14 de julho de 2012

Mundo Quântico e a refutação de Deus

Recentemente meu amigo e idealizador deste blog escreveu sobre o patriotismo e o pouco entendimento que a maioria das pessoas que falam sobre ser patriotas, tem sobre o assunto [1]. Hoje, gostaria de abordar nessa postagem algo relativamente distante do patriotismo, mas que de forma semelhante, é muito falado por certas pessoas e pouco entendido pelas mesmas.

Não espero proporcionar uma aula sobre Física Quântica [2][3] aos leitores, até porque não sou a pessoa mais qualificada para tal e garanto que muitos dos nossos leitores possuem um entendimento muito maior sobre esse campo do conhecimento do que eu próprio. Minha motivação ao escrever esse texto vem, principalmente, das declarações "vitoriosas" de alguns neo-ateus, a respeito da suposta detecção do famoso bóson de Higgs no último 4 de julho de 2012 [4] , envolvendo uma possível refutação final da existência de Deus baseada na confirmação da existência da partícula, que ficou mais conhecida fora do meio científico como "partícula Deus", nome referido no livro "The God Particle: If the Universe Is the Answear, What Is the Question?" [5] de 1993, do físico Leon Lederman, e que em partes é responsável pelo mal entendido - assumamos que seja isso apenas - ou mesmo má compreensão de muitos sobre a verdadeira repercussão de tal descoberta.

Dessa forma, essa postagem é dedicada, principalmente, aos leitores teístas que foram ou serão pegos por ateus desonestos e que ficaram sem resposta à mais nova "argumentação científica" contra a existência de Deus. Será dividida, para fins didáticos, em duas partes: primeiramente, tentarei passar alguns conceitos básicos sobre o estudo da física de partículas, e então, concluirei com as verdadeiras implicações da possível descoberta do bóson de Higgs e como estas estão, na verdade, longe da repercussão teológica que os neo-ateus desejam.

A Teoria Quântica surgiu no início do século XX e é parte da Física Moderna. A partir dos trabalhos do físico alemão Max Planck [6], após uma época de muitas certezas na Física Clássica com a Mecânica de Newton e o Eletromagnetismo de Maxwell bem estabelecidos, estudando a radiação de corpos negros, o mesmo propôs que a Energia não variasse de modo contínuo, mas sim, em valores discretos, ou seja, através de unidades mínimas inteiras, a que chamou de quanta (soma de vários "quantum") de Energia, o que gerava um caráter descontínuo à natureza, algo contrário ao que era estabelecido pela Física até então.

Junto com os trabalhos de Planck, as teorias lançadas por Einstein - estudando o efeito fotoelétrico - acerca da natureza da luz (dualidade onda-partícula), de certa forma baseadas na proposta de Planck da quantização da energia, elucidando a existência de pacotes ou quanta de luz (posteriormente denominados fótons) como partículas que compunham a mesma, foram igualmente revolucionárias e a Física, como ciência, tomou um novo rumo.

Até então, tudo que era partícula tinha seu movimento governado pelas leis da Mecânica Newtoniana e a radiação pelo Eletromagnetismo de Maxwell. No entanto, aquilo que estava bem estabelecido pela Física Clássica para o mundo macroscópico, não se aplicava para o mundo subatômico, o que ficou evidenciado, por exemplo, através do movimento dos elétrons. Através do experimento denominado de "fenda dupla", observou-se que os elétrons, apesar de serem partículas, possuíam um padrão de movimentação característico de ondas (interferência) e que sua trajetória não tinha como ser conhecida de fato.

Além disso, a partir do "Princípio da Incerteza" de Heisenberg, nunca poderíamos definir com certeza características como posição e velocidade simultâneas de uma partícula, uma vez que ao tentar aferi-las, já estaríamos afetando o sistema, resumindo tudo num conjunto de probabilidades (incerteza), que é uma das palavras chaves da Mecânica Quântica, e que deu e tem dado um nó na cabeça de muitos físicos famosos, inclusive do próprio Einstein, que declarou recusar que "Deus jogava dados" [7], referindo-se à difícil aceitação de que alguns aspectos das leis da natureza não eram exatos e precisos, como era de costume na Física Clássica, mas sim, governados pela incerteza das probabilidades. 

Uma das importâncias da Teoria Quântica é, então, a explicação dos fenômenos diferenciados que ocorrem no mundo subatômico, que a Física Clássica não foi capaz de explicar. E entramos, agora, nesse mundo de partículas, do qual faz parte o bóson de Higgs.
Modelo padrão

O modelo padrão da Física de partículas [8][9] descreve a existência de partículas elementares que compõe a matéria existente no Universo (exceto a matéria escura, ainda, de natureza pouco conhecida), que são ditas elementares por serem até então, indivisíveis. Tais partículas são divididas em basicamente dois grupos: os férmions (spin semi-inteiro), que são responsáveis por constituir a matéria em si, e os bósons (spin inteiro), que são responsáveis pela transmissão, ou seja, por mediar as forças fundamentais da natureza, que trataremos mais adiante.

Dentre os férmions, estão presentes ainda, duas classes de partículas: os quarks (6 tipos), que interagem através das 4 forças fundamentais, formando os bárions (prótons e nêutrons), que são trincas (combinações de 3 tipos) de quarks, e os mésons, que são pares (combinações de 2 tipos) de quarks, ou seja, há uma ocorrência confinada dos quarks em partículas maiores (compostas), denominadas hádrons (prótons, nêutrons, etc); e os léptons, que não interagem através da uma das forças (a força forte). Dentre os léptons estão o elétron, o múon, o tau, e os seus respectivos neutrinos, que diferente deles, não possuem carga.

Os bósons são os responsáveis por mediarem as forças fundamentais da natureza, ou seja, são responsáveis por transmitir a interação entre férmions através da sua respectiva força fundamental. Esclarecendo, os tipos de bósons são: fóton, responsável por mediar a força eletromagnética; glúon, responsável por mediar a força forte (entre quarks, uma vez que léptons não interagem fortemente); bósons W e Z, responsáveis pela força nuclear fraca (também atuando sobre os léptons); o gráviton, uma partícula hipotética que seria responsável por mediar a gravidade (devido tal caráter hipotético, a gravidade não é tratada no modelo padrão); e por fim o bóson de Higgs [10], para o qual maior atenção será dada agora.

O modelo padrão teoriza com bastante clareza a estrutura da matéria e consequentemente, o funcionamento do Universo. No entanto, ainda não se estabeleceu bem a forma como ocorreu a obtenção de massa pelas partículas elementares descritas acima. Dessa forma, o físico Peter Higgs, em 1964, propôs que, logo após o evento do Big Bang, com o subsequente resfriamento nos primeiros momentos de "vida" do Universo, originou-se uma força, a qual foi denominada "Campo de Higgs" (que permearia todo o espaço), e a partir desta, surgiram partículas subatômicas, o famoso bóson (lembrando que estas são partículas responsáveis por transmitir alguma força) de Higgs, responsável então por transferir massa às outras partículas fundamentais que se seguiram. Por essa razão é que a existência do bóson de Higgs é considerada essencial para a confirmação do modelo padrão. 

Neste momento, fica claro que a constatação do bóson de Higgs, pouca relação tem com algum argumento para a não-existência de Deus, uma vez que tal partícula foi originada pós-existência do Universo, de tal maneira que está longe de explicar os eventos que precederam a criação do mesmo, onde Deus é então postulado a partir de argumentos cosmológicos. Assim como o Universo em si, o Campo e o bóson de Higgs se enquadram na categoria de seres contingentes, já que não são eternos, mas sim, passaram a existir após o Big Bang. A diferença é que estes, segundo a teoria do modelo padrão, tornaram possível a sustentação de todo o restante da matéria, e talvez seja esta característica, de certa forma, divina, uma das razões para que tenham escolhido o apelido de "partícula Deus" ao bóson de Higgs, em função do nome não tão apropriado ("Goddamn particle" ou "Partícula maldita") que Lederman havia sugerido inicialmente. 

Muita pesquisa ainda deve ser realizada, a Física Quântica é uma das áreas que se desenvolveu mais rapidamente no último século e muitas contribuições para a melhoria da vida humana são resultado das descobertas realizadas nesse campo da Ciência. A descoberta do bóson de Higgs deve ser comemorada por muitos motivos que não a suposta "vitória" do ateísmo e os cientistas sérios sabem disso. 

A Ciência genuína está aberta às possibilidades e creio que isso tenha ficado evidenciado com a reviravolta que o mundo quântico fez em nosso conhecimento do Universo do último século pra cá. É possível que descobertas como o bóson de Higgs sejam lembradas no futuro como um dos caminhos pelos quais nos permitiram chegar ao conhecimento dos mecanismos da ação de Deus. Por que não? No momento, vamos apenas aproveitar esse mundo novo a ser ainda tão explorado.


Referências:
  1. Caos & Regresso, Bandeiras para crianças. Disponível em caosdinamico.com.
  2. Com Ciência,  A Física Quântica: o que é, e para que serve, 10 de maio de 2001. Disponível em comciencia.br.
  3. National Geographic, Além do Cosmos: Mecânica Quântica. Disponível em natgeo.com.br. Veja no Youtube.
  4. Interactions.org, CERN experiments observe particle consistent with long-sought Higgs boson, 4 de julho de 2012. Disponível em interactions.org.
  5. Amazon.com, The God Particle: If the Universe Is the Answear, What Is the Question?. Disponível em amazon.com.
  6. Com Ciência, Max Planck e o início da Teoria Quântica, 10 de maio de 2001. Disponível em comciencia.br.
  7. Vya Estelar, O primeiro debate Einstein-Bohr. Disponível em uol.com.br.
  8. Center for Numerical Relativity and Nuclear Astrophysics, Modelo Padrão de Partículas Fundamentais e Interações Brasileiro. Disponível em socrates.if.usp.br.
  9. Revista Brasileira de Ensino de Física, O Modelo Padrão da Física de Partículas. Rev. Bras. Ensino Fís. vol. 31 no. 1. São Paulo: abril de 2009.
  10. Último segundo, Perguntas e Respostas sobre o Bóson de Higgs, 4 de julho de 2012. Disponível em ultimosegundo.ig.com.br.

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