15 de abril de 2012

Coleção de loucuras

Minha próxima longa postagem será, se tudo correr bem, sobre as acusações feitas por neo-ateus de que Deus é um monstro moral. Estarei utilizando como principal referência o livro de Paul Copan, Is God a Moral Monster?: making sense of the Old Testament God, e não imagino como a postagem possa ficar pequena, porque há muitos tópicos importantes que merecem ser analisados.

Já essa postagem que publico agora pretende lidar com uma questão relacionada ao Antigo Testamento, mas não considerando apenas as Escrituras, nem apenas o Antigo Testamento. O que quero fazer é considerar a frequente acusação dirigida à Igreja nos últimos séculos de que seu legado resume-se à tentativa de manipular as pessoas para seu próprio benefício. Gostaria, então, de considerar a hipótese da Igreja manipuladora à luz da ideia de que Deus é um monstro moral.

Em primeiro lugar, cabe considerar que quando neo-ateus dizem que Deus no Antigo Testamento é diferente de Deus no Evangelho, como se não fossem o mesmo, eles não estão apenas  manifestando uma compreensão falha sobre o primeiro, mas igualmente falha sobre o segundo. Esse problema foi abordado por Chesterton no capítulo "Os Enigmas do Evangelho", em O Homem Eterno. C. S. Lewis também se manifestou, posteriormente, de forma parecida em seu Cristianismo puro e simples. Vejamos, então, o que eles têm a dizer.

Chesterton começa explicando a dificuldade de considerar o Novo Testamento como um Novo Testamento: "Não é nada fácil entender a boa-nova como nova. Tanto para o bem como para o mal, a familiaridade nos enche de pressupostos e associações" (pág. 197), e continua (pág. 198):
Existe uma dificuldade psicológica em sentir o Novo Testamento como novo. Existe uma dificuldade psicológica em ver aquelas palavras tão conhecidas do jeito que elas são, sem ir além do que elas intrinsecamente representam. E essa dificuldade deve ser de fato muito grande, pois seu resultado é muito curioso. O resultado é que a maior parte dos críticos modernos e da crítica atual, até mesmo da crítica popular, tece um comentário que é exatamente o inverso da verdade. É tão completamente o inverso da verdade que quase se poderia suspeitar que esses críticos simplesmente nunca leram o Novo Testamento.

Todos nós ouvimos gente repetindo centenas de vezes, pois eles nunca se cansam de dizê-lo, que o Jesus do Novo Testamento é de fato alguém sumamente misericordioso e bondoso, que ama a humanidade, mas que a Igreja ocultou esse caráter humano em seus repelentes dogmas e o sufocou com seu terrorismo eclesiástico até Jesus assumir um caráter desumano. Atrevo-me a repetir que isso é quase exatamente o inverso da verdade. A verdade é que é a imagem de Cristo nas Igrejas que aparece quase inteiramente suave e misericordiosa. É a imagem de Cristo dos evangelhos que mostra também muitos outros aspectos. A figura dos evangelhos de fato expressa com palavras de beleza que quase parte o coração a sua compaixão por nossos corações partidos. Contudo, essa não é de modo algum a única espécie de palavras proferidas por ele.
De fato, a ideia comum que mesmo os ateus têm sobre Jesus se deve ao esforço da Igreja de levar às pessoas o Cristo misericordioso, mas, como Chesterton argumenta, se fosse possível ler os Evangelhos sem a influência de qualquer ideia pré-concebida de Jesus, descobrir-se-ia algo que vai além do Jesus "manso e humilde" que inevitavelmente vem à nossa imaginação quando olhamos para as doces representações daquele que estende suas mãos em nosso socorro. Com isso não se quer dizer que Jesus não é misericordioso, manso e humilde. O que se quer dizer é que ele é mais que isso, e curiosamente muitas pessoas não o enxergam além desses aspectos.

É possível dizer que, em parte, isso acontece pela dificuldade que algumas pessoas têm em conciliar o amor e a misericórdia com a ira e a correção - a justiça. Essa é uma dificuldade notável para o mundo moderno, que não consegue ver que uma mãe que protege o filho das ameaças do mundo e o corrige de forma severa faz as duas coisas movida por amor. Seria extremamente fácil explicar para uma pessoa sensata que uma mãe grita de maneira furiosa com seu filho que fez algo muito ruim não porque o odeia, mas porque o ama demais para não se manifestar diante do seu erro. Segundo o ditado popular, "quem cala consente", e é exatamente por esse motivo que as mães nunca ficam quietas. O problema, no entanto, é que muita gente não é sensata, e a única maneira de explicar pra essas pessoas o amor verdadeiro é recorrendo a ilustrações sutis que só representam partes desse amor.

Por isso, quando Deus aparece severo nas Escrituras, há um choque para o qual a única solução é o bom senso. É preciso entender que a justiça não é oposta à misericórdia, e que a correção não é oposta ao amor. Deus, assim como as mães, ama suas criaturas, e por isso age de maneiras que escapam por um momento à compreensão, porque o amor também possui a dolorosa característica de ser incompreensível. Com isso não quero apenas sugerir que Deus "age de formas misteriosas", mas que mesmo suas atitudes duras e difíceis não podem ser ponderadas sem que esse amor seja levado em conta.

A Igreja teve sucesso na difícil tarefa de mostrar a todos que Deus realmente ama o mundo: o ponto marcante de sua vida entre os homens foi sua Paixão. E o mundo só se convenceu porque é perfeitamente possível conciliar amor e justiça; mas aos ouvidos contemporâneos as duas palavras soam absurdas quando tentamos uni-las e tomá-las como complementares. No fim das contas, é difícil não admirar a sagacidade de Chesterton ao notar que a impressão que se tem é de que os críticos do Novo Testamento nunca leram o que estão criticando.

A verdade é que apenas os cristãos têm o direito de não pensar em Jesus como um sujeito maluco ou muito problemático. O povo do primeiro século se escandalizou porque realmente havia motivo para escândalo, e os não cristãos do século XXI só não se escandalizam porque  não sabem ao certo quem foi esse homem. Negam sua divindade e o aceitam como grande guia moral - assim como naturalmente aceitam Jeff Bridges como grande ator -, mas na prática isso é infinitamente mais absurdo que aceitar Oscar Niemeyer como grande arquiteto.

Entre os que dizem que Jesus fora um grande homem sem levar em conta esses aspectos "controversos" está Richard Dawkins, que disse ao The Guardian (http://christianpost.com/news/atheist-richard-dawkins-jesus-was-too-intelligent-to-believe-in-god/) que "Jesus foi um grande mestre moral". Para essa afirmação, Lewis oferece uma resposta direta (Cristianismo puro e simples, pág. 29*):
Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático - no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido - ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.
Agora, deixando o Novo Testamento, considerarei a questão que propus inicialmente. Depois de deixar claro - não por essa argumentação, mas pelo fato auto evidente - que Jesus é tido pela humanidade como uma figura tão carismática quanto um filhote de urso polar, espero evitar a acusação de que a Igreja, em sua história, falou mais sobre juízo final do que falou sobre a redenção pela cruz, ou seja, a ideia de que enfatizou mais o inferno do que enfatizou a misericórdia de Deus. A tese de que a Igreja usou o inferno para amedrontar os cristãos é sempre mais irônica quando defendida por um ateu. Porque o sr. Hitchens pensava que o inferno era um conceito muito cruel, achou interessante negá-lo, mas o mais interessante é ver um ateu negando às outras pessoas o direito de fazer a mesma coisa. Por que o arqueiro ou camponês da Idade Média não podia negar o inferno e viver sua vida livre de preocupações desse tipo?

A resposta é que eles podiam, e se não o fizeram, foi porque é realmente imbecil negar uma ideia por ela não parecer agradável. E esse é exatamente o tipo de problema que um ateu está levantando ao dizer que não pode existir um Deus que faz as coisas descritas no Antigo Testamento. O entendimento dos ateus sobre essas coisas e como elas realmente devem ser entendidas eu discutirei em minha postagem sobre o livro de Copan, mas aqui é necessário dizer que se o objetivo da Igreja foi, durante dois mil anos, manipular as pessoas, fossem seus motivos perversos ou simplesmente esquisitos, então só podemos dizer que ela foi realmente muito imbecil.

Quando um ateu diz que ler a Bíblia é um risco para a fé cristã ele não está imaginando São Tomás debruçado sobre as Escrituras, analisando se a antiga lei era boa ou não, postulando objeções que os próprios ateus não teriam pensado, e depois respondendo-as em detalhes. Isso certamente eles não imaginam, apesar de ser algo que realmente aconteceu. E aconteceu sem que o santo tivesse duvidado de que Jesus e Iahweh fossem o mesmo Deus. Ora, quando um ateu olha para o Antigo Testamento e percebe algo muito difícil de aceitar, e por isso conclui que trata-se de uma mentira, ele está fazendo algo muito diferente de usar sua razão ou bom senso: ele está explicitamente dizendo que a informação deve ser falsa porque seria muito terrível se fosse verdadeira, o que equivale a negar os relatos sobre alguma guerra particular por causa do número de soldados mortos nas batalhas.

E aqui vem o ponto importante: se, por exemplo, após o fim do nazismo, os alemães tivessem algum interesse em negar o holocausto, eles certamente se apressariam em acabar com qualquer fonte de informação remotamente ligada ao assunto, e talvez lutassem exaustivamente para calar qualquer voz que ainda pudesse dizer algo comprometedor. Por que, então, a Igreja, cujo alegado interesse era manipular as pessoas, não se livrou de qualquer tipo de Escritura que pudesse ser um desafio aparentemente insuperável para a veracidade do que ela mesma estava afirmando? Não só ela não se livrou de partes inconvenientes da Escritura, como foi preservando ao longo dos séculos cada detalhe que ali se encontrava, chegando ao extremo de levar às mãos dos fiéis o livro que ela usou e continua usando para manipulá-los: ela deu à sua vítima a arma com que a ameaçava, e ainda virou as costas e esperou pelo tiro de vingança.

Só podemos dizer que a única explicação possível para esse cenário, caso seja verdadeiro, é uma imbecilidade de proporções que superam a doença mental. E tanto a Igreja como o povo precisariam compartilhar essa imbecilidade. Eu consigo imaginar como essa hipótese possa parecer razoável, especialmente para os neo-ateus, que pensam que os religiosos, sejam eles leigos ou clérigos, são imbecis nessas proporções assustadoras. Mas a verdade é que, considerando a história da humanidade e todo o conjunto de homens envolvidos com essa história, de Santo Agostinho à Dante, à Mendel, o imbecil deixa de ser o religioso e passa a ser aquele que sustenta, mesmo que sem ter pensado bem sobre o assunto, essa hipótese indescritivelmente bizarra.

Para a Igreja de fato teria sido muito mais fácil esconder qualquer informação que parece inconveniente, mas a Igreja está preocupada com a verdade, seja essa verdade atraente ou incômoda. Alguns ateus parecem pensar que é uma atitude madura negar algo baseado no quão conveniente isso é, mas a Igreja nunca esteve preocupada com o que lhe é meramente conveniente, e sim com o que é verdadeiro; nunca com o que lhe seria meramente benéfico, mas, acima de tudo e em todos os tempos, com o que é certo. O fato de que passagens difíceis de serem aceitas pelas pessoas estão na Bíblia dificilmente pode ser usado como argumento contra o cristianismo, mas, se formos levar em conta detalhes como os analisados nessa postagem, talvez seja justo dizer que esse fato pode ser usado como argumento a favor da Igreja.


Notas:
  1. *Cristianismo puro e simples, Martins Fontes, versão e-book
  2. Is Yahweh a moral monster? http://epsociety.org/library/printable/45.pdf

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