9 de julho de 2012

Bandeiras para crianças

O MMA é um esporte controverso, e argumentos razoáveis podem ser construídos para defendê-lo ou para atacá-lo. Para o meu próprio alívio, não farei nenhuma das duas coisas: uso o exemplo desse esporte para falar de algo que algumas pessoas parecem ter relacionado a ele nos últimos dias - como já fizeram com tantos outros por várias décadas. Falo do patriotismo, uma palavra que em nossos dias já não tem muito sentido, e que sempre ressurge com significados bizarros.

Em geral, o patriotismo brasileiro parece surgir do futebol, mas a última guerra pelo amor à pátria tinha outro nome: "UFC 148" [1]; e o inimigo era os Estados Unidos da América. Não farei um único comentário sobre a batalha, mas pretendo comentar de forma breve o que houve antes dela: um lutador norte-americano fez declarações polêmicas sobre o Brasil - inclusive algumas bastante verdadeiras -, e de repente o povo brasileiro, patriota ao ponto de saber que "o Brasil é penta", se encheu de um ódio peculiar causado pela mais sutil sugestão de que o Brasil é um país problemático - a mesma reação testemunhada por nós no caso de Stallone [2] e Robin Williams [3].

Não me entendam mal. O futebol é um esporte emocionante, tanto para o espectador quanto para quem está em campo. A infância de boa parte dos brasileiros se resumiu a jogar bola, e a minha não foi diferente. O MMA é outro esporte interessante, mas a menos que cair nas mãos de primos mais velhos e outras crianças maiores na escola possa ser considerado algo remotamente ligado a ele, minha infância está basicamente livre de socos e pontapés - com exceções dos momentos secretos inspirados por Van Damme e Bruce Lee. Também não tenho nada contra o patriotismo, mas aqui está o ponto importante que defenderei a partir de agora: boa parte do povo brasileiro não sabe o que é isso.

Quando eu era criança, tendia naturalmente a gostar de outros países. Gostava da Itália, da Espanha, da França, dos EUA, da Dinamarca, da Nigéria, do Japão, e nem sabia por quê. Talvez por achar as respectivas bandeiras bonitas ou por qualquer motivo infantil parecido. Mas quando eu passei a conhecer melhor esses países, eu não passei a odiá-los: eu passei a gostar ainda mais de cada um - e de muitos outros. Eu descobri que todos esses países tiveram seus heróis, e que resistiram a grandes desastres: foram vilões de certas épocas e vítimas de outras. 

Isso poderia ser resumido dizendo que cada país é um povo, e que povos são compostos por pessoas - pessoas que erram e acertam, pessoas saudáveis e insanas -, o que parece óbvio demais, mas é talvez o truísmo mais ignorado por pessoas idiotas que acham bonito odiar todos os países do mundo, como se a generalização de um país só já não fosse estúpida o suficiente. São aquelas pessoas que não admitem que estrangeiros tratem o Brasil como uma selva, mas não pensam duas vezes antes de chamar os japoneses de bizarros e os norte-americanos de assassinos.

Há, de fato, muitas generalizações que podem ser consideradas saudáveis e engraçadas, e muitas que são inevitáveis. Não há ofensa na afirmação de que os brasileiros amam o futebol, apesar de muitos brasileiros odiarem qualquer esporte. O problema começa quando alguém afirma que os brasileiros são desonestos, sem conseguir pensar numa exceção, numa única pessoa realmente digna, que devolve o troco errado que recebeu e se chateia com o primeiro sinal de injustiça no dia-a-dia.

Mas infelizmente esse é o brasileiro que se vê condenando os outros países. Ele condena a Argentina utilizando certa característica que poderia muito bem ser utilizada para condenar toda a humanidade. Em sua ilusão que o faz pensar que amar o próprio país é desprezar todos os outros, ele condenará a arrogância de seus vizinhos enquanto se orgulha por ser imbatível no octógono ou nos gramados. Chamará os franceses de enganadores enquanto se orgulha de algo chamado "jeitinho brasileiro".

A verdade é que a desonestidade brasileira, enquanto abundante, não é brasileira: é humana. Em Brasília há uma concentração abundante de bandidos, mas nas casas das famílias tradicionais há uma concentração abundante de santos. Isso é um fato, e é um fato para a humanidade. A China é um país desprezível, mas não é pelo seu povo oprimido, e sim pelo seu Governo opressor. Quando dizemos que a China não é um exemplo para o mundo, não estamos pensando na imagem do sábio ancião chinês, mas no cruel Estado chinês.

É por isso que é preciso ser um grande imbecil para pensar que todos os norte-americanos apoiaram George W. Bush em suas investidas militares, como é preciso ser um grande imbecil para pensar que atualmente todos apoiam a administração de Obama. Eu não considero nenhum dos últimos presidentes brasileiros como remotamente representantes do brasileiro comum. Os últimos presidentes do Brasil são seres desprezíveis, e talvez a maioria dos presidentes da história do Brasil tenha sido desprezível. E novamente eu arriscaria dizer que o mesmo pode ser afirmado sobre os líderes da história da humanidade, sem limitações geográficas.

"Todos os homens podem ser criminosos, se tentados; todos os homens podem ser heróis, se inspirados" [4], e o homem normal, de todos os tempos e de todos os lugares caiu em tentação, mas também aprendeu a evitá-la: aprendeu a ser prudente. Entendeu que é possível não morrer afogado evitando entrar na água. A única razão pela qual atualmente mais homens parecem ser criminosos, ou pela qual todos os homens parecem ser criminosos, é que a filosofia contemporânea nega a tentação e o crime, e todos os homens criminosos cometem seus delitos como se estivessem fazendo caridade e promovendo o bem entre os homens. Um líder conta mentiras não por pensar apenas que diz a verdade, mas por considerá-la uma mentira necessária e salvadora.

Mas eu não devo me preocupar com a psicologia por trás da mente moderna. Devo voltar para o patriota moderno, aquele que não se preocupa de forma alguma com o futuro do país, mas denuncia diariamente os outros homens que são como ele. Sua denúncia é poderosa porque não é uma denúncia sobre o vizinho: é uma denúncia sobre o espelho. Odiar o patriotismo alemão e rir do idiota português não faz nada pela miséria nacional, e não prova que nossa terra é pátria amada idolatrada de notáveis gênios.

Não se prova amor pela própria esposa odiando todas as outras mulheres do mundo. Um homem pode provar seu amor fazendo sacrifícios que não faria por nenhuma outra mulher, ou com sacrifícios que ele não faria nem por ele mesmo. Mas como um homem poderia provar seu amor por uma mulher desprezando todas as outras mulheres, como se todas elas não fossem dignas de serem amadas? Qualquer pessoa que visse esse homem em seu modo bizarro de amar sua esposa pensaria tratar-se não de um homem, mas de algo pior que um animal. E, da mesma forma, quando vejo um homem odiando todos os outros países para provar que ama o próprio país, não penso nesse homem como um patriota, mas imagino que ninguém pensaria ser um exagero chamá-lo de genuíno idiota.

Eu não preciso definir o que é um patriota de verdade, pois a humanidade conhece tal definição instintivamente. Mas quando os homens, motivados por uma relativização cotidiana de valores, entendem e praticam as coisas ignorando o que as coisas realmente são, nós precisamos puxar suas orelhas. As pessoas que pensam que as generalizações do sr. Sonnen - que para mim não passaram de marketing, e um marketing que se provou bastante eficaz - justificam generalizações sobre a América deveriam, no fim das contas, ter torcido por ele, pois é ele que as representa.

Eu concluirei dizendo isso: a única maneira sensata de ser um patriota é amando a humanidade, e isso é impossível se começarmos a demarcar as fronteiras do nosso amor. Quando eu era criança admirava sem motivo muitos países; e hoje, enquanto cresço, amo sem motivo todos eles.


Referências:
  1. UFC 148: Silva vs. Sonnen II, 7 de julho de 2012. Disponível em br.ufc.com.
  2. G1, Stallone faz comentário politicamente incorreto sobre filmar no Brasil, 23 de julho de 2010. Disponível em g1.globo.com.
  3. G1: Edição Rio de Janeiro, Robin Williams faz piada de mau gosto sobre escolha do Rio para as Olimpíadas, 1 de dezembro de 2009. Disponível em g1.globo.com.
  4. G. K. Chesterton, Heretics. Massachusetts: Plimpton Press, 1919, pág. 71.

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