8 de maio de 2012

Caridade ATEA

Essa postagem é extensa! Por isso, em nome da praticidade, o leitor pode navegar pelos tópicos abordados, que podem ser lidos aleatoriamente, de acordo com o que lhe for mais conveniente. As Considerações iniciais são breves explicações sobre o motivo e objetivo dessa postagem. Em Conceitos aborda-se o significado da caridade para o cristianismo e como ela se distingue da caridade fora do cristianismo.

O ouro e o alvo trata o problema das riquezas do Vaticano e a visão infantil da ATEA sobre a relação entre dinheiro, pobreza e caridade. A história da caridade trata do papel histórico do cristianismo no desenvolvimento dessa prática - do cristianismo primitivo à fundação dos primeiros hospitais, passando pelas Cruzadas e mosteiros beneditinos, até o Novo Mundo e, finalmente, a América contemporânea -, e Caridade hoje identifica as maiores instituições de caridade atuais e compara a caridade religiosa com a secular.

1 Considerações iniciais
1.1 Conceitos
1.2 O ouro e o alvo
2 A história da caridade
2.1 Caridade hoje


Quando escrevi uma resposta a um vídeo do sr. Yuri Grecco, tentei falar brevemente do problema conhecido como "as riquezas do Vaticano". O que eu disse naquela ocasião foi pouco demais para contar como definitivo, e por isso tentarei colocar um ponto final na questão através dessa postagem, com a qual inicio uma série dedicada à Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que constantemente trás à tona essa polêmica. Aproveitarei o primeiro parágrafo para dizer algo bastante importante: se o leitor tem a menor simpatia pela ATEA, essa postagem será extremamente irritante. Portanto, se alguém possui sequer um pequenino desejo de manter essa simpatia, a leitura deve parar exatamente nesse ponto. Se há o menor interesse de se conhecer a verdade, o ateísta deve ler toda essa postagem. Se achar demasiado cansativo para que valha a pena, devo respeitar sua decisão de se contentar com a mentira.

Não quero, ao dizer essas coisas, parecer arrogante, mas a minha convicção de que a ATEA está extremamente equivocada pode não ser bem recebida por aqueles que pensam que ela está totalmente certa. Essa postagem não é para aqueles que pensam que "a verdade não existe" ou que "tudo depende do ponto de vista". Penso que a verdade realmente existe, e que a ATEA não poderia estar mais distante de possuí-la ou sequer começar a compreendê-la. Se isso soa frustrante demais para alguém, é melhor que isso aconteça agora para que ninguém chegue ao final dessa leitura sufocado pela raiva ou indignação.

Gostaria de deixar claro que tudo que escrevo aqui é, antes de tudo, uma denúncia à hipocrisia: não precisaria recorrer a uma história que tem mais de dois mil anos, nem aos jornais que foram publicados nesse ano para fazê-lo, mas temo que o resultado pareceria vago e inconclusivo sem essas referências. Apresentarei, em primeiro lugar, os conceitos fundamentais à minha argumentação, e com isso já estarei dando início à explicação do problema, para que depois possa desenvolver o tema e, por fim, sugerir uma solução.


Comecemos com o conceito de caridade. Assim C. S. Lewis a define (Cristianismo puro e simples, pág. 59*):
"Caridade" hoje significa simplesmente o que antes se chamava "esmola" - ou seja, o que damos para os pobres. Originalmente, seu significado era muito mais amplo. (Você vai entender por que ela ganhou essa acepção moderna: se uma pessoa é "caridosa", dar esmolas aos pobres é uma das coisas mais óbvias que ela faz, e, assim, as pessoas passaram a dar a esse ato o nome da própria virtude. A mesma coisa aconteceu com a poesia, cuja expressão mais óbvia é a rima. Ora, para a maioria das pessoas, hoje, a "rima" é a própria poesia). A caridade significa "amor no sentido cristão". Mas o amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do sentimento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas.
Para o cristão a caridade não se limita a dar dinheiro ao endividado ou oferecer alimento ao faminto. É levar ao necessitado aquilo que ele precisa: a carência pode realmente ser de alimento ou de roupas quentes, mas pode também ser de amor ou esperança. Se tratarmos a caridade como a ajuda prestada exclusivamente àqueles que não têm dinheiro, estaríamos sendo, como diria Chesterton sobre essa questão, antidemocráticos: "Prova suficiente de que não somos essencialmente democráticos é estarmos sempre imaginando o que fazer pelos pobres. Se fôssemos democráticos, estaríamos imaginando o que os pobres fariam por nós" (G. K. Chesterton, Hereges, pág. 249).

Não quero argumentar, nesse momento, que um abraço e a Boa Nova poderiam trazer de volta a esperança de um homem como um prato de arroz e feijão garantiria a força para que caminhasse mais um dia, mas o cristão realmente acredita nisso, e por isso o cristianismo foi superior ao estoicismo: a ajuda indiferente permitiu ao homem afastar-se, por um momento, da morte; a ajuda cristã permitiu ao homem aproximar-se, definitivamente, da vida eterna. Levou alimento para o corpo e para o espírito, e por isso conseguiu alimentar verdadeiramente a humanidade. Muitos homens que jogam comida fora dizem que "nem só de pão viverá o homem", mas são os que morrem de fome que testemunham essa verdade: são os miseráveis que vivem da palavra de Deus.

Consigo facilmente imaginar tribos africanas dançando e sorrindo como se fossem crianças, ao redor de uma fogueira, por terem conseguido alimento após um dia de caça; também consigo imaginar jovens deprimidos por terem perdido a namorada. Reduzir a aflição ou alegria humanas a questões materiais é uma das coisas mais imbecis que um homem pode fazer: significa o fim dos bons romances das livrarias e do cinema. Ser traído pela esposa ou perder a mãe machuca até os milionários. Os homens normais sabem muito bem que uma pessoa pode ser muito feliz sem nenhum dinheiro: sabem disso tão bem quanto sabem que uma pessoa pode ser infeliz desfilando em carros blindados.

Muitos ricos não têm disposição para sorrir para os desconhecidos na rua. São Francisco sorria até para as árvores, mesmo que vivesse pior que os mendigos - mal vestido e à base de migalhas. É por tudo isso que o cristianismo vai ao encontro dos pobres, e é por isso que o cristianismo vai ao encontro dos ricos. Nem mesmo o moderno hábito de condenar qualquer homem rico como inimigo do povo poderia parar o cristianismo, pois o cristianismo também vai ao encontro do inimigo. O cristianismo vai ao encontro de todos, porque é, como expressou Mário Ferreira dos Santos, a religião do homem. O Papa Bento XVI escreveu (Deus Caritas Est, 28) que a caridade
não oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma - ajuda esta muitas vezes mais necessária que o apoio material. A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria "só de pão" (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) - convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano.
Se essa postagem fosse tratar a caridade nesse sentido amplo que engloba o pão e a esperança, a amizade e o cobertor, pouco progresso seria obtido, pois é exatamente esse sentido que os ateístas desprezam por ser pouco prático para eles. Mas, por outro lado, analisar a caridade cristã como se Deus não existisse torna toda a obra de caridade da Igreja realmente insuficiente, porque a humanidade sozinha não pode salvar-se a si mesma, apesar de que está na moda que o homem tente assumir esse papel. É exatamente por esse motivo que a humanidade está tão deprimida: ela quis salvar o mundo e descobriu que não pode fazê-lo. O homem descobriu que não pode acabar com a pobreza, que não pode acabar com a violência, que não pode acabar com o ódio, que são coisas que a humanidade sempre soube, e que soube também aceitar humildemente.

Mas a motivação contemporânea não é a humildade: é a arrogância. O homem humilde admitiria que é fraco e que precisa de ajuda; o homem de hoje pensa que é realmente o super-homem e que pode fazer tudo sozinho. A objeção que levanta ao homem humilde é essa: que é melhor se esforçar para fazer alguma coisa, ainda quando o objetivo parece impossível, do que sentar e esperar que Deus assuma a carruagem e acabar caindo do abismo após Ele não ter aparecido. Há apenas um problema com essa objeção: é mentira que o homem humilde, que dobra seus joelhos e pede por socorro divino não se mexe e não toma nenhuma atitude; é mentira que esse homem fica parado e espera que Deus faça tudo por ele; é mentira que ele grita para o além e aguarda o milagre, imóvel, insensível, como se não se importasse de verdade.

Essa é a maior mentira ateísta já proclamada na história da humanidade. Se há uma coisa que pode ser dita sobre os cristãos, é que eles sofreram tanto e se doaram com tanto fervor pelos outros que chegaram a ser, por suas próprias mãos e sangue derramado, o verdadeiro milagre. Não esperaram que Deus operasse por fenômenos sobrenaturais: permitiram que Deus operasse em seus corações. Entregaram-se com tanta devoção à causa do Céu, que acabaram transformando a Terra. Enquanto o mundo assistia a miséria alheia com marcante indiferença, o cristianismo acolheu o miserável. Enquanto os ateus de hoje reclamam da pobreza que eles só conhecem através da internet e dos jornais, o cristianismo está tomando, nesse exato momento, os pobres e os doentes em seus braços.

Se o ateísta quer um conceito prático de caridade, pode muito bem ignorar a caridade que o cristianismo faz pela alma, mas não pode ignorar a caridade que ele faz pelo homem que nem parece ter alma, pelo homem que nem parece ter vida. A ajuda cristã prestada aos pobres não é o tipo de ajuda que o sr. William Gates, cuja fortuna é de 61 bilhões de dólares, oferece a algumas instituições de caridade, doando um pouco do seu dinheiro e sendo admirado como o homem mais bondoso do mundo. Não é como a ajuda oferecida pela sra. Angelina Jolie, a atriz mais bem paga de Hollywood, que recebe U$ 30 milhões anualmente, e mais uma quantia para aparecer em belas fotos publicitárias com crianças abandonadas, que chegam a partir o nosso coração. Não estou chamando esse tipo de caridade de alguma coisa ruim, mas quero ressaltar a diferença entre essa prática e a velha prática cristã.

Pois a caridade cristã nunca precisou da mídia para motivá-la, e nunca aconteceu para agradar um grupo de pessoas que pensa que o dinheiro é a solução de todos os problemas do mundo. A caridade cristã existe para socorrer os necessitados, não para aparecer na TV ou ser exibida em outdoors de Nova York. A caridade cristã se preocupou em ser caridosa, em vez de se preocupar em acusar aqueles que não julgamos caridosos, que é o que faz a ATEA. Postar imagens de um trono dourado ao lado de um menino faminto não resolve o problema da fome: na verdade, não faz absolutamente nada pelo problema.

Mas as organizações missionárias e instituições estabelecidas em diferentes partes do mundo pela Igreja tentam amenizar esse problema. Estão nesse exato momento levando comida aos famintos, medicamentos aos doentes e esperança aos desesperados. Não estão doando menos de 1% de suas fortunas para pessoas que não conhecem e que fazem questão de não conhecer: estão tomando os doentes em seus próprios braços e limpando-lhes as feridas como se tivessem nascido para essa difícil tarefa.

E o que a ATEA, que arrecada contribuições de seus filiados tem feito por essas causas que afligem o mundo que para eles parece abandonado por Deus? Acredito que todos nós sabemos a resposta para essa pergunta. Mas não haveria problema se a ATEA simplesmente não fizesse caridade: o problema, mesmo, é a promoção da ideia enganosa de que a Igreja não a faz. Além disso, as propagandas da ATEA revelam uma noção extremamente infantil de como o problema poderia ser solucionado, e são essas questões que explorarei no próximo tópico.


Muitas imagens compartilhadas pela ATEA sugerem que uma solução para a fome no mundo é a venda dos bens da Igreja. É, na verdade, uma ideia muito mais ousada do que parece. Percebe-se aí a tentativa de reforçar uma suposta hipocrisia da Igreja por possuir tais bens. Aqui tentarei abordar o problema como se estivesse falando com uma criança de dez anos, que, como muitos suspeitarão, pode ser a média de idade dos fãs da associação.

A imagem à esquerda é provavelmente a mais popular expressão da ideia de que a Igreja deve vender seus bens para ajudar os pobres. Lemos que "tronos de ouro devem ter um alto valor no mercado". Ora, e se eles têm, de fato, um alto valor de mercado, como isso ajudaria a resolver o problema da fome e da pobreza? Além disso, se tudo se resume a dinheiro, será que a ATEA tem razão em exigir do Vaticano uma solução global?

Não pensem que a ATEA está sozinha nessa cruzada contra o Vaticano. Há, na verdade, uma página no Facebook chamada "Venda o Vaticano, Alimente o Mundo", com quase 20 mil fãs. A iniciativa é da comediante Sarah Silverman, que possui um canal no YouTube chamado "Venda o Vaticano". Seu vídeo que promove a campanha já ultrapassou um milhão de acessos. É possível até comprar camisetas com a mensagem (http://www.zazzle.com.br/sell-the-vatican-feed-the-world).

É surpreendente como uma ideia tão estúpida possa parecer tão atraente, mas vamos considerar que houvesse o mínimo sentido na ideia de vender o Vaticano - que é basicamente a ideia da ATEA, com a diferença de tomar proporções mais absurdas. Em primeiro lugar, para que se venda o Vaticano, seria preciso que houvesse alguém disposto a comprá-lo. Para isso, seria preciso que o dinheiro gasto nessa compra já existisse, já que o objetivo é gerar renda que possa ser utilizada para a compra de alimentos. Se fosse esse o caso, por que tornar privado uma vasta coleção de obras que pertencem ao domínio público, já que bastaria doar diretamente esse dinheiro aos pobres e resolver o maior problema da humanidade? Se a solução parece imbecil, é porque toda a ideia é realmente imbecil. Essa "solução" é tão genial quanto dizer que para acabar com as guerras basta vender todas as armas. Para que precisamos de armas e de exércitos? Acabem com os soldados e destruam as armas e todos os nossos problemas estarão resolvidos. Por que as pessoas tornam complicadas coisas tão simples?

Ainda é possível ressaltar que vender o Vaticano é uma ideia tão inteligente quanto vender a Dinamarca ou a França. A Torre Eiffel deve ter "um alto valor no mercado". Os museus da Europa certamente possuem obras tão valiosas quanto o Trono de Leão XIII. Na verdade, seria muito interessante, para acabar com a fome, vender a Europa. Se isso não for suficiente, podemos pensar em vender a Ásia ou a América. Há tantas obras de arte, Igrejas, ouro, prata e bronze nesses continentes, que parece difícil acreditar que já não tenhamos, em pleno século XXI, vendido todas essas coisas. Essa grande solução pode não ter ganhado força por um motivo bastante óbvio: a maior parte da humanidade é religiosa, e onde há religião a genialidade não dá as caras. Felizmente o neo-ateísmo e sua robustez intelectual tem ganhado espaço a cada dia, e talvez um dia o mundo ouça o que a estupidez religiosa tem sufocado: o brilhantismo do pensamento econômico ateísta, que certamente deixaria Schumpeter orgulhoso.

Queria não ter me prolongado na ironia, mas a diversão foi terrivelmente sedutora. O fato é que parece não passar pela cabeça dessas pessoas que o Trono de Leão XIII não pode ser transformado por magia em alimento. Ele pode ser vendido, mas continuará existindo, continuará com a sua beleza e continuará levantando esses questionamentos infantis. O ouro, esteja ele na Igreja Católica ou escondido em uma caverna, não poderá fazer nada contra a fome. A ATEA ataca a Igreja falando de suas riquezas não porque se trata de uma ideia razoável: ela o faz porque simplesmente quer atacar a Igreja de qualquer forma. Se o dinheiro fosse capaz de salvar a humanidade, bastaria que alguns bilionários doassem apenas parte de suas fortunas em prol dessa causa.

Mas a verdade é que a falta de dinheiro não é o problema; nem sua abundância é a solução. Enquanto mulheres desfilam diamantes e bolsas mais caras que um carro popular, o mundo não se sente incomodado: de fato, estará pronto para fotografá-las e exaltá-las em revistas de moda. As mulheres que denunciam as riquezas do Vaticano não se sentiriam incomodadas em possuir certa riqueza em seus guarda-roupas. Os homens que denunciam as riquezas do Vaticano não se sentiriam incomodados em gastar certa quantia com um carro confortável. Mas para que os carros confortáveis, para que os carros? Para que os diamantes, os vestidos e os sapatos? Para que os computadores, os aparelhos celulares e os videogames? Não deveríamos primeiro pensar em salvar a humanidade dessa miséria que em grande parte é nossa culpa? O dinheiro que gastamos com livros e refrigerantes são gastos  de forma profundamente egoísta. Seria nobre de nossa parte viver sem ficção e Coca-Cola se isso fosse capaz de livrar o mundo das imagens que nos chocam amargamente.

Poderíamos viver sem O Resgate do Soldado Ryan se os milhões investidos nesse filme tivessem sido gastos com o resgate dos famintos. Os U$ 30 milhões de Angelina Jolie seriam mais bem aproveitados se fossem integralmente distribuídos entre os pobres. Os bilhões gastos anualmente na indústria cinematográfica, que rendem outros bilhões e só tem a finalidade de nos entreter, seriam melhor aproveitados se pudessem aliviar a dor dos que realmente necessitam. Todos os donos de Porsches e Ferraris teriam feito muito melhor se, em vez de comprar carros, tivessem doado seu dinheiro a algum hospital quase abandonado. As soluções são tão simples, que só podemos imaginar que a ATEA tem destinado todo o dinheiro que arrecada a instituições espalhadas pelo Brasil, que também sofre muito com a pobreza. Seu presidente, Daniel Sottomaior, deve estar muito mais preocupado em ajudar os necessitados do que em aparecer em debates improdutivos no SuperPop... Certo?

Acredito que o meu ponto esteja claro, mas eu não pararei por aqui. Diria que agora é que realmente começarei, lidando com dados e comparações mais úteis para o propósito da postagem. Ora, não deixa de ser curiosa essa visão de apenas associar ouro à riqueza. Homens bilionários que apenas usam ternos não são comentados e nem incomodam as pessoas, mas essa ou aquela roupa do Papa não pode passar sem uma crítica de um "livre pensador". Vejamos onde as pequenas fortunas estão, e como o Vaticano se sai diante delas. O Vaticano possui um orçamento de funcionamento anual que gira em torno de 200 a 300 milhões de dólares. Shane Johnson observa que esse orçamento não colocaria o Vaticano sequer "entre as 500 maiores instituições sociais. A Universidade de Harvard possui um orçamento de funcionamento anual de pouco mais de U$ 1,3 bilhões, 5 vezes mais que o Vaticano. A Microsoft Corporation conseguiu U$ 297 bilhões em vendas no último ano, 1140 vezes o orçamento do Vaticano" (Shane Johnson, Vatican Wealth, Luminous Mysteries).

"A Fifa terminou 2011 com US$ 1,293 bilhão (R$ 2,4 bilhões) em caixa", segundo o globoesporte.com. Apenas a equipe do Barcelona terá R$ 251 milhões para contratar novos jogadores. Se considerarmos o número de times europeus que investem valores parecidos, e somarmos a isso os gastos anuais dos clubes com salários dos jogadores, publicidade, etc., chegaremos a valores assombrosos. Para quem quiser se atrever com algumas contas, basta checar as referências. Segundo a Exame, "a Ambev (Companhia de Bebidas das Américas) registrou lucro líquido de R$ 2,346 bilhões no primeiro trimestre de 2012". Notem bem: lucro maior que 2 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2012.

O filme Avatar arrecadou, segundo o The Numbers, U$ 2,8 bilhões. Entre os dez filmes de maior bilheteria, todos superaram o valor de U$ 1 bilhão. Enquanto isso, em 2010 o Vaticano chegava ao terceiro ano de déficit orçamentário consecutivo, como informava a Folha. Fico me perguntando se, diante dessas informações, que certamente não contam com 1% das indústrias globais, a ATEA ousaria comparar esses lucros fantásticos com a pobreza africana. O sentido presente nessa hipótese é o mesmo presente nas reais comparações entre a África e o Vaticano; ou seja, não há sentido algum. Poderia citar ainda muitos outros exemplos, mas me prenderei a apenas dois.

Não é segredo para ninguém que os neo-ateus em geral gostam de brincar de representantes da ciência, e a ATEA não é diferente. Porém, se formos adotar essa lógica de vender tudo para alimentar os pobres, o que diríamos, por exemplo, do projeto de Gunther von Hugens, Body Worlds?

Pensem apenas no elefante asiático, Samba: foram gastos nada menos que 2,9 milhões de euros em sua construção. Por que, ao invés de gastar tanto dinheiro com algo que servirá apenas para ser exibido em museus, não destinar essa quantia para ajudar a acabar com o infortúnio alheio? É, sem dúvida, uma obra de arte, que levou mais de sete anos para ser finalizada; mas por quê? A humanidade realmente precisa disso? Bem, se nós podemos nos livrar de belas Catedrais que levaram séculos para ficar prontas, ou de pequenos tronos e estátuas que foram o resultado de décadas de trabalho, nos livrar de Samba e alguns outros animais não parece um grande sacrifício. A exibição Animal Inside Out, do Natural History Museum, está apenas impedindo que crianças famintas tenham de comer. Não seria uma má ideia vendê-lo e vender suas valiosas peças milenares, porque vender coisas é tudo o que precisamos.

A maior ironia, no entanto, vem do álbum Ateus Famosos, em que nota-se a foto de Fidel Castro. Isso é irônico por diversas razões, mas a principal delas é que Fidel, a quem a ATEA deve admirar, possui, segundo a Forbes, uma fortuna de nada menos que U$ 900 milhões, apesar de o povo cubano nunca ter conhecido algo além da miséria e abandono causados pelo próprio governo.


Se a Igreja Católica, a maior instituição de caridade do mundo, é hipócrita por possuir riquezas que, na verdade, são de toda a humanidade, o que dizer de todo esse dinheiro de Fidel, que à custa da pobreza cubana quase tornou-se um bilionário? Bom, talvez esse último exemplo seja inapropriado. Afinal, como disse o próprio Fidel, seu patrimônio equivale à zero.


Nesse ponto começará a ficar ainda mais claro por que associações como a ATEA não têm o menor direito de exigir algo da Igreja Católica ou do cristianismo em geral em termos de caridade. Se o mundo de hoje possui tantas organizações caridosas, sejam elas religiosas ou seculares, devem isso ao cristianismo, e se o cético acha essa afirmação um tanto bizarra ou insustentável, tentarei mostrar porque ela é, na verdade, nada mais que um inegável fato histórico.

Para entendermos a revolução trazida pela caridade cristã, precisamos, antes, entender a caridade pré-cristã. O historiador Alvin J. Schmidt escreve (How Christianity Changed the World**, pos. 2655):
A caridade cristã se diferenciava profundamente daquela dos Greco-Romanos. Os cristãos primitivos praticavam a caritas, em oposição à liberalitas dos Romanos. Caritas significava doar para aliviar a angústia econômica ou física do beneficiário sem que se esperasse nada em retorno, enquanto liberalitas significava doar para satisfazer o beneficiário, que posteriormente concederia um favor ao doador.
Para Thomas Woods, "seria tolice negar  que os grandes filósofos antigos proclamaram nobres sentimentos traduzidos em filantropia; ou que homens de valor fizeram importantes e substanciais contribuições em prol das suas comunidades" (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 160). Mas, como Schmidt, ressalta a diferença entre a caridade praticada então para aquela que nasceria com o cristianismo (idem):
A maior parte dos gestos de generosidade nos tempos antigos envolvia um interesse próprio; não eram puramente gratuitos. Os edifícios financiados pelos ricos exibiam ostensivamente os seus nomes. As doações eram feitas de modo a deixar os beneficiários em dívida para com os doadores [...]. Servir de coração alegre os necessitados e ampará-los sem nenhuma expectativa de recompensa ou reciprocidade não era exatamente o princípio que prevalecia.
"A ativa, habitual, e detalhada caridade de pessoas privadas, que é uma característica notável em todas as sociedades cristãs, era escassamente conhecida na Antiguidade" (W. E. H. Lecky, History of European Morals, pág. 79). Alvin Schmidt descreve o historiador William Lecky como não sendo "nenhum amigo do cristianismo", o que sem dúvida torna suas observações mais impactantes. Ainda em History of European Morals, ele escreve (pág. 83):
Não se pode sustentar nem na prática, nem na teoria, nem nas instituições fundadas, nem no lugar que a ela foi atribuído na escala dos deveres, que a caridade ocupasse na Antiguidade um lugar comparável àquele que atingiu no cristianismo. Quase todo socorro era prestado pelo Estado, muito mais por razões políticas do que por sentimentos de benevolência; e o costume de vender crianças, os inumeráveis enjeitados, a presteza com que os pobres se candidatavam a gladiadores e as frequentes vagas de fome mostram como era grande a extensão dos miseráveis que ficavam esquecidos.
Talvez o que seja ainda mais impressionante é que a própria ideia de ajuda voluntária e benevolente não só não era comum, mas também era mal vista (Alvin J. Schmidt, How Christianity Changed the World, pos. 2687):
A caridade cristã era completamente voluntária. De acordo com a cultura romana daquele tempo, tal comportamento desafiava o senso comum; era considerado sinal de fraqueza e visto com desconfiança. Não havia nada a ser ganho gastando tempo e energia, mesmo que voluntariamente, com pessoas que não podiam contribuir para a bravura romana e para a força do Estado. O predomínio da filosofia estoica também tornou desrespeitoso se associar ao fraco, ao pobre, e ao oprimido. Para os cristãos, no entanto, o indivíduo, independente de seu status social ou econômico, era valioso porque possuía uma alma redimida por Jesus Cristo. Assim, as diferenças entre a caridade cristã e romana em relação à motivação e prática eram profundas.
Como começa a ficar claro, a ajuda prestada no Mundo Antigo era diferente da ajuda cristã em diversos sentidos. A dedicação cristã era o oposto da indiferença estoica. Um cristão não aceitaria a morte de um estranho como Anaxágoras aceitou a morte de seu filho. Mesmo grandes filósofos manifestaram grande indiferença por outros seres humanos. Em A República, Platão diz que aquele que não mais puder trabalhar por causa de uma enfermidade deve ser deixado para morrer. O filósofo romano Plauto (244-184 a.C.) escreveu: "Você faz mal a um mendigo dando-lhe de comer e de beber; você perde o que dá e prolonga a vida dele para mais miséria" (Trinummus 2.338-39).

Tucídides (460-400 a.C.), o grande historiador da Grécia Antiga, relata que durante a praga que assolou Atenas na Guerra do Peloponeso, muitos atenienses doentes e moribundos foram abandonados por seus próprios companheiros, que temiam pegar a praga (Peloponnesian War 2.51). Algo parecido se viu quando os romanos se desesperaram e fugiram de uma praga contagiosa em Alexandria durante o século IV, deixando para trás amigos e familiares. Isso levou Juliano, o Apóstata a lamentar que os cristãos, que ele odiava, mostraram amor e compaixão, enquanto seus compatriotas pagãos não. "Os ímpios galileus [como se referia aos cristãos] socorrem os seu miseráveis e os nossos. É vergonhoso que os nossos devam estar tão desprovidos de nossa assistência" (Epistles of Julian 49).

Como Schmidt conclui, "é necessário apenas lembrar a total falta de compaixão que era tão marcada pelo grande apreço que os espectadores romanos tinham por ver gladiadores sendo espancados ou apunhalados até a morte nas arenas, uma prática que já estava institucionalizada há mais de seis séculos" (Alvin J. Schmidt, How Christianity Changed the World, pos. 2726).

O autor ainda explica que foi em meio a essa cultura insensível e sem compaixão que o cristianismo apareceu, mas, diferente dos pagãos, eles cuidaram dos pobres, doentes e moribundos, muitas vezes arriscando a própria vida no processo. O historiador sir Clifford Allbutt escreve que os cristãos "em meio a diversas e perigosas pestilências não hesitaram em dedicar seus serviços, e muitas vezes as próprias vidas aos doentes" (T. Clifford Allbutt, Greek Medicine in Rome, pág. 402). A atitude dos cristãos para com os pobres e doentes foi uma causa decisiva para o crescimento do cristianismo mesmo com as inúmeras perseguições, como explica Alvin Schmidt (How Christianity Changed the World, pos. 2739):
A cultura greco-romana não via o faminto, o doente, e o moribundo como dignos de assistência humanitária. A dignidade de um ser humano era determinada por circunstâncias externas e acidentais em proporção à posição que ele tinha na comunidade ou estado. Um ser humano só tinha valor como cidadão, mas pouquíssimas pessoas se qualificavam como cidadãs. O fisicamente indisposto, o pobre e as classes inferiores (escravos, artesãos, e outros trabalhadores manuais) por quem os cristãos tinham compaixão, não eram cidadãos aos olhos dos gregos e romanos que eram livres. Não cidadãos eram tidos como inúteis e consequentemente não eram dignos de ajuda quando suas vidas estivessem em risco.
O historiador da medicina Fielding Garrison diz que "o espírito com que se tratava  a doença e o infortúnio não era o de compaixão, e cabe ao cristianismo o crédito pela solicitude em atender o sofrimento humano em larga escala" (Fielding H. Garrison, An Introduction to the History of Medicine, pág. 118), numa referência à instituição de caridade que surgiu no século IV, os hospitais, os quais foram pela Igreja patrocinados. Como John A. Ryan explica ("Charity and Charities", Catholic Encyclopedia):
Pretendiam primeiramente receber estrangeiros, mas logo passaram a tomar cuidado dos doentes, pobres desabrigados, viúvas, crianças abandonadas, e outras classes desamparadas. Em suma, eles desempenhavam as tarefas que atualmente são dividas entre hospitais, asilos e abrigos. Ao final do quarto século eles cresceram rapidamente e no tempo de São Gregório Magno se encontravam em praticamente todas as cidades do Império. Estavam sob a responsabilidade do bispo, e eram mantidos com doações, com as receitas gerais da Igreja e com contribuições especiais dos fiéis.
Foi o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, que determinou que os bispos deveriam estabelecer hospitais em toda cidade que tivesse uma catedral. Esses hospitais não eram o que entendemos por hospital nos dias de hoje. Eram conhecidos como xenodochia (xenos = estranho + dechestai = receber), e apesar de cuidarem dos doentes, também davam abrigo aos pobres e alojamento aos peregrinos cristãos (Roberto Margotta, The Story of Medicine: Man's Struggle Against Disease, pág. 102). No sentido atual, o primeiro hospital foi fundado por São Basílio Magno, por volta do ano 369, na Cesaréia: contava com "um grande número de edifícios, com casas para médicos e enfermeiras, oficinas e escolas industriais" (Fielding H. Garrison, An Introduction to the History of Medicine, pág. 118); e as unidades de reabilitação e oficinas deram àqueles sem habilidades profissionais uma oportunidade de aprender uma profissão enquanto se recuperavam (Alvin J. Schmidt, How Christianity Changed the World, pos. 3318):
Após o primeiro hospital de São Basílio ter sido construído no Oriente, e outro em Edessa no ano 375, Fabiola, uma rica viúva e associada de São Jerônimo, construiu o primeiro hospital no Ocidente, um nosocomium [nosus = doença + komeo = tomar conta de], na cidade de Roma por volta do ano 390. De acordo com Jerônimo, Fabiola doou toda a sua riqueza (que era considerável) para construir esse hospital, para o qual ela trouxe os doentes das ruas de Roma (Letter to Oceanus 5). No ano 398, Fabiola, junto a Pamáquio, fundou outro hospital em Ostia, cerca de cinquenta milhas a sudoeste de Roma. Apesar de que nosocomium se distinguia de xenodochium, essencialmente todos os hospitais eram chamados xenodochia até o século XII, quando "hospitale" se tornou o termo comum.
São João Crisóstomo construiu hospitais em Constantinopla no fim do século IV e começo do século V, e Santo Agostinho foi fundamental para o crescimento dos hospitais no Ocidente. Schmidt escreve que "é importante notar  - e a evidência é bastante decisiva - que esses hospitais cristãos foram as primeiras instituições voluntárias de caridade do mundo [...]. E foram esses hospitais cristãos que revolucionaram o tratamento dos pobres, doentes e moribundos" (idem, pos. 3329). Garrison (An Introduction to the History of Medicine, pág. 118) diz que não há "evidência concreta de nenhuma instituição médica sustentada por contribuições voluntárias antes de chegarmos à era cristã". Assim, no meio do século VI, na maior parte da Cristandade, tanto no Oriente quanto no Ocidente, "hospitais estavam seguramente estabelecidos" (Gask e Todd, "Origin of Hospitals", pág. 130).

No ano 750 o crescimento de hospitais, fosse em unidades separadas ou ligados a monastérios, havia se espalhado da Europa Continental até a Inglaterra. Nessa mesma época um padre chamado Dateo fundou, na cidade de Milão, na Itália, um hospital especializado em cuidar de crianças abandonadas. Mais ou menos quatrocentos anos após os cristãos começarem a construir hospitais, a prática chamou a atenção dos árabes, no século VIII, que, impressionados com o serviço humanitário realizado em hospitais cristãos, começaram a construir hospitais em países islâmicos.

Toda essa comoção cristã dos primeiros séculos em relação aos necessitados, que também continuou durante a Idade Média e existe até hoje torna mais claro o quão sem sentido é a crítica ateísta de que os cristãos apenas pedem a Deus por milagres sem nunca tomar uma atitude. É particularmente irônico quando alguém como o sr. Daniel Fraga diz que quando o cristão está doente ele procura pelos hospitais, como se o cristão tivesse alguma filosofia contra hospitais ou não merecesse a assistência de algo que passou a existir por causa do cristianismo.

Seja como for, seguindo em frente, os mosteiros também desempenharam um papel fundamental para a caridade, tanto após a queda do Império Romano quanto mais tarde, atravessando a Idade Média. Guenter B. Risse escreve (Mending Bodies, Saving Souls, pág. 95):
Após a queda do Império Romano, os mosteiros tornaram-se gradualmente provedores de serviços médicos organizados, dos quais não se dispôs por vários séculos em nenhum lugar da Europa. Dada a sua organização e localização, essas instituições eram virtuais oásis de ordem, piedade e estabilidade, que favoreciam a cura. Para prestar esses cuidados práticos, os mosteiros tornaram-se também lugares de ensino médico entre os séculos V e X, o período clássico da assim chamada medicina monástica. Durante o renascimento carolíngio dos anos 800, os mosteiros também despontaram como principais centros de estudo e transmissão dos antigos textos médicos.
A partir do século IX os mosteiros começaram a assumir o papel que antes ficava a cargo das igrejas paroquiais. No século XV já havia nada menos que 37.000 mosteiros beneditinos que cuidavam de doentes (C. F. V. Smout, Story of the Progress of Medicine, pág. 40). William Lecky escreve que, "com o passar do tempo, a caridade assumiu muitas formas, e todos os mosteiros se tornaram focos dos quais irradiava. Pela ação dos monges, os nobres sentiam-se tocados, os pobres eram protegidos, os doentes atendidos, os viajantes abrigados, os cativos resgatados, as mais remotas esferas do sofrimento penetradas" (W. E. H. Lecky, History of European Morals, pág. 89). A dependência da caridade em relação ao cristianismo ficou mais evidente em ocasiões em que a Igreja foi atacada e as instituições de caridade diminuíram drasticamente. Thomas Woods escreve (Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, págs. 175-6: Michael Davies, For Altar and Throne, pág. 11):
Assim como o ataque da Coroa inglesa aos mosteiros, no século XVI, debilitou a rede de caridade que essas instituições tinham criado, também o ataque da Revolução Francesa à Igreja, no século XVIII, abalou a fonte de tantas boas obras. Quando o governo revolucionário francês nacionalizou as propriedades da Igreja, em novembro de 1789, o arcebispo de Aix-em-Provence advertiu que semelhante roubo ameaçava o bem-estar e a educação do povo francês. Tinha toda a razão: em 1847, a França contava com 47% menos hospitais do que no ano do confisco, e, em 1799, os 50.000 estudantes que estavam matriculados em universidades dez anos antes tinham-se reduzido a 12.500.
Esses números são significativos se considerarmos que, já no século XIV, apenas a Inglaterra, com menos de 4 milhões de habitantes, possuía 600 hospitais; França, Alemanha e Itália possuíam ainda mais, cada (Kenneth Scott Latourette, The Thousand Years of Uncertainty, pág. 162). Os ingleses comumente se referiam aos hospitais como "Casa de Deus" (Rotha Mary Clay, The Medieval Hospitals of England, pág. 32), e a Alemanha possuía, em diversas cidades, pequenos hospitais chamados Domus Sancti Spiritus (Casa do Espírito Santo), dos quais atualmente só há vestígios: a maioria deles foi convertida para outros usos, como um de Nuremberga, que hoje é um restaurante (Alvin J. Schmidt, How Chritianity Changed the World, pos. 3366).

Outros momentos da história da caridade cristã que merecem ser citados ocorreram durante as Cruzadas. Os cruzados não eram assassinos irracionais, sem sentimentos dignos de um ser humano e sem a menor compaixão pelo próximo, como se costuma retratar em livros populares ou mesmo no cinema (Cruzada, 2005; Caça às Bruxas, 2011) e videogames (Assassin's Creed, 2007-11). Apesar de as boas obras dos cruzados serem negligenciadas em boa parte das críticas dirigidas a eles, é importante conhecermos essas obras. Eles fundaram hospitais na Palestina e em outras áreas do Oriente Médio, que acabaram se tornando modelo para o resto da Europa. É interessante notar que esses hospitais não destinavam-se a cuidar exclusivamente de cristãos: recebiam também judeus e mesmo muçulmanos (Mary Risley, House of Healing: The Story of the Hospital, pág. 106). Woods observa (Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, pág. 166):
As ordens militares, fundadas durante as Cruzadas, administravam hospitais por toda a Europa. Uma dessas ordens, a dos Cavaleiros de São João (também conhecidos como hospitalários), germe do que, mais tarde, veio a tornar-se a Ordem de Malta, deixou uma marca particularmente significativa na história dos hospitais europeus, sobretudo pelas inusitadas dimensões do seu edifício em Jerusalém. Fundado em torno de 1080, esse hospital procurou atender os pobres e proporcionar um alojamento seguro aos peregrinos [...]. A extensão das suas operações cresceu significativamente depois de Godofredo de Bulhões, que doou à instituição uma série de propriedades.
Teodorico de Würzburg, um peregrino alemão, depôs sobre o complexo: "Andando pelas dependências do hospital, não conseguíamos de modo algum avaliar o número de pessoas que lá jaziam, pois eram milhares as camas que víamos. Nenhum rei ou tirano teria poder suficiente para manter o grande número de pessoas alimentadas diariamente naquela casa" (citado em Guenter B. Risse, Mending Bodies, Saving Souls, pág. 138). Risse ainda escreve (idem, págs. 141-2):
Não surpreende que, com a nova torrente de peregrinos que chegou ao reino latino de Jerusalém, os seus testemunhos sobre a caridade dos hospitalários de São João se tivessem espalhado rapidamente por toda a Europa, incluída a Inglaterra. A existência de uma ordem religiosa que manifestava com tanto ardor a sua lealdade aos doentes inspirou a criação de uma rede de instituições similares, especialmente nos portos da Itália e do sul da França onde os peregrinos se concentravam para embarcar. Ao mesmo tempo, ex-internados agradecidos, nobres caridosos e monarcas de um canto ou outro da Europa faziam substanciais doações de terras. Em 1131, o Rei Afonso de Aragão legou um terço de seu reino aos hospitalários.
No século XIII os hospitalários administravam cerca de vinte hospitais e casas de leprosos (idem, pág. 149). A Ordem de São Lázaro, fundada no século XII, dedicou-se primariamente à enfermagem: essa ordem se espalhou pela Europa, fundou vários hospitais e tratou pessoas com diversas doenças (Alvin J. Schmidt, How Christianity Changed the World, pos. 3355). Essas informações não são, como alguém poderia reclamar, uma tentativa de romantizar as Cruzadas nem de analisá-las como exigiria um estudo completo sobre o tema: aqui se quer apenas ressaltar partes da história que geralmente são negligenciadas, seja por honesta ignorância ou mera desonestidade.

No Novo Mundo também foi a Igreja que deu os primeiros passos em direção à caridade. Em 1524, Hernán Cortés fundou o Hospital de Jesus Nazareno, que continua operando até hoje (Roberto Margotta, The Story of Medicine: Man's Struggle Against Disease, pág. 102). Em 1541, Juan de Zumárraga estabeleceu um hospital que cuidava dos pobres que sofriam de doenças venéreas; e logo um hospital foi construído para os índios (Charles Lippy, Stafford Poole e Robert Choquette, Christianity Comes to the Americas, pág. 43). Em 1583 todas as principais cidades da arquidiocese do México tinham um hospital, cada uma com um padre que cuidava das almas dos pacientes. E se o leitor estiver interessado em uma discussão sobre a acusação de que a Igreja via os índios como pessoas sem almas, permitindo que fossem, por isso, mal tratados e escravizados, leia nossa postagem Sobre índios, negros e escravos - que inclusive revelará outra forma de caridade: a compra da liberdade de escravos.

Por alguma razão os hospitais não se espalharam com rapidez na América Colonial Britânica, ou mesmo depois de as colônias ganharem sua independência. Um estudo indica que em 1801 havia apenas dois hospitais nos Estados Unidos: um na Filadélfia e outro em Nova York (Charles Rosenberg, The Care of Strangers: The Rise of America's Hospital System, pág. 337). No século XIX eles se tornaram mais populares, especialmente após a Guerra Civil: e foram predominantemente construídos por Igrejas e denominações cristãs, fato que era evidenciado pelos seus nomes. Assim, chamavam-se Baptist Hospital, Lutheran Hospital, Methodist Hospital, St. John's, St. Luke's, St. Mary's, etc.

A Cruz Vermelha Internacional, uma das instituições de caridade mais populares do mundo, foi fundada em 1864, por Jean Henri Dunant, com quatro associados e vinte e quatro representantes de sessenta nações (D. James Kennedy e Jerry Newcombe, What if Jesus Had Never Been Born, pág. 152), e em 1901 foi laureado com o primeiro Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Em 1876 a Turquia adotou a ideia da Cruz Vermelha. Para Kennedy e Newcombe, isso indica que "os muçulmanos acidentalmente reconheceram a força guia por trás de um dos maiores movimentos humanitários na história - Jesus Cristo". Essas são as palavras que Dunant parece ter dito no seu leito de morte (citado em Martin Gumpert, Dunant: The Story of the Red Cross, pág. 300): "Eu sou um discípulo de Cristo como eram no primeiro século, e nada mais".

O fato é que, à medida que o cristianismo se globalizou, a caridade se globalizou com ele, mas, acima de tudo, por causa dele. Os orfanatos, os colégios, as universidades, os hospitais, os asilos, etc. que foram construídos e mantidos pela Igreja; os missionários, as freiras, os monges e os fiéis leigos que ofereceram a vida aos pobres e necessitados; dois mil anos de história e milhões de cristãos que atravessaram o tempo levando esperança aos desesperados, de modo que perseguição alguma conseguiu pará-los. Não é possível falarmos de caridade sem falarmos de cristianismo, e ainda assim há pessoas suficientemente alienígenas para negar esse vínculo ou ignorar essa história que é mais antiga que nosso calendário.

Se essa postagem fosse se preocupar com números, as estatísticas seriam mais exaustivas do que a presente tentativa de explicar a revolução trazida por essa prática cristã. E talvez essa tentativa alcance sucesso caso acabe mostrando ao leitor algo que nem Voltaire, um dos maiores propagandistas anticatólicos dos últimos séculos pode negar: "Talvez não haja nada maior na terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana, cuja vista causa tanta aversão à nossa sensibilidade. Tão generosa caridade tem sido imitada, mas de modo imperfeito, por gente afastada da religião de Roma" (citado em Michael Davies, For Altar and Throne: The Rising in the Vendée, pág. 13).


Quando penso sobre alguém que nega a caridade cristã, não sei o que soa mais surpreendente: o que a nega baseado no passado, ou o que a nega baseado no presente. Cresci em uma pequena cidade de dez mil habitantes, e até hoje essa cidade conta com serviços prestados à comunidade por iniciativa da Igreja: pobres são abrigados, famílias recebem alimentos e crianças são livradas da desnutrição. Não deixa de ser curioso ver pessoas apelarem constantemente à imagem de pobreza da África e se esquecerem de que o problema da pobreza também está no Brasil, pois é universal. Falam de quem está a um oceano de distância e parecem se esquecer de quem está a um ou dois quarteirões.

Mas o que é realmente curioso é que as pessoas que mais parecem indignadas com a pobreza africana são as que menos fazem para combater a pobreza em geral, inclusive a do vizinho. É a Igreja que está socorrendo as pessoas no gigantesco continente africano e na pequenina cidade em que eu nasci. Essa observação é mais poderosa que muitos discursos que parecem basear-se na completa cegueira. De fato, é preciso estar de olhos abertos para que se possa descrever as coisas mais simples sobre a realidade, mas também é preciso estar de olhos abertos para que se possa verificar essas descrições sobre ela. Se as pessoas realmente abrirem os olhos, perceberão que a caridade cristã não pode ser negada nem historicamente e nem geograficamente, pois atravessou os séculos e se propagou por todos os continentes.

"As Obras Sociais Irmã Dulce são consideradas hoje pelo Ministério da Saúde o maior complexo de atendimento 100% gratuito em saúde do Brasil e é responsável pelo maior volume de atendimentos em toda a estrutura do setor na Bahia. Entidade filantrópica de fins não-econômicos, foi fundada em 26 de maio de 1959, por Irmã Dulce", lê-se no G1. Nos Estados Unidos, 750 agências missionárias evangélicas dispensam anualmente 2 bilhões de dólares para caridade (Mark Chaves e Sharon L. Miller, "Financing Parachurch Organizations, em Financing American Religion, pág. 120). Isso, obviamente, não representa sequer 1% das obras de caridade cristãs que são praticadas no século XXI, e se fôssemos botar na balança toda a história do cristianismo, o resultado em seu favor seria simplesmente esmagador.

Alguém poderia perguntar: "Mas se a caridade cristã é baseada na bondade e não na busca de prestígio, qual é exatamente o ponto de escrever um artigo que busca acima de tudo prestigiá-la?". Posso apenas responder que é verdade, a caridade cristã é baseada na bondade, não busca créditos por aquilo que faz aos outros; mas não se pode esquecer que o cristianismo também é uma religião preocupada com a verdade - apesar de que o ateísta provavelmente discordará dessa ideia -, e a partir do momento que algum jovem com certa atitude arrogante diz que o cristianismo não fez e não faz muito pelas pessoas, exigindo que se livre de sua história para ajudar os pobres - que, aliás, no fundo, nem mesmo incomodam o sono desse jovem -, é preciso mostrar os fatos e fazer evaporar sem a menor piedade cada gota de hipocrisia que torna húmido esse discurso.

Se alguém ousa dizer que o cristianismo faz pouca caridade perto do que poderia, só é possível responder dizendo que um jogador como Pelé fez poucos gols perto do que poderia - o que é realmente uma afirmação bizarra para se direcionar a ninguém menos que o maior goleador da história do futebol. As organizações Catholic Charities, Food for the Poor, Catholic Relief, St. Jude's e America's Second Harvest, sozinhas, dispensam quase 6 bilhões de dólares em ajuda. São apenas cinco instituições católicas norte-americanas, que fazem parte de um grupo de centenas de outras organizações católicas e de diferentes denominações dos Estados Unidos, que fazem parte de um grupo de dezenas de milhares de organizações cristãs de todo o mundo.

Assim como a Irmã Dulce foi responsável por obras notáveis no Brasil, a Madre Katharine Drexel foi responsável pela fundação da Sisters of the Blessed Sacrament for Indians and Colored People (Irmãs do Santíssimo Sacramento para Índios e Negros), e em 1925 pela fundação da Xavier University of Louisiana em Nova Orleans, a única universidade católica dos Estados Unidos exclusiva para negros. Quando morreu, em 1955, sua instituição, que passou a chamar-se apenas Sisters of the Blessed Sacrament, comandava 66 escolas em 23 estados. Se uma pessoa com um objetivo determinado - e a ajuda de dezenas de outras pessoas dispostas a atingi-lo - pode fazer algo tão grandioso, é possível imaginar a força que tem o United Way ou o Salvation Army.

Há centenas de colégios e hospitais cristãos na maioria dos países, e a vitória da Uganda sobre a AIDS não seria possível sem o esforço da Igreja Católica e de outras Igrejas evangélicas. Os ateus poderiam aprender muito sobre a caridade cristã cotidiana perguntando a seus avós sobre os franciscanos, vicentinos e dominicanos. Poderiam também pesquisar mais sobre os beneditinos e talvez sobre os cistercienses. Iriam certamente se surpreender se consultassem a história dos Jesuítas, que normalmente são retratados tão injustamente quanto os cruzados. Poderiam aprender muitas coisas, de muitas formas, mas o que realmente precisariam aprender é a identificar a hipocrisia: a hipocrisia que eles normalmente associam às Igrejas, mas que pode ser vista com muita clareza na atitude da ATEA. A tabela abaixo apresenta números do ano 2000, mas presume-se que atualmente esses valores sejam maiores - e obviamente seriam maiores se aí estivessem incluídas todas as organizações cristãs de caridade do mundo.

Global Catholicism: Portrait of a World Church, págs. 17-20, 30-35, 41-43.

Quando determinado estudo aponta que os cristãos fazem mais que o triplo de caridade que pessoas seculares (Ben Gose, "Charity's Political Divide", The Chronicle of Philanthropy), a ATEA, que tanto exige dos outros, dificilmente poderia ser usada para contestar esses dados. Leiam esta mensagem deixada na página da ATEA no Facebook, 4 de maio:
Depois de três anos e meio de muito esforço, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos finalmente chegou a 5 mil membros. Nesse pouco tempo, a entidade alcançou conquistas antes inimagináveis: somos ouvidos em diversas entidades importantes, lançamos inúmeros processos e representações ao Ministério Público com resultados importantes, fizemos cessar orações em diversas escolas públicas, lançamos campanhas de mídia, temos artigos publicados nos editoriais dos melhores jornais do país, nos tornamos referência para a mídia, criamos a página de ateísmo mais popular do facebook em língua portuguesa que trouxe à tona centenas de histórias importantes de preconceito e de superação, além de ser um canal de denúncias... e muito mais.
Quando lemos que a entidade "alcançou conquistas inimagináveis", poderíamos esperar que tivessem criado uma instituição de caridade para atender os pobres de alguma pequena cidade brasileira, ou algo tão ambicioso quanto ultrapassar a caridade praticada pela paróquia da minha cidade natal, que tem menos voluntários que o número de membros da ATEA. Mas, infelizmente, não é o caso: o dinheiro arrecadado é gasto com processos e campanhas de mídia. Nada disso fez do mundo um lugar menos faminto ou menos miserável, e se o leitor achar que o que digo parece muito desonesto, eu o convidaria a visitar a página da ATEA e atentar para o que é compartilhado por lá diariamente sobre a Igreja Católica e sobre o problema da fome e da pobreza, para que então possa reconsiderar onde está a verdadeira desonestidade.

Há uma máxima usada exageradamente por muita gente hoje em dia, que diz que quando não estamos satisfeitos com o trabalho alheio, devemos fazer melhor. Mas seria simplesmente injusto dizer algo parecido para a ATEA, pois a questão aí não que ela faz algo melhor ou pior: é que, na verdade, não faz nada. "Se apenas 20% dos fãs da página se associassem, a entidade já ficaria 5 vezes maior do que é - e realizaria 5 vezes mais: cinco vezes mais casos de preconceito sendo perseguidos, cinco vezes mais advogados para processos importantes como o "deus seja louvado" e o ensino religioso nas escolas públicas, o céu é o limite". Suponho que não haja nada mais nobre do que gastar dinheiro com causas tão úteis para o mundo como a retirada de três palavras da moeda brasileira. Ler "Deus seja louvado" nas notas do Real deve machucar muito mais que o frio, a fome e a doença. Por que não apoiar essa grande causa? Anunciemos em solidariedade à ATEA: "Por um Estado verdadeiramente laico, todos contra a hipocrisia!".


Referências e recomendações:
  1. Cristianismo puro e simples
  2. Hereges
  3. Angelina Jolie e Sarah Parker são as atrizes mais bem pagas dos EUA
  4. Vatican Wealth
  5. Fifa fecha 2011 com lucro de R$ 68 milhões
  6. Barcelona terá R$ 251 milhões para reforçar a equipe
  7. Barcelona lidera lista dos clubes que mais gastam com salários
  8. Corinthians quebra recorde de renda em Brasileiros
  9. John Allen, Jr. at Marquette University
  10. Lucro da Ambev sobe 12,3% no 1º trimestre
  11. Vaticano apresenta déficit orçamentário pelo terceiro ano consecutivo
  12. The Numbers: Movie Records
  13. Fortunes of Kings, Queens and Dictators
  14. Forbes: Fidel Castro
  15. Body Worlds
  16. Animal Inside Out
  17. How Christianity Changed the World 
  18. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (Amazon)
  19. History of European Morals
  20. Under the Influence
  21. Greek Medicine in Rome
  22. An Introdution to the History of Medicine
  23. Charity and Charities
  24. Deus Caritas Est
  25. The History of Medicine
  26. Mending Bodies, Saving Souls
  27. The Thousand Years of Uncertainty
  28. For Altar and Throne
  29. The Medieval Hospitals of England
  30. House of Healing
  31. Christianity Comes to the Americas
  32. The Care of Strangers
  33. Dunant: The Story of the Red Cross
  34. What if Jesus Had Never Been Born
  35. Obras da Irmã Dulce
  36. Financing American Religion
  37. Catholics Come Home
  38. Charity's Political Divide
  39. Global Catholicism
Notas:
  1. *Cristianismo puro e simples, Martins Fontes, versão e-book
  2. **How Christianity Changed the World, Kindle edition. (A abreviação "pos." significa "posição", que na edição Kindle não equivale à paginação tradicional, e é a opção disponível para navegação quando o livro não apresenta número de páginas).

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