3 de setembro de 2011

Challenge Accepted!

O vlogger ateísta Yuri Grecco propôs um desafio aos cristãos (confira no vídeo), em que nos convida a falar sobre a relação entre o cristianismo e a razão. Apesar de não ter nenhuma garantia de que essa resposta chegará ao conhecimento dele, resolvi aceitar o desafio, motivado também pelo fato de o vídeo lidar com a História da Igreja, um dos meus temas favoritos. Eu não estou familiarizado com outros vídeos em que ele possivelmente tenha falado da Igreja, nem sei a quem se dirige o vídeo "A Igreja Católica era boazinha", portanto, esta postagem será dedicada ao conteúdo abordado nesse vídeo, exclusivamente.


Me permitam considerar uma ideia geral, para que questões específicas sejam tratadas à medida que se avança nessa ideia. Comecemos, então, com a relação entre a Igreja e a ciência e como esse cenário fora afetado pelo background da Inquisição. Aqueles que já visitaram esse blog sabem que esses são dois dos temas aos quais mais dei atenção em minhas postagens, e a compreensão dessa resposta será melhor se lida com o auxílio dessas postagens: 1) Igreja e ciência; e 2) Revisão sobre a Terra Plana, Santa Inquisição e o caso Galileu.

A ideia do autor do vídeo pode ser resumida da seguinte forma: 1) a Igreja foi contra o avanço do conhecimento científico; 2) a Igreja se opunha a qualquer ideia contrária aos seus dogmas, e muitas vezes essas ideias opostas aos dogmas da Igreja manifestavam-se através da ciência; 3) Não se pode dizer que a Igreja apoiava a ciência; e 4) para os que manifestavam ideias científicas contrárias aos dogmas da Igreja, havia determinada punição. Não será necessário, por hora, que nos aprofundemos em detalhes da Inquisição, uma vez que o caso Galileu pode ser bem compreendido sem esse aprofundamento. Além disso, ficará claro aos que assistiram ao vídeo que a minha exposição das ideias do autor não são transcrições exatas, mas adapatações que, de modo algum, pretendem manipular palavras ou passar ideias falsas que não são do autor. É recomendada, portanto, a vizualição integral do vídeo, para que qualquer falha minha de interpretação não cause problemas.

É fácil entender que, quando se fala de História, deve-se buscar o consenso entre os acadêmicos, os especialistas, os historiadores. Porém, me parece inevitável que surja na mente daqueles que se interessam por temas controversos, a seguinte questão: não estariam os autores católicos, ao professarem qualquer argumento em defesa da Igreja, fazendo-o mais por buscarem retratá-la bem, que por qualquer compromisso com os fatos? Isso certamente dificultaria qualquer conclusão acerca de determinados episódios.

Há, por isso, duas considerações a se fazer, antes de mais nada: a primeira, é que um autor não deve ser descartado por suas convicções pessoais. Imaginemos que um alemão e um francês discutirão o seguinte tópico: "Qual país é melhor: a Alemanha ou a França?". Seria razoável suspeitar que algum deles acabasse, hora ou outra, fornecendo uma defesa mais puramente patriótica de seu país, que uma baseada estritamente nos fatos sobre os dois países. Mas isso não nos daria o direito de dizer: "Que venha, então, um inglês e decida a questão"; a grande tristeza do alemão e do francês seria descobrir que, na verdade, o inglês não sabia nada sobre a Alemanha nem sobre a França, e isso só serviria de argumento contra a Inglaterra. Mas é verdade que o inglês poderia saber mais sobre Alemanha e sobre a França do que sabiam o alemão e o francês sobre elas: o grande impasse seria saber se um inglês seria capaz de decidir a favor da França em alguma questão.

O que quero dizer é que, inevitavelmente, corremos o risco de uma pessoa agir mais de forma emocional e deixar a objetividade de lado. Mas isso é ser humano, e bem como o inglês poderia optar pela Alemanha movido por seu ódio cultural à França, o francês poderia muito bem fazer a mesma coisa pelo mesmo motivo. Assim, se o Papa diz algo em defesa do catolicismo, deve-se buscar entender se a realidade sustenta aquilo que ele afirma, em vez de se usar aquilo em que ele acredita para descredibilizar a sua defesa. É muito mais sensato confiar em quem defende alguma coisa porque acredita naquela coisa, do que confiar em quem acusa alguma coisa pelo fato de nela não acreditar. Isso vale para todos, e é por isso que, se alguém quer entender bem alguma coisa, deve buscar entendê-la como entendem aqueles que nela acreditam. Não se aprende sobre a Igreja Católica apenas dando ouvidos a Andrew Dickson White, pois ele ensinaria algo que nada tem a ver com a Igreja Católica, e me parece razoável que o ateísta suspeitará que não se aprende sobre o ateísmo dando ouvidos a algum padre de sua cidade; certamente, se houvesse algum hipotético curioso fazendo-lhe perguntas sobre o ateísmo, ele preferiria recomendar Bertrand Russell.

Mas, para que não se tenha a impressão errada do que quero dizer, não estou dizendo que não se deve ouvir o que Dickson White tinha a dizer sobre a Igreja, ou que um padre não pode dizer algo sobre o ateísmo: o que estou dizendo é que aprender sobre alguma coisa requer dar ouvidos tanto a quem a ama e quer preservá-la quanto a quem a odeia e quer destrui-la, pois somente assim o curioso poderá confrontar os dois extremos e concluir se quem ama ou odeia aquela coisa, o faz por enxergar nela um fato amável ou odiável, ou se ama ou odeia aquela coisa apesar dos fatos amáveis ou odiáveis sobre ela. Pois é verdade que há muitos cristãos que creem no cristianismo por pura covardia de questionar-se e descobrir algo que os assombre; mas também é verdade que há muitos que não creem no cristianismo por pura covardia de dar a ele uma chance e não mais ser capaz de negá-lo honestamente.

Eu espero ter sido claro, mas peço desculpas se não fui. E depois de todas essas observações, falta a segunda consideração: assim como o francês desconfia do julgamento que o inglês faz sobre a França, também o ateísta pode desconfiar do julgamento que o católico faz sobre a Igreja Católica; mas imaginem a cara do francês ao descobrir que o inglês acabara de escolher a França? Suspeito que até o alemão iria querer saber o que há na França de tão especial. Digo, pois, que no caso da Igreja Católica, para a felicidade do francês, não é só com a França que ele pode contar, mas com a Inglaterra, com a Escócia, e com a Itália. O ateísta pode e deve desconfiar do que os católicos tem a dizer da Igreja Católica, mas que tal ouvir o que os judeus tem a dizer sobre ela, ou os protestantes, ou os próprios ateus? Isso é construir o consenso histórico, e é assim que se descobre se há um fato amável, ou um amor que ignora os fatos.

Feita essa introdução, lidemos com as quatro ideias do autor do vídeo. Eu serei justo: eu não esperaria ouvir nem mesmo de muitos católicos qualquer abordagem diferente àquela exposta por ele. O motivo é simples: todos nós, católicos, agnósticos ou meros jogadores de poker frequentamos as mesmas escolas; e tendo eu passado por lá, como é natural de se esperar, sei bem o que os professores ensinam. Porém, o que os professores ensinam não necessariamente é verdadeiro, e pode-se pensar em inúmeros exemplos que demonstram isso: o professor marxista ensinará que a teoria do valor-trabalho de Marx está correta, ao passo que o professor capitalista ensinará que a teoria está errada. Assim, o aluno que nunca ouviu o que o professor capitalista tinha a dizer sobre a teoria de Marx crescerá sem a mínima preocupação em sequer desconfiar que Marx estava errado, e o aluno que nunca ouviu o que o professor marxista tinha a dizer sobre a mesma teoria crescerá sem a mínima preocupação em sequer desconfiar que Marx poderia estar certo.

Nada disso significa, no entanto, que ambos os professores estejam certos: é até mais fácil acreditar que ambos estão errados. O que quero dizer é que, assim como no colégio de freiras se ensinará que a Igreja foi boa e amável através dos séculos, porque as freiras acreditam nessa bondade e amor da Igreja, também a professora gramsciana da escola comum poderá muito bem ensinar que a Igreja foi ruim e desprezível, porque ela acredita sinceramente na maldade da Igreja. O grande problema é que menos pessoas vão aos colégicos de freiras, e isso explica o fato de mais pessoas pensarem na Idade Média como "Idade das Trevas" do que como "Idade da Luz". Mas o fato de mais pessoas acreditarem em algo não o torna verdadeiro, o os ateus sentem isso quando ouvem a tola recomendação de que se deve crer em Deus porque a maioria das pessoas acredita em Deus.

Digo isso para que se possa entender que determinado conhecimento padrão não implica no conhecimento de um fato, mas meramente no que se acredita ser um fato. Mas descobrir se aquilo realmente é um fato requer cavar mais fundo do que a ferramenta do conhecimento padrão nos permite cavar. É por isso que as pessoas comuns costumam conhecer alguns fatos, mas sempre se impressionam ao descobrir que estavam equivocadas sobre vários outros.

Entender se o cristianismo foi contra o avanço do conhecimento científico é algo extremamente fácil, ao contrário do que se possa pensar; e o mais incrível é que a grande "prova" dessa hostilidade cristã à ciência é, na maioria das vezes, o caso Galileu. Talvez por isso Yuri Grecco o tenha fornecido como único exemplo da "óbvia inimizade entre Igreja e ciência". Mas ele nos diz algo importante: que a Igreja não era contra a ciência especificamente, mas a qualquer declaração científica que fosse contra seus dogmas. O que eu farei agora é demonstrar que esse definitivamente não foi o caso.

A primeira falha em utilizar o caso Galileu como uma prova de que a Igreja se opunha e punia quem de seus dogmas discordasse, relaciona-se ao fato de que as afirmações científicas de Galileu em nada contradiziam os aspectos fundamentais da fé católica. Pelo contrário, beneficiava e confirmava ideias defendidas desde Santo Agostinho. Francesco Agnoli explica em detalhes: "As primeiras descobertas que [Galileu] fez tinham a ver com a escabrosidade da Lua: o fato que a Lua tinha algumas irregularidades [...]. Depois, descobriu que o Sol também estava destinado a se consumir, tinha algumas manchas, era imperfeito. Uma descoberta desse tipo alarmava o pensamento pagão - aristotélico e platônico -, mas certamente não o pensamento cristão". Ele descreve o motivo: "Estamos na época em que, depois do humanismo, ressurgem os pensadores - o pensamento filosófico grego - que viam nos planetas entidades divinas: lisas, perfeitas, cristalinas, imortais; a famosa quinta essência na qual estariam permanentemente os planetas. Essa visão o mundo cristão tinha herdado, mas não era uma visão sua. Aliás, podemos dizer que era uma visão essencialmente anti-cristã; essencialmente pagã, panteísta. De fato, uma das consequências deste modo de ver os planetas era a astrologia. Pois, como os planetas eram superiores à Terra, por serem também divindades, eram também capazes de influenciar a liberdade do homem".

Agnoli lembra que Santo Agostinho condenara tais posições, não de um ponto de vista científico, mas filosófico. Para o bispo de Hipona, os astros eram criaturas de Deus, e dessa forma não podiam ser divinos. Assim, também não poderiam controlar a liberdade do homem. "Esse é o plano de fundo em que se deve inserir a descoberta de Galileu", conclui o autor. Cesare Cremonini, filósofo aristotélico, recusou-se a concordar com a descoberta de Galileu, alegando que o telescópio falseava a vista, e que não se podia contradizer o pensamento de Aristóteles.

Galileu entende que seus companheiros cientistas não estavam dispostos a abandonar a autoridade de Aristóteles. Por isso, a única alternativa era recorrer à outra grande autoridade científica da época: o Colégio Romano Jesuíta. Ali, o famoso matemático Cristóvão Clávio reconhece que Galileu tem razão - "Phoebus habet maculas": o Sol possui manchas. Do ponto de vista teológico, era uma descoberta perfeitamente aceitável, e é justamente o Colégio Romano Jesuíta que concede a Galileu um título honoris causa diante de toda a comunidade: e é nesse momento que Galileu se torna o cientista mais famoso do mundo. Isso acontece em 1610, e só em 1612 que Galileu se manifestará, pela primeira vez em impressão, em favor do sistema copernicano.

Em minha postagem original sobre o caso, lemos que Galileu acreditava no Sistema Heliocêntrico, e isto não lhe trouxe problema algum. Recebeu uma carta de congratulações sobre seu escrito referente ao Heliocentrismo (História e demonstrações em torno das manchas solares e dos seus acidentes), do futuro Papa Urbano VIII, então cardeal Maffeo Barberini. A Igreja argumentava que o modelo copernicano estava correto como modelo teórico, mas ainda carecia de ser provado como verdade literal. Mesmo após detectar crateras na Lua e notar o movimento das luas de Júpiter, Galileu ainda era incapaz de refutar o Sistema Ptolomaico ou provar o de Copérnico.

Precisamente nesse ponto precisamos lembrar que, em seu vídeo, Yuri diz que Galileu foi forçado a retirar o que disse mesmo estando certo. Bem, quanto a isso, cabe algumas observações. Acredito que o vlogger saiba que, para que um argumento seja válido, tanto as premissas quanto a conclusão precisam estar corretas. Galileu podia ter, de certo modo, a conclusão correta; mas suas premissas eram incorretas. Agora, convido o leitor a pensar que a Igreja é a França, e que o autor que citarei é um inglês. Obviamente, o inglês estará equivocado sobre a maioria de suas declarações sobre a França, mas atentem para as seguintes citações do físico brasileiro Marcelo Gleiser.

"Os problemas iniciais de Galileu vieram principalmente do meio acadêmico, incitados por professores de filosofia de várias universidades italianas, cegamente obedientes à doutrina aristotélica. Se adicionarmos diferenças de opinião ao estilo extremamente arrogante e agressivo de Galileu, certamente o resultado final não poderia ser uma reconciliação muito amistosa. [...] Convencido por suas notáveis descobertas astronômicas, Galileu declarou que o modelo ptolomaico do Universo era insustentável. Motivado por sua enorme ambição pessoal e por uma sincera dedicação à Igreja, Galileu nomeou-se a nova estrela guia da Igreja, o único homem capaz de explicar para as autoridades eclesiásticas qual era o verdadeiro arranjo dos céus, mesmo que este contrariasse a interpretação oficial das escrituras sagradas. Galileu queria não só expor publicamente a estupidez dos professores de filosofia (ele com freqüência usava a palavra estúpido ao referir-se aos aristotélicos), como também explicar aos teólogos cristãos como interpretar as escrituras sagradas" (Marcelo Gleiser, A Dança do Universo, pág. 137)

Mais à frente, Gleiser discorre sobre os motivos que levaram Galileu a se arriscar tanto em sua tentativa de defender o modelo copernicano não apenas como teoria, como recomendara-lhe o cardeal Roberto Belarmino, que disse: "Se houvesse uma verdadeira prova de que [...] o Sol não gira em torno da Terra, mas a Terra em torno do Sol, então deveríamos agir com grande circunspecção ao explicar passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário, e declarar que não as havíamos entendido, em vez de declarar como falsa uma opinião que se mostra verdadeira. Mas eu mesmo não devo acreditar que existam tais provas enquanto não me sejam mostradas" (James Brodrick, The Life and Work of Blessed of Robert Francis Cardinal Bellarmine, vol. 2, pág. 359). Gleiser escreve: "Podemos apenas especular por que Galileu resolveu se arriscar tanto. Talvez, confiando demasiadamente em suas habilidades intelectuais, ele achasse que poderia provar que seus argumentos eram de fato irrefutáveis. Ele estava acostumado a derrotar e humilhar seus adversários em disputas orais. Talvez realmente acreditasse em sua missão de salvador da Igreja, o mensageiro das estrelas trazendo a nova visão de mundo para as autoridades eclesiásticas. Ou talvez arrogância e devoção à Igreja se misturassem na mente de Galileu" (Marcelo Gleiser, A dança do Universo, pág. 149).

Nesse momento, Gleiser descreve a tragédia que talvez só não emocionou Yuri Grecco por não tê-lo convencido: "Galileu não foi a Roma de mãos vazias. Ele acreditava ter encontrado a “prova” do movimento da Terra, que Belarmino exigira como condição necessária para a aceitação da hipótese copernicana. A prova era baseada em sua teoria das marés. A idéia era simples, mas completamente errada" (ibid.). Aliás, penso que A Dança do Universo seja uma leitura que muito agradaria ao autor do vlog Eu, Ateu, uma vez que muitos de seus preconceitos sobre a Igreja Católica são explicitamente compartilhadas por Gleiser. No meu caso, não foi tão prazerosa nesse sentido, mas muito me alegrou quando eu lembrei de vestir a camiseta francesa, e percebi que suas palavras eram até agradáveis, já que vinham de alguém que nasceu na Inglaterra.

Podemos melhorar este passeio pelas ruas que sediaram a popular, mas aparentemente não verdadeira, guerra entre fé e ciência, lembrando que o heliocentrismo só veio a ser comprovado experimentalmente em 1851, com o pêndulo de Foucault, mais de duzentos anos depois da morte de Galileu. Acho engraçado que um parágrafo que eu escrevi há quase um ano encaixe tão bem a esta postagem, mas talvez eu apenas veja graça em tudo, o que certamente é o caso: "Aceitar o Modelo Heliocêntrico, naquela altura, seria como se, hoje, todos os darwinistas passassem, sem mais nem menos, a admitir o Design Inteligente. Os mesmos cientistas que hora ou outra apontam a 'intolerância' contra Galileu, seriam os mesmos a repreendê-lo sem que as provas suficientes existissem. É o que fazem com o Design Inteligente, porque não há motivos para abandonar o darwinismo, e não se sabe se haverá. O fato é que a Igreja agiu corretamente, respeitando a ciência da maneira que ela precisa ser respeitada: com base nas evidências. Se a paralaxe e a rotação da Terra foram descobertas mais de cem anos após Galileu, como seria sensato e científico considerá-lo correto?". Aliás, lembremos que a Paralaxe Estelar só foi detectada em 1838, por Friedrich Wilhelm Bessel.

Ainda recomendaria, novamente e para fim de qualquer dúvida, a postagem dedicada especificamente ao caso Galileu, já listada no início dessa postagem. Mas acredito que, diante do exposto até aqui, só mesmo se algum tipo de fé ateísta baseada em algo que não pode ser a Ciência e nem pode ser a História brotasse no coração dos que se recusam a acreditar que o conflito entre fé e ciência no caso Galileu é tão real quanto o conflito entre fé e ciência no caso de Gregor Mendel ou Johannes Kepler.

Eu poderia, se quisesse e não temesse que essa postagem venha a acabar demasiadamente extensa, recomendar, outra vez, também, a leitura da postagem ainda mais extensa sobre Igreja e ciência, pois imagino que o interesse pela verdade seja mais motivador que a cruel intolerância do tédio. Mas meu desafio está longe do fim, temo comunicá-los: agora preciso lidar com as observações feitas pelo vlogger Yuri acerca da Inquisição. E, pelo fato de eu também já ter escrito tratando especificamente o caso da Inquisição, tentarei preocupar-me apenas com a ideia do secular na Idade Média, que parece quase ter enlouquecido o nosso desafiador.

Contudo, é muito mais simples do que aparenta. Toda a confusão se explica pela aparente suposição de que o secularismo na Idade Média possa ser, de algum modo, comparado ao secularismo do século XXI; basicamente, é comparar a Europa conhecida como "Cristandade" à realidade laicista conhecida como "Setembro de 2011". Historicamente, a Inquisição realmente entregava os condenados à pena de morte ao braço secular. O que acontecia era que o braço secular estava tão convencido de que o herege era digno daquela pena quanto a Igreja estava. O que pode surpreender é que muitas vezes estava até mais, e precisava a Igreja puxar os freios de uma carroça que poderia atropelar muitos inocentes.

Foi assim com as bruxas, e poderia ter sido assim com muito outros. Talvez a palavra de um historiador possa trazer uma luz definitiva a todo um contexto que eu não estou apto a explicar: "O certo é que, ao contrário do que comumente se crê, as perseguições de bruxas não se deveram a iniciativa da Igreja, foram manifestação de uma crença popular, cuja bem documentada existência se remonta a mais remota antiguidade [...]. Não foi a Inquisição que iniciou a perseguição às bruxas, senão a justiça civil nos Alpes e na Croácia [...]. A inquisição podia haver causado um holocausto de bruxas nos países católicos do Mediterrâneo, mas a história demonstra algo muito diferente: a Inquisição foi, aqui, a salvação de milhares de pessoas acusadas de um crime impossível" (Gustav Henningsen, La inquisición y las brujas, pág. 568-94). E se alguém se engana pensando que não se pode concluir algo sobre a Inquisição por ausência de documentos, saibam que, na verdade, existe abundância de documentos.

Pensar no homem secular da Idade Média como se pensa no homem secular de hoje é um equívoco comum aos que julgam o passado com os olhos vesgos da modernidade. Muito mais justo seria o homem da Idade Média reclamar da tolice do nosso tempo, isto é, se ele soubesse que essa tolice viria a existir, do que o homem de nosso tempo reclamar da tolice do homem da Idade Média, que creio firmemente não ter sido tolo.

A ilustração oferecida por Yuri me parece completamente equivocada, principalmente no sentido de retratar a Igreja como uma máquina que elimina tudo que se levanta em sua frente. A História é capaz de demonstrar que a Igreja nunca foi esse tipo de máquina que derruba o que está em pé em seu caminho; pelo contrário, se é que foi algum tipo de máquina, foi aquela que levantava quem estava caído aos seus pés, e isso é muito fácil verificar. Foi a Igreja que, num mundo caracterizado pela indiferença e brutalidade herdadas do Império Romano teve a doçura de limpar o sangue dos feridos estando com os próprios braços mutilados. É possível imaginar que Nero, sendo o louco que era, ria do cristão que sobrevivia sem praticamente nenhuma força humana para continuar a viver: mas é precisamente essa mesma cena que me faz imaginar o quanto o mesmo Nero gritava de raiva ao notar que, milagrosamente, o cristão ainda vivia; vivia e ajudava outros a viver.

A Igreja sempre foi o exemplo perfeito do amor materno através dos séculos: vez ou outra se enfurecia com as artes dos seus filhos, mas até nesses momentos lhes expressara o mais terno amor. E não só tratava bem os seus filhos, mas também preparava todos os tipos de guloseimas quando os filhos convidavam um amigo para brincar. Ela cuidou do seu filho doente, por amor, e cuidou do filho doente de outra pessoa por compaixão. Se alguém se dedicar a passear no tempo, vai descobrir que o riso de desdém que minhas palavras provocam são explicadas pela ausência de uma emoção sublime que a ignorância não permite sentir.

Creio não haver utilidade nenhuma em uma declaração minha revelando que eu fui esse alguém rindo de uma História que eu não queria conhecer, mas pensava conhecer como ninguém. Afinal, de que vale eu dizer que era ateu, se dezenas de milhares de ateus fornecerão a óbvia réplica de que já foram cristãos? Tudo isso eu posso dizer, e hora eu posso provocar espirrando ironia, hora eu posso despertar carinho explicando a beleza de um drama. Mas uma coisa eu devo fazer ignorando a minha chatice e ignorando mais ainda a minha emoção. E esse é o meu desafio final: explicar o que o cristianismo tem a ver com a razão.

Irei, antes de mais nada, corrigir os equívocos do autor. Ele sugere que o cristianismo não é baseado na razão porque a maior virtude do cristianismo é a fé. A fé é, sim, uma das três grandes virtudes do cristianismo, mas São Paulo nos diz que a maior delas é o amor. Mas, mesmo que a fé fosse a maior virtude cristã, ela altera a possibilidade de o cristianismo ser baseado na razão tanto quanto a loucura de Chuck Noland altera o fato de o sr. Wilson ser uma bola de vôlei.

Razão é um fundamento, é uma ferramenta, é o que nos diferencia de outros animais. Algo é razoável à medida que respeita a nossa humanidade, que é melhor expressa na singularidade do nosso intelecto. A razão deve ser firme como uma pedra e flexível como nossos polegares, sem nunca pedir do homem o que só poderia ser aceito pelo peixe, que tem o cérebro muito pequeno. Firme porque deve ser bem estruturada na solidez do pensamento; flexível porque deve ser sagaz como o reflexo. Esse é o paradoxo da razão, e a fé não lhe pesa de nenhum lado.

Se eu tenho bons motivos para acreditar que uma queda de um prédio pode me matar, a razão me orientará a não pular de nenhum prédio, mas também me orientará a não pular de qualquer lugar alto, pois o efeito prático é o mesmo. A razão é firme a ponto de me fazer temer o topo do prédio, mas flexível a ponto de me permitir associar o topo do prédio a milhares de outros lugares que não são prédios, ainda que eu tenha vindo de uma civilizalção retrógrada cujas construções nunca me permitiram saber o que é uma montanha.

A fé nada tem com isso: pular do topo de um prédio esperando criar asas e voar não é ter fé maior que a de todos os homens: é simplesmente ser mais burro que todos os homens. Fé com razão pode não ser o caso de algumas religiões, mas a fé razoável é o caso de muitas delas, não só do cristianismo. A diferença pode ser que o cristianismo seja razoável demais, o que explica facilmente a tendência de ser entendido como louco por muitas pessoas desse tempo. Ora, esse é o único tempo em que se diz que o gênio é da loucura amigo íntimo. Chamar o cristianismo de louco me parece um divertido elogio inconsciente.

Mas o fato de o cristianismo ser rozoável está ligado ao fato crucial de o homem ser racional. Se os escravos de tempos atrás não bebiam leite chupando manga, como dizem, não o faziam por serem tolos, mas por serem espertos demais: era melhor confiar no que diziam e permanecer vivos, que desafiar o senso comum e não mais poder saborear nem a manga nem o leite; era um pensamento puramente sensato se levarmos em conta as informações acessíveis ao escravo. Criou-se o arrogante costume de pensar que o religioso de milênios atrás era irracional por ter explicado de forma equivocada o que ele não era capaz de entender, mas esse era um risco do ser humano, e por isso Aristóteles errou antes da ciência, e Einstein errou depois dela. E ainda hoje o homem continua a errar.

Uma das qualidades que tornam a ciência tão bela é a grande chance de que amanhã ela corrigirá o erro de ontem. A ciência dos antigos é tão válida para nós como a nossa será para os que virão. E a razão que alguns tem para rejeitar o cristianismo hoje é tão justa quanto a que muitos tiveram para rejeitá-lo quando os discípulos anunciavam o Evangelho. Há duas explicações para o ateu de hoje pensar que foi fácil convencer milhares de pessoas de que um homem acabara de ressuscitar: ou ele pensa que não havia sensatez entre os milhares de homens daquele tempo, ou ele nunca saiu às ruas de hoje anunciando que outro Messias ressuscitou, para experimentar a reação fria das pessoas.

A explicação cristã não passa pela cabeça do ateísta: talvez o homem de dois mil anos atrás fosse sensato, e o motivo de ele ter acreditado no cristianismo a ponto de dar a vida por aquela certeza estivesse relacionada ao fato de aquela certeza basear-se em um fato. Um fato que por uns foi ouvido, mas que por outros fora testemunhado. E acreditar em algo absurdo continua comum até hoje, pois muitos ainda acreditam que Elvis está vivo: a diferença é que nenhum desses lunáticos quer dar a vida por isso, porque dar a vida por algo de que não se está verdadeiramente convicto é ser lunático além das proporções da Lua.

O fato de os cristãos terem fé, hoje, numa religião fundada há dois mil anos é tão razoável quanto a crença de que homem pisou na Lua alguns anos atrás. Há quem diga que tratou-se de uma grande conspiração, há quem não saiba o que dizer, e há os que simplesmente acreditam: uns por humildade, outros por curiosidade excessiva, mas todos por, de modo geral, terem visto naquilo alguma razão.

O homem que descarta o cristianismo e o homem que o aceita decidem-se pela mesma razão. Um acha razoável aceitá-lo, enquanto o outro acha razoável rejeitá-lo, mas não é o que rejeita que está apto a dizer se é razoável aceitar, assim como não é o que aceita que pode dizer se é razoável rejeitar.

Ao contrário do vlogger que lançou o divertido desafio, eu não penso que o cristianismo é rozoável ao passo que o ateísmo não é. Eu penso que o ateísmo é tão razoável quanto o cristianismo, e se não fosse eu não suportaria ser cristão. O fato de a ciência não poder dizer se Deus existe tanto quanto não pode dizer que Ele não existe é o que torna a fé tão agradável aos meus olhos, pois a única coisa que a fé significa é liberdade. Se Deus se mostrasse a todos, crer em Deus não seria mais uma escolha. E, então, o cristianismo não seria mais baseado na razão, seria baseado no óbvio.

O que é romântico no sublime ato de dizer que se ama alguém, é que um dia o amor parece óbvio, e no outro parece suspeito, mas nunca chega a ser suspeito a ponto de não se acreditar que ele exista, e nunca parece tão óbvio a ponto de que se possa ter sobre ele completa certeza. E a razão é o que equilibra esses extremos. Ela oferece motivos para que, na certeza, possa haver a dúvida, e para que na dúvida possa haver certeza. E esse é exatamente o papel da razão na aventura do cristianismo. A fé sem a razão não merece ser chamada de fé, assim como o amor não pode ser chamado de amor sem a odiável suspeita.

Deus nos convida a amá-lo com todo o nosso coração, alma e entendimento, e a estarmos sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que nos pedir a razão da esperança que há em nós. Esse foi precisamente o desafio ao qual eu tentei responder nessa postagem, e agora eu a lanço ao vento.


Referências e recomendações:
  1. Galileo: La verità sul processo
  2. Igreja e ciência
  3. The De-Animation of the Heavens in the Middle Ages
  4. How the Catholic Church Built Western Civilization
  5. God and Reason in the Middle Ages
  6. What's So Great About Christianity
  7. L' inquisizione. Atti del Simposio internazionale
  8. The Foundations of Modern Science in the Middle Ages
  9. Grandes Mitos sobre a Igreja Católica
  10. A Dança do Universo
  11. The Witches' Advocate
  12. The Life and Work of Blessed Robert Francis Cardinal Bellarmine
  13. Para entender a Inquisição
  14. Ortodoxia

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