16 de maio de 2012

A última morte do cristianismo?

A morte do cristianismo foi provavelmente anunciada pela primeira vez quando Cristo morreu; mas, é claro, num sentido um pouco diferente do que existe no antigo e atual desejo de que ele nunca tivesse existido. Ninguém suspeitava que Cristo fosse ressuscitar, assim como os inimigos do cristianismo nunca suspeitaram que ele fosse durar tanto tempo. Consulte os fóruns de internet, as redes sociais e os livros recém-publicados sobre religião, e você provavelmente encontrará alguém profetizando o fim do cristianismo, a crença que, segundo notáveis cientistas, sociólogos e jornalistas, será superada em poucas décadas.

Muitos morreram esperando que o cristianismo tivesse um fim, e coube sempre às futuras gerações o dever de preservar esse anseio. Mas o que é realmente surpreendente é que quanto mais avançamos no tempo, mais o cristianismo se renova, e em cada época que se levanta um exército anticristão, outros cem exércitos cruzados aparecem prontos para a guerra. Para muitos cristãos, o crescimento do ódio e desprezo ao cristianismo pode representar um risco de desespero, mas a verdade é que, se isso representa mesmo um risco, trata-se do risco de descobrirmos a verdade. Foi dito que, "pelo menos três ou quatro vezes na história da cristandade, toda alma parecia ter abandonado o cristianismo, e quase todos do fundo do coração esperavam o fim dele" [1], e eu acredito que isso esteja correto, e acredito que esse sentimento esteja vivo no coração de milhões de pessoas nesse exato momento.

Os soldados que desejam explodir a última torre cristã já estão armados e marchando rumo a ela. O que eles não sabem agora, como também não sabiam antes, é que o cristianismo não é preservado em uma torre em cujo topo se exibe uma bandeira: o cristianismo é preservado na alma dos homens, e por isso só poderá  ser perdido de vista quando não sobrar um único homem na Terra para observá-lo. O cristianismo sobreviveu a tantas investidas inimigas e ataques mortais que se tem a impressão de que Deus realmente estava com ele para protegê-lo das armadilhas do mundo, e aqui está a oportunidade de que falo: Chesterton disse que o cristianismo "morreu muitas vezes e tornou a ressuscitar, pois tinha um Deus que sabia como sair da tumba" [2], e o que realmente nos interessa é saber se ele morrerá definitivamente ou se permanecerá vivo até que a peça chegue ao fim.

Toda a esperança do cristão gira em torno das promessas do próprio Cristo, e foi ele quem prometeu que nem o inferno prevaleceria contra a Igreja. Se o inimigo do cristianismo pensa que ao destruir a Igreja estará fazendo um favor à humanidade, há basicamente duas coisas devemos fazer: orar para que esse inimigo atente para seu erro e torne-se nosso aliado, e desejar boa sorte aos que menosprezam a força do nosso exército. Aquelas senhoras de setenta anos que mal têm força para caminhar até a Igreja certamente não assustam os grandes e fortes intelectuais que há anos lecionam na Academia. Os doentes que esperam pela última benção certamente não assustam o super-homem que anseia pelo fim da última superstição. O seguidor de Cristo, a quem Nietzsche chamou de "o animal doméstico, o animal de rebanho, o homem animal doente" [3] certamente não assusta o rottweiler de Darwin - como também não deve ter assustado seu bulldog.

E o fato curioso é exatamente esse: todos os inimigos do cristianismo profetizam o seu fim baseados na fraqueza do cristão, mas depois que ele se cansa de ser pisado e cruza a Europa para defender seu chão sagrado, ninguém sabe explicar a sua força. E ninguém sabe com certeza se o cristianismo é um leão feroz ou se é uma tímida ovelha. Seja como for, a causa anticristã, seja ela sincera ou duvidosa, possui algo que se pode chamar de nobre. Buscar o fim do cristianismo é útil tanto para quem não o tolera quanto para quem o ama do fundo do coração. Pode parecer absurda a ideia, mas é nessa causa que mora a última prova pela qual anseia todo aquele que rejeita o filho de Deus e que despreza seus seguidores. Se o cristianismo estiver certo, o inferno será derrotado; mas se o cristianismo estiver errado, ele será vencido. E se ele for vencido definitivamente e não mais ressuscitar, o seu inimigo provará ao mundo que ele nunca foi verdadeiro, e que o Cristo nunca houvera saído da sepultura.
Mas não sei se as pessoas que pedem que Deus interfira aberta e diretamente em nosso mundo sabem exatamente o que estão pedindo. Quando ele fizer isso, será o fim do mundo. Quando o autor sobe ao palco, é porque a peça já terminou. A invasão divina vai acontecer, não há dúvida quanto a isso; mas o que vamos ganhar se só então anunciarmos que estávamos do lado dele? [...] Dessa vez, Deus se apresentará sem disfarce, e virá com tamanho poder que causará em cada criatura um amor irresistível ou um irresistível horror. Será tarde demais, então, para escolher um dos lados. Quando não é mais possível ficar em pé, de nada adianta você dizer que decidiu ficar deitado [4].
Gostaria de poder evitar a acusação de que estou ameaçando o não cristão ao dizer essas coisas, pois não é essa a minha intenção. Não estou dizendo "converta-se ou queime no inferno". Estou dizendo "não tenha medo de derrotar o cristianismo". Estou dizendo que, se o anticristão tem tanta coragem e quer o bem da humanidade, ao contrário do cristão - o covarde cristão que só fez mal à humanidade em sua história -, que se lance decididamente por essa causa. Publique livros contra o cristianismo, dê risada na cara dos cristãos: faça isso em público! [5] Façam-no exatamente segundo os latidos do rottweiler. Ajudem-nos a descobrir se Cristo nos fez uma promessa ou se nos contou nada mais que uma grande mentira. O cristão não precisa dizer "estejam preparados para as consequências", porque ele, tanto quanto o anticristão, não sabe como as coisas acabam. O cristão não sabe sequer o dia em que as coisas acabam. Ele apenas espera, apenas confia.

É por isso que ele precisa estar preparado para oferecer a razão da esperança que há nele. O cristão não pode adiar o fim da peça: ele pode apenas esperar até o momento em que ela acaba, para que então possa aplaudi-la. O exército anticristão não deve conter sua marcha contra o cristianismo, mas deve saber que o exército cristão, com suas senhoras, doentes e pecadores, pode sair vitorioso: e realmente só sairá vitorioso por um milagre. A partir do momento que se marcha contra o cristianismo, é preciso não ter nenhuma dúvida de que o milagre não acontecerá. Isso não é uma ameaça: é, antes, um fato que deve ser conhecido pelo bom estrategista, e pode ser encontrado na milenar Arte da Guerra. A partir do momento que se marcha contra o erro, é preciso não ter nenhuma dúvida de que se está certo.

Se tornou moda - e uma moda que pretende ser intelectual - a ideia de que um homem é arrogante por pensar que está certo sobre qualquer coisa. É por esse exato motivo que as pessoas não mais conseguem se manifestar sobre algum assunto sem ressaltar, insistentemente, que podem estar erradas. Ora, se essas pessoas são tão inseguras das coisas que dizem e acreditam, eu não consigo entender por que elas simplesmente não ficam caladas. Não há nada de arrogante em um homem que acredita estar certo; esse é o único homem que merece o respeito dos que o cercam.

Se dois homens assim discutissem um problema e divergissem quanto à solução, eles poderiam se matar na tentativa de provar que estavam certos; poderiam até causar uma guerra, e essa guerra seria uma grande contribuição para a verdadeira solução do problema. Mas se todos os homens agirem como se pudessem estar errados, não haverá discussão e não haverá guerra, e não se alcançará nenhuma solução, precisamente porque se negou a relevância do problema. E é exatamente quando acaba a vontade do homem de defender suas crenças e suas terras que os bárbaros conquistam e prevalecem.

Algumas pessoas pensam que a humanidade seria muito mais avançada se cessassem as guerras; mas a verdade é que assim que as guerras cessarem, também cessará a nossa espécie. A humanidade existirá enquanto houver homens que estejam dispostos a lutar, e a primeira luta de qualquer homem deve ser a luta contra o erro. É óbvio que somente o homem que está certo pode declarar guerra contra todos os que estão errados. É ainda mais óbvio que se esse homem pensar, por apenas um segundo, que pode estar errado, ele não tomará nenhuma atitude e dormirá tranquilo por não se preocupar. Acordará, então, com o forte cheiro de fumaça, pois toda sua vila está, agora, em chamas.

O inimigo do cristianismo acha normal professar seu ódio ou indiferença nos livros e nos programas de televisão, mas irrita-se quando o cristão professa seu amor pela Virgem em procissão. A verdade é que se irritará muito mais quando o seu ódio pelo cristianismo cruzar com a multidão que a ama. Descobrirá que o amor incondicional da mãe pelo filho também se manifesta quando o filho vê a mãe em perigo. Mas o inimigo do cristianismo não deve se preocupar sobre um bando de lunáticos que chama essa Virgem de mãe. Deverá se preocupar sobre a possibilidade de ela ser realmente a Mãe de Deus. Novamente, antes de que surjam acusações de ameaças, gostaria de lembrar que foi o próprio Sun Tzu que nos alertou sobre a necessidade de conhecermos o inimigo. Quando se ataca o cordeiro, é preciso ter analisado a possibilidade de ele se transformar no rei da selva, ainda que por algum tipo de mágica do mundo de Cinderela.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, O Homem Eterno, pág. 265.
  2. Idem.
  3. Friedrich Nietzsche, O Anticristo, pág. 19.
  4. C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples, pág. 34 (e-book).
  5. No Reason Rally [Rally da Razão], Richard Dawkins motivou ateus para que zombem e ridicularizem publicamente os católicos - http://www.youtube.com/watch?v=KtGjhvZQW5c.

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