25 de junho de 2012

Ciência, filosofia e desacordo

Mas há algumas pessoas - dentre as quais me incluo - que pensam que a coisa mais prática e importante sobre o homem ainda é sua visão a respeito do universo [1].

G. K. Chesterton.

No dia 9 de junho houve um debate entre ateus e cristãos [2], sobre o qual gostaria de ter comentado, já que nas três horas de discussão muitas questões interessantes foram propostas. Agora já parece tarde demais para comentar essas questões e, além disso, muitas pessoas - ateias e cristãs -, já se manifestaram a respeito de alguns dos pontos do debate. Uma dessas pessoas foi o sr. Clarion, que citei em uma das minhas postagens mais recentes,  O bom ateu [3].

Já vi muitos vídeos desse vlogger ateísta, e apesar de não concordar com a maior parte das coisas que ele diz, sempre o achei moderado e livre de qualquer tipo de ódio que o cegasse de alguma forma - o que não é o caso de alguns vloggers radicais, sejam eles ateus ou religiosos. O que eu penso sobre o sr. Clarion não mudou, mas dessa vez tive vontade de responder ao que foi exposto em um de seus vídeos [4], exatamente esse que foi publicado após o debate ocorrido na Rádio Vlogs.

Basicamente, ele comenta a questão da filosofia, e como ela desempenhou um papel importante, mas, segundo ele, inapropriado durante o debate. Importante porque foi um recurso utilizado insistentemente pelos cristãos; inapropriado porque foi mal utilizado. Gostaria, então, de responder às considerações do sr. Clarion sobre o que é filosofia, e gostaria de fazê-lo de forma breve.

Em primeiro lugar, concordo com a afirmação de que filosofia não é "estudar, no sentido de decorar as frases dos filósofos 'importantes'". Acho mesmo que os cristãos que participaram do debate concordam com essa afirmação. Mas o que se quer sugerir aí é que os cristãos estavam de alguma forma utilizando o argumento de autoridade, o que fica claro no segundo ponto exposto pelo sr. Clarion.

Acho interessante que isso mostra como os ateus e os cristãos percebem o debate de forma muito diferente. Eu não achei que os cristãos recorreram à autoridade de algum filósofo no debate - nem mesmo à de São Tomás de Aquino, que fora constantemente citado. Não me recordo de nenhum momento em que alguém tenha declarado a veracidade de um argumento por ele ter sido expresso por determinado argumentador.

Mas o que é relevante sobre esse ponto é que os cristãos estavam defendendo o cristianismo, o que é realmente óbvio, mas parece ter sido ignorado nessa crítica particular. O cristianismo defende algo chamado bem, assim como defende seres chamados anjos. E para boa parte dos cristãos, o que é o bem e o que são os anjos foi muito bem explicado por São Tomás: mas não é porque esse santo os explicou que os cristãos acreditam que a verdade se deva a isso que foi por ele explicado.

Os cristãos acreditam em algo chamado bem porque a filosofia cristã os leva a fazê-lo, o que não depende da palavra de nenhum filósofo ou pregador. E apesar de não haver sentido na tentativa de convencer um ateu de que o bem é tal porque a Bíblia o diz, não há nada de errado com o cristão que crê que é o bem é tal porque a Bíblia o diz.

Se os cristãos não poderiam se manifestar como cristãos no debate, afirmando aquilo que afirma a fé cristã, seria melhor que o debate fosse restrito ao ateísmo contra o teísmo genérico. Pergunte "Deus existe?" e cada parte oferecerá seus motivos para responder "sim" ou "não" à pergunta, sem pressupor qualquer ideia específica de uma cosmovisão que tem ou não ideias bastante específicas. Mas esse não foi o caso, e em determinado momento isso levou a uma discussão imatura, com gargalhadas de desprezo e palavrões.

No entanto, como já disse antes, essas questões não são tão importantes, e por isso gostaria de tratar, agora, do que considero fundamental. O sr. Clarion diz que a filosofia é "uma ferramenta excelente para levantar questões, mas não é uma ferramenta para dar respostas definitivas sobre coisas". Ora, eu diria que a filosofia é a única ferramenta que pode dar respostas definitivas sobre as coisas. É de fato a única ferramenta que pode definir uma coisa e dizer que ela é essa coisa e não aquela coisa, pois é a filosofia que diz que uma coisa é. Qual é, ademais, o sentido de levantar questões e não poder respondê-las? Que direito tem a dúvida de existir se seu fim não é a certeza? Levantar milhares de questões e abandoná-las ao silêncio é tão interessante quanto construir milhares de abrigos e ocupá-los com poeira.

O sr. Clarion diz que, se três homens fazem três afirmações distintas sobre determinado conceito, nenhum deles está certo. Diz ele que a filosofia "não trabalha com respostas absolutas para nenhum desses conceitos", mas, em vez disso, "trabalha com correntes de pensamento". De fato, dentro destes termos, o discurso é muito coerente, já que o próprio sr. Clarion está tomando conceitos de determinadas correntes filosóficas e aplicando-os à filosofia em si. Ele pressupõe certa filosofia subjetivista para afirmar que a filosofia é subjetiva. Mas qual o sentido de dizer que tal coisa não é a premissa da filosofia após dizer que a filosofia varia de acordo com a corrente filosófica?

Ora, se nenhuma corrente filosófica está certa, é extremamente fatal dizer que há uma certeza sobre a filosofia, isto é, que "ela trabalha com correntes de pensamento". Se a premissa da filosofia varia em cada corrente, então não há uma "premissa da filosofia", mas apenas uma premissa de cada corrente filosófica. O sr. Clarion admite, portanto, que não está nos dizendo o que é a filosofia, e sim o que diz a corrente filosófica da qual ele faz parte - ainda que inconscientemente. E, se esse é o caso, ele está permitindo que todos estejam certos e errados ao mesmo tempo, o que torna o seu próprio vídeo um mistério em termos de propósito.

Se três homens fazem três afirmações distintas sobre o conceito de maçã, isso não significa que nenhum deles está correto sobre o que é uma maçã, pois, logicamente, essa conclusão aparece do nada e é injustificável. Dizer que o conceito de maçã depende da mente é negar que as maçãs existam sem depender da nossa mente, o que é absurdo. Mas admitir que as maçãs existam sem depender da nossa mente significa admitir uma verdade filosófica, metafísica: que o mundo existe independentemente de nós. Se a espécie humana deixasse de existir o mundo deixaria de existir? Nós podemos admitir que não, mas é apenas a filosofia que nos permite fazê-lo. Afinal, se não existe o homem, como o homem poderá verificar que o mundo não deixou de existir com ele?

É a ciência que não pode oferecer respostas definitivas, absolutas sobre qualquer coisa, pois a ciência é auto corrigível - e há sempre algo a ser corrigido -, está sempre aprendendo, preenchendo lacunas. Não pode ser chamado cientista alguém que diz: "Não há mais o que investigar; já sabemos tudo que podemos saber". E nem o filósofo diria uma coisa dessas, mas é a filosofia, e não a ciência, que afirma que as coisas de fato existem, e que o mundo é real, em vez de ser um sonho de um lunático. A ciência pressupõe a existência: não se preocupa em provar que o mundo existe, mas sim em investigar o mundo existente.

O próprio Nietzsche afirmou que primeiro deve vir a filosofia, para que então a ciência ganhe uma direção, um direito de existir [5]. Ademais, a distinção que Mário Ferreira dos Santos faz entre as duas também é útil:
Enquanto a Filosofia é um saber puro universal, a Ciência é um saber culto particular, pois a Ciência dedica-se ao estudo dos fenômenos, enquanto a Filosofia os ultrapassa para penetrar nas primeiras e últimas causas, quando aquela se atém apenas às causas próximas.
... A Filosofia trabalha com o contingente e o necessário, o relativo e o absoluto, enquanto a Ciência circunscreve-se apenas ao contingente do acidental e ao relativo [6].
Como se pode perceber, essa definição é drasticamente oposta à do sr. Clarion, mas eu não quero prolongar mais algo que a própria filosofia do vlogger ateísta rejeitará pela sua natureza. Mas mantenho que aceitar essa filosofia, uma filosofia que nega a validade da filosofia em si, significa destruir não só a ciência, mas especialmente o que chamamos Lógica Formal [7], o que seria um golpe fatal na razão.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, Hereges, trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito. Campinas: Ecclesiae, 2011, págs. 28-9.
  2. Rádio Vlogs, "Ateu vs. Cristão 2", 9 de junho de 2012. Disponível em radiovlogs.com.br.
  3. Caos & Regresso, O bom ateu. Disponível em caosdinamico.com.
  4. O Fantástico Mundo de Clarion, 12 de junho 2012: Filosofia (só que não).
  5. "Sempre tem de vir em primeiro lugar uma filosofia, uma 'fé', para que a partir dela a ciência possa adquirir uma direção, um significado, um limite, um método, um direito de existir [...]. Continua hoje a ser uma fé metafísica o que sustenta a nossa fé na ciência". Citado em Ernest L. Fortin, "The Bible Made Me Do It: Christianity, Science and the Environment", em J. Brian Benestad, ed., Ernest Fortin: Colected Essays, vol. 3: Human Rights, Virtue and the Common Good: Untimely Meditations on Religion and Politics, Rowman & Littlefield, Lanham, Maryland, 1996, pág. 122.
  6. Mário Ferreira dos Santos, "Ciência", em Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais: A-C. São Paulo: Editora Matese, 1963, pág. 267.
  7. Mário Ferreira dos Santos, Lógica e Dialética. São Paulo: Paulus, 2007, pág. 41: "Para a Lógica Formal, o conceito é um objeto ideal intemporal"; "Enquanto o conceito para a Lógica Formal se apresenta como uma estrutura universal, isolada do tempo e do espaço, alheio e libertado das contingências individuais, a operação psicológica varia de um indivíduo para o outro, e no próprio indivíduo, segundo as variações que ele conhece no decurso da vida"; "É o conceito o elemento sobre o qual se apoia a lógica".

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