12 de abril de 2012

Pecado Original e poligenismo

Vários pais, um pecado - em DarwinCatholic.

Isso começou como um comentário para o post de Kyle Cupp, em que ele pergunta sobre o Pecado Original à luz do poligenismo; porém, rapidamente ficou claro que eu estava escrevendo demais para que fosse um comentário, e eu já não escrevia um bom post relacionado à evolução e teologia há um tempo, e por isso eu resolvi transformá-lo em uma postagem-resposta.

Apenas para expor brevemente a questão, deixe-me citar a passagem da encíclica de Pio XII Humani Generis, de 1950, em que ele lida com a questão do entendimento da Igreja quanto às origens humanas sob luz da ciência (evolutiva) moderna. Em suma, Pio XII não vê nenhum conflito entre um entendimento católico da humanidade e ciência evolutiva, mas ele aponta uma possível área de conflito:
"Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do Pecado Original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles".
Assim, enquanto Pio XII está bem confortável com a descrição evolutiva da origem humana desde que haja, claramente, um casal ancestral que foi o primeiro infundido por Deus com alma, e que é descrito na Bíblia na história de Adão e Eva, ele expressa sérias preocupações quanto a podermos aceitar a visão da história humana em que nem todos os humanos são descendentes de um único casal ancestral, que caiu e nos transmitiu o Pecado Original. No entanto, como aponta Kyle, a ciência evolutiva moderna (sessenta após a encíclica de Pio XII) sugere quase com certeza que em determinado ponto no tempo houve uma população de humanos da qual a subsequente geração descendeu - nunca houve um efeito de gargalo depois do qual todos humanos subsequentes descenderam de um casal ancestral.

Há ancestrais particulares, e sem dúvida casais de ancestrais particulares, os quais todos os humanos modernos compartilham como ancestrais, "Eva mitocondrial" e "Adão cromossomial-Y", por exemplo, mas nas gerações imediatamente após esses indivíduos existiam muitos humanos que não estavam ligados a eles. Foi apenas depois de dezenas de milhares de anos de mistura genética que chegamos a um ponto em que todos os humanos compartilhavam esses ancestrais particulares. Além disso, há evidências genéticas bastante fortes de que em umas poucas (raras) ocasiões, populações humanas arcaicas em várias partes do mundo cruzaram com a população ancestral humana moderna que se espalhou da África e que todos os humanos compartilham. Assim, aqueles de descendência europeia possuem uma pequena contribuição genética que parece derivada de Neandertais, mas pessoas sem descendência europeia não compartilham essa herança genética. Logo, a mistura com Neandertais claramente ocorreu em um ponto após a origem comum de todos os humanos.

Deixe-me ver se eu posso voltar à questão básica aqui (se nosso entendimento do Pecado Original muda caso aceitemos um entendimento científico de que descendemos não de apenas um único par de humanos originais, e sim de uma população de humanos originais) e analisá-la, porque isso é algo que sempre pareceu muito simples para mim, enquanto muitas pessoas acham algo preocupante. (Se isso significa que eu tenho algum insight sobre a questão, ou que eu sou teologicamente surdo, vocês deverão me dizer. Eu não vejo nenhuma dificuldade onde um Papa recente viu bastante - mas talvez haja algumas áreas em que a passagem do tempo seja útil).

Se eu fosse resumir a doutrina do Pecado Original como a entendo, deixando todas as questões da evolução de lado, eu diria: Pecado Original é uma mácula, um defeito, ou corrupção que marca a alma de todo humano desde a Queda. Nós nascemos com ele, e ele nos inclina a pecar. Todos os humanos (com exceção de Maria) têm nascido com o Pecado Original desde o pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva.

Agora, pensemos sobre a aparente verdade científica de que nunca houve um "primeiro" casal humano (ao menos no sentido biológico) do qual todos os humanos modernos descenderam, mas, em vez disso, que houve uma pequena população de humanos que são ancestrais de todos nós, dos quais alguns descendentes, em umas poucas raras ocasiões subsequentes parecem ter se misturado com alguma população regional arcaica em algum lugar do mundo enquanto se espalhavam.

O que da definição de Pecado Original acima nós precisamos mudar à luz disso? Para pensar sobre isso, gostaria de separar a definição em duas partes:
a) Pecado Original é uma mácula, um defeito, ou corrupção que marca a alma de todo humano desde a Queda. Nós nascemos com ele, e ele nos inclina a pecar. Todos os humanos (com exceção de Maria) têm nascido com o Pecado Original;

b) Desde o pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva.
Primeiro lidemos com a). Me parece que com um entendimento católico da revelação de Deus a nós, nós provavelmente não precisamos ver qualquer problema com a) como resultado de aceitar uma descrição científica da história da humanidade em que nunca houve um único casal original cujos filhos construíram todo o resto da humanidade.

Diante disso, alguém pode perguntar: "Mas se nosso entendimento do Pecado Original vem de pensar que a história de Adão e Eva foi uma descrição basicamente histórica, isso não significa que com Adão e Eva removidos, nós devemos revisar nosso entendimento do que é o Pecado Original, ou se ele sequer existe, afinal?".

Eu penso, no entanto, que se tomarmos uma aproximação católica da Escritura e do ensinamento da Igreja, esse não é o caso. Primeiro, nós entendemos que a Bíblia consiste em um número de gêneros e que eles contêm vários níveis de significado. Eu sugeriria que os capítulos introdutórios do Gênesis pertencem ao gênero de mitologia. Isso não significa (como algumas pessoas parecem dar significado à palavra) que eles são boas histórias para ler para crianças menores de dez anos, mas não essencialmente falsos e não possuem relação com a "realidade". Em vez disso, mitologia é um modo de expressar verdades profundas sobre nós mesmos e sobre o mundo através de uma narrativa que pode não ser historicamente verdadeira. Porém, mitos não são "apenas uma história", e nem são "falsos". Eles simplesmente não pretendem ser verdadeiros do mesmo modo que um livro de História ou uma história de jornal pretendem ser verdadeiros.

Enquanto muitos na história da Igreja podem ter assumido (por falta de qualquer razão pra pensar de outra forma) que a história de Adão e Eva (e outras histórias do Gênesis como a história de Caim e Abel e a história de Noé) fosse historicamente verdadeira, nosso entendimento do que é a Escritura não requer isso. Ademais, como católicos nós acreditamos que Cristo instituiu a Igreja para preservar Seus ensinamentos, e enviou o Espírito Santo para guiar a Igreja e protegê-la de ensinar erros.

Se o Pecado Original fosse apenas uma interpretação teológica que as pessoas ofereceram para explicar certos elementos da história do Gênesis, então eu poderia entender a sugestão de que seria necessário revisá-lo ou abandoná-lo dada a mudança em nosso entendimento do gênero e precisão histórica de partes do Gênesis. No entanto, o Pecado Original é claramente uma doutrina da Igreja que tem sido ensinada com autoridade desde o tempo dos Pais da Igreja. Se nós sequer acreditamos que o Espírito Santo previne a Igreja de ensinar erros, então obviamente nós podemos aceitar a descrição básica da Igreja sobre o Pecado Original como correta - mesmo se de certo modo ela surgiu de tomar uma narrativa mitológica como sendo mais historicamente acurada do que parece agora.

Por causa disso, me parece que tudo contido em a) pode ser tomado como verdadeiro, independentemente de considerarmos a história de Adão e Eva literalmente ou mitologicamente. Agora, quanto a b), parece que temos vários caminhos possíveis em que podemos considerar a história de Adão e Eva como apresentada no Gênesis à luz do que atualmente acreditamos entender sobre a história da espécie humana devido a descobertas na ciência moderna.
1) Podemos sustentar que em certo ponto no passado distante, Deus escolheu um único par de humanos e os fez à sua imagem, infundindo neles almas imortais, racionais e morais. Esses primeiros pais caíram de alguma forma que foi melhor descrita aos escolhidos de Deus através da história do Gênesis. Todos os seus filhos tiveram almas, e em algum ponto cruzaram com o resto da população humana primitiva, com o resultado de que em certo ponto no ainda distante passado todos os humanos tinham "Adão e Eva" como seus ancestrais e possuíam almas.

2) Podemos sustentar que em certo ponto no tempo Deus infundiu toda uma população de humanos com almas, e um casal entre eles foi testado e caiu. Dado esse evento, é possível sustentar: 2.a) como resultado do pecado do casal representativo, todos os humanos foram manchados com o Pecado Original de uma só vez; ou 2.b) apenas os descendentes desse casal caído tinham o Pecado Original, mas através de certa sequência de eventos, todos nós somos descendentes deles. (Me impressiona que isso dá muita margem para um conjunto realmente fascinante de enredos para romances de fantasia).

3) É possível sustentar que eles nunca foram um único casal que passaram por uma queda, mas que história mitológica foi inspirada ou guiada em revelação pelo Espírito Santo para descrever aos israelitas (e eventualmente a nós) a natureza caída da humanidade e a natureza da relação das humanidades com Deus. Nesse modo de pensar, nós basicamente precisamos admitir que, apesar de claramente ter havido uma "queda" em certo ponto após os humanos possuírem almas e terem consciência moral e conhecimento de Deus, e depois da qual a humanidade passou a ter o Pecado Original e tudo que isso implica, nós de fato não temos ideia do que aconteceu, a não ser o que Deus escolheu descrever e os resultados do que houve através da história de Adão e Eva.
À medida que eu tenho uma opinião sobre o assunto, eu poderia me inclinar para 3), mas, honestamente, estou um pouco hesitante para sequer escolher um. Em parte, isso é porque, dada a afirmação de Pio XII sublinhada acima, eu não quero tomar direções que são de qualquer forma incompatíveis com a nossa Igreja, mas mais porque eu realmente não acho que isso faça alguma diferença. O que temos no Gênesis é a história que Deus escolheu colocar (ou permitiu desenvolver, dependendo de como você quer considerá-la) nos escritos sagrados de Seu povo escolhido. Como tal, confio bastante que ela nos diz o que nós precisamos saber sobre nossa natureza e nossa relação com Ele. E considerando que, a essa altura, não há como descobrirmos "o que realmente aconteceu", eu não consigo ver como vale a pena especular muito e pensar profundamente sobre isso. Afinal, o melhor que podemos fazer é construir nossa própria história de "como aconteceu", baseado no que achamos mais provável, e, diferente de Deus, nós não temos o benefício de ter estado lá.

Original em http://darwincatholic.blogspot.com/2011/01/many-parents-one-sin.html: Many Parents, One Sin.
Traduzido por Vinicius Oliveira.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More