12 de setembro de 2011

Hipátia

Ultimamente tenho encontrado várias pessoas cuja inocência me comove. E como poderia ser diferente? Elas têm um devoção tão sincera àquilo em que acreditam, que utilizam todos os artifícios possíveis para defender sua crença; às vezes, chegam ao ponto crítico de deixar sua devoção tomar o lugar da razão, o que, para uns, é sinal de uma feroz fidelidade, mas, para outros, de uma desprezível fraqueza. E essas pessoas que tanto têm me comovido ultimamente não são, ao contrário do que pensaria Nietzsche, pessoas religiosas; são, na verdade, pessoas iguais ao próprio Nietzsche: elas olham pela janela, veem o vizinho fazendo algo desagradável, mas não percebem que o que pensam ser uma janela é, na verdade, um espelho.

Nietzsche foi provavelmente o maior covarde que muita gente pensou ser corajoso. Se tudo que grita e faz barulho é sinônimo de coragem, Nietzsche seria corajoso, mas não mais que um babuíno: mas nesse caso estaríamos sendo injustos com os babuínos, pois eles são corajosos de verdade, apesar de sequer serem capazes de conceber a ideia de coragem. Rafiki não se deixou intimidar pelo tamanho de Simba, e aplicou-lhe um golpe na cabeça; enquanto Nietzsche, em semelhante situação, estaria pendurado no topo de uma árvore gritando sobre como Simba era covarde por evitar um confronto como o seu passado. Essa foi a coragem de Nietzsche: ele quis provocar um leão, mas nunca ousou descer da árvore. Chesterton me fez perceber isso quando o comparou a Joana d'Arc: "Ela não elogiou a luta, mas lutou".

Suspeito que o tipo de pessoa que vê alguma ousadia no pensamento nietzscheano é exatamente o tipo de pessoa que acredita, no segredo de seus pensamentos, ser mais ousada que seu velho vizinho, mesmo sem nunca tê-lo visto em outro lugar que não fosse o portão. O que é dramático nisso tudo é a inocência: ela acredita na fraqueza do vizinho com total devoção ao seu pensamento, mas não tem coragem de ir até o vizinho e convidá-lo para tomar um café. Isso porque durante o café surgiria a terrível possibilidade de se descobrir que o vizinho era um veterano de alguma guerra.

Isso descreve boa parte dos homens de hoje, e os ateístas não são exceção: são, na verdade, o exemplo perfeito de tudo que digo, por serem justamente os que gritam e se enfurecem com a covardia intelectual dos religiosos, sem nunca perceber que são igualmente covardes. Obviamente, nem todo ateísta é covarde nesse sentido, mas esse ateísta sabe que o mesmo vale para o religioso. Falo daquele ateísta que finge querer ajudar alguém recomendando um livro que ele pensa conter uma revelação fundamental acerca de alguma ideia ou evento, quando, na verdade, a única coisa que o livro revela é que seu autor e quem ousou recomendá-lo deveriam ler outros livros. Mais uma vez, Chesterton tinha algo a me ensinar: "Um bom romance nos diz a verdade sobre seu herói; mas um romance ruim nos diz a verdade sobre seu autor".

Para ser mais objetivo, desejo contestar, mais uma vez, a entediante recomendação dos ateístas que se julgam detentores de um conhecimento que o religioso sequer sabe onde encontrar. Eles dizem: "Se você estudasse, saberia que as coisas aconteceram dessa forma". O problema é que ele afirma algo que ainda não fez: ele não estudou. Isso fica muito claro quando falam, por exemplo, de Galileu ou da Idade Média. Se aquela preocupação com a verdade realmente existisse, descobririam que a verdade sobre Galileu está nas testemunhas de seu tempo, não nos acusadores que viriam séculos depois. Tomam Galileu como símbolo de algo que ele nunca aceitaria representar: uma hostilidade ao cristianismo baseado num cientificismo insustentável e sem sentido. Galileu rejeitaria instantaneamente tamanha tolice.

E presa na jaula das vítimas da intolerância católica, há outra notável figura que vez ou outra vem à mente do ignorante que gosta de sugerir ao seu vizinho que este vá estudar. Trata-se de Hipátia (ou Hipácia) de Alexandria, uma figura histórica que há um bom tempo planejava investigar. Para muitos, a história dela pode ser resumida de forma muito simples: uma bela e notável mulher, à frente do seu tempo, cuja dedicação ao conhecimento só não teve um desfecho digno por causa de uma pedra em seu caminho; e essa pedra era a religião. Mas, especialmente, uma religião: o cristianismo.

Acredito que, para o leitor, isso não soe como uma surpresa. Afinal, como todos nós bem sabemos, a religião sempre foi uma pedra no sapato da humanidade, mas nenhuma dessas pedras machucou tanto quanto a religião cristã. E como poderia, em determinado momento, ter sido diferente? Hipátia fora outro mártir do saber, uma vítima do fanatismo religioso, mais uma prova de que a religião sempre foi o que ainda hoje as pessoas insistem em não enxergar: uma doença a ser erradicada.



O trailer acima, do filme Agora (Alexandria, no Brasil), resume praticamente todos as crenças populares acerca de Hipátia, e adiciona a elas a fórmula hollywoodiana de encantar e comover as pessoas. Lemos, inclusive, que se trata de "uma história real"... Será? É isso que, a partir desse momento, nós iremos descobrir.

David B. Hart, autor do livro Atheist Delusions: The Christian Revolution and Its Fashionable Enemies, escreve: "Enquanto escrevo isso, os dois primeiros do que eu espero serem três suspiros teatralmente aborrecidos saíram de meus lábios [...]. A causa da minha miséria é o lançamento do filme Agora, de Alejandro Amenábar, que pretende ser uma descrição histórica do assassinato da filósofa Hipátia por uma multidão cristã no século V, e (de forma geral) de um alegado conflito que aconteceu no Mundo Antigo entre a ciência grega e a fé cristã [...]. Não que eu culpe completamente o Sr. Amenábar. A história que ele repete vem sendo divulgada já há alguns séculos, frequentemente por historiadores que parecem respeitáveis. A sua premissa é que os cristãos da Antiguidade Tardia eram uma horda brutal de estúpidos supersticiosos, que desprezavam a ciência e a filosofia, e frequentemente agiam para suprimir ambas, além de terem uma opinião particularmente ruim sobre as mulheres. [...] Num dia trágico de 391 d.C. os cristãos de Alexandria destruíram a Grande Biblioteca da cidade, queimando seus pergaminhos, aniquilando o conhecimento acumulado em séculos, e efetivamente inaugurando a 'Idade das Trevas'" (David B. Hart, The Perniciously Persistent Myths of Hypatia and the Great Library, em First Things).

Antes de lidar com o que é importante no filme, ele atenta para um detalhe, citando a historiadora Serafina Cuomo: "Há uma cena em que Hipátia fala da hipótese do heliocentrismo, que - para qualquer um familiarizado com o neoplatonismo ao qual ela era devota ou com o modelo cosmológico aristotélico-ptolomaico em que ela foi instruída - é mais que ridículo. Mas, novamente, esses pequenos toques "artísticos" são apenas adições menores que dificilmente importam para um quadro que já está tão grotescamente distorcido" (ibid.).

Hart publicou esse artigo em 2010, após o lançamento do filme. Mas já antes de ser lançado, alguns já se preocupavam com o seu possível conteúdo. Tim O'Neil escrevia, em 2009: "Parece que alguns mitos pseudo-históricos sobre a história da ciência estão prestes a levar um novo tiro no braço, graças ao novo filme Agora, do diretor chileno Alejandro Amenábar". Ele diz que, normalmente, estaria encantado por alguém estar produzindo um filme sobre o século V, já que não são poucas as histórias notáveis sobre aquele tempo turbulento e interessante. Confessa que estaria ainda mais encantado se o filme realmente parecesse com o século V, em vez de, por acontecer no Império Romano, assumir que todos precisavam usar togas e armaduras. Por fim, ressalta o prazer em ver no elenco a bela Rachel Weisz, como protagonista.

"Então, por que eu não estou encantado?" - escreve O'Neil. "Porque Amenábar escolheu escrever e dirigir um filme sobre a filósofa Hipátia e perpetuar alguns velhos mitos iluministas transformando-o em um conto sobre ciência vs. fundamentalismo". E aqui vem a parte que, temo eu, partirá o coração dos ateístas que poderiam pensar que essa postagem seria mera reprodução de artigos cristãos defendendo cegamente uma versão mais sutil de algo que, de fato, fora terrível: "Como um ateu, eu claramente não sou fã de fundamentalismo - mesmo do tipo de 1500 anos atrás (apesar de manifestações modernas tenderem a ser as preocupantes). E como um historiador da ciência amador, estou mais que feliz com a ideia de um filme que percebe a ideia de que, sim, havia tradição científica antes de Newton e Galileu. Mas Amenábar pegou a (na verdade, fascinante) história do que estava acontecendo na Alexandria no tempo de Hipátia e transformou em um cartoon, distorcendo a história no processo" (Tim O'Neil, Agora and Hypatia: Hollywood Strikes Again, em Armarium Magnum).

É verdade que eu sequer comecei a descrever o que, de fato, aconteceu em Alexandria ou, mais importante, o que aconteceu com Hipátia. Mas penso ser oportuno notar que esse filme é a "perfeita" expressão da imagem popular que se tem dos eventos nele descritos: talvez seja ainda mais exagerada. Dessa forma, contestar as ideias do filme equivale a contestar as noções populares, e eu espero que ao fim a verdadeira história possa ter sido compreendida por todos os leitores, e que esperançosamente ninguém que leia esta postagem repita as bobagens divulgadas sobre a nobre filósofa neoplatônica. Fiquei bastante desapontado quando, já há algum tempo, descobri que pouco havia sobre ela em português, e que o que há não vai além de repetição do faz de conta - faça uma rápida busca no Google e você entenderá o que digo.

"Independente de quão longe você queira levar a parábola de Amenábar, os contornos são claros: Hipátia foi uma cientista e racionalista; foi morta por fundamentalistas que se sentiam ameaçados pela ciência e pelo conhecimento, e isso marcou o início da Idade das Trevas" (ibid.). "Não que haja algo novo ou original sobre isso - há muito tempo Hipátia tem servido como mártir da ciência por aqueles com agendas que não tem nada a ver com a apresentação acurada da história", conclui O'Neil. Ele ainda pergunta: "Por que criar um filme com apenas um mito histórico, se você pode ter dois?". Agora começa com a destruição da segunda biblioteca de Alexandria por uma multidão cristã. O autor argumenta que ao menos o diretor fez seu dever de casa o suficiente para perceber que o declínio da Grande Biblioteca foi uma longa, demorada deterioração, em vez de um único catastrófico evento. "Mas ele ainda se prende ao mito de Gibbon de que uma multidão cristã fora, de alguma forma, responsável".

1.1 A Grande Biblioteca de Alexandria

Então, comecemos pela Grande Biblioteca de Alexandria. Eu achei particularmente irônico que um dos responsáveis por promover o mito de Edward Gibbon tenha sido Carl Sagan: mais que isso, ele foi o responsável por popularizar o mito. E a ironia está no fato de que, bem como Dawkins e outros ditos "defensores da razão", Sagan demonstrou ter um conhecimento histórico muito parecido com o do próprio Dawkins. Para ser mais direto, trata-se de um conhecimento nulo. Sagan fez em seus dias exatamente o que Dawkins continua fazendo hoje: propaganda. Mas a verdade é que, por mais engraçadas ou tocantes que algumas propagandas sejam, elas se destinam sempre a vender um produto. O problema é que o que determina a qualidade de um produto não é a sua propaganda. Imagino que a melhor maneira de se descobrir qual vinho é mais saboroso seja através da degustação, e por isso os amantes de um bom vinho se reúnem para degustar vinhos, em vez se juntarem para assistir propagandas sobre vinhos.

Sagan disse, em seu popular Cosmos, que "a suprema tragédia foi que, quando os cristãos vieram a queimar a Grande Biblioteca de Alexandria, não havia ninguém para pará-los"; isso após culpar São Cirilo pela morte de Hipátia. Assim, para encerrar o seu conto, ele desfere o golpe final: "E eles o fizeram um santo". Quão terrível, não é mesmo? O problema é que o vinho de Sagan pode parecer saboroso, mas, na verdade, é um produto barato e ruim, e por isso nenhum degustador o leva a sério: mas os leigos que costumam tomar vinhos baratos acham até um bom negócio. O efeito prático de um vinho ruim é a embriaguez precoce, porque nenhum tempo é perdido na satisfação do paladar: pois o leitor que aprende história em um livro de Sagan é aquele que não espera por um vinho de qualidade, seja por impaciência ou por descaso com o sabor, e inevitavelmente acaba bêbado; e o argumento desse leitor sobre qualquer evento da História é tão bem fundamentado quanto a explicação de um bêbado sobre os Diagramas de Feynman.

A Dra. Serafina Cuomo, da Universidade de Londres, autora do livro Technology and Culture in Greek and Roman Antiquity, escreve: "A Grande Biblioteca de Alexandria é um dos mais fascinantes mistérios da Antiguidade Tardia. Já entrara na história como algo amplamente lendário. Mesmo Estrabão, que morreu em 23 d.C., só a conhecia como uma fábula do passado. Nós sabemos que ela foi construída como um adjunto ao Grande Museu no Bruchion (o quarteirão real de Alexandria) na primeira metade terceiro século a.C. O seu tamanho, no entanto, é impossível definir. As estimativas em textos antigos variam absurdamente, entre 40.000 pergaminhos (para o Mundo Antigo, um número muito alto, mas ainda plausível) e 700.000 - que é um número quase certamente impossível. E, até agora, arqueólogos falharam em encontrar os restos de qualquer construção suficientemente grande para abrigar uma coleção de qualquer uma das escalas".

"Seja qual for o caso - ela continua -, várias fontes antigas relatam que a biblioteca foi destruída, completamente ou em parte, durante o ataque de Júlio César contra Pompeu, na Alexandria, em 47 ou 48 a.C. Se qualquer parte dela tivesse resistido no Bruchion, provavelmente teria perecido quando o museu foi destruído em 272 d.C., durante as guerras de reunificação imperial de Aureliano. Ela certamente já não existia no ano 391. Porém, havia uma biblioteca 'filha', que poderia estar localizada na área do Serapeu - o grande templo do deus híbrido greco-egípcio de Ptolomeu, Serápis -, posta lá ou no fim do terceiro século a.C., ou no fim do segundo século d.C., quando o Serapeu foi restaurado e expandido" (Serafina Cuomo, Hypatia and Agora Redux, Again, em Armarium Magnum). Ela diz que há boas evidências de que, em certo ponto, pergaminhos foram mantidos nas colunatas do complexo, e que o Serapeu, de fato, foi destruído no ano 391.

A destruição do Serapeu aconteceu  após uma série de tumultos entre comunidades pagãs e cristãs de Alexandria, que era uma das cidades mais violentas do Mundo Antigo, onde tumultos eram uma "reverenciada tradição civil", explica Cuomo (ibid.). Ela conta que uma série de reféns cristãos fora assassinada dentro do Serapeu, e isso levou o Imperador Teodósio a ordenar a demolição do complexo, apesar de ter desculpado os assassinos, enquanto os cristãos mortos foram considerados mártires. O complexo foi desmanchado por soldados romanos com a ajuda de um grupo de cristãos.

Uma versão diferente do ocorrido está na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Serapis), em que lemos que, na verdade, o complexo foi destruído a mando do bispo Teófilo, e que, inclusive, a biblioteca "filha" foi destruída nesse processo. Em um parêntese, lemos que a biblioteca "mãe" foi destruída por Júlio César, mas por acidente. É engraçado como os cristãos conseguiam serem os responsáveis por cada evento trágico da Antiguidade, e sempre intencionalmente, ao passo que, em outros casos, as coisas eram simplesmente acidentais. Mas, de fato, é muito mais engraçado que eles foram responsáveis por tragédias em que sequer ainda existiam ou se faziam presentes. Talvez eles estivessem cometendo essas tragédias em algum outro dos infinitos multiversos que nós não sabemos, igualmente, se existem.

Segundo a Dra. Cuomo, há boas descrições dos eventos da época, pagãs e cristãs, e absolutamente nenhuma delas faz a mínima sugestão de alguma destruição de uma grande coleção de livros. Nem mesmo Eunápio de Sardes - um estudioso pagão que desprezava os cristãos e teria lamentado a perda de textos preciosos - sugeriu algo do tipo. "Isso não é surpreendente, já que provavelmente não havia nenhum livro lá para ser destruído. O historiador pagão Amiano Marcelino, descrevendo o Serapeu não muito após a sua demolição, falou claramente das suas bibliotecas como algo que já não existia. A verdade sobre o assunto é que a lenda inteira foi produto da imaginação de Edward Gibbon, que de forma bizarra interpretou mal uma única frase do historiador cristão Osório, e disso espalhou uma história que não aparece em nenhum outro lugar em todo o corpo das fontes históricas antigas", ela conclui.

Não fossem as distorções de Amenábar mais do que suficientes, ao apresentar o filme em Cannes, ele disse, que não fosse pela destruição da biblioteca, hoje nós estaríamos vivendo em colônias em marte. Para ficar claro, o filme está jogando nas costas dos cristãos a responsabilidade pela destruição da biblioteca que resultou num atraso inimaginável do conhecimento. Não é uma atitude nobre e honesta? Além disso, uma campanha de promoção do filme na Alemanha afirmava que Hipátia foi quem descobriu o heliocentrismo. Parece que a desonestidade, quando misturada ao que chega parecer um ódio desesperado, é capaz de produzir as coisas mais absurdas de que se tem notícia; mas o pior é que as pessoas acreditam.

Em uma discussão sobre o artigo de O'Neil, foi observado que é preciso lembrar que trata-se apenas de um filme, não de um documentário. A isso, ele respondeu: "O problema é que uma das pessoas para quem você precisa lembrar que esse filme não é um documentário é Amenábar. É ele que está dizendo um número de coisas bastante estúpidas sobre a autenticidade histórica do filme. Os publicitários também precisam ser lembrados de que o filme não é um documentário. Eles o promoveram na Alemanha através de um vox populi em que perguntavam quem descobrira o heliocentrismo, e, então, 'revelavam' a 'verdade' de que fora Hipátia. As pessoas não leem livros de história e não verificam as coisas que veem em filmes: elas apenas acreditam. A maioria das pessoas se informa sobre história através da cultura popular, e é por isso que quando um filme como esse tem a sua história completamente equivocada vale a pena apontar as suas distorções" (Tim O'Neil, Hypatia and Agora Redux, Again, em Armarium Magnum).

1.2 Hipátia

Nesse ponto, podemos finalmente partir para a vida de Hipátia e tentar descobrir como fora a sua morte. A historiadora Maria Dzielska, autora do primeiro livro - e atualmente único - dedicado a buscar a Hipátia histórica, escreve: "Pergunte quem Hipátia foi e você provavelmente ouvirá que 'ela era aquela bela jovem filósofa pagã que foi feita em pedaços por monges (ou, mais comumente, por cristãos) na Alexandria, no ano 415'. Essa resposta conveniente seria baseada não nas fontes antigas, mas numa porção de ficção e literatura histórica... A maioria dessas obras apresentam Hipátia como uma vítima inocente do fanatismo do cristianismo nascente, e o seu assassinato como a abolição da liberdade de pesquisa, junto com os deuses gregos" (Maria Dzielska, Hypatia of Alexandria, pág. 1).

No último capítulo do livro Cosmos, Carl Sagan escreve: "Cirilo, o Arcebispo de Alexandria, a desprezava por ela ser próxima ao governador romano, e porque ela era um símbolo da ciência e do conhecimento, que eram amplamente identificados pela Igreja primitiva como paganismo. Sob grande perigo, ela continuou a ensinar e a publicar, até que, no ano 415, a caminho do trabalho, ela foi pega por um grupo de fanáticos da paróquia de Cirilo. Eles a arrancaram de sua carruagem, lhe rasgaram a roupa, e, armados com conchas de abalone, esfolaram a carne de seus ossos. Seus restos foram queimados, suas obras destruídas, seu nome esquecido. Cirilo tornou-se santo" (Carl Sagan, Cosmos, pág. 366). Devo dizer que até agora estou pensando se C.E.S. seria um bom nome para um vinho...

Enfim, comparemos isso ao que escrevera Gibbon em sua História do declínio e queda do Império Romano: "Em um dia fatal, na estação sagrada da Quaresma, Hipátia foi arrancada de sua carruagem, teve as roupas rasgadas e foi arrastada nua para uma igreja. Lá foi desumanamente massacrada pelas mãos de Pedro, o Leitor, e uma tropa de fanáticos selvagens sem misericórdia. A carne foi esfolada dos ossos com ostras afiadas, e os membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas". Vemos que Sagan está apenas transmitindo a mesma ideia com algumas palavras diferentes. E ele também sugere que, na altura da morte de Hipátia, a biblioteca de Alexandria ainda existia, e que seus "últimos restos foram queimados pouco depois da morte de Hipátia" (ibid.). O'Neil escreve que, "nas mãos de Sagan e tantos outros, a história do assassinato de Hipátia e da destruição da Grande Biblioteca são um narrativa cautelosa sobre o que pode acontecer se abaixarmos a guarda e permitir que grupos de fanáticos destruam os defensores da razão" (Tim O'Neil, Agora and Hypatia: Hollywood Strikes Again, em Armarium Magnum).

Robert Barron escreve: "Bem, Hipátia realmente foi uma filósofa e ela realmente foi morta por um grupo em 415, mas praticamente todo o resto da história que Gibbon, Sagan e Amenábar contam é falso". Um exemplo bastante simples refere-se à idade de Hipátia. Dzielska estima que ela tenha nascido por volta de 350 d.C., o que significa que, no ano de sua morte, estaria com 65 anos. O'Neil brinca que, por isso, o filme de Amenábar deveria ser protagonizado por Helen Mirren, em vez de Rachel Weisz. Além disso, o neoplatonismo possuía a ideia de perfeição, chamada de "O Bem", que no tempo de Hipátia, se identificava completamente com um Deus monoteísta em vários aspectos: e mesmo assim, em seu filme, Amenábar tenta passar a ideia de que ela era ateísta, ou que não possuía religião alguma, o que é altamente improvável. Ela também tinha amigos cristãos, tinha alunos cristãos e era bastante admirada por vários deles. O melhor exemplo é o bispo Sinésio, que a escreveu muitas cartas, e disse que ela era "sua mais reverenciada professora". Ele a descrevera como "aquela que legitimamente preside sobre os mistérios da filosofia" (R. H. Charles, The Letters of Synesius of Cyrene, em Armarium Magnum).

Sócrates, o Escolástico, também a elogiara: "Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Téon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu próprio tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia aos seus ouvintes, muitos dos quais vinham de longe receber os seus ensinamentos. [...] Com frequência ela aparecia em público na presença dos magistrados. E também não se sentia envergonhada em participar de uma assembleia de homens" (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII.15). E vários teólogos notáveis da época eram entusiastas do neoplatonismo, como Santo Agostinho e Santo Ambrósio. Isso significa que, dada a influência desses pensadores, as ideias de Hipátia dificilmente teriam sido vistas como perigosas pelos cristãos: se fossem, talvez os dois santos tivessem mais chances de acabar como hereges de que como santos.

"Então, se ela era tão amplamente admirada, e admirada e respeitada por cristãos instruídos, como ela veio a morrer pelas mãos de cristãos? E, mais importante, isso tinha alguma coisa a ver com os seus ensinamentos ou com o seu amor pela ciência?", pergunta O'Neil. A resposta, diz ele, está nos conflitos políticos do começo do quinto século em Alexandria. Mais especificamente, no conflito entre Cirilo, bispo de Alexandria, e Orestes, prefeito da cidade, também cristão, estudante e amigo de Hipátia. Segundo o relato de Sócrates, a disputa entre Cirilo e Orestes tem sua origem quando Orestes tortura até a morte um amigo de Cirilo, Hierax, acusado pela comunidade judaica de ter promovido inimizades contra os judeus. Em resposta, Cirilo ameaçou os judeus, ordenando que eles "desistissem de molestar os cristãos", e os judeus reagiram armando uma emboscada para os cristãos na Igreja de Alexandre, matando alguns deles. Cirilo retaliou os judeus fazendo com que sua tropa os expulsasse (ao menos a alguns deles) para fora da cidade.

Sócrates ainda relata que Cirilo tentou encontrar soluções amigáveis com o prefeito, mas que "Orestes recusou-se a ouvir avanços amigáveis". Após isso, "Cirilo estendeu em sua direção o Evangeliário, acreditando que o respeito pela religião o faria deixar de lado a sua resistência" (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII, 13). Ainda assim, Orestes recusou-se a se reconciliar com o bispo. No filme, há uma completa distorção do evento: Cirilo implicitamente condena Orestes, e não por ele apoiar os judeus, mas por estar sendo influenciado por Hipátia - acontecimento que não é citado em nenhuma fonte. Amenábar vai além, e retrata Cirilo lendo uma passagem da Bíblia em que Paulo condena que uma mulher ensine um homem, e demanda que Orestes se ajoelhe diante da Escritura. Orestes se recusa, e o foco é desviado para Hipátia. O detalhe é que a cena é quase completamente inventada. O'Neil explica que, apesar de o filme mostrar que a retaliação de Cirilo fora causada pela tortura e morte de seu amigo, e pela disputa política entre ele e Orestes, Amenábar inventa uma cena em que Cirilo condena Hipátia por ser uma mulher que ensina homens.

Como escreve Steven Greydanus, "Agora é uma obra de hagiografia, e, nesse caso, de anti-hagiografia. Entre suas pretensões está a ideia de que Hipátia, a celebrada filósofa neoplatônica e matemática, merece ser venerada, e também que Cirilo de Alexandria, santo e doutor da Igreja, não merece" (Steven Greydanus, A History of Violence: Agora, Hypatia and Enlightenment Mythology, em Decent Films). Diante das informações apresentadas até aqui, suponho que já esteja claro que o objetivo do filme não é contar uma "história real", mas alimentar um ódio cultural pelo cristianismo que já há muito tempo virou moda. Cada detalhe do filme busca reforçar estereótipos anticristãos, e cada detalhe da história é manipulado para servir a esse propósito. Nesse momento, que chegamos ao evento da morte de Hipátia, eu espero que isso já esteja suficientemente claro até para o mais teimoso dos céticos sobre a verdade do caso.

Tanto Tim O'Neil, historiador ateísta, quanto Robert Barron, padre católico, concordam que, tenha sido por acaso ou por escolha, o drama de Hipátia, que sempre esteve envolvida com questões civis, foi estar no meio de uma disputa política entre duas grandes forças de Alexandria. A sua morte foi resultado de um ato inconsequente, não de algo planejado ou ordenado. O'Neil esclarece que a tensão começou quando um grupo de monges vindos do deserto chegou a Alexandria para suportar Cirilo, o que resultou num conflito em que Orestes fora acertado por uma pedra, na cabeça. Orestes, não aceitando o ocorrido, capturou o responsável e o submeteu à tortura, o que o levou à morte. Enfurecidos, os seguidores de Cirilo (com ou sem o seu conhecimento), encontraram Hipátia, seguidora política de Orestes, e se vingaram torturando-a até a morte.

As fontes relatam que o episódio foi visto com horror e aversão pelos cristãos, e Sócrates inclusive se manifestou sobre o acontecido: "[Hipátia] caiu vítima do ressentimento político que no tempo prevalecia". Ele descreve, então, os momentos com os quais todos estão familiarizados, da carruagem até a queimada dos restos de Hipátia. "Certamente nada pode ser considerado mais distante do espírito do cristianismo que a concessão de massacres, lutas, e eventos desse tipo", encerra (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII.15). Ele ainda argumenta que vários cristãos acreditavam na calúnia de que ela era a responsável por evitar a conciliação entre Cirilo e Orestes.

À luz desses relatos, é impossível se criar qualquer plano de fundo razoável que justifique a velha crença de que a morte de Hipátia, de alguma forma, fora uma questão de razão contra fundamentalismo religioso. A bela e jovem filósofa retratada como mártir da ciência não é, sob nenhum desses pontos e segundo nenhuma fonte antiga, sustentável. Mas queria eu acreditar que um dia chegará ao conhecimento da maioria dos que a usam como arma anticristã metade dessas informações. E, se chegarem, temo que não cause muita mudança. Já há algum tempo eu tenho insistido em investigar os casos mais polêmicos envolvendo a História da Igreja, e após cada investigação ter terminado eu descubro que praticamente tudo que pregam contra ela é propaganda barata ou, na maioria das vezes, objeções meramente tolas. Mas nunca fiz isso por estar convicto de que mudaria a cabeça de sequer uma pessoa, mas porque a verdade é como ar puro, e precisa estar presente mesmo em lugares desabitados.

Na primeira oportunidade que ouvi sobre Hipátia, recebi exatamente a descrição tão propagada e falsa que aqui tentei combater; e, naquela época, eu não tinha ideia de quem era essa mulher ou se ela merecia a minha admiração. Agora, posso dizer tranquilamente que ela fora uma grande mulher, uma mulher que toda a humanidade merece conhecer. E seria muito mais digno se conhecessem a verdadeira, que é muito mais admirável que a inventada. Mas acredito que as pessoas ainda continuarão a ver em Hipátia uma utilidade na tragédia de sua morte; mas eu finalmente estou livre para ver nela a beleza da aventura de sua vida

David Hart encerra dizendo que ela "foi vítima do que se pode chamar contradição social - uma com que ciência, filosofia ou religião da época nunca tiveram nada a ver". O'Neil encerra mostrando que o filme foi bem recebido e que recebera críticas bastante entusiastas, e que ironicamente o filme Agora mostra quem são os verdadeiros fundamentalistas. "Te faz pensar quem, de fato, são os verdadeiros inimigos da razão", conclui. Maria Dzielska resume Hipátia da seguinte maneira: uma mulher devota ao saber como caminho para o divino, não-pagã e eventualmente simpatizante do cristianismo, que morreu por razões políticas, no contexto de guerras pelo poder.

"Muito provavelmente ela não era uma filósofa original, criativa, mas apenas uma grande erudita do pensamento platônico clássico e tardio. A filosofia era, acima de tudo, o seu caminho de vida para a assimilação do divino. Transportava a visão neoplatônica do mundo e passou-a aos seus discípulos, ensinando-lhes como alcançar altos níveis de virtude ética, e chegar mais perto da perfeição da vida divina. [...] Estava liberta de qualquer inimizade em relação ao cristianismo. Fosse qual fosse o politeísmo que praticava, provinha mais de um sentimento em relação à magnífica tradição grega do que da devoção. O seu helenismo era de natureza cultural e não religiosa. Era a verdadeira filha da grande cultura grega de Alexandria" (Maria Dzielska, O Espelho de Hipátia, em Ípsilon). Enquanto Amenábar viu na morte de Hipátia o marco que iniciaria a "Idade das Trevas", Dzielska argumenta que "a vida intelectual na cidade tornou-se singularmente vigorosa, com toda uma dinastia acadêmica, numerosos filósofos do neoplatonismo religioso, comentadores de Aristóteles, retóricos e gramáticos" (ibid.).

É possível imaginar que a distorção dolorosa e diária da História seguirá implacável pelas caldas da cultura, mas essa dor terrível continuará a afetar apenas aqueles que preferem a embriaguez frequente da ignorância à degustação moderada da sensatez. Essa postagem é um convite para que o leitor duvide não só do caso de Hipátia, mas de todos os casos que têm sido usados para atacar o cristianismo. Que vocês desçam de suas árvores e encararem o leão.


Referências e recomendações:
  1. Hypatia of Alexandria
  2. Saint Cyril of Alexandria
  3. The Mysterious Fate of the Great Library of Alexandria
  4. The Perniciously Persistent Myths of Hypatia and the Great Library
  5. Hollywood Strikes Again
  6. Agora Redux
  7. Agora Redux, Again
  8. A History of Violence: Agora, Hypatia and Enlightenment Mythology
  9. The Dangerous Silliness of the new movie Agora
  10. Fr. Robert Barron on "Agora"
  11. Beware of Agora
  12. Serafina Cuomo
  13. O Espelho de Hipátia
  14. Socrates
  15. Synesius Letters
Notas:
  1. Apesar de tratar-se de uma postagem extensa, ainda há muita informação que eu não traduzi. Portanto, caso surjam dúvidas posteriores, compartilhem nos comentários, e eu tentarei encontrar nas referências uma forma de esclarecê-las.

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