24 de abril de 2012

Inquisição Espanhola para leigos

Ninguém espera a Inquisição Espanhola
Há dois dias ouvi sobre um livro chamado The Irrational Atheist: Dissecting the Unholy Trinity of Dawkins, Harris, And Hitchens, de Theodore Beale, que é uma resposta às alegações neo-ateístas de Dawkins, Harris e Hitchens. Fui à página do livro na Amazon (The Irrational Atheist), e notei um grande número de reviews negativos. Quase cheguei a considerar isso uma evidência de que o livro não fosse bom, mas quando li os reviews comecei a perceber um padrão de discurso neo-ateísta comum em reviews de livros que pretendem responder autores neo-ateus - em que se acusa o autor de cometer diversas falácias e não dominar os tópicos que aborda.

Isso pode ser percebido na página do livro What's So Great About Christianity, de Dinesh D'Souza, ou na página de Reasonable Faith, de William Lane Craig - para citar apenas os mais populares. E ainda que eu não concorde com alguns pontos de D'Souza, seu livro é uma boa leitura e a filosofia oferecida, mesmo não sendo particularmente sofisticada, está muito à frente da filosofia oferecida por Richard Dawkins, que, para ser justo, simplesmente não é filosofia. Mas, apesar disso, a página do livro The God Delusion conta com nada menos que, até o momento, 958 reviews de cinco estrelas (o máximo possível), uma porcentagem que excede assustadoramente o número de reviews de uma estrela (em mais de 300%) - diferente do que acontece nos livros teístas.

Isso não surpreenderá os teístas familiarizados com debates acadêmicos entre cristãos e neo-ateus, como o protagonizado por Christopher Hitchens e William Lane Craig, ou por Dinesh D'Souza e John Loftus. Porque nesses debates os teístas se saíram, mesmo segundo outros ateístas, muito melhores e mais convincentes, o que não impediu que vários ateus alardeassem a superioridade de Hitchens - e se o leitor quiser exemplos, caso pense que estou atacando um espantalho, basta pedir -, ou que, no caso de Dawkins e Craig no painel de discussão no México, repetissem ataques sobre a fraqueza intelectual de Craig face ao brilhantismo do biólogo britânico - o mesmo que disse que não saber o nome dos livros da Bíblia torna as pessoas menos cristãs, e depois, quando perguntado se poderia dizer o título completo de A Origem das Espécies e responder que sim, não fez nada além de gaguejar.


Mas o melhor exemplo de quão curiosos e não confiáveis podem ser os reviews nas páginas da Amazon vem do caso do livro de Thomas E. Woods, How the Catholic Church Build Western Civilization. Há um usuário que acusa o autor de estar recebendo dinheiro do Vaticano para fazer propaganda positiva da Igreja Católica - de certa forma, uma acusação que também já caiu sobre meus próprios ombros (http://www.caosdinamico.com/2011/09/cinismo-extraterrestre.html), e que temo não ser rara. Outro acusa Woods de falar do bom e esquecer-se do ruim, e então cita o caso Galileu para justificar o ruim. Mas há um capítulo dedicado especialmente ao caso Galileu e à relação da Igreja com a Ciência desde a Idade Média no livro. O que deixa claro que alguns usuários não se deram ao trabalho de sequer ler o livro - algo que também já foi relatado nesse blog, exatamente na postagem sobre Igreja e Ciência, em que um rapaz condena o livro após ter lido sua contracapa (http://www.caosdinamico.com/2011/02/cristianismo-e-ciencia.html).

O que eu quero dizer com tudo isso é que, apesar de importantes, os reviews de uma obra não podem ser mais estimados que a obra em si, e por isso os reviews negativos do livro de Beale não representam um argumento contra ele - e, é válido ressaltar, também há vários reviews favoráveis ao livro. Obviamente, ainda não tive tempo de lê-lo inteiro, mas pude ler o subcapítulo dedicado à Inquisição espanhola, e o que pude observar é que a principal referência usada é o livro de Henry Kamen, considerado a maior autoridade nesse tópico. Portanto, a visão exposta por Beale está, ao menos nesse caso, de acordo com estudos acurados sobre o assunto, e não pode ser acusada de enganosa ou meramente propagandística pelos neo-ateus. Ademais, já que parece estar na moda associar qualquer referência a uma autoridade com a falácia do apelo à autoridade, vou ressaltar que o respeito por Kamen é fruto da sua pesquisa, e não da sua pessoa: ninguém está dizendo que alguma coisa ou fato são verdadeiros por terem sido apresentados por esse autor. (O livro A Inquisição em seu mundo, de Bernardino Gonzaga, contém várias citações da obra de Kamen, e é a melhor referência para aqueles que buscam algo em português).

Em The Irrational Atheist, algumas comparações oferecidas pelo seu autor me pareceram realmente úteis mesmo para aqueles que costumam tratar a Inquisição como algo parecido com o Holocausto, ou por aqueles que a tratam como uma instituição carente de motivos para existir e criada para converter qualquer não cristão ao catolicismo. Vejamos algumas considerações de Beale (The Irrational Atheist, pág. 214):
Em Deus, um delírio, Richard Dawkins se recusa visivelmente a detalhar o que ele descreve como os "horrores" da Inquisição Espanhola. Christopher Hitchens e Daniel Dennet evitam discuti-la completamente. Apenas o palhaço da Razão, Sam Harris, é suficientemente tolo para engolir a velha Lenda Negra, sem nenhuma dúvida, enquanto tenta retratar todas as inquisições como um dos dois "episódios mais negros na história da fé" [1].

Não houve uma inquisição histórica, mas quatro, a Medieval, a Espanhola, a Portuguesa, e a Romana [2]. Dessas quatro, a Inquisição Espanhola é a mais comumente referida pelos críticos devido à sua notória intensidade. Ela é, portanto, a que vale a pena examinar em detalhes para determinar o quão negro esse episódio da história da fé realmente foi e como se parece com os três episódios aos quais Harris implicitamente a compara: o Holodomor, o Grande Salto Adiante, e o Holocausto.
Ele então explica (pág. 215) a história que começa em 9 de junho do ano 721, com a Batalha de Tolosa, e continua com a reação liderada por reis cristãos em resposta à expansão islâmica sobre a Península Ibérica que acontecia já há um século. Nos 760 anos seguintes, as conquistas dos Omíadas foram revertidas, e culminaram no fim da Reconquista, em 1492:
A Inquisição Espanhola, que começa em 1481, não pode ser entendida sem que se reconheça a relevância da épica disputa de 771 anos entre cristãos e muçulmanos sobre a Península Ibérica. O que o grande general berbere Tariq ibn Zayid conquistou em apenas oito anos para o Califado Omíada, levou mais de cem vezes esse tempo para ser recuperado, e nem o Rei Fernando II de Aragão nem sua esposa, Rainha Isabel de Castela, estavam dispostos a arriscar qualquer possibilidade de repetir a grande diligência.
A Rainha estava particularmente preocupada com os conversos, cristãos que fingiam ter se convertido do judaísmo, mas ainda praticavam sua primeira religião. A preocupação vem do seguinte: se eles estavam mentindo sobre suas conversões, então seria razoável assumir que eles também estavam mentindo sobre sua lealdade à Coroa, e era amplamente temido que os judeus estivessem encorajando líderes islâmicos a recuperar o Al-Andalus - nome dado pelos islâmicos à Península Ibérica -, já que seus antecessores haviam encorajado a invasão original oito séculos antes [3].

Os monarcas espanhóis pediram que o Papa Sisto IV criasse uma ramificação da Inquisição Romana, que reportaria à Coroa Espanhola. Sisto IV negou o pedido, mas após as ameaças de Fernando II, ele emitiu, ainda que relutante, a bula Exigit Sinceras Devotiones Affectus em 1 de novembro de 1478. Em 27 de setembro de 1480 os dois primeiros inquisidores, Miguel de Morillo e Juan de San Martín, foram nomeados. Em 6 de fevereiro de 1481 seis falsos cristãos foram acusados, investigados, condenados e mortos no primeiro auto da fé da Inquisição Espanhola (The Irrational Atheist, pág. 216):
O que aconteceu entre novembro de 1478 e setembro de 1480 para motivar essa repentina tomada de decisão? Enquanto alguns historiadores como Henry Kamen se mostram perplexos em relação ao que poderia ter provocado a Coroa Espanhola, o impulso mais provável é que em 28 de julho, três meses antes da decisão de Fernando de apontar os dois inquisidores, um batalhão liderado por Gedik Ahmed Pasha atacou a cidade aragonesa de Otranto. Otranto caiu em 11 de agosto e mais de metade das 20.000 pessoas da cidade foi massacrada durante o saqueamento da cidade. O arcebispo foi morto na catedral, o comandante da guarnição foi serrado ao meio ainda vivo, assim como um bispo chamado Stephen Pendinelli. Mas o evento mais infame ocorreu quando foi dada aos homens capturados de Otranto a chance de converter-se ao Islã ou morrer; 800 deles manteram sua fé cristã e foram decapitados en masse em um lugar conhecido como o Monte dos Mártires.
Os turcos então atacaram as cidades de Vieste, Lecce, Taranto, e Brindisi, e destruíram o grande Mostero di San Nicholas di Casole. Beale destaca (págs. 217-19):
É uma das maiores ironias da história que três vezes mais pessoas morreram no esquecido evento que quase certamente inspirou a Inquisição Espanhola em relação às que morreram nas chamas da própria inquisição. Apesar de sua reputação de uma das mais perversas e letais instituições da história da humanidade, a Inquisição Espanhola foi uma das mais humanas e decentes de seu tempo, e poderia-se argumentar que fora a mais razoável, considerando as circunstâncias. De fato, há poucas instituições históricas que foram tão mal entendidas, como os três seguintes fatos deveriam esclarecer:
1. A Inquisição Espanhola não tentou converter ninguém ao cristianismo. Não possuia nenhuma autoridade sobre judeus professos, muçulmanos, ou ateístas; sua única missão era distinguir cristãos genuínos daqueles que fingiam ser cristãos e estavam, na verdade, praticando outra religião;
2. Os inquisidores não eram psicóticos idiotas como os retratados por Dostoiévisk e Edgar Allan Poe. Eles eram normalmente clérigos ao menos parcialmente educados das ordens monásticas mais eruditas que seguiam estritamente as regras e procedimentos, que foram as mais humanas da época;
3. A tortura era raramente usada [4], e apenas quando havia evidências substanciais de que o acusado estava mentindo. A tortura podia apenas ser usada por quinze minutos [5], e não podia causar a perda da vida ou de membros, nem derramamento de sangue; apesar de que houve excessos ocasionais, a principal razão pela qual nós sabemos deles é porque os responsáveis por cometê-los eram mantidos em conta pelas autoridades da Igreja.
Beale ainda comenta que surpreenderá aqueles que acreditam que milhões foram mortos na Inquisição Espanhola que durante os séculos XVI e XVII, menos de três pessoas foram sentenciadas à morte por ano em todo o Império Espanhol, que ia da Espanha à Sicília e Peru [6]. Considerando que em 345 anos menos de 1% dos 125.000 julgamentos da Inquisição Espanhola resultaram em execuções pela autoridade secular, Beale observa que o terrível tribunal foi, em base anual, quatorze vezes menos letal que bicicletas infantis [7]. Fiz uma versão em português do quadro fornecido por Beale, que é bastante prático visualmente.

The Irrational Atheist, pág. 219. Ver segunda nota completa no original.
Tenhamos em mente, em adição a tudo isso, que apenas no Terror Vermelho da Guerra Civil Espanhola, em 1936, foram mortos 6832 clérigos [8], mais de o dobro da Inquisição Espanhola, que durou mais de trezentos anos. Ressaltarei, também, que ninguém está dizendo que os crimes ateístas foram cometidos em nome do ateísmo: essa controvérsia não ganhará espaço nessa postagem, e o que está sendo afirmado é apenas o fato óbvio de que tais crimes foram cometidos por ateus. Também não será discutido o termo utilizado por Beale para se referir aos nazistas - teístas pagãos -, já que o debate seria simplesmente irrelevante ao propósito da postagem. Se o leitor estiver interessado em considerações sobre o "Hitler católico", recomendo a postagem "Supostamente", mas isso é o máximo que posso fazer no momento.

Para quem está familiarizado com o tema da Inquisição e a abordagem de Kamen, a  análise de Beale da Inquisição Espanhola não nos revela nenhuma novidade - com exceção da informação sobre os acidentes causados por bicicletas -, mas oferece detalhes que podem ser úteis para a melhor compreensão do contexto e de como os danos causados, se analisados em comparação a episódios anticatólicos ou antirreligiosos em geral, foram praticamente insignificantes. Se os neo-ateus ousarem culpar um cristão pela Inquisição ainda que este nunca tenha passado perto de uma fogueira, essa postagem será útil de duas maneiras: não só o cristão poderá argumentar sobre o quão absurda é a tentativa de responsabilizá-lo por algo que ele sequer viveu, como também poderá aproveitar e mostrar ao acusador que a Inquisição foi uma instituição tão dramática quanto o risco de se machucar na infância. E já que Theodore Beale não é católico, podemos perguntar, ainda, quanto ele deve estar recebendo do Vaticano por fazer propaganda a favor da Igreja... Certo?


Notas do autor:
  1. Sam Harris, The End of Faith, pág. 79. O outro sendo o Holocausto. Harris está aceitando uma falsa visão das inquisições criada por propagandístas protestantes do século XVI e moldado por romancistas do século XIX. Não há evidência que indique que as formas de tortura descritas por Harris foram realmente usadas pela Inquisição Espanhola, e o mais divertido, um dos três métodos que realmente foram usados pelos inquisidores, a toca, é praticamente idêntico ao uso do "afogamento simulado" que Sam Harris defende. "Eu sou uma das poucas pessoas que eu conheço que argumentou que a tortura pode ser uma necessidade ética na nossa guerra ao terror". Harris, Sam. "In Defense of Torture". The Huffington Post, 17 Outubro 2005.
  2. A Inquisição Romana ainda existe; o atual Grande Inquisidor é Vossa Eminência William Joseph Levada, um cardeal de Long Beach, California. Mas ele não atende por "Grande Inquisidor", seu verdadeiro título é Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
  3. "Continua um fato que os judeus, seja diretamente ou através de seus correligionários na África, encorajaram os maometanos a conquistar a Espanha... As cidades conquistadas de Córdoba, Málaga, Granada, Sevilha e Toledo foram colocadas sob controle de habitantes judeus, que foram armados pelos árabes". The Jewish Encyclopedia (1906). Vol. XI, pág. 485.
  4. Henry Kamen, The Spanish Inquisition, pág. 189. A maioria dos crimes não era considerada séria o suficiente para justificar a tortura. A incidência da tortura variava dependendo do tribunal, com as taxas mais baixas em Valência, em que metade de 1% daqueles investigados foi torturada; a maior taxa conhecida era de Sevilha, onde 11% sofreram o tratamento.
  5. "De acordo com o professor Agostino Borromeo, historiador do Catolicismo na Universidade Sapienza, em Roma, e curador do volume de 783 páginas realizado ontem, apenas 1% das 125.000 pessoas investigadas pelos tribunais da Igreja como hereges suspeitos fora executados... O que a Igreja iniciou como um processo estritamente regulado saiu de controle quando outros corpos foram envolvidos". Arie, Sophie. "Historians Say Inquisition Wasn't That Bad". The Guardian, 16 Junho 2004.
  6. Kamen, Henry, The Spanish Inquisition: A Historical Revision. New Haven: Yale University Press, 1997, pág. 203.
  7. "Em 2002, 130 crianças de 14 anos ou menos morreram em acidentes de bicicleta. A taxa de dano mortal de bicicletas em crianças de 14 anos ou menos diminuiu 70% de 1987 para 2002". Facts About Injuries To Children Riding Bicycles. Safe Kids Worldwide.
  8. Julio de la Cueva, "Religious Persecution, Anticlerical Tradition and Revolution: On Atrocities against the Clergy during the Spanish Civil War", Journal of Contemporary History, 3 (1998): págs. 355-369.

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