Religião e Super-heróis

Se a Bíblia prova que Deus existe, quadrinhos provam que super-heróis existem? Confira nossa resposta e ainda conheça a religião dos super-heróis mais populares.

Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

Quão brutal foi o tribunal da Inquisição Espanhola? Descubra alguns fatos interessantes sobre um dos episódios mais lembrados da história do cristianismo.

Igreja e Ciência

Uma análise exaustiva da verdadeira história da relação entre o cristianismo e a ciência. Descubra quem foram os cientistas anteriores à revolução científica e como a Igreja fez parte dessa revolução.

Sobre índios, negros e escravos

A Igreja Católica dizia que índios e negros não tinham alma, e por isso permitiu que fossem escravizados? Descubra aqui por que isso não faz o menor sentido.

19 de outubro de 2012

A crença cotidiana #2

Segunda parte do capítulo do projeto que foi abandonado - e-book. Nessa parte o leitor poderá notar, além do conteúdo exclusivo, porções de uma postagem antiga*, publicada originalmente em setembro de 2011.
A impressão que eu tenho ao dialogar com algumas pessoas sinceras é que, mesmo se esforçando para agir com justiça, elas acabam ignorando o fato de que a história do cristianismo não pode ser resumida a uma religião que fez vítimas nesse ou naquele evento, mas poderia facilmente ser resumida a uma religião que foi a vítima na maior parte dos eventos que constroem a sua história. Se olharmos cuidadosamente para cada evento e para as suas testemunhas, é exatamente isso que acabaremos por verificar [1]. Creio que não seja possível continuar sem antes falar dessas testemunhas e sobre uma possível objeção aos depoimentos que elas nos trazem. Acontece que algumas pessoas parecem acreditar que, quando se fala de eventos passados há quase mil anos, há uma carência de documentos que relatem o que via os olhos do próprio povo que protagonizou esses eventos – foi isso que senti ao ouvir um dos discursos do sr. Yuri Grecco contra a Igreja [2]. Mas é exatamente o contrário: a abundância é tão expressiva que chega a ser engraçado ver pessoas falando que as histórias inconvenientes de certo período foram queimadas em benefício de um propósito sombrio. E o que é realmente engraçado é a consequência de uma história que sofre com a transformação do papel em cinzas. Se realmente houvesse essa lacuna histórica, como o historiador moderno seria capaz de afirmar qualquer coisa sobre o pensamento e prática de uma época que não consta em nenhum registro? Se realmente não há registros, então não é possível falar em historiadores. Poderemos apenas falar em poetas. Nesse caso, o que se conta sobre a Idade Média terá tanto valor quanto o que se conta nas histórias em quadrinhos. Seria até mesmo injusto tratar as histórias de Andrew Dickson White como tratamos as histórias de Stan Lee, pois as histórias de Stan Lee são muito mais verdadeiras. 

Penso que esse exemplo pode explicar toda essa dúvida que existe ao se falar do passado um tanto remoto, que é também a possível objeção às testemunhas desse passado. Para algumas pessoas, não é que há apenas certa carência de documentos: o verdadeiro problema é a origem dos documentos. Não no sentido de que tenham sido fabricados posteriormente, mas no sentido de que são, muitas vezes, documentos cristãos. O cético não quer o depoimento de um monge, pois supõe que o monge irá manipular os fatos para representar positivamente a instituição que ele defende. O cético pensa que o monge antigo é como o jornalista moderno tentando garantir o seu emprego agrandado um público-alvo. Mas se consultarmos o que diz o monge, veremos que essa preocupação simplesmente não existe. É por esse motivo que pode até parecer chocante o fato de Lutero ter sido um monge católico. O que se vê no relato dessas testemunhas, bem como se vê no caso de Lutero, é que não há uma preocupação em retratar bem ou mal a Igreja: há apenas a preocupação em relatar o que se vê, e mesmo que a visão seja limitada, ela é útil por ser a expressão do que aquela pessoa realmente viu ou sentiu, em vez de ser uma suposição sobre o que pode ou não ter acontecido. Se juntarmos todos os olhares e todos os manuscritos poderemos realmente construir uma imagem próxima do fato, e é exatamente assim que a verdadeira história pode ser preservada da tentação do preconceito e da especulação exagerada. 

No entanto, os livros limitam-se ao preconceito e até estimam o exagero de especulação [3], e as testemunhas permanecem desconhecidas por boa parte das pessoas que mais insistentemente usam a história para condenar a Igreja. E ainda é necessário dizer algo mais sobre a recusa instantânea por parte de algumas pessoas quando os documentos partem desse ou daquele autor, como se fosse absurdo que um autor católico pudesse falar da Igreja Católica por correr o risco de deixar suas convicções pessoais atrapalharem sua imparcialidade. Essas pessoas parecem supor que o ateu tem até mais direito de falar da Igreja Católica por não ter com ela nenhum laço que comprometa as suas conclusões. Mas mera falta de ligação não garante imparcialidade, e se é verdade que o cristão pode tentar beneficiar o cristianismo movido por seu amor religioso, é igualmente verdadeiro que o ateu pode tentar depreciar o cristianismo movido por seu ódio ou desprezo antirreligiosos.

É possível ir mais fundo nessa questão, a fim de que entendamos o verdadeiro motivo de ser uma grande tolice recusar um depoimento por ele vir de alguém que possa não ser imparcial. No caso do que se diz sobre o catolicismo, a verdadeira questão é: não estariam os autores católicos, ao professarem qualquer argumento em defesa da Igreja, fazendo-o mais por buscarem retratá-la bem, que por qualquer compromisso com os fatos? Isso certamente dificultaria qualquer conclusão acerca de determinados episódios e, por isso, há duas considerações a se fazer, antes de qualquer investigação: a primeira, é que um autor não deve ser descartado por suas convicções pessoais. Imaginemos que um alemão e um francês discutirão o seguinte tópico: "Qual país é melhor: Alemanha ou França?". Seria razoável suspeitar que algum deles acabasse hora ou outra fornecendo uma defesa mais puramente patriótica de seu país, que uma baseada estritamente nos fatos sobre os dois países. Mas isso não nos daria o direito de dizer: "Que venha um inglês e decida a questão". A grande tristeza do alemão e do francês seria descobrir que, na verdade, o inglês não sabia nada sobre a Alemanha e nem sobre a França, e isso serviria, no máximo, como argumento contra a Inglaterra. Mas é verdade que o inglês poderia saber mais sobre a Alemanha e sobre a França do que sabiam o alemão e o francês sobre elas: o grande impasse seria saber, então, se um inglês seria capaz de decidir a favor da França em alguma disputa. O que quero dizer é que, inevitavelmente, corremos o risco de uma pessoa agir mais de forma emocional e deixar a objetividade de lado. Mas esse risco é humano e se manifestará em qualquer situação, e bem como o inglês poderia optar pela Alemanha movido por algum ódio cultural à França, o francês também poderia fazer a mesma coisa e pelo mesmo motivo em outro debate. 

Assim, se certo sacerdote polonês diz algo em defesa do catolicismo, deve-se buscar entender se a realidade sustenta aquilo que ele afirma, em vez de se usar aquilo em que ele acredita para descartar a sua defesa. É até muito mais sensato confiar em quem defende alguma coisa porque acredita naquela coisa, do que confiar em quem acusa alguma coisa pelo fato de nela não acreditar. Isso vale para todos, e é por isso que, se alguém quer entender bem a algo, deve buscar entendê-lo como entendem aqueles que acreditam nesse algo. Não se aprende sobre a Igreja Católica dando ouvidos a Andrew Dickson White, pois ele ensinaria apenas algo que nada tem a ver com a Igreja Católica, e me parece razoável que o ateísta suspeitará que não se aprende sobre o ateísmo dando ouvidos a algum padre de sua cidade – ou ao menos dirá que não se entende plenamente o ateísmo dessa forma. Se houvesse algum curioso fazendo-lhe perguntas sobre o ateísmo, suponho que ele preferiria recomendar Bertrand Russell. Mas, para que não se tenha a impressão errada do que quero dizer, esclareço que não estou dizendo que não se deve ouvir o que Dickson White tem a dizer sobre a Igreja, ou que um padre não pode dizer algo sobre o ateísmo: o que estou dizendo é que aprender sobre alguma coisa requer dar ouvidos tanto a quem a ama e quer preservá-la quanto a quem a odeia e quer destrui-la, pois somente assim o curioso poderá confrontar os dois extremos e concluir se quem ama ou odeia aquela coisa o faz por enxergar nela um fato amável ou odiável, ou se ama ou odeia aquela coisa apesar dos fatos amáveis ou odiáveis sobre ela. O que mais tenho notado sobre algumas pessoas que parecem curiosas é que elas quase nunca são curiosas o bastante, e isso explica praticamente todos os equívocos que elas cometem ao lidar com alguns desses problemas. Pois é verdade que há o cristão que crê no cristianismo por pura covardia de questionar-se e descobrir-se sozinho em um mundo carente de amor divino; mas também é verdade que há aquele sujeito que não crê no cristianismo por pura covardia de dar a ele uma chance e descobrir-se incapaz de negá-lo honestamente. 

A segunda consideração é a seguinte: assim como o alemão desconfia do julgamento que o francês faz sobre a França, também o ateísta pode desconfiar do julgamento que o católico faz sobre a Igreja Católica; mas é necessário imaginar a cara do alemão caso descobrisse que o inglês escolhera a França: ele certamente desejaria saber o que há na França de tão especial. Digo, pois, que no caso da Igreja Católica, para a triste alegria do alemão, não é só com o depoimento do inglês ou do francês que ele pode contar, mas com o irlandês e até mesmo com o chinês. O ateísta pode e deve desconfiar do que os católicos têm a dizer sobre a Igreja Católica, mas se ouvir o que os judeus têm a dizer sobre ela, ou os protestantes, ou os próprios ateus, ele terá dado seu primeiro passo rumo à construção de um consenso – que a princípio pode ser histórico ou anti-histórico. É assim que se descobre se há um fato amável sobre algo, ou um amor que ignora os fatos; e essa descoberta precisa estar em harmonia com a realidade. Bem como Sócrates Escolástico podia falar sobre a Igreja de sua época por ter vivido aquela época [4], também os judeus podem falar sobre a Igreja da Segunda Guerra, pois eles estavam lá. Nem todos os judeus estavam lá, mas alguns estavam, e é a eles que podemos emprestar nossos ouvidos [5][6][7][8]. 

Quando Richard Dawkins sente que a temperatura ambiente é capaz de ferver uma boa sopa de legumes, fala da Igreja e do nazismo como se Hitler e Pio XII fossem praticamente compadres [9]. Richard Dawkins é ainda mais problemático que Richard Carrier. Ao menos o segundo prestou-se a investigar alguma coisa. Eu não sou capaz de dizer qual dos dois demonstra maior apresso por polêmicas, mas sou capaz de dizer exatamente por que são polêmicas vazias. Dawkins repetiu diversas vezes que Hitler era católico por nunca ter renunciado ao batismo e por nunca ter sido excomungado pela Igreja. Mas ele parece ter a mente bastante limitada para sequer entender o que é uma excomunhão. Ele certamente nunca consultou o Direito Canônico. Parece que nenhum de seus leitores devotos o fez, e é por isso que eles se sentem até empolgados ao aplaudir algumas de suas declarações em alguma praça inglesa, em protesto à visita do Papa. De certo modo, Richard Carrier tem mais cautela e é até mais interessante: mas ele ainda precisa de algo sem o qual todas as suas ideias não podem resistir: novamente, trata-se do bom senso, pois ele certamente não percebe que mesmo suas ideias mais banais são completos absurdos. Lembro-me de seu artigo em que trazia ao leitor o resultado de suas investigações acerca do controverso Hitler’s Table Talk [10]. Lá ele denunciava as alterações de algumas traduções da obra e explicava o que o livro realmente dizia. Não se vê ali um Hitler anticristão: se vê, de fato, um Hitler lunático. Para Carrier, mesmo após toda a loucura, ainda se vê um Hitler católico, e o que fica evidente é que, assim como Richard Dawkins, ele sequer entende o catolicismo. Segundo os resultados de sua própria investigação, Hitler acreditava em um Cristo Ariano, desprezava o Apóstolo Paulo e repudiava como loucura o conceito da transubstanciação. Mas ele não vê, nisso tudo, algo que levante entre Hitler e o catolicismo a mínima contradição. 

Esse é exatamente o tipo de pessoa que condena a luta católica contra os hereges sem ao menos saber o que é uma heresia. Carrier está, em relação à Dawkins, mais familiarizado com a história, já que é um historiador: mas estar mais familiarizado com a história do que está Richard Dawkins não é necessariamente uma vantagem.  No fundo, nenhum dos dois pode dizer o que realmente aconteceu, no sentido de que nenhum dos dois é confiável: a ignorância é diferente, mas causa praticamente a mesma cegueira. Especialmente a cegueira de Carrier ficou muito clara, ao menos para mim, quando recomendou o filme Agora, de Alejandro Amenábar, em uma de suas palestras contra o cristianismo [11], em que disse que o filme era historicamente acurado e que quase o fez chorar. Não duvido que Agora seja capaz de fazer uma pessoa chorar, assim como estou certo de que é capaz de fazer uma pessoa gargalhar. O mesmo pode ser dito da avaliação de Carrier sobre o filme. De qualquer forma, deixarei outros comentários para outra oportunidade. 

Se as pessoas buscassem consenso entre autores, em vez de consultar apenas esses autores polemistas, que ou são cegos ou são obscuros, então teríamos a condição necessária ao entendimento da história: falo, novamente, de dar ouvidos aos olhos, sem que se esqueça, porém, dos lábios. As imagens podem registrar um momento marcante, mas somente as testemunhas e os relatos podem dar sentido ao momento e explicar porque ele foi marcante. Uma pessoa que é justa sobre a Igreja pode garantir muitas coisas sobre sua história: pode garantir que houve resistência e que houve traição; que houve fraqueza e que houve coragem; que houve fé e que houve desespero - e não há nada de surpreendente nisso tudo. Ninguém pode, porém, dizer que a Igreja, que por vezes parece um navio afundando, tenha realmente afundado ou perdido a esperança de encontrar terra firme. Não só ela encontrou terra firme, como também não hesitou em trazer naquele navio duvidoso uma tripulação que em nenhum outro lugar encontrou ajuda para superar as ondas cruéis de um mar impiedoso. Aquela tripulação não fez outra coisa senão agradecer por aquela imensa generosidade. Mas quem já estava na ilha, em segurança, quem não acompanhou o drama da tempestade olha para o navio e imagina que ele provavelmente não fez nada. À medida que a tripulação desaparece, também desaparece a gratidão. Enquanto duas ou três pessoas tentam falar sobre as glórias e importância do navio, os indiferentes veem nele apenas algo sem beleza e que ofusca a beleza do que o cerca. Não importa o que digam, será sempre um velho navio que por pouco não naufragou e que já não tem utilidade.

Esse é exatamente o julgamento que os modernos fazem do navio. Olham para o casco destruído, mas não imaginam o capitão ou a trajetória, nem distinguem os leais e os traidores. Não consultam os tripulantes, mas consultam os jornalistas, que apareceram muito depois de a âncora tocar o chão e congelar o tempo, como moscas que só vão até o cadáver quando o odor do corpo já é muito forte. Trata-se de olhar para a foto sem perceber que uma imagem não conta uma história. Trata-se de olhar para a história como se ela não fosse uma aventura no tempo, mas uns poucos retratos congelados. Minha avó sabe que seus retratos não revelam os segredos da infância, a alegria do casamento ou a felicidade da família. Mas os que são chamados céticos parecem não saber que o retrato diz muito pouco, principalmente para quem não sabe o que houve antes ou depois daquela fração de segundo.


Notas:
*Challenge Accepted, 3 de setembro de 2011: caosdinamico.com.

Referências:
  1. Eu apenas imagino a reação de alguns ao ler tal afirmação, mas o cristianismo passou os primeiros séculos sendo perseguido pelo Império Romano, e mesmo após ter crescido foi vitimado em diversos episódios de diferentes períodos e lugares - França, Espanha, México, por exemplo. Mas o mais notável é o fato de ainda hoje pessoas serem perseguidas por causa da fé cristã, como se pode perceber na China comunista ou em vários países teocráticos islâmicos.
  2. Eu, Ateu, 29 de agosto de 2011: A Igreja Católica era boazinha.
  3. Por "livros" não me refiro aos livros de historiadores que discutem a fundo cada pequeno evento histórico, levando em contas as fontes originais e o que outros historiadores afirmam sobre esses eventos; me refiro aos livros populares e ao desserviço que prestam à verdadeira História. Livros didáticos parecem tender à abordagem popular e ignorar a abordagem acadêmica, o que é no mínimo irônico.
  4. Sócrates de Constantinopla, historiador cristão, autor de Historia ecclesiastica, obra em que relata, por exemplo, o caso de Hipátia de Alexandria - filósofa assassinada por um grupo de cristãos, no século V.
  5. Há livros com depoimentos de judeus sobre o Papa Pio XII e a atitude da Igreja em relação ao drama sofrido pelos judeus sob o nazismo: Defamation of Pius XII, de Ralph McInerny; The Myth of Hitler's Pope, de David G. Dalin, e Did Pope Pius XII Help the Jews, de Margherita Marchione, por exemplo. O primeiro e segundo exemplo são respostas diretas a Hitler's Pope, de John Cornwell.
  6. A Pave the Way Foundation tem feito grandes esforços em esclarecer a figura de Pio XII e seu comportamento em relação aos judeus e nazistas. Eles compilaram pilhas de documentos, promoveram simpósios e publicaram um livro, Pope Pius XII and World War II - The Documented Truth, do judeu Gary Krupp, disponível em amazon.com. Também produziram um vídeo narrado sobre o assunto, que exibe vários documentos, como cartas escritas à mão: Pope Pius documents.
  7. No Google News Archives há uma publicação do The Milwaukee Sentinel, 22 de março de 1937 - antes mesmo da Segunda Guerra Mundial -, em que se lê: "Nazistas denunciados pelo Pio como anticristãos". A página completa pode ser acessada aqui: news.google.com.
  8. Mesmo O Globo atentou recentemente para o problema, em um artigo intitulado "A misteriosa relação do Vaticano com Hitler", 17 de março de 2012, de Graça Magalhães. Nele lemos: "Novos estudos revelam que Igreja teria sido sempre contrária ao nazismo, mesmo quando silenciou". A página completa pode ser acessada aqui: slideshare.net.
  9. "Protest the Pope" Rally, 18 de setembro de 2010: Richard Dawkins' speech at Protest the Pope march.
  10. Richard Carrier, em Freedom From Religion Foundation, On the Trail of Bogus Quotes, novembro de 2002. Disponível em ffrf.org.
  11. Richard Carrier, Early Christian Hostility to Scientific Values. A palestra está disponível no Youtube, dividida em oito partes: Richard Carrier on Early Christian Hostility to Science.

4 de outubro de 2012

A crença cotidiana #1

No começo de 2012 tive a ideia de escrever um e-book misturando o conteúdo publicado nesse blog e algumas coisas inéditas. Acabei abandonando o projeto, mas não cheguei a "jogá-lo no lixo". Escrevi apenas um capítulo, e nele tentei fazer uma breve introdução ao problema do ceticismo moderno, utilizando linguagem simples e referências com as quais qualquer adolescente estará provavelmente familiarizado, como filmes da Disney e quadrinhos da Marvel - basicamente o que sempre faço por aqui. Minha ideia, agora, é publicar esse capítulo em forma de postagens (três ou quatro, para que cada uma não fique muito extensa).

Atenciosamente, Vinicius Oliveira.

A Incredulidade de São Tomé
Por algum motivo que eu não sou capaz de entender de forma clara, tornou-se comum pensar que o ceticismo é um direito exclusivo dos ateus, quando, na verdade, é um direito de todos os seres humanos. Não há sentido em pensar que o mecânico ou a senhora que vende doces caseiros não podem receber esse título, pois muitos mecânicos e doceiras encaram a vida e projetam seu futuro exclusivamente a partir da experiência cotidiana, sem que qualquer preocupação acerca do Númeno atrapalhe seus negócios. Recordo-me de uma discussão despretensiosa em que afirmei ser cético pouco após ter afirmado ser cristão, e a objeção veio imediatamente, como se fosse impossível ser, ao mesmo tempo, as duas coisas. A popularidade da ideia de que o ceticismo é uma exclusividade de algumas poucas pessoas é tão grande que é praticamente impossível falar de céticos sem parecer que se está falando de um grupo muito específico de desconfiados sem religião. Algumas pessoas parecem pressupor certos critérios para o ceticismo, de modo a descartar do clube dos céticos todos aqueles que não atendem a esses critérios. E o que é realmente notável é o fato de tais critérios serem estabelecidos, na maioria das vezes, sem critério algum.

Se pegarmos o exemplo de alguns jovens ateus, e aqui gostaria de destacar, para ser justo, o meu próprio exemplo, será possível notar a completa falta de prudência na tentativa comum de identificar-se como um cético diferenciado, ou um cético verdadeiro. Parecia-me muito claro que eu era um cético autêntico por duvidar de boa parte das coisas que me contavam, inclusive quando não havia motivos aparentes para que houvesse qualquer dúvida. Essa minha dúvida sobre quase tudo se manifestava principalmente quando as pessoas tentavam parecer verdadeiros conhecedores do comportamento humano. E em uma sala de aula de ensino médio, a cada três minutos é possível imaginar que o espírito de Skinner está controlando os lábios de algum fofoqueiro; mas a impressão é ainda mais terrível quando se trata dos lábios de um professor, porque o professor fala com autoridade.

Coincidentemente, essa foi a primeira pista que me levou a concluir que eu, de fato, nunca fui um cético distinto: pois em geral nós temos a mania bastante atrevida de duvidar das histórias de nossas avós, mas dificilmente duvidamos das histórias dos nossos professores. Não me refiro meramente às histórias particulares dos professores, mas a tudo que eles nos contam em uma sala de aula. Nós não temos a mania atrevida de duvidar das fantasias que lemos em livros didáticos, porque supomos que eles são científicos; mas é bastante fácil duvidar das histórias das nossas avós, porque supomos que elas são inevitavelmente fantasiosas. Eventualmente se descobre que é fácil duvidar do que diz o sacerdote em sua pregação de certo domingo de manhã, mas dificilmente se percebe o quanto é difícil duvidar da pregação dos professores todas as manhãs, porque dificilmente se acredita que o professor possa estar pregando. O professor está sempre revestido de uma aura científica que brilha e encanta, e mesmo aqueles que se julgam prudentes e cautelosos não manifestam cautela ao admirar esse brilho. Em resumo, pode-se dizer que há certa ingenuidade no ceticismo concebido popularmente que se revela em duas formas essenciais: primeiro, o cético não percebe que o ceticismo se manifesta em todas as pessoas, apenas direcionado para fatos distintos; segundo, ele não percebe que é impossível ser cético sobre tudo, e que mesmo para contestar uma ideia é necessário afirmar outra ideia. É possível dizer que o cético talvez nunca tenha parado para pensar que, enquanto ele duvidava de sua avó, sua avó também duvidava de tudo que a ela parecia suspeito. E me parece que as crianças mentem e se enganam muito mais do que as avós, o que naturalmente torna o ceticismo dos idosos uma ferramenta muito mais prática.

Não me refiro às avós e aos professores por acaso. Se eu tivesse dado mais atenção às fantasias de minha avó e menos às histórias de meus professores, eu provavelmente não estaria aqui falando sobre a descoberta da fé – talvez eu a tivesse descoberto muito antes e não sentisse a menor necessidade de falar sobre ela, pois para um grande número de cristãos a fé é tão cotidiana que sequer deixa espaço para a surpresa: e aqui escrevo apenas sobre essa surpresa. É bastante surpreendente perceber que seria muito mais sensato ouvir minha avó, pois naquela frágil senhora havia uma força em que eu podia confiar; e é igualmente surpreendente descobrir que alguns professores tão fortemente convictos de seus absurdos são mais frágeis que a pequena Dory. E apesar de possível, é difícil confiar em alguém cujo intelecto não inspira confiança alguma – mesmo se levarmos em conta a circunstância, como no caso de Marlin. Eu até posso afirmar com certa segurança que a fragilidade emocional é muito mais tolerável que a fragilidade intelectual: é muito mais fácil sensibilizar-se com as mudanças de humor de uma mulher educada do que com uma mulher educada que não sabe apontar, no mapa, a localização da Espanha. No primeiro caso não é necessário inventar desculpas, pois há algo natural que livra a mulher da culpa; no segundo caso, há um culpado bastante óbvio e inesperado, principalmente quando levamos em conta a educação: o culpado é a ignorância.

A ignorância é o que torna irônico todo o drama que se vê, hoje, em muitas salas de aula. É realmente irônico perceber que quem ensina não está apto a ensinar. Essa realidade é muito maior que a mera aptidão no sentido metodológico. Mesmo quem é capaz acaba reproduzindo algumas centenas de idiotices sem se dar conta de que são idiotices insustentáveis. É muito difícil acreditar que a ciência de alguns professores é mera fantasia. É difícil até mesmo levantar a hipótese de que um professor está mentindo, e há motivos razoáveis para essa dificuldade. Às vezes porque a mentira é tão tradicional quanto o próprio ato de mentir – e apesar de não ser necessário culpar os professores, é possível perceber que eles são, muitas vezes, os primeiros a agir em completo desacordo com o ceticismo que muitos deles professam desregradamente. O professor está apenas repetindo algo que, para ele, é tão verdadeiro quanto a queda do muro de Berlin. E para ele o livro didático é tão preciso quanto o arco-íris é colorido. O que se vê diariamente é que o professor comum é, muitas vezes, tão sincero quanto nossas avós. Mas o que é realmente chocante é que ele é muito mais ingênuo.

A falácia do apelo à autoridade se tornou popular no lugar onde ela mais deveria ser vista como uma falácia: esse lugar é a escola. Se olharmos para alguns livros de matemática, veremos que eles se preocupam mais em explicar tal fórmula a explicar quem a formulou. Não veremos opiniões irrelevantes ou condenações morais de algum doutor moderno sobre quem a formulou, pois tudo isso é irrelevante para a coisa que nos interessa: a fórmula em si. Mas se olharmos para boa parte dos livros de história, veremos ali uma maior preocupação com opiniões, quando a única preocupação deveria ser os próprios eventos. O livro de história se recusa a relatar quais tecnologias foram desenvolvidas na Idade Média, mas professa alegremente que o homem da Idade Média era incapaz de desenvolver novas tecnologias [1]. Enquanto o livro de matemática se preocupa com os escritos de Pitágoras acerca de algo bastante específico, o livro de história sequer apresenta os escritos de quem sofreu com a peste negra, passando a impressão de que a peste chegou a impedir toda a Europa de escrever. O livro de história fala sobre o Rei, sobre as atitudes do Rei e até sobre as intenções do Rei, mas quase nunca permite que o Rei fale por ele mesmo. Ali se vê, da forma mais nítida possível, que quem conta a história ignora o fato em benefício do preconceito, e a tinta da pena borrada no papel de quem realmente viu e contou algo é ignorada como se fosse invisível. E tão rápido quanto um cão que corre atrás do coelho o preconceito se espalha e se torna praticamente científico, como se fosse possível reproduzir diversas vezes as fitas da história assim como é possível repetir diversas vezes determinado experimento.

O resultado é que a autoridade da mentira histórica é tão forte que confunde a simplicidade da verdade histórica. O cético comum do qual venho falando baterá no peito e dirá que se recusa a acreditar que milagres acontecem, mas dificilmente se recusará a acreditar que os navegadores europeus temiam cair no abismo da terra plana. Mas é muito mais fácil provar que os europeus nunca temeram abismos ou monstros nos confins do oceano do que provar que milagres não acontecem. Não se encontra em nenhum registro daquele tempo que essa era uma ideia popularmente aceita, ou mesmo conhecida, para ser mais exato; no entanto, tornou-se comum dizer, diante de algumas imbecilidades contemporâneas, que o homem já acreditou em coisas tão absurdas como a ideia de que a terra era plana – é o caso do sr. Bernardo Lopes [2].

Os livros de história certamente não podem ser exatos como os livros de matemática, mas é lamentável que sejam mais fantasiosos que os livros de ficção científica. O problema, obviamente, é que não se espera que a fantasia seja promovida na escola – se for esse o caso, espera-se que a promoção limite-se ao jardim de infância. A realidade, porém, é bastante diferente, e mesmo um universitário inteligente olhará para Galileu como um mártir da ciência sem ao menos saber que o problema de Galileu nunca foi científico [3][4][5]. As histórias contadas nas aulas de história são aceitas simplesmente por serem contadas nas aulas de história, e o efeito prático desse conformismo é que a história acaba não sendo contada. Tenho a impressão de que é tão fácil reproduzir em um livro didático os relatos de Ana Comnena [6] sobre a relação entre seu pai e Boemundo quanto é fácil reproduzir os escritos de Darwin sobre a relação entre as aves e os répteis. Mas o livro de história não ousa mencionar a princesa, pois sabe que seu fantasma é mais honesto e revelador que as ideias absurdas que se consegue promover quando é possível calá-lo.

A aula de história, muito mais que qualquer aula de domingo de manhã, é a verdadeira responsável pela crença cotidiana, a única crença em que até mesmo os céticos mais cheios de si acreditam sem a menor desconfiança. A força dessa crença é absurda, e é praticamente impossível ser levado a sério quando se diz que a Igreja Católica nunca perseguiu cientistas [7]. Essa ideia e várias outras são tão fortes que são aceitas sem a menor necessidade de reflexão e estudo. Mesmo o aluno que nunca pegou um único livro sobre algo que não caberia em menos de mil páginas se sente no direito de lembrar aos católicos dos fatos históricos que depõem contra a Igreja, que, segundo eles, se tornou poderosa à custa de alguma psicologia terrorista e certa corrupção que ainda persiste. Na verdade, é o mesmo aluno que não sabe explicar como Hitler convenceu a Alemanha de ideias obviamente desumanas. Para ele basta saber que Hitler foi um homem cruel e desprezível: não é necessário saber como um homem cruel e desprezível conquistou pessoas comuns que não apreciam crueldades. E, de certo modo, é exatamente assim que ele analisa toda a história da Igreja: basta saber que trata-se de uma entidade cruel e desprezível, mas é irrelevante saber como essa entidade cruel e desprezível torna-se a casa de uma família de bilhões de pessoas que nem sempre merecem algum desprezo. Não comparo a Igreja ao regime nazista como se ambos fossem, mesmo, cruéis e desprezíveis, e é bastante fácil mostrar a diferença, mas para quem não conhece bem as duas coisas a distinção será praticamente impossível. Não espanta ser uma coisa comum comparerem a Inquisição ao Holocausto. 

De fato, ouviremos algumas explicações vagas e imprecisas que afirmam que o cristianismo cresceu pela força da espada e pela psicologia do medo. Lembro-me de uma discussão com um amigo interessado nessas coisas, que ilustra exatamente isso. Dizia ele que o cristianismo crescera através das conquistas e do terror, oferecendo como exemplos respectivos as Cruzadas e a Inquisição. O que era realmente notável é que ele não achava no mínimo curioso o fato de que no século XII o cristianismo já era um gigante. Se alguém afirma que a cristandade consolidou-se através dos exércitos cruzados, precisa primeiro explicar de onde vieram os milhares de cruzados para formar aqueles exércitos. É nesse momento que se descobre que muito antes de possuir um escudo para defender o seu templo a família cristã o defendia com o próprio peito, e por isso a rica história dos mártires já começa com os apóstolos.

Ademais, eu diria isso sobre a diferença entre a ascensão do nazismo e da Igreja: que o terror não foi a ferramenta que nenhum dos dois usou para conquistar o povo; a real diferença é que o nazismo fez exatamente o que é feito para ascender no Brasil ou na América do Norte. Ele iludiu o povo e fingiu ser algo que não era; seduziu as pessoas para uma armadilha e o fez como qualquer caçador inteligente faria, com uma isca irresistível para uma armadilha mortal. A Igreja é uma das poucas coisas, senão a única, que ascendeu dizendo a verdade e sendo ela mesma. Ela não fingiu ser mais doce do que realmente era ou menos severa do que realmente era. Por oferecer algo que considerava real, condenou o erro com uma força sobrenatural. Não disse coisas para agradar os homens e fazer amigos, como alguém que elogia um estranho e depois pede a ele dinheiro emprestado; disse apenas a verdade, e os homens se agradaram ao ouvi-la.

E a amizade que surgiu entre o homem e a Igreja é um dos poucos tipos de amizade verdadeira - amizade que sabe amar e disciplinar, consolar e corrigir, ou mesmo gritar e chorar sem que isso signifique o fim da relação. A Igreja é amada por milhões de pessoas porque foi o amigo raro que nem todos têm a sorte de encontrar e que muitos acham bom demais para existir. O nazismo nunca foi esse amigo, e os partidos políticos em geral não são esse amigo: eles são meramente enganadores e interesseiros, que riem pra gente com um sorriso barganhista e nos abraçam cordialmente como Satanás faria ao levar qualquer pessoa para o inferno. Pouco importa se o nazismo trouxe o inferno para as pessoas ao invés de levá-las até lá: o fato relevante é que a Igreja é a única coisa que se aproximou do homem a fim de levá-lo até o Céu.


Referências:
  1. Essa afirmação não é exatamente atual. Chesterton já a denunciava cem anos atrás: Illustrated London News, Getting to Know the Middle Ages, 15 de novembro de 1913. Disponível em chesterton.org. Tradução disponível em quadrante.com.
  2. Acid Atheist, 23 de outubro de 2011: Humanidade Acéfala. Cito o sr. Bernardo apenas como um de vários exemplos possíveis, pois a ideia é bastante comum e pode ser encontrada em livros populares ou filmes de Hollywood - Men in Black, 1997, por exemplo.
  3. Os problemas de Galileu começaram por ele ter sugerido que as Escrituras deveriam ser reinterpretadas. De fato, ele fez isso após ter sido alertado para não adentrar ao debate teológico. Nicolau Copérnico, que propôs o modelo heliocêntrico não teve problemas com a Igreja, e dedicou sua obra De revolutionibus orbium coelestium ao Papa Paulo III. O verdadeiro problema foi Galileu ter sugerido a reinterpretação das Escrituras sem ter provado que o Heliocentrismo era correto, e ainda assim ensiná-lo como fato, enquanto a Igreja havia lhe recomendado ensinar o modelo apenas como teoria. A contínua desobediência de Galileu e a publicação do Diálogo sobre o fluxo e refluxo das marés, em que o Papa Urbano VIII era representado como um imbecil, contribuíram para sua condenação à prisão domiciliar.
  4. Ver Marcelo Gleiser, A Dança do Universo: dos mitos de Criação ao Big Bang, "O Herético Religioso". São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  5. Ver Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, trad. de Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, págs. 63-70.
  6. Alexíada, de Ana Comnena, em que é narrada a vida do Imperador Aleixo, é, de acordo com Steven Runciman "a única fonte grega de importância substancial" referente à Primeira Cruzada. O autor não deixa de ressaltar que a própria Anna deixa, por vezes, que seu preconceito ofusque os fatos (Steven Runciman, História das Cruzadas, Volume I: A Primeira Cruzada e a fundação do Reino de Jerusalém, trad. de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2003, pág 291). Cito-a como exemplo de fonte primária que geralmente é ignorada, senão desconhecida quando se fala em Cruzadas.
  7. Essa ideia está normalmente associada a outro equívoco: o de que a Inquisição era um sistema de perseguição que aniquilava tudo que estivesse em seu caminho e fosse contrário à Igreja. Além disso, o erro causa a impressão de que a Igreja perseguia cientistas pelo mero fato de serem cientistas ou praticarem a ciência. Mas mesmo Galileu não foi condenado por razões científicas, e sim teológicas. Giordano Bruno, outro exemplo utilizado, não era cientista, apesar de receber de alguns o título de "mártir da ciência".

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