9 de outubro de 2011

"Supostamente"

Eis a resposta automática dada por um grande número de ateus quando questionados sobre os crimes cometidos por ateístas ao longo da História. São os que vão além daqueles que simplesmente negam um vínculo entre o ateísmo e o comunismo: não admitem sequer que os ditadores comunistas sejam associados ao ateísmo. Assim, os crimes comunistas foram cometidos por "supostos ateus" - e é impressionante o quanto a palavra supostamente aparece nos discursos ateístas. Certamente, antes que possamos ter certeza, nenhuma conclusão pode ser tomada, e é justamente nesse ponto que precisamos perguntar: é possível ter certeza? Essa postagem pretende lidar com essa questão e com outros problemas a ela relacionados.

Parece haver uma atitude um tanto injusta que parte de alguns ateístas preocupados em livrar o ateísmo da responsabilidade de ter participado de eventos que derramaram sangue inocente ao longo da História. Acredito que isso aconteça, principalmente, pelo fato de que muitos desses ateístas costumam usar esse mesmo tipo de evento para rejeitar algumas religiões: podem, por exemplo, rejeitar o cristianismo por causa da Inquisição e Cruzadas; ou o islamismo por causa da Jihad. Independente do fato de que muitos desconhecem o que, de fato, foram esses eventos que utilizam para acusar de sanguinária a alguma religião, por vezes desconhecem, também, a motivação por trás dos regimes ateístas do século passado.

Essa tentativa de livrar, a qualquer custo, o ateísmo de ter sido responsável por mortes e destruição revela um comportamento que seria muito mais fácil de compreender se viesse de religiosos - que normalmente estão comprometidos a defender sua religião. O fato de ateus terem cometido crimes terríveis contra a humanidade não deveria preocupar o ateu, já que, evidentemente, o mero ateísmo não implica em ideologia alguma. Ora, nem mesmo no caso dos religiosos as Cruzadas ou a Jihad deveriam preocupar o cristão ou o muçulmano, uma vez que eles, em sua grande maioria, não andam com bombas em sua cintura ou serviram em uma guerra que já terminou muitos séculos atrás.

Portanto, minha primeira consideração é que o ateu preocupado em livrar o ateísmo de qualquer acusação referente a crimes ateístas ao longo da História sugere um ateísmo que toma forma de religião, ou seja, preocupa-se com a defesa de algo que não precisa ser defendido, como se existisse uma obrigação moral com algo que reconhecidamente não pressupõe nenhuma defesa ou obrigação. Ateísmo não pressupõe moralidade, o que não significa dizer que o ateu é imoral. Ateísmo não pressupõe virtudes, o que não significa dizer que o ateu não possui virtudes. Significa apenas que o fato de um indivíduo ser imoral ou ser virtuoso independe do fato de ele ser ateu. O ateu é, como imagino que todos os ateus concordarão, apenas o indivíduo que não acredita na existência de Deus.

Assim, é possível entender que os crimes de um ateu não podem, em hipótese alguma, ser utilizados para culpar outros ateus, pois o ateísmo não é uma instituição que compartilha um dever-ser aplicável a todos os membros dessa instituição. O fato é que ateísmo não pressupõe dever-ser algum: é neutro quanto a qualquer aspecto moral. Culpar um bom ateu pelos crimes de Stalin equivale a culpar um prato limpo pelo gosto ruim do arroz. Não é contra essa ideia que pretendo escrever nessa postagem.

Meu objetivo é averiguar até que ponto o ateísmo pode ser identificado e considerado a motivação de crimes ateístas que alguns ateus insistem em tratar como livres de qualquer aversão religiosa, isto é, livre de qualquer motivação antirreligiosa. Então, pode, afinal, o ateísmo ter sido a motivação dos regimes comunistas? Os religiosos perseguidos nesses regimes foram perseguidos por pertencerem a alguma religião? O que dizer quanto aos ateus que também foram perseguidos por esses regimes?

Espero que eu tenha sido claro ao dizer que ateísmo não implica em uma ideologia de sorte alguma. Logo, o ateísta não está, obviamente, comprometido com qualquer ideologia que porventura seja ateísta. Nem todo ateu é comunista, ainda que todo comunista seja ateu - não discuto aqui a questão dos religiosos que se dizem comunistas, já que me interessa apenas o comunismo como exposto por seus idealizadores. Estando isso claro, imagino que o ateu não sentirá ser necessário me acusar de estar cometendo alguma generalização.

Enquanto muitos ateus sabem, por exemplo, que Marx via a religião como algo desprezível, acreditam que sua visão sobre a religião desempenhava um papel secundário ou irrelevante à concepção do comunismo. Mas esse não era o caso! Na introdução de A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right, escrevera: "Para a Alemanha, a crítica da religião foi essencialmente completada, e o crítica da religião é o pré-requisito de toda crítica. A profana existência do erro é comprometida logo que sua celeste oratio pro aris et focis ["discurso para os altares e lares", i.e., por Deus e pelo país] é refutada" (Karl Marx, A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right, publicado originalmente em Deutsch-Französische Jahrbücher, 1844).

A ideia fundamental de Marx visa libertar o homem da autoridade divina, da limitação do agir que essa autoridade representa. Removendo Deus, o certo e o errado deixam de ser valores objetivos e passam a depender da autoridade do homem: a relativização da moral é crucial para o sucesso do comunismo; o homem decide o que é certo, e nenhuma autoridade transcendental pode impedi-lo de lutar pela sua causa acusando-o de lutar por uma causa ruim. Ruim é o que se opõe à revolução; bom, o que a beneficia. Em 1894, Engels escrevia: "Tanto o cristianismo quanto o socialismo pregam salvação futura da servidão e miséria; o cristianismo situa essa salvação em uma vida de outro mundo, posterior à morte, no céu; o socialismo a situa nesse mundo, na transformação da sociedade" (Frederick Enges, On the History of Early Christianity, publicado originalmente em Die Neue Zeit, 1894).

"A abolição  da religião como a felicidade ilusória das pessoas é a exigência para a verdadeira felicidade delas", escreveu Marx no já citado artigo de 1844. "A crítica da religião desilude o homem, fazendo com que ele pense, aja e molde sua realidade como um homem que descartou suas ilusões e recuperou seu juízo, para que ele então se mova em volta dele mesmo como seu próprio e verdadeiro Sol. A religião é apenas o Sol ilusório que gira em torno do homem contanto que o homem não gire sobre si mesmo" (ibid.). A ideia de que o ateísmo é a condição para libertar o homem dos limites impostos por Deus não estão apenas implícitos no discurso de Marx; ele defendeu essa ideia sem o menor receio, como se pode averiguar em vários momentos de diversas obras suas.

"A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, poder material deve ser derrubado por poder material; mas teoria também se torna poder material logo que se apodera das massas. Teoria é capaz de apoderar-se das massas quando argumenta e demonstra ad hominem, e argumenta e demonstra ad hominem quando se torna radical; ser radical é atacar a raiz do problema. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, consequentemente, de sua energia prática, é que resulta de uma resoluta positiva abolição da religião. A crítica da religião termina com o ensinamento de que o homem é a mais alta essência do homem. [...] Vamos resumir o resultado: A única emancipação da Alemanha que é praticamente possível é a emancipação do ponto de vista daquela teoria que declara o homem como ser supremo para o homem" (ibid.).

O que isso começa a deixar claro, é que a religião não é uma questão secundária quando se fala de comunismo. Ao contrário, parece ser o ponto central da crítica marxista. Já começa a ficar difícil concordar com a ideia de que os altos números de religiosos perseguidos em regimes comunistas foram pura coincidência, mas voltarei a esse ponto posteriormente. Me permitam enfatizar, por enquanto, outras declarações de comunistas quanto ao papel do ateísmo no regime. Em Lenin, encontramos afirmações particularmente reveladoras: "As bases filosóficas do marxismo, como Marx e Engels repetidamente declararam, é o materialismo dialético, que remonta totalmente as tradições históricas do materialismo do século dezoito na França e de Feuerbach (primeira metade do século XIX) na Alemanha - um materialismo que é absolutamente ateísta e positivamente hostil a todas as religiões. [...] A religião é o ópio do povo - essa máxima de Marx é a pedra angular de toda perspectiva marxista sobre a religião" (Vladimir Ilyich Lenin, The Attitude of the Workers’ Party to Religion, Lenin Collected Works, vol. 15, págs. 402-13).

"Marxismo é materialismo. Como tal, é implacavelmente hostil à religião como era o materialismo dos enciclopedistas do século XVIII ou o materialismo de Feuerbach. Não há dúvidas quanto a isso. Mas materialismo dialético de Marx e Engels vai além dos enciclopedistas e de Feuerbach, pois aplica a filosofia materialista ao domínio da história, ao domínio das ciências sociais. Nós devemos combater a religião - esse é o ABC de todo materialismo, e consequentemente do marxismo. Mas o marxismo não é um materialismo que parou no ABC. O marxismo vai além. Ele diz: Nós devemos saber como combater a religião, e em ordem para fazer isso nós devemos explicar a fonte da fé e da religião entre as massas de um modo materialista. O combate à religião não pode limitar-se a pregação ideológica abstrata, e não deve ser reduzido a tal pregação. Ele deve ser vinculado com a prática concreta do movimento de classe, que visa eliminar as raízes sociais da religião" (ibid.).

O que Lenin defende explicitamente é que o marxismo, além de dever ser positivamente hostil à religião, deve fornecer meios para explicá-la como mero fenômeno social,  a fim de descredibilizá-la. Isso pode ser facilmente entendido na popular abordagem nietzschiana do cristianismo, que o atacara como sendo a religião dos fracos. O resultado dessa explicação é que o cristianismo não é digno de ser levado a sério: é uma crença ridícula, de escravos, inaceitável no mundo moderno. Essa ideia tem, atualmente, diversas formas, e pode ser percebida culturalmente com facilidade. As recomendações de Lenin podem nos ajudar a entender, por exemplo, a ideia tão disseminada de que absolutamente todas as crenças podem ser explicadas como fruto da ignorância ou do medo. "Eles não sabiam explicar um fenômeno natural, então, declaravam que era obra de Deus". Pessoas que nunca dedicaram dez minutos de suas vidas para averiguar o pensamento de certas civilizações estão predispostas a aceitar tal explicação como plausível sem nem mesmo conhecer tais civilizações.

A ideia de que algumas crenças eram razoáveis em uma época, mas não são atualmente, também tornou-se notavelmente popular. Chesterton já a denunciava em seu tempo: "Surgiu na controvérsia moderna o hábito imbecil de dizer que tal e tal crença pode ser sustentada numa época, mas não em outra. Alguns dogmas, dizem, eram críveis no século XII, mas não no século XX. Alguém poderia igualmente dizer que determinada filosofia pode ser abraçada na segunda-feira, mas não se pode acreditar nela na terça. Alguém poderia falar que determinada visão de mundo é adequada à três e meia, mas não às quatro e meia. Aquilo em que um homem pode acreditar depende de sua filosofia, não do relógio ou do século" (G.K. Chesterton, Ortodoxia, págs. 123-4). O que Lenin pregara tornou-se, hoje, uma realidade óbvia: as pessoas acreditam nessas ideias como ideias garantidas, simplesmente porque as aprenderam assim. O questionamento nem toca a consciência como mera possibilidade ou como se representasse algo importante.

Esse é o plano de fundo que facilmente explica o fato de a maior parte da juventude ateísta pensar na religião como algo irracional: ela não vê justificativa plausível para a religião; vê tudo que se relaciona a ela como algo simples e facilmente explicável pela sociologia mais barata. Acreditam que o cristianismo só cresceu de forma assustadora porque no primeiro século os homens eram bastante estúpidos e supersticiosos. A mais cretina explicação que parece cobrir razoavelmente os fatos cruciais acerca de um evento é suficiente para o jovem aceitá-la, ainda que a hipótese que envolva o sobrenatural seja, de fato, a mais plausível.

Essa superficialidade é a grande marca da nossa juventude, seja ela religiosa ou ateísta. É a superficialidade que notamos quando o ateu recusa-se a admitir as motivações ateístas do comunismo por pensar que o comunismo não passa de uma simples política cega de morte. É a superficialidade que notamos quando o ateu se presta a admitir alegremente a religiosidade de Hitler baseado em algumas fotografias - fato que sempre me intrigou de forma especial. Enquanto negam com forte convicção a mera possibilidade de os ditadores comunistas terem encontrado no ateísmo a justificação de seus crimes, aceitam, e com semelhante convicção, a possibilidade de o nazismo justificar-se em alguma religião.

Não discuto, aqui, o fato de Hitler ter sido ou não um cristão, mas não posso deixar de dizer que os argumentos normalmente oferecidos não servem para justificar a afirmativa. As fotografias de Hitler com padres ou pastores provam seu catolicismo ou protestantismo tanto quanto a imagem à esquerda prova a religiosidade Dilma Rousseff, que em sua primeira semana como Presidente, retirou a Bíblia e o Crucifixo de seu gabinete. Pela mesma lógica bizarra, Richard Dawkins poderia ser acusado de ser cristão por ter gravado trechos de seus documentários dentro de Igrejas, já que, aparentemente, não importam as declarações do indivíduo acerca do cristianismo, mas apenas a imagem em si.

Contra isso, o ateu pode argumentar que Hitler, de fato, dizia estar fazendo a obra de Deus. Obviamente, eu não posso negar a possibilidade de ele possuir tal convicção, mas o próprio Richard Dawkins e muitos de seus admiradores insistem em retratá-lo como católico romano, sendo que os dogmas católicos foram os únicos contra os quais Hitler realmente se manifestou. Há algum tempo tive contato com um livro intitulado Hitler's Table Talk, que apresenta diversas citações em que Hitler explicitamente condena o cristianismo. Mas, suspeitando da possibilidade de alterações, resolvi averiguar se Hitler realmente dissera, entre outras coisas, que o cristianismo era uma doença. Foi quando me deparei com um artigo do ateísta Richard Carrier, em que ele mostra que muitas dessas citações foram, de fato, alteradas, traduzidas inapropriadamente. Ainda assim, as citações originais, em alemão, revelam informações interessantes: Carrier chega à conclusão de que Hitler acreditava em sua própria forma de cristianismo; um tipo que inclusive possuía um Cristo ariano.

Entre as frases originalmente ditas por Hitler, lemos que a transubstanciação "é a coisa mais absurda já inventada pela mente humana em suas ilusões, uma zombaria de tudo que é divino". Carrier sugere que Hitler criticara apenas uma forma de cristianismo, e acreditava seguir o "verdadeiro cristianismo". As críticas de Hitler eram quase sempre dirigidas ao catolicismo, segundo o próprio autor. Uma de suas frases indica uma comparação do catolicismo, especificamente, à sífilis. No dia 13 de Dezembro de 1941, Hitler declarou: "Cristo era ariano. Mas Paulo usou seus ensinamentos para mobilizar o submundo e organizar um proto-bolchevismo". Richard Carrier escreve: "Primeiro, Hitler não nega a Cristo, mas o clama para si mesmo [...]. Segundo, ele ataca não o cristianismo, mas a tradição Católica".

O que fica evidente é que Hitler, se possuía alguma crença, não se tratava de nada nem mesmo remotamente relacionado ao catolicismo ou a alguma outra forma tradicional de cristianismo. E, até aqui, eu sequer trouxe à discussão qualquer abordagem política, como o fato de o Partido Nazista ter tomado uma postura religiosa somente após o fracasso de sua campanha original inspirada no comunismo soviético.

O cristianismo positivo soa basicamente como uma estratégia inteligente, e ninguém precisa negar o fato de que muitos padres e pastores realmente apoiaram o nazismo: mas isso não significa apoio formal por parte de nenhuma Igreja como um todo. E, novamente, as maiores críticas dirigem-se contra a Igreja Católica, que curiosamente foi a instituição que mais ajudou a salvar judeus na ocasião. Teve a gratidão de comunidades judaicas por salvar milhares de vidas; e mesmo Albert Einstein se pronunciou defendendo-a. Mas nada disso bastou contra a imbecilidade desse tempo, que pode ser muito bem ilustrada pelo livro intitulado O Papa de Hitler, em que Pio XII é acusado, em um livro que clamava para si uma autoridade historiográfica que nunca existiu, de ter apoiado o que Einstein chamou de "assalto hitlerista à liberdade", contra o qual o próprio Einstein disse que "apenas a Igreja Católica protestou [...]. Hoje sinto uma grande admiração por ela, que teve a coragem de combater sozinha pela verdade espiritual e pela liberdade moral" (Pinchas E. Lapide, Three Popes and the Jews, pág. 133).

Não bastasse os colégios e movimentos católicos suprimidos pelo Partido - notavelmente na Polônia, com 6 bispos, 1.923 sacerdotes e 63 seminaristas mortos -, ou a Encíclica Mit brennender Sorge de Pio XI, ou os esforços diários de Pio XII para denunciar o regime, ou os depoimentos de judeus em agradecimento ao Pontífice e à Igreja: ela ainda precisa, graças à mentalidade desmesurada moderna, lidar com a acusação, insustentável sob todos os aspectos possíveis, de ter apoiado o Nazismo; ou ainda com a mais trágica acusação de que Hitler era um nobre e adorável membro da Igreja. Não comento tudo isso para desviar o foco original, que é o comunismo; mas é impossível esboçar uma explicação aceitável à negação da relação entre comunismo e ateísmo sem considerar essa superficialidade tão evidentemente expressa no caso de Hitler.

Até aqui, expus algumas declarações de Marx, Engels e Lenin, que acredito serem suficientes para demonstrar tanto a essencial hostilidade do comunismo contra a religião quanto a necessidade de se remover da sociedade qualquer limite que venha de algo que não seja o homem: eles são bem claros quanto a isso. É justamente nesse sentido que podemos propor a a questão: Algum crime comunista ocorreu em nome do ateísmo? Não é uma pergunta simples; exige bastante cautela. Primeiro, é preciso entender o que significa "em nome do". Se, por exemplo, tomássemos como referência a Jihad representando crimes em nome do islamismo, verificaríamos que eles são praticados sob o pretexto de beneficiar o Islã, de modo que a religião supere ou sobressaia às outras através da guerra santa. Assim, seria possível argumentar que os crimes comunistas ocorreram em nome do ateísmo no sentido estrito de que foram praticados para que abolissem toda e qualquer forma de religião - o ABC do comunismo -, a fim de que o ateísmo - condição necessário ao comunismo - viesse a ser a única cosmovisão possível.

O sucesso do comunismo depende do sucesso do ateísmo, e é a partir dessa relação que se entende a alegação de Marx de que "o comunismo começa desde o início com o ateísmo" (Karl Marx, Private Property and Communism, em Economic and Philosophic Manuscripts, 1844). O comunismo não pode existir sem o ateísmo, portanto, o ateísmo é uma condição para que o comunismo possa, de fato, existir. Marx via no ateísmo a solução de todos os problemas da sociedade: "A forma mais rígida de oposição entre o judeu e o cristão é a oposição religiosa. Como uma oposição é resolvida? Tornando-se impossível. Como a oposição religiosa torna-se impossível? Abolindo-se a religião" (Karl Marx, On the Jewish Question, publicado originalmente em Deutsch-Französische Jahrbücher, 1844).

Como eu disse no início dessa postagem, não é meu objetivo culpar nenhum ateu pelos crimes comunistas. É meu objetivo, porém, combater a noção popular e amplamente divulgada de que o comunismo suprimiu religiões e perseguiu religiosos por mera coincidência, como se o ateísmo não tivesse um papel fundamental em todos esses eventos. O fato de o ateísmo desempenhar esse papel fundamental, no entanto, não compromete, de forma alguma, nenhum ateísta. Ironicamente, qualquer eventual comprometimento decorrerá da imprudência do próprio ateísta, caso tente culpar o cristão de hoje por algo que se julga ter sido um crime no passado, ou o muçulmano pacífico por algum comportamento suicida dos muçulmanos terroristas.

Infelizmente, muitas vezes esse tem sido o caso. Em Quebrando o Encanto, Daniel Dennet escreve: "É verdade que os fanáticos religiosos raramente são, se é que alguma vez foram, inspirados ou guiados pelos melhores e mais profundos princípios dessas tradições religiosas. E daí? O terrorismo da Al Qaeda e do Hamas ainda é de responsabilidade do Islã, e as explosões de clínicas de aborto ainda são de responsabilidade do cristianismo". A única desculpa possível para essa alegação seria dizer que esses crimes representam a verdadeira face da religião, mas o próprio Dennet parece não estar abordando o tema dessa forma. E é exatamente essa atitude que dará ao cristão o direito de culpar o ateísmo pelos crimes de Stalin e Mao. Se o cristão age de forma não cristã e o cristianismo deve responder por tal atitude, por que, então, o ateísmo estaria livre de responder pela atitude do ateu? A única diferença é que, no primeiro caso, se ignora um corpo de regras religioso; no segundo, devido à neutralidade religiosa, se ignora um corpo de regras civis. O fato é que nem o ateu nem o religioso deveriam trocar esse tipo de acusação.

E ainda há perguntas a serem respondidas. Até agora lidei com a questão teórica da relação entre o ateísmo e o comunismo, mas cabe analisarmos o que, de fato, o comunismo representou historicamente, e como essa teoria se desenvolveu na prática. Essa é a forma mais apropriada de se verificar se as perseguições religiosas não passaram de coincidências infelizes. Bem sabemos que Stalin, Mao, Pol Pot e Fidel foram, juntos, responsáveis por milhões de mortes: foram responsáveis pelas mortes de seu próprio povo. Cometeram, também, crimes bastante específicos, muitos dos quais basearam-se nas exatas recomendações teóricas já expostas.

"Religião é veneno: proteja suas crianças"
O historiador Thomas Woods explica que, na Rússia "tornaram um crime envolver-se em educação religiosa para qualquer menor de dezoito anos. [...] Estabeleceram, fomentaram e encorajaram propagandas ateístas. Em alguns casos, Igrejas foram substituídas por banheiros públicos, como forma de se mostrar o maior desdém possível pela fé cristã das pessoas". Ele argumenta que no começo de 1920, o governo começa uma campanha que visa tomar das Igrejas tudo que fosse de valor, como metais preciosos. Alegou-se que era preciso derreter esses objetos para que se conseguisse dinheiro para combater a fome que o país sofria.

"Claramente, era uma tentativa de derrubar a Igreja Católica. Eles não precisavam, de fato, daquele dinheiro para combater a fome, já que os EUA e outros países enviavam dinheiro para a Rússia a fim prover auxílio contra a fome, e agora sabemos - agora que os arquivos soviéticos foram abertos - que o governo estava tomando aquele dinheiro auxiliar para comprar armas da Alemanha. Eles não precisavam de dinheiro para aquele fim. Na verdade, o Papa Bento XV, que foi Papa de 1914 a 1922, chegou a fazer uma oferta ao governo russo: ele disse que o Vaticano daria uma quantidade de dinheiro equivalente àqueles objetos, desde que eles fossem deixados em paz. Ele nunca obteve uma resposta" (Thomas E. Woods, The Anti-Catholic Atrocities that History Forgot, em The Catholic Church: Builder of Civilization).

Igrejas foram vandalizadas e padres foram condenados e executados por simplesmente realizarem funções sacerdotais cotidianas. Um padre foi condenado pelo crime de "cair ostensivamente sobre seus joelhos". O historiador Richard Pipes diz que a Rússia "foi o primeiro país da Terra a ilegalizar a lei". A condição para que alguém pudesse ser um juiz era que essa pessoa fosse simplesmente alfabetizada. "Os primeiros julgamentos públicos ocorreram sob o governo de Lenin, quando padres foram postos sob julgamento por terem defendido suas propriedades ou por terem realizado as mais simples e benignas funções sacerdotais. O objetivo era humilhá-los e derrubá-los", conclui Woods (ibid.).

Quarenta e quatro museus antirreligiosos foram abertos na União Soviética. O maior deles era o Museu da História da Religião e Ateísmo (The Museum of the History of Religion and Atheism) na Catedral Kazan, em Leningrado. Entre 1927 a 1940, sob Stalin, o número de Igrejas Ortodoxas caiu de 29,584 para menos de 500. Entre 1917 e 1935, 130,000 padres ortodoxos foram presos. Desses, 95,000 foram executados. A destruição da Catedral de Cristo, o Salvador foi filmada a pedido do governo, por Vladislav Mikosha - o vídeo pode ser acessado nas referências. Na Romênia, o pastor Richard Warmbrand foi aprisionado e mantido preso durante quatorze anos. Ele relata que as técnicas de lavagem cerebral adotadas eram praticadas diariamente, de forma exaustiva, e visavam ridicularizar a religião.


A Igreja Católica ucraniana tinha 2.772 paróquias, 8 Bispos, 4.119 igrejas e capelas, 142 mosteiros e conventos, 2.628 sacerdotes, 164 monges, 773 freiras e 4 milhões de fiéis leigos. Ao fim da mais ampla supressão de fiéis religiosos da história mundial, o conjunto inteiro tinha sido reduzido à zero. Em 1999, a revista The Christian Century reportou que a "China tem perseguido os crentes por meio de assédio, detenção prolongada, e encarceramento na prisão ou em campos de 'reforma-pelo-trabalho' e fechamento policial de lugares de adoração". Mesmo contra atuais esforços do governo chinês para suprimir a religião, mandando possuidores da Bíblia para campos de trabalho, por exemplo, o cristianismo na China tem crescido explosivamente. A Coréia do Norte, oficialmente ateísta, comete, até hoje, atrocidades contra os cristãos - ver detalhes nas referências.

Obviamente, a história do comunismo contra a religião possui assunto para vários livros, mas acredito que essa exposição tenha sido suficiente para mostrar que o comunismo foi e continua sendo, seja na teoria ou na prática, um regime essencialmente antirreligioso, cuja aversão à religião está longe de ser uma mera coincidência. Não me parece ser necessário comentar muito sobre os ateístas perseguidos em regimes comunistas: é bastante óbvio que esses regimes vitimaram toda a sorte de pessoas. Ninguém pensará no absurdo de um regime comunista amigo de determinados grupos.

Se é possível dizer alguma coisa quanto a isso, diremos que os regimes comunistas foram inimigos da espécie humana. Espero que essa postagem possa ajudar na compreensão de pontos importantes sobre a relação entre o ateísmo e o comunismo, e espero mais ainda que a disputa entre ateus e religiosos quanto a quem foi responsável por derramar mais sangue deixe de existir. Suponho que a superficialidade de nosso tempo seja um mal fixado no coração da sociedade, mas acredito sinceramente que o menor esforço de luta contra essa superficialidade seja digna e louvável. Se há, aqui, uma verdade, é essa: o problema não está, nesse caso, na religião ou não falta de religião; o problema está nas pessoas.

Finalmente, eu apenas recomendaria uma leitura complementar das próprias obras marxistas, que podem ser consultadas integralmente nas referências, abaixo. É interessante notar como Lenin, por exemplo, traça cuidadosamente as diretrizes da propaganda ateísta. Ele explica que a propaganda pode ser desnecessária em certos momentos, e que deve ser evitada, por exemplo, em épocas de eleições, a fim de que não espantem os eleitores. Lenin aborda até a questão de espalhar ideias comunistas dentro das próprias Igrejas, o que representaria uma grande vantagem à causa: "Nó não apenas devemos admitir no partido trabalhadores que preservam sua fé em Deus, mas deliberadamente buscar recrutá-los; seremos absolutamente contra oferecer a menor ofensa às suas convicções religiosas, mas os recrutamos de forma a educá-los em nosso programa, e não de forma a permitir uma luta ativa contra ele" (Vladimir Ilyich Lenin, The Attitude of the Workers’ Party to Religion, Lenin Collected Works, vol. 15, págs. 402-13). O quanto isso reflete o momento político e religioso atual chega a ser quase assustador, mas não é graças a dois confortos possíveis: ao religioso, manter firme sua convicção em Deus; ao ateu, manter firme sua convicção de que tudo é uma grande coincidência, uma paranoia.


Referências e recomendações:
  1. A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right
  2. On the History of Early Christianity
  3. The Attitude of the Workers’ Party to Religion
  4. On The Jewish Question
  5. Merry Anti-Christmas!
  6. Christ, the Savior 
  7. Dilma retira Bíblia e Crucifixo de gabinete
  8. The Catholic Martyrs of the Twentieth Century 
  9. Marxism and Revisionism
  10. Private Property and Communism
  11. Marx and Engels on Religion
  12. Mártires do século XX
  13. Atrocities that history forgot
  14. Por que matar é essencial
  15. On Hitler's christianity
  16. What's So Great About Christianity 
  17. Mit Brennender Sorge
  18. Pio XII e a Segunda Guerra Mundial  
  19. Defamation of Pius XII
  20. Ortodoxia
  21. A Igreja dos apóstolos e dos Mártires
  22. China send Bible owners to labor camp
  23. Chinese internal document puts new squeeze on religion
  24. Christianity growing in China
  25. North Korean and chinese atrocities against Christians Worsen
  26. Kodean reds targeting christians

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