6 de outubro de 2011

Brasil: terra dos palpiteiros #5

A série Brasil: terra dos palpiteiros foi originalmente criada para analisar o discurso do vlogger Paulo Cézar Siqueira acerca do tema religião, e desde então lidou com alegações expostas em outros vlogs populares, como o de Cauê Moura e o de Daniel Fraga. Essa postagem será a quinta - e provavelmente última - da série, e será destinada a analisar considerações de Yuri Grecco sobre o argumento cosmológico e sobre a Igreja Católica.


Enquanto lia algumas das postagens antigas, notei que por vezes minhas respostas tomaram um tom agressivo, que pode ser facilmente explicado pelo fato de que qualquer ser humano tende a frustrar-se ante bobagens de proporções catastróficas. Tanto o ateu quanto o religioso experienciam esse fato diariamente, o que me livra da acusação de estar sendo simplesmente insensível.

De qualquer forma, há algum tempo passei a perceber que essa agressividade por vezes expressa não beneficia de forma alguma o conteúdo da postagem. Por isso, venho tentando abandoná-la, já que estou sinceramente convencido de sua inutilidade, ainda que, de fato, seja difícil ser sempre suficientemente moderado. Isso pode ser entendido como um pedido de desculpas e como um comprometimento a evitar essa postura nessa postagem que, finalmente, inicio.

Não deixe de conferir, também, as outras quatro postagens da série:
O primeiro vídeo é uma resposta de Yuri a algumas alegações no mínimo confusas - como ele mesmo alerta - de um cristão. O "diálogo" entre eles é irrelevante ao propósito dessa postagem. Em geral, os questionamentos levantados pelo cristão são tolos e mal formulados, e não é minha intenção apoiar nada que ele tenha dito. Aqui quero apenas me preocupar com o que o ateísta diz sobre o argumento cosmológico (quinto minuto do vídeo).



Segundo Yuri, o argumento cosmológico "falha em diversos pontos", e, para ele, é válido ressaltar dois desses pontos: 1. que o argumento parte de uma falsa premissa; e 2. que o argumento recorre à falácia da alegação especial. A premissa falsa é a seguinte: tudo no Universo tem uma causa. A alegação especial é que tudo tem uma causa, menos Deus. Antes de mais nada, não posso deixar de comentar que, ao que tudo indica, o cristão no vídeo sequer sabe o que é o argumento cosmológico, o que torna bastante improvável a hipótese de que esteja defendendo alguma versão do argumento; mas isso é, admito, apenas uma suspeita pessoal.

Novamente, isso é irrelevante. É verdade que, nesse caso, o ateísta não precisaria se preocupar com os "argumentos" do cristão, mas o resultado disso é que foi possível descobrir que havia mais alguém que não sabia o que é o argumento cosmológico. Mas, para ser justo, talvez seja melhor dizer que havia alguém que "não foi cuidadoso o suficiente ao falar do argumento cosmológico", até porque o cristão pedia uma resposta a seus questionamentos, e é nobre que alguém tenha atendido ao pedido. Seja como for, atento à falta de cuidado porque o argumento cosmológico possui variações, e algumas delas são muito mais plausíveis e dignas de atenção que as versões espantalho oferecidas por alguns ateístas, e aqui posso incluir a versão oferecida por Yuri.

Assistindo ao vídeo, não pude deixar de lembrar da versão do argumento cosmológico oferecida pela ateísta Dra. Rebecca Goldstein em seu livro 36 Arguments for the Existence of God, em que ela expõe e refuta 36 argumentos para a existência de Deus. Yuri nos diz que o argumento cosmológico defende a seguinte premissa: tudo no Universo tem uma causa. Já a Dra. Goldstein diz que, segundo o argumento cosmológico, tudo que existe deve ter uma causa. A ideia é a mesma, e a própria refutação é semelhante. Eis o que ela alega ser a falha do argumento: "Se tudo que existe deve ter uma causa, quem causou Deus? Os teístas dizem que suas premissas têm ao menos uma exceção, mas não explicam por que Deus precisa ser a única exceção. O próprio Universo poderia existir sem causa. Já que a responsabilidade precisa ir para alguém, por que não para o Universo?".

Nesse caso, estamos, de fato, diante da falácia da alegação especial, que Yuri corretamente identificou. Porém, antes de prosseguir, gostaria de ressaltar que há duas formas de alegação especial que podem ser identificadas na exposição de Yuri: a primeira cometida pelo cristão e a segunda referente ao próprio modelo de argumento cosmológico oferecido por Yuri. A primeira forma ocorre quando se afirma que o oponente não possui qualificações suficientes para compreender um ponto de vista: é a que ocorre quando o cristão afirma que "Deus não pode ser entendido pelo raciocínio humano". A segunda forma ocorre quando alguém se refere a algo como exceção a uma regra, princípio, etc. geralmente aceitos, sem justificar a exceção.

Assim, se tudo no Universo tem uma causa, por que Deus estaria livre dessa regra? Yuri Grecco e a Dra. Goldstein identificaram a mesma falha no argumento, que se refere à exceção não justificada. Se tudo que existe deve ter uma causa, quem afirma que Deus existe está obviamente se comprometendo com a alegação de que Deus deve ter uma causa, pois:
1. Tudo que existe tem uma causa;
2. Deus existe;
Logo,
3. Deus tem uma causa.
Não há do que discordarmos até aqui: o argumento, se é que serve pra alguma coisa, serve apenas para rejeitar o teísmo. Mas, seria essa, de fato, a versão do argumento cosmológico proposta por São Tomás de Aquino ou atualmente defendida pelos teístas? Segundo o Dr. William Lane Craig, "esse espantalho jamais foi defendido por nenhum filósofo na história do pensamento" - referindo-se à versão oferecida pela Dra. Goldstein.

Isso porque "nenhuma versão do argumento cosmológico encontrada nos trabalhos de seus maiores defensores afirma a premissa (1)  [tudo que existe deve ter uma causa] de Goldstein", o que significa que Yuri estava certo ao declarar que a versão que ele mesmo propôs do argumento cosmológico é equivocada, pois a premissa de que tudo no Universo tem uma causa não só é falsa, como nunca foi defendida por nenhum proponente do argumento cosmológico. "Em vez disso, a premissa apresentada nos argumentos deles será algo como: 1´. Tudo que começa a existir tem uma causa; ou 1´´. Tudo que existe tem uma explicação de sua existência (seja na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa)", diz o Dr. Craig.

Encontramos (1´) no argumento cosmológico kalam e (1´´) na terceira via de Aquino. A versão kalam utiliza evidências científicas para justificar sua segunda premissa: o Universo começou a existir. Isso tornou-se sustentável cientificamente a partir da proposta e aceitação do Big Bang. Ainda assim, não se trata, obviamente, de um argumento científico: é um argumento filosófico que utiliza a ciência apenas para justificar sua segunda premissa:
1. Tudo que começa a existir tem uma causa;
2. O Universo começou a existir;
Portanto,
3. O Universo tem uma causa.
Posteriormente, se argumenta que as características da causa assemelham-se aos principais atributos que reconhecemos em Deus. Objeções plausíveis ao argumento cosmológico kalam podem ser encontradas na obra do Dr. Quentin Smith, que já debateu com o Dr. Craig o tópico "Deus existe?" - a transcrição do debate pode ser acessada nas referências.

A terceira via oferecida por São Tomás de Aquino na Suma Teológica é disposta da seguinte forma, e corresponde a (1´´):
• Encontramos, entre as coisas, as que podem ser ou não ser, uma vez que algumas nascem (pela geração, elas são) e perecem (pela corrupção, deixam de ser, não são mais).
• Mas é impossível ser para sempre o que é de tal natureza: o que pode não ser, não é em algum momento (o que é eterno não pode não ser). Ou seja, o que pode não-ser necessariamente deve ter sido gerado, e aquilo que foi gerado, começou a partir do não-ser.
• Se é verdade que tudo pode não ser, pode ter havido um momento em que nada havia, mas então nada hoje existiria, pois o que não é só passa a ser por intermédio de algo que já é. É necessário, pois, que sempre algo seja.
• Assim, nem todos os entes são possíveis, mas é preciso que algo seja necessário entre as coisas, e tudo o que é necessário tem, ou não, a causa de sua necessidade de um outro.
• Aqui também não é possível continuar até o infinito na série das coisas necessárias que tem uma causa da própria necessidade, como acontece entre as causas eficientes (2ª via).
• Portanto, é necessário afirmar a existência de algo necessário por si mesmo, que não encontra em outro lugar a causa de sua necessidade, mas que é causa da necessidade para os outros: o que chamamos Deus* [ver nota de Edição* no caderno original, listado nas referências].
Craig observa que "Goldstein cria sua premissa (1) confundindo essas duas versões do argumento cosmológico. Ao combinar (1´) e (1´´), ela afirma uma premissa que nenhum proponente do argumento defende, que 'tudo que existe' - retirado de (1´´) - 'tem uma causa' - retirado de (1´)". Esse espantalho me parece bastante popular entre alguns ateístas, e é basicamente o exposto por Yuri Grecco. A mesma versão pode ser encontrada em Deus, um delírio: Dawkins também propõe a mesma questão que a Dra. Goldstein e Yuri, mas de forma um pouco diferente. Ele pergunta: "Quem criou o Criador?".

Não é de meu interesse demonstrar a plausibilidade do argumento cosmológico. Pessoalmente, considero-o o argumento mais forte em favor do teísmo, e a exposição de Yuri Grecco me chamou a atenção por não ter lidado com nenhuma das três versões populares do argumento: kalam, tomista ou leibniziano - defesas dos três modelos podem ser encontradas nas referências. Em vez disso, o vlogger nos apresentou uma versão encontrada apenas em obras ateístas: algo no mínimo curioso, já que é difícil imaginar um ateu que queira fornecer a alguém um argumento que prove a existência de Deus. Fosse esse o caso, o próprio ateísmo de tal pessoa seria um irônico mistério.

Mas eu fiquei particularmente intrigado com as declarações de Yuri ao final de seu vídeo: ele diz que todos os teístas que têm contato com o argumento cosmológico concordam que o argumento é "pura bobagem". Ele ainda afirma que "é impossível tentar enfiar lógica na tentativa de explicar a existência de Deus". Ora, podemos admitir facilmente que todos os teístas que tenham visto tal versão do argumento cosmológico o tenham taxado como "pura bobagem": é exatamente isso que ela é. Porém, essa não é versão do argumento comumente utilizada para se demonstrar a existência de Deus, e é possível que apenas quem pense que ela o seja possa também acreditar que é impossível lidar com a existência de Deus através da lógica.

Finalmente, ele sugere que os teístas abandonem o argumento cosmológico para que se evite a consequente desonestidade intelectual da tentativa de provar logicamente a existência de Deus. Me parece uma sugestão sincera, mas acredito que antes de acusar falhas e desonestidades decorrentes dessas falhas em um argumento, seja igualmente recomendável que se conheça o argumento em questão. A isso chamamos prudência, e sempre tive a forte impressão de que homens verdadeiramente sinceros cometeram terríveis injustiças por terem sido imprudentes.



Agora, falando em terríveis injustiças, é válido tratar de um dos vídeos mais injustos que já vi sobre a Igreja Católica. Basicamente, porque reúne muitos dos preconceitos mais injustos sobre ela. Aqui, é exposto de forma dramática um discurso de ódio; mas, novamente, de um ódio sincero. Eis a descrição do vídeo: "Me desculpem pelos palavrões, mas não conheço forma mais adequada para me referir à Igreja Católica". Não é meu objetivo, nesse momento, opinar sobre os motivos que fizeram brotar esse ódio: é meu objetivo mostrar quais motivos temos para nos livrar dele.

Tudo começa com a iniciativa da Igreja de se aproximar de ateus e agnósticos. A notícia revela que representantes da Igreja se encontrariam com representantes do ateísmo, e já nesse ponto Yuri se manifesta: "eu não votei em ninguém". Talvez ele estivesse brincando, mas se esse fosse o caso, ele não diria que não sabia que descrentes tinham representantes. Ora, um representante não necessariamente é alguém escolhido por voto. O próprio exemplo da Igreja é suficiente para mostrar isso: os fiéis não votam nos padres que representam as suas cidades. Mas isso não significa que os padres não podem ser considerados representantes desses fiéis. É provável que a repulsa de Yuri seja causada por alguma associação entre tal situação com a ideia de uma ateísmo organizado, o que assemelharia o ateísmo a alguma religião. Porém, essa é outra especulação minha, e não há como afirmar algo baseado no pouco que é ali expresso.

Talvez esse não seja um ponto tão importante, pois o importante, de fato, é a sugestão que o vlogger dirige à Igreja. Ele divide a sugestão em oito pontos: 1. que a Igreja devolva todas as propriedades e riquezas usurpadas de famílias inteiras desde a Idade Média; 2. que leve à justiça comum todos os padres, bispos, cardeais, etc. pedófilos e estupradores, em vez de acobertá-los; 3. que indenize povos e culturas destroçados pela Igreja - inocentes, na maioria dos casos; 4. que se desfaça de todos os tesouros e invista em programas de educação sexual; 5. que pague impostos; 6. que se responsabilize pelo auto índice de disseminação de AIDS, especialmente na África e na Índia; 7. que retire toda a sua influência dos atuais avanços científicos, comprometendo-se a não opinar quanto a qualquer procedimento científico; e 8. que não interfira e ou se manifeste quanto a qualquer decisão social, política ou econômica de qualquer país.

Após atender a tais sugestões, conclui ele, poderia se pensar em alguma negociação. Ele encerra comentando sobre uma época que, "não à toa, é chamada de Idade das Trevas": quando a Igreja tinha poder, torturava e matava os descrentes, mas a agora que está em crise, quer aproximar-se dessas pessoas. Eu poderia comentar cada ponto individualmente, bem como o encerramento, mas alguns pontos podem ser tratados em conjunto - ou podem simplesmente ser ignorados. Antes disso, gostaria de comentar a única objeção necessária a todo o conteúdo do vídeo: Yuri não oferece evidências que apoiem nenhum de seus oito pontos. Ele simplesmente alega, mas não demonstra. Isso fica muito claro já no primeiro item: de que famílias a Igreja tomou propriedades e riquezas? Além disso, para alguém tão familiarizado com falácias, soa bastante traioçoeira a seguinte afirmação: "Só existem dois tipos de padres: pedófilos e acobertadores de pedófilos".

Ora, eu poderia muito bem gritar contra as injustiças cometidas pelos regimes comunistas, mas o mínimo que se esperaria de minha parte seria o apropriado detalhamento de quais injustiças, bem como as devidas provas de que tais injustiças aconteceram. Se estamos diante de fatos garantidos, isso será o menor dos problemas. Da mesma forma, posso afirmar que há apenas dois tipos de ateus: os assassinos e os que apoiam assassinatos. Quão absurda soa tal generalização? É possível que a fúria tenha atrapalhado o raciocínio de Yuri, e o produto disso foi algo extremamente lamentável. Tão lamentável que torna intrigante o fato de que pouquíssimos espectadores tenham levantado a voz contra essa óbvia imbecilidade. E aqui não digo "imbecilidade" recorrendo àquela agressividade que prometi abandonar, mas pelo motivo evidentemente justificável de não haver maneira mais adequada de referir-me a essas acusações.

Enfim, posso iniciar tratando das acusações 1. e 3., referentes a famílias, povos e culturas que sofreram pelas mãos da Igreja. O fato de não haver ali a mínima especificação ou a exposição de quaisquer evidências que suportem os eventos citados deveriam ser suficientes para descartarmos a objeção, mas vamos partir dos séculos em que a Idade Média realmente sofreu de um terrível retrocesso e assalto à cultura: qual foi o papel da Igreja nesse cenário? O historiador Thomas Woods escreve: "Quanto aos séculos VI e VII [...] restam poucas dúvidas de que foram marcados por um retrocesso cultural, como se pode observar na educação, na produção literária e em outros âmbitos semelhantes. Terá sido culpa da Igreja?". Segundo Woods, o historiador agnóstico Will Durant "defendeu a Igreja dessa acusação, atribuindo a causa do declínio não a ela - que fez de tudo para impedi-lo -, mas às invasões bárbaras do fim da Antiguidade" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 12).

Durant escreve: "A principal causa do retrocesso cultural não foi o cristianismo, mas a invasão bárbara; não a religião, mas a guerra. Os aluviões humanos arruinaram ou empobreceram cidades, mosteiros, bibliotecas, escolas, e tornaram impossível a vida dos estudantes e dos cientistas. Mas a ruína talvez fosse muito maior se a Igreja não tivesse mantido uma certa ordem em uma civilização que se desintegrava" (Will Durante, Caesar and Christ, pág. 79). Quão bem encaixa essa descrição às acusações que Yuri faz contra a Igreja?

O historiador Christopher Dawson argumenta que esses povos consideravam o homicídio uma ocupação honrosa, e que viam na vingança uma forma de justiça. Woods explica que "o impacto das incursões bárbaras sobre o Império Romano variou de acordo com cada tribo germânica. Os godos [...] não eram hostis aos romanos [...]. Já os vândalos nutriam uma inimizade implacável por tudo o que não fosse germânico: saquearam a cidade de Roma no século V e depois conquistaram o norte da África, instaurando ali uma autêntica política de genocídio". Quando os visigodos saquearam Roma, em 410, São Jerônimo manifestou-se: "Um terrível rumor chega do Ocidente. Roma está cercada. Os cidadãos salvam a vida a troco de ouro, mas, depois de espoliados, voltam a ser sitiados e perdem a vida depois de terem perdido as riquezas. Não consigo continuar, os soluços interrompem o meu ditado. Foi tomada a Cidade que tomou o mundo inteiro" (Jocelyn N. Hillgarth, Christianity and Paganism 350-750: the conversion of Western Europe, pág. 69)

Após o quase desaparecimento da ordem política e o Império Romano do Ocidente se resumir a retalhos de reinos bárbaros, "bispos, sacerdotes e religiosos lançaram-se a reestabelecer sobre as ruínas os alicerces da Civilização" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 13). Eu poderia, nesse momento, falar sobre as conquistas da Idade Média, começando pela conversão dos bárbaros, falando sobre como os monges preservaram o conhecimento, salvaram bibliotecas e traduziram e copiaram obras de inestimável valor; talvez até sobre como revolucionaram as artes práticas e como quase promoveram uma revolução industrial precoce. Mas tudo isso pretendo comentar em uma outra postagem que planejo, e acredito que essa breve exposição seja mais que suficiente para descartar o que Yuri, de forma notavelmente frágil, tentou empurrar pela garganta de quem o assiste.

Mas ainda há outra ideia a considerar: a ideia de que a Igreja, por ser a única instituição presente em muitos eventos antigos da História, foi o agente de praticamente todos os eventos ruins que a civilização experienciou; ou que, no mínimo, permitiu alegremente o desenrolar desses eventos. Assim, enquanto a Igreja é completamente culpada por instaurar o tribunal da Inquisição ou promover as Cruzadas, também é parcialmente culpada por ter apoiado a colonização dos índios ou o partido nazista. O acobertamente de casos de pedofilia é apenas a versão atualizada de velhas fórmulas do anti-catolicismo dos últimos séculos. E imagino que o notável sucesso que essas fórmulas conseguem atualmente deva-se ao fato de as pessoas de hoje gostarem de parecer socialmente engajadas.

Parecer socialmente engajado é, no entanto, completamente diferente de sê-lo na prática, e essa é a maior lição que essa falsa preocupação pode nos dar. As pessoas fingem se preocupar com os pobres, e por isso denunciam o Vaticano, que parece banhado a ouro. Mas essas mesmas pessoas não se prestam a oferecer um biscoito a uma criança de rua, pois se elas realmente se preocupassem com os pobres, saberiam que, em um mundo em que os pobres eram considerados inferiores aos ricos - seres humanos literalmente inferiores -, a Igreja se prestou a defender que o pobre era igual ao rico: e não ficou só no discurso. A Igreja ajudou os pobres, e fez isso tão bem que conseguiu mostrar a todo o mundo que muitos pobres eram tão dignos quanto alguns ricos, e que às vezes - ou mesmo na maioria das vezes - eram até mais dignos. Para ser justo, devo dizer que, até um tempo atrás, mesmo um anti-católico arrogante seria capaz de admitir que era possível encontrar pessoas boas na Igreja, ainda que muitas pessoas na Igreja fossem, de fato, odiáveis: o mais devoto católico concordará com essa ideia.

Mesmo Voltaire, um dos mais populares propagandistas anti-católicos era capaz de entender essa simples e óbvia realidade. Ele escrevera: "Talvez não haja nada maior na terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana, cuja vista causa tanta aversão a nossa sensibilidade. Tão generosa caridade tem sido imitada, mas de modo imperfeito, por gente afastada da religião de Roma" (Michael Davies, For Altar and Throne: the rising in the Vendee, pág. 13). Mas o anti-católico de hoje olha para a dedicação que tivera a Madre Teresa de Calcutá e só consegue imaginar que talvez ela estivesse ganhando muito dinheiro para fazer o que fazia. E o mais trágico sobre o anti-católico de hoje é que ele pensa que mulheres assim foram raras e estão extintas; ele pensa até que homens assim nunca existiram. Consequentemente, ele critica uma Igreja que nunca existiu, e posso apenas imaginar o quão doloroso seria saber a verdade sobre a Igreja que realmente existiu.

Ele descobriria que não apenas a Igreja pregou a caridade, mas foi caridosa desde que foi fundada. A Igreja foi tão caridosa que ensinou o mundo a ver que a caridade era uma virtude. A maioria das pessoas, por exemplo, admira as ideias de Platão sem se preocupar com o fato de que ele sugeriu que um homem que estivesse muito doente para trabalhar deveria ser deixado para morrer. Então, quando a Igreja Católica ajudou o doente que já estava abandonado e gritou para o mundo todo ouvir que nenhum homem poderia ser abandonado - nem mesmo os nossos inimigos -, algo divertido aconteceu: os anti-católicos puseram suas mãos sobre suas orelhas. Essa, obviamente, é a reação de qualquer pessoal ao ouvir algo que a irrita, mas o problema do anti-católco de hoje seria facilmente resolvido se ele ousasse abrir os olhos.

Dois mil anos atrás era comum relatar-se a indiferença das pessoas, às vezes com os próprios amigos. Moribundos eram abandonados à beira de estradas e a prática do infantifídio era tida como aceitável. Hoje, as notícias de bebês abandonados em lixeiras chocam o mundo e as famílias que entregam seus familiares de forma indiferente aos cuidados de um asilo são repudiadas. Mas o que é realmente curioso é que poucas pessoas se questionam sobre a forma que questões cotidianas foram tão combatidas a ponto de serem quase erradicadas. O mundo passou a vê-las com outros olhos, e ainda assim o mundo não entende o que o levou a desviar seu olhar. Parece razoável supor que essas pessoas pensem que tudo aconteceu em um passe de mágica, mas logo descobrimos que essas mesmas pessoas não acreditam em mágica.

Quando muitos anti-católicos ouvem que a moralidade praticada no Ocidente foi moldada pelo cristianismo, eles negam a afirmação lembrando de algumas ideias de uns filósofos que passaram pelo mundo muito antes de Cristo dar seus primeiros passos em Nazaré. O que eles não lembram ou não sabem é que para que o mundo seja transformado é necessário algo além da simples ideia de transformação. Quando lembram da compaixão de Confúcio, podem até lembrar da compaixão dos apóstolos: mas não entendem que o Ocidente foi transformado pelo sangue dos apóstolos, e não pelas simples ideias que o Mestre dos apóstolos os havia ensinado. E se os apóstolos deram seu sangue por algum ideal, foi também porque seu Mestre havia feito a mesma coisa por eles.

Mais cedo que qualquer anti-católico de hoje, os apóstolos souberam que transformar o mundo requer algo que a mera ideia não era capaz de oferecer. Eles lutaram por essa transformação e o mundo os tratou de modo frio: mas o coração de muitos foi tocado, e logo o que começou com doze se tornara uma incontável multidão: essa multidão podia, de fato, mudar o mundo, e se multiplicou cada vez que aceitou esse desafio. O que vemos hoje nada mais é que uma repetição dessa realidade histórica: a Igreja luta por um ideal e o mundo lhe desfere golpes em todas as partes atingíveis; mas, curiosamente, o ideal continua inabalável, e o ódio do mundo apenas cresce. A Igreja sangra diariamente, mas não cai; e o mundo se desgasta na incansável busca de encontrar o melhor ângulo para levá-la ao chão.

Os próprios comunistas entenderam que a simples ideia não bastava para a mudança, e por isso lançaram-se pela revolução. A única diferença entre o comunismo e a Igreja é que ele quis mudar o mundo à custa do sangue dos inocentes, enquanto a Igreja o mudou às custas do próprio sangue. E é muito fácil perceber o terrível fracasso do comunismo, enquanto poucas pessoas chamariam de fracasso tudo que a Igreja construiu. Há algum tempo notei que muitas das pessoas que chamam a história do cristianismo de fracasso são as mesmas que acreditam sinceramente que as contribuições do cristianismo para humanidade se restringem às artes plásticas ou algo que não vai muito além da arquitetura, o que equivale a eu declarar que a maioria dos Imperadores de Roma eram calvos baseando-me exclusivamente em Sérvio Sulpício Galba.

Acredito que escrevi mais do que deveria, e já devo estar perdendo o foco, por isso me limitarei a responder às objeções de Yuri. Quando ele sugere que a Igreja se desfaça de seus tesouros, me faz pensar que ele talvez seja uma dessas pessoas que possuem tanto conhecimento acerca da história do cristianismo quanto eu possuo acerca da calvice dos Imperadores. É possível que ele pense que algumas das chamadas riquezas do Vaticano estejam registradas no nome de algum clérigo misterioso. Também é possível que pense que essas riquezas estejam lá para entreter o Papa e seus casuais convidados.

Não passa pela cabeça do vlogger que talvez essa riqueza não possa ser vendida: que ela seja patrimônio da humanidade, bem como muitas outras obras valiosas de outros lugares são. Não passa pela cabeça dele que a definição apropriada desse patrimônio não é riqueza no sentido de um bem material de alto valor monetário, mas no sentido de um bem de alto valor simbólico para toda a espécie humana. Não passa pela cabeça dele que talvez a estima que se tem pela obra de Michelangelo no teto da Capela Sistina exista, em boa parte, por tratar-se de uma obra de Michelangelo no teto da Capela Sistina. Não passa pela cabeça dele que dinheiro não é capaz de resolver os problemas da humanidade, e que, ainda que fosse esse o caso, o Vaticano não poderia oferecer grande ajuda, já que apresenta déficit orçamentário há três anos consucutivos: e isso não é inédito. O Vaticano acredita que a oração talvez ofereça mais conforto que o dinheiro, mas o ateu acredita que a oração é a melhor forma de não fazer nada e pensar que está ajudando.

Suponho que esperar que o anti-católico tenha realmente refletido sobre o que ele chama de riquezas do Vaticano signifique dar crédito demais a ele, já que ele talvez pense que tudo que reluz é ouro. É razoável, por outro lado, esperar que ele apele à última objeção possível: que o que a Igreja fez de bom pela humanidade seja muito pouco se comparado ao que ela fez de ruim. Mas, novamente, essa é a objeção que só seria levantada, por exemplo, por alguém que acredita que só existem dois tipos de padres - os pedófilos e os acobertadores de pedófilos -; e isso me lembra que ainda não tratei desse tema.

Felizmente, a pedofilia na Igreja é um ponto que não exige muito do cérebro humano. A primeira observação a se fazer, é que as pessoas pensam ser algo que começou a acontecer há poucos anos. As pessoas evitariam essa impressão se atentassem para o fato de que a Igreja nunca esteve livre das populares heresias. O que as heresias demonstram é que o caminho do cristianismo nunca esteve livre de pedras, e que em boa parte do caminho essas pedras estavam dentro da própria Igreja - e até hoje é isso que se nota. Membros do Clero e leigos que cometeram atrocidades dentro da Igreja eram, no passado, tão reais quanto são hoje. Mas tudo isso só pode ser usado contra a Igreja por pessoas verdadeiramente imbecis, e, insisto, não digo isso para que pareça uma ofensa.

Acontece que, em primeiro lugar, essas pedras no caminho da Igreja nunca chegaram ao ponto de fazer com que sua carruagem abandonasse sua rota, e é fácil imaginar que não são necessárias muitas pedras para machucar alguns cavalos. O fato é que sempre houve muito mais cavalos puxando a carruagem do que pedras lhes impedindo de caminhar: é, de novo, a ideia que mesmo Voltaire entenderia sem muito esforço. Os membros da Igreja sempre foram, normalmente, pessoas como nossas velhas e adoráveis avós, que ainda hoje são parte dos grupos mais devotos da maioria das paróquias. Pode-se admitir que o anti-católico de hoje pense que a própria avó fora uma maníaca em sua juventude, mas não se pode admitir que ele pense que todas as avós foram maníacas.

Quando olhamos para qualquer grupo de pessoas, notamos que é mais provável que haja mais pessoas honestas do que corruptas entre esse esse grupo, a menos que trate-se, obviamente, de um grupo de políticos - e mesmo nesse caso é possível que isso aconteça. Dessa forma, não seria preciso lembrar que a maioria dos membros da Igreja são pessoas honestas: o que é preciso ressaltar é que essa honestidade não se limita às nossas avós. Padres, bispos e papas são tão humanos quanto aqueles que sentam no banco de trás para assistir à Missa, e, embora alguns deles eventualmente tenham negligenciado o próprio cristianismo que os acolheu, isso nunca esteve perto de ser o caso da maioria desses padres, bispos, etc. Nem mesmo hoje, que as coisas parecem tão catastróficas, isso é diferente.

Chesterton escrevera que o mundo não estava ficando pior, mas que os meios de comunicação simplesmente estavam ficando melhores: isso não só é verdadeiro, como explica todo o drama acerca da pedofilia na Igreja. A verdade é que os casos de pedofilia na Igreja sempre foram algo muito menor do que quiseram nos fazer acreditar. O exemplo dos Estados Unidos pode ilustrar o que digo: "a Conferência Episcopal encomendou um estudo independente ao John Jay College of Criminal Justice", uma das maiores autoridades em criminologia dos EUA. O estudo revelou que "de 1950 a 2002, num universo de 109.000, 4.392 sacerdotes americanos foram acusados de ter relações sexuais com menores", ou seja, 4,0% - um número obviamente pequeno, o que já seria suficiente para descartar todo o alarde que se faz sobre os terríveis "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica.

Talvez um plano de fundo sirva para evidenciar melhor o motivo de as acusações serem inapropriadas: "No mesmo período em que uma centena de sacerdotes americanos era condenada por abuso sexual de menores, o número de professores de educação física e técnicos de equipes esportivas juvenis – também esses em sua maioria casados – julgados culpados do mesmo delito pelos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos poderiam continuar, não só nos EUA. E, sobretudo, segundo os relatórios periódicos do governo americano, cerca de dois terços das doenças sexuais de menores não são transmitidas por estranhos ou professores – incluindo padres e pastores protestantes – mas por familiares: padrastos, tios, primos, irmãos e, infelizmente, também, pais".

O estudo ainda mostra que "pouco mais de uma centena foram condenados por tribunais civis. O baixo número de condenações por parte do Estado deriva de diversos fatores. Em alguns casos as verdadeiras ou supostas vítimas denunciaram sacerdotes já mortos, ou foram consumados os prazos de prescrição. Em outros, à acusação e à condenação canônicas não corresponde nenhuma violação a qualquer lei civil: é o caso, por exemplo, em diversos Estados americanos, do sacerdote que tinha uma relação consensual com uma – ou mesmo um – menor com mais de 16 anos. Mas também aconteceram muitos casos clamorosos de sacerdotes inocentes acusados. Esses casos foram multiplicados nos anos 1990, quando alguns escritórios de advocacia perceberam que poderiam obter transações milionárias com base em meras suspeitas".

E quanto às medidas e novos casos, lemos que "em relação aos EUA as cifras não se alterariam de forma significativa se somássemos o período 2002-2010, pois o estudo feito pelo John Jay College já observava o 'declínio claríssimo' dos casos no ano 2000. Os novos inquéritos são poucos, e as condenações, pouquíssimas, graças a medidas rigorosas introduzidas seja pelos bispos americanos, seja pela Santa Sé". Aqui é oportuno levantar minha segunda e terceira objeções às ascusações contra a Igreja: dizem que o Clero nunca tomou medidas para erradicar o problema da pedofilia, mas isso sempre foi o contrário da realidade: a única afirmação cabível é que quem acusa o Clero de não tomar medidas contra a pedofilia nunca passou dez minutos da vida investigando o assunto de forma apropriada. Depois, temos ainda o fato de que boa parte das pessoas "tão preocupadas" com o abuso sofrido por menores normalmente desconhecerem os escândalos fora da Igreja.

Isso, obviamente, se explica pela pouca ênfase que a mídia dá a esses casos; mas, principalmente, ao fato de aquele engajamento social do qual já falei ser, na maioria dos casos, algo que não existe: as pessoas simplesmente querem parecer preocupadas, mas só parecem realmente preocupadas quando leem alguma notícia no jornal ou quando visam montar um caso cumulativo contra a Igreja, e o fazem utilizando esse mesmo jornal. Muitos dos que se mostram tão chocados com os escândalos de pedofilia da Igreja nunca ouviram falar dos escândalos de pedofilia da ONU, por exemplo. Em documento entitulado The under-reporting of child sexual exploitation and abuse by aid workers and peacekeepers, a entidade britânica Save the Children reportara que "crianças que vivem em áreas atingidas por conflitos ou desastres continuam sofrendo abuso sexual por parte de funcionários de ONGs e membros de tropas de paz [...]. As tropas de paz da ONU 'são uma fonte particular do abuso em várias localidades, especialmente no Haiti e na Costa do Marfim'". Mais notável que a ignorância popular acerca dessas informações é o fato de que esses casos não são casos novos, e mesmo assim são poucos os "socialmente engajados" que levantam a voz contra esses abusos.

Vale ressaltar que, segundo Carina Charky, autora do documento, a maioria dos casos não é denunciada e [...] os responsáveis seguem impunes". Assumo que isso deveria ser muito mais chocante que o que ocorre na Igreja Católica, uma vez que a Igreja sempre se mostrou rigorosa no combate à pedofilia, a exemplo do declínio de casos nos EUA ou das Normas sobre os crimes mais graves, apresentadas por Federico Lombardi em 2010. E isso me leva à minha quarta objeção necessária: a má interpretação da palavra acusação. Pois é possível que o anti-católico argumente que o próprio Papa Bento XVI fora acusado de acobertar casos de pedofilia. E o problema é que boa parte das pessoas não percebe que uma acusação não caracteriza um fato, e que muitas vezes não significa nada. Eu posso muito bem acusar meu vizinho de ser o responsável pelas folhas que sujam meu quintal, alegando que elas caem de alguma árvore que o pertence. Mas os fatos de haver uma árvore no meu próprio quintal e de não haver árvore alguma no quintal de meu vizinho não me impedem de acusá-lo, e a origem das folhas que caem no meu quintal é tão escandalosa quanto os casos de pedofilia na Igreja: trata-se de um ou mais indivíduos demasiadamente preguiçosos - física ou mentalmente - querendo botar a culpa de algo em alguém que poderia ser culpado, mas a quem as evidências não parecem culpar de forma alguma.

Além disso, os jornais frequentemente reportam que Bento XVI "novamente é acusado de acobertamento", mas não explicam que trata-se de uma só acusação repetida várias vezes. A mesma acusação da terça-feira refeita na quinta-feira não caracteriza um novo caso, mas o mais importante é que nenhuma acusação deve ser levada adiante na ausência de provas: ninguém deve ser condenado na ausência de provas para a condenação. Isso é o resumo do que acontece contra o Papa, cujo caso refere-se a um episódio de abusos na Arquidiocese de Munique. "Veio à tona em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em 1986; no julgamento ficou provado, entre outras coisas, que a decisão de acolher na arquidiocese o sacerdote em questão não foi tomada pelo cardeal Ratzinger e não era sequer do seu conhecimento". Disso, entre outras coisas, tentou-se promover a prisão do Papa, como aconteceu na Inglaterra, por iniciativa de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, que o acusavam de crimes contra a humanidade. A desonestidade que isso revela torna-se mais trágica quando se descobre que o acusado do crime nunca foi condenado pela justiça comum, o que torna intrigante a mera possibilidade de se condenar o acobertamento do crime. Essas são minhas quatro objeções necessárias sobre a pedofilia na Igreja, mas, a quem interessar, possuo outros pares.

Quanto às sugestões restantes de Yuri, pouco precisa ser dito. Sobre a disseminação da AIDS, bastaria alertá-lo, se possível, do que disse o médico e antropólogo Edward Green, diretor do APRP (Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS) e uma das maiores autoridades mundiais no estudo das formas de combate à expansão da AIDS: "as evidências que existem apontam que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África". Ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. Ao Ilsuodiario, afirmou: "O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos 'risco compensação' [...]. Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, freqüentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa".

Na melhor das hipóteses, isso revela que quem precisa investir em educação sexual é o próprio Yuri, que na cega e devota tentativa de condenar a Igreja, dá-nos um verdadeiro motivo para querer libertá-la de quaisquer algemas, principalmente das algemas de meros preconceitos. Ademais, o Papa defende um conceito que os ateus costumam ter dificuldade em entender: trata-se da castidade. Na lógica de muitos ateístas, não recomendar o uso da camisinha implica em recomendar o sexo desregrado; e o curioso é que o cristianismo sempre teve muitas regras acerca do sexo, inclusive a de que ele só é lícito após o casamento, e exclusivamente entre marido e mulher. 

Finalmente, chego às últimas sugestões de Yuri, de que a Igreja deveria calar-se acerca de avanços científicos, e também sobre qualquer decisão política, econômica ou social de qualquer país. Ora, se essa análise deixou algo claro, espero que tenha sido o fato de que o único que deveria se calar acerca de todos esses pontos é o próprio Yuri, que, além de não ter fornecido evidências para nenhuma de suas alegações, tratou a Igreja de forma ofensiva e recorreu explicitamente a falácias e generalizações no mínimo cômicas. A Igreja deveria se calar se estivesse errada sobre aquilo que comumente fala, mas parece que a Igreja costuma estar certa sobre o que diz, e ainda que seja difícil admitir essa possibilidade, tratarei com mais seriedade aquele que, antes de mim, também buscar ser o mínimo sério.

É desnecessário ressaltar que Yuri sequer sabe o que é um herege - fato que ele admitiu no vídeo ao qual respondi em uma postagem entitulada Challenge Accepted -, e por isso termina seu discurso alegando que a Igreja torturou e queimou os descrentes que a ela se opuseram. Minha resposta, que gentilmente o enviei, talvez ainda não tenha sido lida por ele - possibilidade que eu admiti ser plausível, devido à falta de tempo de Yuri e pelo próprio tamanho da resposta. Mas se ele a leu, deve saber, para o seu alívio, que um herege não é um descrente, e que a Igreja nunca se aproveitou de poder algum para perseguir quem dela discordasse. Quanto a acusação de que a Idade Média não à toa é chamada de Idade das Trevas, é algo que, como disse anteriormente, responderei de forma definitiva em uma postagem futura.

O dramático discurso de Yuri contra a Igreja revela algo que me atingiu com enorme força e veracidade. Uma frase do falecido bispo norte-americano Fulton Sheen: "Não há mais de cem pessoas [...] que odeiam a Igreja Católica. Há milhões, no entanto, que odeiam o que elas erroneomente pensam ser a Igreja Católica, o que é, obviamente, uma coisa bastante diferente". O caso de Yuri Grecco parece ilustrar perfeitamente o drama que muitas pessoas sinceramente experienciam, e a minha maior esperança é que chegue o dia em que eles descubram o quanto estão errados. Se eu pudesse voltar no tempo e reviver o dia em que isso aconteceu comigo, passaria os minutos que antecederam ao momento pulando com enorme alegria.


Referências e recomendações:
  1. Special Pleading (I)
  2. Special Pleading (II)
  3. Suma Teológica: a existência de Deus
  4. 36 argumentos para a existência de Deus
  5. Goldstein on the cosmological argument
  6. Objections to the Causal Principle
  7. Whatever begins to existe has a cause
  8. The caused beginning of the Universe
  9. God and the Initial Cosmological Singularity
  10. Leibniz: Principle of Sufficient Reason
  11. William L. Craig vs Quentin Smith: Does God Exist?  
  12. In defense of the kalam cosmological argument 
  13. Quentin Smith: Causation and the logical impossibility of a Divine Cause
  14. The Blackwell Companion to Natural Theology
  15. Quem criou o Criador? 
  16. Déficit orçamentário no Vaticano
  17. As riquezas do Vaticano
  18. The U.N. sexual scandal 
  19. ONG denuncia abusos de crianças por tropas de paz
  20. Vaticano anuncia normas rígidas contra pedofilia
  21. Hitchens contra o Papa
  22. John Jay College sobre pedofilia na Igreja
  23. Papa e especialistas sobre a camisinha
  24. How the Catholic Church Built Westerm Civilization
  25. What's So Great About Christianity
  26. Caesar and Christ
  27. Christianity and Paganism, 350-750
  28. For Altar and Throne
  29. Challenge Accepted
  30. Thank God for the Four Horsemen
  31. Grandes mitos sobre a Igreja Católica
  32. A caridade católica
  33. Os monges
  34. Reasonable Faith
  35. Ortodoxia
  36. Para entender a Idade Média
  37. The Autumn of the Middle Ages
  38. Those Terrible Middle Ages
  39. God and Reason in the Middle Ages
Notas:
  1. É um fato curioso que, em um vídeo em resposta a Myrian Rios - http://www.youtube.com/watch?v=F8KEgkivSDA -, Yuri demonstra indignação porque a deputada generalizou os homossexuais como pedófilos, o que obviamente causa indignação. Porém, a generalização que ele fez quanto aos padres foi ainda mais exagerada e igualmente injusta, o que acaba revelando mais uma incoerência no julgamento do vlogger.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More