15 de setembro de 2011

Cinismo extraterrestre

Essa semana tive o prazer de descobrir que sou um indivíduo pago pela Igreja para limpar a barra dela suavizando o impacto dos casos de pedofilia com os quais ela está envolvida. Tudo começou em uma discussão no facebook, no perfil do vlogger Daniel Fraga, que compartilhou um link que pretendia demonstrar como a mente do religioso é execrável - um padre deu uma declaração, e na confusa lógica adotada, a declaração de um indivíduo tornava todos os religiosos dignos de desprezo. Mais do mesmo; mas como esse blog é fruto de um trabalho voluntário, foi bom saber que a minha defesa da Igreja me garantirá alguns tostões. Afinal, tudo que eu faço costuma buscar recompensas, como nas vezes que defendi minha mãe de qualquer acusação contra ela: só o fiz porque minha mãe era responsável por prover a minha mesada, e não porque eu a amava, de fato.

Assim, após eu ter defendido a Igreja de algumas acusações feitas por um usuário suspeito, fui acusado de, na verdade, estar sendo pago para proteger com uma defesa incisiva e apaixonada os tais padres pedófilos. A dicussão pode ser acessada no seguinte link: http://www.facebook.com/DanielFragaBR/posts/159035774180232. Após ter alertado sobre a forma de se interpretar dados e sobre o cuidado necessário com a mídia, parti para o único argumento que eu realmente considero necessário: que os erros de determinados membros da Igreja não servem como argumento para que se abandone a Igreja. Expliquei que, "se há erro dentro da Igreja, acredito que meu papel como católico seja o de combater o erro antes que ele destrua a Igreja", em vez de "abandonar a Igreja e permitir que o erro se multiplique". Com isso, queria dizer o óbvio: que é papel do católico combater cada erro cometido por outro católico. E bem como uma mãe não abandona um filho que faz algo errado, mas o corrige, também o católico não abandona a Igreja pelo erro de seu irmão, mas o corrige.

Apelei a um exemplo ainda mais banal, e disse que, apesar de nós brasileiros vez ou outra comentarmos sobre abandonar o país por causa da corrupção, na verdade preferiríamos ver a corrupção abandoná-lo. Lutar para que o Brasil esteja livre da corrupção é um dever primordial de um patriota, e o mesmo vale para o cristão em sua Igreja. Isso, aparentemente, significa que eu apoio a pedofilia. Agora, eu não sei quão bem funciona o cérebro capaz de tal interpretação, pois, se tivéssemos 1. há casos de pedofilia na Igreja; e 2. os erros na Igreja devem ser combatidos; só seria possível concluir que 3. o defensor da segunda premissa apoia a pedofilia na Igreja se a pedofilia fosse considerada por esse indivíduo uma prática correta. Porém, como todo católico sabe e todo ser humano deveria ter a capacidade de supor, a Igreja não considera correta essa prática, mas a condena. Isso sugere - se já não estava explícito - que meu argumento era contra a pedofilia, e não em defesa dos pedófilos.

Mas ao ser humano sensato, toda essa chata explicação seria dispensável. Isso me levou a crer que eu estava discutindo com um alienígena, mas essa é uma hipótese que carece de comprovação. O que de fato aconteceu foi que eu aparentemente estava preso à religião, ao contrário de meu adversário, que por ser ateu podia falar a besteira que quisesse e ainda assim merecer mais crédito que eu. Diante das acusações, pedi que o próprio Daniel Fraga dissesse se eu havia defendido a pedofilia, mas, infelizmente, ele não se manifestou. Lamentei o ocorrido, e aguardei a resposta.

Para a minha surpresa, a resposta seria muito mais trágica do que eu imaginava. Abandonando a discussão, o indivíduo resolveu ir até o meu perfil e coletar informações que, segundo ele, suponho, serviriam como armas contra mim. Ele citou a por mim tão apreciada frase de São Tomás sobre o amor pela verdade, e a ela respondeu com uma frase de Feuerbach. Talvez não seja adequado chamá-la de resposta, pois a frase de Feuerbach não se relaciona nem mesmo remotamente à frase do santo. Ele apenas queria promover um pensamento tolo revestido de algo possivelmente intelectual. Feuerbach foi defensor de ideias que poderiam ter me atraído por volta de meus quinze anos, mas certamente não me atraem hoje. Na verdade, são ideias que, hoje, representam o meu maior inimigo, e nelas não vejo nada de sofisticado ou inteligente.

Independente do anseio da investida, notável mesmo foi o que veio depois: por eu ter me manifestado com repudio às acusações explícitas de que eu fora pago para realizar um serviço sujo para a Igreja, o nobre cavalheiro se manifestou dizendo que a carapuça havia me servido. Era o cinismo em sua forma mais curiosa: era cinismo à luz de testemunhas. Já não havia coerência, já não havia respeito, já não havia sentido. E como todo bolo saboroso precisa de sua cereja, a cereja desse bolo chegara ao meu conhecimento: "Karl Popper constata que 'toda vez que o homem quis trazer o céu para a terra, fez reinar o inferno'", escreveu. Ora, me pergunto se o sujeito realmente sabe o que é o cristianismo, ou mesmo se sabe o que a alegação de Popper representa.

O exemplo mais didático é o comunismo. O cristianismo nunca quis trazer o céu para a Terra, pois sempre disse que aqui é a Terra está aqui e que o céu está ali. Mas o comunismo, ao apagar o céu da História, quis trazer o paraíso para cá, e o resultado foram as tragédias protagonizadas desde Lenin até Fidel. O cristianismo nunca disse que o homem era perfeito, mas sempre ressaltou a sua imperfeição; já o comunismo quis criar um novo homem, perfeito, apesar de só ter conseguido eliminar vários homens velhos. E o mesmo caminho foi trilhado pelo nazismo. Esperava eu que um leitor de Feurbach soubesse bem disso, mas àquela altura o enigma já não era digno de soluções: era digno apenas de riso; aquele riso que quer dizer que todo aquele tempo perdido no enigma fora tempo jogado fora, e que já era chegada a hora de abandoná-lo.

E esse quase foi o fim de um episódio bizarro causado pelo que eu gostaria de chamar de ateísmo extraterrestre. Fosse esse o caso, essa postagem nem existiria, porque eu já havia jogado o enigma na lata do lixo. Mas hoje percebi que ele saiu de lá montado nas costas de uma formiga. E o curioso estava na essência: era apenas o retorno do cinismo e da desonestidade, que para a formiga já estavam pesados demais. Por isso, quis convidar o leitor a visitar a página de discussão e verificar, por conta própria, até onde as coisas chegam quando se dá asas à imbecilidade. Enquanto isso, planejarei ir ao banco receber meu pagamento.

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