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5 de novembro de 2011

Seleção natural

Poucas décadas atrás, não se tinha notícias de alunos desrespeitando professores, nem de alunos espancando professores, nem de alunos assassinando professores. O jovem respeitava o mais velho, e a autoridade do professor era entendida mesmo pelo aluno que não entendia nada. Infelizmente, já há algum tempo esse deixou de ser o caso. Talvez nem seja necessário selecionar algum exemplo específico ou alguma atitude específica para reforçar essa ideia: primeiro, porque esses casos não deveriam existir; segundo, porque eles são cada vez mais frequentes. Não que isso nunca tenha acontecido em outras épocas, mas, se aconteceu, certamente era raro; e o problema maior é justamente a frequência. Algo que deveria ser raro se tornou cotidiano, e isso é perigoso.

Não bastasse, especialmente em países como o Brasil, o descaso com a motivação de professores, levando em conta os salários ruins e a situação precária de algumas escolas, agora quem pretende ser professor deve botar na sua balança a alta probabilidade de sofrer alguma agressão - é assustador que essa agressão, muitas vezes, vem de crianças com pouco mais de dez anos. O que é ainda mais assustador é o incentivo a tais práticas: um fenômeno que não é explícito, mas que certamente está por trás dessa situação, enraizado na cultura do mundo inteiro.

Para entender esse cenário, é necessário, primeiro, entender como os filhos são educados pelos pais atualmente, e como essa educação é afetada por diversos influentes externos. As pessoas do século XXI simplesmente odeiam ser contrariadas: elas querem estar certas, sempre! Isso é bastante evidente, e pode ser exemplificado pela ligeira associação que as pessoas fazem entre ser sincero e ser desagradável. Sabemos, por experiência própria, que expressar o que realmente sentimos sobre uma pessoa pode, com notável facilidade, desagradar essa pessoa. Por isso, é muito comum vermos alguém elogiando um estranho, mas dificilmente vemos alguém critiando um estranho - falo, obviamente, de confrontos face a face, já que fora desse contexto tudo é muito fácil e os limites se esticam. Vejo, frequentemente, uma garota qualquer elogiando o penteado de alguma amiga; nunca vi, em contrapartida, uma garota dizendo a uma amiga que o penteado dela era horrível - nem mesmo quando o penteado era indiscutivelmente horrível.

Em relação aos defeitos e problemas que alguém possa ter, se dirigir a esse alguém de forma sincera é considerado ofensivo, e isso não só é evidente a qualquer pessoa disposta a enxergar, como inspirou uma das fórmulas mais populares de psicoterapia, que dominou por um longo tempo e que ainda hoje continua sendo utilizada: falo da person-centered psychotherapy (PCT) [psicoterapia centrada na pessoa], também conhecida como rogerian therapy, desenvolvida pelo psicólogo Carl Rogers. Uma das ideias centrais expostas por Rogers foi a consideração positiva incondicional (UPR), que diz que o terapeuta deve aceitar o cliente incondicionalmente, sem julgamento ou desaprovação. O impacto social de medidas desse tipo são tão populares que já se tornaram banais: mulheres acima do peso, por exemplo, não aceitam que alguém diga que elas estão acima do peso, mesmo quando elas próprias estão convictas de que estão acima do peso. Nós sabemos que as consequências desse tipo de "julgamento" podem ser drásticas: enquanto o espelho parece não poder mentir, as pessoas são obrigadas a fazê-lo pelo bem da auto-estima alheia.

Como poderia, afinal, uma sociedade que não aceita ser contrariada ou reprovada produzir crianças que caminham em outra direção? As crianças são o reflexo dos adultos, e os adultos são a própria sociedade. O psicólogo Dr. Ray Guarendi explica que educadores de hoje, em geral, são instruídos a se comunicar com crianças através de uma linguagem que exclui o julgamento moral. Assim, uma criança que diz palavrões age de forma inapropriada e seu comportamento é inaceitável: ela não age de forma errada e o comportamento dela não é ruim; pois errado e ruim são conceitos que implicam julgamento moral. Ele fala também sobre o fenômeno da auto-estima, que explodiu nos anos 70: "A teoria era, particularmente para as crianças: 'nós precisamos incentivar a auto-estima saudável, e da auto-estima fluirá tudo que é bom'". Ele sugere o seguinte exercício: pesquisar por "child self steem" [criança auto estima] e por "child humility" [criança humildade]. Intrigado, fui ao Google e realizei a busca: para o primeiro caso, "aproximadamente 140.000.000 resultados", para o segundo, "aproximadamente 14.400.000 resultados" - isto é, pouco mais de 1%. Para o Dr. Guarendi, "os especialistas não incentivam a humildade como uma virtude que alguém deveria buscar".

Por que se espantar, portanto, com a seguinte nota: "Diretores autodenominam-se 'gestores escolares', gabam-se de ter sucesso no projeto de suas instituições porque seus alunos 'são vistos e respeitados como clientes'. Ora, cliente é quem contrata um serviço ou adquire, mediante um valor, um bem ou produto; a educação, portanto, passou a ter – equivocadamente, por certo – essa definição. Desse modo, temos o seguinte quadro: o contratante ou comprador desse produto ou serviço é o aluno ou, em outra hipótese, seus pais; de qualquer modo, segundo a lei do comércio, 'cliente sempre tem razão'. Será possível estabelecer, nesses parâmetros, uma relação pedagógica saudável entre professor e aluno?" (SINPRO/RS, Violência contra os professores).

"A familiarização com a agressividade e a violência as tornam, como analisam psicólogos e sociólogos, matéria do cotidiano, corriqueiras a ponto de serem consideradas 'normais'. Entretanto, a proliferação indiscriminada desses comportamentos mostra que a escola perdeu - ou vem perdendo - o poder normativo e ignora ou negligencia os recursos pedagógicos para o estabelecimento de limites entre o que é aceitável e o que ultrapassa essa condição. O professor, nesse contexto, é destituído de autoridade e autonomia, e essa lacuna dá margem para que o aluno mesmo ou sua família, em sala de aula, no espaço da escola ou fora dela, arbitre sobre o que é justo ou injusto, certo ou errado, segundo sua visão pessoal. A violência é, assim, relativizada em seu valor de transgressão, e seus autores não se sentem transgressores: pelo contrário, agem com tranqüilidade, não se julgando fora dos princípios da boa educação ou da ética, pois se conduzem de acordo com o que estipulam ser o preceito correto e legítimo" (Ibid.). Aqui chegamos ao coração do problema: a relativização, fenômeno que conta com o patrocínio do marxismo desde que a tinta da caneta de Marx tocou seus pálidos cadernos.

Tentei abordar o problema do relativismo em uma série de duas postagens, e não pretendo repetir o que já está exposto. Recomendo, então, a leitura das postagens em questão (A verdade que muda: 1. Acreditar em si mesmo; e 2. Ordem, subjetividade e tempo). A ideia é simples: nós devemos viver como se fôssemos o centro do mundo - o nosso mundo, como se existisse um mundo para cada pessoa. Nossa preocupação deve ser apenas com nós mesmos, e devemos cortar dos nossos círculos de relacionamentos as pessoas que nos contrariam: nossos amigos de verdade são aqueles que nos apoiam mesmo quando estamos errados, e não aqueles que que têm aquela irritante mania de apontar os nossos erros. Nossos pais não estão certos: eles simplesmente não nos entendem.

Essa ideia pode parecer irrelevante ao descaso dos alunos com o ensino, mas é precisamente a base do problema. Allan Bloom argumenta que por trás da indisposição educacional está a convicção universal dos estudantes de que toda verdade é relativa e que, portanto, não vale a pena buscá-la. Ele escreve: "Há algo de que todo professor pode ter certeza: quase todos os estudantes entrando em universidades acreditam, ou dizem acreditar, que a verdade é relativa. [...] O relativismo é necessário para a tolerância; e essa é a virtude, a única virtude, que toda educação primária, por mais de cinquenta anos, tem se dedicado a impor. Tolerância - e o relativismo que a torna a única posição plausível face a várias afirmações de verdade e vários estilos de vida e tipos de seres humanos - é o grande insight do nosso tempo. O estudo da história e da cultura ensina que todo o mundo era louco no passado; os homens sempre pensaram que estavam certos, e isso causou guerras, perseguições, escravidão, xenofobia, racismo e chauvinismo. O ponto não é corrigir os erros e estar realmente certo; em vez disso, é não pensar que você está certo de nenhum modo". (Allan Bloom, The Closing of the American Mind, págs. 25-6).

Não esqueçamos que o relativismo tende a entrar em conflito com a ideia de autoridade, e o motivo é bastante simples: se uma autoridade representa uma ideia, por que essa ideia, com a qual eu não concordo, deve ser imposta a mim? Nós temos bons exemplos do constante conflito entre a os efeitos do relativismo e a noção de autoridade, especialmente quando esse produto é a rebeldia, tão comum nos jovens. Há um bom exemplo recente em nosso país: o caso recente que se desenrolou entre alunos e policias na USP. Estudantes reagiram e protestaram contra policiais que cumpriam o seu dever, o que resultou na danificação de veículos e ferimento de alunos e policiais. Não é necessário dizer que os alunos estão convictos de que que é a polícia que está errada, e que eles estão certos em agir como agiram. Essa é precisamente a justificativa do aluno abordada pela nota do SINPRO/RS.


A polícia também tem sido atacada frequentemente em campanhas em redes sociais, mas a maioria das críticas dirigidas aos policias nunca me convenceu. Me parece que a maioria das pessoas que afirma que a polícia é pior que o bandido não parou pra pensar que a polícia não precisaria existir se não existisse o bandido. Essa é a principal causa de todos os julgamentos injustos que as pessoas dirigem aos policiais, mas outras considerações são possíveis. Às vezes tenho a impressão de que algumas pessoas pensam que policiais deveriam ser robocops perfeitos, ou seja, policiais robôs destinados exclusivamente ao cumprimento da lei, sem que sentimentos ou fraquezas humanas interfiram em sua tarefa. Essa é a única explicação razoável à reclamação de que alguns policiais são corruptos e também infringem a lei, pois alguns jornalistas, políticos, cabeleireiros e professores estão sujeitos a essa mesma acusação. Além disso, sempre me pareceu óbvio que, se as pessoas estivessem realmente preocupadas com o nível ruim de trabalho dos policiais, seria desejo inquietante dessas pessoas se juntar à polícia e ajudar a melhorar esse nível. Mas, curiosamente, poucas pessoas desejam ser policiais: na verdade, muitas pessoas gostariam de ser qualquer coisa, menos policiais.

Se as pessoas entendessem que todas as pessoas são pessoas, elas poderiam finalmente se livrar da rotina de acusar as pessoas por serem simplesmente o que elas são. Sim, existem policiais detestáveis que merecem estar na cadeia, assim como existem médicos e advogados que deveriam ser companheiros de cela desses policiais. Suponho que nenhuma pessoa veja na afirmação de que existem médicos corruptos um argumento contra a necessidade de existir médicos que sirvam a quem deles precisa. Se existem médicos que não estão cumprindo adequadamente sua função, a sociedade precisará de médicos que a cumpram adequadamente, e esses médicos surgirão justamente da sociedade que precisa deles. Assim, a grande insatisfação contra os policiais é, na verdade, um motivo para que o insatisfeito torne-se policial, fornecendo assim o policiamento adequado à sociedade da qual ele faz parte.

Sempre acreditei que existem mais policiais honestos do que policiais corruptos, já que sempre me pareceu óbvio que existem mais pessoas que cumprem a lei do que pessoas que ignoram a lei. Não consigo ver por que o policial seria exceção a essa realidade, já que a polícia é composta por pessoas que trabalham, erram e acertam como qualquer outra. Não é o caso do bandido, que por definição está fadado ao erro. Enquanto o policial pode escolher ser honesto ou corrupto, todo bandido já está entregue à corrupção, e a partir do momento em que a sociedade vê menos culpa no conjunto de bandidos, que é composto apenas por corruptos, do que no conjunto de policiais, em que apenas uma parte é composta por corruptos, algo deve estar errado. Para a minha alegria, a maioria das pessoas são sensatas o suficiente para não se deixar seduzir pelo julgamento precoce que é comum de certas pessoas que não nos servem como modelo. As pessoas entendem que anarquia nunca foi solução para nenhum problema, e que direito implica dever: deve haver um limite, e as pessoas concordam com os limites porque são justamente elas que os constroem. O caso da USP reafirma, mais do que qualquer outro caso recente, a necessidade da polícia, e o fato de que a maioria dos alunos é a favor do policiamento no campus da universidade mostra que a perca do bom senso dificilmente atinge a maior parte das pessoas.

O leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o título da postagem: "Seleção natural". Acontece que esse plano de fundo é essencial a compreensão do que segue, e temo que o que é óbvio para mim talvez não seja óbvio a todos, já que o que é óbvio para uma pessoa pode ser misterioso para outra, fato que experienciamos, por exemplo, quando não encontramos um objeto qualquer. É talvez um dos maiores mistérios da juventude o que quase sempre acontece: chamamos pela nossa mãe, e ela revela que o objeto estava o tempo todo diante de nossos olhos.

Essa postagem pretende investigar a possível causa para o seguinte problema: o futuro do pensamento está fadado a se tornar cada vez mais relativista? Será possível ressurgir a sociedade em que o aluno respeita o professor, em que o cidadão respeita o policial, em que a humildade é tida como virtude e em que a sinceridade não machuca ninguém? Se depender dos métodos seletivos adotados em vestibulares no país, atualmente, a resposta dificilmente será positiva. Quando foi divulgada a prova do ENEM, algumas questões me deixaram intrigado, como aquela que dizia que alguns bispos queriam excomungar o café, e que o Papa batizou a bebida após tê-la experimentado.

Não fosse suficientemente inútil ao aluno de ensino médio saber o que certo grupo de pessoas pensava sobre determinada bebida, ele é contemplado com a ideia absurda de que sacramentos e excomunhões se aplicam a coisas: talvez depois disso queira levar roupas ou acessórios à Igreja mais próxima para também batizá-los. A questão, obviamente, é formulada a fim de ridicularizar um grupo religioso - o cristianismo, nesse caso - através de mentiras exageradas, pois a ideia exposta é realmente absurda. Mas, para que eu não sofra da acusação da mera paranoia, não falarei sobre questões religiosas. Ademais, comentários contra a credibilidade do ENEM são simplesmente desnecessários. Não é de hoje que o exame termina mal, mas confesso que é reconfortante lembrar das palavras de Lula sobre a edição de 2010: "O ENEM foi um sucesso extraordinário". Suspeito que, se adotarmos os padrões do então Presidente da República, o ENEM 2011 foi um sucesso ainda maior.

Seja como for, foi a UEL - Universidade Estadual de Londrina - que, de fato, ultrapassou todos os limites do bom senso ao propor uma questão associando heróis de comic books norte-americanos à ideais racistas. Não que o ENEM já não tenha, há muito tempo, ultrapassado esses limites: a diferença é que os formuladores do ENEM foram um pouco mais delicados; apesar de a prova ser revestida de ideologias, há uma camada protetora que impede boa parte dos alunos de identificá-las, e é justamente essa camada que as questões da primeira fase do vestibular da UEL conseguiu romper. Vamos à questão:
O Super-Homem ganha poderes pelos efeitos dos raiossolares, mas tem uma fraqueza: o minério criptonita. O Homem-Aranha adquire habilidades depois da picada de um aracnídeo. O Quarteto-Fantástico nascedos efeitos de uma tempestade cósmica. Um a um, oselementos da natureza tornam-se importantes para onascimento de vários super-heróis. Porém, mais doque superpoderosos, esses heróis de Histórias emQuadrinhos (HQ) também "escondem um segredo":
I. Reforçam a ideologia de uma nação soberana,a estadunidense, protegida dos inimigos, o quea credenciaria como mantenedora da liberdademundial.
II. Veiculam subliminarmente a crença da supremaciados brancos, enquanto suposta raça mais forte e inteligente face aos demais grupos étnicosdo planeta.
III. Defendem a ideologia da igualdade necessáriaentre as classes, sem a qual o mundo não poderiaviver em paz e em harmonia.
IV. Reconhecem que os verdadeiros super-heróis nãoprecisam de superpoderes, desde que sejam pessoasboas e altruístas.
Assinale a alternativa correta:
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e III são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
Segundo o gabarito da prova, a altenativa a) é a correta, ou seja, nossas tão queridas DC e Marvel comics provavelmente trabalham a fim de divulgar o pensamento nazista para crianças, jovens e adultos do mundo todo. Enquanto o Capitão América, talvez o herói mais associado a noções patrióticas de todos os quadrinhos, enfrentava Hitler em sua primeira edição, vem agora a UEL nos revelar que, na verdade, ele também "esconde um segredo": compartilha os mesmos ideias de Hitler sobre a supremacia ariana, e só o enfrentou naquela edição por não achar que o bigode de Hitler fosse digno de um verdadeiro líder - um problema que certamente não existiu com Stalin.

Deve haver, portanto, outros segredos por trás disso tudo: não sobre os super-heróis, mas sobre quem formulou essa pergunta. Lembrem-se do título da postagem para que não pensem que estou atacando a universidade como um todo, ou generalizando o pensamento dos professores. Enquanto alguns comentários sobre a questão apareceram em blogs populares, como o de Reinaldo Azevedo, foi possível perceber que a maior parte dos leitores desses blogs, que estão espalhados pelo país inteiro, não tem contato com alunos da universidade: não é o meu caso; muitos de meus amigos estudam ou já estudaram na UEL, que é a universidade mais bem conceituada da região, e um dos autores desse blog é aluno da universidade há três anos - foi ele, inclusive, o primeiro a me enviar os vários disparates promovidos pelo vestibular.

A questão é claramente anti-americana, mas também é muito mais que isso: a questão é explicitamente marxista, e é formulada de tal modo que os EUA sejam associados a uma ideologia ruim, detestável, racista. Enquanto isso, a afirmativa III. fala sobre igualdade entre classes, a fim de que não reste dúvidas sobre qual ideologia ilumina a mente de quem formulou a questão. Alguns professores se manifestaram sobre o assunto, como reporta o Jornal de Londrina: "O professor de história do Colégio Londrinense, Rafael Ferreira, considerou a questão impertinente e irresponsável. 'Compromete nosso trabalho. A gente se esforça nas aulas para fazer com que o aluno chegue na prova isento de qualquer tendência política. O maior problema não é a postura política de quem elaborou a prova, mas é colocar isso num exame de vestibular para adolescentes. Ela adota descaradamente um posicionamento', disse. Segundo ele, a questão colocada não condiz com a realidade e faz com o que o aluno que pensa de outra forma, fique fora do vestibular".

Aqui chegamos ao ponto fundamental: o aluno que pensa de outra forma fica fora do vestibular. Ora, mas o que tem sido os exames e vestibulares nacionais, senão peneiras ideológicas que separam os grãos saudáveis das impurezas que não são úteis aos propósitos dos militantes políticos, que são compostos, em grande parte, por professores de universidades e universitários de diversos cursos, especialmente de humanas? O que me levou a desistir da ideia de cursar História na UEL foi precisamente uma conversa com uma estudante de História da UEL, que relatou que a maior parte dos alunos são marxistas. Aliás, esse é o caso da minha própria universidade, e provavelmente o caso de quase todas as universidades públicas do país. Não é como se nós, universitários, estivéssemos falando de algo que nós nunca vimos e apenas suspeitamos: estamos falando de algo que vivemos todos os dias. A verdade é que as universidades são movidas pelo pensamento marxista, e o conservador que nelas estuda está se convidando à rotina da frustração semestral - antes a frustração fosse efeito das matérias, o que evidentemente seria mais suportável que a frustração causada por anseios políticos de professores e outros alunos.

Essa questão sobre super-heróis revela o quanto esses anseios são, ao mesmo tempo, óbvios e secretos. É transparente para quem vive, mas é embaçado para quem vê de fora, de longe; e enquanto algumas pessoas a veem como mera questão infeliz, uma exceção, é mais plausível admitir que questões como essa, apesar de serem, de fato, infelizes, estão longe de serem raras: são tão comuns quanto os casos de professores agredidos por alunos ou de pessoas que culpam os policiais pelo crime dos bandidos. Mais uma vez, a maioria das pessoas se manifestou contra a questão, mas algumas a defenderam e alegaram que ela é perfeitamente apropriada. Essas são as mesmas pessoas que apoiam os protestos na USP, que preferem os bandidos e preterem os policiais, e que declaram que o ENEM é um sucesso extraordinário.

O Jornal de Londrina também expôs a opinião de um quadrinista sobre a questão: "Para o quadrinista Gustavo Duarte, de São Paulo, a questão é 'patética' e todas as alternativas apresentadas estão incorretas. 'A pergunta não tem resposta, é subjetiva. Cada aluno poderia responder o que quisesse', avaliou. Segundo ele, os quadrinhos são entretenimento. [...] 'Se tivesse uma resposta que falasse da supremacia dos alienígenas sobre os seres humanos eu colocaria essa como correta, por causa do super-homem'". Não é necessário listar heróis de outras etnias ou a etnia dos criadores de tais heróis: o abuso da boa vontade e do intelecto de quem lê a questão é tão forte que dispensa tal trivialidade. A questão não foi formulada de forma a rivalizar apenas brancos e negros, como alguns sugeriram, mas a rivalizar brancos e todas as outras etnias que existem, ou seja, é alegar, sem nenhum peso na consciência, que os norte-americanos, populares por seu conservadorismo, são algum tipo de nazistas introvertidos.

Não é de hoje que a associação entre a direita e o nazismo é divulgada, e ela sempre parte de socialistas - mas de socialistas que curiosamente não são curiosos o suficiente para perceber que os nazistas pertenciam ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Isso, como eu disse anteriormente, não relaciona-se ao debate religioso, e eu pude ver religiosos e ateístas denunciando esse assalto à inteligência das pessoas: trata-se apenas de mais um caso em que a ideologia é posta a frente da verdade. Trata-se, antes de tudo, de uma ideologia que afirma que a verdade não existe, e, desse modo, a opção correta também não existe: tudo que existe é a seleção natural, que, afinal, não é tão natural como deveria.


Referências e recomendações:
  1. Violência dos alunos provoca stress pós-traumático em professores
  2. 83% dos professores querem punição mais rígida contra violência nas escolas
  3. Só 10,6% dos professores de SP se sentem seguros na escola
  4. Megaestudo da Unesco mostra que falta segurança nas escolas
  5. Professores apontam violência nas escolas
  6. SINPRO/RS: Violência contra professores
  7. Alunos detidos querem PM fora da USP e liberação da maconha no Brasil
  8. Seis veículos da polícia são danificados durante confronto na USP
  9. Alunos prometem ocupar prédio até fim do convênio da USP com a PM
  10. Fascistas encapuzados da USP perdem assembléia
  11. Lula sobre ENEM 2010
  12. Psychology and the Church
  13. The Closing of the American Mind
  14. The Enemy at Home
  15. JL: Super-heróis “escondem” supremacia dos brancos
  16. Prova de vestibular obriga alunos a responder que super-heróis escondem supremacia dos brancos

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