30 de setembro de 2011

O Gênesis antes de Darwin

"No princípio, Deus criou os céus e a terra", Gênesis 1: 1.

Como a história da criação no Gênesis era interpretada antes de Darwin? - em BioLogos Foundation.

Introdução

Muitas pessoas assumem que a teoria de Darwin deve ter abalado a base da fé cristã por causa da forte diferença entre a evolução e a ideia da criação em seis dias. Na verdade, a interpretação literal de seis dias de Gênesis 1-2 não era a única defendida por pensadores cristãos antes da publicação de A Origem das Espécies. As obras de muitos teólogos e filósofos cristãos primitivos revelam uma interpretação do Gênesis compatível com a teoria de Darwin.

Pensamento cristão primitivo

Orígenes, um filósofo e teólogo do século III, em Alexandria, Egito - um dos maiores centros intelectuais do Mundo Antigo - oferece um exemplo do pensamento primitivo sobre a criação. Mais conhecido por Os Princípios e Contra Celso, Orígenes apresenta as principais doutrinas do cristianismo e as defende contra acusações pagãs. Os Princípios apresenta a seguinte perspectiva sobre a história da criação no Gênesis:
"Que pessoa inteligente, eu pergunto, irá considerar uma afirmação racional que no primeiro e segundo e terceiro dia, em que foi dito haver manhã e tarde, existiu sem sol e lua e estrelas, enquanto o primeiro dia estava sem mesmo um céu? [...] Eu não penso que alguém duvidará que essas são expressões figurativas que indicam certos mistérios através de um retrato da história".
Orígenes foi contra a ideia de que a história da criação deveria ser interpretada como uma descrição histórica e literal sobre como Deus criou o mundo. Houve outras vozes antes de Orígenes que defendederam interpretações mais simbólicas da história da criação. A visão de Orígenes também influenciou outros pensadores da Igreja primitiva que vieram depois dele.

Santo Agostinho de Hipona, um bispo da África do Norte durante o começo do quinto século é outra figura central do período. Apesar de ele ser amplamente conhecido pelas Confissões, Agostinho escrevera outras dezenas de obras, muitas com foco em Gênesis 1-2. Em De Genesi ad litteram, Agostinho argumenta que os dois primeiros capítulos são escritos para servir ao entendimento das pessoas daquele tempo.
"Talvez a Sagrada Escritura em seu estilo usual esteja falando com as limitações da linguagem humana ao lidar com homens de entendimento limitado. A narrativa do escritor inspirado trás o caso à capacidade das crianças"
Em ordem para se comunicar de modo que todas as pessoas pudessem entender, a história da criação foi contada de modo simples, alegórico. Agostinho também acreditava que Deus criara o mundo com a capacidade de desenvolver uma visão que é harmoniosa com a evolução biológica.

Pensamento cristão posterior

Há muitas outras interpretações não literais de Gênesis 1-2 posteriores na história. São Tomás de Aquino, um bastante conhecido filósofo e teólogo do século XIII, foi um padre italiano que era particularmente interessado na relação da ciência e religião. Aquino não temia a possível contradição entre a história da criação no Gênesis e descobertas científicas. William Caroll observa:
"Aquino não pensava que a introdução do Gênesis apresentava qualquer dificuldade para as ciências naturais, já que a Bíblia não é um compêndio sobre as ciências. O que é essencial à fé cristã, de acordo com Aquino, é o 'fato da criação, 'não a maneira ou modo da formação do mundo'".
A interpretação de Aquino sobre a história da criação é evidente na Suma Teológica, em que ele responde à questão de que se todos os seis dias da criação são realmente a descriação de um dia único, uma teoria que Agostinho havia sugerido. Aquino não toma lados no debate, mas tenta encontrar harmonia entre as duas visões. Aquino argumenta em favor da visão de que Deus criou todas as coisas para terem potência:
"No dia em que Deus criou o céu e a terra, Ele também criou todas as plantas no campo, não, de fato, efetivamente, mas 'antes que elas brotassem na terra', isto é, potencialmente. Todas as coisas não foram distinguidas e decoradas juntas, não de uma vontade de poder por parte de Deus, como precisando de tempo para funcionar, mas cuja devida ordem pode ser observada na instauração do mundo. Por isso era conveniente que dias diferentes devessem ser atribuídos aos diferentes estados do mundo, como se cada trabalho posterior adicionasse ao mundo um novo estado de perfeição".
Claramente, Agostinho influenciou fortemente a Aquino.

A perspectiva da criação de Agostinho pode ser vista mesmo tão tarde como no século XVIII - pouco antes de Darwin publicar A Origem das Espécies - nas obras de John Wesley. Ministro anglicano e um dos primeiros líderes do movimento Metodista, Wesley, como Agostinho, pensava que as Escrituras foram escritas em termos que servissem ao seu público. Ele escreve:
"O autor inspirado nessa história [Gênesis] ... [escreveu] primeiro para os judeus e, calculando suas narrativas para o estado infantil da Igreja, descreve coisas pelas suas aparências exteriores sensíveis, e nos deixa, por descobertas posteriores à luz divina, para sermos guiados para o entendimento dos mistérios formulados sob elas".
Wesley também argumenta que as Escrituras "foram escritas não para agradar a nossa curiosidade [por detalhes], mas para nos levar a Deus". A teoria de Darwin da evolução biológica não haveria necessariamente entrado em conflito com as perspectivas de Wesley, Agostinho, Aquino, Orígenes e outros, mas a interpretação do Gênesis era apenas um dos problemas em mãos.

No século XIX, o Seminário Teológico de Princeton era conhecido por sua convicta defesa do Calvinismo conservador e absoluta autoridade da Escritura. Talvez o mais notável teólogo de Princeton daquele tempo, B.B. Warfield, aceitara a evolução como oferencendo apropriada descrição científica da origem humana. Ele acreditava que ouvir a voz de Deus nas Escrituras e as descobertas do sólido trabalho científico não estavam em desacordo. Como o historiador Mark Noll expõe, "B.B. Warfield, o mais hábil denfesor moderno da teológica conservadora doutrina da inerrância da Bíblia, também era um evolucionista".

Conclusão

A história do pensamento cristão não tem sido consistentemente dominada por proponentes de uma interpretação literal do Gênesis. Ainda que uma lista comparável de teólogos que acreditaram em uma criação de seis dias pudesse ser feita, os exemplos citados aqui mostram que pensadores cristãos significativos defenderam não literais, mesmo alegóricas, interpretações do Gênesis muito antes da ciência apresentar evidências em seu favor. As descobertas da ciência moderna não devem ser vistas nem como instigadoras de algum abandono na confiança da Escritura, nem como contraditória à Escritura, mas como sinalizações para um entendimento apropriado do significado das Escrituras.

Santo Agostinho oferece seu conselho:
"Em assuntos que são tão obscuros e muito além da nossa visão, nós encontramos na Sagrada Escritura passagens que podem ser interpretadas de formas bastante diferentes sem prejudicar a fé que recebemos. Nesses casos, nós não devemos partir precipitadamente e tão firmemente tomar posição em um lado que, se progresso posterior na busca pela verdade com justiça prejudicar, nós também caímos com ela. Isso seria lutar não pelos ensinos da Sagrada Escritura, mas por nós mesmos, esperando que ensinos dela se conformem aos nossos, enquanto devemos querer que os nossos se conformem aos da Sagrada Escritura".

Experts consultados:
A Fudanção BioLogos é grata pela assistência de Peter Enns e Alister McGrath para esboçar essa resposta.

Original em http://biologos.org/questions/early-interpretations-of-genesis: How was the Genesis creation story interpreted before Darwin?
Traduzido por Vinicius Oliveira.
*Ver citações e notas no artigo original.

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