9 de junho de 2012

Cathedra Petri

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Quando comecei a escrever a postagem Caridade ATEA, em que falei da história da caridade cristã, incluí um tópico dedicado à questão das riquezas do Vaticano, que normalmente é usada como um apelo emocional contra a Igreja Católica. Tentei mostrar que essas riquezas não devem representar nenhuma vergonha para os católicos, e enquanto pesquisava detalhes sobre essa questão, encontrei algumas respostas dadas por outros católicos, especialmente sobre a imagem que botava lado a lado o Papa Bento XVI em um trono dourado e uma criança faminta comendo migalhas direto do chão. A versão que usei em minha postagem - que fora compartilhada pela ATEA - era um pouco diferente, mas passava a mesma ideia.

Naquela altura percebi que na resposta àquela tola comparação, havia observações sobre o trono em que Bento XVI estava sentado, e como eu não tinha conhecimento sobre ele, resolvi investigá-lo. Durante o desenvolvimento da postagem, pensei em incluir um esclarecimento sobre o polêmico trono de ouro, mas acabei achando desnecessário - e a postagem já estava bastante extensa. Porém, comecei a perceber a mesma argumentação vinda de várias páginas teístas do Facebook, e de diferentes blogs na web, o que me fez repensar a necessidade de esclarecer o problema.

A argumentação à qual me refiro diz que o trono mostrado nas imagens não é de ouro, e sim de bronze. Ela foi popularizada por um usuário do Facebook, que postou a imagem que compara Bento XVI e a criança faminta e adicionou a ela um longo comentário. A resposta desse usuário ultrapassou treze mil compartilhamentos, mas se considerarmos que outras pessoas podem tê-la hospedado em outros álbuns - o que é comum no Facebook -, então é razoável estimar que esse número seja na verdade muito maior. Outra fonte que fez a mesma afirmação é o blog Fim da Farsa, em um artigo intitulado Trono de "ouro" do  Papa refutado.

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A versão popularizada na rede social e por esse blog utilizam a mesma fonte, um artigo biográfico d'O Portal da História sobre Gian Lorenzo Bernini, em que lemos: "Em 1657 começou o Trono de São Pedro, ou Cathedra Petri, uma cobertura em bronze dourado do trono em madeira do papa, que foi terminada em 1666, ao mesmo tempo que realizava a colonata". E aqui está o equívoco que precisa ser esclarecido, porque o trono utilizado nas comparações anticatólicas não é o Trono de São Pedro.

Ao lado está a imagem utilizada nas comparações, e apesar de os detalhes não serem decisivos para mostrar que o trono não é o de São Pedro - já que as diferenças entre os dois são muito maiores -, eles servem para determinar qual é, realmente, o trono em questão. Trata-se, na verdade, do Trono de Leão XIII - ou Cadeira de Leão XIII, ou Trono Leonino, que já foi utilizado por outros papas antes de Bento XVI, como Pio X e Pio XII.

Montei uma imagem em que os o trono aparece sendo utilizado por Bento XVI e por Pio X, além do trono em exposição. Clicando na imagem e analisando-a em resolução ampliada, os detalhes mostrarão facilmente que trata-se do mesmo trono, o de Leão XIII.


Agora, aqui está o Trono de São Pedro, cuja cobertura de bronze foi feita pelo arquiteto Gian Lorenzo Bernini. É uma obra gigantesca, e em suas imagens é possível perceber perfeitamente o trono de madeira e a cobertura trabalhada em bronze. Também é possível perceber o quão gigantesco é o trono através de uma foto em que há pessoas próximas a ele.



















Como o arquiteto em questão é bastante popular, não haverá dificuldade alguma para que se confirme qualquer informação sobre suas obras, mas gostaria de ressaltar que não faço esses esclarecimentos para descredibilizar o esforço de quem luta contra os inimigos da Igreja. O problema é que devemos estar atentos a esses erros justamente para que nossos inimigos não os usem como uma forma de descredibilizar nossa defesa. Estou certo de que aqueles que pensaram que o trono das imagens de propaganda anticatólica eram do Trono de São Pedro foram sinceros sobre isso, e que não quiseram de nenhuma forma enganar as pessoas.

Mas isso mostra como é importante estar atento sobre os detalhes, e como é importante verificar as informações, para que não se caia em nenhum tipo de armadilha. Chesterton escreveu que "nossos inimigos já não sabem realmente como atacar a fé, mas isso não é motivo para que nós não saibamos como defendê-la" (The Catholic Church and Conversion, pos. 405*), e a razão de eu citar essa frase é dupla, pois, em primeiro lugar, se desejamos defender a nossa fé, precisamos estar atentos e não deixar brechas para o inimigo. De fato todos nós podemos eventualmente deixar essas brechas, e realmente as deixamos, já que não somos perfeitos. No entanto, o segundo motivo é talvez mais importante para toda essa questão do trono de ouro, pois é esse ataque que mostra verdadeiramente a sagacidade de Chesterton: nossos inimigos não sabem mais atacar a fé, e a tentativa de utilizar as riquezas do Vaticano como um argumento contra a Igreja prova exatamente isso.

Eu não sei se o trono de Leão XIII é de ouro, porque não encontrei detalhes sobre ele, mas que diferença isso faz? Eu não me importaria se fosse ouro adornado com diamantes. De fato há ouro em muitas obras que pertencem à Igreja, mas isso não é de forma alguma um argumento contra ela. Como argumentei anteriormente - Caridade ATEA -, não podemos transformar ouro magicamente em comida: e todo o ouro do mundo não poderia acabar milagrosamente com a fome - leia a postagem inteira se estiver interessado em algo mais sólido. Por último, não nos esqueçamos de que a Igreja é a maior instituição de caridade do mundo, e o ponto dessa propaganda anticatólica é insinuar que a Igreja ignora os pobres e os famintos. Mas a verdade é que, enquanto as pessoas estão reclamando do dito descaso da Igreja em relação aos pobres, a Igreja está indo ao socorro dos pobres de todo o mundo. E o que essas pessoas que acusam a Igreja estão fazendo por esses pobres? A resposta, de forma geral, é muito simples: estão apenas fingindo que se importam.


Notas:
  1. *The Catholic Church and Conversion, edição Kindle

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