4 de julho de 2012

A bondade e o interesse...

Tenho visto muitos ateus, especialmente os ateus que gostam de parecer intelectuais, reclamando de como os cristãos não conhecem a Bíblia, ao passo que sustentam a ideia de que eles a dominam completamente. Em muitas ocasiões bastou que eles falassem algo sobre ela para que ficasse claro como eles não conseguem sequer começar a compreendê-la, mas dentre as muitas gafes dos neo-ateístas que fingem conhecer a Bíblia melhor do que os teólogos, nenhuma é tão divertida e tão popular quanto a que diz que os cristãos fazem o bem em troca da salvação.

Na verdade, encontraremos ateus dizendo que o cristão pratica o bem apenas por buscar salvação, enquanto o ateu faz o bem pela bondade em si mesma [1][2][3][4].

Concederei a esses ateus a existência de uma coisa chamada Bem - sem a qual não pode haver bondade - na cosmovisão ateísta, apesar de implicações do ateísmo negarem essa coisa. Faço isso para poder me preocupar com a parte que se refere exclusivamente aos cristãos, e ao fazê-lo espero deixar claro que a pretensão de ser intelectual dos neo-ateístas não passa de mais uma fraude - mais uma dentre tantas outras já conhecidas por muitos de nós. Uma frase de Isaac Asimov diz que, "lida corretamente, a Bíblia é maior força em prol do ateísmo já concebida" [5]. Isso ilustra perfeitamente a sugestão de que o ateu é quem realmente conhece a Bíblia, enquanto o cristão está equivocado sobre seu próprio Livro Sagrado.

Se os ateus são os que entendem a Bíblia corretamente, os cristãos são mesmo piores que meros ignorantes. Pois se é a interpretação de pessoas como Richard Dawkins e seguidores da ATEA que está correta, dizer que um cristão não entenderia A Bela e a Fera seria pouco perto de seu intelecto insignificante. Mas eu gostaria de interromper essa sequência de suposições e fazer uma denúncia que é muito necessária: muitas dessas pessoas que acusam os cristãos de não entender a Bíblia nunca chegaram a lê-la. Mas eu diria ainda que lê-la não resolve o problema, especialmente se considerarmos que boa parte das pessoas que acham extremamente vital ler a Bíblia já na adolescência é, para a surpresa de ninguém, composta de adolescentes.

Ninguém acharia prudente recomendar Nietzsche para um adolescente de treze ou quatorze anos - e se a questão não fosse a prudência, poderíamos dizer que tal recomendação não seria prática, já que uma pessoa dessa idade não tem maturidade para sequer entender o bigode do autor. Ainda assim há muitas pessoas, novas ou adultas, que acham que a Bíblia é algo banal e fácil de ser entendido e explicado, o que é obviamente uma mentira [6].

Porém, eu entendo que possa parecer uma desculpa dizer que a Bíblia é um livro complexo, mas as pessoas que tratam isso como uma desculpa geralmente acabam provando porque a afirmação é verdadeira. Não é mera questão de tratar os textos no idioma original, aprender um pouco de grego e hebraico, se debruçar sobre as Escrituras por uma semana e achar que o triunfo do estudioso estará garantido: todos os homens que realmente quiseram entender a Bíblia fizeram muito mais que isso. Não dedicaram apenas algumas semanas; mas em muitos casos dedicaram a vida inteira. Do cristianismo primitivo, à Idade Média, aos dias de hoje esses homens e essa dedicação ainda existem, e por algum motivo certos ateus que consultam a Bíblia online em busca de um versículo comprometedor acham que merecem a nossa atenção como esses homens mereceram.

Quando um jovem ateu lê a Bíblia "corretamente", sua conclusão pode ser que o cristianismo é a religião dos fracos - uma conclusão que também pode ser obtida por um velho lunático. Mas quando São Tomás de Aquino estudou a Bíblia, provavelmente de forma equivocada, o resultado foi a Suma Teológica. Pergunte ao jovem ateu o que ele leu dessa obra, e ele talvez diga que se lembra de ela ter sido citada em algum capítulo de Deus, um delírio, em que Dawkins fala das Cinco Vias. E se ele disser que a Suma Teológica só interessa aos cristãos, poderíamos muito bem perguntar o que ele acha da Suma Contra Gentiles.  E essa é a diferença entre alguém que morreu sobre os livros, exausto pelos seus estudos [7], e alguém que consulta o Google e dois ou três livros populares sobre religião e se considera um expert.

A pretensão dos neo-ateus pode também ser desmascarada recordando o fato de que Dawkins considera a teologia algo sem valor [8]. O que ele e seus seguidores fazem é fingir que sabem do que estão falando, para pessoas que não sabem do que eles estão falando - o que pode atrair muita gente, mas não passa de uma tática inspirada em propaganda. O poder da Tradição cristã está justamente no fato de que ela se refere a um conhecimento acumulado em dois mil anos, enquanto o conhecimento dos críticos da tradição não tem idade para entrar na escola primária. Quando uma objeção ao cristianismo surge com a aparência de ser uma objeção nova e fresca, é possível buscar uma refutação no século IV, na obra de Santo Agostinho, ou talvez antes, no século III, na obra de Orígenes de Alexandria.

Seja como for, deixarei de lado essas questões secundárias e me preocuparei com o que é importante nesse momento: provar que o entendimento neo-ateísta do cristianismo é igual ao de uma criança, ou, para ser mais justo, inferior ao de uma criança. Para isso recorrerei à obra mais apropriada para fazê-lo: Cristianismo puro e simples, de C. S. Lewis. É a obra mais apropriada justamente porque nela o autor expõe a "fé comum a praticamente todos os cristãos em todos os tempos" [9], ou seja, a que é comum aos católicos romanos, protestantes, ortodoxos gregos. Aqui está o que Lewis tem a dizer sobre a bondade em troca de salvação:
Se tínhamos a idéia de que Deus nos impunha uma espécie de prova na qual poderíamos merecer passar por tirar boas notas, essa idéia tem de ser eliminada. Se tínhamos a idéia de uma espécie de barganha - a idéia de que poderíamos cumprir a parte que nos cabe no contrato e deixar Deus em dívida conosco, de tal modo que, por uma questão de justiça, ele ficasse obrigado a cumprir a parte dele -, ela deve ser eliminada também.

Creio que quantos possuem uma vaga crença em Deus acreditam, até se tornarem cristãos, nessa idéia da prova ou da barganha. O primeiro resultado do verdadeiro cristianismo é o de reduzir essa idéia a pó. Quando a vêem reduzida a pó, certas pessoas chegam à conclusão de que o cristianismo é um embuste e dele desistem. Essa gente parece imaginar que Deus é extremamente simplório. Na verdade, ele sabe de tudo isso. Uma das intenções do cristianismo é justamente reduzir essa idéia a pó. Deus está à espera do momento em que você vai descobrir que jamais conseguirá tirar a nota mínima para passar nesse exame, e não poderá jamais deixá-lo em dívida [10].
Uma pessoa que conheça o cristianismo saberá disso obrigatoriamente, pois não existe cristianismo sem algo chamado Graça. Quando alguém diz que, sendo bom, merecerá a salvação, ele está necessariamente ignorando como o cristianismo oferece a Salvação. O cristianismo oferecerá a salvação a todos, mas jamais afirmará que ela é merecida por alguém. Isso é exatamente o que o cristianismo não afirma, e se algum cristão pensa o contrário, não vejo como os ateístas que pensam como eles poderiam dizer alguma coisa, já que estão igualmente enganados.
Com isso vem outra descoberta. Todas as faculdades que você possui, sua faculdade de pensar ou de mover os membros a cada momento, lhe são dadas por Deus. Mesmo se dedicasse cada momento de sua vida exclusivamente ao seu serviço, você não poderia dar-lhe nada que, em certo sentido, já não lhe pertencesse. Logo, quando uma pessoa diz que faz algo para Deus ou lhe dá algo, é como se fosse uma criança pequena que interpelasse o pai e lhe pedisse: "Papai, me dê cinqüenta centavos para lhe comprar um presente de aniversário." E claro que o pai dá o dinheiro e fica contente com o gesto do filho. Tudo é muito bonito e muito correto, mas só um imbecil acharia que o pai lucrou cinqüenta centavos com a transação [11].
Eu poderia ir mais longe e dizer coisas bastante específicas sobre o que o cristianismo ensina e que todos os cristãos aceitam, mas não vejo a utilidade nessas adições que são conhecidas por qualquer criança que vai à escola dominical ou à catequese. Mas quando muitos ateus falam sobre como eram religiosos e como uma jornada intelectual os levou ao ateísmo, eu não tenho interesse em negar essa jornada, apesar de suspeitar que todos eles tenham dormido nessas aulas de que falo.

O ponto fundamental, no entanto, é esse: se as pessoas que se consideram tão bons conhecedores do cristianismo falham em entender coisas tão básicas da doutrina cristã, por que deveríamos levar a sério essas reinvindicações de conhecimento, quando o conhecimento obviamente não existe? A razão pela qual consideramos Bach um bom músico é sua boa música. Bach não precisou dizer que era um bom músico para que o víssemos assim. O mesmo pode ser dito sobre o bom poeta ou sobre um homem que é bom em qualquer coisa. A maioria das pessoas é humilde o suficiente para reconhecer as qualidades das outras pessoas, e se apressarão em fazê-lo especialmente quando um homem bom em alguma coisa é humilde. Mas quando um homem diz ser bom em alguma coisa sem fazer nada, nós olharemos para ele de uma forma diferente, e por esse homem sentiremos algo mais frio que o mero desprezo.

Declarar-se inteligente e declarar todos os outros imbecis é em si uma grande imbecilidade. Essa declaração sozinha tem o poder de causar aos outros homens uma repulsa equivalente à que sentimos quando vemos um homem que trata uma princesa como se ela fosse uma mulher da vida. A indignação pode ser considerada espontânea, mas será mais sufocante se essa princesa tratar esse homem como se ele fosse um príncipe. Para o nosso caso, do homem que pensa ser maior que os outros, esse fato em si é repugnante, mas cresce à medida que percebemos que esse homem é na verdade muito pequeno, como é o caso de um mentiroso iludido de que fala a verdade. Para esses homens, que pensam ser maiores que todos os outros, o primeiro passo é se livrar dessa arrogância desnecessária, e talvez venha o momento em que a humildade surpreenderá o intelecto com a compreensão. Para esses homens devo recomendar, finalmente, uma reflexão sobre essas palavras de Chesterton:
O sr. Shaw [...] foi ainda infectado, em certa medida, pela fraqueza intelectual primária de seu novo mestre, Nietzsche: a estranha noção de que quanto maior e mais forte for um homem, mais desprezará as outras coisas. Quanto maior e mais forte for o homem, mais se prostrará diante de um caramujo. Que o sr. Shaw mantenha a cabeça altiva e uma expressão desdenhosa ante o panorama colossal de impérios e civilizações, isto por si só não convence ninguém de que ele vê as coisas como são. Qualquer um seria mais plenamente convencido se o visse cravando os olhos, com estupor religioso, no próprio pé [12].
Nunca preguei algo chamado falsa-humildade, mas qualquer pessoa que saiba o que é isso sabe também que é algo tão irritante quanto a própria arrogância, justamente porque é algo vazio: algo que devemos evitar em nome de muitas coisas, como o respeito - não só pelos outros, mas principalmente pela verdade. E toda a auto-promoção neo-ateísta se revela uma ofensa aos outros, mas principalmente à verdade.


Referências:
  1. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 23 de abril de 2012. Disponível em facebook.com.
  2. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 20 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  3. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 25 de abril de 2012. Disponível em facebook.com.
  4. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 2 de julho de 2012. Disponível em facebook.com.
  5. ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, 21 de maio de 2012. Disponível em facebook.com.
  6. Tekton, Why the critics of the Bible do not deserve the benefit of the doubt. Disponível em tektonics.org.
  7. Renn Dickson Hampden, The Life of Thomas Aquinas. Londres: W. Clowes & Sons, 1848, págs. 44-7. Disponível em books.google.com.
  8. "Ainda não encontrei nenhum bom motivo para achar que a teologia (diferentemente da história bíblica, da literatura etc.) chegue a ser um objeto de pesquisa". Richard Dawkins, Deus, um delírio, trad. de Fernanda Ravagnani. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pág. 69. Disponível em Companhia das Letras.
  9. C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples, trad. de Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolia. São Paulo: Martins Fontes, 2008, pág. 5.
  10. Ibid., pág. 64.
  11. Ibid.
  12. G. K. Chesterton, Hereges, trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito. Campinas: Ecclesiae, 2011, págs. 71-2.

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