Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

21 de novembro de 2012

A crença cotidiana #3

Essa é a terceira e última postagem correspondente ao único capítulo do e-book que esbocei no começo desse ano e acabei deixando de lado. Gostaria apenas de me desculpar por quão extensas foram as postagens, e manifestar minha compreensão caso o leitor considere não valer a pena a leitura.
Lembro-me de um site aparentemente respeitado que pretendia oferecer a prova definitiva da religiosidade de Hitler. As principais evidências eram imagens intrigantes de Hitler saindo de Igrejas, rodeado de sacerdotes, etc. As imagens de fato diziam algo, mas, como qualquer retrato, diziam muito pouco, especialmente para as pessoas que olham para a história como se imagens fossem capazes de cobrir eventos, intenções e probabilidades. Deparei-me com essa mesma "prova" em muitas discussões informais, e cheguei ao ponto de não mais me preocupar com ela por estar convicto de que ela não pode partir de pessoas minimamente interessadas em entender um pouco sobre tudo que o retrato não dizia. É oportuno revelar ao leitor o nome do site em que encontrei aquela prova definitiva: ceticismo.net [1]. 

Isso não é apenas uma coincidência irônica e aleatória: é, antes, a verdadeira expressão do ceticismo contemporâneo; possivelmente o primeiro ceticismo que não é cético. O ceticismo deixou de ser uma ferramenta que rompe a superficialidade das aparências para chegar ao fundo das questões e ao conhecimento pleno do fenômeno. Tornou-se, em vez disso, uma ferramenta que simpatiza com a superficialidade quando isso trás algum tipo de benefício. E o benefício se tornou a medida de praticamente todo o tipo de ceticismo que vemos nos livros antirreligiosos ou em artigos pseudocientíficos. O cético apresenta sua hipótese e a seguir expõe suas evidências até o ponto em que sua hipótese parece bem sustentada. Mas algumas evidências ele esconde, e algumas hipóteses ele sequer considera. Nesse processo, ele pode preferir uma hipótese absurda e ignorar a hipótese mais provável, porque o que é provável não lhe satisfaz, mas o que é absurdo parece ter sido feito sob medida para ele. Bom, neste caso, não só foi feito para ele: foi feito por ele, e ele sabe, como ninguém, o que ele deseja. 

Certa vez uma revista publicou uma pesquisa que revelava que apenas 13% dos brasileiros votariam [2] em ateus. Não discuto a justiça da porcentagem, mas, especialmente no meio político, que é popular pela falta de sinceridade e notável anseio inconsequente por vantagens por parte dos candidatos, é necessário perguntar quem considerará prudente apelar ao povo desprezando ou simplesmente ignorando o que povo brasileiro mais afirma respeitar: Deus. Também não discuto se o povo de fato o respeita. É tão prudente quanto um sujeito que tenta provar que não teme um ataque cardíaco pulando de um precipício sem paraquedas: a frieza não o livrará da morte. Suponho que, no Brasil, um político ateu dificilmente lançaria sua candidatura sendo honesto acerca de seu ateísmo: não porque ele é ateu, mas porque ele é político. Nesse momento gostaria de propor outra questão: Por que, na Alemanha cristã de um século atrás, seria prudente candidatar-se dessa forma? 

Não estou sugerindo que Hitler era um ateu que fingiu ser um homem de Deus, mas acho simplesmente prático admitir que, para alcançar o poder, ele fingiria coisas desse tipo. Não me interessa discutir se Hitler era um ateu, um cristão ou um bêbado: quero apenas ressaltar o fato óbvio de que ele era uma pessoa interessada em conquistar a confiança dos alemães. De fato, ele poderia ser um cristão que viu nesse elo com o povo uma grande oportunidade, mas se quisermos realmente sustentar essa hipótese, precisamos de algo além de moedas nazistas que louvam a Deus, pois também havia as moedas nazistas que louvavam a foice e o martelo: elas são menos populares porque fracassaram, e mesmo esse fato é bastante revelador. Talvez Deus nunca fosse louvado se a primeira tática tivesse sido um sucesso. Se uma pessoa considera todos os absurdos que um político doente pode dizer para ganhar o seu povo, ela poderá arriscar o número de vezes que esse sujeito mente por dia. Então, poderá perguntar algo fundamental: Hitler ousaria mentir para chegar aonde chegou? Teria ele sido capaz de considerar o que o povo queria e o que o povo rejeitaria ao traçar suas metas e esboçar seus discursos? Insisto que não pretendo sugerir coisas irrelevantes sobre Hitler, mas todas essas considerações escapam ao mero jogo de imagens e à tentativa de resumir a história em um álbum de figurinhas. Admito que Hitler deva ter seu direito de falar por si mesmo respeitado, apesar disso não acontecer com Imperadores ortodoxos ou santos do século XVI, mas o que ele disse muda as coisas tanto quanto se tivesse ficado calado. Escreveu, na mesma obra em que disse fazer a vontade do Senhor, que seus discursos públicos eram propagandas sem compromisso com a verdade. Talvez algum jornalista qualquer quisesse dizer, na primeira página do Planeta Diário, o mesmo sobre Lex Luthor, mas a verdade é que a manchete seria desnecessária. 

Antes de encerrar gostaria de fazer algumas considerações complementares. Em nenhum momento sugeri, por exemplo, que devemos acreditar em tudo que nossas avós nos dizem, mas repito que não devemos descartar uma história pelo simples fato de ela ter sido contada por nossas avós, como se elas não merecessem ser levadas a sério. Dentre as pessoas que estão sempre contestando as coisas que os mais velhos dizem, pelo simples fato de terem sido ditas pelos mais velhos, existe aquele jovem irritante que pensa que seus avós são estúpidos pelo simples fato de não terem crescido em um ambiente moderno, como se a época em que se vive fosse garantia de inteligência. Esse jovem é irritante justamente por não perceber que é mais imbecil que os maiores imbecis da Grécia Antiga, e por não perceber que a modernidade dificilmente produzirá um Aristóteles. É necessário enfatizar que, assim como é possível que uma piada contada por uma pessoa comum seja tão engraçada quanto uma piada contada por um humorista, também é possível que uma história contada por nossas avós seja tão verdadeira quanto uma história contada por um cientista. O fato é que a graça da piada não depende necessariamente de quem a conta, e, do mesmo modo, a veracidade de uma história não depende necessariamente de quem a descreve. Uma criança normal ri de uma piada contada pelo próprio pai porque a ela interessa apenas a piada; mas dificilmente o cético de hoje acreditará numa história contada pela própria mãe, pois a ele não interessa a história: a ele interessa, acima de tudo, quem conta a história. Acreditará nos maiores absurdos por estar certo de que alguns absurdos não poderiam ser defendidos por alguns intelectuais que ele admira. Ainda assim, o prazer que a criança sente ao sorrir ele não sente ao duvidar; o que ele supõe ser ceticismo é, na verdade, um conjunto de dúvidas desordenadas que dificilmente levará à ataraxia desejada pelas correntes céticas originais [3]. A dúvida desordenada sobre todas as coisas causa apenas inquietação, pois é um meio que não busca nenhum fim e, consequentemente, não alcança nenhuma satisfação. Nem pode, portanto, ser chamada de meio. 

Também não foi minha intenção fazer uma apologia ao ceticismo, pois para mim já chegou o dia em que ele perdeu seu encanto, apesar de não ter perdido a beleza. Quero apenas ressaltar que há um ceticismo que se pode chamar de sensato, que é digno e deve ser respeitado. Não é esse o ceticismo que se nota nos dias de hoje, e por isso sugeri que não é apropriado chamá-lo de ceticismo, precisamente porque não só ele perdeu a beleza: ele perdeu a essência. Não mais se suspende o julgamento apenas quanto ao que está oculto; em vez disso, suspende-se o julgamento quanto ao que é evidente. Quando Chesterton propôs as duas tríades de objeções comuns ao cristianismo em seu tempo, denunciou exatamente o cético frágil que muito se parece com um homem cuja visão não é boa e cujos óculos estão empoeirados, e ainda assim hesita em limpá-los. "O cético estava muito certo em pautar-se pelos fatos, só que ele não havia analisado os fatos. O cético é crédulo demais; acredita em jornais ou até mesmo em enciclopédias" [4]. Se tentarmos amigavelmente alertar aquele homem que seus óculos estão sujos, mesmo que seja uma sujeira quase imperceptível, corremos o risco de ouvi-lo dizer, com um orgulho típico de nosso tempo: "Eu não vejo nada". Soma-se a pouca poeira à visão um pouco prejudicada, e a visão do homem é sutilmente distorcida. Quando ele olha para o que está próximo de seus olhos, sente que sua visão é perfeita; é quando ele olha para muito longe que a poeira atrapalha. Assim também é o cético de hoje olhando para o cristianismo: ele tem uma boa noção do que ele vê em sua volta, todos os dias; mas quando ele olha para o que está longe, há séculos e séculos de distância, ele não consegue dizer bem o que vê, pois não vê coisa alguma. O fato curioso é que, apesar disso, ele insiste em dizer que está vendo perfeitamente, mesmo quando até aquele homem orgulhoso já teria ouvido o nosso conselho e limpado as suas lentes. 

E agora posso concluir dizendo que nunca podemos esquecer essa condição fundamental: nossas lentes devem estar limpas. Mera disposição para andar não é garantia de que chegaremos ao lugar certo. Como é moda atualmente, um dia cheguei a me convencer de que a verdade era um veneno, e que por isso não merecia ser perseguida. Depois, por mero pessimismo, me convenci de que a verdade não existia. Precisei descobrir uma velha filosofia para entender que ela não só existia, mas era também a cura para a humanidade. E aos poucos eu fui curado. Senti um grande alívio ao descobrir que a verdade era bela, e que só não enxergara antes sua beleza porque minhas lentes estavam embaçadas. Depois de observá-la atentamente e refletir acerca do caminho que me levou até ali, uma grande alegria brotou em meu coração, e um otimismo completamente novo tomou conta de mim. Às vezes, quando um homem toma conhecimento de um segredo, se sente bobo ao considerar todas as coisas que teria feito de outra forma se já o conhecesse antes. Mas talvez seja importante que determinados eventos aconteçam em determinados momentos. Os menores detalhes do dia-a-dia direcionam as maiores curvas da vida. Se tudo isso pareceu uma simples denúncia contra alguém, ele certamente foi uma denúncia contra eu mesmo. Falei da ingenuidade das pessoas e da descoberta da cura, e todo esse tempo estive pensando no quanto fui ingênuo e de quantas vacinas eu precisava; e de quantas ainda preciso. Confesso que por vezes me preocupei demais com esse último detalhe devido a minha aversão a agulhas, mas temo que para produzir o efeito desejado a agulha precisa penetrar fundo em nossa pele. Somente abaixo da superfície alguns segredos podem ser revelados. Algumas coisas são valiosas demais para ficarem expostas; é necessário protegê-las de alguma forma, seja com a nossa própria carne ou com quebra-cabeças inventados por Deus. 


Referências:
  1. Ceticismo.net, "Hitler era ateu?", 20 de abril de 2010. Disponível em: ceticismo.net.
  2. Revista VEJA, "Como a fé resiste à descrença", 26 de dezembro de 2007. Disponível em: veja.abril.com.br.
  3. Mário Ferreira dos Santos, Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, vol. 1, São Paulo: Editora Matese, 1963, págs. 255-8.
  4. G. K. Chesterton, Ortodoxia, trad. de Almiro Pisetta, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, pág. 243.

18 de novembro de 2012

Alegria na floresta

Em todo romance genuíno há três personagens vivos e comoventes. Para o bem do argumento eles podem ser chamados São Jorge e o Dragão e a Princesa. Em todo romance deve haver os elementos gêmeos de amar e combater. Em todo romance deve haver esses três personagens: deve haver a Princesa, que é coisa a ser amada; deve haver o Dragão, que é a coisa a ser combatida; e deve haver São Jorge, que é a coisa que ao mesmo tempo ama e combate. Tem havido muitos sintomas de cinismo e decadência na nossa civilização moderna. Mas de todos os sinais da debilidade moderna, da falta de compreensão da moral como ela realmente deve ser, não houve nenhum tão bobo e tão perigoso quanto esse: que os filósofos de hoje começaram a separar o amor da luta e a os colocarem em campos opostos. [...] As duas coisas implicam uma à outra; elas implicaram uma à outra no antigo romance e na antiga religião, que eram as duas coisas permanentes da humanidade. Você não pode amar uma coisa sem querer lutar por ela. Você não pode lutar sem ter algo pelo qual se luta [1].

G. K. Chesterton.

Mais e mais tenho a impressão de que as pessoas falam de felicidade como algo que deve ser conquistado, e essa impressão sempre me deixa inquieto. Algumas vezes penso que as pessoas não sabem o que é felicidade; outras vezes sinto como se fosse eu quem não a conhecesse. Mas a razão pela qual fico inquieto não é a possibilidade de eu estar errado, mas as implicações que seguem o erro. Se a felicidade é uma conquista, então eu provavelmente não a conhecerei tão logo, pois eu não tenho me esforçado para conquistá-la. De fato, eu não sei sequer onde está o dragão que devo derrotar para que possa finalmente salvar minha princesa. 

Acredito em dragões e em princesas, e acredito principalmente que os dragões devem ser derrotados e que as princesas devem ser salvas. Minha objeção não está em nada disso. Simplesmente não acredito que a felicidade seja um prêmio ou recompensa pelo esforço do cavaleiro. Em outras palavras, acredito que os contos de fada terminam com a frase “felizes para sempre” porque seus personagens já eram felizes antes de todas as dificuldades, e continuaram felizes após as ter superado. As dificuldades da vida – as bruxas e os dragões – não são motivos de tristeza, e após o triunfo sobre elas a felicidade tem sempre um ar de novidade, como uma surpresa que apesar de conhecida torna ainda a surpreender e revigora os ânimos da vida cotidiana. 

Os cavaleiros são sempre corajosos e estão dispostos ao sacrifício, mas eu não vejo como essa coragem e essa disposição poderiam nascer da tristeza. A fonte dessas virtudes, obviamente, é o amor, e onde há amor há esperança, pois o amor vem sempre acompanhado de um ideal, e nenhum ideal pode ser alcançado sem esperança ou fé. O homem não pode fazer cálculos matemáticos e observações em laboratório para descobrir o dia em que irá se casar, nem com quem. Primeiro ele deve encontrar uma donzela e esperar que ela seja a donzela feita para ele, mas o fato é que ele nunca poderá ter certeza. Depois ele deve se ajoelhar diante dela e esperar ouvir a resposta desejada para a pergunta que ele esboçava desde sua infância, mas ele não terá certeza de que irá ouvi-la. E após atravessar toda uma floresta de monstros e armadilhas ele estará aguardando o momento em que poderá levantar o véu de sua amada, olhar em seus olhos com a pureza de uma criança e selar com um beijo a vitória sobre o dragão. Mas o que é necessário ser notado é que o mesmo caminho feito até a Igreja será novamente percorrido na volta para a casa: é necessário notar que nós estamos sempre atravessando a floresta. 

Os adultos costumam dizer que a vida não é fácil, mas eu dificilmente vejo adultos dizendo que a vida não deve ser vivida, ou que a sua dificuldade rouba-lhe a beleza. Uma coisa não é ruim porque é difícil, mesmo que pareça impossível. De fato, é mais provável que uma coisa seja ruim por ser fácil demais. E eu temo que em pouco tempo não possa mais dizer que os adultos não se entregam diante das dificuldades da vida, exatamente porque as novas gerações querem conquistar a felicidade: querem conquistá-la como se ela fosse um pote mágico de ouro que quando recebido acabará com todos os problemas. Pois é essa a noção de felicidade moderna: viver sem problemas. E porque é impossível não ter problemas algumas pessoas já espalham por aí que a felicidade não existe. 

Mas é claro que a felicidade existe: ela existe no coração confiante e esperançoso, disposto ao sacrifício, cheio de amor e coragem do cavaleiro. Ela pode ser muito bem definida como a soma desses elementos; como uma mistura das virtudes humanas e das virtudes oferecidas ao homem por Deus. E o produto dessa felicidade é a alegria, que não por acaso significa disposição. Já vi muita gente dizendo ser feliz, e ao ouvir algumas delas tive a impressão de que elas se sentiam obrigadas a dizer que eram felizes, como se autodeclarar-se infeliz fosse uma admissão de fracasso. E para elas realmente é, pois elas pensam na felicidade como uma conquista, e parece mesmo haver uma competição para conquistá-la o mais rápido possível e mostrá-la a quem ainda não chegou lá. E para isso posso apenas dizer que as coisas são muito mais fáceis para pessoas como eu, que pensam que a felicidade é um presente. Não é uma recompensa, pois recompensa significa reequilibrar e implica mérito. Mas a felicidade não surge de méritos e o homem que esperar ser feliz porque merece certamente acabará desesperado; o que é o caso do nosso tempo. 

Digo confiante que o momento em que um homem descobre que não pode conquistar a felicidade pelas suas próprias mãos é o momento em que ele realmente está pronto para começar a ser feliz: é o momento em que ele começará a sorrir para estranhos e olhar para o céu com gratidão, pois é nesse momento que ele encontrou a alegria, e só a encontrou porque alguém lhe mostrou onde ela estava. O cavaleiro deve ter encontrado a alegria antes de atravessar a floresta e antes de combater o dragão, pois assim poderá salvar a princesa e ainda agradecê-la por lhe ter permitido contemplar tamanha beleza após a vitória sobre algo tremendamente horrível. E o verdadeiro cavaleiro não tentará levar a princesa do castelo contra a vontade dela, mesmo que a tenha livrado de grandes perigos. Ele não irá cobrá-la por ter prestado um favor, e talvez ainda se ajoelhe diante dela por sentir-se honrado em ter lutado contra aquele monstro pela vida de alguém que torna o mundo mais belo.

Seria ainda razoável dizer que se o cavaleiro não tivesse encontrado a alegria antes de atravessar a floresta ele nunca tentaria atravessá-la. Um homem triste e deprimido nunca quer sair de casa. A aventura requer uma disposição para aventurar-se. Combater o dragão requer uma filosofia que permita ao cavaleiro encarar o dragão como outra criatura qualquer; uma criatura que é, como ele mesmo, mais frágil que o seu Criador. Refiro-me a uma filosofia em que é Deus quem cria o dragão, mas apenas para que o cavaleiro possa valorizar a princesa; uma filosofia em que é o cavaleiro quem derruba o dragão, mas apenas porque Deus é seu aliado.

E insisto que quando um homem desiste da ideia de que merece as coisas, mesmo as coisas pequenas serão apreciadas como dádivas divinas, e mesmo as grandes dificuldades não serão vistas como obstáculos ao amor divino. É verdadeiramente fácil admitir que devemos lutar por aquilo que amamos, e que o amor é provado nos sacrifícios da batalha. É tão fácil quanto admitir que a vida é difícil, ou nesse caso, um campo de batalha. Mas é um campo que poderia não estar ali, assim como o cavaleiro poderia não estar ali, e também a princesa poderia não estar ali. Me parece, no entanto, uma coisa boa que todos eles estejam ali, assim como pareceu uma coisa boa para Deus que o homem e a mulher estivessem no Jardim, e por isso sou grato. Eu entendo que as pessoas não compreendam por que Deus permitiria o dragão ou a serpente, e eu certamente não poderia explicar a real intenção. Mas para mim está muito claro que Deus quis deixar o homem livre para aventurar-se, livre para amar e combater: e para isso o dragão é realmente uma necessidade.

Gosto de imaginar que no momento em que o primeiro cavaleiro ouviu sobre o primeiro dragão ele pode ter sentido medo, mas então Deus cochichou no seu ouvido que era mais poderoso que o dragão, e lhe entregou uma espada para lembrá-lo de qual lado Ele estava: e essa espada era a alegria. Com ela o cavaleiro derrotou o dragão, salvou a princesa e voltou à Igreja, onde junto a outros cavaleiros agradecia por um presente singular, o próprio presente que tornava a alegria possível e sincera: o dom da vida. Pensei que uma boa frase para resumir a filosofia que tentei brevemente expor aqui seria “a vida é bela”, e de repente me lembrei do sacrifício de Guido Orefice, o cavaleiro que lutou pela coisa amada com uma alegria de outro mundo, e que de fato deve refletir a alegria de outro mundo, pois nem a própria morte é forte o suficiente para assombrá-la.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, Appreciations and Criticisms of the Works of Charles Dickens. Londres: J. M. DENT & SONS, Ltd., 1911, págs. 27-8.

19 de outubro de 2012

A crença cotidiana #2

Segunda parte do capítulo do projeto que foi abandonado - e-book. Nessa parte o leitor poderá notar, além do conteúdo exclusivo, porções de uma postagem antiga*, publicada originalmente em setembro de 2011.
A impressão que eu tenho ao dialogar com algumas pessoas sinceras é que, mesmo se esforçando para agir com justiça, elas acabam ignorando o fato de que a história do cristianismo não pode ser resumida a uma religião que fez vítimas nesse ou naquele evento, mas poderia facilmente ser resumida a uma religião que foi a vítima na maior parte dos eventos que constroem a sua história. Se olharmos cuidadosamente para cada evento e para as suas testemunhas, é exatamente isso que acabaremos por verificar [1]. Creio que não seja possível continuar sem antes falar dessas testemunhas e sobre uma possível objeção aos depoimentos que elas nos trazem. Acontece que algumas pessoas parecem acreditar que, quando se fala de eventos passados há quase mil anos, há uma carência de documentos que relatem o que via os olhos do próprio povo que protagonizou esses eventos – foi isso que senti ao ouvir um dos discursos do sr. Yuri Grecco contra a Igreja [2]. Mas é exatamente o contrário: a abundância é tão expressiva que chega a ser engraçado ver pessoas falando que as histórias inconvenientes de certo período foram queimadas em benefício de um propósito sombrio. E o que é realmente engraçado é a consequência de uma história que sofre com a transformação do papel em cinzas. Se realmente houvesse essa lacuna histórica, como o historiador moderno seria capaz de afirmar qualquer coisa sobre o pensamento e prática de uma época que não consta em nenhum registro? Se realmente não há registros, então não é possível falar em historiadores. Poderemos apenas falar em poetas. Nesse caso, o que se conta sobre a Idade Média terá tanto valor quanto o que se conta nas histórias em quadrinhos. Seria até mesmo injusto tratar as histórias de Andrew Dickson White como tratamos as histórias de Stan Lee, pois as histórias de Stan Lee são muito mais verdadeiras. 

Penso que esse exemplo pode explicar toda essa dúvida que existe ao se falar do passado um tanto remoto, que é também a possível objeção às testemunhas desse passado. Para algumas pessoas, não é que há apenas certa carência de documentos: o verdadeiro problema é a origem dos documentos. Não no sentido de que tenham sido fabricados posteriormente, mas no sentido de que são, muitas vezes, documentos cristãos. O cético não quer o depoimento de um monge, pois supõe que o monge irá manipular os fatos para representar positivamente a instituição que ele defende. O cético pensa que o monge antigo é como o jornalista moderno tentando garantir o seu emprego agrandado um público-alvo. Mas se consultarmos o que diz o monge, veremos que essa preocupação simplesmente não existe. É por esse motivo que pode até parecer chocante o fato de Lutero ter sido um monge católico. O que se vê no relato dessas testemunhas, bem como se vê no caso de Lutero, é que não há uma preocupação em retratar bem ou mal a Igreja: há apenas a preocupação em relatar o que se vê, e mesmo que a visão seja limitada, ela é útil por ser a expressão do que aquela pessoa realmente viu ou sentiu, em vez de ser uma suposição sobre o que pode ou não ter acontecido. Se juntarmos todos os olhares e todos os manuscritos poderemos realmente construir uma imagem próxima do fato, e é exatamente assim que a verdadeira história pode ser preservada da tentação do preconceito e da especulação exagerada. 

No entanto, os livros limitam-se ao preconceito e até estimam o exagero de especulação [3], e as testemunhas permanecem desconhecidas por boa parte das pessoas que mais insistentemente usam a história para condenar a Igreja. E ainda é necessário dizer algo mais sobre a recusa instantânea por parte de algumas pessoas quando os documentos partem desse ou daquele autor, como se fosse absurdo que um autor católico pudesse falar da Igreja Católica por correr o risco de deixar suas convicções pessoais atrapalharem sua imparcialidade. Essas pessoas parecem supor que o ateu tem até mais direito de falar da Igreja Católica por não ter com ela nenhum laço que comprometa as suas conclusões. Mas mera falta de ligação não garante imparcialidade, e se é verdade que o cristão pode tentar beneficiar o cristianismo movido por seu amor religioso, é igualmente verdadeiro que o ateu pode tentar depreciar o cristianismo movido por seu ódio ou desprezo antirreligiosos.

É possível ir mais fundo nessa questão, a fim de que entendamos o verdadeiro motivo de ser uma grande tolice recusar um depoimento por ele vir de alguém que possa não ser imparcial. No caso do que se diz sobre o catolicismo, a verdadeira questão é: não estariam os autores católicos, ao professarem qualquer argumento em defesa da Igreja, fazendo-o mais por buscarem retratá-la bem, que por qualquer compromisso com os fatos? Isso certamente dificultaria qualquer conclusão acerca de determinados episódios e, por isso, há duas considerações a se fazer, antes de qualquer investigação: a primeira, é que um autor não deve ser descartado por suas convicções pessoais. Imaginemos que um alemão e um francês discutirão o seguinte tópico: "Qual país é melhor: Alemanha ou França?". Seria razoável suspeitar que algum deles acabasse hora ou outra fornecendo uma defesa mais puramente patriótica de seu país, que uma baseada estritamente nos fatos sobre os dois países. Mas isso não nos daria o direito de dizer: "Que venha um inglês e decida a questão". A grande tristeza do alemão e do francês seria descobrir que, na verdade, o inglês não sabia nada sobre a Alemanha e nem sobre a França, e isso serviria, no máximo, como argumento contra a Inglaterra. Mas é verdade que o inglês poderia saber mais sobre a Alemanha e sobre a França do que sabiam o alemão e o francês sobre elas: o grande impasse seria saber, então, se um inglês seria capaz de decidir a favor da França em alguma disputa. O que quero dizer é que, inevitavelmente, corremos o risco de uma pessoa agir mais de forma emocional e deixar a objetividade de lado. Mas esse risco é humano e se manifestará em qualquer situação, e bem como o inglês poderia optar pela Alemanha movido por algum ódio cultural à França, o francês também poderia fazer a mesma coisa e pelo mesmo motivo em outro debate. 

Assim, se certo sacerdote polonês diz algo em defesa do catolicismo, deve-se buscar entender se a realidade sustenta aquilo que ele afirma, em vez de se usar aquilo em que ele acredita para descartar a sua defesa. É até muito mais sensato confiar em quem defende alguma coisa porque acredita naquela coisa, do que confiar em quem acusa alguma coisa pelo fato de nela não acreditar. Isso vale para todos, e é por isso que, se alguém quer entender bem a algo, deve buscar entendê-lo como entendem aqueles que acreditam nesse algo. Não se aprende sobre a Igreja Católica dando ouvidos a Andrew Dickson White, pois ele ensinaria apenas algo que nada tem a ver com a Igreja Católica, e me parece razoável que o ateísta suspeitará que não se aprende sobre o ateísmo dando ouvidos a algum padre de sua cidade – ou ao menos dirá que não se entende plenamente o ateísmo dessa forma. Se houvesse algum curioso fazendo-lhe perguntas sobre o ateísmo, suponho que ele preferiria recomendar Bertrand Russell. Mas, para que não se tenha a impressão errada do que quero dizer, esclareço que não estou dizendo que não se deve ouvir o que Dickson White tem a dizer sobre a Igreja, ou que um padre não pode dizer algo sobre o ateísmo: o que estou dizendo é que aprender sobre alguma coisa requer dar ouvidos tanto a quem a ama e quer preservá-la quanto a quem a odeia e quer destrui-la, pois somente assim o curioso poderá confrontar os dois extremos e concluir se quem ama ou odeia aquela coisa o faz por enxergar nela um fato amável ou odiável, ou se ama ou odeia aquela coisa apesar dos fatos amáveis ou odiáveis sobre ela. O que mais tenho notado sobre algumas pessoas que parecem curiosas é que elas quase nunca são curiosas o bastante, e isso explica praticamente todos os equívocos que elas cometem ao lidar com alguns desses problemas. Pois é verdade que há o cristão que crê no cristianismo por pura covardia de questionar-se e descobrir-se sozinho em um mundo carente de amor divino; mas também é verdade que há aquele sujeito que não crê no cristianismo por pura covardia de dar a ele uma chance e descobrir-se incapaz de negá-lo honestamente. 

A segunda consideração é a seguinte: assim como o alemão desconfia do julgamento que o francês faz sobre a França, também o ateísta pode desconfiar do julgamento que o católico faz sobre a Igreja Católica; mas é necessário imaginar a cara do alemão caso descobrisse que o inglês escolhera a França: ele certamente desejaria saber o que há na França de tão especial. Digo, pois, que no caso da Igreja Católica, para a triste alegria do alemão, não é só com o depoimento do inglês ou do francês que ele pode contar, mas com o irlandês e até mesmo com o chinês. O ateísta pode e deve desconfiar do que os católicos têm a dizer sobre a Igreja Católica, mas se ouvir o que os judeus têm a dizer sobre ela, ou os protestantes, ou os próprios ateus, ele terá dado seu primeiro passo rumo à construção de um consenso – que a princípio pode ser histórico ou anti-histórico. É assim que se descobre se há um fato amável sobre algo, ou um amor que ignora os fatos; e essa descoberta precisa estar em harmonia com a realidade. Bem como Sócrates Escolástico podia falar sobre a Igreja de sua época por ter vivido aquela época [4], também os judeus podem falar sobre a Igreja da Segunda Guerra, pois eles estavam lá. Nem todos os judeus estavam lá, mas alguns estavam, e é a eles que podemos emprestar nossos ouvidos [5][6][7][8]. 

Quando Richard Dawkins sente que a temperatura ambiente é capaz de ferver uma boa sopa de legumes, fala da Igreja e do nazismo como se Hitler e Pio XII fossem praticamente compadres [9]. Richard Dawkins é ainda mais problemático que Richard Carrier. Ao menos o segundo prestou-se a investigar alguma coisa. Eu não sou capaz de dizer qual dos dois demonstra maior apresso por polêmicas, mas sou capaz de dizer exatamente por que são polêmicas vazias. Dawkins repetiu diversas vezes que Hitler era católico por nunca ter renunciado ao batismo e por nunca ter sido excomungado pela Igreja. Mas ele parece ter a mente bastante limitada para sequer entender o que é uma excomunhão. Ele certamente nunca consultou o Direito Canônico. Parece que nenhum de seus leitores devotos o fez, e é por isso que eles se sentem até empolgados ao aplaudir algumas de suas declarações em alguma praça inglesa, em protesto à visita do Papa. De certo modo, Richard Carrier tem mais cautela e é até mais interessante: mas ele ainda precisa de algo sem o qual todas as suas ideias não podem resistir: novamente, trata-se do bom senso, pois ele certamente não percebe que mesmo suas ideias mais banais são completos absurdos. Lembro-me de seu artigo em que trazia ao leitor o resultado de suas investigações acerca do controverso Hitler’s Table Talk [10]. Lá ele denunciava as alterações de algumas traduções da obra e explicava o que o livro realmente dizia. Não se vê ali um Hitler anticristão: se vê, de fato, um Hitler lunático. Para Carrier, mesmo após toda a loucura, ainda se vê um Hitler católico, e o que fica evidente é que, assim como Richard Dawkins, ele sequer entende o catolicismo. Segundo os resultados de sua própria investigação, Hitler acreditava em um Cristo Ariano, desprezava o Apóstolo Paulo e repudiava como loucura o conceito da transubstanciação. Mas ele não vê, nisso tudo, algo que levante entre Hitler e o catolicismo a mínima contradição. 

Esse é exatamente o tipo de pessoa que condena a luta católica contra os hereges sem ao menos saber o que é uma heresia. Carrier está, em relação à Dawkins, mais familiarizado com a história, já que é um historiador: mas estar mais familiarizado com a história do que está Richard Dawkins não é necessariamente uma vantagem.  No fundo, nenhum dos dois pode dizer o que realmente aconteceu, no sentido de que nenhum dos dois é confiável: a ignorância é diferente, mas causa praticamente a mesma cegueira. Especialmente a cegueira de Carrier ficou muito clara, ao menos para mim, quando recomendou o filme Agora, de Alejandro Amenábar, em uma de suas palestras contra o cristianismo [11], em que disse que o filme era historicamente acurado e que quase o fez chorar. Não duvido que Agora seja capaz de fazer uma pessoa chorar, assim como estou certo de que é capaz de fazer uma pessoa gargalhar. O mesmo pode ser dito da avaliação de Carrier sobre o filme. De qualquer forma, deixarei outros comentários para outra oportunidade. 

Se as pessoas buscassem consenso entre autores, em vez de consultar apenas esses autores polemistas, que ou são cegos ou são obscuros, então teríamos a condição necessária ao entendimento da história: falo, novamente, de dar ouvidos aos olhos, sem que se esqueça, porém, dos lábios. As imagens podem registrar um momento marcante, mas somente as testemunhas e os relatos podem dar sentido ao momento e explicar porque ele foi marcante. Uma pessoa que é justa sobre a Igreja pode garantir muitas coisas sobre sua história: pode garantir que houve resistência e que houve traição; que houve fraqueza e que houve coragem; que houve fé e que houve desespero - e não há nada de surpreendente nisso tudo. Ninguém pode, porém, dizer que a Igreja, que por vezes parece um navio afundando, tenha realmente afundado ou perdido a esperança de encontrar terra firme. Não só ela encontrou terra firme, como também não hesitou em trazer naquele navio duvidoso uma tripulação que em nenhum outro lugar encontrou ajuda para superar as ondas cruéis de um mar impiedoso. Aquela tripulação não fez outra coisa senão agradecer por aquela imensa generosidade. Mas quem já estava na ilha, em segurança, quem não acompanhou o drama da tempestade olha para o navio e imagina que ele provavelmente não fez nada. À medida que a tripulação desaparece, também desaparece a gratidão. Enquanto duas ou três pessoas tentam falar sobre as glórias e importância do navio, os indiferentes veem nele apenas algo sem beleza e que ofusca a beleza do que o cerca. Não importa o que digam, será sempre um velho navio que por pouco não naufragou e que já não tem utilidade.

Esse é exatamente o julgamento que os modernos fazem do navio. Olham para o casco destruído, mas não imaginam o capitão ou a trajetória, nem distinguem os leais e os traidores. Não consultam os tripulantes, mas consultam os jornalistas, que apareceram muito depois de a âncora tocar o chão e congelar o tempo, como moscas que só vão até o cadáver quando o odor do corpo já é muito forte. Trata-se de olhar para a foto sem perceber que uma imagem não conta uma história. Trata-se de olhar para a história como se ela não fosse uma aventura no tempo, mas uns poucos retratos congelados. Minha avó sabe que seus retratos não revelam os segredos da infância, a alegria do casamento ou a felicidade da família. Mas os que são chamados céticos parecem não saber que o retrato diz muito pouco, principalmente para quem não sabe o que houve antes ou depois daquela fração de segundo.


Notas:
*Challenge Accepted, 3 de setembro de 2011: caosdinamico.com.

Referências:
  1. Eu apenas imagino a reação de alguns ao ler tal afirmação, mas o cristianismo passou os primeiros séculos sendo perseguido pelo Império Romano, e mesmo após ter crescido foi vitimado em diversos episódios de diferentes períodos e lugares - França, Espanha, México, por exemplo. Mas o mais notável é o fato de ainda hoje pessoas serem perseguidas por causa da fé cristã, como se pode perceber na China comunista ou em vários países teocráticos islâmicos.
  2. Eu, Ateu, 29 de agosto de 2011: A Igreja Católica era boazinha.
  3. Por "livros" não me refiro aos livros de historiadores que discutem a fundo cada pequeno evento histórico, levando em contas as fontes originais e o que outros historiadores afirmam sobre esses eventos; me refiro aos livros populares e ao desserviço que prestam à verdadeira História. Livros didáticos parecem tender à abordagem popular e ignorar a abordagem acadêmica, o que é no mínimo irônico.
  4. Sócrates de Constantinopla, historiador cristão, autor de Historia ecclesiastica, obra em que relata, por exemplo, o caso de Hipátia de Alexandria - filósofa assassinada por um grupo de cristãos, no século V.
  5. Há livros com depoimentos de judeus sobre o Papa Pio XII e a atitude da Igreja em relação ao drama sofrido pelos judeus sob o nazismo: Defamation of Pius XII, de Ralph McInerny; The Myth of Hitler's Pope, de David G. Dalin, e Did Pope Pius XII Help the Jews, de Margherita Marchione, por exemplo. O primeiro e segundo exemplo são respostas diretas a Hitler's Pope, de John Cornwell.
  6. A Pave the Way Foundation tem feito grandes esforços em esclarecer a figura de Pio XII e seu comportamento em relação aos judeus e nazistas. Eles compilaram pilhas de documentos, promoveram simpósios e publicaram um livro, Pope Pius XII and World War II - The Documented Truth, do judeu Gary Krupp, disponível em amazon.com. Também produziram um vídeo narrado sobre o assunto, que exibe vários documentos, como cartas escritas à mão: Pope Pius documents.
  7. No Google News Archives há uma publicação do The Milwaukee Sentinel, 22 de março de 1937 - antes mesmo da Segunda Guerra Mundial -, em que se lê: "Nazistas denunciados pelo Pio como anticristãos". A página completa pode ser acessada aqui: news.google.com.
  8. Mesmo O Globo atentou recentemente para o problema, em um artigo intitulado "A misteriosa relação do Vaticano com Hitler", 17 de março de 2012, de Graça Magalhães. Nele lemos: "Novos estudos revelam que Igreja teria sido sempre contrária ao nazismo, mesmo quando silenciou". A página completa pode ser acessada aqui: slideshare.net.
  9. "Protest the Pope" Rally, 18 de setembro de 2010: Richard Dawkins' speech at Protest the Pope march.
  10. Richard Carrier, em Freedom From Religion Foundation, On the Trail of Bogus Quotes, novembro de 2002. Disponível em ffrf.org.
  11. Richard Carrier, Early Christian Hostility to Scientific Values. A palestra está disponível no Youtube, dividida em oito partes: Richard Carrier on Early Christian Hostility to Science.

4 de outubro de 2012

A crença cotidiana #1

No começo de 2012 tive a ideia de escrever um e-book misturando o conteúdo publicado nesse blog e algumas coisas inéditas. Acabei abandonando o projeto, mas não cheguei a "jogá-lo no lixo". Escrevi apenas um capítulo, e nele tentei fazer uma breve introdução ao problema do ceticismo moderno, utilizando linguagem simples e referências com as quais qualquer adolescente estará provavelmente familiarizado, como filmes da Disney e quadrinhos da Marvel - basicamente o que sempre faço por aqui. Minha ideia, agora, é publicar esse capítulo em forma de postagens (três ou quatro, para que cada uma não fique muito extensa).

Atenciosamente, Vinicius Oliveira.

A Incredulidade de São Tomé
Por algum motivo que eu não sou capaz de entender de forma clara, tornou-se comum pensar que o ceticismo é um direito exclusivo dos ateus, quando, na verdade, é um direito de todos os seres humanos. Não há sentido em pensar que o mecânico ou a senhora que vende doces caseiros não podem receber esse título, pois muitos mecânicos e doceiras encaram a vida e projetam seu futuro exclusivamente a partir da experiência cotidiana, sem que qualquer preocupação acerca do Númeno atrapalhe seus negócios. Recordo-me de uma discussão despretensiosa em que afirmei ser cético pouco após ter afirmado ser cristão, e a objeção veio imediatamente, como se fosse impossível ser, ao mesmo tempo, as duas coisas. A popularidade da ideia de que o ceticismo é uma exclusividade de algumas poucas pessoas é tão grande que é praticamente impossível falar de céticos sem parecer que se está falando de um grupo muito específico de desconfiados sem religião. Algumas pessoas parecem pressupor certos critérios para o ceticismo, de modo a descartar do clube dos céticos todos aqueles que não atendem a esses critérios. E o que é realmente notável é o fato de tais critérios serem estabelecidos, na maioria das vezes, sem critério algum.

Se pegarmos o exemplo de alguns jovens ateus, e aqui gostaria de destacar, para ser justo, o meu próprio exemplo, será possível notar a completa falta de prudência na tentativa comum de identificar-se como um cético diferenciado, ou um cético verdadeiro. Parecia-me muito claro que eu era um cético autêntico por duvidar de boa parte das coisas que me contavam, inclusive quando não havia motivos aparentes para que houvesse qualquer dúvida. Essa minha dúvida sobre quase tudo se manifestava principalmente quando as pessoas tentavam parecer verdadeiros conhecedores do comportamento humano. E em uma sala de aula de ensino médio, a cada três minutos é possível imaginar que o espírito de Skinner está controlando os lábios de algum fofoqueiro; mas a impressão é ainda mais terrível quando se trata dos lábios de um professor, porque o professor fala com autoridade.

Coincidentemente, essa foi a primeira pista que me levou a concluir que eu, de fato, nunca fui um cético distinto: pois em geral nós temos a mania bastante atrevida de duvidar das histórias de nossas avós, mas dificilmente duvidamos das histórias dos nossos professores. Não me refiro meramente às histórias particulares dos professores, mas a tudo que eles nos contam em uma sala de aula. Nós não temos a mania atrevida de duvidar das fantasias que lemos em livros didáticos, porque supomos que eles são científicos; mas é bastante fácil duvidar das histórias das nossas avós, porque supomos que elas são inevitavelmente fantasiosas. Eventualmente se descobre que é fácil duvidar do que diz o sacerdote em sua pregação de certo domingo de manhã, mas dificilmente se percebe o quanto é difícil duvidar da pregação dos professores todas as manhãs, porque dificilmente se acredita que o professor possa estar pregando. O professor está sempre revestido de uma aura científica que brilha e encanta, e mesmo aqueles que se julgam prudentes e cautelosos não manifestam cautela ao admirar esse brilho. Em resumo, pode-se dizer que há certa ingenuidade no ceticismo concebido popularmente que se revela em duas formas essenciais: primeiro, o cético não percebe que o ceticismo se manifesta em todas as pessoas, apenas direcionado para fatos distintos; segundo, ele não percebe que é impossível ser cético sobre tudo, e que mesmo para contestar uma ideia é necessário afirmar outra ideia. É possível dizer que o cético talvez nunca tenha parado para pensar que, enquanto ele duvidava de sua avó, sua avó também duvidava de tudo que a ela parecia suspeito. E me parece que as crianças mentem e se enganam muito mais do que as avós, o que naturalmente torna o ceticismo dos idosos uma ferramenta muito mais prática.

Não me refiro às avós e aos professores por acaso. Se eu tivesse dado mais atenção às fantasias de minha avó e menos às histórias de meus professores, eu provavelmente não estaria aqui falando sobre a descoberta da fé – talvez eu a tivesse descoberto muito antes e não sentisse a menor necessidade de falar sobre ela, pois para um grande número de cristãos a fé é tão cotidiana que sequer deixa espaço para a surpresa: e aqui escrevo apenas sobre essa surpresa. É bastante surpreendente perceber que seria muito mais sensato ouvir minha avó, pois naquela frágil senhora havia uma força em que eu podia confiar; e é igualmente surpreendente descobrir que alguns professores tão fortemente convictos de seus absurdos são mais frágeis que a pequena Dory. E apesar de possível, é difícil confiar em alguém cujo intelecto não inspira confiança alguma – mesmo se levarmos em conta a circunstância, como no caso de Marlin. Eu até posso afirmar com certa segurança que a fragilidade emocional é muito mais tolerável que a fragilidade intelectual: é muito mais fácil sensibilizar-se com as mudanças de humor de uma mulher educada do que com uma mulher educada que não sabe apontar, no mapa, a localização da Espanha. No primeiro caso não é necessário inventar desculpas, pois há algo natural que livra a mulher da culpa; no segundo caso, há um culpado bastante óbvio e inesperado, principalmente quando levamos em conta a educação: o culpado é a ignorância.

A ignorância é o que torna irônico todo o drama que se vê, hoje, em muitas salas de aula. É realmente irônico perceber que quem ensina não está apto a ensinar. Essa realidade é muito maior que a mera aptidão no sentido metodológico. Mesmo quem é capaz acaba reproduzindo algumas centenas de idiotices sem se dar conta de que são idiotices insustentáveis. É muito difícil acreditar que a ciência de alguns professores é mera fantasia. É difícil até mesmo levantar a hipótese de que um professor está mentindo, e há motivos razoáveis para essa dificuldade. Às vezes porque a mentira é tão tradicional quanto o próprio ato de mentir – e apesar de não ser necessário culpar os professores, é possível perceber que eles são, muitas vezes, os primeiros a agir em completo desacordo com o ceticismo que muitos deles professam desregradamente. O professor está apenas repetindo algo que, para ele, é tão verdadeiro quanto a queda do muro de Berlin. E para ele o livro didático é tão preciso quanto o arco-íris é colorido. O que se vê diariamente é que o professor comum é, muitas vezes, tão sincero quanto nossas avós. Mas o que é realmente chocante é que ele é muito mais ingênuo.

A falácia do apelo à autoridade se tornou popular no lugar onde ela mais deveria ser vista como uma falácia: esse lugar é a escola. Se olharmos para alguns livros de matemática, veremos que eles se preocupam mais em explicar tal fórmula a explicar quem a formulou. Não veremos opiniões irrelevantes ou condenações morais de algum doutor moderno sobre quem a formulou, pois tudo isso é irrelevante para a coisa que nos interessa: a fórmula em si. Mas se olharmos para boa parte dos livros de história, veremos ali uma maior preocupação com opiniões, quando a única preocupação deveria ser os próprios eventos. O livro de história se recusa a relatar quais tecnologias foram desenvolvidas na Idade Média, mas professa alegremente que o homem da Idade Média era incapaz de desenvolver novas tecnologias [1]. Enquanto o livro de matemática se preocupa com os escritos de Pitágoras acerca de algo bastante específico, o livro de história sequer apresenta os escritos de quem sofreu com a peste negra, passando a impressão de que a peste chegou a impedir toda a Europa de escrever. O livro de história fala sobre o Rei, sobre as atitudes do Rei e até sobre as intenções do Rei, mas quase nunca permite que o Rei fale por ele mesmo. Ali se vê, da forma mais nítida possível, que quem conta a história ignora o fato em benefício do preconceito, e a tinta da pena borrada no papel de quem realmente viu e contou algo é ignorada como se fosse invisível. E tão rápido quanto um cão que corre atrás do coelho o preconceito se espalha e se torna praticamente científico, como se fosse possível reproduzir diversas vezes as fitas da história assim como é possível repetir diversas vezes determinado experimento.

O resultado é que a autoridade da mentira histórica é tão forte que confunde a simplicidade da verdade histórica. O cético comum do qual venho falando baterá no peito e dirá que se recusa a acreditar que milagres acontecem, mas dificilmente se recusará a acreditar que os navegadores europeus temiam cair no abismo da terra plana. Mas é muito mais fácil provar que os europeus nunca temeram abismos ou monstros nos confins do oceano do que provar que milagres não acontecem. Não se encontra em nenhum registro daquele tempo que essa era uma ideia popularmente aceita, ou mesmo conhecida, para ser mais exato; no entanto, tornou-se comum dizer, diante de algumas imbecilidades contemporâneas, que o homem já acreditou em coisas tão absurdas como a ideia de que a terra era plana – é o caso do sr. Bernardo Lopes [2].

Os livros de história certamente não podem ser exatos como os livros de matemática, mas é lamentável que sejam mais fantasiosos que os livros de ficção científica. O problema, obviamente, é que não se espera que a fantasia seja promovida na escola – se for esse o caso, espera-se que a promoção limite-se ao jardim de infância. A realidade, porém, é bastante diferente, e mesmo um universitário inteligente olhará para Galileu como um mártir da ciência sem ao menos saber que o problema de Galileu nunca foi científico [3][4][5]. As histórias contadas nas aulas de história são aceitas simplesmente por serem contadas nas aulas de história, e o efeito prático desse conformismo é que a história acaba não sendo contada. Tenho a impressão de que é tão fácil reproduzir em um livro didático os relatos de Ana Comnena [6] sobre a relação entre seu pai e Boemundo quanto é fácil reproduzir os escritos de Darwin sobre a relação entre as aves e os répteis. Mas o livro de história não ousa mencionar a princesa, pois sabe que seu fantasma é mais honesto e revelador que as ideias absurdas que se consegue promover quando é possível calá-lo.

A aula de história, muito mais que qualquer aula de domingo de manhã, é a verdadeira responsável pela crença cotidiana, a única crença em que até mesmo os céticos mais cheios de si acreditam sem a menor desconfiança. A força dessa crença é absurda, e é praticamente impossível ser levado a sério quando se diz que a Igreja Católica nunca perseguiu cientistas [7]. Essa ideia e várias outras são tão fortes que são aceitas sem a menor necessidade de reflexão e estudo. Mesmo o aluno que nunca pegou um único livro sobre algo que não caberia em menos de mil páginas se sente no direito de lembrar aos católicos dos fatos históricos que depõem contra a Igreja, que, segundo eles, se tornou poderosa à custa de alguma psicologia terrorista e certa corrupção que ainda persiste. Na verdade, é o mesmo aluno que não sabe explicar como Hitler convenceu a Alemanha de ideias obviamente desumanas. Para ele basta saber que Hitler foi um homem cruel e desprezível: não é necessário saber como um homem cruel e desprezível conquistou pessoas comuns que não apreciam crueldades. E, de certo modo, é exatamente assim que ele analisa toda a história da Igreja: basta saber que trata-se de uma entidade cruel e desprezível, mas é irrelevante saber como essa entidade cruel e desprezível torna-se a casa de uma família de bilhões de pessoas que nem sempre merecem algum desprezo. Não comparo a Igreja ao regime nazista como se ambos fossem, mesmo, cruéis e desprezíveis, e é bastante fácil mostrar a diferença, mas para quem não conhece bem as duas coisas a distinção será praticamente impossível. Não espanta ser uma coisa comum comparerem a Inquisição ao Holocausto. 

De fato, ouviremos algumas explicações vagas e imprecisas que afirmam que o cristianismo cresceu pela força da espada e pela psicologia do medo. Lembro-me de uma discussão com um amigo interessado nessas coisas, que ilustra exatamente isso. Dizia ele que o cristianismo crescera através das conquistas e do terror, oferecendo como exemplos respectivos as Cruzadas e a Inquisição. O que era realmente notável é que ele não achava no mínimo curioso o fato de que no século XII o cristianismo já era um gigante. Se alguém afirma que a cristandade consolidou-se através dos exércitos cruzados, precisa primeiro explicar de onde vieram os milhares de cruzados para formar aqueles exércitos. É nesse momento que se descobre que muito antes de possuir um escudo para defender o seu templo a família cristã o defendia com o próprio peito, e por isso a rica história dos mártires já começa com os apóstolos.

Ademais, eu diria isso sobre a diferença entre a ascensão do nazismo e da Igreja: que o terror não foi a ferramenta que nenhum dos dois usou para conquistar o povo; a real diferença é que o nazismo fez exatamente o que é feito para ascender no Brasil ou na América do Norte. Ele iludiu o povo e fingiu ser algo que não era; seduziu as pessoas para uma armadilha e o fez como qualquer caçador inteligente faria, com uma isca irresistível para uma armadilha mortal. A Igreja é uma das poucas coisas, senão a única, que ascendeu dizendo a verdade e sendo ela mesma. Ela não fingiu ser mais doce do que realmente era ou menos severa do que realmente era. Por oferecer algo que considerava real, condenou o erro com uma força sobrenatural. Não disse coisas para agradar os homens e fazer amigos, como alguém que elogia um estranho e depois pede a ele dinheiro emprestado; disse apenas a verdade, e os homens se agradaram ao ouvi-la.

E a amizade que surgiu entre o homem e a Igreja é um dos poucos tipos de amizade verdadeira - amizade que sabe amar e disciplinar, consolar e corrigir, ou mesmo gritar e chorar sem que isso signifique o fim da relação. A Igreja é amada por milhões de pessoas porque foi o amigo raro que nem todos têm a sorte de encontrar e que muitos acham bom demais para existir. O nazismo nunca foi esse amigo, e os partidos políticos em geral não são esse amigo: eles são meramente enganadores e interesseiros, que riem pra gente com um sorriso barganhista e nos abraçam cordialmente como Satanás faria ao levar qualquer pessoa para o inferno. Pouco importa se o nazismo trouxe o inferno para as pessoas ao invés de levá-las até lá: o fato relevante é que a Igreja é a única coisa que se aproximou do homem a fim de levá-lo até o Céu.


Referências:
  1. Essa afirmação não é exatamente atual. Chesterton já a denunciava cem anos atrás: Illustrated London News, Getting to Know the Middle Ages, 15 de novembro de 1913. Disponível em chesterton.org. Tradução disponível em quadrante.com.
  2. Acid Atheist, 23 de outubro de 2011: Humanidade Acéfala. Cito o sr. Bernardo apenas como um de vários exemplos possíveis, pois a ideia é bastante comum e pode ser encontrada em livros populares ou filmes de Hollywood - Men in Black, 1997, por exemplo.
  3. Os problemas de Galileu começaram por ele ter sugerido que as Escrituras deveriam ser reinterpretadas. De fato, ele fez isso após ter sido alertado para não adentrar ao debate teológico. Nicolau Copérnico, que propôs o modelo heliocêntrico não teve problemas com a Igreja, e dedicou sua obra De revolutionibus orbium coelestium ao Papa Paulo III. O verdadeiro problema foi Galileu ter sugerido a reinterpretação das Escrituras sem ter provado que o Heliocentrismo era correto, e ainda assim ensiná-lo como fato, enquanto a Igreja havia lhe recomendado ensinar o modelo apenas como teoria. A contínua desobediência de Galileu e a publicação do Diálogo sobre o fluxo e refluxo das marés, em que o Papa Urbano VIII era representado como um imbecil, contribuíram para sua condenação à prisão domiciliar.
  4. Ver Marcelo Gleiser, A Dança do Universo: dos mitos de Criação ao Big Bang, "O Herético Religioso". São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  5. Ver Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, trad. de Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, págs. 63-70.
  6. Alexíada, de Ana Comnena, em que é narrada a vida do Imperador Aleixo, é, de acordo com Steven Runciman "a única fonte grega de importância substancial" referente à Primeira Cruzada. O autor não deixa de ressaltar que a própria Anna deixa, por vezes, que seu preconceito ofusque os fatos (Steven Runciman, História das Cruzadas, Volume I: A Primeira Cruzada e a fundação do Reino de Jerusalém, trad. de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2003, pág 291). Cito-a como exemplo de fonte primária que geralmente é ignorada, senão desconhecida quando se fala em Cruzadas.
  7. Essa ideia está normalmente associada a outro equívoco: o de que a Inquisição era um sistema de perseguição que aniquilava tudo que estivesse em seu caminho e fosse contrário à Igreja. Além disso, o erro causa a impressão de que a Igreja perseguia cientistas pelo mero fato de serem cientistas ou praticarem a ciência. Mas mesmo Galileu não foi condenado por razões científicas, e sim teológicas. Giordano Bruno, outro exemplo utilizado, não era cientista, apesar de receber de alguns o título de "mártir da ciência".

7 de setembro de 2012

Sabedoria ATEA

Generalizações nem sempre são adequadas, mas muitas vezes são divertidas. Obviamente generalizar faz muito mais sentido em uma piada do que em uma matéria de jornal. Já vi muitos ateus reclamarem, muitas vezes com justiça, de cristãos que julgam todos eles de forma inadequada, como imorais ou coisa parecida, e depois me deparei com os mesmos indivíduos acusando todos os cristãos de serem alienados ou pouco inteligentes.

Essa segunda acusação é bastante comum e é a que nos interessa. Eu não ousaria dizer que todos os ateus são arrogantes e que pensam ser mais inteligentes que os cristãos, mas eles existem aos montes, assim como cristãos arrogantes também não são raros. Seja como for, a arrogância, que nada mais é que uma grande imbecilidade, é ainda mais desastrosa quando misturada à completa falta de bom senso; e tal é a arrogância da ATEA e de boa parte de seus seguidores.

A associação faz questão de anunciar o quão estúpido é o cristianismo, e na maior parte das vezes que o faz, age de modo estúpido e infantil. Nessa postagem eu não tentarei falar de algo como a superioridade intelectual cristã, mas mostrarei que não existe algo como a superioridade intelectual da ATEA, apesar de ela estar convencida de que essa coisa realmente existe. Essa será a primeira postagem em que incluirei não só o conteúdo publicado pela associação, mas também um pouco do conteúdo de outros usuários em resposta a essas publicações.

Devo admitir que quase desisti dessa postagem, pois a sensação de que o conteúdo será demasiado infantil ainda me assombra. Alguns questionamentos aos quais farei referência aqui poderiam apenas ter saído de uma mente pré-adolescente [1][2][3][4][5], e o que é realmente assustador é ver adultos tratando essas bobagens com seriedade, como se elas tivessem fundamento. E talvez essa acusação possa ser dirigida a mim, já que estou as levando em conta; mas creio que a distinção esteja bem clara.

Uma das maiores marcas do neo-ateísmo é a sua incapacidade de superar o problema do mal. A ATEA, sendo uma associação neo-ateísta e muito apreciada por neo-ateus não é diferente [6]. Em um chamado Guia passo a passo para o Problema do Mal [7], é possível perceber um equívoco ateísta comum sobre a onipotência, que alguns ateus parecem pensar que significa poder fazer tudo, inclusive o impossível, e isso obviamente não tem o menor sentido. Não é lógico que, se Deus não pode criar um mundo com criaturas moralmente livres onde não exista o mal, Ele deixa de ser onipotente. Se criaturas moralmente livres não podem escolher o mal, onde está a liberdade?

Como explica São Tomás de Aquino, "já que a potência se refere ao possível, quando se diz: Deus tudo pode, o mais correto é entender que pode tudo o que é possível e por isso se diz onipotente" [8]. Mesmo o mal natural não é argumento contra a onipotência, pois não podemos dizer que Deus poderia criar um mundo sem esse tipo de resultado. O problema do mal não passa, portanto, de uma objeção emocional, em vez de ser um argumento lógico válido [9].

Outra objeção parecida, no sentido de que também exige que Deus tome uma atitude, é essa: se Deus existe, por que não se mostra [10]? Imagino que as pessoas que a defendem também não entendem a liberdade que nos foi dada, ou mesmo por que o cristianismo considera a fé uma virtude. Como argumenta Frossard, "o ocultamento de Deus é, sem dúvida, a condição da nossa liberdade de consciência, sem a qual não passaríamos de um brinquedo mecânico desprovido da menor aptidão para o diálogo" [11]. Já ouvi muitos ateus chamando a Deus de ditador e depois reclamarem por Ele estar muito bem escondido. Mas se Deus não se escondesse Nietzsche não seria Nietzsche e o materialismo, tão admirado por outros homens de bigode, não teria confortado tantos corações.

A certeza de Deus confortou o coração de pecadores de fé e a dúvida sobre Deus confortou o coração de muitos outros pecadores: permitiu a esses a certeza de que não cometiam nenhum pecado; permitiu que acreditassem em si mesmos. Chesterton não apreciaria esse fato [12], mas Deus o permitiu. Tentei falar sobre isso de forma breve ao concluir outro texto [13], e prefiro não estender esse tópico no momento. A primeira postagem que escrevi sobre a ATEA [14] acabou bastante extensa, mas nessa, que é a terceira, pretendo ser breve.

Recentemente, com toda a discussão em volta do Bóson de Higgs, a ATEA passou a publicar uma série de postagens que provavelmente representam uma de suas maiores idiotices. Eu sei que isso parece ofensivo, mas são as palavras mais delicadas que eu posso imaginar no momento. Não entendo como diversos ateus poderiam concluir que a confirmação do Bóson de Higgs descartaria a necessidade de Deus ou provaria que ele não existe; mas isso realmente aconteceu - e eu recomendaria sobre isso a leitura de Mundo Quântico e a refutação de Deus [15]. O pior, no entanto, foram comentários posteriores: piadas científicas que não passam de aberrações filosóficas. "Porque é mais fácil detectar uma partícula subatômica do que o criador do universo", lemos em uma publicação da ATEA [16].

Ora, como exatamente poderíamos detectar um ser metafísico, no mesmo sentido que se pode detectar uma partícula? Isso, é claro, só mostra o baixo nível de conhecimento que a associação e seus membros têm sobre o próprio conceito de Deus, ou sobre Filosofia em geral. Não é por acaso que estão sempre levantando a questão "Quem criou Deus?" - que John Lennox chama de "argumento do garoto de ensino médio" [17]. Coisas desse tipo só podem ser superadas por outras muito mais desastrosas, como a afirmação de que foi Isaac Newton quem descobriu que a terra é redonda [18], feita por um dos seguidores da ATEA.

O leitor poderia pensar que algo tão nonsense só viria mesmo dos seguidores da associação, e não dela própria, mas o leitor estaria enganado. A próxima publicação com a qual lidarei é, de fato, a única necessária para descredibilizar completamente a associação. Se a pergunta "Quem criou Deus" é um argumento de ensino médio, eu não sei se seria justo qualificar o próximo como argumento de jardim de infância. A postagem não foi fabricada pela ATEA, mas se a associação faz questão de publicá-la em seu mural, deve no mínimo concordar com as informações ali contidas. Na verdade a maioria das publicações da ATEA parecem fabricadas por terceiros, mas isso em nada diminui sua culpa: talvez desmascare a pretensão de ceticismo, pois um cético não acreditaria em qualquer disparate pelo simples fato de ser um disparate anticristão.

A imagem à qual me refiro, publicada pela ATEA [19], foi fabricada pelo Universo Ateu [20], mas foi na associação que obteve popularidade, chegando a mais de três mil compartilhamentos. Nela lemos: "O que eles não te contam na Igreja", seguido pelas famigeradas comparações entre Jesus e deuses pagãos. Eu arriscaria dizer que tais informações não são contadas na Igreja por serem grandes mentiras que abusam violentamente do bom senso, como, por exemplo, a informação de que Hórus nasceu no dia 25 de dezembro; mas filmes como Zeitgeist certamente merecem mais credibilidade que um sujeito amador que escreve em um blog pouco popular. Com isso não pretendo ser irônico, pois é provavelmente como eu agiria em situação semelhante, mas eu gostaria que a ATEA mostrasse a todos nós o mês de dezembro no calendário egípcio.

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De qualquer forma, os paralelos entre os deuses pagãos e Jesus não são o maior absurdo da imagem - a esses paralelos eu apenas sugeriria a leitura de Pagan Parallel "Saviors" Examined [21], que cobre os deuses utilizados na postagem ateísta e é o mais completo que eu conheço. Agora, ao ponto decisivo: a imagem utilizada para o que pretendia ser Dioniso, o deus do vinho e de todos os elementos líquidos da natureza.

A pessoa que montou o quadro comparativo certamente não fazia ideia do que estava aprontando, e não se pode aceitar a confusão como mero acidente. Confundir o deus pagão com um santo cristão é algo muito maior que uma cruel ironia. E é por isso que a sensação de estar ofendendo as crianças do jardim de infância não me abandona. Analisando a imagem ao lado ficará claro que o retrato usado é de um santo cristão. Os retratos dos santos Agostinho, Basílio e Francisco de Assis são alguns exemplos de retratos parecidos, populares especialmente entre os católicos.

Muitos comentários poderiam ser feitos sobre isso, mas acredito que nenhum seja necessário. Mas eu quero ir além e mostrar um pouco mais da incoerência da associação, que há alguns meses publicou uma nota intitulada "10 dicas para ter seu conteúdo aprovado e postado na ATEA" [22]. No oitavo item da nota lemos: "Posts com palavras de baixo calão e críticas sem citar a fonte que as valide serão deletados". Posts ou críticas sem fonte serão deletados?

Eu gostaria de pedir ao leitor que, caso não o tenha feito, visite cada uma das publicações da ATEA linkadas nessa postagem e tente encontrar uma única em que se encontra qualquer fonte citada. Visite as publicações da ATEA e você descobrirá que, segundo esse critério, a maioria delas deverão ser deletadas. Suponho que se ao menos a associação consultasse alguma fonte antes de postar qualquer coisa, não teríamos de rir da hipótese de um santo cristão que tenha nascido antes de Cristo, ou de um deus pagão que carrega uma cruz cristã no peito. E o que é sublime em tudo isso é o fato de as pessoas que promovem esses absurdos acharem que os alienados e ignorantes somos nós.

Se essas são as pessoas intelectualmente superiores, racionais e verdadeiramente céticas, eu prefiro ser chamado de idiota cristão, prefiro que riam de mim e da minha irracionalidade, e que façam piadas sobre todos os ignorantes que creem em Deus. Pois em um mundo em que cristãos antecedem a Cristo e, podemos imaginar, os americanos antecedem a América, nada pode ser estranho demais. E onde houver bom senso estará claro quem são os verdadeiros falsos intelectuais.


Referências:
  1. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 26 de abril de 2012. Disponível em facebook.com.
  2. Idem, 19 de abril de 2012. Dísponível em facebook.com.
  3. Idem, 5 de março de 2012. Disponível em facebook.com.
  4. Idem, 30 de março de 2012. Disponível em facebook.com.
  5. Idem, 10 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  6. Idem, 10 de março de 2012. Disponível em facebook.com.
  7. Idem, 22 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  8. São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, Q. 25, Art. 3. Disponível em sumateologica.wordpress.com.
  9. Para a diferença entre o problema intelectual do mal e o problema emocional do mal, ver William Lane Craig, Hard Questions, Real Answers. Wheaton: Crossway Books, 2003, págs. 75-112. Disponível em Amazon.
  10. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 20 de março de 2012. Disponível em facebook.com.
  11. André Frossard, Deus em questões, trad. de Maria Cecília de M. Duprat. São Paulo: Quadrante, 1991, pág. 93. Disponível em Quadrante.
  12. Ver G. K. Chesterton, Ortodoxia, trad. de Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, págs. 25-6.
  13. Caos & Regresso, Challenge Accepted. Disponível em caosdinamico.com.
  14. Caos & Regresso, Caridade ATEA. Disponível em caosdinamico.com.
  15. Caos & Regresso, Mundo Quântico e a refutação de Deus. Disponível em caosdinamico.com.
  16. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 6 de julho de 2012. Disponível em facebook.com.
  17. Originalmente "schoolboy argument". John Lennox, "Who Created the Creator?", 25 de dezembro de 2009. Disponível em johnlennox.org.
  18. Caos & Regresso, 14 de abril de 2012. Disponível em facebook.com.
  19. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 20 de julho de 2012. Disponível em facebook.com.
  20. Universo Ateu, 16 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  21. Phil Porvaznik, Evidence for Jesus and Parallel Pagan "Crucified Saviors" Examined, 25 de dezembro de 2007. Disponível em philvaz.com.
  22. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, "10 dicas para ter seu conteúdo aprovado e postado", 14 de julho de 2012. Disponível em facebook.com.

14 de julho de 2012

Mundo Quântico e a refutação de Deus

Recentemente meu amigo e idealizador deste blog escreveu sobre o patriotismo e o pouco entendimento que a maioria das pessoas que falam sobre ser patriotas, tem sobre o assunto [1]. Hoje, gostaria de abordar nessa postagem algo relativamente distante do patriotismo, mas que de forma semelhante, é muito falado por certas pessoas e pouco entendido pelas mesmas.

Não espero proporcionar uma aula sobre Física Quântica [2][3] aos leitores, até porque não sou a pessoa mais qualificada para tal e garanto que muitos dos nossos leitores possuem um entendimento muito maior sobre esse campo do conhecimento do que eu próprio. Minha motivação ao escrever esse texto vem, principalmente, das declarações "vitoriosas" de alguns neo-ateus, a respeito da suposta detecção do famoso bóson de Higgs no último 4 de julho de 2012 [4] , envolvendo uma possível refutação final da existência de Deus baseada na confirmação da existência da partícula, que ficou mais conhecida fora do meio científico como "partícula Deus", nome referido no livro "The God Particle: If the Universe Is the Answear, What Is the Question?" [5] de 1993, do físico Leon Lederman, e que em partes é responsável pelo mal entendido - assumamos que seja isso apenas - ou mesmo má compreensão de muitos sobre a verdadeira repercussão de tal descoberta.

Dessa forma, essa postagem é dedicada, principalmente, aos leitores teístas que foram ou serão pegos por ateus desonestos e que ficaram sem resposta à mais nova "argumentação científica" contra a existência de Deus. Será dividida, para fins didáticos, em duas partes: primeiramente, tentarei passar alguns conceitos básicos sobre o estudo da física de partículas, e então, concluirei com as verdadeiras implicações da possível descoberta do bóson de Higgs e como estas estão, na verdade, longe da repercussão teológica que os neo-ateus desejam.

A Teoria Quântica surgiu no início do século XX e é parte da Física Moderna. A partir dos trabalhos do físico alemão Max Planck [6], após uma época de muitas certezas na Física Clássica com a Mecânica de Newton e o Eletromagnetismo de Maxwell bem estabelecidos, estudando a radiação de corpos negros, o mesmo propôs que a Energia não variasse de modo contínuo, mas sim, em valores discretos, ou seja, através de unidades mínimas inteiras, a que chamou de quanta (soma de vários "quantum") de Energia, o que gerava um caráter descontínuo à natureza, algo contrário ao que era estabelecido pela Física até então.

Junto com os trabalhos de Planck, as teorias lançadas por Einstein - estudando o efeito fotoelétrico - acerca da natureza da luz (dualidade onda-partícula), de certa forma baseadas na proposta de Planck da quantização da energia, elucidando a existência de pacotes ou quanta de luz (posteriormente denominados fótons) como partículas que compunham a mesma, foram igualmente revolucionárias e a Física, como ciência, tomou um novo rumo.

Até então, tudo que era partícula tinha seu movimento governado pelas leis da Mecânica Newtoniana e a radiação pelo Eletromagnetismo de Maxwell. No entanto, aquilo que estava bem estabelecido pela Física Clássica para o mundo macroscópico, não se aplicava para o mundo subatômico, o que ficou evidenciado, por exemplo, através do movimento dos elétrons. Através do experimento denominado de "fenda dupla", observou-se que os elétrons, apesar de serem partículas, possuíam um padrão de movimentação característico de ondas (interferência) e que sua trajetória não tinha como ser conhecida de fato.

Além disso, a partir do "Princípio da Incerteza" de Heisenberg, nunca poderíamos definir com certeza características como posição e velocidade simultâneas de uma partícula, uma vez que ao tentar aferi-las, já estaríamos afetando o sistema, resumindo tudo num conjunto de probabilidades (incerteza), que é uma das palavras chaves da Mecânica Quântica, e que deu e tem dado um nó na cabeça de muitos físicos famosos, inclusive do próprio Einstein, que declarou recusar que "Deus jogava dados" [7], referindo-se à difícil aceitação de que alguns aspectos das leis da natureza não eram exatos e precisos, como era de costume na Física Clássica, mas sim, governados pela incerteza das probabilidades. 

Uma das importâncias da Teoria Quântica é, então, a explicação dos fenômenos diferenciados que ocorrem no mundo subatômico, que a Física Clássica não foi capaz de explicar. E entramos, agora, nesse mundo de partículas, do qual faz parte o bóson de Higgs.
Modelo padrão

O modelo padrão da Física de partículas [8][9] descreve a existência de partículas elementares que compõe a matéria existente no Universo (exceto a matéria escura, ainda, de natureza pouco conhecida), que são ditas elementares por serem até então, indivisíveis. Tais partículas são divididas em basicamente dois grupos: os férmions (spin semi-inteiro), que são responsáveis por constituir a matéria em si, e os bósons (spin inteiro), que são responsáveis pela transmissão, ou seja, por mediar as forças fundamentais da natureza, que trataremos mais adiante.

Dentre os férmions, estão presentes ainda, duas classes de partículas: os quarks (6 tipos), que interagem através das 4 forças fundamentais, formando os bárions (prótons e nêutrons), que são trincas (combinações de 3 tipos) de quarks, e os mésons, que são pares (combinações de 2 tipos) de quarks, ou seja, há uma ocorrência confinada dos quarks em partículas maiores (compostas), denominadas hádrons (prótons, nêutrons, etc); e os léptons, que não interagem através da uma das forças (a força forte). Dentre os léptons estão o elétron, o múon, o tau, e os seus respectivos neutrinos, que diferente deles, não possuem carga.

Os bósons são os responsáveis por mediarem as forças fundamentais da natureza, ou seja, são responsáveis por transmitir a interação entre férmions através da sua respectiva força fundamental. Esclarecendo, os tipos de bósons são: fóton, responsável por mediar a força eletromagnética; glúon, responsável por mediar a força forte (entre quarks, uma vez que léptons não interagem fortemente); bósons W e Z, responsáveis pela força nuclear fraca (também atuando sobre os léptons); o gráviton, uma partícula hipotética que seria responsável por mediar a gravidade (devido tal caráter hipotético, a gravidade não é tratada no modelo padrão); e por fim o bóson de Higgs [10], para o qual maior atenção será dada agora.

O modelo padrão teoriza com bastante clareza a estrutura da matéria e consequentemente, o funcionamento do Universo. No entanto, ainda não se estabeleceu bem a forma como ocorreu a obtenção de massa pelas partículas elementares descritas acima. Dessa forma, o físico Peter Higgs, em 1964, propôs que, logo após o evento do Big Bang, com o subsequente resfriamento nos primeiros momentos de "vida" do Universo, originou-se uma força, a qual foi denominada "Campo de Higgs" (que permearia todo o espaço), e a partir desta, surgiram partículas subatômicas, o famoso bóson (lembrando que estas são partículas responsáveis por transmitir alguma força) de Higgs, responsável então por transferir massa às outras partículas fundamentais que se seguiram. Por essa razão é que a existência do bóson de Higgs é considerada essencial para a confirmação do modelo padrão. 

Neste momento, fica claro que a constatação do bóson de Higgs, pouca relação tem com algum argumento para a não-existência de Deus, uma vez que tal partícula foi originada pós-existência do Universo, de tal maneira que está longe de explicar os eventos que precederam a criação do mesmo, onde Deus é então postulado a partir de argumentos cosmológicos. Assim como o Universo em si, o Campo e o bóson de Higgs se enquadram na categoria de seres contingentes, já que não são eternos, mas sim, passaram a existir após o Big Bang. A diferença é que estes, segundo a teoria do modelo padrão, tornaram possível a sustentação de todo o restante da matéria, e talvez seja esta característica, de certa forma, divina, uma das razões para que tenham escolhido o apelido de "partícula Deus" ao bóson de Higgs, em função do nome não tão apropriado ("Goddamn particle" ou "Partícula maldita") que Lederman havia sugerido inicialmente. 

Muita pesquisa ainda deve ser realizada, a Física Quântica é uma das áreas que se desenvolveu mais rapidamente no último século e muitas contribuições para a melhoria da vida humana são resultado das descobertas realizadas nesse campo da Ciência. A descoberta do bóson de Higgs deve ser comemorada por muitos motivos que não a suposta "vitória" do ateísmo e os cientistas sérios sabem disso. 

A Ciência genuína está aberta às possibilidades e creio que isso tenha ficado evidenciado com a reviravolta que o mundo quântico fez em nosso conhecimento do Universo do último século pra cá. É possível que descobertas como o bóson de Higgs sejam lembradas no futuro como um dos caminhos pelos quais nos permitiram chegar ao conhecimento dos mecanismos da ação de Deus. Por que não? No momento, vamos apenas aproveitar esse mundo novo a ser ainda tão explorado.


Referências:
  1. Caos & Regresso, Bandeiras para crianças. Disponível em caosdinamico.com.
  2. Com Ciência,  A Física Quântica: o que é, e para que serve, 10 de maio de 2001. Disponível em comciencia.br.
  3. National Geographic, Além do Cosmos: Mecânica Quântica. Disponível em natgeo.com.br. Veja no Youtube.
  4. Interactions.org, CERN experiments observe particle consistent with long-sought Higgs boson, 4 de julho de 2012. Disponível em interactions.org.
  5. Amazon.com, The God Particle: If the Universe Is the Answear, What Is the Question?. Disponível em amazon.com.
  6. Com Ciência, Max Planck e o início da Teoria Quântica, 10 de maio de 2001. Disponível em comciencia.br.
  7. Vya Estelar, O primeiro debate Einstein-Bohr. Disponível em uol.com.br.
  8. Center for Numerical Relativity and Nuclear Astrophysics, Modelo Padrão de Partículas Fundamentais e Interações Brasileiro. Disponível em socrates.if.usp.br.
  9. Revista Brasileira de Ensino de Física, O Modelo Padrão da Física de Partículas. Rev. Bras. Ensino Fís. vol. 31 no. 1. São Paulo: abril de 2009.
  10. Último segundo, Perguntas e Respostas sobre o Bóson de Higgs, 4 de julho de 2012. Disponível em ultimosegundo.ig.com.br.

9 de julho de 2012

Bandeiras para crianças

O MMA é um esporte controverso, e argumentos razoáveis podem ser construídos para defendê-lo ou para atacá-lo. Para o meu próprio alívio, não farei nenhuma das duas coisas: uso o exemplo desse esporte para falar de algo que algumas pessoas parecem ter relacionado a ele nos últimos dias - como já fizeram com tantos outros por várias décadas. Falo do patriotismo, uma palavra que em nossos dias já não tem muito sentido, e que sempre ressurge com significados bizarros.

Em geral, o patriotismo brasileiro parece surgir do futebol, mas a última guerra pelo amor à pátria tinha outro nome: "UFC 148" [1]; e o inimigo era os Estados Unidos da América. Não farei um único comentário sobre a batalha, mas pretendo comentar de forma breve o que houve antes dela: um lutador norte-americano fez declarações polêmicas sobre o Brasil - inclusive algumas bastante verdadeiras -, e de repente o povo brasileiro, patriota ao ponto de saber que "o Brasil é penta", se encheu de um ódio peculiar causado pela mais sutil sugestão de que o Brasil é um país problemático - a mesma reação testemunhada por nós no caso de Stallone [2] e Robin Williams [3].

Não me entendam mal. O futebol é um esporte emocionante, tanto para o espectador quanto para quem está em campo. A infância de boa parte dos brasileiros se resumiu a jogar bola, e a minha não foi diferente. O MMA é outro esporte interessante, mas a menos que cair nas mãos de primos mais velhos e outras crianças maiores na escola possa ser considerado algo remotamente ligado a ele, minha infância está basicamente livre de socos e pontapés - com exceções dos momentos secretos inspirados por Van Damme e Bruce Lee. Também não tenho nada contra o patriotismo, mas aqui está o ponto importante que defenderei a partir de agora: boa parte do povo brasileiro não sabe o que é isso.

Quando eu era criança, tendia naturalmente a gostar de outros países. Gostava da Itália, da Espanha, da França, dos EUA, da Dinamarca, da Nigéria, do Japão, e nem sabia por quê. Talvez por achar as respectivas bandeiras bonitas ou por qualquer motivo infantil parecido. Mas quando eu passei a conhecer melhor esses países, eu não passei a odiá-los: eu passei a gostar ainda mais de cada um - e de muitos outros. Eu descobri que todos esses países tiveram seus heróis, e que resistiram a grandes desastres: foram vilões de certas épocas e vítimas de outras. 

Isso poderia ser resumido dizendo que cada país é um povo, e que povos são compostos por pessoas - pessoas que erram e acertam, pessoas saudáveis e insanas -, o que parece óbvio demais, mas é talvez o truísmo mais ignorado por pessoas idiotas que acham bonito odiar todos os países do mundo, como se a generalização de um país só já não fosse estúpida o suficiente. São aquelas pessoas que não admitem que estrangeiros tratem o Brasil como uma selva, mas não pensam duas vezes antes de chamar os japoneses de bizarros e os norte-americanos de assassinos.

Há, de fato, muitas generalizações que podem ser consideradas saudáveis e engraçadas, e muitas que são inevitáveis. Não há ofensa na afirmação de que os brasileiros amam o futebol, apesar de muitos brasileiros odiarem qualquer esporte. O problema começa quando alguém afirma que os brasileiros são desonestos, sem conseguir pensar numa exceção, numa única pessoa realmente digna, que devolve o troco errado que recebeu e se chateia com o primeiro sinal de injustiça no dia-a-dia.

Mas infelizmente esse é o brasileiro que se vê condenando os outros países. Ele condena a Argentina utilizando certa característica que poderia muito bem ser utilizada para condenar toda a humanidade. Em sua ilusão que o faz pensar que amar o próprio país é desprezar todos os outros, ele condenará a arrogância de seus vizinhos enquanto se orgulha por ser imbatível no octógono ou nos gramados. Chamará os franceses de enganadores enquanto se orgulha de algo chamado "jeitinho brasileiro".

A verdade é que a desonestidade brasileira, enquanto abundante, não é brasileira: é humana. Em Brasília há uma concentração abundante de bandidos, mas nas casas das famílias tradicionais há uma concentração abundante de santos. Isso é um fato, e é um fato para a humanidade. A China é um país desprezível, mas não é pelo seu povo oprimido, e sim pelo seu Governo opressor. Quando dizemos que a China não é um exemplo para o mundo, não estamos pensando na imagem do sábio ancião chinês, mas no cruel Estado chinês.

É por isso que é preciso ser um grande imbecil para pensar que todos os norte-americanos apoiaram George W. Bush em suas investidas militares, como é preciso ser um grande imbecil para pensar que atualmente todos apoiam a administração de Obama. Eu não considero nenhum dos últimos presidentes brasileiros como remotamente representantes do brasileiro comum. Os últimos presidentes do Brasil são seres desprezíveis, e talvez a maioria dos presidentes da história do Brasil tenha sido desprezível. E novamente eu arriscaria dizer que o mesmo pode ser afirmado sobre os líderes da história da humanidade, sem limitações geográficas.

"Todos os homens podem ser criminosos, se tentados; todos os homens podem ser heróis, se inspirados" [4], e o homem normal, de todos os tempos e de todos os lugares caiu em tentação, mas também aprendeu a evitá-la: aprendeu a ser prudente. Entendeu que é possível não morrer afogado evitando entrar na água. A única razão pela qual atualmente mais homens parecem ser criminosos, ou pela qual todos os homens parecem ser criminosos, é que a filosofia contemporânea nega a tentação e o crime, e todos os homens criminosos cometem seus delitos como se estivessem fazendo caridade e promovendo o bem entre os homens. Um líder conta mentiras não por pensar apenas que diz a verdade, mas por considerá-la uma mentira necessária e salvadora.

Mas eu não devo me preocupar com a psicologia por trás da mente moderna. Devo voltar para o patriota moderno, aquele que não se preocupa de forma alguma com o futuro do país, mas denuncia diariamente os outros homens que são como ele. Sua denúncia é poderosa porque não é uma denúncia sobre o vizinho: é uma denúncia sobre o espelho. Odiar o patriotismo alemão e rir do idiota português não faz nada pela miséria nacional, e não prova que nossa terra é pátria amada idolatrada de notáveis gênios.

Não se prova amor pela própria esposa odiando todas as outras mulheres do mundo. Um homem pode provar seu amor fazendo sacrifícios que não faria por nenhuma outra mulher, ou com sacrifícios que ele não faria nem por ele mesmo. Mas como um homem poderia provar seu amor por uma mulher desprezando todas as outras mulheres, como se todas elas não fossem dignas de serem amadas? Qualquer pessoa que visse esse homem em seu modo bizarro de amar sua esposa pensaria tratar-se não de um homem, mas de algo pior que um animal. E, da mesma forma, quando vejo um homem odiando todos os outros países para provar que ama o próprio país, não penso nesse homem como um patriota, mas imagino que ninguém pensaria ser um exagero chamá-lo de genuíno idiota.

Eu não preciso definir o que é um patriota de verdade, pois a humanidade conhece tal definição instintivamente. Mas quando os homens, motivados por uma relativização cotidiana de valores, entendem e praticam as coisas ignorando o que as coisas realmente são, nós precisamos puxar suas orelhas. As pessoas que pensam que as generalizações do sr. Sonnen - que para mim não passaram de marketing, e um marketing que se provou bastante eficaz - justificam generalizações sobre a América deveriam, no fim das contas, ter torcido por ele, pois é ele que as representa.

Eu concluirei dizendo isso: a única maneira sensata de ser um patriota é amando a humanidade, e isso é impossível se começarmos a demarcar as fronteiras do nosso amor. Quando eu era criança admirava sem motivo muitos países; e hoje, enquanto cresço, amo sem motivo todos eles.


Referências:
  1. UFC 148: Silva vs. Sonnen II, 7 de julho de 2012. Disponível em br.ufc.com.
  2. G1, Stallone faz comentário politicamente incorreto sobre filmar no Brasil, 23 de julho de 2010. Disponível em g1.globo.com.
  3. G1: Edição Rio de Janeiro, Robin Williams faz piada de mau gosto sobre escolha do Rio para as Olimpíadas, 1 de dezembro de 2009. Disponível em g1.globo.com.
  4. G. K. Chesterton, Heretics. Massachusetts: Plimpton Press, 1919, pág. 71.

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