Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

14 de julho de 2012

Mundo Quântico e a refutação de Deus

Recentemente meu amigo e idealizador deste blog escreveu sobre o patriotismo e o pouco entendimento que a maioria das pessoas que falam sobre ser patriotas, tem sobre o assunto [1]. Hoje, gostaria de abordar nessa postagem algo relativamente distante do patriotismo, mas que de forma semelhante, é muito falado por certas pessoas e pouco entendido pelas mesmas.

Não espero proporcionar uma aula sobre Física Quântica [2][3] aos leitores, até porque não sou a pessoa mais qualificada para tal e garanto que muitos dos nossos leitores possuem um entendimento muito maior sobre esse campo do conhecimento do que eu próprio. Minha motivação ao escrever esse texto vem, principalmente, das declarações "vitoriosas" de alguns neo-ateus, a respeito da suposta detecção do famoso bóson de Higgs no último 4 de julho de 2012 [4] , envolvendo uma possível refutação final da existência de Deus baseada na confirmação da existência da partícula, que ficou mais conhecida fora do meio científico como "partícula Deus", nome referido no livro "The God Particle: If the Universe Is the Answear, What Is the Question?" [5] de 1993, do físico Leon Lederman, e que em partes é responsável pelo mal entendido - assumamos que seja isso apenas - ou mesmo má compreensão de muitos sobre a verdadeira repercussão de tal descoberta.

Dessa forma, essa postagem é dedicada, principalmente, aos leitores teístas que foram ou serão pegos por ateus desonestos e que ficaram sem resposta à mais nova "argumentação científica" contra a existência de Deus. Será dividida, para fins didáticos, em duas partes: primeiramente, tentarei passar alguns conceitos básicos sobre o estudo da física de partículas, e então, concluirei com as verdadeiras implicações da possível descoberta do bóson de Higgs e como estas estão, na verdade, longe da repercussão teológica que os neo-ateus desejam.

A Teoria Quântica surgiu no início do século XX e é parte da Física Moderna. A partir dos trabalhos do físico alemão Max Planck [6], após uma época de muitas certezas na Física Clássica com a Mecânica de Newton e o Eletromagnetismo de Maxwell bem estabelecidos, estudando a radiação de corpos negros, o mesmo propôs que a Energia não variasse de modo contínuo, mas sim, em valores discretos, ou seja, através de unidades mínimas inteiras, a que chamou de quanta (soma de vários "quantum") de Energia, o que gerava um caráter descontínuo à natureza, algo contrário ao que era estabelecido pela Física até então.

Junto com os trabalhos de Planck, as teorias lançadas por Einstein - estudando o efeito fotoelétrico - acerca da natureza da luz (dualidade onda-partícula), de certa forma baseadas na proposta de Planck da quantização da energia, elucidando a existência de pacotes ou quanta de luz (posteriormente denominados fótons) como partículas que compunham a mesma, foram igualmente revolucionárias e a Física, como ciência, tomou um novo rumo.

Até então, tudo que era partícula tinha seu movimento governado pelas leis da Mecânica Newtoniana e a radiação pelo Eletromagnetismo de Maxwell. No entanto, aquilo que estava bem estabelecido pela Física Clássica para o mundo macroscópico, não se aplicava para o mundo subatômico, o que ficou evidenciado, por exemplo, através do movimento dos elétrons. Através do experimento denominado de "fenda dupla", observou-se que os elétrons, apesar de serem partículas, possuíam um padrão de movimentação característico de ondas (interferência) e que sua trajetória não tinha como ser conhecida de fato.

Além disso, a partir do "Princípio da Incerteza" de Heisenberg, nunca poderíamos definir com certeza características como posição e velocidade simultâneas de uma partícula, uma vez que ao tentar aferi-las, já estaríamos afetando o sistema, resumindo tudo num conjunto de probabilidades (incerteza), que é uma das palavras chaves da Mecânica Quântica, e que deu e tem dado um nó na cabeça de muitos físicos famosos, inclusive do próprio Einstein, que declarou recusar que "Deus jogava dados" [7], referindo-se à difícil aceitação de que alguns aspectos das leis da natureza não eram exatos e precisos, como era de costume na Física Clássica, mas sim, governados pela incerteza das probabilidades. 

Uma das importâncias da Teoria Quântica é, então, a explicação dos fenômenos diferenciados que ocorrem no mundo subatômico, que a Física Clássica não foi capaz de explicar. E entramos, agora, nesse mundo de partículas, do qual faz parte o bóson de Higgs.
Modelo padrão

O modelo padrão da Física de partículas [8][9] descreve a existência de partículas elementares que compõe a matéria existente no Universo (exceto a matéria escura, ainda, de natureza pouco conhecida), que são ditas elementares por serem até então, indivisíveis. Tais partículas são divididas em basicamente dois grupos: os férmions (spin semi-inteiro), que são responsáveis por constituir a matéria em si, e os bósons (spin inteiro), que são responsáveis pela transmissão, ou seja, por mediar as forças fundamentais da natureza, que trataremos mais adiante.

Dentre os férmions, estão presentes ainda, duas classes de partículas: os quarks (6 tipos), que interagem através das 4 forças fundamentais, formando os bárions (prótons e nêutrons), que são trincas (combinações de 3 tipos) de quarks, e os mésons, que são pares (combinações de 2 tipos) de quarks, ou seja, há uma ocorrência confinada dos quarks em partículas maiores (compostas), denominadas hádrons (prótons, nêutrons, etc); e os léptons, que não interagem através da uma das forças (a força forte). Dentre os léptons estão o elétron, o múon, o tau, e os seus respectivos neutrinos, que diferente deles, não possuem carga.

Os bósons são os responsáveis por mediarem as forças fundamentais da natureza, ou seja, são responsáveis por transmitir a interação entre férmions através da sua respectiva força fundamental. Esclarecendo, os tipos de bósons são: fóton, responsável por mediar a força eletromagnética; glúon, responsável por mediar a força forte (entre quarks, uma vez que léptons não interagem fortemente); bósons W e Z, responsáveis pela força nuclear fraca (também atuando sobre os léptons); o gráviton, uma partícula hipotética que seria responsável por mediar a gravidade (devido tal caráter hipotético, a gravidade não é tratada no modelo padrão); e por fim o bóson de Higgs [10], para o qual maior atenção será dada agora.

O modelo padrão teoriza com bastante clareza a estrutura da matéria e consequentemente, o funcionamento do Universo. No entanto, ainda não se estabeleceu bem a forma como ocorreu a obtenção de massa pelas partículas elementares descritas acima. Dessa forma, o físico Peter Higgs, em 1964, propôs que, logo após o evento do Big Bang, com o subsequente resfriamento nos primeiros momentos de "vida" do Universo, originou-se uma força, a qual foi denominada "Campo de Higgs" (que permearia todo o espaço), e a partir desta, surgiram partículas subatômicas, o famoso bóson (lembrando que estas são partículas responsáveis por transmitir alguma força) de Higgs, responsável então por transferir massa às outras partículas fundamentais que se seguiram. Por essa razão é que a existência do bóson de Higgs é considerada essencial para a confirmação do modelo padrão. 

Neste momento, fica claro que a constatação do bóson de Higgs, pouca relação tem com algum argumento para a não-existência de Deus, uma vez que tal partícula foi originada pós-existência do Universo, de tal maneira que está longe de explicar os eventos que precederam a criação do mesmo, onde Deus é então postulado a partir de argumentos cosmológicos. Assim como o Universo em si, o Campo e o bóson de Higgs se enquadram na categoria de seres contingentes, já que não são eternos, mas sim, passaram a existir após o Big Bang. A diferença é que estes, segundo a teoria do modelo padrão, tornaram possível a sustentação de todo o restante da matéria, e talvez seja esta característica, de certa forma, divina, uma das razões para que tenham escolhido o apelido de "partícula Deus" ao bóson de Higgs, em função do nome não tão apropriado ("Goddamn particle" ou "Partícula maldita") que Lederman havia sugerido inicialmente. 

Muita pesquisa ainda deve ser realizada, a Física Quântica é uma das áreas que se desenvolveu mais rapidamente no último século e muitas contribuições para a melhoria da vida humana são resultado das descobertas realizadas nesse campo da Ciência. A descoberta do bóson de Higgs deve ser comemorada por muitos motivos que não a suposta "vitória" do ateísmo e os cientistas sérios sabem disso. 

A Ciência genuína está aberta às possibilidades e creio que isso tenha ficado evidenciado com a reviravolta que o mundo quântico fez em nosso conhecimento do Universo do último século pra cá. É possível que descobertas como o bóson de Higgs sejam lembradas no futuro como um dos caminhos pelos quais nos permitiram chegar ao conhecimento dos mecanismos da ação de Deus. Por que não? No momento, vamos apenas aproveitar esse mundo novo a ser ainda tão explorado.


Referências:
  1. Caos & Regresso, Bandeiras para crianças. Disponível em caosdinamico.com.
  2. Com Ciência,  A Física Quântica: o que é, e para que serve, 10 de maio de 2001. Disponível em comciencia.br.
  3. National Geographic, Além do Cosmos: Mecânica Quântica. Disponível em natgeo.com.br. Veja no Youtube.
  4. Interactions.org, CERN experiments observe particle consistent with long-sought Higgs boson, 4 de julho de 2012. Disponível em interactions.org.
  5. Amazon.com, The God Particle: If the Universe Is the Answear, What Is the Question?. Disponível em amazon.com.
  6. Com Ciência, Max Planck e o início da Teoria Quântica, 10 de maio de 2001. Disponível em comciencia.br.
  7. Vya Estelar, O primeiro debate Einstein-Bohr. Disponível em uol.com.br.
  8. Center for Numerical Relativity and Nuclear Astrophysics, Modelo Padrão de Partículas Fundamentais e Interações Brasileiro. Disponível em socrates.if.usp.br.
  9. Revista Brasileira de Ensino de Física, O Modelo Padrão da Física de Partículas. Rev. Bras. Ensino Fís. vol. 31 no. 1. São Paulo: abril de 2009.
  10. Último segundo, Perguntas e Respostas sobre o Bóson de Higgs, 4 de julho de 2012. Disponível em ultimosegundo.ig.com.br.

9 de julho de 2012

Bandeiras para crianças

O MMA é um esporte controverso, e argumentos razoáveis podem ser construídos para defendê-lo ou para atacá-lo. Para o meu próprio alívio, não farei nenhuma das duas coisas: uso o exemplo desse esporte para falar de algo que algumas pessoas parecem ter relacionado a ele nos últimos dias - como já fizeram com tantos outros por várias décadas. Falo do patriotismo, uma palavra que em nossos dias já não tem muito sentido, e que sempre ressurge com significados bizarros.

Em geral, o patriotismo brasileiro parece surgir do futebol, mas a última guerra pelo amor à pátria tinha outro nome: "UFC 148" [1]; e o inimigo era os Estados Unidos da América. Não farei um único comentário sobre a batalha, mas pretendo comentar de forma breve o que houve antes dela: um lutador norte-americano fez declarações polêmicas sobre o Brasil - inclusive algumas bastante verdadeiras -, e de repente o povo brasileiro, patriota ao ponto de saber que "o Brasil é penta", se encheu de um ódio peculiar causado pela mais sutil sugestão de que o Brasil é um país problemático - a mesma reação testemunhada por nós no caso de Stallone [2] e Robin Williams [3].

Não me entendam mal. O futebol é um esporte emocionante, tanto para o espectador quanto para quem está em campo. A infância de boa parte dos brasileiros se resumiu a jogar bola, e a minha não foi diferente. O MMA é outro esporte interessante, mas a menos que cair nas mãos de primos mais velhos e outras crianças maiores na escola possa ser considerado algo remotamente ligado a ele, minha infância está basicamente livre de socos e pontapés - com exceções dos momentos secretos inspirados por Van Damme e Bruce Lee. Também não tenho nada contra o patriotismo, mas aqui está o ponto importante que defenderei a partir de agora: boa parte do povo brasileiro não sabe o que é isso.

Quando eu era criança, tendia naturalmente a gostar de outros países. Gostava da Itália, da Espanha, da França, dos EUA, da Dinamarca, da Nigéria, do Japão, e nem sabia por quê. Talvez por achar as respectivas bandeiras bonitas ou por qualquer motivo infantil parecido. Mas quando eu passei a conhecer melhor esses países, eu não passei a odiá-los: eu passei a gostar ainda mais de cada um - e de muitos outros. Eu descobri que todos esses países tiveram seus heróis, e que resistiram a grandes desastres: foram vilões de certas épocas e vítimas de outras. 

Isso poderia ser resumido dizendo que cada país é um povo, e que povos são compostos por pessoas - pessoas que erram e acertam, pessoas saudáveis e insanas -, o que parece óbvio demais, mas é talvez o truísmo mais ignorado por pessoas idiotas que acham bonito odiar todos os países do mundo, como se a generalização de um país só já não fosse estúpida o suficiente. São aquelas pessoas que não admitem que estrangeiros tratem o Brasil como uma selva, mas não pensam duas vezes antes de chamar os japoneses de bizarros e os norte-americanos de assassinos.

Há, de fato, muitas generalizações que podem ser consideradas saudáveis e engraçadas, e muitas que são inevitáveis. Não há ofensa na afirmação de que os brasileiros amam o futebol, apesar de muitos brasileiros odiarem qualquer esporte. O problema começa quando alguém afirma que os brasileiros são desonestos, sem conseguir pensar numa exceção, numa única pessoa realmente digna, que devolve o troco errado que recebeu e se chateia com o primeiro sinal de injustiça no dia-a-dia.

Mas infelizmente esse é o brasileiro que se vê condenando os outros países. Ele condena a Argentina utilizando certa característica que poderia muito bem ser utilizada para condenar toda a humanidade. Em sua ilusão que o faz pensar que amar o próprio país é desprezar todos os outros, ele condenará a arrogância de seus vizinhos enquanto se orgulha por ser imbatível no octógono ou nos gramados. Chamará os franceses de enganadores enquanto se orgulha de algo chamado "jeitinho brasileiro".

A verdade é que a desonestidade brasileira, enquanto abundante, não é brasileira: é humana. Em Brasília há uma concentração abundante de bandidos, mas nas casas das famílias tradicionais há uma concentração abundante de santos. Isso é um fato, e é um fato para a humanidade. A China é um país desprezível, mas não é pelo seu povo oprimido, e sim pelo seu Governo opressor. Quando dizemos que a China não é um exemplo para o mundo, não estamos pensando na imagem do sábio ancião chinês, mas no cruel Estado chinês.

É por isso que é preciso ser um grande imbecil para pensar que todos os norte-americanos apoiaram George W. Bush em suas investidas militares, como é preciso ser um grande imbecil para pensar que atualmente todos apoiam a administração de Obama. Eu não considero nenhum dos últimos presidentes brasileiros como remotamente representantes do brasileiro comum. Os últimos presidentes do Brasil são seres desprezíveis, e talvez a maioria dos presidentes da história do Brasil tenha sido desprezível. E novamente eu arriscaria dizer que o mesmo pode ser afirmado sobre os líderes da história da humanidade, sem limitações geográficas.

"Todos os homens podem ser criminosos, se tentados; todos os homens podem ser heróis, se inspirados" [4], e o homem normal, de todos os tempos e de todos os lugares caiu em tentação, mas também aprendeu a evitá-la: aprendeu a ser prudente. Entendeu que é possível não morrer afogado evitando entrar na água. A única razão pela qual atualmente mais homens parecem ser criminosos, ou pela qual todos os homens parecem ser criminosos, é que a filosofia contemporânea nega a tentação e o crime, e todos os homens criminosos cometem seus delitos como se estivessem fazendo caridade e promovendo o bem entre os homens. Um líder conta mentiras não por pensar apenas que diz a verdade, mas por considerá-la uma mentira necessária e salvadora.

Mas eu não devo me preocupar com a psicologia por trás da mente moderna. Devo voltar para o patriota moderno, aquele que não se preocupa de forma alguma com o futuro do país, mas denuncia diariamente os outros homens que são como ele. Sua denúncia é poderosa porque não é uma denúncia sobre o vizinho: é uma denúncia sobre o espelho. Odiar o patriotismo alemão e rir do idiota português não faz nada pela miséria nacional, e não prova que nossa terra é pátria amada idolatrada de notáveis gênios.

Não se prova amor pela própria esposa odiando todas as outras mulheres do mundo. Um homem pode provar seu amor fazendo sacrifícios que não faria por nenhuma outra mulher, ou com sacrifícios que ele não faria nem por ele mesmo. Mas como um homem poderia provar seu amor por uma mulher desprezando todas as outras mulheres, como se todas elas não fossem dignas de serem amadas? Qualquer pessoa que visse esse homem em seu modo bizarro de amar sua esposa pensaria tratar-se não de um homem, mas de algo pior que um animal. E, da mesma forma, quando vejo um homem odiando todos os outros países para provar que ama o próprio país, não penso nesse homem como um patriota, mas imagino que ninguém pensaria ser um exagero chamá-lo de genuíno idiota.

Eu não preciso definir o que é um patriota de verdade, pois a humanidade conhece tal definição instintivamente. Mas quando os homens, motivados por uma relativização cotidiana de valores, entendem e praticam as coisas ignorando o que as coisas realmente são, nós precisamos puxar suas orelhas. As pessoas que pensam que as generalizações do sr. Sonnen - que para mim não passaram de marketing, e um marketing que se provou bastante eficaz - justificam generalizações sobre a América deveriam, no fim das contas, ter torcido por ele, pois é ele que as representa.

Eu concluirei dizendo isso: a única maneira sensata de ser um patriota é amando a humanidade, e isso é impossível se começarmos a demarcar as fronteiras do nosso amor. Quando eu era criança admirava sem motivo muitos países; e hoje, enquanto cresço, amo sem motivo todos eles.


Referências:
  1. UFC 148: Silva vs. Sonnen II, 7 de julho de 2012. Disponível em br.ufc.com.
  2. G1, Stallone faz comentário politicamente incorreto sobre filmar no Brasil, 23 de julho de 2010. Disponível em g1.globo.com.
  3. G1: Edição Rio de Janeiro, Robin Williams faz piada de mau gosto sobre escolha do Rio para as Olimpíadas, 1 de dezembro de 2009. Disponível em g1.globo.com.
  4. G. K. Chesterton, Heretics. Massachusetts: Plimpton Press, 1919, pág. 71.

4 de julho de 2012

A bondade e o interesse...

Tenho visto muitos ateus, especialmente os ateus que gostam de parecer intelectuais, reclamando de como os cristãos não conhecem a Bíblia, ao passo que sustentam a ideia de que eles a dominam completamente. Em muitas ocasiões bastou que eles falassem algo sobre ela para que ficasse claro como eles não conseguem sequer começar a compreendê-la, mas dentre as muitas gafes dos neo-ateístas que fingem conhecer a Bíblia melhor do que os teólogos, nenhuma é tão divertida e tão popular quanto a que diz que os cristãos fazem o bem em troca da salvação.

Na verdade, encontraremos ateus dizendo que o cristão pratica o bem apenas por buscar salvação, enquanto o ateu faz o bem pela bondade em si mesma [1][2][3][4].

Concederei a esses ateus a existência de uma coisa chamada Bem - sem a qual não pode haver bondade - na cosmovisão ateísta, apesar de implicações do ateísmo negarem essa coisa. Faço isso para poder me preocupar com a parte que se refere exclusivamente aos cristãos, e ao fazê-lo espero deixar claro que a pretensão de ser intelectual dos neo-ateístas não passa de mais uma fraude - mais uma dentre tantas outras já conhecidas por muitos de nós. Uma frase de Isaac Asimov diz que, "lida corretamente, a Bíblia é maior força em prol do ateísmo já concebida" [5]. Isso ilustra perfeitamente a sugestão de que o ateu é quem realmente conhece a Bíblia, enquanto o cristão está equivocado sobre seu próprio Livro Sagrado.

Se os ateus são os que entendem a Bíblia corretamente, os cristãos são mesmo piores que meros ignorantes. Pois se é a interpretação de pessoas como Richard Dawkins e seguidores da ATEA que está correta, dizer que um cristão não entenderia A Bela e a Fera seria pouco perto de seu intelecto insignificante. Mas eu gostaria de interromper essa sequência de suposições e fazer uma denúncia que é muito necessária: muitas dessas pessoas que acusam os cristãos de não entender a Bíblia nunca chegaram a lê-la. Mas eu diria ainda que lê-la não resolve o problema, especialmente se considerarmos que boa parte das pessoas que acham extremamente vital ler a Bíblia já na adolescência é, para a surpresa de ninguém, composta de adolescentes.

Ninguém acharia prudente recomendar Nietzsche para um adolescente de treze ou quatorze anos - e se a questão não fosse a prudência, poderíamos dizer que tal recomendação não seria prática, já que uma pessoa dessa idade não tem maturidade para sequer entender o bigode do autor. Ainda assim há muitas pessoas, novas ou adultas, que acham que a Bíblia é algo banal e fácil de ser entendido e explicado, o que é obviamente uma mentira [6].

Porém, eu entendo que possa parecer uma desculpa dizer que a Bíblia é um livro complexo, mas as pessoas que tratam isso como uma desculpa geralmente acabam provando porque a afirmação é verdadeira. Não é mera questão de tratar os textos no idioma original, aprender um pouco de grego e hebraico, se debruçar sobre as Escrituras por uma semana e achar que o triunfo do estudioso estará garantido: todos os homens que realmente quiseram entender a Bíblia fizeram muito mais que isso. Não dedicaram apenas algumas semanas; mas em muitos casos dedicaram a vida inteira. Do cristianismo primitivo, à Idade Média, aos dias de hoje esses homens e essa dedicação ainda existem, e por algum motivo certos ateus que consultam a Bíblia online em busca de um versículo comprometedor acham que merecem a nossa atenção como esses homens mereceram.

Quando um jovem ateu lê a Bíblia "corretamente", sua conclusão pode ser que o cristianismo é a religião dos fracos - uma conclusão que também pode ser obtida por um velho lunático. Mas quando São Tomás de Aquino estudou a Bíblia, provavelmente de forma equivocada, o resultado foi a Suma Teológica. Pergunte ao jovem ateu o que ele leu dessa obra, e ele talvez diga que se lembra de ela ter sido citada em algum capítulo de Deus, um delírio, em que Dawkins fala das Cinco Vias. E se ele disser que a Suma Teológica só interessa aos cristãos, poderíamos muito bem perguntar o que ele acha da Suma Contra Gentiles.  E essa é a diferença entre alguém que morreu sobre os livros, exausto pelos seus estudos [7], e alguém que consulta o Google e dois ou três livros populares sobre religião e se considera um expert.

A pretensão dos neo-ateus pode também ser desmascarada recordando o fato de que Dawkins considera a teologia algo sem valor [8]. O que ele e seus seguidores fazem é fingir que sabem do que estão falando, para pessoas que não sabem do que eles estão falando - o que pode atrair muita gente, mas não passa de uma tática inspirada em propaganda. O poder da Tradição cristã está justamente no fato de que ela se refere a um conhecimento acumulado em dois mil anos, enquanto o conhecimento dos críticos da tradição não tem idade para entrar na escola primária. Quando uma objeção ao cristianismo surge com a aparência de ser uma objeção nova e fresca, é possível buscar uma refutação no século IV, na obra de Santo Agostinho, ou talvez antes, no século III, na obra de Orígenes de Alexandria.

Seja como for, deixarei de lado essas questões secundárias e me preocuparei com o que é importante nesse momento: provar que o entendimento neo-ateísta do cristianismo é igual ao de uma criança, ou, para ser mais justo, inferior ao de uma criança. Para isso recorrerei à obra mais apropriada para fazê-lo: Cristianismo puro e simples, de C. S. Lewis. É a obra mais apropriada justamente porque nela o autor expõe a "fé comum a praticamente todos os cristãos em todos os tempos" [9], ou seja, a que é comum aos católicos romanos, protestantes, ortodoxos gregos. Aqui está o que Lewis tem a dizer sobre a bondade em troca de salvação:
Se tínhamos a idéia de que Deus nos impunha uma espécie de prova na qual poderíamos merecer passar por tirar boas notas, essa idéia tem de ser eliminada. Se tínhamos a idéia de uma espécie de barganha - a idéia de que poderíamos cumprir a parte que nos cabe no contrato e deixar Deus em dívida conosco, de tal modo que, por uma questão de justiça, ele ficasse obrigado a cumprir a parte dele -, ela deve ser eliminada também.

Creio que quantos possuem uma vaga crença em Deus acreditam, até se tornarem cristãos, nessa idéia da prova ou da barganha. O primeiro resultado do verdadeiro cristianismo é o de reduzir essa idéia a pó. Quando a vêem reduzida a pó, certas pessoas chegam à conclusão de que o cristianismo é um embuste e dele desistem. Essa gente parece imaginar que Deus é extremamente simplório. Na verdade, ele sabe de tudo isso. Uma das intenções do cristianismo é justamente reduzir essa idéia a pó. Deus está à espera do momento em que você vai descobrir que jamais conseguirá tirar a nota mínima para passar nesse exame, e não poderá jamais deixá-lo em dívida [10].
Uma pessoa que conheça o cristianismo saberá disso obrigatoriamente, pois não existe cristianismo sem algo chamado Graça. Quando alguém diz que, sendo bom, merecerá a salvação, ele está necessariamente ignorando como o cristianismo oferece a Salvação. O cristianismo oferecerá a salvação a todos, mas jamais afirmará que ela é merecida por alguém. Isso é exatamente o que o cristianismo não afirma, e se algum cristão pensa o contrário, não vejo como os ateístas que pensam como eles poderiam dizer alguma coisa, já que estão igualmente enganados.
Com isso vem outra descoberta. Todas as faculdades que você possui, sua faculdade de pensar ou de mover os membros a cada momento, lhe são dadas por Deus. Mesmo se dedicasse cada momento de sua vida exclusivamente ao seu serviço, você não poderia dar-lhe nada que, em certo sentido, já não lhe pertencesse. Logo, quando uma pessoa diz que faz algo para Deus ou lhe dá algo, é como se fosse uma criança pequena que interpelasse o pai e lhe pedisse: "Papai, me dê cinqüenta centavos para lhe comprar um presente de aniversário." E claro que o pai dá o dinheiro e fica contente com o gesto do filho. Tudo é muito bonito e muito correto, mas só um imbecil acharia que o pai lucrou cinqüenta centavos com a transação [11].
Eu poderia ir mais longe e dizer coisas bastante específicas sobre o que o cristianismo ensina e que todos os cristãos aceitam, mas não vejo a utilidade nessas adições que são conhecidas por qualquer criança que vai à escola dominical ou à catequese. Mas quando muitos ateus falam sobre como eram religiosos e como uma jornada intelectual os levou ao ateísmo, eu não tenho interesse em negar essa jornada, apesar de suspeitar que todos eles tenham dormido nessas aulas de que falo.

O ponto fundamental, no entanto, é esse: se as pessoas que se consideram tão bons conhecedores do cristianismo falham em entender coisas tão básicas da doutrina cristã, por que deveríamos levar a sério essas reinvindicações de conhecimento, quando o conhecimento obviamente não existe? A razão pela qual consideramos Bach um bom músico é sua boa música. Bach não precisou dizer que era um bom músico para que o víssemos assim. O mesmo pode ser dito sobre o bom poeta ou sobre um homem que é bom em qualquer coisa. A maioria das pessoas é humilde o suficiente para reconhecer as qualidades das outras pessoas, e se apressarão em fazê-lo especialmente quando um homem bom em alguma coisa é humilde. Mas quando um homem diz ser bom em alguma coisa sem fazer nada, nós olharemos para ele de uma forma diferente, e por esse homem sentiremos algo mais frio que o mero desprezo.

Declarar-se inteligente e declarar todos os outros imbecis é em si uma grande imbecilidade. Essa declaração sozinha tem o poder de causar aos outros homens uma repulsa equivalente à que sentimos quando vemos um homem que trata uma princesa como se ela fosse uma mulher da vida. A indignação pode ser considerada espontânea, mas será mais sufocante se essa princesa tratar esse homem como se ele fosse um príncipe. Para o nosso caso, do homem que pensa ser maior que os outros, esse fato em si é repugnante, mas cresce à medida que percebemos que esse homem é na verdade muito pequeno, como é o caso de um mentiroso iludido de que fala a verdade. Para esses homens, que pensam ser maiores que todos os outros, o primeiro passo é se livrar dessa arrogância desnecessária, e talvez venha o momento em que a humildade surpreenderá o intelecto com a compreensão. Para esses homens devo recomendar, finalmente, uma reflexão sobre essas palavras de Chesterton:
O sr. Shaw [...] foi ainda infectado, em certa medida, pela fraqueza intelectual primária de seu novo mestre, Nietzsche: a estranha noção de que quanto maior e mais forte for um homem, mais desprezará as outras coisas. Quanto maior e mais forte for o homem, mais se prostrará diante de um caramujo. Que o sr. Shaw mantenha a cabeça altiva e uma expressão desdenhosa ante o panorama colossal de impérios e civilizações, isto por si só não convence ninguém de que ele vê as coisas como são. Qualquer um seria mais plenamente convencido se o visse cravando os olhos, com estupor religioso, no próprio pé [12].
Nunca preguei algo chamado falsa-humildade, mas qualquer pessoa que saiba o que é isso sabe também que é algo tão irritante quanto a própria arrogância, justamente porque é algo vazio: algo que devemos evitar em nome de muitas coisas, como o respeito - não só pelos outros, mas principalmente pela verdade. E toda a auto-promoção neo-ateísta se revela uma ofensa aos outros, mas principalmente à verdade.


Referências:
  1. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 23 de abril de 2012. Disponível em facebook.com.
  2. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 20 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  3. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 25 de abril de 2012. Disponível em facebook.com.
  4. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 2 de julho de 2012. Disponível em facebook.com.
  5. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 21 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  6. Tekton, Why the critics of the Bible do not deserve the benefit of the doubt. Disponível em tektonics.org.
  7. Renn Dickson Hampden, The Life of Thomas Aquinas. Londres: W. Clowes & Sons, 1848, págs. 44-7. Disponível em books.google.com.
  8. "Ainda não encontrei nenhum bom motivo para achar que a teologia (diferentemente da história bíblica, da literatura etc.) chegue a ser um objeto de pesquisa". Richard Dawkins, Deus, um delírio, trad. de Fernanda Ravagnani. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pág. 69. Disponível em Companhia das Letras.
  9. C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples, trad. de Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolia. São Paulo: Martins Fontes, 2008, pág. 5.
  10. Ibid., pág. 64.
  11. Ibid.
  12. G. K. Chesterton, Hereges, trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito. Campinas: Ecclesiae, 2011, págs. 71-2.

2 de julho de 2012

Cortesia ATEA

Imagine que certo homem de boa aparência esteja andando pelas ruas e falando sobre liberdade. As pessoas ficam realmente comovidas com seu discurso e começam a segui-lo. O homem fala sobre como a liberdade é bela, e como os homens que são contra a liberdade roubam a beleza do mundo. "A liberdade é para todos; ninguém pode tratar uma pessoa como sua propriedade", ele diz. Em uma sociedade em que homens dominassem outros homens como animais, tais palavras soariam como as palavras de um profeta, e todos os escravos desejariam que suas profecias fossem verdadeiras. Mas agora imagine esse mesmo homem chegando em sua casa, após um longo dia de apologia à liberdade: ele senta, tira seus sapatos e, de repente, um de seus escravos se aproxima para receber alguma ordem... Antes de fazer qualquer comentário sobre esse homem, adiantarei algo fundamental: esse homem é a ATEA.

Poderíamos descrevê-lo de muitas formas, chamando-o de cínico, falso ou hipócrita, mas certamente não haveria sentido em chamá-lo de vítima. Mas é quando o veem como vítima que esse homem se torna ainda mais difícil de compreender, pois a loucura sufoca o pouco que havia de sensatez em seu tipo. Ninguém conseguiria tolerar um homem que pregasse a liberdade e tivesse dez escravos acorrentados ao seu nome, especialmente se o fizesse em uma sociedade que já é livre. Ora, a ATEA faz exatamente isso: denuncia incansavelmente algo chamado intolerância, e age dia após dia de forma notadamente intolerante.

Meu único objetivo, aqui, é evidenciar essa intolerância. E eu não farei isso para que o leitor compreenda as causas da incoerência dessa associação, mas sim para que compreenda isso: que essa associação é o retrato da perversão do bom senso. Eu prometo ao leitor que essa postagem não será extensa como a primeira - Caridade ATEA [1] -, e também prometo que não estou tentando ofender ninguém. Mas defender a verdade pode ser realmente duro, o que não é desculpa para querer mascará-la com eufemismos baratos. C. S. Lewis escreveu algo que devo citar antes de qualquer outra consideração:
Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois [2].
O autor expressa aí uma verdade prática que pode ser perfeitamente ilustrada pelo caso da ATEA. Quando se lê o que é publicado na página oficial da associação no Facebook, se tem a impressão de pura desonestidade, mas também se nota que o autor dessas publicações, seja ele quem for, parece não perceber que está sendo desonesto. É possível perceber que a ATEA age como se tivesse de fato fazendo algo bom enquanto faz coisas ruins. Ela prega a liberdade, mas possui escravos: e o que é realmente notável é que ela não percebe que possui escravos, o que não a permite entender porque os outros a acusam de hipócrita ou cínica. É uma associação intolerante e preconceituosa que não admitiria ser chamada dessas coisas, e não é por acaso que muitos de seus seguidores estão sempre dispostos a defendê-la, pois eles também acham tudo que acontece ali muito normal e sensato.

Aqui está um exemplo: um rapaz conta como se tornou ateu e agradece a ATEA por tê-lo ajudado nesse processo. Diz ele: "agradeço pelo trabalho de vocês, de abrirem os olhos da sociedade, porque o pior cego é aquele que não quer ver e graças a vocês eu sou uma pessoa com capacidade de fazer as coisas por mim mesmo" [3]. Não comentarei o depoimento do rapaz, já que quero apenas fornecer evidências para o que digo e evitar ser acusado de inventar algo que não existe. Mas eu direi que, se a ATEA está abrindo os olhos da sociedade, o efeito prático dessa operação é uma sociedade vesga, como se nota pelo exemplo de muitos dos seguidores da página. Muitos deles não enxergam nenhum preconceito ou intolerância ali, e quando alguém acusa a associação dessas coisas - o que é feito até mesmo por ateus -, eles acusam os acusadores de outras coisas, a fim de preservar a imagem e credibilidade da associação.

Mas acusar a ATEA de intolerante baseada em seus seguidores seria como acusar o futebol baseado em torcedores, o que não é justo e não é minha intenção. Na verdade, acredito que seria melhor para a ATEA ser julgada a partir de seus seguidores, pois a impressão que se tem é que parte deles ainda tem a cabeça no lugar, enquanto a associação em si perdeu completamente o juízo, e isso é bastante revelador. Pois a ATEA não pode fazer como comumente faz um cristão que, por exemplo, defende o cristianismo das polêmicas sobre pedofilia. O cristão poderia dizer que o cristianismo não promove tal prática, e que de fato a condena, e que não seria justo atribuir ao cristianismo a causa dos crimes desses e daqueles cristãos. Ora, nem os seguidores nem os responsáveis pela ATEA poderiam fazer algo do tipo: pois são justamente os responsáveis por ela que fazem generalizações como "todo religioso é estúpido". Ninguém ali tem o direito de dizer: "Não! Veja bem: isso foi dito apenas por um seguidor, mas não reflete a ética da associação". Isso seria uma grande mentira, e eu mostrarei por quê.

Analisemos algumas publicações da ATEA no Facebook. Deixarei o link para as imagens, mas caso alguma acabe sendo removida, o leitor poderá encontrar nas referências um printscreen de cada uma delas. Eu deveria ter feito isso com todos os links salvos no rascunho dessa postagem, porque algumas postagens foram removidas e se perderam - por exemplo, uma publicação de dia das mães, 13 de maio, feita pela ATEA, uma das mais ofensivas que eu já vi, que provavelmente fora removida por denúncias. A página Anti-ateísmo republicou a mesma postagem [4], com a diferença de ter adicionado tarjas pretas ao conteúdo e uma legenda em repúdio à atitude da ATEA. Esse tipo de ofensa é exatamente a evidência que suporta tudo que foi dito até aqui, e agora apresentarei mais exemplos.

Comecemos com uma imagem sobre criacionistas [5]. Vemos nela duas definições sobre criacionistas: o fanático, que é "o idiota que acredita que Deus criou o mundo há seis mil anos"; e o moderado, que é "o idiota que acredita na mesma coisa, mas pensa que foi há mais tempo". Ou seja, se você acredita que Deus criou o mundo, você é um idiota. Todo teísta é, portanto, um idiota - o que os responsáveis pela ATEA devem considerar um elogio, levando em conta outras características que atribuem aos crentes em geral. Eu não farei considerações com a finalidade de "refutar" cada imagem comentada, pois meu objetivo é, repito, apenas evidenciar o quão intolerante e preconceituosa é a ATEA.

Agora, eu não sei se a associação tem algum problema particular com a Virgem e com o Papa Bento XVI, mas ela certamente aprecia ofender ambos várias vezes. Insinua, ou melhor, afirma com todas as letras, que a Mãe de Deus fora um traidora [6][7], e se lermos os comentários, encontraremos dezenas de mensagens de apoio às publicações. Um usuário diz que ateus não precisam "ser ofensivos contra outras religiões" para sustentarem seu ateísmo. "Mas, convenhamos... É divertido!", conclui ele. Essas são, aparentemente, as pessoas racionais e superiores que só o ateísmo é capaz de produzir. Quanto às imagens direcionadas ao Papa Bento, são sugestões de que é pedófilo ou de que apoia e encobre a pedofilia [8][9][10]. E eles nunca fornecem evidências para as acusações: apenas afirmam; simplesmente "não perdem a piada".

Também não poderia faltar uma promoção da utopia marxista [11]. "Um mundo sem religiões... seria bem melhor!", eles dizem. Ora, e depois reclamam quando um cristão diz a mesma coisa sobre o ateísmo associando-o aos regimes comunistas, como se a desculpa esfarrapada de que aquilo "não foi em nome do ateísmo" resolvesse o problema. Se a acusação cristã é injusta e se os crimes comunistas não tivessem relação com o ateísmo - o que é mentira -, a ATEA não teria o direito de reclamar de nada, pois está utilizando estereótipos e fazendo generalizações absurdas para chocar sua audiência e quem mais veja suas imagens.

No entanto, nada disso se compara aos ataques direcionados a Cristo. Eles são abundantes: extremamente abundantes, e ocorrem diariamente. Não acredita? Acesse o Mural de fotos da página oficial e veja por conta própria. Em um deles [12], com uma imagem de Jesus sendo crucificado no filme A Paixão de Cristo [13], lemos que "esta pessoa", Jesus, "foi vítima de espancamento por ser homossexual. O Facebook doará 0,50 centavos para cada compartilhamento desta foto". E o que nós, cristãos, temos que fazer? Rir do humor arrojado da ATEA? Nós podemos denunciar a página, e devemos fazê-lo, mas nesse momento eu gostaria apenas de ressaltar uma grande ironia.

A ATEA tem o hábito de questionar o quão injusto é o cristianismo, que, segundo eles, condena os ateus ao inferno pela "mera descrença" [14]. Agora, supondo que isso fosse verdadeiro, será que essas pessoas são tão doentes a ponto de acreditar que todas essas ofensas diretas, todo esse escárnio e desprezo podem ser traduzidos como "mera descrença"? Como que ridicularizar o cristianismo diariamente e agir de forma tão desrespeitosa a tudo que é sagrado para os cristãos pode ser considerado "mera descrença"? Vocês percebem o quão apropriadas são as palavras de C. S. Lewis? Alguém sustentaria, após esses poucos exemplos, que é injusta a minha acusação de que a ATEA é uma associação perversa? A verdade é que fui bastante gentil: trata-se de uma associação criminosa, que curiosamente se propõe a lutar pela lei, "pelo Estado realmente laico".

Quando a associação publicou uma versão forjada de uma história da Turma da Mônica [15], intitulada "O Trauma", muitas pessoas ficaram confusas, e pensaram inclusive que a tira fosse de Maurício de Souza, já que consta sua assinatura no embuste. A ATEA não incluiu nenhuma descrição esclarecendo a imagem, e ali se lê apenas "Cebolinha em O Trauma". Não duvido que a imagem tenha sido fabricada para aparentar ser real e fazer com que as pessoas acreditassem que os problemas de Cebolinha se devessem a um abuso por parte de um padre. O plano foi bem sucedido, pelo que se percebe nos comentários de algumas pessoas. Desmascararam a ATEA no Fórum Realidade [16], mas é óbvio que muito mais pessoas viram apenas a versão falsa, e a ATEA não aparentou ter a menor preocupação com a verdade, já que em nenhum momento se manifestou para encerrar a discussão.

Clique para ampliar!
Essa é a honestidade da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Mas, obviamente, guardei o "melhor" para o final. Nada se compara a essa última imagem em termos de desonestidade e estupidez. Em uma mistura de mau-caratismo e imbecilidade típicas, a ATEA conseguiu produzir algo único e inacreditável. Em uma imagem bizarra, juntou uma cruz com a suástica, botou o rosto de Jesus em um uniforme nazista e citou uma frase dita em uma parábola, de modo que pareça que Jesus esteja ordenando a morte de quem quer que o recuse [17]. E muitas pessoas caíram na armadilha: começaram a comentar ironicamente sobre a bondade de Jesus, como se estivessem dando um tapa doloroso na cara dos cristãos. Mas se alguém levou um tapa nessa história, foi uma senhora chamada Justiça. E não foi um tapa só: a imagem já foi removida uma vez, por denúncias, mas a ATEA a republicou na semana passada, 26 de junho.

O leitor poderia desconfiar que essa amostra de imagens não represente a maioria das postagens da ATEA, que passam dos milhares. Mas, novamente, eu sugiro que acesse as Fotos do mural da página oficial da associação, o que permitirá ao leitor perceber que em geral as postagens são ainda piores. Também não culparia o leitor que pensasse que, afinal, essa associação possa parecer um agente do diabo ou algo do tipo, mas já ouvi dizer que o diabo possui uma inteligência peculiar, e se podemos afirmar algo sobre a ATEA com segurança, é isso: que é uma associação enraizada na estupidez, cujos frutos tem sabor de imbecilidade. Mas sobre esse aspecto falarei na próxima postagem dessa série, à qual chamarei Sabedoria ATEA.

Por fim, pergunto: quem, diante de tudo isso, levará a sério uma matéria sobre a ATEA que diz "movimento ateísta quer acabar com preconceito"? [18] Mais que isso: quem levará a sério a própria ATEA quando diz: "Combatemos a intolerância. E enquanto a religião usar da intolerância para se manter, então combateremos a religião"? [19] Por acaso a ATEA parece uma instituição tolerante e livre de preconceitos? Acredito que o meu ponto esteja sólido, mas gostaria de sugerir ao leitor que não apenas leia tudo isso e fique indignado com a associação: lembre-se de, acima de tudo, denunciar todos esses abusos criminosos, sempre que for possível.


Referências:
  1. Caos & Regresso, Caridade ATEA. Disponível em caosdinamico.com.
  2. C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples, trad. de Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolia. São Paulo: Martins Fontes, 2008, págs. 44-5.
  3. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 2 de julho de 2012. Disponível em facebook.com. Veja outros exemplos, como esse, na timeline da página.
  4. Anti-ateísmo (anti-atheism), 13 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  5. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 14 de junho de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  6. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 12 de maio de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  7. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 14 de maio de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  8. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 21 de junho de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  9. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 16 de abril de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  10. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 20 de abril de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  11. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 20 de abril de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  12. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 31 de março de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  13. Mel Gibson, The Passion of the Christ, 2004. Disponível em imdb.com.
  14. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 18 de junho de 2012. Disponível em facebook.com.
  15. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 29 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  16. Fórum Realidade, "ATEA pede dízimo para fazer histórias falsas da Mônica", 29 de maio de 2012. Disponível em realidade.org.
  17. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 31 de março de 2012. Disponível em facebook.com (printscreen).
  18. Revista Viver Brasil, "Direito de não ter fé". Disponível em revistaviverbrasil.com.
  19. A ATEA removeu a imagem original, mas ela está disponível em um prinscreen utilizado em uma imagem-resposta de nossa página: 14 de junho de 2012. Disponível em facebook.com.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More