4 de abril de 2012

Religião e Super-heróis

Há pouco mais de uma semana vi, novamente, uma ridicularização ateísta que compara o conteúdo da Bíblia com o conteúdo de comic books. "Se a Bíblia prova a existência de Deus, quadrinhos provam a existência do Superman". É provável que a maioria dos cristãos que debatem com neo-ateus já tenha sido confrontada com alguma versão desse "argumento". O vlogger Bernardo Lopes já o defendeu em sua série Acid Atheist, e nas redes sociais imagens com essa mensagem estão sempre sendo compartilhadas.

O leitor poderia pensar, então, que essa postagem seria dedicada apenas a discutir o quão inapropriada é tal comparação, e por quais motivos esse é o caso. Mas, em adição a isso, farei outra coisa. A comparação da Bíblia aos quadrinhos me inspirou a fazer algo um pouco diferente: discutir a religião dos super-heróis. Já há um bom tempo eu estava intrigado em saber, por exemplo, se Bruce Wayne poderia ser cristão, ou se Peter Parker frequentava alguma Igreja. Essa será minha tentativa de explorar, em detalhes, a religião dos super-heróis mais populares, destacando a quais denominações pertencem e o grau de comprometimento que possuem com sua fé.

Super-heróis sempre foram uma grande inspiração moral para crianças, jovens e adultos. Eles reforçam, há várias décadas, uma ideia que a humanidade carrega já há muitos milênios: a ideia de que o bem é melhor que o mal; que qualquer sacrifício para que o bem vença o mal nunca é em vão. De fato, a vida de alguns super-heróis pode ser facilmente resumida ao sacrifício pelo bem de outras pessoas - quase sempre pelo bem de pessoas comuns -, e pelo bem em si mesmo. Eles não são super-heróis simplesmente porque têm superpoderes, mas porque o usam para o bem. Os vilões dos quadrinhos também são poderosos, e só se diferenciam daqueles pelas suas atitudes, que são reflexo de sua vontade: eles escolheram se aliar ao mal.

Quando há poucos anos as adaptações dos quadrinhos para o cinema se tornaram febre, muito das histórias originais foi sacrificado e perdido em nome do sucesso de bilheteria, mas mesmo Hollywood preservou essa característica do mundo que vai de Metrópolis a Temiscira: um bom super-herói sempre estará em guerra com um supervilão. Essa é a essência da história dos comic books desde que Superman estourou nos Estados Unidos.

Originalmente, em grego, herói (hḗrōs) significa "protetor, defensor". E não há maior protetor do que aquele que arrisca ou perde a própria vida para proteger os outros. O mundo ocidental sempre esteve familiarizado com uma história que possui todos esses elementos, e que termina no sacrifício de um para que muitos outros sejam salvos. Com isso não quero começar uma comparação entre Jesus e super-heróis, mas essa história pode ajudar-nos a refletir sobre o motivo de histórias de super-heróis serem tão bem-vindas pelas pessoas, de modo geral.

De fato, é preciso entender que o papel dos super-heróis é muito diferente do papel do Salvador da humanidade. Como disse Daniel Fingeroth, "o papel do super-herói é resgatar o gato de cima da árvore: não é podar a árvore ou disciplinar o gato".

- Curt: "Oh, meu coração! Oh, minha alma". - Superman: "Eu chequei seu coração com minha visão de raio-x, Curt, e ele está bem; mas sua alma não é da minha conta". [1]
Super-heróis, mesmo com seus poderes, não podem fazer com que o mal deixe de existir: podem apenas ajudar para que o mal diminua através de suas atitudes, sejam elas grandes ou pequenas. Eles podem impedir que um homem seja esmagado por um prédio que desmorona, mas não podem impedir que um homem seja vítima de sua própria filosofia esmagadora. Eles podem derrotar todos os supervilões que ameaçam a humanidade, mas não podem livrar a humanidade do mal que ela carrega em si mesma. A ajuda que os super-heróis oferecem às pessoas é como a ajuda que uma pessoa caridosa oferece a um mendigo que ocasionalmente bate à sua porta. Um prato de comida pode livrá-lo de um dia de fome, mas dificilmente o livrará de uma vida inteira de fome. Um super-herói pode livrar uma pessoa de uma morte precoce, mas não pode livrá-la do fato de que a morte chega para todos.

As diferenças entre o Salvador da humanidade e o maior dos super-heróis são extremamente gigantescas, e por isso gostaria de deixar claro que essa postagem não tem a menor pretensão de seguir esse caminho. De qualquer forma, a diferença mais notável entre o Salvador e os super-heróis está, de fato, na existência: super-heróis são alegorias; Cristo é de carne e osso. A Liga da Justiça não está monitorando o que acontece na Terra, mas Deus está. E ela pode até tentar fazer o que é justo, mas somente Deus pode garantir a existência objetiva da justiça. Em outras palavras, sem Deus todo o esforço por justiça que encontramos no mundo real ou nos quadrinhos seria em vão.

O que dizer, então, das acusações feitas por neo-ateus, de que se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que o Superman existe? Gostaria de dizer apenas que comparar a Bíblia com quadrinhos é como confundir o objetivo do jornalismo com o objetivo da ficção. É verdade que muito jornalismo é tão factual quanto as Crônicas de Nárnia - senão menos -, mas é importante notar que quadrinhos não tem a pretensão de relatar um evento histórico. A Bíblia, por outro lado, é um documento destinado exatamente a este fim. Não se acredita nas informações fornecidas pela Bíblia meramente porque são informações fornecidas pela Bíblia, mas porque são informações baseadas na realidade.

Também não acreditamos que o coronel Inácio sofreu um ataque cardíaco meramente porque o jornal disse isso, mas porque o jornal está reportando algo que de fato aconteceu, e que foi testemunhado pelos familiares e amigos do coronel. Até quem não o conhecia testemunhou o ataque, e se porventura encontrarmos o coronel Inácio numa cama de hospital, confiaremos na manchete tanto quanto as testemunhas que viram Jesus sendo crucificado e depois o viram caminhando normalmente confiaram  no fato de que ele havia ressuscitado.

O sr. Bernardo Lopes faz essa comparação inapropriada porque ele assume que a Bíblia não passa de um faz-de-conta, uma invenção, mas podemos garantir a ele que Stan Lee nunca daria a própria vida para provar que Bruce Banner existe de verdade. No entanto, os apóstolos morreram na tentativa de convencer as pessoas de que o filho de Deus havia pisado na terra - e esse tipo de informação não está apenas na Bíblia. Aliás, esse é o único sentido em que se pode dizer que a Bíblia prova que Deus existe: no sentido de que Jesus é Deus. Num sentido puramente filosófico, não há na Bíblia o que há nas vias de São Tomás, e mesmo assim tenho a impressão de que alguns ateus agem como se esse fosse o caso.

A verdade, enfim, é que é fácil dizer qualquer coisa. É fácil dizer que Elvis está vivo: difícil é correr risco de vida e mesmo assim se manter fiel ao que foi dito. Isso, o sr. Bernardo deveria saber, só acontece quando as pessoas estão convictas de que dizem a verdade. Pode-se dizer, é claro, que essas pessoas eram loucas, e a partir desse momento será bastante interessante explicar a loucura repentina de milhões de cristãos: uma loucura que atravessou os séculos e transformou uma crença de poucas pessoas sem importância na crença da Europa em sua totalidade, das pessoas simples aos reis e soldados.

A explicação neo-ateísta mais comum é, na verdade, uma admissão de ignorância que tem a pretensão de ser uma descrição histórica: supõem que as pessoas do primeiro século eram imbecis que estavam dispostos a acreditar na primeira bobagem dita por desconhecidos, independente do fato de essa bobagem contradizer boa parte do que pensavam sobre as coisas e parecer - dessa vez verdadeiramente - uma loucura. Mas isso não é uma descrição do povo do primeiro século: é uma descrição de alguma fábula sobre o primeiro século, de autoria da ignorância do século atual.

Pergunte às pessoas quais eram os costumes e provérbios da Roma Antiga, e quase ninguém saberá o que dizer, e menos ainda terão um exemplo em mente - eu não teria. Pergunte ainda os jovens de hoje sobre as roupas e músicas que animaram as discotecas do século passado, e eles não saberão com precisão o que houve na década de setenta ou de oitenta - eu não saberia. Pergunte, porém, qualquer coisa sobre as pessoas do primeiro século que acreditaram no cristianismo, e ouviremos diversas explicações sobre como acreditavam em bobagens, como eram retrógrados e como eram estúpidos. E muita gente ouve essas coisas pensando que é bem provável que essas pessoas realmente eram assim.

Atrevido seria eu se perguntasse, agora, onde está a verdadeira estupidez. Falando sobre o sacramento do matrimônio, escreve Chesterton (O Homem Eterno, págs. 207-8):
"Talvez não acreditemos em sacramentos, como talvez não acreditemos em espíritos, mas está muito claro que Cristo acreditava nesse sacramento a seu modo e não de acordo com alguma corrente ou maneira contemporânea. Ele com certeza não tomou sua argumentação contra o divórcio da lei mosaica, ou do direito romano, ou dos hábitos da nação palestina. Os críticos de seu tempo teriam exatamente a mesma impressão que têm seus críticos de hoje: de estar diante de um dogma arbitrário e transcendental oriundo do nada, a não ser do próprio Cristo. Não estou absolutamente preocupado em defender esse dogma; o ponto central é que é exatamente tão fácil defendê-lo agora como era então. Trata-se de um ideal completamente fora do tempo, difícil em qualquer época, em nenhum período impossível. Em outras palavras, se alguém disser que se trata do que se pode esperar de um homem perambulando naquela região naquele período, nós com muita justiça responderemos que parece muito mais o que poderia ser o misterioso pronunciamento de um ser além do homem, se ele vivesse entre os homens".
Isso pode começar a tocar em pontos que argumentação neo-ateísta sequer considera ao falar do Cristo enganador que se aproveita da ingenuidade do povo, ou dos apóstolos enganadores que inventam uma história com o mesmo propósito. Depois, ainda morrem para defender a veracidade de sua própria invenção, a ponto de tal martírio ser imitado ainda hoje, às vezes em lugares distantes, às vezes onde eles mesmos pisaram (http://noticias.uol.com.br/pastor-sera-executado-no-ira-por-nao-abandonar-o-cristianismo.htm). Deixando, enfim, o poder de explicação das hipóteses neo-ateístas, passemos para o segundo ponto dessa postagem: a religião dos super-heróis.

1. Superman

 Clark Kent foi criado por pais evangélicos, e durante toda sua longa história nos quadrinhos, seus valores refletem essa criação. Até os quatorze anos, ele ia todos os domingos à Igreja Metodista com sua mãe, Martha. Jonathan também educou Clark com valores cristãos, mas não costumava ir à Igreja. Essas informações não especulativas, mas canônicas, estabelecidas continuamente pela DC Comics. Em Action Comics #850 (Agosto 2007), Metodismo é descrito como a religião em que Clark e sua mãe participavam. Clark deixou de frequentar a Igreja quando sua super-audição, visão raio-x e outros super-sentidos começaram a se desenvolver. Posteriormente, ele explicou a sua esposa, Lois Lane, que deixou de ir à Igreja por saber demais sobre a vida, problemas e mentiras das pessoas, e estar preocupado em perder a fé nelas. Resolveu, então, evitar contato tão íntimo com elas e depositar sua fé "no melhor que a humanidade tem para oferecer" (Action Comics #849, Julho 2007).

Depois de adulto, como mostrado, por exemplo, em Superman: A Man For All Seasons, Clark continuou a visitar e consultar o pastor da Igreja de sua família, mesmo depois de começar sua carreira como Superman. Mas isso não significa que ele passou a frequentar alguma Igreja: isso não aconteceu. Ele ocasionalmente visita sacerdotes de várias denominações, a fim de conselhos, orientação ou confissão. Também foi representado, enquanto adulto, várias vezes rezando.

- Clark: "Pastor Linquist, o senhor tem alguns minutos?". - Pr. Linquist: "Para você, Clark? Sempre. Sempre disposto a passar um tempo com você ou sua família... contanto que você não se importe de eu cuidar de algumas coisas enquanto falamos. O Senhor pode ter dado a nós as ferramentas, mas cabe ao homem o conserto, e deixar Tom Landers encarregado de tudo... bem, você sabe, filho". [2]
Elliot S! Maggin, o principal escritor de histórias do Superman nos anos 70 e 80, disse em uma entrevista, quando perguntado se Superman orava regularmente: "Eu acho que o Superman é muito humilde para pedir coisas em oração, mas acho que ele ora por costume, e constantemente, do mesmo modo que alguns de nós falamos com nós mesmos no banho" (Bruce Bachand, "Interview: Elliot S! Maggin", publicado em Fanzing, edição #9, Agosto 1998).

"O dia em que casei com Superman" [3]
Aparentemente, Clark é flexível quanto às denominações cristãs em que busca ajuda, e já consultou padres em Igrejas Católicas. A esposa de Clark, Lois Lane, é católica, apesar de não haver muitos detalhes sobre o quão religiosa ela é. Clark e Lois se casaram na Igreja, mas não há detalhes sobre a Igreja em que foi realizada a cerimônia.

Quando a irmã de Lucy está grávida, considera a possibilidade de fazer um aborto, mas não quer que Lois descubra, provavelmente por temer que Lois reagisse negativamente e tentasse persuadi-la de alguma forma. A religião desses personagens nunca foi um problema, e os quadrinhos do Superman não sofreram com tabus do tipo que existe atualmente.

Mas o mesmo não pode ser dito sobre a série de TV Smallville, que durante dez temporadas contou a vida do jovem Clark Kent, mas pouco - quase nunca - se referiu à sua criação religiosa. Nem mesmo a religiosidade de sua mãe foi destacada. Por outro lado, ainda em Smallvile, Lex Luthor foi constantemente retratado como como cristão: foi batizado, teve um casamento cristão, e constantemente refere-se explicitamente ao Antigo e Novo Testamento. Isso é estranho: Elliot S! Maggin identifica Lex como um judeu que abandonou a religião. Nos quadrinhos, Lex não faz referências religiosas e nunca manifestou particular respeito por alguma delas, e é reconhecido como um ateísta nietzschiano, que se vê como superior aos outros humanos, e acredita que o próprio destino é governar sobre todas as pessoas.

2. Spider-Man

Apesar de não se saber a qual denominação pertencia, Peter Parker, que agora está morto, foi um cristão protestante tradicional; sua tia May é uma cristã devota. Peter não costumava ir à Igreja, mas, mesmo assim, manifestava claramente, de tempos em tempos, que acreditava em Deus, e seu plano de fundo cristão sempre se manifestou fortemente em seu comportamento e código pessoal de ética.

- Peter: "Hey, Deus? É o Peter de novo". [4]
Várias vezes Peter aparece conversando com Deus. Todas essas características de Peter são reflexo da criação recebida de sua tia, a pessoa mais influente em sua vida. No filme Spider-Man, de 2002, há uma cena em que a tia May está rezando - pouco antes de ser atacada pelo Green Globlin. Em Infinity Crusade #1, Peter é identificado como um dos personagens mais religiosos da Marvel.

Detalhe: Deus abençoe nossa casa. [5]
O terceiro filme, de 2007, mostra Eddie Brock entrando em uma Igreja Católica, onde pede a Deus que o ajude a se vingar de Peter. Nos quadrinhos, Eddie se torna o Venom forma diferente. De fato, ele estava em uma Igreja: não atrás de vingança, mas de perdão. Brock estava pensando em suicídio, mas não o cometeu por tratar-se de um pecado mortal - o próprio Brock explica isso ao Spider-Man. Ele foi atacado pela simbiose na Igreja de Nossa Senhora dos Santos, e a partir daí tornou-se Venom. No filme, Brock queria vingança porque ter perdido o novo emprego. Nos quadrinhos, por sua esposa tê-lo abandonado após sua demissão. E quanto à esposa de Peter, Mary Jane, sabe-se apenas que ela também é cristã, mas não se sabe a qual denominação pertence.

3. Hulk

O dr. Bruce Banner, especialmente no Ultimate Marvel Universe, foi apresentado como católico não praticante; teve, inclusive, uma edição de The Ultimates 2 dedicada quase que exclusivamente a expor esse lado do cientista que se transforma num monstro verde com potencial para ser herói ou vilão - ou, em alguns casos, uma espécie exótica de vândalo. Em The Ultimates 2 #3, Banner seria executado por ordem do governo federal porque o Hulk matou 852 pessoas em Nova York. A cena abaixo é de minutos antes do horário da execução.

- Iron Man: "Dormindo como um bebê, Nick. É difícil acreditar que isso está acontecendo. Ele parece um saco de ossos jogado aí. A sensação é obscena". - Nick Fury: "Tony, já passamos por isso milhões de vezes. Banner assassinou mais de oitocentos inocentes...". - Iron Man: "Eu sei, eu sei. E as pessoas perguntam por que eu bebo". [6]
Iron Man se dirige ao corpo de Bruce para deixar com ele seu crucifixo. Após a explosão de uma bomba no navio em que se encontra seu corpo, segue-se o seu funeral, que acontece em uma Igreja Católica, escolhida por ele mesmo. Captain America lê, então, uma mensagem deixada por Bruce (The Ultimates 2 #3, págs. 18-19):
Meus caros amigos. Eu sei que cientistas sérios não deveriam acreditar no conceito de pós vida. Não há provas, afinal. Não há dados empíricos que suportem nada além do aqui-e-agora, e ainda assim aqui estou eu falando a vocês de além do próprio túmulo. O que isso sugere? O que isso diz a vocês?
Para mim, é a ilustração perfeita de que o mundo é um lugar muito mais complexo do que mesmo a mente mais brilhante entre nós poderia imaginar.
Minha própria, bastante privada fé vem desde meu sétimo verão e nossas férias anuais com meus primos em Chesapeake Bay. Meu tio era um fotógrafo da vida selvagem e com paciência nutriu meus primeiros interesses por plantas e animais. Me lembro de uma pequena lagarta de que cuidamos com carinho durante aquele longo e quente mês de Julho - uma pequenina geometridae com que brincávamos e para a qual demos um nome infantil. Ficamos com o coração muito partido quando ela parecia ter morrido, quando ela se enrolou apertada em um casulo de seda e não se moveu por dias. Eu chorei demais, mas meu tio explicou que nada morre verdadeiramente. Estava apenas acontecendo uma mudança, como o gelo se torna água, e a água se torna vapor, e ele estava certo, sabe?!
Em questão de dias, uma borboleta partiu aquele pequeno e duro casulo e saiu em busca de algo muito mais interessante que Bruce Banner e seus primos estridentes.
Portanto, não chorem por mim agora, meus amigos,  porque a ciência insiste em dizer que eu não morri. A energia simplesmente sempre muda de condição e eu me recuso a acreditar que a consciência humana seja a única exceção para essa lei universal.
"Portanto, não chorem por mim agora, meus amigos,  porque a ciência insiste em dizer que eu não morri. A energia simplesmente sempre muda de condição e eu me recuso a acreditar que a consciência humana seja a única exceção para essa lei universal". [7]
A fé privada de Bruce pode ser explicada por sua marcante timidez. Ele era tímido até com a sua própria esposa, Betty Ross. Na série principal de Hulk, ele também é retratado como católico não praticante. Betty, por sua vez, é católica devota, e quando pensou que Bruce havia morrido, entrou em um convento com o objetivo de tornar-se uma freira. Deixou o convento quando descobriu que Bruce estava vivo. Os dois se casaram na Igreja.

4. Batman

O pai de Bruce Wayne pertencia à Igreja Episcopal, enquanto a mãe, a chave de sua criação religiosa, pertencia à Igreja Católica. Wayne, enquanto adulto, não pratica nenhuma das duas religiões. Em ocasiões raras, Batman se identifica genericamente como ateísta ou cristão, o que pode indicar que suas crenças pessoais e relação com Deus muda com o passar dos anos, com as diversas experiências, como é o caso de muitas pessoas.

Batman visita o túmulo de seus pais, Martha e Thomas. [8]
O personagem utiliza expressões e faz referências cristãs em certos momentos, mas isso é devido apenas à sua criação. Wayne já apareceu rezando, mas isso é certamente algo raro em sua vida. Em uma cena que isso acontece, ele recorda a promessa que fez de vingar a morte de seus pais.

"Eu juro pelos espíritos de meus pais vingar a morte deles passando o resto de minha vida perseguindo todos os criminosos" [9]
Em diversas ocasiões, mostra-se o túmulo do Batman, seja quando ele fingiu sua morte (The Dark Knight Returns #4, 1986), ou quando Robin (Tim Drake) viaja ao futuro (Teen Titans #18, 2004). Em todos esses casos há uma cruz em seu túmulo - o mesmo não pode ser observado em outras lápides que aparecem no cemitério, nem mesmo no caso de Selina Kyle, sua provável futura esposa.

5. X-Men

Algo bastante claro sobre os X-Men, é que trata-se de um grupo de mutantes que constantemente sofre preconceito pelas suas diferenças, por serem considerados anormais. Os personagens possuem diferentes poderes, diferentes filosofias e diferentes modos de lidar com as situações cotidianas ou extraordinárias. Possuem, também, diferentes religiões e manifestam diferentes graus de religiosidade (ver lista em http://www.adherents.com/lit/comics/comic_collage.html). Toda a variedade étnica, religiosa, etc., reforçam a ideia de conviver com as diferenças, que é algo fundamental na história desses mutantes.

Henry McCoy, "The Beast", é um cientista apaixonado pelo conhecimento, e que também tem um lado espiritual expresso em diversas ocasiões. Ele pertence à Igreja Episcopal, e possui uma crença forte e clara em Deus. Jean Grey, pertence à mesma Igreja, e seu irmão fora, inclusive, um sacerdote - ela também é apresentada, em Infity Crusades #1 com um dos personagens mais religiosos da Marvel. Scott Summers, "Cyclops", é evangélico, e teve com Jean um casamento cristão tradicional, mas ao ar livre.

Piotr Rasputin, "Colossus" foi criado como um ateu comunista na União Soviética. Kitty Pryde, "Shadowcat", é judia, e usa um colar com a Estrela de Davi. Magneto também é judeu, e apareceu, inclusive, como prisioneiro num campo de concentração nazista. Isso aconteceu nos quadrinhos e no filme de 2000. O professor Xavier também foi retratado, durante todos os anos, como uma pessoa que crê em Deus e na vida após a morte, mas nenhum detalhe sobre alguma possível denominação foi revelado.

Kurt Wagner, "Nightcrawler", é um católico devoto. Seu fervor religioso foi apresentado nos quadrinhos, no desenho animado X-Men: the animated series, e no filme X2, de 2003. Na verdade, no desenho animado, Kurt fez com que Wolverine acabasse refletindo sobre a fé religiosa e deu-lhe uma Bíblia. Logan aparece, então, em uma Igreja, fazendo a leitura do livro de Isaías (12: 1, 2): "Graças te dou, Senhor, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira desapareceu, e tu me consolas. Em ti confiarei, e não terei medo".
E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.
Isaías 12:1-2
E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.
Isaías 12:1-2
E dirás naquele dia: Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas.

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o SENHOR DEUS é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.
Isaías 12:1-2
Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. nele confiarei, e não temerei
Isaías 12:2
Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. nele confiarei, e não temerei
Isaías 12:2
Graças te dou, ó SENHOR, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas. nele confiarei, e não temerei
Isaías 12:2


Ao lado [10], Logan diz ao Nightcrawler: "Você é padre. Me absolva". Wolverine não é católico, e Kurt não é padre, mas ele estava tão perturbado com suas atitudes recentes que buscou perdão através de seu velho amigo.

Wolverine é um personagem misterioso, e é difícil determinar algo sobre sua religião. Em tempos foi ateísta, que inclusive se identificava como tal. Mas em certas ocasiões, teve experiências que o levaram a acreditar em fenômenos "metafísicos" e "imateriais", como Deus e o Céu. Também apareceu em cerimônias budistas, ou rezando em templos xintoístas, o que é explicado pelo longo tempo que passou no Japão estudando artes marciais. Logan nunca foi retratado como um religioso devoto, mas já buscou ajuda de seu amigo Kurt Wagner, e parece, baseado em suas experiências, ter mais motivos para acreditar em Deus do que praticamente qualquer outro personagem da Marvel.

 6. Outros super-heróis

Outros super-heróis notáveis que são religiosos são, por exemplo, o Captain America, Green Lantern, Daredevil e Hellboy. Steve Rogers é evangélico, e em Ultimates 2 #2 revelou-se que ele vai à Igreja todos os domingos. Hal Jordan, o mais conhecido dos lanternas-verdes, é um dos personagens mais religiosos da DC, e as evidências sugerem que ele é católico, apesar de haver quem diga que ele é judeu. Apareceu em edições publicadas indo se confessar, ou pensando sobre quanto tempo que não o fazia. Anung Un Rama foi abandonado em uma Igreja, e criado pelo professor Trevor Bruttenholm. Permaneceu um católico devoto mesmo depois de adulto, e sempre carrega consigo um rosário. Matt Murdock também é católico, e no filme de 2003 foi retratado como tal explicitamente.

O lado religioso desses super-heróis costuma ser um segredo, e no cinema, onde são mais populares, há pouca atenção, ou nenhuma, dedicada a explorar sua fé. Por isso considero interessante notar que esse lado de fato existe, e que mesmo em alguns casos, em que poderia haver ou em que realmente houve resistência, os autores preservaram essas características. Não imagino que a religião venha a ser explorada em séries animadas recentes, ou mesmo nos próximos filmes, e me pergunto o que aconteceria se neo-ateus, muitos dos quais devem apreciar comic books, fariam diante dessas referências que normalmente são desconhecidas. Talvez começassem um protesto pelo fim de referências religiosas em quadrinhos, afinal, muito provavelmente, os Estados do Universo Marvel e do Universo DC são laicos. Gostaria de fazer algumas outras suposições, mas temo que elas acabem como profecias.


Lista de quadrinhos:
  1. "I Flew With Superman!", publicado em Superman Annual #9, DC Comics: New York City (1983), pág. 7; escrito por Curt Swan, Cary Bates e Elliot S! Maggin; arte por Curt Swan.
  2.  Superman for all Seasons, parte 1: Spring, pág. 41; escrito por Jeph Loeb; arte por Tim Sale.
  3. "We're Back!", originalmente apresentado em Superman (volume 2) #151 (Dezembro 1999), pág. 15; escrito por Jeph Loeb, desenhado por Mike McKone, colorido por Marlo Alquiza; reimpresso em Superman: The Daily Planet (DC Comics: New York, 2006), pág. 185).
  4. The Amazing Spider-Man volume 2, issue #46, pág. 8; escrito por J. Michael Straczynski com  arte de John Romita Jr. e Scott Hanna.
  5. Spider-Man: Blue #1, Marvel Entertainment Group: New York City (Julho 2002), pág. 20; escrito por Jeph Loeb, ilustrado por Tim Sale; reimpresso em Spider-Man: Blue hardcover collection (2003). 
  6. The Ultimates 2 #3, Marvel Entertainment Group: New York (2005); reimpresso em The Ultimates 2 Volume 1: Gods and Monsters (2005); escrito por Mark Millar, desenho de Bryan Hitch; colorarido por Paul Neary; pág. 17.
  7. Idem, pág. 19.
  8. Superman/Batman #18, "Absolute Power" parte 5: "Thy Will Be Done . . .", pág. 21; escrito por Jeph Loeb, desenho por Carlos Pacheco, colorido por Jesus Merino; reimpresso em Superman/Batman: Absolute Power hardcover collection, DC Comics: New York City (2005) .
  9. Batman: Dark Detective #2, pág. 14; reimpresso em Batman: Dark Detective trade paperback (DC Comics, 2006), pág. 40; escrito por Steve Englehart, desenho por Marshall Rogers, colorido por Terry Austin.
  10. Wolverine, volume 3 #6, pág. 18. escrito por Greg Rucka. Desenho por Darick Robertson. Colorido por Tom Palmer. Reimpresso em Wolverine: The Brotherhood trade paperback, Marvel Entertainment Group: New York (2003).
Referências e recomendações:
  1. Jesus is not my superhero
  2. Religion of comic book characters 
  3. The religion of Superman
  4. The religion of Lois Lane
  5. The religion of Lex Luthor
  6. The religion of Spider-Man
  7. The religion of the Hulk 
  8. The religion of Wolverine 
  9. The religion of Captain America 
  10. The religion of the Green Lantern II 
  11. The religion of Hellboy 
  12. The religion of Daredevil

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