19 de outubro de 2012

A crença cotidiana #2

Segunda parte do capítulo do projeto que foi abandonado - e-book. Nessa parte o leitor poderá notar, além do conteúdo exclusivo, porções de uma postagem antiga*, publicada originalmente em setembro de 2011.
A impressão que eu tenho ao dialogar com algumas pessoas sinceras é que, mesmo se esforçando para agir com justiça, elas acabam ignorando o fato de que a história do cristianismo não pode ser resumida a uma religião que fez vítimas nesse ou naquele evento, mas poderia facilmente ser resumida a uma religião que foi a vítima na maior parte dos eventos que constroem a sua história. Se olharmos cuidadosamente para cada evento e para as suas testemunhas, é exatamente isso que acabaremos por verificar [1]. Creio que não seja possível continuar sem antes falar dessas testemunhas e sobre uma possível objeção aos depoimentos que elas nos trazem. Acontece que algumas pessoas parecem acreditar que, quando se fala de eventos passados há quase mil anos, há uma carência de documentos que relatem o que via os olhos do próprio povo que protagonizou esses eventos – foi isso que senti ao ouvir um dos discursos do sr. Yuri Grecco contra a Igreja [2]. Mas é exatamente o contrário: a abundância é tão expressiva que chega a ser engraçado ver pessoas falando que as histórias inconvenientes de certo período foram queimadas em benefício de um propósito sombrio. E o que é realmente engraçado é a consequência de uma história que sofre com a transformação do papel em cinzas. Se realmente houvesse essa lacuna histórica, como o historiador moderno seria capaz de afirmar qualquer coisa sobre o pensamento e prática de uma época que não consta em nenhum registro? Se realmente não há registros, então não é possível falar em historiadores. Poderemos apenas falar em poetas. Nesse caso, o que se conta sobre a Idade Média terá tanto valor quanto o que se conta nas histórias em quadrinhos. Seria até mesmo injusto tratar as histórias de Andrew Dickson White como tratamos as histórias de Stan Lee, pois as histórias de Stan Lee são muito mais verdadeiras. 

Penso que esse exemplo pode explicar toda essa dúvida que existe ao se falar do passado um tanto remoto, que é também a possível objeção às testemunhas desse passado. Para algumas pessoas, não é que há apenas certa carência de documentos: o verdadeiro problema é a origem dos documentos. Não no sentido de que tenham sido fabricados posteriormente, mas no sentido de que são, muitas vezes, documentos cristãos. O cético não quer o depoimento de um monge, pois supõe que o monge irá manipular os fatos para representar positivamente a instituição que ele defende. O cético pensa que o monge antigo é como o jornalista moderno tentando garantir o seu emprego agrandado um público-alvo. Mas se consultarmos o que diz o monge, veremos que essa preocupação simplesmente não existe. É por esse motivo que pode até parecer chocante o fato de Lutero ter sido um monge católico. O que se vê no relato dessas testemunhas, bem como se vê no caso de Lutero, é que não há uma preocupação em retratar bem ou mal a Igreja: há apenas a preocupação em relatar o que se vê, e mesmo que a visão seja limitada, ela é útil por ser a expressão do que aquela pessoa realmente viu ou sentiu, em vez de ser uma suposição sobre o que pode ou não ter acontecido. Se juntarmos todos os olhares e todos os manuscritos poderemos realmente construir uma imagem próxima do fato, e é exatamente assim que a verdadeira história pode ser preservada da tentação do preconceito e da especulação exagerada. 

No entanto, os livros limitam-se ao preconceito e até estimam o exagero de especulação [3], e as testemunhas permanecem desconhecidas por boa parte das pessoas que mais insistentemente usam a história para condenar a Igreja. E ainda é necessário dizer algo mais sobre a recusa instantânea por parte de algumas pessoas quando os documentos partem desse ou daquele autor, como se fosse absurdo que um autor católico pudesse falar da Igreja Católica por correr o risco de deixar suas convicções pessoais atrapalharem sua imparcialidade. Essas pessoas parecem supor que o ateu tem até mais direito de falar da Igreja Católica por não ter com ela nenhum laço que comprometa as suas conclusões. Mas mera falta de ligação não garante imparcialidade, e se é verdade que o cristão pode tentar beneficiar o cristianismo movido por seu amor religioso, é igualmente verdadeiro que o ateu pode tentar depreciar o cristianismo movido por seu ódio ou desprezo antirreligiosos.

É possível ir mais fundo nessa questão, a fim de que entendamos o verdadeiro motivo de ser uma grande tolice recusar um depoimento por ele vir de alguém que possa não ser imparcial. No caso do que se diz sobre o catolicismo, a verdadeira questão é: não estariam os autores católicos, ao professarem qualquer argumento em defesa da Igreja, fazendo-o mais por buscarem retratá-la bem, que por qualquer compromisso com os fatos? Isso certamente dificultaria qualquer conclusão acerca de determinados episódios e, por isso, há duas considerações a se fazer, antes de qualquer investigação: a primeira, é que um autor não deve ser descartado por suas convicções pessoais. Imaginemos que um alemão e um francês discutirão o seguinte tópico: "Qual país é melhor: Alemanha ou França?". Seria razoável suspeitar que algum deles acabasse hora ou outra fornecendo uma defesa mais puramente patriótica de seu país, que uma baseada estritamente nos fatos sobre os dois países. Mas isso não nos daria o direito de dizer: "Que venha um inglês e decida a questão". A grande tristeza do alemão e do francês seria descobrir que, na verdade, o inglês não sabia nada sobre a Alemanha e nem sobre a França, e isso serviria, no máximo, como argumento contra a Inglaterra. Mas é verdade que o inglês poderia saber mais sobre a Alemanha e sobre a França do que sabiam o alemão e o francês sobre elas: o grande impasse seria saber, então, se um inglês seria capaz de decidir a favor da França em alguma disputa. O que quero dizer é que, inevitavelmente, corremos o risco de uma pessoa agir mais de forma emocional e deixar a objetividade de lado. Mas esse risco é humano e se manifestará em qualquer situação, e bem como o inglês poderia optar pela Alemanha movido por algum ódio cultural à França, o francês também poderia fazer a mesma coisa e pelo mesmo motivo em outro debate. 

Assim, se certo sacerdote polonês diz algo em defesa do catolicismo, deve-se buscar entender se a realidade sustenta aquilo que ele afirma, em vez de se usar aquilo em que ele acredita para descartar a sua defesa. É até muito mais sensato confiar em quem defende alguma coisa porque acredita naquela coisa, do que confiar em quem acusa alguma coisa pelo fato de nela não acreditar. Isso vale para todos, e é por isso que, se alguém quer entender bem a algo, deve buscar entendê-lo como entendem aqueles que acreditam nesse algo. Não se aprende sobre a Igreja Católica dando ouvidos a Andrew Dickson White, pois ele ensinaria apenas algo que nada tem a ver com a Igreja Católica, e me parece razoável que o ateísta suspeitará que não se aprende sobre o ateísmo dando ouvidos a algum padre de sua cidade – ou ao menos dirá que não se entende plenamente o ateísmo dessa forma. Se houvesse algum curioso fazendo-lhe perguntas sobre o ateísmo, suponho que ele preferiria recomendar Bertrand Russell. Mas, para que não se tenha a impressão errada do que quero dizer, esclareço que não estou dizendo que não se deve ouvir o que Dickson White tem a dizer sobre a Igreja, ou que um padre não pode dizer algo sobre o ateísmo: o que estou dizendo é que aprender sobre alguma coisa requer dar ouvidos tanto a quem a ama e quer preservá-la quanto a quem a odeia e quer destrui-la, pois somente assim o curioso poderá confrontar os dois extremos e concluir se quem ama ou odeia aquela coisa o faz por enxergar nela um fato amável ou odiável, ou se ama ou odeia aquela coisa apesar dos fatos amáveis ou odiáveis sobre ela. O que mais tenho notado sobre algumas pessoas que parecem curiosas é que elas quase nunca são curiosas o bastante, e isso explica praticamente todos os equívocos que elas cometem ao lidar com alguns desses problemas. Pois é verdade que há o cristão que crê no cristianismo por pura covardia de questionar-se e descobrir-se sozinho em um mundo carente de amor divino; mas também é verdade que há aquele sujeito que não crê no cristianismo por pura covardia de dar a ele uma chance e descobrir-se incapaz de negá-lo honestamente. 

A segunda consideração é a seguinte: assim como o alemão desconfia do julgamento que o francês faz sobre a França, também o ateísta pode desconfiar do julgamento que o católico faz sobre a Igreja Católica; mas é necessário imaginar a cara do alemão caso descobrisse que o inglês escolhera a França: ele certamente desejaria saber o que há na França de tão especial. Digo, pois, que no caso da Igreja Católica, para a triste alegria do alemão, não é só com o depoimento do inglês ou do francês que ele pode contar, mas com o irlandês e até mesmo com o chinês. O ateísta pode e deve desconfiar do que os católicos têm a dizer sobre a Igreja Católica, mas se ouvir o que os judeus têm a dizer sobre ela, ou os protestantes, ou os próprios ateus, ele terá dado seu primeiro passo rumo à construção de um consenso – que a princípio pode ser histórico ou anti-histórico. É assim que se descobre se há um fato amável sobre algo, ou um amor que ignora os fatos; e essa descoberta precisa estar em harmonia com a realidade. Bem como Sócrates Escolástico podia falar sobre a Igreja de sua época por ter vivido aquela época [4], também os judeus podem falar sobre a Igreja da Segunda Guerra, pois eles estavam lá. Nem todos os judeus estavam lá, mas alguns estavam, e é a eles que podemos emprestar nossos ouvidos [5][6][7][8]. 

Quando Richard Dawkins sente que a temperatura ambiente é capaz de ferver uma boa sopa de legumes, fala da Igreja e do nazismo como se Hitler e Pio XII fossem praticamente compadres [9]. Richard Dawkins é ainda mais problemático que Richard Carrier. Ao menos o segundo prestou-se a investigar alguma coisa. Eu não sou capaz de dizer qual dos dois demonstra maior apresso por polêmicas, mas sou capaz de dizer exatamente por que são polêmicas vazias. Dawkins repetiu diversas vezes que Hitler era católico por nunca ter renunciado ao batismo e por nunca ter sido excomungado pela Igreja. Mas ele parece ter a mente bastante limitada para sequer entender o que é uma excomunhão. Ele certamente nunca consultou o Direito Canônico. Parece que nenhum de seus leitores devotos o fez, e é por isso que eles se sentem até empolgados ao aplaudir algumas de suas declarações em alguma praça inglesa, em protesto à visita do Papa. De certo modo, Richard Carrier tem mais cautela e é até mais interessante: mas ele ainda precisa de algo sem o qual todas as suas ideias não podem resistir: novamente, trata-se do bom senso, pois ele certamente não percebe que mesmo suas ideias mais banais são completos absurdos. Lembro-me de seu artigo em que trazia ao leitor o resultado de suas investigações acerca do controverso Hitler’s Table Talk [10]. Lá ele denunciava as alterações de algumas traduções da obra e explicava o que o livro realmente dizia. Não se vê ali um Hitler anticristão: se vê, de fato, um Hitler lunático. Para Carrier, mesmo após toda a loucura, ainda se vê um Hitler católico, e o que fica evidente é que, assim como Richard Dawkins, ele sequer entende o catolicismo. Segundo os resultados de sua própria investigação, Hitler acreditava em um Cristo Ariano, desprezava o Apóstolo Paulo e repudiava como loucura o conceito da transubstanciação. Mas ele não vê, nisso tudo, algo que levante entre Hitler e o catolicismo a mínima contradição. 

Esse é exatamente o tipo de pessoa que condena a luta católica contra os hereges sem ao menos saber o que é uma heresia. Carrier está, em relação à Dawkins, mais familiarizado com a história, já que é um historiador: mas estar mais familiarizado com a história do que está Richard Dawkins não é necessariamente uma vantagem.  No fundo, nenhum dos dois pode dizer o que realmente aconteceu, no sentido de que nenhum dos dois é confiável: a ignorância é diferente, mas causa praticamente a mesma cegueira. Especialmente a cegueira de Carrier ficou muito clara, ao menos para mim, quando recomendou o filme Agora, de Alejandro Amenábar, em uma de suas palestras contra o cristianismo [11], em que disse que o filme era historicamente acurado e que quase o fez chorar. Não duvido que Agora seja capaz de fazer uma pessoa chorar, assim como estou certo de que é capaz de fazer uma pessoa gargalhar. O mesmo pode ser dito da avaliação de Carrier sobre o filme. De qualquer forma, deixarei outros comentários para outra oportunidade. 

Se as pessoas buscassem consenso entre autores, em vez de consultar apenas esses autores polemistas, que ou são cegos ou são obscuros, então teríamos a condição necessária ao entendimento da história: falo, novamente, de dar ouvidos aos olhos, sem que se esqueça, porém, dos lábios. As imagens podem registrar um momento marcante, mas somente as testemunhas e os relatos podem dar sentido ao momento e explicar porque ele foi marcante. Uma pessoa que é justa sobre a Igreja pode garantir muitas coisas sobre sua história: pode garantir que houve resistência e que houve traição; que houve fraqueza e que houve coragem; que houve fé e que houve desespero - e não há nada de surpreendente nisso tudo. Ninguém pode, porém, dizer que a Igreja, que por vezes parece um navio afundando, tenha realmente afundado ou perdido a esperança de encontrar terra firme. Não só ela encontrou terra firme, como também não hesitou em trazer naquele navio duvidoso uma tripulação que em nenhum outro lugar encontrou ajuda para superar as ondas cruéis de um mar impiedoso. Aquela tripulação não fez outra coisa senão agradecer por aquela imensa generosidade. Mas quem já estava na ilha, em segurança, quem não acompanhou o drama da tempestade olha para o navio e imagina que ele provavelmente não fez nada. À medida que a tripulação desaparece, também desaparece a gratidão. Enquanto duas ou três pessoas tentam falar sobre as glórias e importância do navio, os indiferentes veem nele apenas algo sem beleza e que ofusca a beleza do que o cerca. Não importa o que digam, será sempre um velho navio que por pouco não naufragou e que já não tem utilidade.

Esse é exatamente o julgamento que os modernos fazem do navio. Olham para o casco destruído, mas não imaginam o capitão ou a trajetória, nem distinguem os leais e os traidores. Não consultam os tripulantes, mas consultam os jornalistas, que apareceram muito depois de a âncora tocar o chão e congelar o tempo, como moscas que só vão até o cadáver quando o odor do corpo já é muito forte. Trata-se de olhar para a foto sem perceber que uma imagem não conta uma história. Trata-se de olhar para a história como se ela não fosse uma aventura no tempo, mas uns poucos retratos congelados. Minha avó sabe que seus retratos não revelam os segredos da infância, a alegria do casamento ou a felicidade da família. Mas os que são chamados céticos parecem não saber que o retrato diz muito pouco, principalmente para quem não sabe o que houve antes ou depois daquela fração de segundo.


Notas:
*Challenge Accepted, 3 de setembro de 2011: caosdinamico.com.

Referências:
  1. Eu apenas imagino a reação de alguns ao ler tal afirmação, mas o cristianismo passou os primeiros séculos sendo perseguido pelo Império Romano, e mesmo após ter crescido foi vitimado em diversos episódios de diferentes períodos e lugares - França, Espanha, México, por exemplo. Mas o mais notável é o fato de ainda hoje pessoas serem perseguidas por causa da fé cristã, como se pode perceber na China comunista ou em vários países teocráticos islâmicos.
  2. Eu, Ateu, 29 de agosto de 2011: A Igreja Católica era boazinha.
  3. Por "livros" não me refiro aos livros de historiadores que discutem a fundo cada pequeno evento histórico, levando em contas as fontes originais e o que outros historiadores afirmam sobre esses eventos; me refiro aos livros populares e ao desserviço que prestam à verdadeira História. Livros didáticos parecem tender à abordagem popular e ignorar a abordagem acadêmica, o que é no mínimo irônico.
  4. Sócrates de Constantinopla, historiador cristão, autor de Historia ecclesiastica, obra em que relata, por exemplo, o caso de Hipátia de Alexandria - filósofa assassinada por um grupo de cristãos, no século V.
  5. Há livros com depoimentos de judeus sobre o Papa Pio XII e a atitude da Igreja em relação ao drama sofrido pelos judeus sob o nazismo: Defamation of Pius XII, de Ralph McInerny; The Myth of Hitler's Pope, de David G. Dalin, e Did Pope Pius XII Help the Jews, de Margherita Marchione, por exemplo. O primeiro e segundo exemplo são respostas diretas a Hitler's Pope, de John Cornwell.
  6. A Pave the Way Foundation tem feito grandes esforços em esclarecer a figura de Pio XII e seu comportamento em relação aos judeus e nazistas. Eles compilaram pilhas de documentos, promoveram simpósios e publicaram um livro, Pope Pius XII and World War II - The Documented Truth, do judeu Gary Krupp, disponível em amazon.com. Também produziram um vídeo narrado sobre o assunto, que exibe vários documentos, como cartas escritas à mão: Pope Pius documents.
  7. No Google News Archives há uma publicação do The Milwaukee Sentinel, 22 de março de 1937 - antes mesmo da Segunda Guerra Mundial -, em que se lê: "Nazistas denunciados pelo Pio como anticristãos". A página completa pode ser acessada aqui: news.google.com.
  8. Mesmo O Globo atentou recentemente para o problema, em um artigo intitulado "A misteriosa relação do Vaticano com Hitler", 17 de março de 2012, de Graça Magalhães. Nele lemos: "Novos estudos revelam que Igreja teria sido sempre contrária ao nazismo, mesmo quando silenciou". A página completa pode ser acessada aqui: slideshare.net.
  9. "Protest the Pope" Rally, 18 de setembro de 2010: Richard Dawkins' speech at Protest the Pope march.
  10. Richard Carrier, em Freedom From Religion Foundation, On the Trail of Bogus Quotes, novembro de 2002. Disponível em ffrf.org.
  11. Richard Carrier, Early Christian Hostility to Scientific Values. A palestra está disponível no Youtube, dividida em oito partes: Richard Carrier on Early Christian Hostility to Science.

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