4 de outubro de 2012

A crença cotidiana #1

No começo de 2012 tive a ideia de escrever um e-book misturando o conteúdo publicado nesse blog e algumas coisas inéditas. Acabei abandonando o projeto, mas não cheguei a "jogá-lo no lixo". Escrevi apenas um capítulo, e nele tentei fazer uma breve introdução ao problema do ceticismo moderno, utilizando linguagem simples e referências com as quais qualquer adolescente estará provavelmente familiarizado, como filmes da Disney e quadrinhos da Marvel - basicamente o que sempre faço por aqui. Minha ideia, agora, é publicar esse capítulo em forma de postagens (três ou quatro, para que cada uma não fique muito extensa).

Atenciosamente, Vinicius Oliveira.

A Incredulidade de São Tomé
Por algum motivo que eu não sou capaz de entender de forma clara, tornou-se comum pensar que o ceticismo é um direito exclusivo dos ateus, quando, na verdade, é um direito de todos os seres humanos. Não há sentido em pensar que o mecânico ou a senhora que vende doces caseiros não podem receber esse título, pois muitos mecânicos e doceiras encaram a vida e projetam seu futuro exclusivamente a partir da experiência cotidiana, sem que qualquer preocupação acerca do Númeno atrapalhe seus negócios. Recordo-me de uma discussão despretensiosa em que afirmei ser cético pouco após ter afirmado ser cristão, e a objeção veio imediatamente, como se fosse impossível ser, ao mesmo tempo, as duas coisas. A popularidade da ideia de que o ceticismo é uma exclusividade de algumas poucas pessoas é tão grande que é praticamente impossível falar de céticos sem parecer que se está falando de um grupo muito específico de desconfiados sem religião. Algumas pessoas parecem pressupor certos critérios para o ceticismo, de modo a descartar do clube dos céticos todos aqueles que não atendem a esses critérios. E o que é realmente notável é o fato de tais critérios serem estabelecidos, na maioria das vezes, sem critério algum.

Se pegarmos o exemplo de alguns jovens ateus, e aqui gostaria de destacar, para ser justo, o meu próprio exemplo, será possível notar a completa falta de prudência na tentativa comum de identificar-se como um cético diferenciado, ou um cético verdadeiro. Parecia-me muito claro que eu era um cético autêntico por duvidar de boa parte das coisas que me contavam, inclusive quando não havia motivos aparentes para que houvesse qualquer dúvida. Essa minha dúvida sobre quase tudo se manifestava principalmente quando as pessoas tentavam parecer verdadeiros conhecedores do comportamento humano. E em uma sala de aula de ensino médio, a cada três minutos é possível imaginar que o espírito de Skinner está controlando os lábios de algum fofoqueiro; mas a impressão é ainda mais terrível quando se trata dos lábios de um professor, porque o professor fala com autoridade.

Coincidentemente, essa foi a primeira pista que me levou a concluir que eu, de fato, nunca fui um cético distinto: pois em geral nós temos a mania bastante atrevida de duvidar das histórias de nossas avós, mas dificilmente duvidamos das histórias dos nossos professores. Não me refiro meramente às histórias particulares dos professores, mas a tudo que eles nos contam em uma sala de aula. Nós não temos a mania atrevida de duvidar das fantasias que lemos em livros didáticos, porque supomos que eles são científicos; mas é bastante fácil duvidar das histórias das nossas avós, porque supomos que elas são inevitavelmente fantasiosas. Eventualmente se descobre que é fácil duvidar do que diz o sacerdote em sua pregação de certo domingo de manhã, mas dificilmente se percebe o quanto é difícil duvidar da pregação dos professores todas as manhãs, porque dificilmente se acredita que o professor possa estar pregando. O professor está sempre revestido de uma aura científica que brilha e encanta, e mesmo aqueles que se julgam prudentes e cautelosos não manifestam cautela ao admirar esse brilho. Em resumo, pode-se dizer que há certa ingenuidade no ceticismo concebido popularmente que se revela em duas formas essenciais: primeiro, o cético não percebe que o ceticismo se manifesta em todas as pessoas, apenas direcionado para fatos distintos; segundo, ele não percebe que é impossível ser cético sobre tudo, e que mesmo para contestar uma ideia é necessário afirmar outra ideia. É possível dizer que o cético talvez nunca tenha parado para pensar que, enquanto ele duvidava de sua avó, sua avó também duvidava de tudo que a ela parecia suspeito. E me parece que as crianças mentem e se enganam muito mais do que as avós, o que naturalmente torna o ceticismo dos idosos uma ferramenta muito mais prática.

Não me refiro às avós e aos professores por acaso. Se eu tivesse dado mais atenção às fantasias de minha avó e menos às histórias de meus professores, eu provavelmente não estaria aqui falando sobre a descoberta da fé – talvez eu a tivesse descoberto muito antes e não sentisse a menor necessidade de falar sobre ela, pois para um grande número de cristãos a fé é tão cotidiana que sequer deixa espaço para a surpresa: e aqui escrevo apenas sobre essa surpresa. É bastante surpreendente perceber que seria muito mais sensato ouvir minha avó, pois naquela frágil senhora havia uma força em que eu podia confiar; e é igualmente surpreendente descobrir que alguns professores tão fortemente convictos de seus absurdos são mais frágeis que a pequena Dory. E apesar de possível, é difícil confiar em alguém cujo intelecto não inspira confiança alguma – mesmo se levarmos em conta a circunstância, como no caso de Marlin. Eu até posso afirmar com certa segurança que a fragilidade emocional é muito mais tolerável que a fragilidade intelectual: é muito mais fácil sensibilizar-se com as mudanças de humor de uma mulher educada do que com uma mulher educada que não sabe apontar, no mapa, a localização da Espanha. No primeiro caso não é necessário inventar desculpas, pois há algo natural que livra a mulher da culpa; no segundo caso, há um culpado bastante óbvio e inesperado, principalmente quando levamos em conta a educação: o culpado é a ignorância.

A ignorância é o que torna irônico todo o drama que se vê, hoje, em muitas salas de aula. É realmente irônico perceber que quem ensina não está apto a ensinar. Essa realidade é muito maior que a mera aptidão no sentido metodológico. Mesmo quem é capaz acaba reproduzindo algumas centenas de idiotices sem se dar conta de que são idiotices insustentáveis. É muito difícil acreditar que a ciência de alguns professores é mera fantasia. É difícil até mesmo levantar a hipótese de que um professor está mentindo, e há motivos razoáveis para essa dificuldade. Às vezes porque a mentira é tão tradicional quanto o próprio ato de mentir – e apesar de não ser necessário culpar os professores, é possível perceber que eles são, muitas vezes, os primeiros a agir em completo desacordo com o ceticismo que muitos deles professam desregradamente. O professor está apenas repetindo algo que, para ele, é tão verdadeiro quanto a queda do muro de Berlin. E para ele o livro didático é tão preciso quanto o arco-íris é colorido. O que se vê diariamente é que o professor comum é, muitas vezes, tão sincero quanto nossas avós. Mas o que é realmente chocante é que ele é muito mais ingênuo.

A falácia do apelo à autoridade se tornou popular no lugar onde ela mais deveria ser vista como uma falácia: esse lugar é a escola. Se olharmos para alguns livros de matemática, veremos que eles se preocupam mais em explicar tal fórmula a explicar quem a formulou. Não veremos opiniões irrelevantes ou condenações morais de algum doutor moderno sobre quem a formulou, pois tudo isso é irrelevante para a coisa que nos interessa: a fórmula em si. Mas se olharmos para boa parte dos livros de história, veremos ali uma maior preocupação com opiniões, quando a única preocupação deveria ser os próprios eventos. O livro de história se recusa a relatar quais tecnologias foram desenvolvidas na Idade Média, mas professa alegremente que o homem da Idade Média era incapaz de desenvolver novas tecnologias [1]. Enquanto o livro de matemática se preocupa com os escritos de Pitágoras acerca de algo bastante específico, o livro de história sequer apresenta os escritos de quem sofreu com a peste negra, passando a impressão de que a peste chegou a impedir toda a Europa de escrever. O livro de história fala sobre o Rei, sobre as atitudes do Rei e até sobre as intenções do Rei, mas quase nunca permite que o Rei fale por ele mesmo. Ali se vê, da forma mais nítida possível, que quem conta a história ignora o fato em benefício do preconceito, e a tinta da pena borrada no papel de quem realmente viu e contou algo é ignorada como se fosse invisível. E tão rápido quanto um cão que corre atrás do coelho o preconceito se espalha e se torna praticamente científico, como se fosse possível reproduzir diversas vezes as fitas da história assim como é possível repetir diversas vezes determinado experimento.

O resultado é que a autoridade da mentira histórica é tão forte que confunde a simplicidade da verdade histórica. O cético comum do qual venho falando baterá no peito e dirá que se recusa a acreditar que milagres acontecem, mas dificilmente se recusará a acreditar que os navegadores europeus temiam cair no abismo da terra plana. Mas é muito mais fácil provar que os europeus nunca temeram abismos ou monstros nos confins do oceano do que provar que milagres não acontecem. Não se encontra em nenhum registro daquele tempo que essa era uma ideia popularmente aceita, ou mesmo conhecida, para ser mais exato; no entanto, tornou-se comum dizer, diante de algumas imbecilidades contemporâneas, que o homem já acreditou em coisas tão absurdas como a ideia de que a terra era plana – é o caso do sr. Bernardo Lopes [2].

Os livros de história certamente não podem ser exatos como os livros de matemática, mas é lamentável que sejam mais fantasiosos que os livros de ficção científica. O problema, obviamente, é que não se espera que a fantasia seja promovida na escola – se for esse o caso, espera-se que a promoção limite-se ao jardim de infância. A realidade, porém, é bastante diferente, e mesmo um universitário inteligente olhará para Galileu como um mártir da ciência sem ao menos saber que o problema de Galileu nunca foi científico [3][4][5]. As histórias contadas nas aulas de história são aceitas simplesmente por serem contadas nas aulas de história, e o efeito prático desse conformismo é que a história acaba não sendo contada. Tenho a impressão de que é tão fácil reproduzir em um livro didático os relatos de Ana Comnena [6] sobre a relação entre seu pai e Boemundo quanto é fácil reproduzir os escritos de Darwin sobre a relação entre as aves e os répteis. Mas o livro de história não ousa mencionar a princesa, pois sabe que seu fantasma é mais honesto e revelador que as ideias absurdas que se consegue promover quando é possível calá-lo.

A aula de história, muito mais que qualquer aula de domingo de manhã, é a verdadeira responsável pela crença cotidiana, a única crença em que até mesmo os céticos mais cheios de si acreditam sem a menor desconfiança. A força dessa crença é absurda, e é praticamente impossível ser levado a sério quando se diz que a Igreja Católica nunca perseguiu cientistas [7]. Essa ideia e várias outras são tão fortes que são aceitas sem a menor necessidade de reflexão e estudo. Mesmo o aluno que nunca pegou um único livro sobre algo que não caberia em menos de mil páginas se sente no direito de lembrar aos católicos dos fatos históricos que depõem contra a Igreja, que, segundo eles, se tornou poderosa à custa de alguma psicologia terrorista e certa corrupção que ainda persiste. Na verdade, é o mesmo aluno que não sabe explicar como Hitler convenceu a Alemanha de ideias obviamente desumanas. Para ele basta saber que Hitler foi um homem cruel e desprezível: não é necessário saber como um homem cruel e desprezível conquistou pessoas comuns que não apreciam crueldades. E, de certo modo, é exatamente assim que ele analisa toda a história da Igreja: basta saber que trata-se de uma entidade cruel e desprezível, mas é irrelevante saber como essa entidade cruel e desprezível torna-se a casa de uma família de bilhões de pessoas que nem sempre merecem algum desprezo. Não comparo a Igreja ao regime nazista como se ambos fossem, mesmo, cruéis e desprezíveis, e é bastante fácil mostrar a diferença, mas para quem não conhece bem as duas coisas a distinção será praticamente impossível. Não espanta ser uma coisa comum comparerem a Inquisição ao Holocausto. 

De fato, ouviremos algumas explicações vagas e imprecisas que afirmam que o cristianismo cresceu pela força da espada e pela psicologia do medo. Lembro-me de uma discussão com um amigo interessado nessas coisas, que ilustra exatamente isso. Dizia ele que o cristianismo crescera através das conquistas e do terror, oferecendo como exemplos respectivos as Cruzadas e a Inquisição. O que era realmente notável é que ele não achava no mínimo curioso o fato de que no século XII o cristianismo já era um gigante. Se alguém afirma que a cristandade consolidou-se através dos exércitos cruzados, precisa primeiro explicar de onde vieram os milhares de cruzados para formar aqueles exércitos. É nesse momento que se descobre que muito antes de possuir um escudo para defender o seu templo a família cristã o defendia com o próprio peito, e por isso a rica história dos mártires já começa com os apóstolos.

Ademais, eu diria isso sobre a diferença entre a ascensão do nazismo e da Igreja: que o terror não foi a ferramenta que nenhum dos dois usou para conquistar o povo; a real diferença é que o nazismo fez exatamente o que é feito para ascender no Brasil ou na América do Norte. Ele iludiu o povo e fingiu ser algo que não era; seduziu as pessoas para uma armadilha e o fez como qualquer caçador inteligente faria, com uma isca irresistível para uma armadilha mortal. A Igreja é uma das poucas coisas, senão a única, que ascendeu dizendo a verdade e sendo ela mesma. Ela não fingiu ser mais doce do que realmente era ou menos severa do que realmente era. Por oferecer algo que considerava real, condenou o erro com uma força sobrenatural. Não disse coisas para agradar os homens e fazer amigos, como alguém que elogia um estranho e depois pede a ele dinheiro emprestado; disse apenas a verdade, e os homens se agradaram ao ouvi-la.

E a amizade que surgiu entre o homem e a Igreja é um dos poucos tipos de amizade verdadeira - amizade que sabe amar e disciplinar, consolar e corrigir, ou mesmo gritar e chorar sem que isso signifique o fim da relação. A Igreja é amada por milhões de pessoas porque foi o amigo raro que nem todos têm a sorte de encontrar e que muitos acham bom demais para existir. O nazismo nunca foi esse amigo, e os partidos políticos em geral não são esse amigo: eles são meramente enganadores e interesseiros, que riem pra gente com um sorriso barganhista e nos abraçam cordialmente como Satanás faria ao levar qualquer pessoa para o inferno. Pouco importa se o nazismo trouxe o inferno para as pessoas ao invés de levá-las até lá: o fato relevante é que a Igreja é a única coisa que se aproximou do homem a fim de levá-lo até o Céu.


Referências:
  1. Essa afirmação não é exatamente atual. Chesterton já a denunciava cem anos atrás: Illustrated London News, Getting to Know the Middle Ages, 15 de novembro de 1913. Disponível em chesterton.org. Tradução disponível em quadrante.com.
  2. Acid Atheist, 23 de outubro de 2011: Humanidade Acéfala. Cito o sr. Bernardo apenas como um de vários exemplos possíveis, pois a ideia é bastante comum e pode ser encontrada em livros populares ou filmes de Hollywood - Men in Black, 1997, por exemplo.
  3. Os problemas de Galileu começaram por ele ter sugerido que as Escrituras deveriam ser reinterpretadas. De fato, ele fez isso após ter sido alertado para não adentrar ao debate teológico. Nicolau Copérnico, que propôs o modelo heliocêntrico não teve problemas com a Igreja, e dedicou sua obra De revolutionibus orbium coelestium ao Papa Paulo III. O verdadeiro problema foi Galileu ter sugerido a reinterpretação das Escrituras sem ter provado que o Heliocentrismo era correto, e ainda assim ensiná-lo como fato, enquanto a Igreja havia lhe recomendado ensinar o modelo apenas como teoria. A contínua desobediência de Galileu e a publicação do Diálogo sobre o fluxo e refluxo das marés, em que o Papa Urbano VIII era representado como um imbecil, contribuíram para sua condenação à prisão domiciliar.
  4. Ver Marcelo Gleiser, A Dança do Universo: dos mitos de Criação ao Big Bang, "O Herético Religioso". São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  5. Ver Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental, trad. de Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, págs. 63-70.
  6. Alexíada, de Ana Comnena, em que é narrada a vida do Imperador Aleixo, é, de acordo com Steven Runciman "a única fonte grega de importância substancial" referente à Primeira Cruzada. O autor não deixa de ressaltar que a própria Anna deixa, por vezes, que seu preconceito ofusque os fatos (Steven Runciman, História das Cruzadas, Volume I: A Primeira Cruzada e a fundação do Reino de Jerusalém, trad. de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2003, pág 291). Cito-a como exemplo de fonte primária que geralmente é ignorada, senão desconhecida quando se fala em Cruzadas.
  7. Essa ideia está normalmente associada a outro equívoco: o de que a Inquisição era um sistema de perseguição que aniquilava tudo que estivesse em seu caminho e fosse contrário à Igreja. Além disso, o erro causa a impressão de que a Igreja perseguia cientistas pelo mero fato de serem cientistas ou praticarem a ciência. Mas mesmo Galileu não foi condenado por razões científicas, e sim teológicas. Giordano Bruno, outro exemplo utilizado, não era cientista, apesar de receber de alguns o título de "mártir da ciência".

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