Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

27 de abril de 2012

O bom ateu

Ateus ameaçam civilização cristã
Estava assistindo a um vídeo de um vlogger ateísta em que ele comentava a "intolerância ao ateístmo". Basicamente, ele mostrava comentários de religiosos a uma matéria do Yahoo! Brasil OMG! sobre pessoas famosas que são ateístas (Eles não acreditam em Deus!). Como é possível imaginar, muitos religiosos falaram muita bobagem - fato que não surpreenderá ninguém -; mas entre essas bobagens, estava a ideia de que ateus não podem ser uma influência positiva para os outros, ou que eles não podem fazer nada de bom.

Eu dediquei uma série de cinco postagens a ateístas brasileiros, em que tentei mostrar o que havia de errado com as ideias que eles expunham sobre religião. Mas isso não significa que eu pense que nada do que eles falam ou fazem seja digno de respeito. De fato, os religiosos não devem estar comprometidos com nenhum tipo de visão que diz que os ateus são ruins pelo simples fato de serem ateus. A nossa experiência nos diz que as pessoas podem ser boas sendo ateístas, ou cristãs, ou espíritas. Elas também podem ser ruins sendo essas mesmas coisas.

A bondade, a maldade, o altruísmo, a inveja, tudo isso está no ser humano. Inclusive o entendimento de que tudo isso está no ser humano costumava, creio eu, estar no ser humano, mas o século XXI tem produzido suas peculiaridades no sentido da incoerência: de um lado, com pessoas dizendo que a mera falta de religião é a causa de nossos maiores problemas; do outro, com pessoas dizendo que a mera presença de religião é a causa de nossos maiores problemas. Qualquer pessoa sensata descartará as duas explicações sem hesitar, e se o cristão acredita realmente que Deus fez todos os homens à sua imagem e semelhança, poderá esperar, sem se surpreender, que entre os ateus, budistas, cosmólogos, jogadores de baseball e escaladores de montanha existem pessoas que resplandecem essa imagem do Criador.

A maioria das pessoas é perfeitamente capaz de entender isso, e a verdade é que elas entendem isso muito bem. Dizer que os ateus não são capazes de sentimentos como a compaixão equivale a dizer que os apreciadores da música erudita não são capazes da humildade. Qualquer pessoa que tenha refletido sobre o fato necessário de que todos os ateus são seres humanos deixará de lado qualquer ideia espetacular sobre como eles são agentes do demônio. Caso o cristão paranoico produzido em igrejas que funcionam como bancos reais tenha se esquecido, devemos lembrá-lo que o próprio demônio acredita em Deus.

Quando vi uma campanha em redes sociais dizendo que "religião não define caráter", apenas uma pergunta veio à minha cabeça: quem, na história da humanidade, disse o contrário? Algum ateu poderia dizer com muita justiça que eu não conheço seu vizinho, que realmente disse tal coisa, mas eu responderia que dificilmente esse vizinho influenciou o pensamento de seus próprios colegas, quanto menos o pensamento global. Quando nos voltamos para os pensadores realmente influentes, não notamos nenhuma afirmação que limita a bondade aos religiosos, ainda mais se considerarmos que muitas batalhas religiosas em favor da moral foram travadas contra outras religiões.

Ninguém na história do mundo pensou que a mera religiosidade fazia um homem perfeito em sua vida moral, e especialmente o cristianismo fez exatamente o contrário: ele afirmou que nenhum homem é perfeito nesse sentido. Não me lembro de nenhuma passagem do Evangelho em que Jesus repreendia algum ateu, se é que havia algum à sua volta; mas lembro de várias em que ele repreendeu os mais religiosos entre os que o rodeavam. Portanto, se os ateus querem dar eco a essas campanhas sem sentido, não vejo nenhum problema particular com isso, mas as considero tão importantes quanto as campanhas em favor do vegetarianismo. E o que quero dizer com isso é que elas serão ignoradas pela grande maioria das pessoas.

Nenhum cristão sensato irá ignorar o trabalho de Stephen Hawking pelo mero fato de ele não crer em Deus. O mesmo poderia ser dito de Carl Sagan. Ele pode ter se enganado sobre o que realmente aconteceu com Hipátia, mas não menos do que John Lennox se enganou sobre Galileu. Os protestantes têm preconceitos sobre a Igreja Católica como os católicos têm preconceitos sobre o protestantismo, o que de nenhuma forma é um argumento contra essas pessoas. Elas possuem preconceitos exatamente porque são pessoas, e não seria justo condenar os ateístas por possuírem os preconceitos que todos nós já possuímos ou que ainda repetimos nesse exato momento. Não é isso que devemos fazer se quisermos um dia tê-los ao nosso lado. São Tomás de Aquino disse que para converter uma pessoa, devemos pegá-la pela mão e guiá-la; e esse conselho me parece do tipo que deve ser tomado com muita consideração.

De qualquer forma, dizer que os ateus podem ser tão bons, tão talentosos ou tão cruéis quanto os religiosos é tão necessário quanto dizer que os homens nascem com apenas um nariz. Muitas das pessoas mais inteligentes e encantadoras do nosso século são ateístas, o que de modo algum é um argumento contra a religião. Não é um argumento contra nada, ou melhor, não é um argumento. Neil deGrasse Tyson é agnóstico*, e não se pode negar que sua paixão pela ciência faz a ciência parecer apaixonante. Richard Feynman era ateu, e não se pode negar que sua canção sobre suco de laranja dava água na boca e vontade de sorrir. Se o que eu digo parece não ter sentido, é exatamente pelo fato de que essas coisas não precisam ser ditas. Não há sentido em dizer que o sr. Oswaldo é uma boa pessoa, apesar de ser ateu, pois é como dizer que o sr. Norberto é bom jogador de bocha, apesar de ser cristão.


Essas são as considerações gerais que eu gostaria de fazer, e agora gostaria de deixar aqui, para que o leitor tome conhecimento, caso ainda não conheça, de alguns ateus brasileiros que eu considero dignos de nota. Eu não concordo com eles em muitas questões: na verdade, diria que discordo deles na maioria das questões, e admito que muitos dos seus discursos são frustrante para mim, mas mantenho que possuem ideias por vezes interessantes, ou um humor agradável, mesmo quando usam isso contra a religião.
  1. Daniel Fraga: Lula, por que não trata seu câncer no SUS? 
  2. Pirulla: Resposta ao vegan Gary Yourofsky
  3. Clarion de Laffalot: Jogo Justo, Steam e a Carta Mágica
Duas de minhas postagens foram dedicadas a responder argumentos do sr. Daniel Fraga (Riqueza e religião; Brasil: terra dos palpiteiros #1), no entanto, ele tem se mostrado importante no promoção do combate às incoerências políticas brasileiras, o que me levou a ignorar seus vídeos antirreligiosos e focar no que é útil de alguma forma. O sr. Clarion é o mais moderado e divertido, especialmente pelo seu personagem que parece baseado em algum pastor ignorante - não o achei ofensivo pelo fato de que muitas das ideias expressas por esse personagem são bastante comuns, apesar de geralmente inconsistentes. Não sei o nome do vlogger do vídeo em resposta a Gary Yourofsky, que é o mesmo que citei no primeiro parágrafo, mas também o achei moderado e sensato, ao menos nos vídeos aos quais assisti.

Enfim, como havia dedicado uma série ao que há de ruim no pensamento ateísta de alguns brasileiros, achei que seria interessante fazer uma postagem para mostrar o que há de bom, e sustentar a ideia principal dessa postagem de que o ateísmo não é imoral - e nem poderia, já que o conceito de ateísmo não tem relação nenhuma com o conceito de moralidade. Não toquei na questão da moral objetiva em nenhum momento porque não pretendia lidar com esse problema nessa postagem, e por ser uma discussão irrelevante ao propósito dela.


Notas:
  1. http://www.youtube.com/watch?v=30ks6lp5Vj8

24 de abril de 2012

Inquisição Espanhola para leigos

Ninguém espera a Inquisição Espanhola
Há dois dias ouvi sobre um livro chamado The Irrational Atheist: Dissecting the Unholy Trinity of Dawkins, Harris, And Hitchens, de Theodore Beale, que é uma resposta às alegações neo-ateístas de Dawkins, Harris e Hitchens. Fui à página do livro na Amazon (The Irrational Atheist), e notei um grande número de reviews negativos. Quase cheguei a considerar isso uma evidência de que o livro não fosse bom, mas quando li os reviews comecei a perceber um padrão de discurso neo-ateísta comum em reviews de livros que pretendem responder autores neo-ateus - em que se acusa o autor de cometer diversas falácias e não dominar os tópicos que aborda.

Isso pode ser percebido na página do livro What's So Great About Christianity, de Dinesh D'Souza, ou na página de Reasonable Faith, de William Lane Craig - para citar apenas os mais populares. E ainda que eu não concorde com alguns pontos de D'Souza, seu livro é uma boa leitura e a filosofia oferecida, mesmo não sendo particularmente sofisticada, está muito à frente da filosofia oferecida por Richard Dawkins, que, para ser justo, simplesmente não é filosofia. Mas, apesar disso, a página do livro The God Delusion conta com nada menos que, até o momento, 958 reviews de cinco estrelas (o máximo possível), uma porcentagem que excede assustadoramente o número de reviews de uma estrela (em mais de 300%) - diferente do que acontece nos livros teístas.

Isso não surpreenderá os teístas familiarizados com debates acadêmicos entre cristãos e neo-ateus, como o protagonizado por Christopher Hitchens e William Lane Craig, ou por Dinesh D'Souza e John Loftus. Porque nesses debates os teístas se saíram, mesmo segundo outros ateístas, muito melhores e mais convincentes, o que não impediu que vários ateus alardeassem a superioridade de Hitchens - e se o leitor quiser exemplos, caso pense que estou atacando um espantalho, basta pedir -, ou que, no caso de Dawkins e Craig no painel de discussão no México, repetissem ataques sobre a fraqueza intelectual de Craig face ao brilhantismo do biólogo britânico - o mesmo que disse que não saber o nome dos livros da Bíblia torna as pessoas menos cristãs, e depois, quando perguntado se poderia dizer o título completo de A Origem das Espécies e responder que sim, não fez nada além de gaguejar.


Mas o melhor exemplo de quão curiosos e não confiáveis podem ser os reviews nas páginas da Amazon vem do caso do livro de Thomas E. Woods, How the Catholic Church Build Western Civilization. Há um usuário que acusa o autor de estar recebendo dinheiro do Vaticano para fazer propaganda positiva da Igreja Católica - de certa forma, uma acusação que também já caiu sobre meus próprios ombros (http://www.caosdinamico.com/2011/09/cinismo-extraterrestre.html), e que temo não ser rara. Outro acusa Woods de falar do bom e esquecer-se do ruim, e então cita o caso Galileu para justificar o ruim. Mas há um capítulo dedicado especialmente ao caso Galileu e à relação da Igreja com a Ciência desde a Idade Média no livro. O que deixa claro que alguns usuários não se deram ao trabalho de sequer ler o livro - algo que também já foi relatado nesse blog, exatamente na postagem sobre Igreja e Ciência, em que um rapaz condena o livro após ter lido sua contracapa (http://www.caosdinamico.com/2011/02/cristianismo-e-ciencia.html).

O que eu quero dizer com tudo isso é que, apesar de importantes, os reviews de uma obra não podem ser mais estimados que a obra em si, e por isso os reviews negativos do livro de Beale não representam um argumento contra ele - e, é válido ressaltar, também há vários reviews favoráveis ao livro. Obviamente, ainda não tive tempo de lê-lo inteiro, mas pude ler o subcapítulo dedicado à Inquisição espanhola, e o que pude observar é que a principal referência usada é o livro de Henry Kamen, considerado a maior autoridade nesse tópico. Portanto, a visão exposta por Beale está, ao menos nesse caso, de acordo com estudos acurados sobre o assunto, e não pode ser acusada de enganosa ou meramente propagandística pelos neo-ateus. Ademais, já que parece estar na moda associar qualquer referência a uma autoridade com a falácia do apelo à autoridade, vou ressaltar que o respeito por Kamen é fruto da sua pesquisa, e não da sua pessoa: ninguém está dizendo que alguma coisa ou fato são verdadeiros por terem sido apresentados por esse autor. (O livro A Inquisição em seu mundo, de Bernardino Gonzaga, contém várias citações da obra de Kamen, e é a melhor referência para aqueles que buscam algo em português).

Em The Irrational Atheist, algumas comparações oferecidas pelo seu autor me pareceram realmente úteis mesmo para aqueles que costumam tratar a Inquisição como algo parecido com o Holocausto, ou por aqueles que a tratam como uma instituição carente de motivos para existir e criada para converter qualquer não cristão ao catolicismo. Vejamos algumas considerações de Beale (The Irrational Atheist, pág. 214):
Em Deus, um delírio, Richard Dawkins se recusa visivelmente a detalhar o que ele descreve como os "horrores" da Inquisição Espanhola. Christopher Hitchens e Daniel Dennet evitam discuti-la completamente. Apenas o palhaço da Razão, Sam Harris, é suficientemente tolo para engolir a velha Lenda Negra, sem nenhuma dúvida, enquanto tenta retratar todas as inquisições como um dos dois "episódios mais negros na história da fé" [1].

Não houve uma inquisição histórica, mas quatro, a Medieval, a Espanhola, a Portuguesa, e a Romana [2]. Dessas quatro, a Inquisição Espanhola é a mais comumente referida pelos críticos devido à sua notória intensidade. Ela é, portanto, a que vale a pena examinar em detalhes para determinar o quão negro esse episódio da história da fé realmente foi e como se parece com os três episódios aos quais Harris implicitamente a compara: o Holodomor, o Grande Salto Adiante, e o Holocausto.
Ele então explica (pág. 215) a história que começa em 9 de junho do ano 721, com a Batalha de Tolosa, e continua com a reação liderada por reis cristãos em resposta à expansão islâmica sobre a Península Ibérica que acontecia já há um século. Nos 760 anos seguintes, as conquistas dos Omíadas foram revertidas, e culminaram no fim da Reconquista, em 1492:
A Inquisição Espanhola, que começa em 1481, não pode ser entendida sem que se reconheça a relevância da épica disputa de 771 anos entre cristãos e muçulmanos sobre a Península Ibérica. O que o grande general berbere Tariq ibn Zayid conquistou em apenas oito anos para o Califado Omíada, levou mais de cem vezes esse tempo para ser recuperado, e nem o Rei Fernando II de Aragão nem sua esposa, Rainha Isabel de Castela, estavam dispostos a arriscar qualquer possibilidade de repetir a grande diligência.
A Rainha estava particularmente preocupada com os conversos, cristãos que fingiam ter se convertido do judaísmo, mas ainda praticavam sua primeira religião. A preocupação vem do seguinte: se eles estavam mentindo sobre suas conversões, então seria razoável assumir que eles também estavam mentindo sobre sua lealdade à Coroa, e era amplamente temido que os judeus estivessem encorajando líderes islâmicos a recuperar o Al-Andalus - nome dado pelos islâmicos à Península Ibérica -, já que seus antecessores haviam encorajado a invasão original oito séculos antes [3].

Os monarcas espanhóis pediram que o Papa Sisto IV criasse uma ramificação da Inquisição Romana, que reportaria à Coroa Espanhola. Sisto IV negou o pedido, mas após as ameaças de Fernando II, ele emitiu, ainda que relutante, a bula Exigit Sinceras Devotiones Affectus em 1 de novembro de 1478. Em 27 de setembro de 1480 os dois primeiros inquisidores, Miguel de Morillo e Juan de San Martín, foram nomeados. Em 6 de fevereiro de 1481 seis falsos cristãos foram acusados, investigados, condenados e mortos no primeiro auto da fé da Inquisição Espanhola (The Irrational Atheist, pág. 216):
O que aconteceu entre novembro de 1478 e setembro de 1480 para motivar essa repentina tomada de decisão? Enquanto alguns historiadores como Henry Kamen se mostram perplexos em relação ao que poderia ter provocado a Coroa Espanhola, o impulso mais provável é que em 28 de julho, três meses antes da decisão de Fernando de apontar os dois inquisidores, um batalhão liderado por Gedik Ahmed Pasha atacou a cidade aragonesa de Otranto. Otranto caiu em 11 de agosto e mais de metade das 20.000 pessoas da cidade foi massacrada durante o saqueamento da cidade. O arcebispo foi morto na catedral, o comandante da guarnição foi serrado ao meio ainda vivo, assim como um bispo chamado Stephen Pendinelli. Mas o evento mais infame ocorreu quando foi dada aos homens capturados de Otranto a chance de converter-se ao Islã ou morrer; 800 deles manteram sua fé cristã e foram decapitados en masse em um lugar conhecido como o Monte dos Mártires.
Os turcos então atacaram as cidades de Vieste, Lecce, Taranto, e Brindisi, e destruíram o grande Mostero di San Nicholas di Casole. Beale destaca (págs. 217-19):
É uma das maiores ironias da história que três vezes mais pessoas morreram no esquecido evento que quase certamente inspirou a Inquisição Espanhola em relação às que morreram nas chamas da própria inquisição. Apesar de sua reputação de uma das mais perversas e letais instituições da história da humanidade, a Inquisição Espanhola foi uma das mais humanas e decentes de seu tempo, e poderia-se argumentar que fora a mais razoável, considerando as circunstâncias. De fato, há poucas instituições históricas que foram tão mal entendidas, como os três seguintes fatos deveriam esclarecer:
1. A Inquisição Espanhola não tentou converter ninguém ao cristianismo. Não possuia nenhuma autoridade sobre judeus professos, muçulmanos, ou ateístas; sua única missão era distinguir cristãos genuínos daqueles que fingiam ser cristãos e estavam, na verdade, praticando outra religião;
2. Os inquisidores não eram psicóticos idiotas como os retratados por Dostoiévisk e Edgar Allan Poe. Eles eram normalmente clérigos ao menos parcialmente educados das ordens monásticas mais eruditas que seguiam estritamente as regras e procedimentos, que foram as mais humanas da época;
3. A tortura era raramente usada [4], e apenas quando havia evidências substanciais de que o acusado estava mentindo. A tortura podia apenas ser usada por quinze minutos [5], e não podia causar a perda da vida ou de membros, nem derramamento de sangue; apesar de que houve excessos ocasionais, a principal razão pela qual nós sabemos deles é porque os responsáveis por cometê-los eram mantidos em conta pelas autoridades da Igreja.
Beale ainda comenta que surpreenderá aqueles que acreditam que milhões foram mortos na Inquisição Espanhola que durante os séculos XVI e XVII, menos de três pessoas foram sentenciadas à morte por ano em todo o Império Espanhol, que ia da Espanha à Sicília e Peru [6]. Considerando que em 345 anos menos de 1% dos 125.000 julgamentos da Inquisição Espanhola resultaram em execuções pela autoridade secular, Beale observa que o terrível tribunal foi, em base anual, quatorze vezes menos letal que bicicletas infantis [7]. Fiz uma versão em português do quadro fornecido por Beale, que é bastante prático visualmente.

The Irrational Atheist, pág. 219. Ver segunda nota completa no original.
Tenhamos em mente, em adição a tudo isso, que apenas no Terror Vermelho da Guerra Civil Espanhola, em 1936, foram mortos 6832 clérigos [8], mais de o dobro da Inquisição Espanhola, que durou mais de trezentos anos. Ressaltarei, também, que ninguém está dizendo que os crimes ateístas foram cometidos em nome do ateísmo: essa controvérsia não ganhará espaço nessa postagem, e o que está sendo afirmado é apenas o fato óbvio de que tais crimes foram cometidos por ateus. Também não será discutido o termo utilizado por Beale para se referir aos nazistas - teístas pagãos -, já que o debate seria simplesmente irrelevante ao propósito da postagem. Se o leitor estiver interessado em considerações sobre o "Hitler católico", recomendo a postagem "Supostamente", mas isso é o máximo que posso fazer no momento.

Para quem está familiarizado com o tema da Inquisição e a abordagem de Kamen, a  análise de Beale da Inquisição Espanhola não nos revela nenhuma novidade - com exceção da informação sobre os acidentes causados por bicicletas -, mas oferece detalhes que podem ser úteis para a melhor compreensão do contexto e de como os danos causados, se analisados em comparação a episódios anticatólicos ou antirreligiosos em geral, foram praticamente insignificantes. Se os neo-ateus ousarem culpar um cristão pela Inquisição ainda que este nunca tenha passado perto de uma fogueira, essa postagem será útil de duas maneiras: não só o cristão poderá argumentar sobre o quão absurda é a tentativa de responsabilizá-lo por algo que ele sequer viveu, como também poderá aproveitar e mostrar ao acusador que a Inquisição foi uma instituição tão dramática quanto o risco de se machucar na infância. E já que Theodore Beale não é católico, podemos perguntar, ainda, quanto ele deve estar recebendo do Vaticano por fazer propaganda a favor da Igreja... Certo?


Notas do autor:
  1. Sam Harris, The End of Faith, pág. 79. O outro sendo o Holocausto. Harris está aceitando uma falsa visão das inquisições criada por propagandístas protestantes do século XVI e moldado por romancistas do século XIX. Não há evidência que indique que as formas de tortura descritas por Harris foram realmente usadas pela Inquisição Espanhola, e o mais divertido, um dos três métodos que realmente foram usados pelos inquisidores, a toca, é praticamente idêntico ao uso do "afogamento simulado" que Sam Harris defende. "Eu sou uma das poucas pessoas que eu conheço que argumentou que a tortura pode ser uma necessidade ética na nossa guerra ao terror". Harris, Sam. "In Defense of Torture". The Huffington Post, 17 Outubro 2005.
  2. A Inquisição Romana ainda existe; o atual Grande Inquisidor é Vossa Eminência William Joseph Levada, um cardeal de Long Beach, California. Mas ele não atende por "Grande Inquisidor", seu verdadeiro título é Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
  3. "Continua um fato que os judeus, seja diretamente ou através de seus correligionários na África, encorajaram os maometanos a conquistar a Espanha... As cidades conquistadas de Córdoba, Málaga, Granada, Sevilha e Toledo foram colocadas sob controle de habitantes judeus, que foram armados pelos árabes". The Jewish Encyclopedia (1906). Vol. XI, pág. 485.
  4. Henry Kamen, The Spanish Inquisition, pág. 189. A maioria dos crimes não era considerada séria o suficiente para justificar a tortura. A incidência da tortura variava dependendo do tribunal, com as taxas mais baixas em Valência, em que metade de 1% daqueles investigados foi torturada; a maior taxa conhecida era de Sevilha, onde 11% sofreram o tratamento.
  5. "De acordo com o professor Agostino Borromeo, historiador do Catolicismo na Universidade Sapienza, em Roma, e curador do volume de 783 páginas realizado ontem, apenas 1% das 125.000 pessoas investigadas pelos tribunais da Igreja como hereges suspeitos fora executados... O que a Igreja iniciou como um processo estritamente regulado saiu de controle quando outros corpos foram envolvidos". Arie, Sophie. "Historians Say Inquisition Wasn't That Bad". The Guardian, 16 Junho 2004.
  6. Kamen, Henry, The Spanish Inquisition: A Historical Revision. New Haven: Yale University Press, 1997, pág. 203.
  7. "Em 2002, 130 crianças de 14 anos ou menos morreram em acidentes de bicicleta. A taxa de dano mortal de bicicletas em crianças de 14 anos ou menos diminuiu 70% de 1987 para 2002". Facts About Injuries To Children Riding Bicycles. Safe Kids Worldwide.
  8. Julio de la Cueva, "Religious Persecution, Anticlerical Tradition and Revolution: On Atrocities against the Clergy during the Spanish Civil War", Journal of Contemporary History, 3 (1998): págs. 355-369.

20 de abril de 2012

Sobre índios, negros e escravos

A inspiração para essa postagem foi uma discussão na página Anti-ateísmo, no Facebook, sobre uma imagem que questiona a acusação de que aos olhos da Igreja negros não tinham alma. Gostaria de expor brevemente alguns pontos contra essa ideia e falar um pouco sobre a questão da escravidão.

A visão de que a Igreja tratava certos grupos de pessoas, ou raças, se preferirem, como desprovidos de alma é bastante comum. Foi repetida, por exemplo, por Yuri Grecco (Igreja Católica tem déficit de aprendizagem), em relação aos índios. A ideia é tão absurda, que a primeira pergunta que precisamos fazer é a seguinte: qual o propósito de se catequizar alguém que não possui alma? Talvez uma vaga esperança de batizar o nariz ou as unhas dos nativos, mas optarei por evitar especulações. Depois de ter dedicado duas postagens para responder alegações do sr. Yuri (Challenge Accepted; Brasil: terra dos palpiteiros #5), não me sinto culpado em dizer que esperar qualquer raciocínio maduro dele em relação à Igreja é como esperar que Dawkins aceite debater William Lane Craig.

De qualquer forma, penso que se considerarmos a história do cristianismo de maneira apropriada, a alegação de que a Igreja via índios e negros como pessoas que não possuíam alma pode ser facilmente refutada; e a questão da escravidão, longe de atrapalhar, ajuda. Pode não ser um fato conhecido entre pessoas como o sr. Yuri Grecco, mas a instituição da escravidão deixou de existir na Cristandade, ou seja, na Europa medieval. Há vários motivos para isso, e podemos argumentar tanto a partir de avanços tecnológicos da época, como a partir de ideias defendidas pela Igreja e estima que a civilização medieval tinha por tais ideias. Para os neo-ateus, no entanto, a palavra avanço jamais poderia aparecer relacionada à Idade Média, mas à essa altura já não há a necessidade de falar sobre o conhecimento neo-ateísta referente a esse período.

O sr. Roberto Carneiro, professor de História, argumenta que "o negro era considerado uma propriedade no tempo da escravidão", e continua: "Uma cama tem alma? Logo, o escravo era tido como propriedade, incluído até mesmo em testamentos, sendo assim, 'não possuía alma'". Por fim, conclui: "Ainda que a Igreja Católica não tenha pecado por ação, ainda que ela considerasse que os negros tinham alma, pecou por omissão, se abstendo de lutar contra os governos nacionais, seus sustentadores". Aqui temos, portanto, algumas questões básicas: o negro era considerado uma propriedade e não possuía alma. Se a firmação for verdadeira, então a Igreja errou por ação; mas se for falsa, então a Igreja errou por omissão.

O que podemos concluir é que, mais uma vez, seja lá o que tenha acontecido, a Igreja errou. Antes de comentar os três pontos, diria que é bastante revelador, mas não surpreendente, o fato de o sr. Roberto Carneiro, que não é um neo-ateu, atribuir à Idade Média o famigerado título de Idade das Trevas, e mais ainda a sua preferência por livros de autores não cristãos sobre esses temas (que o leitor pode conferir na discussão). De fato, eu não posso questionar a preferência das pessoas, mas temo que isso indique certo receio de que autores cristãos, ou católicos, mais especificamente, tendam a ignorar as evidências para melhorar a imagem do cristianismo. Não diria que isso não acontece, mas não poderia deixar de dizer que o inverso é igualmente verdadeiro: há autores não cristãos que tendem a ignorar as evidências para piorar a imagem do cristianismo. Um professor de história deveria saber que não é pelo autor que julgamos as informações como mais confiáveis, mas pelas informações em si - e, para ser justo, eu imagino que o sr. Roberto saiba disso. Qualquer comentário adicional que eu faria sobre esse ponto pode ser encontrada em minha já referenciada resposta a um dos vídeos do sr. Yuri.

A história do cristianismo primitivo e a história recente da humanidade são os dois períodos mais importantes para contestar as ideias de que a Igreja dizia que diferentes raças não possuíam alma. Em primeiro lugar, porque a concepção moderna de raça - de que a humanidade seja uma espécie que se divide em raças diferentes, no sentido biológico - escapa à maior parte da história humana: surgiu no século XVIII, e é, portanto, totalmente posterior à toda a Idade Média e também à escravidão decorrente da descoberta do Novo Mundo. Antes disso, identifica-se o etnocentrismo, uma ideia presente em todas as civilizações humanas, mas completamente diferente do racismo, especialmente por não relacionar-se à ideia de ancestralidade.

O grande problema, aqui, é que muitas pessoas acreditam que a escravidão dos últimos séculos ocorreu baseada na ideia de que os negros eram inferiores aos brancos, o que, portanto, daria aos brancos o direito de dominá-los e utilizá-los como bem entendessem. Mas essa ideia é falsa: a verdade é que a história da escravidão não possui essa justificativa biológica, e de fato os negros escravizavam os negros, e depois os vendiam aos brancos. No Mundo Antigo a escravidão também não era baseada em questões raciais e, obviamente, nem poderia. A ideia de superioridade racial é moderna, e é por isso que ao longo da história humana brancos e negros foram escravizados por outros brancos e negros - escravos eram prisioneiros de guerras, devedores que não podiam pagar suas dívidas, etc. -, sem que a questão dependesse de um conceito inventado para justificar políticas raciais contemporâneas.

É simplesmente inútil perguntar por que a história não nos é apresentada como realmente aconteceu quando as políticas raciais praticadas nesse exato momento no Brasil e em outros países da América e do mundo dependem fortemente dessa perversão. A ideia de que os brancos tem uma dívida histórica com os negros é uma arma política que ainda terá força quando as crianças de hoje estiverem se candidatando às futuras eleições. Para encerrar esse ponto e prosseguir com a postagem, adicionarei às referências alguns livros que contam a história da escravidão de povos por povos, em vez de contar uma história falsa que busca justificar uma agenda.

Quanto à história do cristianismo primitivo, é importante ter em mente que até o século VII, a África foi um dos centros do cristianismo. Quão importante fora Antióquia para a história da Igreja? O Egito é onde nasceu nada menos que o monasticismo cristão. Além da Síria e do Egito, é possível lembrar da Argélia e sua célebre cidade, Hipona. É simplesmente óbvio que a África foi crucial para o cristianismo primitivo, e seria extremamente absurdo supor que não havia negros ou que não havia negros cristãos nesses países durante os primeiros séculos. Eles estavam lá, e não eram poucos, e não são desconhecidos. Santos viveram nesses lugares, e a conclusão sensata sobre esses detalhes é que eles tornam a argumentação em favor dos negros sem alma insustentável. Não se sabe, por exemplo, se Santo Agostinho era negro, mas sabemos que sua mãe, Santa Mônica, era provavelmente berbere. Santa Felícia e Santa Perpétua foram mortas em Cartago, no início do século III.

Não acho necessário ser tão enfático sobre esse ponto: apesar de citar um artigo de Thomas Woods que comenta os centros cristãos africanos até a chegada do islamismo, e uma lista extensa de santos africanos, basta entender o que era a África no começo do cristianismo e durante seu crescimento, e todas as dúvidas sobre a questão extremamente imbecil das almas serão superadas. Soma-se a isso o fato de o racismo ser um fenômeno contemporâneo, e terminamos definitivamente.

Agora, então, gostaria de explorar o fim da escravidão na Cristandade, antes de chegar ao problema do Novo Mundo. Rodney Stark escreve: "Alguns historiadores negam que a escravatura tenha cessado na Idade Média. Afirmam que devido a um desvio linguístico, a palavra 'servo' tomou o lugar da palavra 'escravo'. Mas são os historiadores, e não a história, quem fez este jogo de palavras" (Rodney Stark, A Vitória da Razão, pág. 77). Régine Pernoud reforça o ponto (Luz sobre a Idade Média, págs. 39-40):
Depois vêm os servos. A palavra foi muitas vezes mal compreendida, porque se confundiu a servidão, própria da Idade Média, com a escravatura que foi a base das sociedades antigas e da qual não se encontra qualquer rasto na sociedade medieval. Como refere Loisel: «Todas as pessoas são francas neste reino, e logo que um escravo atinge os degraus do conhecimento (ice lui) fazendo-se baptizar, é franqueado». Tendo a Idade Média por força das circunstâncias ido buscar o seu vocabulário à língua latina seria tentador concluir da semelhança dos termos a semelhança de sentido. Ora, a condição do servo é totalmente diferente da do escravo antigo: o escravo é uma coisa, não uma pessoa; está sob a dependência absoluta do seu dono que possui sobre ele direito de vida e de morte; qualquer actividade pessoal é-lhe recusada; não conhece nem família; nem casamento, nem propriedade.

O servo, pelo contrário, é uma pessoa, não uma coisa, e tratam-no como tal. Possui uma família, uma casa, um campo e fica desobrigado em relação ao seu senhor logo que pague os censos. Não está submetido a um patrão, está ligado a um domínio: não é uma servidão pessoal, mas uma servidão real. A restrição imposta à sua liberdade é que não pode abandonar a terra que cultiva. Mas, notemo-lo, essa restrição não deixa de ter uma vantagem, já que, embora não possa deixar a propriedade, também não podem tirar-lha; esta particularidade não estava longe, na Idade Média, de ser considerada um privilégio, e, de facto, o termo encontra-se numa recolha de costumes, o Brakton, que diz expressamente falando dos servos: «tali gaudent privilegio, quod a gleba amoveri non poterunt [...] gozam desse privilégio de não poderem ser arrancados à sua terra» (mais ou menos aquilo que seria nos nossos dias uma garantia contra o desemprego).
Stark levanta o problema do envolvimento cristão com o fim da escravidão na Idade Média (A Vitória da Razão, págs. 77-8):
A instituição primitiva da escravatura desapareceu da Europa, antes do fim do séc. X. Quase todos os historiadores contemporâneos concordam com esta conclusão, se bem que ainda está na moda afirmar que o Cristianismo nada teve a ver com o desaparecimento da escravatura. [...] Estes autores acreditam que escravatura desapareceu porque era um método de produção ultrapassado e pouco lucrativo. [...] Alguns concluem que o fim da escravatura não foi uma decisão moral mas sim uma decisão de interesses pessoais por parte da elite. O mesmo argumento foi aplicado à escravatura no Ocidente. Este argumento simplista é consistente com a doutrina marxista, mas não é nada consistente com a realidade económica. Em época tão recente quanto a Guerra Civil americana, a escravatura ainda era um meio de produção lucrativo no sul.

Mas basta de tergiversações! A escravatura acabou na Europa medieval apenas porque a Igreja alargou a prática dos sacramentos a escravos e, em seguida, proibiu a escravatura de cristãos (e judeus). No contexto da Europa medieval, essa proibição foi como uma lei de abolição universal. [...] A ideia que Deus nos trata a todos de forma idêntica é central para a mensagem cristã: todos podem ser salvos. É por isso que a Igreja, desde seus primórdios, tentou converter os escravos e, sempre que possível, comprar a sua liberdade. O papa Calisto (que morreu em 236) foi, ele próprio, um escravo.
"A Igreja não se ergueu contra a instituição propriamente dita de escravatura, necessidade económica das civilizações antigas. Mas lutou para que o escravo, tratado até então como uma coisa, fosse daí em diante considerado como um homem e possuísse os direitos próprios da dignidade humana; uma vez obtido este resultado, a escravatura encontrava-se praticamente abolida" (Régine Pernoud, Luz sobre a Idade Média, pág. 87). Tal citação me fez lembrar uma marcante passagem em que Chesterton comenta a questão: "Cristo, tanto quanto Aristóteles, viveu num mundo que aceitava a escravidão, e ele não a denunciou de forma específica. Iniciou um movimento que poderia existir num mundo com escravos. Mas era um movimento que poderia existir num mundo sem escravos" (G. K. Chesterton, O Homem Eterno, pág. 206). Sinto como se qualquer adição que eu fizesse fosse estragar a beleza com que a ideia foi expressa.

Ainda é interessante notar que "a conclusão teológica que a escravatura é um pecado pertence ao Cristianismo" (Rodney Stark, A Vitória da Razão, pág. 80). Para o islã, as coisas eram mais difíceis (A Vitória da Razão, pág. 81):
No caso do Islão, existe uma barreira insuperável às condenações teológicas da escravatura: Maomé comprou, vendeu, capturou e possuiu escravos. [...] Maomé também libertou vários escravos, adoptou um como filho, e casou-se com uma escrava. [...] As palavras e exemplo prático de Maomé melhoraram provavelmente a vida dos escravos em países muçulmanos, relativamente a Grécia e Roma. Mas o Islão nunca pôs em causa a moralidade fundamental da instituição da escravatura.
Ademais, cabe uma observação oportuna de Pernoud: "É curioso constatar que o facto paradoxal da reaparição da escravatura no século XVI, em plena civilização cristã, coincide com o retorno geral ao direito romano nos costumes" (Régine Pernoud, Luz sobre a Idade Média, pág. 87). E, tendo agora tocado justamente na reaparição da escravidão, chegamos ao último problema que tratarei nessa postagem. Aqui o problema parece ser insuperável, afinal, nas palavras de Daniel Sottomaior, "a escravidão é plenamente legitimada por diversas bulas papais" (http://www.conjur.com.br/2012-mar-21/escravidao-foi-tradicional-crucifixos-reparticoes-publicas). É ao menos necessário perguntar se o sr. Daniel cita essas "diversas bulas papais"?

Bom, ele nos dá um exemplo: a bula Dum Diversas - segundo ele, do Papa Paulo VI. E o que realmente precisamos perguntar é: qual será a fonte de informações do nobre presidente da ATEA? Nem mesmo o Google apontaria algo tão descabido. Aliás, o parágrafo utilizado por Daniel é o mesmo que se encontra em praticamente todas as fontes na internet, que não têm a decência de apresentar o documento completo, que é do Papa Nicolau V. E como poderiam? Ele não foi traduzido integralmente para o português, e é geralmente o único exemplo oferecido em favor do argumento de que "a escravidão é plenamente legitimada por diversas bulas papais". Vejam que interessante: o sr. Daniel quer convencer o leitor de que uma única bula, que ele sequer sabe de quem é, serve para justificar a ideia de que há várias outras de conteúdo semelhante; e o faz através do que chamamos quote mining - tática que consiste em escolher uma passagem conveniente para justificar o que está sendo afirmado. É o que acontece quando se cita uma famosa passagem de A Origem das Espécies para dizer que Darwin era racista - algo que também é bastante comum e naturalmente irrita o bom senso.

De qualquer forma, Dum Diversas não é uma bula, mas um breve - que é um documento de valor inferior - de 1452, como explica Daniel-Rops. O breve foi anulado em 1453, e substituído por outro chamado Romanus Pontifex. O fato óbvio, por mais terrível que pareça o parágrafo citado, é que seu conteúdo não representava uma regra, muito menos algo fundamental - e menos ainda tradicional - para a Igreja; e, definitivamente, não é por um parágrafo que se analisa o episódio de forma apropriada. Rops escreve (A Igreja da Renascença e da Reforma II, pág. 276):
Já no ano seguinte, em 1453, o mesmo papa, pelo breve Romanus Pontifex, verificando que muitos desses infiéis se tinham convertido ao catolicismo, precisava que não se podia manter em escravidão os batizados; e Calixto III e depois Sixto IV chegarão mesmo a excomungar os que os reduzissem à escravidão... Por fim, em 1537, Paulo III confiava ao arcebispo de Toledo e Patriarca das Índias a missão de proteger os indígenas americanos, tanto cristãos como pagãos, e na bula Sublimis Deus excomungava quem quer os escravizasse ou se apossasse dos seus bens: "Nós, [...] não obstante o que se tenha dito ou se possa dizer em contrário, [definimos e declaramos que] os tais índios e todos os que mais tarde sejam descobertos pelos cristãos, não podem ser privados de sua liberdade por nenhum meio, nem das suas propriedades, mesmo que não estejam na fé de Jesus Cristo; e poderão livre e legitimamente gozar da sua liberdade e das suas propriedades, e não serão escravos, e tudo quanto se fizer em contrário, será nulo e de nenhum efeito.
Agora, como isso obviamente não seria suficiente para calar ou convencer o adversário, gostaria de voltar um pouco no tempo, para 1435, quando o Papa Eugênio IV emitiu a bula Sicut Dudum, em que diz:
Eles privaram os nativos de suas propriedades e as tomaram para si, e submeteram alguns dos habitantes das ilhas mencionadas à escravidão perpétua (subdiderunt perpetuae servituti), venderam-nas a outras pessoas e cometeram vários outros atos malévolos e ilícitos contra eles. [...] Essas pessoas devem ser libertadas totalmente e para sempre, feitas livres para partir sem que se cobre ou receba delas qualquer dinheiro.
Lendo a bula, é possível notar que o Papa deu o prazo de cinquenta dias para que os conquistadores das Ilhas Canárias se retratassem de seus atos "malévolos e ilícitos". Mais notável ainda é o fato de que essa bula foi emitida quase sessenta anos antes da descoberta do Novo Mundo, e já aí há uma condenação formal da escravidão praticada pelos portugueses. E, também nesse caso, a pena para quem não restituísse à liberdade os que foram feitos escravos era a excomunhão ipso facto.

Quando à já citada Sublimis Deus, mesmo Gustavo Gutierrez, adepto à teologia da libertação, nota que trata-se do "pronunciamento papal mais importante em relação à condição humana dos Índios (Gustavo Gutierrez, Las Casas: in search of the poor Jesus Christ, pág. 302). "Quando Ele destinou os pregadores da fé ao ofício da pregação, é sabido que disse: 'Ide, fazei discípulos de todas as nações'. 'Todas', Ele disse, sem exceções, já que todos são capazes da disciplina da fé", escrevera Paulo III. Os ensinos de Eugênio IV e Paulo III foram continuados por Gregório XIV, em 1591 (Cum Sicuti) e por Urbano VIII, em 1639 (Commissum Nobis). Também com Bento XIV, em 1741 (Inmensa Pastorum) e Gregório XVI, em 1839 (In Supremo Apostolatus), que escreveu:
Certamente muitos Pontífices Romanos de memória gloriosa, Nossos Antecessores, não falharam, de acordo com as obrigações de seus ofícios, em condenar severamente esse modo de agir como perigoso para o bem-estar espiritual daqueles que fizeram tais coisas e uma vergonha para o nome cristão. [...] As penalidades impostas e o cuidado tomado por Nossos Antecessores contribuíram não de forma pequena, com a ajuda de Deus, a proteger os índios e os outros povos mencionados da crueldade dos invasores ou da ganância de mercadores cristãos, sem, no entanto, obterem sucesso a tal ponto que a Santa Sé pudesse se alegrar de seus esforços nessa direção. [...] O comércio de escravos, ainda que de alguma forma diminuído, ainda é praticado por muitos cristãos, portanto, com o desejo de remover tal vergonha de todos os povos cristãos [...] e seguindo os passos de Nossos Antecessores, Nós, com autoridade apostólica advertimos e exortamos os cristãos de fé no Senhor, de todas as condições, que ninguém no futuro se atreva a incomodar com injustiça, despojar suas propriedades ou reduzir à escravidão (in servitutem redigere) Índios, Negros ou outros povos.
Esperemos, agora, que o sr. Daniel Sottomaior nos traga as diversas bulas papais que legitimam plenamente a escravidão. É uma chance que precisa ser dada ao presidente da ATEA antes que possamos acusá-lo de ignorância ou desonestidade. Ademais, cabe lembrar que a voz da Igreja não se limita aos papas, e, como observa Thomas E. Woods (Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 128):
Nenhum dado histórico permite supor que Átila, o rei dos hunos, tenha tido qualquer escrúpulo moral nas suas conquistas, nem que os sacrifícios humanos coletivos que os astecas promoviam e que consideram tão fundamentais para a sobrevivência da sua civilização, tenham provocado entre eles sentimentos de autocrítica ou reflexões filosóficas que se pudessem comparar àquelas que os erros de comportamento dos europeus provocaram entre os teólogos da Espanha do século XVI.

Foi por essa reflexão filosófica que os teólogos espanhóis atingiram algo muito substancial: o nascimento do direito internacional moderno. As controvérsias em torno dos nativos da América forneceram-lhes uma oportunidade para elucidar os princípios gerais que os Estados estão moralmente obrigados a observar nas suas relações mútuas.
Francisco de Vitória
Entre esses pensadores estava o pe. Francisco de Vitória (1492-1546), chamado "o pai do direito internacional" (Michael Novak, The Universal Hunger for Liberty, pág. 24), e aquele que "propôs pela primeira vez o direito internacional em termos modernos" (Marcelo Sánchez-Sorondo, "Vitoria: the original philosopher of rights", em Kevin White, Hispanic Philosophy in the Age of Discovery, pág. 66). "Defendeu a doutrina de que todos os homens são igualmente livres; e, com base na liberdade natural, proclamou o direito à vida, à cultura e à propriedade" (Carl Watner, "All Mankind Is One", pág. 294); "proporcionou ao mundo da sua época a primeira obra-prima do direito das nações, tanto em tempo de paz como de guerra" (James Brown Scott, The Spanish Origin of International Law, pág. 65).

Woods explica que "Vitória procurou em São Tomás de Aquino dois princípios importantes: 1) a lei divina, que procede da graça, não anula a lei humana natural, que procede da natureza racional; 2) nada do que pertence ao homem por natureza pode ser-lhe tirado ou concedido em função dos seus pecados". E conclui: "Foi isso que Vitória quis dizer: o tratamento a que todo e qualquer ser humano tem direito - por exemplo, de não ser assassinado, expropriado dos seus bens, etc. - deriva da sua condição de homem, não de que seja um fiel em estado de graça" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, págs. 132-33). Contra aqueles que alegavam que os nativos fossem privados da razão, Vitória respondeu (Idem, pág. 136):
Na verdade, não são irracionais, mas possuem o uso da razão a seu modo. Isto é evidente, porque organizam as suas ocupações, têm cidades ordenadas, celebram casamentos, têm magistrados, governantes, leis [...]. Também não se enganam em coisas que são evidentes para os outros, o que revela que usam da razão. Nem Deus nem a natureza falham em dotar as espécies daquilo que lhes é necessário. Ora, a razão é uma qualidade específica do homem, e uma potência que não se atualizasse seria vã.
Bartolomé de Las Casas (1474-1566) posicionou de modo semelhante, e é o crítico da política espanhola mais conhecido, tendo influenciado pessoas de seu tempo e dos séculos seguintes (Mario Vargas Llosa, em Robert C. Royal, Columbus On Trial, págs. 23-4):
O padre Las Casas foi o mais ativo, ainda que não o único, dos não conformistas que se rebelaram contra os abusos infligidos aos índios. Esses homens lutaram contra os seus compatriotas e contra as políticas dos seus próprios países em nome de princípios morais que, para eles, estavam acima dos princípios de nação ou Estado. Essa autodeterminação não teria sido possível entre os incas ou em qualquer outra cultura pré-hispânica. Nessas culturas, assim como em outras grandes civilizações da História nascidas fora do Ocidente, o indivíduo não podia questionar moralmente o organismo social de que fazia parte, porque existia unicamente como um átomo dentro desse organismo e porque, para ele, os ditames do Estado não se dissociavam da moralidade.
Nada disso pretende negar as atrocidades cometidas após a descoberta do Novo Mundo, mas quando um nobre professor de História acusa a Igreja de ser um motor dessas tragédias ou, na melhor das hipóteses, ter sido omissa, é difícil não pensar sobre o real valor de um diploma - mas temo que dizer isso seja um tanto injusto. Pior, mesmo, é o presidente de uma associação que pretende ser defensora da razão escrever um artigo tão indecente que chega a ser esmagadoramente ofensivo ao mero senso comum. Enfim, gostaria de recomendar, para melhor compreensão da polêmica e o papel da Igreja na resolução, todo o capítulo VII do livro de Woods, "As origens do direito internacional" e, também, o capítulo X, "A Igreja e o direito Ocidental", que evitarei comentar para não deixar postagem ainda maior e mais cansativa.

Concluo dizendo que, se as pessoas pensam que a história humana foi ruim com a presença da Igreja Católica, o meu desejo sincero é que essas pessoas pudessem viver a mesma história, mas com a Igreja ausente. Provavelmente os europeus teriam conquistado, da mesma forma, o Novo Mundo, mas é difícil imaginar quem poderia impedir o Novo Mundo de ter se consolidado como o Novo Inferno. Talvez os estádios de futebol, que estão presentes no mundo inteiro, fossem arenas de gladiadores em que se celebrasse  o derramamento de sangue humano no mundo inteiro. No entanto, talvez esses exemplos ainda sejam sutis. Mas se as pessoas pensarem nessas hipóteses como impossibilidades históricas, então elas realmente não têm a menor ideia do mundo que existiu antes que o menino de Nazaré nascesse em Belém. 


Referências e recomendações:
  1. Santa Mônica
  2. Santas Perpétua e Felicidade
  3. Lista de santos africanos
  4. The Mismeasure of Man
  5. White Slaves, African Masters
  6. The White Slave
  7. White Cargo
  8. Christian Slaves, Muslim Masters
  9. They were white and they were slaves (PDF)
  10. The truth about the crusades
  11. The Victory of Reason
  12. Luz sobre a Idade Média
  13. Dum Diversas: full text
  14. Sicut Dudum
  15. A Igreja da Renascença e da Reforma (II)
  16. Sublimis Deus
  17. In Supremo Apostolatus
  18. The Popes and Slavery: book
  19. The Popes and Slavery: free chapter
  20. Slavery and the Catholic Church
  21. The Popes and Slavery: article
  22. Let my people go
  23. The Universal Hunger for Liberty
  24. Hispanic Philosophy in the Age of Discovery
  25. All Mankind Is One
  26. The Spanish Origin of International Law
  27. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental
  28. O Homem Eterno
Notas:
  1. A Vitória da Razão, edição portuguesa, Lisboa: Tribuna da História - Edição de Livros e Revistas, Lda
  2. Luz sobre a Idade Média, edição portuguesa, Lisboa: Publicações Europa-América, s/d.

15 de abril de 2012

Coleção de loucuras

Minha próxima longa postagem será, se tudo correr bem, sobre as acusações feitas por neo-ateus de que Deus é um monstro moral. Estarei utilizando como principal referência o livro de Paul Copan, Is God a Moral Monster?: making sense of the Old Testament God, e não imagino como a postagem possa ficar pequena, porque há muitos tópicos importantes que merecem ser analisados.

Já essa postagem que publico agora pretende lidar com uma questão relacionada ao Antigo Testamento, mas não considerando apenas as Escrituras, nem apenas o Antigo Testamento. O que quero fazer é considerar a frequente acusação dirigida à Igreja nos últimos séculos de que seu legado resume-se à tentativa de manipular as pessoas para seu próprio benefício. Gostaria, então, de considerar a hipótese da Igreja manipuladora à luz da ideia de que Deus é um monstro moral.

Em primeiro lugar, cabe considerar que quando neo-ateus dizem que Deus no Antigo Testamento é diferente de Deus no Evangelho, como se não fossem o mesmo, eles não estão apenas  manifestando uma compreensão falha sobre o primeiro, mas igualmente falha sobre o segundo. Esse problema foi abordado por Chesterton no capítulo "Os Enigmas do Evangelho", em O Homem Eterno. C. S. Lewis também se manifestou, posteriormente, de forma parecida em seu Cristianismo puro e simples. Vejamos, então, o que eles têm a dizer.

Chesterton começa explicando a dificuldade de considerar o Novo Testamento como um Novo Testamento: "Não é nada fácil entender a boa-nova como nova. Tanto para o bem como para o mal, a familiaridade nos enche de pressupostos e associações" (pág. 197), e continua (pág. 198):
Existe uma dificuldade psicológica em sentir o Novo Testamento como novo. Existe uma dificuldade psicológica em ver aquelas palavras tão conhecidas do jeito que elas são, sem ir além do que elas intrinsecamente representam. E essa dificuldade deve ser de fato muito grande, pois seu resultado é muito curioso. O resultado é que a maior parte dos críticos modernos e da crítica atual, até mesmo da crítica popular, tece um comentário que é exatamente o inverso da verdade. É tão completamente o inverso da verdade que quase se poderia suspeitar que esses críticos simplesmente nunca leram o Novo Testamento.

Todos nós ouvimos gente repetindo centenas de vezes, pois eles nunca se cansam de dizê-lo, que o Jesus do Novo Testamento é de fato alguém sumamente misericordioso e bondoso, que ama a humanidade, mas que a Igreja ocultou esse caráter humano em seus repelentes dogmas e o sufocou com seu terrorismo eclesiástico até Jesus assumir um caráter desumano. Atrevo-me a repetir que isso é quase exatamente o inverso da verdade. A verdade é que é a imagem de Cristo nas Igrejas que aparece quase inteiramente suave e misericordiosa. É a imagem de Cristo dos evangelhos que mostra também muitos outros aspectos. A figura dos evangelhos de fato expressa com palavras de beleza que quase parte o coração a sua compaixão por nossos corações partidos. Contudo, essa não é de modo algum a única espécie de palavras proferidas por ele.
De fato, a ideia comum que mesmo os ateus têm sobre Jesus se deve ao esforço da Igreja de levar às pessoas o Cristo misericordioso, mas, como Chesterton argumenta, se fosse possível ler os Evangelhos sem a influência de qualquer ideia pré-concebida de Jesus, descobrir-se-ia algo que vai além do Jesus "manso e humilde" que inevitavelmente vem à nossa imaginação quando olhamos para as doces representações daquele que estende suas mãos em nosso socorro. Com isso não se quer dizer que Jesus não é misericordioso, manso e humilde. O que se quer dizer é que ele é mais que isso, e curiosamente muitas pessoas não o enxergam além desses aspectos.

É possível dizer que, em parte, isso acontece pela dificuldade que algumas pessoas têm em conciliar o amor e a misericórdia com a ira e a correção - a justiça. Essa é uma dificuldade notável para o mundo moderno, que não consegue ver que uma mãe que protege o filho das ameaças do mundo e o corrige de forma severa faz as duas coisas movida por amor. Seria extremamente fácil explicar para uma pessoa sensata que uma mãe grita de maneira furiosa com seu filho que fez algo muito ruim não porque o odeia, mas porque o ama demais para não se manifestar diante do seu erro. Segundo o ditado popular, "quem cala consente", e é exatamente por esse motivo que as mães nunca ficam quietas. O problema, no entanto, é que muita gente não é sensata, e a única maneira de explicar pra essas pessoas o amor verdadeiro é recorrendo a ilustrações sutis que só representam partes desse amor.

Por isso, quando Deus aparece severo nas Escrituras, há um choque para o qual a única solução é o bom senso. É preciso entender que a justiça não é oposta à misericórdia, e que a correção não é oposta ao amor. Deus, assim como as mães, ama suas criaturas, e por isso age de maneiras que escapam por um momento à compreensão, porque o amor também possui a dolorosa característica de ser incompreensível. Com isso não quero apenas sugerir que Deus "age de formas misteriosas", mas que mesmo suas atitudes duras e difíceis não podem ser ponderadas sem que esse amor seja levado em conta.

A Igreja teve sucesso na difícil tarefa de mostrar a todos que Deus realmente ama o mundo: o ponto marcante de sua vida entre os homens foi sua Paixão. E o mundo só se convenceu porque é perfeitamente possível conciliar amor e justiça; mas aos ouvidos contemporâneos as duas palavras soam absurdas quando tentamos uni-las e tomá-las como complementares. No fim das contas, é difícil não admirar a sagacidade de Chesterton ao notar que a impressão que se tem é de que os críticos do Novo Testamento nunca leram o que estão criticando.

A verdade é que apenas os cristãos têm o direito de não pensar em Jesus como um sujeito maluco ou muito problemático. O povo do primeiro século se escandalizou porque realmente havia motivo para escândalo, e os não cristãos do século XXI só não se escandalizam porque  não sabem ao certo quem foi esse homem. Negam sua divindade e o aceitam como grande guia moral - assim como naturalmente aceitam Jeff Bridges como grande ator -, mas na prática isso é infinitamente mais absurdo que aceitar Oscar Niemeyer como grande arquiteto.

Entre os que dizem que Jesus fora um grande homem sem levar em conta esses aspectos "controversos" está Richard Dawkins, que disse ao The Guardian (http://christianpost.com/news/atheist-richard-dawkins-jesus-was-too-intelligent-to-believe-in-god/) que "Jesus foi um grande mestre moral". Para essa afirmação, Lewis oferece uma resposta direta (Cristianismo puro e simples, pág. 29*):
Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático - no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido - ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.
Agora, deixando o Novo Testamento, considerarei a questão que propus inicialmente. Depois de deixar claro - não por essa argumentação, mas pelo fato auto evidente - que Jesus é tido pela humanidade como uma figura tão carismática quanto um filhote de urso polar, espero evitar a acusação de que a Igreja, em sua história, falou mais sobre juízo final do que falou sobre a redenção pela cruz, ou seja, a ideia de que enfatizou mais o inferno do que enfatizou a misericórdia de Deus. A tese de que a Igreja usou o inferno para amedrontar os cristãos é sempre mais irônica quando defendida por um ateu. Porque o sr. Hitchens pensava que o inferno era um conceito muito cruel, achou interessante negá-lo, mas o mais interessante é ver um ateu negando às outras pessoas o direito de fazer a mesma coisa. Por que o arqueiro ou camponês da Idade Média não podia negar o inferno e viver sua vida livre de preocupações desse tipo?

A resposta é que eles podiam, e se não o fizeram, foi porque é realmente imbecil negar uma ideia por ela não parecer agradável. E esse é exatamente o tipo de problema que um ateu está levantando ao dizer que não pode existir um Deus que faz as coisas descritas no Antigo Testamento. O entendimento dos ateus sobre essas coisas e como elas realmente devem ser entendidas eu discutirei em minha postagem sobre o livro de Copan, mas aqui é necessário dizer que se o objetivo da Igreja foi, durante dois mil anos, manipular as pessoas, fossem seus motivos perversos ou simplesmente esquisitos, então só podemos dizer que ela foi realmente muito imbecil.

Quando um ateu diz que ler a Bíblia é um risco para a fé cristã ele não está imaginando São Tomás debruçado sobre as Escrituras, analisando se a antiga lei era boa ou não, postulando objeções que os próprios ateus não teriam pensado, e depois respondendo-as em detalhes. Isso certamente eles não imaginam, apesar de ser algo que realmente aconteceu. E aconteceu sem que o santo tivesse duvidado de que Jesus e Iahweh fossem o mesmo Deus. Ora, quando um ateu olha para o Antigo Testamento e percebe algo muito difícil de aceitar, e por isso conclui que trata-se de uma mentira, ele está fazendo algo muito diferente de usar sua razão ou bom senso: ele está explicitamente dizendo que a informação deve ser falsa porque seria muito terrível se fosse verdadeira, o que equivale a negar os relatos sobre alguma guerra particular por causa do número de soldados mortos nas batalhas.

E aqui vem o ponto importante: se, por exemplo, após o fim do nazismo, os alemães tivessem algum interesse em negar o holocausto, eles certamente se apressariam em acabar com qualquer fonte de informação remotamente ligada ao assunto, e talvez lutassem exaustivamente para calar qualquer voz que ainda pudesse dizer algo comprometedor. Por que, então, a Igreja, cujo alegado interesse era manipular as pessoas, não se livrou de qualquer tipo de Escritura que pudesse ser um desafio aparentemente insuperável para a veracidade do que ela mesma estava afirmando? Não só ela não se livrou de partes inconvenientes da Escritura, como foi preservando ao longo dos séculos cada detalhe que ali se encontrava, chegando ao extremo de levar às mãos dos fiéis o livro que ela usou e continua usando para manipulá-los: ela deu à sua vítima a arma com que a ameaçava, e ainda virou as costas e esperou pelo tiro de vingança.

Só podemos dizer que a única explicação possível para esse cenário, caso seja verdadeiro, é uma imbecilidade de proporções que superam a doença mental. E tanto a Igreja como o povo precisariam compartilhar essa imbecilidade. Eu consigo imaginar como essa hipótese possa parecer razoável, especialmente para os neo-ateus, que pensam que os religiosos, sejam eles leigos ou clérigos, são imbecis nessas proporções assustadoras. Mas a verdade é que, considerando a história da humanidade e todo o conjunto de homens envolvidos com essa história, de Santo Agostinho à Dante, à Mendel, o imbecil deixa de ser o religioso e passa a ser aquele que sustenta, mesmo que sem ter pensado bem sobre o assunto, essa hipótese indescritivelmente bizarra.

Para a Igreja de fato teria sido muito mais fácil esconder qualquer informação que parece inconveniente, mas a Igreja está preocupada com a verdade, seja essa verdade atraente ou incômoda. Alguns ateus parecem pensar que é uma atitude madura negar algo baseado no quão conveniente isso é, mas a Igreja nunca esteve preocupada com o que lhe é meramente conveniente, e sim com o que é verdadeiro; nunca com o que lhe seria meramente benéfico, mas, acima de tudo e em todos os tempos, com o que é certo. O fato de que passagens difíceis de serem aceitas pelas pessoas estão na Bíblia dificilmente pode ser usado como argumento contra o cristianismo, mas, se formos levar em conta detalhes como os analisados nessa postagem, talvez seja justo dizer que esse fato pode ser usado como argumento a favor da Igreja.


Notas:
  1. *Cristianismo puro e simples, Martins Fontes, versão e-book
  2. Is Yahweh a moral monster? http://epsociety.org/library/printable/45.pdf

12 de abril de 2012

Pecado Original e poligenismo

Vários pais, um pecado - em DarwinCatholic.

Isso começou como um comentário para o post de Kyle Cupp, em que ele pergunta sobre o Pecado Original à luz do poligenismo; porém, rapidamente ficou claro que eu estava escrevendo demais para que fosse um comentário, e eu já não escrevia um bom post relacionado à evolução e teologia há um tempo, e por isso eu resolvi transformá-lo em uma postagem-resposta.

Apenas para expor brevemente a questão, deixe-me citar a passagem da encíclica de Pio XII Humani Generis, de 1950, em que ele lida com a questão do entendimento da Igreja quanto às origens humanas sob luz da ciência (evolutiva) moderna. Em suma, Pio XII não vê nenhum conflito entre um entendimento católico da humanidade e ciência evolutiva, mas ele aponta uma possível área de conflito:
"Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do Pecado Original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles".
Assim, enquanto Pio XII está bem confortável com a descrição evolutiva da origem humana desde que haja, claramente, um casal ancestral que foi o primeiro infundido por Deus com alma, e que é descrito na Bíblia na história de Adão e Eva, ele expressa sérias preocupações quanto a podermos aceitar a visão da história humana em que nem todos os humanos são descendentes de um único casal ancestral, que caiu e nos transmitiu o Pecado Original. No entanto, como aponta Kyle, a ciência evolutiva moderna (sessenta após a encíclica de Pio XII) sugere quase com certeza que em determinado ponto no tempo houve uma população de humanos da qual a subsequente geração descendeu - nunca houve um efeito de gargalo depois do qual todos humanos subsequentes descenderam de um casal ancestral.

Há ancestrais particulares, e sem dúvida casais de ancestrais particulares, os quais todos os humanos modernos compartilham como ancestrais, "Eva mitocondrial" e "Adão cromossomial-Y", por exemplo, mas nas gerações imediatamente após esses indivíduos existiam muitos humanos que não estavam ligados a eles. Foi apenas depois de dezenas de milhares de anos de mistura genética que chegamos a um ponto em que todos os humanos compartilhavam esses ancestrais particulares. Além disso, há evidências genéticas bastante fortes de que em umas poucas (raras) ocasiões, populações humanas arcaicas em várias partes do mundo cruzaram com a população ancestral humana moderna que se espalhou da África e que todos os humanos compartilham. Assim, aqueles de descendência europeia possuem uma pequena contribuição genética que parece derivada de Neandertais, mas pessoas sem descendência europeia não compartilham essa herança genética. Logo, a mistura com Neandertais claramente ocorreu em um ponto após a origem comum de todos os humanos.

Deixe-me ver se eu posso voltar à questão básica aqui (se nosso entendimento do Pecado Original muda caso aceitemos um entendimento científico de que descendemos não de apenas um único par de humanos originais, e sim de uma população de humanos originais) e analisá-la, porque isso é algo que sempre pareceu muito simples para mim, enquanto muitas pessoas acham algo preocupante. (Se isso significa que eu tenho algum insight sobre a questão, ou que eu sou teologicamente surdo, vocês deverão me dizer. Eu não vejo nenhuma dificuldade onde um Papa recente viu bastante - mas talvez haja algumas áreas em que a passagem do tempo seja útil).

Se eu fosse resumir a doutrina do Pecado Original como a entendo, deixando todas as questões da evolução de lado, eu diria: Pecado Original é uma mácula, um defeito, ou corrupção que marca a alma de todo humano desde a Queda. Nós nascemos com ele, e ele nos inclina a pecar. Todos os humanos (com exceção de Maria) têm nascido com o Pecado Original desde o pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva.

Agora, pensemos sobre a aparente verdade científica de que nunca houve um "primeiro" casal humano (ao menos no sentido biológico) do qual todos os humanos modernos descenderam, mas, em vez disso, que houve uma pequena população de humanos que são ancestrais de todos nós, dos quais alguns descendentes, em umas poucas raras ocasiões subsequentes parecem ter se misturado com alguma população regional arcaica em algum lugar do mundo enquanto se espalhavam.

O que da definição de Pecado Original acima nós precisamos mudar à luz disso? Para pensar sobre isso, gostaria de separar a definição em duas partes:
a) Pecado Original é uma mácula, um defeito, ou corrupção que marca a alma de todo humano desde a Queda. Nós nascemos com ele, e ele nos inclina a pecar. Todos os humanos (com exceção de Maria) têm nascido com o Pecado Original;

b) Desde o pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva.
Primeiro lidemos com a). Me parece que com um entendimento católico da revelação de Deus a nós, nós provavelmente não precisamos ver qualquer problema com a) como resultado de aceitar uma descrição científica da história da humanidade em que nunca houve um único casal original cujos filhos construíram todo o resto da humanidade.

Diante disso, alguém pode perguntar: "Mas se nosso entendimento do Pecado Original vem de pensar que a história de Adão e Eva foi uma descrição basicamente histórica, isso não significa que com Adão e Eva removidos, nós devemos revisar nosso entendimento do que é o Pecado Original, ou se ele sequer existe, afinal?".

Eu penso, no entanto, que se tomarmos uma aproximação católica da Escritura e do ensinamento da Igreja, esse não é o caso. Primeiro, nós entendemos que a Bíblia consiste em um número de gêneros e que eles contêm vários níveis de significado. Eu sugeriria que os capítulos introdutórios do Gênesis pertencem ao gênero de mitologia. Isso não significa (como algumas pessoas parecem dar significado à palavra) que eles são boas histórias para ler para crianças menores de dez anos, mas não essencialmente falsos e não possuem relação com a "realidade". Em vez disso, mitologia é um modo de expressar verdades profundas sobre nós mesmos e sobre o mundo através de uma narrativa que pode não ser historicamente verdadeira. Porém, mitos não são "apenas uma história", e nem são "falsos". Eles simplesmente não pretendem ser verdadeiros do mesmo modo que um livro de História ou uma história de jornal pretendem ser verdadeiros.

Enquanto muitos na história da Igreja podem ter assumido (por falta de qualquer razão pra pensar de outra forma) que a história de Adão e Eva (e outras histórias do Gênesis como a história de Caim e Abel e a história de Noé) fosse historicamente verdadeira, nosso entendimento do que é a Escritura não requer isso. Ademais, como católicos nós acreditamos que Cristo instituiu a Igreja para preservar Seus ensinamentos, e enviou o Espírito Santo para guiar a Igreja e protegê-la de ensinar erros.

Se o Pecado Original fosse apenas uma interpretação teológica que as pessoas ofereceram para explicar certos elementos da história do Gênesis, então eu poderia entender a sugestão de que seria necessário revisá-lo ou abandoná-lo dada a mudança em nosso entendimento do gênero e precisão histórica de partes do Gênesis. No entanto, o Pecado Original é claramente uma doutrina da Igreja que tem sido ensinada com autoridade desde o tempo dos Pais da Igreja. Se nós sequer acreditamos que o Espírito Santo previne a Igreja de ensinar erros, então obviamente nós podemos aceitar a descrição básica da Igreja sobre o Pecado Original como correta - mesmo se de certo modo ela surgiu de tomar uma narrativa mitológica como sendo mais historicamente acurada do que parece agora.

Por causa disso, me parece que tudo contido em a) pode ser tomado como verdadeiro, independentemente de considerarmos a história de Adão e Eva literalmente ou mitologicamente. Agora, quanto a b), parece que temos vários caminhos possíveis em que podemos considerar a história de Adão e Eva como apresentada no Gênesis à luz do que atualmente acreditamos entender sobre a história da espécie humana devido a descobertas na ciência moderna.
1) Podemos sustentar que em certo ponto no passado distante, Deus escolheu um único par de humanos e os fez à sua imagem, infundindo neles almas imortais, racionais e morais. Esses primeiros pais caíram de alguma forma que foi melhor descrita aos escolhidos de Deus através da história do Gênesis. Todos os seus filhos tiveram almas, e em algum ponto cruzaram com o resto da população humana primitiva, com o resultado de que em certo ponto no ainda distante passado todos os humanos tinham "Adão e Eva" como seus ancestrais e possuíam almas.

2) Podemos sustentar que em certo ponto no tempo Deus infundiu toda uma população de humanos com almas, e um casal entre eles foi testado e caiu. Dado esse evento, é possível sustentar: 2.a) como resultado do pecado do casal representativo, todos os humanos foram manchados com o Pecado Original de uma só vez; ou 2.b) apenas os descendentes desse casal caído tinham o Pecado Original, mas através de certa sequência de eventos, todos nós somos descendentes deles. (Me impressiona que isso dá muita margem para um conjunto realmente fascinante de enredos para romances de fantasia).

3) É possível sustentar que eles nunca foram um único casal que passaram por uma queda, mas que história mitológica foi inspirada ou guiada em revelação pelo Espírito Santo para descrever aos israelitas (e eventualmente a nós) a natureza caída da humanidade e a natureza da relação das humanidades com Deus. Nesse modo de pensar, nós basicamente precisamos admitir que, apesar de claramente ter havido uma "queda" em certo ponto após os humanos possuírem almas e terem consciência moral e conhecimento de Deus, e depois da qual a humanidade passou a ter o Pecado Original e tudo que isso implica, nós de fato não temos ideia do que aconteceu, a não ser o que Deus escolheu descrever e os resultados do que houve através da história de Adão e Eva.
À medida que eu tenho uma opinião sobre o assunto, eu poderia me inclinar para 3), mas, honestamente, estou um pouco hesitante para sequer escolher um. Em parte, isso é porque, dada a afirmação de Pio XII sublinhada acima, eu não quero tomar direções que são de qualquer forma incompatíveis com a nossa Igreja, mas mais porque eu realmente não acho que isso faça alguma diferença. O que temos no Gênesis é a história que Deus escolheu colocar (ou permitiu desenvolver, dependendo de como você quer considerá-la) nos escritos sagrados de Seu povo escolhido. Como tal, confio bastante que ela nos diz o que nós precisamos saber sobre nossa natureza e nossa relação com Ele. E considerando que, a essa altura, não há como descobrirmos "o que realmente aconteceu", eu não consigo ver como vale a pena especular muito e pensar profundamente sobre isso. Afinal, o melhor que podemos fazer é construir nossa própria história de "como aconteceu", baseado no que achamos mais provável, e, diferente de Deus, nós não temos o benefício de ter estado lá.

Original em http://darwincatholic.blogspot.com/2011/01/many-parents-one-sin.html: Many Parents, One Sin.
Traduzido por Vinicius Oliveira.

4 de abril de 2012

Religião e Super-heróis

Há pouco mais de uma semana vi, novamente, uma ridicularização ateísta que compara o conteúdo da Bíblia com o conteúdo de comic books. "Se a Bíblia prova a existência de Deus, quadrinhos provam a existência do Superman". É provável que a maioria dos cristãos que debatem com neo-ateus já tenha sido confrontada com alguma versão desse "argumento". O vlogger Bernardo Lopes já o defendeu em sua série Acid Atheist, e nas redes sociais imagens com essa mensagem estão sempre sendo compartilhadas.

O leitor poderia pensar, então, que essa postagem seria dedicada apenas a discutir o quão inapropriada é tal comparação, e por quais motivos esse é o caso. Mas, em adição a isso, farei outra coisa. A comparação da Bíblia aos quadrinhos me inspirou a fazer algo um pouco diferente: discutir a religião dos super-heróis. Já há um bom tempo eu estava intrigado em saber, por exemplo, se Bruce Wayne poderia ser cristão, ou se Peter Parker frequentava alguma Igreja. Essa será minha tentativa de explorar, em detalhes, a religião dos super-heróis mais populares, destacando a quais denominações pertencem e o grau de comprometimento que possuem com sua fé.

Super-heróis sempre foram uma grande inspiração moral para crianças, jovens e adultos. Eles reforçam, há várias décadas, uma ideia que a humanidade carrega já há muitos milênios: a ideia de que o bem é melhor que o mal; que qualquer sacrifício para que o bem vença o mal nunca é em vão. De fato, a vida de alguns super-heróis pode ser facilmente resumida ao sacrifício pelo bem de outras pessoas - quase sempre pelo bem de pessoas comuns -, e pelo bem em si mesmo. Eles não são super-heróis simplesmente porque têm superpoderes, mas porque o usam para o bem. Os vilões dos quadrinhos também são poderosos, e só se diferenciam daqueles pelas suas atitudes, que são reflexo de sua vontade: eles escolheram se aliar ao mal.

Quando há poucos anos as adaptações dos quadrinhos para o cinema se tornaram febre, muito das histórias originais foi sacrificado e perdido em nome do sucesso de bilheteria, mas mesmo Hollywood preservou essa característica do mundo que vai de Metrópolis a Temiscira: um bom super-herói sempre estará em guerra com um supervilão. Essa é a essência da história dos comic books desde que Superman estourou nos Estados Unidos.

Originalmente, em grego, herói (hḗrōs) significa "protetor, defensor". E não há maior protetor do que aquele que arrisca ou perde a própria vida para proteger os outros. O mundo ocidental sempre esteve familiarizado com uma história que possui todos esses elementos, e que termina no sacrifício de um para que muitos outros sejam salvos. Com isso não quero começar uma comparação entre Jesus e super-heróis, mas essa história pode ajudar-nos a refletir sobre o motivo de histórias de super-heróis serem tão bem-vindas pelas pessoas, de modo geral.

De fato, é preciso entender que o papel dos super-heróis é muito diferente do papel do Salvador da humanidade. Como disse Daniel Fingeroth, "o papel do super-herói é resgatar o gato de cima da árvore: não é podar a árvore ou disciplinar o gato".

- Curt: "Oh, meu coração! Oh, minha alma". - Superman: "Eu chequei seu coração com minha visão de raio-x, Curt, e ele está bem; mas sua alma não é da minha conta". [1]
Super-heróis, mesmo com seus poderes, não podem fazer com que o mal deixe de existir: podem apenas ajudar para que o mal diminua através de suas atitudes, sejam elas grandes ou pequenas. Eles podem impedir que um homem seja esmagado por um prédio que desmorona, mas não podem impedir que um homem seja vítima de sua própria filosofia esmagadora. Eles podem derrotar todos os supervilões que ameaçam a humanidade, mas não podem livrar a humanidade do mal que ela carrega em si mesma. A ajuda que os super-heróis oferecem às pessoas é como a ajuda que uma pessoa caridosa oferece a um mendigo que ocasionalmente bate à sua porta. Um prato de comida pode livrá-lo de um dia de fome, mas dificilmente o livrará de uma vida inteira de fome. Um super-herói pode livrar uma pessoa de uma morte precoce, mas não pode livrá-la do fato de que a morte chega para todos.

As diferenças entre o Salvador da humanidade e o maior dos super-heróis são extremamente gigantescas, e por isso gostaria de deixar claro que essa postagem não tem a menor pretensão de seguir esse caminho. De qualquer forma, a diferença mais notável entre o Salvador e os super-heróis está, de fato, na existência: super-heróis são alegorias; Cristo é de carne e osso. A Liga da Justiça não está monitorando o que acontece na Terra, mas Deus está. E ela pode até tentar fazer o que é justo, mas somente Deus pode garantir a existência objetiva da justiça. Em outras palavras, sem Deus todo o esforço por justiça que encontramos no mundo real ou nos quadrinhos seria em vão.

O que dizer, então, das acusações feitas por neo-ateus, de que se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que o Superman existe? Gostaria de dizer apenas que comparar a Bíblia com quadrinhos é como confundir o objetivo do jornalismo com o objetivo da ficção. É verdade que muito jornalismo é tão factual quanto as Crônicas de Nárnia - senão menos -, mas é importante notar que quadrinhos não tem a pretensão de relatar um evento histórico. A Bíblia, por outro lado, é um documento destinado exatamente a este fim. Não se acredita nas informações fornecidas pela Bíblia meramente porque são informações fornecidas pela Bíblia, mas porque são informações baseadas na realidade.

Também não acreditamos que o coronel Inácio sofreu um ataque cardíaco meramente porque o jornal disse isso, mas porque o jornal está reportando algo que de fato aconteceu, e que foi testemunhado pelos familiares e amigos do coronel. Até quem não o conhecia testemunhou o ataque, e se porventura encontrarmos o coronel Inácio numa cama de hospital, confiaremos na manchete tanto quanto as testemunhas que viram Jesus sendo crucificado e depois o viram caminhando normalmente confiaram  no fato de que ele havia ressuscitado.

O sr. Bernardo Lopes faz essa comparação inapropriada porque ele assume que a Bíblia não passa de um faz-de-conta, uma invenção, mas podemos garantir a ele que Stan Lee nunca daria a própria vida para provar que Bruce Banner existe de verdade. No entanto, os apóstolos morreram na tentativa de convencer as pessoas de que o filho de Deus havia pisado na terra - e esse tipo de informação não está apenas na Bíblia. Aliás, esse é o único sentido em que se pode dizer que a Bíblia prova que Deus existe: no sentido de que Jesus é Deus. Num sentido puramente filosófico, não há na Bíblia o que há nas vias de São Tomás, e mesmo assim tenho a impressão de que alguns ateus agem como se esse fosse o caso.

A verdade, enfim, é que é fácil dizer qualquer coisa. É fácil dizer que Elvis está vivo: difícil é correr risco de vida e mesmo assim se manter fiel ao que foi dito. Isso, o sr. Bernardo deveria saber, só acontece quando as pessoas estão convictas de que dizem a verdade. Pode-se dizer, é claro, que essas pessoas eram loucas, e a partir desse momento será bastante interessante explicar a loucura repentina de milhões de cristãos: uma loucura que atravessou os séculos e transformou uma crença de poucas pessoas sem importância na crença da Europa em sua totalidade, das pessoas simples aos reis e soldados.

A explicação neo-ateísta mais comum é, na verdade, uma admissão de ignorância que tem a pretensão de ser uma descrição histórica: supõem que as pessoas do primeiro século eram imbecis que estavam dispostos a acreditar na primeira bobagem dita por desconhecidos, independente do fato de essa bobagem contradizer boa parte do que pensavam sobre as coisas e parecer - dessa vez verdadeiramente - uma loucura. Mas isso não é uma descrição do povo do primeiro século: é uma descrição de alguma fábula sobre o primeiro século, de autoria da ignorância do século atual.

Pergunte às pessoas quais eram os costumes e provérbios da Roma Antiga, e quase ninguém saberá o que dizer, e menos ainda terão um exemplo em mente - eu não teria. Pergunte ainda os jovens de hoje sobre as roupas e músicas que animaram as discotecas do século passado, e eles não saberão com precisão o que houve na década de setenta ou de oitenta - eu não saberia. Pergunte, porém, qualquer coisa sobre as pessoas do primeiro século que acreditaram no cristianismo, e ouviremos diversas explicações sobre como acreditavam em bobagens, como eram retrógrados e como eram estúpidos. E muita gente ouve essas coisas pensando que é bem provável que essas pessoas realmente eram assim.

Atrevido seria eu se perguntasse, agora, onde está a verdadeira estupidez. Falando sobre o sacramento do matrimônio, escreve Chesterton (O Homem Eterno, págs. 207-8):
"Talvez não acreditemos em sacramentos, como talvez não acreditemos em espíritos, mas está muito claro que Cristo acreditava nesse sacramento a seu modo e não de acordo com alguma corrente ou maneira contemporânea. Ele com certeza não tomou sua argumentação contra o divórcio da lei mosaica, ou do direito romano, ou dos hábitos da nação palestina. Os críticos de seu tempo teriam exatamente a mesma impressão que têm seus críticos de hoje: de estar diante de um dogma arbitrário e transcendental oriundo do nada, a não ser do próprio Cristo. Não estou absolutamente preocupado em defender esse dogma; o ponto central é que é exatamente tão fácil defendê-lo agora como era então. Trata-se de um ideal completamente fora do tempo, difícil em qualquer época, em nenhum período impossível. Em outras palavras, se alguém disser que se trata do que se pode esperar de um homem perambulando naquela região naquele período, nós com muita justiça responderemos que parece muito mais o que poderia ser o misterioso pronunciamento de um ser além do homem, se ele vivesse entre os homens".
Isso pode começar a tocar em pontos que argumentação neo-ateísta sequer considera ao falar do Cristo enganador que se aproveita da ingenuidade do povo, ou dos apóstolos enganadores que inventam uma história com o mesmo propósito. Depois, ainda morrem para defender a veracidade de sua própria invenção, a ponto de tal martírio ser imitado ainda hoje, às vezes em lugares distantes, às vezes onde eles mesmos pisaram (http://noticias.uol.com.br/pastor-sera-executado-no-ira-por-nao-abandonar-o-cristianismo.htm). Deixando, enfim, o poder de explicação das hipóteses neo-ateístas, passemos para o segundo ponto dessa postagem: a religião dos super-heróis.

1. Superman

 Clark Kent foi criado por pais evangélicos, e durante toda sua longa história nos quadrinhos, seus valores refletem essa criação. Até os quatorze anos, ele ia todos os domingos à Igreja Metodista com sua mãe, Martha. Jonathan também educou Clark com valores cristãos, mas não costumava ir à Igreja. Essas informações não especulativas, mas canônicas, estabelecidas continuamente pela DC Comics. Em Action Comics #850 (Agosto 2007), Metodismo é descrito como a religião em que Clark e sua mãe participavam. Clark deixou de frequentar a Igreja quando sua super-audição, visão raio-x e outros super-sentidos começaram a se desenvolver. Posteriormente, ele explicou a sua esposa, Lois Lane, que deixou de ir à Igreja por saber demais sobre a vida, problemas e mentiras das pessoas, e estar preocupado em perder a fé nelas. Resolveu, então, evitar contato tão íntimo com elas e depositar sua fé "no melhor que a humanidade tem para oferecer" (Action Comics #849, Julho 2007).

Depois de adulto, como mostrado, por exemplo, em Superman: A Man For All Seasons, Clark continuou a visitar e consultar o pastor da Igreja de sua família, mesmo depois de começar sua carreira como Superman. Mas isso não significa que ele passou a frequentar alguma Igreja: isso não aconteceu. Ele ocasionalmente visita sacerdotes de várias denominações, a fim de conselhos, orientação ou confissão. Também foi representado, enquanto adulto, várias vezes rezando.

- Clark: "Pastor Linquist, o senhor tem alguns minutos?". - Pr. Linquist: "Para você, Clark? Sempre. Sempre disposto a passar um tempo com você ou sua família... contanto que você não se importe de eu cuidar de algumas coisas enquanto falamos. O Senhor pode ter dado a nós as ferramentas, mas cabe ao homem o conserto, e deixar Tom Landers encarregado de tudo... bem, você sabe, filho". [2]
Elliot S! Maggin, o principal escritor de histórias do Superman nos anos 70 e 80, disse em uma entrevista, quando perguntado se Superman orava regularmente: "Eu acho que o Superman é muito humilde para pedir coisas em oração, mas acho que ele ora por costume, e constantemente, do mesmo modo que alguns de nós falamos com nós mesmos no banho" (Bruce Bachand, "Interview: Elliot S! Maggin", publicado em Fanzing, edição #9, Agosto 1998).

"O dia em que casei com Superman" [3]
Aparentemente, Clark é flexível quanto às denominações cristãs em que busca ajuda, e já consultou padres em Igrejas Católicas. A esposa de Clark, Lois Lane, é católica, apesar de não haver muitos detalhes sobre o quão religiosa ela é. Clark e Lois se casaram na Igreja, mas não há detalhes sobre a Igreja em que foi realizada a cerimônia.

Quando a irmã de Lucy está grávida, considera a possibilidade de fazer um aborto, mas não quer que Lois descubra, provavelmente por temer que Lois reagisse negativamente e tentasse persuadi-la de alguma forma. A religião desses personagens nunca foi um problema, e os quadrinhos do Superman não sofreram com tabus do tipo que existe atualmente.

Mas o mesmo não pode ser dito sobre a série de TV Smallville, que durante dez temporadas contou a vida do jovem Clark Kent, mas pouco - quase nunca - se referiu à sua criação religiosa. Nem mesmo a religiosidade de sua mãe foi destacada. Por outro lado, ainda em Smallvile, Lex Luthor foi constantemente retratado como como cristão: foi batizado, teve um casamento cristão, e constantemente refere-se explicitamente ao Antigo e Novo Testamento. Isso é estranho: Elliot S! Maggin identifica Lex como um judeu que abandonou a religião. Nos quadrinhos, Lex não faz referências religiosas e nunca manifestou particular respeito por alguma delas, e é reconhecido como um ateísta nietzschiano, que se vê como superior aos outros humanos, e acredita que o próprio destino é governar sobre todas as pessoas.

2. Spider-Man

Apesar de não se saber a qual denominação pertencia, Peter Parker, que agora está morto, foi um cristão protestante tradicional; sua tia May é uma cristã devota. Peter não costumava ir à Igreja, mas, mesmo assim, manifestava claramente, de tempos em tempos, que acreditava em Deus, e seu plano de fundo cristão sempre se manifestou fortemente em seu comportamento e código pessoal de ética.

- Peter: "Hey, Deus? É o Peter de novo". [4]
Várias vezes Peter aparece conversando com Deus. Todas essas características de Peter são reflexo da criação recebida de sua tia, a pessoa mais influente em sua vida. No filme Spider-Man, de 2002, há uma cena em que a tia May está rezando - pouco antes de ser atacada pelo Green Globlin. Em Infinity Crusade #1, Peter é identificado como um dos personagens mais religiosos da Marvel.

Detalhe: Deus abençoe nossa casa. [5]
O terceiro filme, de 2007, mostra Eddie Brock entrando em uma Igreja Católica, onde pede a Deus que o ajude a se vingar de Peter. Nos quadrinhos, Eddie se torna o Venom forma diferente. De fato, ele estava em uma Igreja: não atrás de vingança, mas de perdão. Brock estava pensando em suicídio, mas não o cometeu por tratar-se de um pecado mortal - o próprio Brock explica isso ao Spider-Man. Ele foi atacado pela simbiose na Igreja de Nossa Senhora dos Santos, e a partir daí tornou-se Venom. No filme, Brock queria vingança porque ter perdido o novo emprego. Nos quadrinhos, por sua esposa tê-lo abandonado após sua demissão. E quanto à esposa de Peter, Mary Jane, sabe-se apenas que ela também é cristã, mas não se sabe a qual denominação pertence.

3. Hulk

O dr. Bruce Banner, especialmente no Ultimate Marvel Universe, foi apresentado como católico não praticante; teve, inclusive, uma edição de The Ultimates 2 dedicada quase que exclusivamente a expor esse lado do cientista que se transforma num monstro verde com potencial para ser herói ou vilão - ou, em alguns casos, uma espécie exótica de vândalo. Em The Ultimates 2 #3, Banner seria executado por ordem do governo federal porque o Hulk matou 852 pessoas em Nova York. A cena abaixo é de minutos antes do horário da execução.

- Iron Man: "Dormindo como um bebê, Nick. É difícil acreditar que isso está acontecendo. Ele parece um saco de ossos jogado aí. A sensação é obscena". - Nick Fury: "Tony, já passamos por isso milhões de vezes. Banner assassinou mais de oitocentos inocentes...". - Iron Man: "Eu sei, eu sei. E as pessoas perguntam por que eu bebo". [6]
Iron Man se dirige ao corpo de Bruce para deixar com ele seu crucifixo. Após a explosão de uma bomba no navio em que se encontra seu corpo, segue-se o seu funeral, que acontece em uma Igreja Católica, escolhida por ele mesmo. Captain America lê, então, uma mensagem deixada por Bruce (The Ultimates 2 #3, págs. 18-19):
Meus caros amigos. Eu sei que cientistas sérios não deveriam acreditar no conceito de pós vida. Não há provas, afinal. Não há dados empíricos que suportem nada além do aqui-e-agora, e ainda assim aqui estou eu falando a vocês de além do próprio túmulo. O que isso sugere? O que isso diz a vocês?
Para mim, é a ilustração perfeita de que o mundo é um lugar muito mais complexo do que mesmo a mente mais brilhante entre nós poderia imaginar.
Minha própria, bastante privada fé vem desde meu sétimo verão e nossas férias anuais com meus primos em Chesapeake Bay. Meu tio era um fotógrafo da vida selvagem e com paciência nutriu meus primeiros interesses por plantas e animais. Me lembro de uma pequena lagarta de que cuidamos com carinho durante aquele longo e quente mês de Julho - uma pequenina geometridae com que brincávamos e para a qual demos um nome infantil. Ficamos com o coração muito partido quando ela parecia ter morrido, quando ela se enrolou apertada em um casulo de seda e não se moveu por dias. Eu chorei demais, mas meu tio explicou que nada morre verdadeiramente. Estava apenas acontecendo uma mudança, como o gelo se torna água, e a água se torna vapor, e ele estava certo, sabe?!
Em questão de dias, uma borboleta partiu aquele pequeno e duro casulo e saiu em busca de algo muito mais interessante que Bruce Banner e seus primos estridentes.
Portanto, não chorem por mim agora, meus amigos,  porque a ciência insiste em dizer que eu não morri. A energia simplesmente sempre muda de condição e eu me recuso a acreditar que a consciência humana seja a única exceção para essa lei universal.
"Portanto, não chorem por mim agora, meus amigos,  porque a ciência insiste em dizer que eu não morri. A energia simplesmente sempre muda de condição e eu me recuso a acreditar que a consciência humana seja a única exceção para essa lei universal". [7]
A fé privada de Bruce pode ser explicada por sua marcante timidez. Ele era tímido até com a sua própria esposa, Betty Ross. Na série principal de Hulk, ele também é retratado como católico não praticante. Betty, por sua vez, é católica devota, e quando pensou que Bruce havia morrido, entrou em um convento com o objetivo de tornar-se uma freira. Deixou o convento quando descobriu que Bruce estava vivo. Os dois se casaram na Igreja.

4. Batman

O pai de Bruce Wayne pertencia à Igreja Episcopal, enquanto a mãe, a chave de sua criação religiosa, pertencia à Igreja Católica. Wayne, enquanto adulto, não pratica nenhuma das duas religiões. Em ocasiões raras, Batman se identifica genericamente como ateísta ou cristão, o que pode indicar que suas crenças pessoais e relação com Deus muda com o passar dos anos, com as diversas experiências, como é o caso de muitas pessoas.

Batman visita o túmulo de seus pais, Martha e Thomas. [8]
O personagem utiliza expressões e faz referências cristãs em certos momentos, mas isso é devido apenas à sua criação. Wayne já apareceu rezando, mas isso é certamente algo raro em sua vida. Em uma cena que isso acontece, ele recorda a promessa que fez de vingar a morte de seus pais.

"Eu juro pelos espíritos de meus pais vingar a morte deles passando o resto de minha vida perseguindo todos os criminosos" [9]
Em diversas ocasiões, mostra-se o túmulo do Batman, seja quando ele fingiu sua morte (The Dark Knight Returns #4, 1986), ou quando Robin (Tim Drake) viaja ao futuro (Teen Titans #18, 2004). Em todos esses casos há uma cruz em seu túmulo - o mesmo não pode ser observado em outras lápides que aparecem no cemitério, nem mesmo no caso de Selina Kyle, sua provável futura esposa.

5. X-Men

Algo bastante claro sobre os X-Men, é que trata-se de um grupo de mutantes que constantemente sofre preconceito pelas suas diferenças, por serem considerados anormais. Os personagens possuem diferentes poderes, diferentes filosofias e diferentes modos de lidar com as situações cotidianas ou extraordinárias. Possuem, também, diferentes religiões e manifestam diferentes graus de religiosidade (ver lista em http://www.adherents.com/lit/comics/comic_collage.html). Toda a variedade étnica, religiosa, etc., reforçam a ideia de conviver com as diferenças, que é algo fundamental na história desses mutantes.

Henry McCoy, "The Beast", é um cientista apaixonado pelo conhecimento, e que também tem um lado espiritual expresso em diversas ocasiões. Ele pertence à Igreja Episcopal, e possui uma crença forte e clara em Deus. Jean Grey, pertence à mesma Igreja, e seu irmão fora, inclusive, um sacerdote - ela também é apresentada, em Infity Crusades #1 com um dos personagens mais religiosos da Marvel. Scott Summers, "Cyclops", é evangélico, e teve com Jean um casamento cristão tradicional, mas ao ar livre.

Piotr Rasputin, "Colossus" foi criado como um ateu comunista na União Soviética. Kitty Pryde, "Shadowcat", é judia, e usa um colar com a Estrela de Davi. Magneto também é judeu, e apareceu, inclusive, como prisioneiro num campo de concentração nazista. Isso aconteceu nos quadrinhos e no filme de 2000. O professor Xavier também foi retratado, durante todos os anos, como uma pessoa que crê em Deus e na vida após a morte, mas nenhum detalhe sobre alguma possível denominação foi revelado.

Kurt Wagner, "Nightcrawler", é um católico devoto. Seu fervor religioso foi apresentado nos quadrinhos, no desenho animado X-Men: the animated series, e no filme X2, de 2003. Na verdade, no desenho animado, Kurt fez com que Wolverine acabasse refletindo sobre a fé religiosa e deu-lhe uma Bíblia. Logan aparece, então, em uma Igreja, fazendo a leitura do livro de Isaías (12: 1, 2): "Graças te dou, Senhor, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira desapareceu, e tu me consolas. Em ti confiarei, e não terei medo".
E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.
Isaías 12:1-2
E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.
Isaías 12:1-2
E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.
Isaías 12:1-2
Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. nele confiarei, e não temerei
Isaías 12:2
Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. nele confiarei, e não temerei
Isaías 12:2
Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. nele confiarei, e não temerei
Isaías 12:2


Ao lado [10], Logan diz ao Nightcrawler: "Você é padre. Me absolva". Wolverine não é católico, e Kurt não é padre, mas ele estava tão perturbado com suas atitudes recentes que buscou perdão através de seu velho amigo.

Wolverine é um personagem misterioso, e é difícil determinar algo sobre sua religião. Em tempos foi ateísta, que inclusive se identificava como tal. Mas em certas ocasiões, teve experiências que o levaram a acreditar em fenômenos "metafísicos" e "imateriais", como Deus e o Céu. Também apareceu em cerimônias budistas, ou rezando em templos xintoístas, o que é explicado pelo longo tempo que passou no Japão estudando artes marciais. Logan nunca foi retratado como um religioso devoto, mas já buscou ajuda de seu amigo Kurt Wagner, e parece, baseado em suas experiências, ter mais motivos para acreditar em Deus do que praticamente qualquer outro personagem da Marvel.

 6. Outros super-heróis

Outros super-heróis notáveis que são religiosos são, por exemplo, o Captain America, Green Lantern, Daredevil e Hellboy. Steve Rogers é evangélico, e em Ultimates 2 #2 revelou-se que ele vai à Igreja todos os domingos. Hal Jordan, o mais conhecido dos lanternas-verdes, é um dos personagens mais religiosos da DC, e as evidências sugerem que ele é católico, apesar de haver quem diga que ele é judeu. Apareceu em edições publicadas indo se confessar, ou pensando sobre quanto tempo que não o fazia. Anung Un Rama foi abandonado em uma Igreja, e criado pelo professor Trevor Bruttenholm. Permaneceu um católico devoto mesmo depois de adulto, e sempre carrega consigo um rosário. Matt Murdock também é católico, e no filme de 2003 foi retratado como tal explicitamente.

O lado religioso desses super-heróis costuma ser um segredo, e no cinema, onde são mais populares, há pouca atenção, ou nenhuma, dedicada a explorar sua fé. Por isso considero interessante notar que esse lado de fato existe, e que mesmo em alguns casos, em que poderia haver ou em que realmente houve resistência, os autores preservaram essas características. Não imagino que a religião venha a ser explorada em séries animadas recentes, ou mesmo nos próximos filmes, e me pergunto o que aconteceria se neo-ateus, muitos dos quais devem apreciar comic books, fariam diante dessas referências que normalmente são desconhecidas. Talvez começassem um protesto pelo fim de referências religiosas em quadrinhos, afinal, muito provavelmente, os Estados do Universo Marvel e do Universo DC são laicos. Gostaria de fazer algumas outras suposições, mas temo que elas acabem como profecias.


Lista de quadrinhos:
  1. "I Flew With Superman!", publicado em Superman Annual #9, DC Comics: New York City (1983), pág. 7; escrito por Curt Swan, Cary Bates e Elliot S! Maggin; arte por Curt Swan.
  2.  Superman for all Seasons, parte 1: Spring, pág. 41; escrito por Jeph Loeb; arte por Tim Sale.
  3. "We're Back!", originalmente apresentado em Superman (volume 2) #151 (Dezembro 1999), pág. 15; escrito por Jeph Loeb, desenhado por Mike McKone, colorido por Marlo Alquiza; reimpresso em Superman: The Daily Planet (DC Comics: New York, 2006), pág. 185).
  4. The Amazing Spider-Man volume 2, issue #46, pág. 8; escrito por J. Michael Straczynski com  arte de John Romita Jr. e Scott Hanna.
  5. Spider-Man: Blue #1, Marvel Entertainment Group: New York City (Julho 2002), pág. 20; escrito por Jeph Loeb, ilustrado por Tim Sale; reimpresso em Spider-Man: Blue hardcover collection (2003). 
  6. The Ultimates 2 #3, Marvel Entertainment Group: New York (2005); reimpresso em The Ultimates 2 Volume 1: Gods and Monsters (2005); escrito por Mark Millar, desenho de Bryan Hitch; colorarido por Paul Neary; pág. 17.
  7. Idem, pág. 19.
  8. Superman/Batman #18, "Absolute Power" parte 5: "Thy Will Be Done . . .", pág. 21; escrito por Jeph Loeb, desenho por Carlos Pacheco, colorido por Jesus Merino; reimpresso em Superman/Batman: Absolute Power hardcover collection, DC Comics: New York City (2005) .
  9. Batman: Dark Detective #2, pág. 14; reimpresso em Batman: Dark Detective trade paperback (DC Comics, 2006), pág. 40; escrito por Steve Englehart, desenho por Marshall Rogers, colorido por Terry Austin.
  10. Wolverine, volume 3 #6, pág. 18. escrito por Greg Rucka. Desenho por Darick Robertson. Colorido por Tom Palmer. Reimpresso em Wolverine: The Brotherhood trade paperback, Marvel Entertainment Group: New York (2003).
Referências e recomendações:
  1. Jesus is not my superhero
  2. Religion of comic book characters 
  3. The religion of Superman
  4. The religion of Lois Lane
  5. The religion of Lex Luthor
  6. The religion of Spider-Man
  7. The religion of the Hulk 
  8. The religion of Wolverine 
  9. The religion of Captain America 
  10. The religion of the Green Lantern II 
  11. The religion of Hellboy 
  12. The religion of Daredevil

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