessoas comuns costumam conhecer alguns fatos, mas sempre se impressionam ao descobrir que estavam equivocadas sobre vários outros.

Entender se o cristianismo foi contra o avanço do conhecimento científico é algo extremamente fácil, ao contrário do que se possa pensar; e o mais incrível é que a grande "prova" dessa hostilidade cristã à ciência é, na maioria das vezes, o caso Galileu. Talvez por isso Yuri Grecco o tenha fornecido como único exemplo da "óbvia inimizade entre Igreja e ciência". Mas ele nos diz algo importante: que a Igreja não era contra a ciência especificamente, mas a qualquer declaração científica que fosse contra seus dogmas. O que eu farei agora é demonstrar que esse definitivamente não foi o caso.

A primeira falha em utilizar o caso Galileu como uma prova de que a Igreja se opunha e punia quem de seus dogmas discordasse, relaciona-se ao fato de que as afirmações científicas de Galileu em nada contradiziam os aspectos fundamentais da fé católica. Pelo contrário, beneficiava e confirmava ideias defendidas desde Santo Agostinho. Francesco Agnoli explica em detalhes: "As primeiras descobertas que [Galileu] fez tinham a ver com a escabrosidade da Lua: o fato que a Lua tinha algumas irregularidades [...]. Depois, descobriu que o Sol também estava destinado a se consumir, tinha algumas manchas, era imperfeito. Uma descoberta desse tipo alarmava o pensamento pagão - aristotélico e platônico -, mas certamente não o pensamento cristão". Ele descreve o motivo: "Estamos na época em que, depois do humanismo, ressurgem os pensadores - o pensamento filosófico grego - que viam nos planetas entidades divinas: lisas, perfeitas, cristalinas, imortais; a famosa quinta essência na qual estariam permanentemente os planetas. Essa visão o mundo cristão tinha herdado, mas não era uma visão sua. Aliás, podemos dizer que era uma visão essencialmente anti-cristã; essencialmente pagã, panteísta. De fato, uma das consequências deste modo de ver os planetas era a astrologia. Pois, como os planetas eram superiores à Terra, por serem também divindades, eram também capazes de influenciar a liberdade do homem".

Agnoli lembra que Santo Agostinho condenara tais posições, não de um ponto de vista científico, mas filosófico. Para o bispo de Hipona, os astros eram criaturas de Deus, e dessa forma não podiam ser divinos. Assim, também não poderiam controlar a liberdade do homem. "Esse é o plano de fundo em que se deve inserir a descoberta de Galileu", conclui o autor. Cesare Cremonini, filósofo aristotélico, recusou-se a concordar com a descoberta de Galileu, alegando que o telescópio falseava a vista, e que não se podia contradizer o pensamento de Aristóteles.

Galileu entende que seus companheiros cientistas não estavam dispostos a abandonar a autoridade de Aristóteles. Por isso, a única alternativa era recorrer à outra grande autoridade científica da época: o Colégio Romano Jesuíta. Ali, o famoso matemático Cristóvão Clávio reconhece que Galileu tem razão - "Phoebus habet maculas": o Sol possui manchas. Do ponto de vista teológico, era uma descoberta perfeitamente aceitável, e é justamente o Colégio Romano Jesuíta que concede a Galileu um título honoris causa diante de toda a comunidade: e é nesse momento que Galileu se torna o cientista mais famoso do mundo. Isso acontece em 1610, e só em 1612 que Galileu se manifestará, pela primeira vez em impressão, em favor do sistema copernicano.

Em minha postagem original sobre o caso, lemos que Galileu acreditava no Sistema Heliocêntrico, e isto não lhe trouxe problema algum. Recebeu uma carta de congratulações sobre seu escrito referente ao Heliocentrismo (História e demonstrações em torno das manchas solares e dos seus acidentes), do futuro Papa Urbano VIII, então cardeal Maffeo Barberini. A Igreja argumentava que o modelo copernicano estava correto como modelo teórico, mas ainda carecia de ser provado como verdade literal. Mesmo após detectar crateras na Lua e notar o movimento das luas de Júpiter, Galileu ainda era incapaz de refutar o Sistema Ptolomaico ou provar o de Copérnico.

Precisamente nesse ponto precisamos lembrar que, em seu vídeo, Yuri diz que Galileu foi forçado a retirar o que disse mesmo estando certo. Bem, quanto a isso, cabe algumas observações. Acredito que o vlogger saiba que, para que um argumento seja válido, tanto as premissas quanto a conclusão precisam estar corretas. Galileu podia ter, de certo modo, a conclusão correta; mas suas premissas eram incorretas. Agora, convido o leitor a pensar que a Igreja é a França, e que o autor que citarei é um inglês. Obviamente, o inglês estará equivocado sobre a maioria de suas declarações sobre a França, mas atentem para as seguintes citações do físico brasileiro Marcelo Gleiser.

"Os problemas iniciais de Galileu vieram principalmente do meio acadêmico, incitados por professores de filosofia de várias universidades italianas, cegamente obedientes à doutrina aristotélica. Se adicionarmos diferenças de opinião ao estilo extremamente arrogante e agressivo de Galileu, certamente o resultado final não poderia ser uma reconciliação muito amistosa. [...] Convencido por suas notáveis descobertas astronômicas, Galileu declarou que o modelo ptolomaico do Universo era insustentável. Motivado por sua enorme ambição pessoal e por uma sincera dedicação à Igreja, Galileu nomeou-se a nova estrela guia da Igreja, o único homem capaz de explicar para as autoridades eclesiásticas qual era o verdadeiro arranjo dos céus, mesmo que este contrariasse a interpretação oficial das escrituras sagradas. Galileu queria não só expor publicamente a estupidez dos professores de filosofia (ele com freqüência usava a palavra estúpido ao referir-se aos aristotélicos), como também explicar aos teólogos cristãos como interpretar as escrituras sagradas" (Marcelo Gleiser, A Dança do Universo, pág. 137)

Mais à frente, Gleiser discorre sobre os motivos que levaram Galileu a se arriscar tanto em sua tentativa de defender o modelo copernicano não apenas como teoria, como recomendara-lhe o cardeal Roberto Belarmino, que disse: "Se houvesse uma verdadeira prova de que [...] o Sol não gira em torno da Terra, mas a Terra em torno do Sol, então deveríamos agir com grande circunspecção ao explicar passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário, e declarar que não as havíamos entendido, em vez de declarar como falsa uma opinião que se mostra verdadeira. Mas eu mesmo não devo acreditar que existam tais provas enquanto não me sejam mostradas" (James Brodrick, The Life and Work of Blessed of Robert Francis Cardinal Bellarmine, vol. 2, pág. 359). Gleiser escreve: "Podemos apenas especular por que Galileu resolveu se arriscar tanto. Talvez, confiando demasiadamente em suas habilidades intelectuais, ele achasse que poderia provar que seus argumentos eram de fato irrefutáveis. Ele estava acostumado a derrotar e humilhar seus adversários em disputas orais. Talvez realmente acreditasse em sua missão de salvador da Igreja, o mensageiro das estrelas trazendo a nova visão de mundo para as autoridades eclesiásticas. Ou talvez arrogância e devoção à Igreja se misturassem na mente de Galileu" (Marcelo Gleiser, A dança do Universo, pág. 149).

Nesse momento, Gleiser descreve a tragédia que talvez só não emocionou Yuri Grecco por não tê-lo convencido: "Galileu não foi a Roma de mãos vazias. Ele acreditava ter encontrado a “prova” do movimento da Terra, que Belarmino exigira como condição necessária para a aceitação da hipótese copernicana. A prova era baseada em sua teoria das marés. A idéia era simples, mas completamente errada" (ibid.). Aliás, penso que A Dança do Universo seja uma leitura que muito agradaria ao autor do vlog Eu, Ateu, uma vez que muitos de seus preconceitos sobre a Igreja Católica são explicitamente compartilhadas por Gleiser. No meu caso, não foi tão prazerosa nesse sentido, mas muito me alegrou quando eu lembrei de vestir a camiseta francesa, e percebi que suas palavras eram até agradáveis, já que vinham de alguém que nasceu na Inglaterra.

Podemos melhorar este passeio pelas ruas que sediaram a popular, mas aparentemente não verdadeira, guerra entre fé e ciência, lembrando que o heliocentrismo só veio a ser comprovado experimentalmente em 1851, com o pêndulo de Foucault, mais de duzentos anos depois da morte de Galileu. Acho engraçado que um parágrafo que eu escrevi há quase um ano encaixe tão bem a esta postagem, mas talvez eu apenas veja graça em tudo, o que certamente é o caso: "Aceitar o Modelo Heliocêntrico, naquela altura, seria como se, hoje, todos os darwinistas passassem, sem mais nem menos, a admitir o Design Inteligente. Os mesmos cientistas que hora ou outra apontam a 'intolerância' contra Galileu, seriam os mesmos a repreendê-lo sem que as provas suficientes existissem. É o que fazem com o Design Inteligente, porque não há motivos para abandonar o darwinismo, e não se sabe se haverá. O fato é que a Igreja agiu corretamente, respeitando a ciência da maneira que ela precisa ser respeitada: com base nas evidências. Se a paralaxe e a rotação da Terra foram descobertas mais de cem anos após Galileu, como seria sensato e científico considerá-lo correto?". Aliás, lembremos que a Paralaxe Estelar só foi detectada em 1838, por Friedrich Wilhelm Bessel.

Ainda recomendaria, novamente e para fim de qualquer dúvida, a postagem dedicada especificamente ao caso Galileu, já listada no início dessa postagem. Mas acredito que, diante do exposto até aqui, só mesmo se algum tipo de fé ateísta baseada em algo que não pode ser a Ciência e nem pode ser a História brotasse no coração dos que se recusam a acreditar que o conflito entre fé e ciência no caso Galileu é tão real quanto o conflito entre fé e ciência no caso de Gregor Mendel ou Johannes Kepler.

Eu poderia, se quisesse e não temesse que essa postagem venha a acabar demasiadamente extensa, recomendar, outra vez, também, a leitura da postagem ainda mais extensa sobre Igreja e ciência, pois imagino que o interesse pela verdade seja mais motivador que a cruel intolerância do tédio. Mas meu desafio está longe do fim, temo comunicá-los: agora preciso lidar com as observações feitas pelo vlogger Yuri acerca da Inquisição. E, pelo fato de eu também já ter escrito tratando especificamente o caso da Inquisição, tentarei preocupar-me apenas com a ideia do secular na Idade Média, que parece quase ter enlouquecido o nosso desafiador.

Contudo, é muito mais simples do que aparenta. Toda a confusão se explica pela aparente suposição de que o secularismo na Idade Média possa ser, de algum modo, comparado ao secularismo do século XXI; basicamente, é comparar a Europa conhecida como "Cristandade" à realidade laicista conhecida como "Setembro de 2011". Historicamente, a Inquisição realmente entregava os condenados à pena de morte ao braço secular. O que acontecia era que o braço secular estava tão convencido de que o herege era digno daquela pena quanto a Igreja estava. O que pode surpreender é que muitas vezes estava até mais, e precisava a Igreja puxar os freios de uma carroça que poderia atropelar muitos inocentes.

Foi assim com as bruxas, e poderia ter sido assim com muito outros. Talvez a palavra de um historiador possa trazer uma luz definitiva a todo um contexto que eu não estou apto a explicar: "O certo é que, ao contrário do que comumente se crê, as perseguições de bruxas não se deveram a iniciativa da Igreja, foram manifestação de uma crença popular, cuja bem documentada existência se remonta a mais remota antiguidade [...]. Não foi a Inquisição que iniciou a perseguição às bruxas, senão a justiça civil nos Alpes e na Croácia [...]. A inquisição podia haver causado um holocausto de bruxas nos países católicos do Mediterrâneo, mas a história demonstra algo muito diferente: a Inquisição foi, aqui, a salvação de milhares de pessoas acusadas de um crime impossível" (Gustav Henningsen, La inquisición y las brujas, pág. 568-94). E se alguém se engana pensando que não se pode concluir algo sobre a Inquisição por ausência de documentos, saibam que, na verdade, existe abundância de documentos.

Pensar no homem secular da Idade Média como se pensa no homem secular de hoje é um equívoco comum aos que julgam o passado com os olhos vesgos da modernidade. Muito mais justo seria o homem da Idade Média reclamar da tolice do nosso tempo, isto é, se ele soubesse que essa tolice viria a existir, do que o homem de nosso tempo reclamar da tolice do homem da Idade Média, que creio firmemente não ter sido tolo.

A ilustração oferecida por Yuri me parece completamente equivocada, principalmente no sentido de retratar a Igreja como uma máquina que elimina tudo que se levanta em sua frente. A História é capaz de demonstrar que a Igreja nunca foi esse tipo de máquina que derruba o que está em pé em seu caminho; pelo contrário, se é que foi algum tipo de máquina, foi aquela que levantava quem estava caído aos seus pés, e isso é muito fácil verificar. Foi a Igreja que, num mundo caracterizado pela indiferença e brutalidade herdadas do Império Romano teve a doçura de limpar o sangue dos feridos estando com os próprios braços mutilados. É possível imaginar que Nero, sendo o louco que era, ria do cristão que sobrevivia sem praticamente nenhuma força humana para continuar a viver: mas é precisamente essa mesma cena que me faz imaginar o quanto o mesmo Nero gritava de raiva ao notar que, milagrosamente, o cristão ainda vivia; vivia e ajudava outros a viver.

A Igreja sempre foi o exemplo perfeito do amor materno através dos séculos: vez ou outra se enfurecia com as artes dos seus filhos, mas até nesses momentos lhes expressara o mais terno amor. E não só tratava bem os seus filhos, mas também preparava todos os tipos de guloseimas quando os filhos convidavam um amigo para brincar. Ela cuidou do seu filho doente, por amor, e cuidou do filho doente de outra pessoa por compaixão. Se alguém se dedicar a passear no tempo, vai descobrir que o riso de desdém que minhas palavras provocam são explicadas pela ausência de uma emoção sublime que a ignorância não permite sentir.

Creio não haver utilidade nenhuma em uma declaração minha revelando que eu fui esse alguém rindo de uma História que eu não queria conhecer, mas pensava conhecer como ninguém. Afinal, de que vale eu dizer que era ateu, se dezenas de milhares de ateus fornecerão a óbvia réplica de que já foram cristãos? Tudo isso eu posso dizer, e hora eu posso provocar espirrando ironia, hora eu posso despertar carinho explicando a beleza de um drama. Mas uma coisa eu devo fazer ignorando a minha chatice e ignorando mais ainda a minha emoção. E esse é o meu desafio final: explicar o que o cristianismo tem a ver com a razão.

Irei, antes de mais nada, corrigir os equívocos do autor. Ele sugere que o cristianismo não é baseado na razão porque a maior virtude do cristianismo é a fé. A fé é, sim, uma das três grandes virtudes do cristianismo, mas São Paulo nos diz que a maior delas é o amor. Mas, mesmo que a fé fosse a maior virtude cristã, ela altera a possibilidade de o cristianismo ser baseado na razão tanto quanto a loucura de Chuck Noland altera o fato de o sr. Wilson ser uma bola de vôlei.

Razão é um fundamento, é uma ferramenta, é o que nos diferencia de outros animais. Algo é razoável à medida que respeita a nossa humanidade, que é melhor expressa na singularidade do nosso intelecto. A razão deve ser firme como uma pedra e flexível como nossos polegares, sem nunca pedir do homem o que só poderia ser aceito pelo peixe, que tem o cérebro muito pequeno. Firme porque deve ser bem estruturada na solidez do pensamento; flexível porque deve ser sagaz como o reflexo. Esse é o paradoxo da razão, e a fé não lhe pesa de nenhum lado.

Se eu tenho bons motivos para acreditar que uma queda de um prédio pode me matar, a razão me orientará a não pular de nenhum prédio, mas também me orientará a não pular de qualquer lugar alto, pois o efeito prático é o mesmo. A razão é firme a ponto de me fazer temer o topo do prédio, mas flexível a ponto de me permitir associar o topo do prédio a milhares de outros lugares que não são prédios, ainda que eu tenha vindo de uma civilizalção retrógrada cujas construções nunca me permitiram saber o que é uma montanha.

A fé nada tem com isso: pular do topo de um prédio esperando criar asas e voar não é ter fé maior que a de todos os homens: é simplesmente ser mais burro que todos os homens. Fé com razão pode não ser o caso de algumas religiões, mas a fé razoável é o caso de muitas delas, não só do cristianismo. A diferença pode ser que o cristianismo seja razoável demais, o que explica facilmente a tendência de ser entendido como louco por muitas pessoas desse tempo. Ora, esse é o único tempo em que se diz que o gênio é da loucura amigo íntimo. Chamar o cristianismo de louco me parece um divertido elogio inconsciente.

Mas o fato de o cristianismo ser rozoável está ligado ao fato crucial de o homem ser racional. Se os escravos de tempos atrás não bebiam leite chupando manga, como dizem, não o faziam por serem tolos, mas por serem espertos demais: era melhor confiar no que diziam e permanecer vivos, que desafiar o senso comum e não mais poder saborear nem a manga nem o leite; era um pensamento puramente sensato se levarmos em conta as informações acessíveis ao escravo. Criou-se o arrogante costume de pensar que o religioso de milênios atrás era irracional por ter explicado de forma equivocada o que ele não era capaz de entender, mas esse era um risco do ser humano, e por isso Aristóteles errou antes da ciência, e Einstein errou depois dela. E ainda hoje o homem continua a errar.

Uma das qualidades que tornam a ciência tão bela é a grande chance de que amanhã ela corrigirá o erro de ontem. A ciência dos antigos é tão válida para nós como a nossa será para os que virão. E a razão que alguns tem para rejeitar o cristianismo hoje é tão justa quanto a que muitos tiveram para rejeitá-lo quando os discípulos anunciavam o Evangelho. Há duas explicações para o ateu de hoje pensar que foi fácil convencer milhares de pessoas de que um homem acabara de ressuscitar: ou ele pensa que não havia sensatez entre os milhares de homens daquele tempo, ou ele nunca saiu às ruas de hoje anunciando que outro Messias ressuscitou, para experimentar a reação fria das pessoas.

A explicação cristã não passa pela cabeça do ateísta: talvez o homem de dois mil anos atrás fosse sensato, e o motivo de ele ter acreditado no cristianismo a ponto de dar a vida por aquela certeza estivesse relacionada ao fato de aquela certeza basear-se em um fato. Um fato que por uns foi ouvido, mas que por outros fora testemunhado. E acreditar em algo absurdo continua comum até hoje, pois muitos ainda acreditam que Elvis está vivo: a diferença é que nenhum desses lunáticos quer dar a vida por isso, porque dar a vida por algo de que não se está verdadeiramente convicto é ser lunático além das proporções da Lua.

O fato de os cristãos terem fé, hoje, numa religião fundada há dois mil anos é tão razoável quanto a crença de que homem pisou na Lua alguns anos atrás. Há quem diga que tratou-se de uma grande conspiração, há quem não saiba o que dizer, e há os que simplesmente acreditam: uns por humildade, outros por curiosidade excessiva, mas todos por, de modo geral, terem visto naquilo alguma razão.

O homem que descarta o cristianismo e o homem que o aceita decidem-se pela mesma razão. Um acha razoável aceitá-lo, enquanto o outro acha razoável rejeitá-lo, mas não é o que rejeita que está apto a dizer se é razoável aceitar, assim como não é o que aceita que pode dizer se é razoável rejeitar.

Ao contrário do vlogger que lançou o divertido desafio, eu não penso que o cristianismo é rozoável ao passo que o ateísmo não é. Eu penso que o ateísmo é tão razoável quanto o cristianismo, e se não fosse eu não suportaria ser cristão. O fato de a ciência não poder dizer se Deus existe tanto quanto não pode dizer que Ele não existe é o que torna a fé tão agradável aos meus olhos, pois a única coisa que a fé significa é liberdade. Se Deus se mostrasse a todos, crer em Deus não seria mais uma escolha. E, então, o cristianismo não seria mais baseado na razão, seria baseado no óbvio.

O que é romântico no sublime ato de dizer que se ama alguém, é que um dia o amor parece óbvio, e no outro parece suspeito, mas nunca chega a ser suspeito a ponto de não se acreditar que ele exista, e nunca parece tão óbvio a ponto de que se possa ter sobre ele completa certeza. E a razão é o que equilibra esses extremos. Ela oferece motivos para que, na certeza, possa haver a dúvida, e para que na dúvida possa haver certeza. E esse é exatamente o papel da razão na aventura do cristianismo. A fé sem a razão não merece ser chamada de fé, assim como o amor não pode ser chamado de amor sem a odiável suspeita.

Deus nos convida a amá-lo com todo o nosso coração, alma e entendimento, e a estarmos sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que nos pedir a razão da esperança que há em nós. Esse foi precisamente o desafio ao qual eu tentei responder nessa postagem, e agora eu a lanço ao vento.


Referências e recomendações:
  1. Galileo: La verità sul processo
  2. Igreja e ciência
  3. The De-Animation of the Heavens in the Middle Ages
  4. How the Catholic Church Built Western Civilization
  5. God and Reason in the Middle Ages
  6. What's So Great About Christianity
  7. L' inquisizione. Atti del Simposio internazionale
  8. The Foundations of Modern Science in the Middle Ages
  9. Grandes Mitos sobre a Igreja Católica
  10. A Dança do Universo
  11. The Witches' Advocate
  12. The Life and Work of Blessed Robert Francis Cardinal Bellarmine
  13. Para entender a Inquisição
  14. Ortodoxia

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