27 de abril de 2012

O bom ateu

Ateus ameaçam civilização cristã
Estava assistindo a um vídeo de um vlogger ateísta em que ele comentava a "intolerância ao ateístmo". Basicamente, ele mostrava comentários de religiosos a uma matéria do Yahoo! Brasil OMG! sobre pessoas famosas que são ateístas (Eles não acreditam em Deus!). Como é possível imaginar, muitos religiosos falaram muita bobagem - fato que não surpreenderá ninguém -; mas entre essas bobagens, estava a ideia de que ateus não podem ser uma influência positiva para os outros, ou que eles não podem fazer nada de bom.

Eu dediquei uma série de cinco postagens a ateístas brasileiros, em que tentei mostrar o que havia de errado com as ideias que eles expunham sobre religião. Mas isso não significa que eu pense que nada do que eles falam ou fazem seja digno de respeito. De fato, os religiosos não devem estar comprometidos com nenhum tipo de visão que diz que os ateus são ruins pelo simples fato de serem ateus. A nossa experiência nos diz que as pessoas podem ser boas sendo ateístas, ou cristãs, ou espíritas. Elas também podem ser ruins sendo essas mesmas coisas.

A bondade, a maldade, o altruísmo, a inveja, tudo isso está no ser humano. Inclusive o entendimento de que tudo isso está no ser humano costumava, creio eu, estar no ser humano, mas o século XXI tem produzido suas peculiaridades no sentido da incoerência: de um lado, com pessoas dizendo que a mera falta de religião é a causa de nossos maiores problemas; do outro, com pessoas dizendo que a mera presença de religião é a causa de nossos maiores problemas. Qualquer pessoa sensata descartará as duas explicações sem hesitar, e se o cristão acredita realmente que Deus fez todos os homens à sua imagem e semelhança, poderá esperar, sem se surpreender, que entre os ateus, budistas, cosmólogos, jogadores de baseball e escaladores de montanha existem pessoas que resplandecem essa imagem do Criador.

A maioria das pessoas é perfeitamente capaz de entender isso, e a verdade é que elas entendem isso muito bem. Dizer que os ateus não são capazes de sentimentos como a compaixão equivale a dizer que os apreciadores da música erudita não são capazes da humildade. Qualquer pessoa que tenha refletido sobre o fato necessário de que todos os ateus são seres humanos deixará de lado qualquer ideia espetacular sobre como eles são agentes do demônio. Caso o cristão paranoico produzido em igrejas que funcionam como bancos reais tenha se esquecido, devemos lembrá-lo que o próprio demônio acredita em Deus.

Quando vi uma campanha em redes sociais dizendo que "religião não define caráter", apenas uma pergunta veio à minha cabeça: quem, na história da humanidade, disse o contrário? Algum ateu poderia dizer com muita justiça que eu não conheço seu vizinho, que realmente disse tal coisa, mas eu responderia que dificilmente esse vizinho influenciou o pensamento de seus próprios colegas, quanto menos o pensamento global. Quando nos voltamos para os pensadores realmente influentes, não notamos nenhuma afirmação que limita a bondade aos religiosos, ainda mais se considerarmos que muitas batalhas religiosas em favor da moral foram travadas contra outras religiões.

Ninguém na história do mundo pensou que a mera religiosidade fazia um homem perfeito em sua vida moral, e especialmente o cristianismo fez exatamente o contrário: ele afirmou que nenhum homem é perfeito nesse sentido. Não me lembro de nenhuma passagem do Evangelho em que Jesus repreendia algum ateu, se é que havia algum à sua volta; mas lembro de várias em que ele repreendeu os mais religiosos entre os que o rodeavam. Portanto, se os ateus querem dar eco a essas campanhas sem sentido, não vejo nenhum problema particular com isso, mas as considero tão importantes quanto as campanhas em favor do vegetarianismo. E o que quero dizer com isso é que elas serão ignoradas pela grande maioria das pessoas.

Nenhum cristão sensato irá ignorar o trabalho de Stephen Hawking pelo mero fato de ele não crer em Deus. O mesmo poderia ser dito de Carl Sagan. Ele pode ter se enganado sobre o que realmente aconteceu com Hipátia, mas não menos do que John Lennox se enganou sobre Galileu. Os protestantes têm preconceitos sobre a Igreja Católica como os católicos têm preconceitos sobre o protestantismo, o que de nenhuma forma é um argumento contra essas pessoas. Elas possuem preconceitos exatamente porque são pessoas, e não seria justo condenar os ateístas por possuírem os preconceitos que todos nós já possuímos ou que ainda repetimos nesse exato momento. Não é isso que devemos fazer se quisermos um dia tê-los ao nosso lado. São Tomás de Aquino disse que para converter uma pessoa, devemos pegá-la pela mão e guiá-la; e esse conselho me parece do tipo que deve ser tomado com muita consideração.

De qualquer forma, dizer que os ateus podem ser tão bons, tão talentosos ou tão cruéis quanto os religiosos é tão necessário quanto dizer que os homens nascem com apenas um nariz. Muitas das pessoas mais inteligentes e encantadoras do nosso século são ateístas, o que de modo algum é um argumento contra a religião. Não é um argumento contra nada, ou melhor, não é um argumento. Neil deGrasse Tyson é agnóstico*, e não se pode negar que sua paixão pela ciência faz a ciência parecer apaixonante. Richard Feynman era ateu, e não se pode negar que sua canção sobre suco de laranja dava água na boca e vontade de sorrir. Se o que eu digo parece não ter sentido, é exatamente pelo fato de que essas coisas não precisam ser ditas. Não há sentido em dizer que o sr. Oswaldo é uma boa pessoa, apesar de ser ateu, pois é como dizer que o sr. Norberto é bom jogador de bocha, apesar de ser cristão.


Essas são as considerações gerais que eu gostaria de fazer, e agora gostaria de deixar aqui, para que o leitor tome conhecimento, caso ainda não conheça, de alguns ateus brasileiros que eu considero dignos de nota. Eu não concordo com eles em muitas questões: na verdade, diria que discordo deles na maioria das questões, e admito que muitos dos seus discursos são frustrante para mim, mas mantenho que possuem ideias por vezes interessantes, ou um humor agradável, mesmo quando usam isso contra a religião.
  1. Daniel Fraga: Lula, por que não trata seu câncer no SUS? 
  2. Pirulla: Resposta ao vegan Gary Yourofsky
  3. Clarion de Laffalot: Jogo Justo, Steam e a Carta Mágica
Duas de minhas postagens foram dedicadas a responder argumentos do sr. Daniel Fraga (Riqueza e religião; Brasil: terra dos palpiteiros #1), no entanto, ele tem se mostrado importante no promoção do combate às incoerências políticas brasileiras, o que me levou a ignorar seus vídeos antirreligiosos e focar no que é útil de alguma forma. O sr. Clarion é o mais moderado e divertido, especialmente pelo seu personagem que parece baseado em algum pastor ignorante - não o achei ofensivo pelo fato de que muitas das ideias expressas por esse personagem são bastante comuns, apesar de geralmente inconsistentes. Não sei o nome do vlogger do vídeo em resposta a Gary Yourofsky, que é o mesmo que citei no primeiro parágrafo, mas também o achei moderado e sensato, ao menos nos vídeos aos quais assisti.

Enfim, como havia dedicado uma série ao que há de ruim no pensamento ateísta de alguns brasileiros, achei que seria interessante fazer uma postagem para mostrar o que há de bom, e sustentar a ideia principal dessa postagem de que o ateísmo não é imoral - e nem poderia, já que o conceito de ateísmo não tem relação nenhuma com o conceito de moralidade. Não toquei na questão da moral objetiva em nenhum momento porque não pretendia lidar com esse problema nessa postagem, e por ser uma discussão irrelevante ao propósito dela.


Notas:
  1. http://www.youtube.com/watch?v=30ks6lp5Vj8

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