10 de junho de 2012

Deus e a criação

Caros leitores, esse é o primeiro guest post do nosso blog, e o autor convidado é Antunes Fernandes, que escreveu sobre o conceito de Deus. Essa postagem será útil especialmente àqueles que acompanharam o debate entre os ateus Daniel Fraga, Guilherme Tomishiyo e Yuri Grecco contra os cristãos Leonardo Bruno, Rodolpho Loreto e Samuel Cardoso - 09 de junho -, em que foi possível perceber várias falhas no entendimento filosófico do conceito de Deus por parte dos ateístas. Todo o conteúdo abaixo é de autoria do convidado, e ajudará a esclarecer algumas confusões populares sobre o que significa Deus.

Atenciosamente, Vinicius Oliveira.

Antes de se argumentar a favor da existência de Deus, é preciso primeiro definir o que é Deus. Nesse artigo será defendida a existência do Deus cristão, defendido por São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Santo Anselmo, e outros doutores e filósofos, tanto da Igreja, quanto de fora dela. Deus: onisciente, onipresente, onipotente, perfeito, infinito, atemporal e transcendente.

Se não existe um criador, então o universo se criou sozinho, logo o universo tem que ser finito, pois se fosse infinito o universo seria Deus, pois toda criação tem que ser finita, e se o universo fosse Deus, então Deus existiria. Mas se algo que é finito, pode se criar sozinho, por que Deus, que é infinito e perfeito não pode se criar sozinho?

O ateu pode argumentar: "O universo se criou sozinho, e, como você mesmo diz, é finito. Por que Deus que também se criou sozinho é infinito? Ele tem que ser finito como o universo, e se ele é finito então ele não é Deus".

Mas Deus não é criado, Deus não se criou, pois se Ele tivesse se criado teria que ter um início, e Deus como ser infinito não tem início, pois se Ele dependesse da criação não seria completo (o universo não é completo, pois é finito, e isso diferencia Deus do universo). Ele só pode ser Deus se Ele não depende de tal criação. Se Ele não depende de tal criação, então Ele é perfeito e sempre existiu independentemente de tempo, espaço e criação, pois tais regras só se aplicam a coisas imperfeitas e materiais, como o universo. O universo não pode ter se criado sozinho, pois ele não é infinito, característica que o diferencia de Deus, que o criou.

Tudo que passa a existir é finito, e a partir do momento que as coisas nascem (seja um humano, ou um objeto ou qualquer coisa) o tempo de tal coisa passa a ser contado, passa a ser rolado. O tempo foi criado no Big Bang a partir do momento que as coisas finitas passaram a existir (inclusive o tempo). Sendo Deus algo atemporal, esta lei não se aplica a Deus, pois se Deus dependesse do tempo para existir, Ele passaria a existir somente depois do Big Bang e não poderia ter criado o universo, e não seria Deus, pois para ser Deus Ele precisa ser completamente independente.

Se o tempo teve uma origem, então existiu um momento do passado em que ele passou a existir, assim como todas as coisas finitas.

Pois bem, a pergunta: "Quem criou Deus?" é totalmente irracional, pois antes do Big Bang não existia tempo, então algo que não foi criado não pode ter tido um início ou uma origem, e não pode ter tido seu tempo rolado a partir de sua criação. Como uma coisa pode ter sido criada antes de existir o tempo? Pois é o tempo que define o início de todas as coisas criadas. Perguntar quem criou Deus é o mesmo que perguntar qual o cheiro do azul.

Perceba que a palavra "criou" da pergunta acima, é um verbo e está no passado. Ora, se ela está no passado, então ela precisa do tempo para fazer sentido. Se antes do Big Bang não havia tempo então essa pergunta não faz o menor sentido.

Finito é tudo que passa a existir em algum momento do passado. Tudo que é finito tem que ser temporal, pois passou a existir em um momento, e todo momento precisa do tempo, e todo tempo precisa do ser criado. Deus não é criado por não existir "momento" antes da criação, por não existir tempo, por não existir ser criado. O tempo passou a existir assim que o universo foi criado, e o universo é finito justamente por ter sido criado. Deus é atemporal exatamente por não ter sido criado. Se Deus fosse criado, logicamente Ele não poderia ser atemporal, e logicamente não seria Deus, pois seria criado e temporal. Deus só teria um inicio se Ele tivesse passado a existir depois do big bang, junto com todas as coisas materiais e finitas.

O tempo é intrínseco à criação. Não é a criação que depende do tempo para existir, e sim o contrário. Por isso Deus não precisou criar o tempo para criar o universo. Bastou criou o universo para o tempo existir.

O passado é tal porque não é mais; o futuro é tal porque não é ainda; e se o presente fosse presente e não se transformasse continuamente em passado, não seria tempo, mas eternidade. E é exatamente neste estado imutável que Deus existe: Deus existe no agora perpétuo.

O ateu diz: "Mas se Deus pode tudo, ele poderia criar algo finito e atemporal, pois ele pode tudo".

Ora, Deus pode tudo, mas dentro de sua lógica perfeita, pois se não assim fosse, ele poderia existir e não existir ao mesmo tempo, e isso é algo impossível, pois Deus é perfeito, e se ele é perfeito ele tem que existir, pois nada que não exista é perfeito.

Ateu: "Então Deus depende de sua própria lógica perfeita e regras e só pode executar coisas que estão dentro de tais lógicas, logo, se ele depende, ele não é perfeito".

Deus não depende de tal lógica, Ele é a lógica, em ato. Do mesmo modo que Deus não possui a perfeição: Ele é a perfeição. Do mesmo modo que Deus não possui o infinito, Ele é o infinito. Logo, Ele depende apenas d'Ele mesmo. E sim, tudo só pode ser executado dentro de tal lógica, pois não existe nada fora de tal lógica; e se existisse Deus não seria perfeito. Deus não tem potência para se tornar mais perfeito, ou mais poderoso, nem menos perfeito e menos poderoso, pois Ele é perfeito em grau absoluto. Uma característica de qualquer coisa finita e imperfeita é ter potência para se tornar melhor ou pior; Deus sendo perfeito não pode ter potencial para se tornar melhor ou pior, maior ou menor, pois já se encontra em um grau absoluto.

Não pode haver nada além de Deus, pois, se existisse, Deus teria uma borda ou uma margem. Em algum momento Deus acabaria, ou chegaria ao fim. E aí viria  pergunta: o que há depois de Deus? Se existe algo além de Deus, então Ele não seria infinito e absoluto. Deus é perfeito em grau absoluto e infinito, logo não pode ser dividido, subtraído, somado ou multiplicado, pois todas essas grandezas matemáticas aplicadas a qualquer coisa infinita daria infinito. Por esse motivo é impossível existir duas ou mais coisas infinitas ou absolutas.

Podemos medir qualquer extensão em nossa realidade, pois todas têm um fim um e início. Todas tem uma borda no qual acabam, e por isso é possível medi-las. Mas como vou medir uma extensão que não tem medida? Medida é uma quantidade fixa que serve para avaliar extensões ou quantidades mensuráveis. Como vou medir uma quantidade imensurável? Qualquer grandeza de medida aplicada a uma extensão imensurável daria um resultado imensurável, não alterando em nada a natureza do ser exposto ao cálculo da medida.

Deus não é infinito quantitativamente, mas sim qualitativamente, pois não pode ser considerado nem como o todo, e nem como uma parte do todo, por que o todo é feito de partes. Não existe um Deus constituído de infinitas partes, mas sim um único Deus com infinitude qualitativa e singular em grau absoluto e homogêneo.

Qualquer coisa infinita não pode caber em lugar algum. Não é Deus que está em algum lugar, pois "lugar" pressupõe uma área determinada de espaço. O espaço, assim como o tempo, passou a existir somente depois da criação das coisas finitas e materiais. Se Deus fosse passivo de "estar em algum lugar", então deveria ter passado a existir somente depois da criação, e não poderia ter criado. Não é Deus que está lá, é o todo que está em Deus. Por isso Deus é onipresente.

Uma das vias de provar a existência de Deus é provando a existência do infinito.

O infinito tem que existir, pois engloba exatamente tudo existente - dentro ou fora do universo. Deus é tal coisa infinita, o que o faz onipresente e transcendente.

Mas então diz o ateu: "Mas não se sabe o que há depois do universo. Depois do universo pode existir o nada, simplesmente o nada, e não Deus, como você, crente, afirma".

No entanto, tal afirmação é contraditória, pois o nada é ausência de algo, logo tem que haver algo depois do universo. Se depois do universo existisse o nada, então o nada seria infinito, mas o nada não pode ser infinito, tem que ser finito, pois o nada depende do tudo para existir. O nada é um buraco, um vácuo.

Imagine uma folha de papel, e nessa folha há um buraco no meio. O buraco não existe, o que existe é uma folha em que falta uma de suas partes. Logo, o buraco para existir depende da folha, pois sem folha não existe o buraco - e nem poderia. Um buraco no chão depende do chão para existir, ou um buraco na parede depende da parede. Logo, todo buraco é finito, pois é dependente de algo, e tudo que depende é finito. Então, afirmar que o nada além do universo é o infinito é ilógico.

Supor que o universo veio do nada é o mesmo que supor que o universo veio de um vácuo, ou de um buraco, mas tal afirmação é absurda, pois como o exemplo citado acima, um buraco não pode criar a folha, mas só a folha pode criar o buraco, pois não é a folha que está no buraco, mas é o buraco que está na folha. Supor que o universo veio do nada é o mesmo que supor que o buraco criou a folha, ou que a folha está no buraco, ao invés do buraco estar na folha. Sendo assim, o universo deve estar em algum lugar, pois se estivesse no nada como os céticos afirmam, teríamos o problema da folha. Seria o todo (universo) dependendo do nada. Absurdamente ilógico. Até o nada vem de algum lugar.

Segunda afirmação: O infinito tem que ser todo poderoso e completo. Explicação: O infinito para ser infinito (sem início e nem fim) tem que ser completo e totalmente poderoso, não lhe faltando nada e nem dependendo de nada, pois não existe ausência no infinito, pois se existisse, não seria infinito. A folha quando tem um buraco no meio carece de alguma coisa. Falta o pedaço de papel que foi retirado para o buraco ser feito. Mas a folha não é infinita, logo, ela pode sofrer uma ausência de algo. Mas  Deus não pode sofrer tal ausência, pois Ele é infinito. Se Deus (que é o infinito) não fosse completamente e totalmente poderoso, teríamos um problema. Pois se uma coisa não é totalmente poderosa, completa e independente, então lhe falta algo pra ser. Se lhe falta algo pra ser, então tal coisa se torna finita. Se tornando finito, Deus deixa de ser Deus.

Pois bem, provando a existência do infinito, e que o infinito para ser infinito tem que ser totalmente poderoso e completo, se prova a existência de Deus. Depois do universo, tem que haver alguma coisa, pois o nada não existe. E há: que é Deus. Todo buraco depende de algo para ser feito, e buraco é um nada, um vazio e um vácuo, logo não pode ser infinito, pois é dependente. Do mesmo modo que a escuridão depende da luz para existir, o mal depende do bem e o frio depende do calor. O que depende é submisso.

Conclui-se também que Deus tem que ser totalmente e completamente bom, pois se existisse uma parcela de maldade em Deus, então Ele sofreria uma ausência, deixando de ser infinito, pois o mal nada mais é do que a ausência do bem. Logo, Deus como ser infinito e já totalmente preenchido de bondade (pois não sofre ausência), tem que ser completamente bom, e perfeito.


Por Antunes Fernandes P. de Andrade.

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