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Igreja e Ciência

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Sobre índios, negros e escravos

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25 de junho de 2012

Ciência, filosofia e desacordo

Mas há algumas pessoas - dentre as quais me incluo - que pensam que a coisa mais prática e importante sobre o homem ainda é sua visão a respeito do universo [1].

G. K. Chesterton.

No dia 9 de junho houve um debate entre ateus e cristãos [2], sobre o qual gostaria de ter comentado, já que nas três horas de discussão muitas questões interessantes foram propostas. Agora já parece tarde demais para comentar essas questões e, além disso, muitas pessoas - ateias e cristãs -, já se manifestaram a respeito de alguns dos pontos do debate. Uma dessas pessoas foi o sr. Clarion, que citei em uma das minhas postagens mais recentes,  O bom ateu [3].

Já vi muitos vídeos desse vlogger ateísta, e apesar de não concordar com a maior parte das coisas que ele diz, sempre o achei moderado e livre de qualquer tipo de ódio que o cegasse de alguma forma - o que não é o caso de alguns vloggers radicais, sejam eles ateus ou religiosos. O que eu penso sobre o sr. Clarion não mudou, mas dessa vez tive vontade de responder ao que foi exposto em um de seus vídeos [4], exatamente esse que foi publicado após o debate ocorrido na Rádio Vlogs.

Basicamente, ele comenta a questão da filosofia, e como ela desempenhou um papel importante, mas, segundo ele, inapropriado durante o debate. Importante porque foi um recurso utilizado insistentemente pelos cristãos; inapropriado porque foi mal utilizado. Gostaria, então, de responder às considerações do sr. Clarion sobre o que é filosofia, e gostaria de fazê-lo de forma breve.

Em primeiro lugar, concordo com a afirmação de que filosofia não é "estudar, no sentido de decorar as frases dos filósofos 'importantes'". Acho mesmo que os cristãos que participaram do debate concordam com essa afirmação. Mas o que se quer sugerir aí é que os cristãos estavam de alguma forma utilizando o argumento de autoridade, o que fica claro no segundo ponto exposto pelo sr. Clarion.

Acho interessante que isso mostra como os ateus e os cristãos percebem o debate de forma muito diferente. Eu não achei que os cristãos recorreram à autoridade de algum filósofo no debate - nem mesmo à de São Tomás de Aquino, que fora constantemente citado. Não me recordo de nenhum momento em que alguém tenha declarado a veracidade de um argumento por ele ter sido expresso por determinado argumentador.

Mas o que é relevante sobre esse ponto é que os cristãos estavam defendendo o cristianismo, o que é realmente óbvio, mas parece ter sido ignorado nessa crítica particular. O cristianismo defende algo chamado bem, assim como defende seres chamados anjos. E para boa parte dos cristãos, o que é o bem e o que são os anjos foi muito bem explicado por São Tomás: mas não é porque esse santo os explicou que os cristãos acreditam que a verdade se deva a isso que foi por ele explicado.

Os cristãos acreditam em algo chamado bem porque a filosofia cristã os leva a fazê-lo, o que não depende da palavra de nenhum filósofo ou pregador. E apesar de não haver sentido na tentativa de convencer um ateu de que o bem é tal porque a Bíblia o diz, não há nada de errado com o cristão que crê que é o bem é tal porque a Bíblia o diz.

Se os cristãos não poderiam se manifestar como cristãos no debate, afirmando aquilo que afirma a fé cristã, seria melhor que o debate fosse restrito ao ateísmo contra o teísmo genérico. Pergunte "Deus existe?" e cada parte oferecerá seus motivos para responder "sim" ou "não" à pergunta, sem pressupor qualquer ideia específica de uma cosmovisão que tem ou não ideias bastante específicas. Mas esse não foi o caso, e em determinado momento isso levou a uma discussão imatura, com gargalhadas de desprezo e palavrões.

No entanto, como já disse antes, essas questões não são tão importantes, e por isso gostaria de tratar, agora, do que considero fundamental. O sr. Clarion diz que a filosofia é "uma ferramenta excelente para levantar questões, mas não é uma ferramenta para dar respostas definitivas sobre coisas". Ora, eu diria que a filosofia é a única ferramenta que pode dar respostas definitivas sobre as coisas. É de fato a única ferramenta que pode definir uma coisa e dizer que ela é essa coisa e não aquela coisa, pois é a filosofia que diz que uma coisa é. Qual é, ademais, o sentido de levantar questões e não poder respondê-las? Que direito tem a dúvida de existir se seu fim não é a certeza? Levantar milhares de questões e abandoná-las ao silêncio é tão interessante quanto construir milhares de abrigos e ocupá-los com poeira.

O sr. Clarion diz que, se três homens fazem três afirmações distintas sobre determinado conceito, nenhum deles está certo. Diz ele que a filosofia "não trabalha com respostas absolutas para nenhum desses conceitos", mas, em vez disso, "trabalha com correntes de pensamento". De fato, dentro destes termos, o discurso é muito coerente, já que o próprio sr. Clarion está tomando conceitos de determinadas correntes filosóficas e aplicando-os à filosofia em si. Ele pressupõe certa filosofia subjetivista para afirmar que a filosofia é subjetiva. Mas qual o sentido de dizer que tal coisa não é a premissa da filosofia após dizer que a filosofia varia de acordo com a corrente filosófica?

Ora, se nenhuma corrente filosófica está certa, é extremamente fatal dizer que há uma certeza sobre a filosofia, isto é, que "ela trabalha com correntes de pensamento". Se a premissa da filosofia varia em cada corrente, então não há uma "premissa da filosofia", mas apenas uma premissa de cada corrente filosófica. O sr. Clarion admite, portanto, que não está nos dizendo o que é a filosofia, e sim o que diz a corrente filosófica da qual ele faz parte - ainda que inconscientemente. E, se esse é o caso, ele está permitindo que todos estejam certos e errados ao mesmo tempo, o que torna o seu próprio vídeo um mistério em termos de propósito.

Se três homens fazem três afirmações distintas sobre o conceito de maçã, isso não significa que nenhum deles está correto sobre o que é uma maçã, pois, logicamente, essa conclusão aparece do nada e é injustificável. Dizer que o conceito de maçã depende da mente é negar que as maçãs existam sem depender da nossa mente, o que é absurdo. Mas admitir que as maçãs existam sem depender da nossa mente significa admitir uma verdade filosófica, metafísica: que o mundo existe independentemente de nós. Se a espécie humana deixasse de existir o mundo deixaria de existir? Nós podemos admitir que não, mas é apenas a filosofia que nos permite fazê-lo. Afinal, se não existe o homem, como o homem poderá verificar que o mundo não deixou de existir com ele?

É a ciência que não pode oferecer respostas definitivas, absolutas sobre qualquer coisa, pois a ciência é auto corrigível - e há sempre algo a ser corrigido -, está sempre aprendendo, preenchendo lacunas. Não pode ser chamado cientista alguém que diz: "Não há mais o que investigar; já sabemos tudo que podemos saber". E nem o filósofo diria uma coisa dessas, mas é a filosofia, e não a ciência, que afirma que as coisas de fato existem, e que o mundo é real, em vez de ser um sonho de um lunático. A ciência pressupõe a existência: não se preocupa em provar que o mundo existe, mas sim em investigar o mundo existente.

O próprio Nietzsche afirmou que primeiro deve vir a filosofia, para que então a ciência ganhe uma direção, um direito de existir [5]. Ademais, a distinção que Mário Ferreira dos Santos faz entre as duas também é útil:
Enquanto a Filosofia é um saber puro universal, a Ciência é um saber culto particular, pois a Ciência dedica-se ao estudo dos fenômenos, enquanto a Filosofia os ultrapassa para penetrar nas primeiras e últimas causas, quando aquela se atém apenas às causas próximas.
... A Filosofia trabalha com o contingente e o necessário, o relativo e o absoluto, enquanto a Ciência circunscreve-se apenas ao contingente do acidental e ao relativo [6].
Como se pode perceber, essa definição é drasticamente oposta à do sr. Clarion, mas eu não quero prolongar mais algo que a própria filosofia do vlogger ateísta rejeitará pela sua natureza. Mas mantenho que aceitar essa filosofia, uma filosofia que nega a validade da filosofia em si, significa destruir não só a ciência, mas especialmente o que chamamos Lógica Formal [7], o que seria um golpe fatal na razão.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, Hereges, trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito. Campinas: Ecclesiae, 2011, págs. 28-9.
  2. Rádio Vlogs, "Ateu vs. Cristão 2", 9 de junho de 2012. Disponível em radiovlogs.com.br.
  3. Caos & Regresso, O bom ateu. Disponível em caosdinamico.com.
  4. O Fantástico Mundo de Clarion, 12 de junho 2012: Filosofia (só que não).
  5. "Sempre tem de vir em primeiro lugar uma filosofia, uma 'fé', para que a partir dela a ciência possa adquirir uma direção, um significado, um limite, um método, um direito de existir [...]. Continua hoje a ser uma fé metafísica o que sustenta a nossa fé na ciência". Citado em Ernest L. Fortin, "The Bible Made Me Do It: Christianity, Science and the Environment", em J. Brian Benestad, ed., Ernest Fortin: Colected Essays, vol. 3: Human Rights, Virtue and the Common Good: Untimely Meditations on Religion and Politics, Rowman & Littlefield, Lanham, Maryland, 1996, pág. 122.
  6. Mário Ferreira dos Santos, "Ciência", em Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais: A-C. São Paulo: Editora Matese, 1963, pág. 267.
  7. Mário Ferreira dos Santos, Lógica e Dialética. São Paulo: Paulus, 2007, pág. 41: "Para a Lógica Formal, o conceito é um objeto ideal intemporal"; "Enquanto o conceito para a Lógica Formal se apresenta como uma estrutura universal, isolada do tempo e do espaço, alheio e libertado das contingências individuais, a operação psicológica varia de um indivíduo para o outro, e no próprio indivíduo, segundo as variações que ele conhece no decurso da vida"; "É o conceito o elemento sobre o qual se apoia a lógica".

10 de junho de 2012

Deus e a criação

Caros leitores, esse é o primeiro guest post do nosso blog, e o autor convidado é Antunes Fernandes, que escreveu sobre o conceito de Deus. Essa postagem será útil especialmente àqueles que acompanharam o debate entre os ateus Daniel Fraga, Guilherme Tomishiyo e Yuri Grecco contra os cristãos Leonardo Bruno, Rodolpho Loreto e Samuel Cardoso - 09 de junho -, em que foi possível perceber várias falhas no entendimento filosófico do conceito de Deus por parte dos ateístas. Todo o conteúdo abaixo é de autoria do convidado, e ajudará a esclarecer algumas confusões populares sobre o que significa Deus.

Atenciosamente, Vinicius Oliveira.

Antes de se argumentar a favor da existência de Deus, é preciso primeiro definir o que é Deus. Nesse artigo será defendida a existência do Deus cristão, defendido por São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Santo Anselmo, e outros doutores e filósofos, tanto da Igreja, quanto de fora dela. Deus: onisciente, onipresente, onipotente, perfeito, infinito, atemporal e transcendente.

Se não existe um criador, então o universo se criou sozinho, logo o universo tem que ser finito, pois se fosse infinito o universo seria Deus, pois toda criação tem que ser finita, e se o universo fosse Deus, então Deus existiria. Mas se algo que é finito, pode se criar sozinho, por que Deus, que é infinito e perfeito não pode se criar sozinho?

O ateu pode argumentar: "O universo se criou sozinho, e, como você mesmo diz, é finito. Por que Deus que também se criou sozinho é infinito? Ele tem que ser finito como o universo, e se ele é finito então ele não é Deus".

Mas Deus não é criado, Deus não se criou, pois se Ele tivesse se criado teria que ter um início, e Deus como ser infinito não tem início, pois se Ele dependesse da criação não seria completo (o universo não é completo, pois é finito, e isso diferencia Deus do universo). Ele só pode ser Deus se Ele não depende de tal criação. Se Ele não depende de tal criação, então Ele é perfeito e sempre existiu independentemente de tempo, espaço e criação, pois tais regras só se aplicam a coisas imperfeitas e materiais, como o universo. O universo não pode ter se criado sozinho, pois ele não é infinito, característica que o diferencia de Deus, que o criou.

Tudo que passa a existir é finito, e a partir do momento que as coisas nascem (seja um humano, ou um objeto ou qualquer coisa) o tempo de tal coisa passa a ser contado, passa a ser rolado. O tempo foi criado no Big Bang a partir do momento que as coisas finitas passaram a existir (inclusive o tempo). Sendo Deus algo atemporal, esta lei não se aplica a Deus, pois se Deus dependesse do tempo para existir, Ele passaria a existir somente depois do Big Bang e não poderia ter criado o universo, e não seria Deus, pois para ser Deus Ele precisa ser completamente independente.

Se o tempo teve uma origem, então existiu um momento do passado em que ele passou a existir, assim como todas as coisas finitas.

Pois bem, a pergunta: "Quem criou Deus?" é totalmente irracional, pois antes do Big Bang não existia tempo, então algo que não foi criado não pode ter tido um início ou uma origem, e não pode ter tido seu tempo rolado a partir de sua criação. Como uma coisa pode ter sido criada antes de existir o tempo? Pois é o tempo que define o início de todas as coisas criadas. Perguntar quem criou Deus é o mesmo que perguntar qual o cheiro do azul.

Perceba que a palavra "criou" da pergunta acima, é um verbo e está no passado. Ora, se ela está no passado, então ela precisa do tempo para fazer sentido. Se antes do Big Bang não havia tempo então essa pergunta não faz o menor sentido.

Finito é tudo que passa a existir em algum momento do passado. Tudo que é finito tem que ser temporal, pois passou a existir em um momento, e todo momento precisa do tempo, e todo tempo precisa do ser criado. Deus não é criado por não existir "momento" antes da criação, por não existir tempo, por não existir ser criado. O tempo passou a existir assim que o universo foi criado, e o universo é finito justamente por ter sido criado. Deus é atemporal exatamente por não ter sido criado. Se Deus fosse criado, logicamente Ele não poderia ser atemporal, e logicamente não seria Deus, pois seria criado e temporal. Deus só teria um inicio se Ele tivesse passado a existir depois do big bang, junto com todas as coisas materiais e finitas.

O tempo é intrínseco à criação. Não é a criação que depende do tempo para existir, e sim o contrário. Por isso Deus não precisou criar o tempo para criar o universo. Bastou criou o universo para o tempo existir.

O passado é tal porque não é mais; o futuro é tal porque não é ainda; e se o presente fosse presente e não se transformasse continuamente em passado, não seria tempo, mas eternidade. E é exatamente neste estado imutável que Deus existe: Deus existe no agora perpétuo.

O ateu diz: "Mas se Deus pode tudo, ele poderia criar algo finito e atemporal, pois ele pode tudo".

Ora, Deus pode tudo, mas dentro de sua lógica perfeita, pois se não assim fosse, ele poderia existir e não existir ao mesmo tempo, e isso é algo impossível, pois Deus é perfeito, e se ele é perfeito ele tem que existir, pois nada que não exista é perfeito.

Ateu: "Então Deus depende de sua própria lógica perfeita e regras e só pode executar coisas que estão dentro de tais lógicas, logo, se ele depende, ele não é perfeito".

Deus não depende de tal lógica, Ele é a lógica, em ato. Do mesmo modo que Deus não possui a perfeição: Ele é a perfeição. Do mesmo modo que Deus não possui o infinito, Ele é o infinito. Logo, Ele depende apenas d'Ele mesmo. E sim, tudo só pode ser executado dentro de tal lógica, pois não existe nada fora de tal lógica; e se existisse Deus não seria perfeito. Deus não tem potência para se tornar mais perfeito, ou mais poderoso, nem menos perfeito e menos poderoso, pois Ele é perfeito em grau absoluto. Uma característica de qualquer coisa finita e imperfeita é ter potência para se tornar melhor ou pior; Deus sendo perfeito não pode ter potencial para se tornar melhor ou pior, maior ou menor, pois já se encontra em um grau absoluto.

Não pode haver nada além de Deus, pois, se existisse, Deus teria uma borda ou uma margem. Em algum momento Deus acabaria, ou chegaria ao fim. E aí viria  pergunta: o que há depois de Deus? Se existe algo além de Deus, então Ele não seria infinito e absoluto. Deus é perfeito em grau absoluto e infinito, logo não pode ser dividido, subtraído, somado ou multiplicado, pois todas essas grandezas matemáticas aplicadas a qualquer coisa infinita daria infinito. Por esse motivo é impossível existir duas ou mais coisas infinitas ou absolutas.

Podemos medir qualquer extensão em nossa realidade, pois todas têm um fim um e início. Todas tem uma borda no qual acabam, e por isso é possível medi-las. Mas como vou medir uma extensão que não tem medida? Medida é uma quantidade fixa que serve para avaliar extensões ou quantidades mensuráveis. Como vou medir uma quantidade imensurável? Qualquer grandeza de medida aplicada a uma extensão imensurável daria um resultado imensurável, não alterando em nada a natureza do ser exposto ao cálculo da medida.

Deus não é infinito quantitativamente, mas sim qualitativamente, pois não pode ser considerado nem como o todo, e nem como uma parte do todo, por que o todo é feito de partes. Não existe um Deus constituído de infinitas partes, mas sim um único Deus com infinitude qualitativa e singular em grau absoluto e homogêneo.

Qualquer coisa infinita não pode caber em lugar algum. Não é Deus que está em algum lugar, pois "lugar" pressupõe uma área determinada de espaço. O espaço, assim como o tempo, passou a existir somente depois da criação das coisas finitas e materiais. Se Deus fosse passivo de "estar em algum lugar", então deveria ter passado a existir somente depois da criação, e não poderia ter criado. Não é Deus que está lá, é o todo que está em Deus. Por isso Deus é onipresente.

Uma das vias de provar a existência de Deus é provando a existência do infinito.

O infinito tem que existir, pois engloba exatamente tudo existente - dentro ou fora do universo. Deus é tal coisa infinita, o que o faz onipresente e transcendente.

Mas então diz o ateu: "Mas não se sabe o que há depois do universo. Depois do universo pode existir o nada, simplesmente o nada, e não Deus, como você, crente, afirma".

No entanto, tal afirmação é contraditória, pois o nada é ausência de algo, logo tem que haver algo depois do universo. Se depois do universo existisse o nada, então o nada seria infinito, mas o nada não pode ser infinito, tem que ser finito, pois o nada depende do tudo para existir. O nada é um buraco, um vácuo.

Imagine uma folha de papel, e nessa folha há um buraco no meio. O buraco não existe, o que existe é uma folha em que falta uma de suas partes. Logo, o buraco para existir depende da folha, pois sem folha não existe o buraco - e nem poderia. Um buraco no chão depende do chão para existir, ou um buraco na parede depende da parede. Logo, todo buraco é finito, pois é dependente de algo, e tudo que depende é finito. Então, afirmar que o nada além do universo é o infinito é ilógico.

Supor que o universo veio do nada é o mesmo que supor que o universo veio de um vácuo, ou de um buraco, mas tal afirmação é absurda, pois como o exemplo citado acima, um buraco não pode criar a folha, mas só a folha pode criar o buraco, pois não é a folha que está no buraco, mas é o buraco que está na folha. Supor que o universo veio do nada é o mesmo que supor que o buraco criou a folha, ou que a folha está no buraco, ao invés do buraco estar na folha. Sendo assim, o universo deve estar em algum lugar, pois se estivesse no nada como os céticos afirmam, teríamos o problema da folha. Seria o todo (universo) dependendo do nada. Absurdamente ilógico. Até o nada vem de algum lugar.

Segunda afirmação: O infinito tem que ser todo poderoso e completo. Explicação: O infinito para ser infinito (sem início e nem fim) tem que ser completo e totalmente poderoso, não lhe faltando nada e nem dependendo de nada, pois não existe ausência no infinito, pois se existisse, não seria infinito. A folha quando tem um buraco no meio carece de alguma coisa. Falta o pedaço de papel que foi retirado para o buraco ser feito. Mas a folha não é infinita, logo, ela pode sofrer uma ausência de algo. Mas  Deus não pode sofrer tal ausência, pois Ele é infinito. Se Deus (que é o infinito) não fosse completamente e totalmente poderoso, teríamos um problema. Pois se uma coisa não é totalmente poderosa, completa e independente, então lhe falta algo pra ser. Se lhe falta algo pra ser, então tal coisa se torna finita. Se tornando finito, Deus deixa de ser Deus.

Pois bem, provando a existência do infinito, e que o infinito para ser infinito tem que ser totalmente poderoso e completo, se prova a existência de Deus. Depois do universo, tem que haver alguma coisa, pois o nada não existe. E há: que é Deus. Todo buraco depende de algo para ser feito, e buraco é um nada, um vazio e um vácuo, logo não pode ser infinito, pois é dependente. Do mesmo modo que a escuridão depende da luz para existir, o mal depende do bem e o frio depende do calor. O que depende é submisso.

Conclui-se também que Deus tem que ser totalmente e completamente bom, pois se existisse uma parcela de maldade em Deus, então Ele sofreria uma ausência, deixando de ser infinito, pois o mal nada mais é do que a ausência do bem. Logo, Deus como ser infinito e já totalmente preenchido de bondade (pois não sofre ausência), tem que ser completamente bom, e perfeito.


Por Antunes Fernandes P. de Andrade.

9 de junho de 2012

Cathedra Petri

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Quando comecei a escrever a postagem Caridade ATEA, em que falei da história da caridade cristã, incluí um tópico dedicado à questão das riquezas do Vaticano, que normalmente é usada como um apelo emocional contra a Igreja Católica. Tentei mostrar que essas riquezas não devem representar nenhuma vergonha para os católicos, e enquanto pesquisava detalhes sobre essa questão, encontrei algumas respostas dadas por outros católicos, especialmente sobre a imagem que botava lado a lado o Papa Bento XVI em um trono dourado e uma criança faminta comendo migalhas direto do chão. A versão que usei em minha postagem - que fora compartilhada pela ATEA - era um pouco diferente, mas passava a mesma ideia.

Naquela altura percebi que na resposta àquela tola comparação, havia observações sobre o trono em que Bento XVI estava sentado, e como eu não tinha conhecimento sobre ele, resolvi investigá-lo. Durante o desenvolvimento da postagem, pensei em incluir um esclarecimento sobre o polêmico trono de ouro, mas acabei achando desnecessário - e a postagem já estava bastante extensa. Porém, comecei a perceber a mesma argumentação vinda de várias páginas teístas do Facebook, e de diferentes blogs na web, o que me fez repensar a necessidade de esclarecer o problema.

A argumentação à qual me refiro diz que o trono mostrado nas imagens não é de ouro, e sim de bronze. Ela foi popularizada por um usuário do Facebook, que postou a imagem que compara Bento XVI e a criança faminta e adicionou a ela um longo comentário. A resposta desse usuário ultrapassou treze mil compartilhamentos, mas se considerarmos que outras pessoas podem tê-la hospedado em outros álbuns - o que é comum no Facebook -, então é razoável estimar que esse número seja na verdade muito maior. Outra fonte que fez a mesma afirmação é o blog Fim da Farsa, em um artigo intitulado Trono de "ouro" do  Papa refutado.

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A versão popularizada na rede social e por esse blog utilizam a mesma fonte, um artigo biográfico d'O Portal da História sobre Gian Lorenzo Bernini, em que lemos: "Em 1657 começou o Trono de São Pedro, ou Cathedra Petri, uma cobertura em bronze dourado do trono em madeira do papa, que foi terminada em 1666, ao mesmo tempo que realizava a colonata". E aqui está o equívoco que precisa ser esclarecido, porque o trono utilizado nas comparações anticatólicas não é o Trono de São Pedro.

Ao lado está a imagem utilizada nas comparações, e apesar de os detalhes não serem decisivos para mostrar que o trono não é o de São Pedro - já que as diferenças entre os dois são muito maiores -, eles servem para determinar qual é, realmente, o trono em questão. Trata-se, na verdade, do Trono de Leão XIII - ou Cadeira de Leão XIII, ou Trono Leonino, que já foi utilizado por outros papas antes de Bento XVI, como Pio X e Pio XII.

Montei uma imagem em que os o trono aparece sendo utilizado por Bento XVI e por Pio X, além do trono em exposição. Clicando na imagem e analisando-a em resolução ampliada, os detalhes mostrarão facilmente que trata-se do mesmo trono, o de Leão XIII.


Agora, aqui está o Trono de São Pedro, cuja cobertura de bronze foi feita pelo arquiteto Gian Lorenzo Bernini. É uma obra gigantesca, e em suas imagens é possível perceber perfeitamente o trono de madeira e a cobertura trabalhada em bronze. Também é possível perceber o quão gigantesco é o trono através de uma foto em que há pessoas próximas a ele.



















Como o arquiteto em questão é bastante popular, não haverá dificuldade alguma para que se confirme qualquer informação sobre suas obras, mas gostaria de ressaltar que não faço esses esclarecimentos para descredibilizar o esforço de quem luta contra os inimigos da Igreja. O problema é que devemos estar atentos a esses erros justamente para que nossos inimigos não os usem como uma forma de descredibilizar nossa defesa. Estou certo de que aqueles que pensaram que o trono das imagens de propaganda anticatólica eram do Trono de São Pedro foram sinceros sobre isso, e que não quiseram de nenhuma forma enganar as pessoas.

Mas isso mostra como é importante estar atento sobre os detalhes, e como é importante verificar as informações, para que não se caia em nenhum tipo de armadilha. Chesterton escreveu que "nossos inimigos já não sabem realmente como atacar a fé, mas isso não é motivo para que nós não saibamos como defendê-la" (The Catholic Church and Conversion, pos. 405*), e a razão de eu citar essa frase é dupla, pois, em primeiro lugar, se desejamos defender a nossa fé, precisamos estar atentos e não deixar brechas para o inimigo. De fato todos nós podemos eventualmente deixar essas brechas, e realmente as deixamos, já que não somos perfeitos. No entanto, o segundo motivo é talvez mais importante para toda essa questão do trono de ouro, pois é esse ataque que mostra verdadeiramente a sagacidade de Chesterton: nossos inimigos não sabem mais atacar a fé, e a tentativa de utilizar as riquezas do Vaticano como um argumento contra a Igreja prova exatamente isso.

Eu não sei se o trono de Leão XIII é de ouro, porque não encontrei detalhes sobre ele, mas que diferença isso faz? Eu não me importaria se fosse ouro adornado com diamantes. De fato há ouro em muitas obras que pertencem à Igreja, mas isso não é de forma alguma um argumento contra ela. Como argumentei anteriormente - Caridade ATEA -, não podemos transformar ouro magicamente em comida: e todo o ouro do mundo não poderia acabar milagrosamente com a fome - leia a postagem inteira se estiver interessado em algo mais sólido. Por último, não nos esqueçamos de que a Igreja é a maior instituição de caridade do mundo, e o ponto dessa propaganda anticatólica é insinuar que a Igreja ignora os pobres e os famintos. Mas a verdade é que, enquanto as pessoas estão reclamando do dito descaso da Igreja em relação aos pobres, a Igreja está indo ao socorro dos pobres de todo o mundo. E o que essas pessoas que acusam a Igreja estão fazendo por esses pobres? A resposta, de forma geral, é muito simples: estão apenas fingindo que se importam.


Notas:
  1. *The Catholic Church and Conversion, edição Kindle

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