Religião e Super-heróis

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Caridade ATEA

Que direito tem a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos de criticar a caridade cristã? Conheça as raízes da prática da caridade e a diferença que isso fez para o Ocidente.

Inquisição Espanhola para leigos

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Igreja e Ciência

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Sobre índios, negros e escravos

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21 de novembro de 2012

A crença cotidiana #3

Essa é a terceira e última postagem correspondente ao único capítulo do e-book que esbocei no começo desse ano e acabei deixando de lado. Gostaria apenas de me desculpar por quão extensas foram as postagens, e manifestar minha compreensão caso o leitor considere não valer a pena a leitura.
Lembro-me de um site aparentemente respeitado que pretendia oferecer a prova definitiva da religiosidade de Hitler. As principais evidências eram imagens intrigantes de Hitler saindo de Igrejas, rodeado de sacerdotes, etc. As imagens de fato diziam algo, mas, como qualquer retrato, diziam muito pouco, especialmente para as pessoas que olham para a história como se imagens fossem capazes de cobrir eventos, intenções e probabilidades. Deparei-me com essa mesma "prova" em muitas discussões informais, e cheguei ao ponto de não mais me preocupar com ela por estar convicto de que ela não pode partir de pessoas minimamente interessadas em entender um pouco sobre tudo que o retrato não dizia. É oportuno revelar ao leitor o nome do site em que encontrei aquela prova definitiva: ceticismo.net [1]. 

Isso não é apenas uma coincidência irônica e aleatória: é, antes, a verdadeira expressão do ceticismo contemporâneo; possivelmente o primeiro ceticismo que não é cético. O ceticismo deixou de ser uma ferramenta que rompe a superficialidade das aparências para chegar ao fundo das questões e ao conhecimento pleno do fenômeno. Tornou-se, em vez disso, uma ferramenta que simpatiza com a superficialidade quando isso trás algum tipo de benefício. E o benefício se tornou a medida de praticamente todo o tipo de ceticismo que vemos nos livros antirreligiosos ou em artigos pseudocientíficos. O cético apresenta sua hipótese e a seguir expõe suas evidências até o ponto em que sua hipótese parece bem sustentada. Mas algumas evidências ele esconde, e algumas hipóteses ele sequer considera. Nesse processo, ele pode preferir uma hipótese absurda e ignorar a hipótese mais provável, porque o que é provável não lhe satisfaz, mas o que é absurdo parece ter sido feito sob medida para ele. Bom, neste caso, não só foi feito para ele: foi feito por ele, e ele sabe, como ninguém, o que ele deseja. 

Certa vez uma revista publicou uma pesquisa que revelava que apenas 13% dos brasileiros votariam [2] em ateus. Não discuto a justiça da porcentagem, mas, especialmente no meio político, que é popular pela falta de sinceridade e notável anseio inconsequente por vantagens por parte dos candidatos, é necessário perguntar quem considerará prudente apelar ao povo desprezando ou simplesmente ignorando o que povo brasileiro mais afirma respeitar: Deus. Também não discuto se o povo de fato o respeita. É tão prudente quanto um sujeito que tenta provar que não teme um ataque cardíaco pulando de um precipício sem paraquedas: a frieza não o livrará da morte. Suponho que, no Brasil, um político ateu dificilmente lançaria sua candidatura sendo honesto acerca de seu ateísmo: não porque ele é ateu, mas porque ele é político. Nesse momento gostaria de propor outra questão: Por que, na Alemanha cristã de um século atrás, seria prudente candidatar-se dessa forma? 

Não estou sugerindo que Hitler era um ateu que fingiu ser um homem de Deus, mas acho simplesmente prático admitir que, para alcançar o poder, ele fingiria coisas desse tipo. Não me interessa discutir se Hitler era um ateu, um cristão ou um bêbado: quero apenas ressaltar o fato óbvio de que ele era uma pessoa interessada em conquistar a confiança dos alemães. De fato, ele poderia ser um cristão que viu nesse elo com o povo uma grande oportunidade, mas se quisermos realmente sustentar essa hipótese, precisamos de algo além de moedas nazistas que louvam a Deus, pois também havia as moedas nazistas que louvavam a foice e o martelo: elas são menos populares porque fracassaram, e mesmo esse fato é bastante revelador. Talvez Deus nunca fosse louvado se a primeira tática tivesse sido um sucesso. Se uma pessoa considera todos os absurdos que um político doente pode dizer para ganhar o seu povo, ela poderá arriscar o número de vezes que esse sujeito mente por dia. Então, poderá perguntar algo fundamental: Hitler ousaria mentir para chegar aonde chegou? Teria ele sido capaz de considerar o que o povo queria e o que o povo rejeitaria ao traçar suas metas e esboçar seus discursos? Insisto que não pretendo sugerir coisas irrelevantes sobre Hitler, mas todas essas considerações escapam ao mero jogo de imagens e à tentativa de resumir a história em um álbum de figurinhas. Admito que Hitler deva ter seu direito de falar por si mesmo respeitado, apesar disso não acontecer com Imperadores ortodoxos ou santos do século XVI, mas o que ele disse muda as coisas tanto quanto se tivesse ficado calado. Escreveu, na mesma obra em que disse fazer a vontade do Senhor, que seus discursos públicos eram propagandas sem compromisso com a verdade. Talvez algum jornalista qualquer quisesse dizer, na primeira página do Planeta Diário, o mesmo sobre Lex Luthor, mas a verdade é que a manchete seria desnecessária. 

Antes de encerrar gostaria de fazer algumas considerações complementares. Em nenhum momento sugeri, por exemplo, que devemos acreditar em tudo que nossas avós nos dizem, mas repito que não devemos descartar uma história pelo simples fato de ela ter sido contada por nossas avós, como se elas não merecessem ser levadas a sério. Dentre as pessoas que estão sempre contestando as coisas que os mais velhos dizem, pelo simples fato de terem sido ditas pelos mais velhos, existe aquele jovem irritante que pensa que seus avós são estúpidos pelo simples fato de não terem crescido em um ambiente moderno, como se a época em que se vive fosse garantia de inteligência. Esse jovem é irritante justamente por não perceber que é mais imbecil que os maiores imbecis da Grécia Antiga, e por não perceber que a modernidade dificilmente produzirá um Aristóteles. É necessário enfatizar que, assim como é possível que uma piada contada por uma pessoa comum seja tão engraçada quanto uma piada contada por um humorista, também é possível que uma história contada por nossas avós seja tão verdadeira quanto uma história contada por um cientista. O fato é que a graça da piada não depende necessariamente de quem a conta, e, do mesmo modo, a veracidade de uma história não depende necessariamente de quem a descreve. Uma criança normal ri de uma piada contada pelo próprio pai porque a ela interessa apenas a piada; mas dificilmente o cético de hoje acreditará numa história contada pela própria mãe, pois a ele não interessa a história: a ele interessa, acima de tudo, quem conta a história. Acreditará nos maiores absurdos por estar certo de que alguns absurdos não poderiam ser defendidos por alguns intelectuais que ele admira. Ainda assim, o prazer que a criança sente ao sorrir ele não sente ao duvidar; o que ele supõe ser ceticismo é, na verdade, um conjunto de dúvidas desordenadas que dificilmente levará à ataraxia desejada pelas correntes céticas originais [3]. A dúvida desordenada sobre todas as coisas causa apenas inquietação, pois é um meio que não busca nenhum fim e, consequentemente, não alcança nenhuma satisfação. Nem pode, portanto, ser chamada de meio. 

Também não foi minha intenção fazer uma apologia ao ceticismo, pois para mim já chegou o dia em que ele perdeu seu encanto, apesar de não ter perdido a beleza. Quero apenas ressaltar que há um ceticismo que se pode chamar de sensato, que é digno e deve ser respeitado. Não é esse o ceticismo que se nota nos dias de hoje, e por isso sugeri que não é apropriado chamá-lo de ceticismo, precisamente porque não só ele perdeu a beleza: ele perdeu a essência. Não mais se suspende o julgamento apenas quanto ao que está oculto; em vez disso, suspende-se o julgamento quanto ao que é evidente. Quando Chesterton propôs as duas tríades de objeções comuns ao cristianismo em seu tempo, denunciou exatamente o cético frágil que muito se parece com um homem cuja visão não é boa e cujos óculos estão empoeirados, e ainda assim hesita em limpá-los. "O cético estava muito certo em pautar-se pelos fatos, só que ele não havia analisado os fatos. O cético é crédulo demais; acredita em jornais ou até mesmo em enciclopédias" [4]. Se tentarmos amigavelmente alertar aquele homem que seus óculos estão sujos, mesmo que seja uma sujeira quase imperceptível, corremos o risco de ouvi-lo dizer, com um orgulho típico de nosso tempo: "Eu não vejo nada". Soma-se a pouca poeira à visão um pouco prejudicada, e a visão do homem é sutilmente distorcida. Quando ele olha para o que está próximo de seus olhos, sente que sua visão é perfeita; é quando ele olha para muito longe que a poeira atrapalha. Assim também é o cético de hoje olhando para o cristianismo: ele tem uma boa noção do que ele vê em sua volta, todos os dias; mas quando ele olha para o que está longe, há séculos e séculos de distância, ele não consegue dizer bem o que vê, pois não vê coisa alguma. O fato curioso é que, apesar disso, ele insiste em dizer que está vendo perfeitamente, mesmo quando até aquele homem orgulhoso já teria ouvido o nosso conselho e limpado as suas lentes. 

E agora posso concluir dizendo que nunca podemos esquecer essa condição fundamental: nossas lentes devem estar limpas. Mera disposição para andar não é garantia de que chegaremos ao lugar certo. Como é moda atualmente, um dia cheguei a me convencer de que a verdade era um veneno, e que por isso não merecia ser perseguida. Depois, por mero pessimismo, me convenci de que a verdade não existia. Precisei descobrir uma velha filosofia para entender que ela não só existia, mas era também a cura para a humanidade. E aos poucos eu fui curado. Senti um grande alívio ao descobrir que a verdade era bela, e que só não enxergara antes sua beleza porque minhas lentes estavam embaçadas. Depois de observá-la atentamente e refletir acerca do caminho que me levou até ali, uma grande alegria brotou em meu coração, e um otimismo completamente novo tomou conta de mim. Às vezes, quando um homem toma conhecimento de um segredo, se sente bobo ao considerar todas as coisas que teria feito de outra forma se já o conhecesse antes. Mas talvez seja importante que determinados eventos aconteçam em determinados momentos. Os menores detalhes do dia-a-dia direcionam as maiores curvas da vida. Se tudo isso pareceu uma simples denúncia contra alguém, ele certamente foi uma denúncia contra eu mesmo. Falei da ingenuidade das pessoas e da descoberta da cura, e todo esse tempo estive pensando no quanto fui ingênuo e de quantas vacinas eu precisava; e de quantas ainda preciso. Confesso que por vezes me preocupei demais com esse último detalhe devido a minha aversão a agulhas, mas temo que para produzir o efeito desejado a agulha precisa penetrar fundo em nossa pele. Somente abaixo da superfície alguns segredos podem ser revelados. Algumas coisas são valiosas demais para ficarem expostas; é necessário protegê-las de alguma forma, seja com a nossa própria carne ou com quebra-cabeças inventados por Deus. 


Referências:
  1. Ceticismo.net, "Hitler era ateu?", 20 de abril de 2010. Disponível em: ceticismo.net.
  2. Revista VEJA, "Como a fé resiste à descrença", 26 de dezembro de 2007. Disponível em: veja.abril.com.br.
  3. Mário Ferreira dos Santos, Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, vol. 1, São Paulo: Editora Matese, 1963, págs. 255-8.
  4. G. K. Chesterton, Ortodoxia, trad. de Almiro Pisetta, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, pág. 243.

18 de novembro de 2012

Alegria na floresta

Em todo romance genuíno há três personagens vivos e comoventes. Para o bem do argumento eles podem ser chamados São Jorge e o Dragão e a Princesa. Em todo romance deve haver os elementos gêmeos de amar e combater. Em todo romance deve haver esses três personagens: deve haver a Princesa, que é coisa a ser amada; deve haver o Dragão, que é a coisa a ser combatida; e deve haver São Jorge, que é a coisa que ao mesmo tempo ama e combate. Tem havido muitos sintomas de cinismo e decadência na nossa civilização moderna. Mas de todos os sinais da debilidade moderna, da falta de compreensão da moral como ela realmente deve ser, não houve nenhum tão bobo e tão perigoso quanto esse: que os filósofos de hoje começaram a separar o amor da luta e a os colocarem em campos opostos. [...] As duas coisas implicam uma à outra; elas implicaram uma à outra no antigo romance e na antiga religião, que eram as duas coisas permanentes da humanidade. Você não pode amar uma coisa sem querer lutar por ela. Você não pode lutar sem ter algo pelo qual se luta [1].

G. K. Chesterton.

Mais e mais tenho a impressão de que as pessoas falam de felicidade como algo que deve ser conquistado, e essa impressão sempre me deixa inquieto. Algumas vezes penso que as pessoas não sabem o que é felicidade; outras vezes sinto como se fosse eu quem não a conhecesse. Mas a razão pela qual fico inquieto não é a possibilidade de eu estar errado, mas as implicações que seguem o erro. Se a felicidade é uma conquista, então eu provavelmente não a conhecerei tão logo, pois eu não tenho me esforçado para conquistá-la. De fato, eu não sei sequer onde está o dragão que devo derrotar para que possa finalmente salvar minha princesa. 

Acredito em dragões e em princesas, e acredito principalmente que os dragões devem ser derrotados e que as princesas devem ser salvas. Minha objeção não está em nada disso. Simplesmente não acredito que a felicidade seja um prêmio ou recompensa pelo esforço do cavaleiro. Em outras palavras, acredito que os contos de fada terminam com a frase “felizes para sempre” porque seus personagens já eram felizes antes de todas as dificuldades, e continuaram felizes após as ter superado. As dificuldades da vida – as bruxas e os dragões – não são motivos de tristeza, e após o triunfo sobre elas a felicidade tem sempre um ar de novidade, como uma surpresa que apesar de conhecida torna ainda a surpreender e revigora os ânimos da vida cotidiana. 

Os cavaleiros são sempre corajosos e estão dispostos ao sacrifício, mas eu não vejo como essa coragem e essa disposição poderiam nascer da tristeza. A fonte dessas virtudes, obviamente, é o amor, e onde há amor há esperança, pois o amor vem sempre acompanhado de um ideal, e nenhum ideal pode ser alcançado sem esperança ou fé. O homem não pode fazer cálculos matemáticos e observações em laboratório para descobrir o dia em que irá se casar, nem com quem. Primeiro ele deve encontrar uma donzela e esperar que ela seja a donzela feita para ele, mas o fato é que ele nunca poderá ter certeza. Depois ele deve se ajoelhar diante dela e esperar ouvir a resposta desejada para a pergunta que ele esboçava desde sua infância, mas ele não terá certeza de que irá ouvi-la. E após atravessar toda uma floresta de monstros e armadilhas ele estará aguardando o momento em que poderá levantar o véu de sua amada, olhar em seus olhos com a pureza de uma criança e selar com um beijo a vitória sobre o dragão. Mas o que é necessário ser notado é que o mesmo caminho feito até a Igreja será novamente percorrido na volta para a casa: é necessário notar que nós estamos sempre atravessando a floresta. 

Os adultos costumam dizer que a vida não é fácil, mas eu dificilmente vejo adultos dizendo que a vida não deve ser vivida, ou que a sua dificuldade rouba-lhe a beleza. Uma coisa não é ruim porque é difícil, mesmo que pareça impossível. De fato, é mais provável que uma coisa seja ruim por ser fácil demais. E eu temo que em pouco tempo não possa mais dizer que os adultos não se entregam diante das dificuldades da vida, exatamente porque as novas gerações querem conquistar a felicidade: querem conquistá-la como se ela fosse um pote mágico de ouro que quando recebido acabará com todos os problemas. Pois é essa a noção de felicidade moderna: viver sem problemas. E porque é impossível não ter problemas algumas pessoas já espalham por aí que a felicidade não existe. 

Mas é claro que a felicidade existe: ela existe no coração confiante e esperançoso, disposto ao sacrifício, cheio de amor e coragem do cavaleiro. Ela pode ser muito bem definida como a soma desses elementos; como uma mistura das virtudes humanas e das virtudes oferecidas ao homem por Deus. E o produto dessa felicidade é a alegria, que não por acaso significa disposição. Já vi muita gente dizendo ser feliz, e ao ouvir algumas delas tive a impressão de que elas se sentiam obrigadas a dizer que eram felizes, como se autodeclarar-se infeliz fosse uma admissão de fracasso. E para elas realmente é, pois elas pensam na felicidade como uma conquista, e parece mesmo haver uma competição para conquistá-la o mais rápido possível e mostrá-la a quem ainda não chegou lá. E para isso posso apenas dizer que as coisas são muito mais fáceis para pessoas como eu, que pensam que a felicidade é um presente. Não é uma recompensa, pois recompensa significa reequilibrar e implica mérito. Mas a felicidade não surge de méritos e o homem que esperar ser feliz porque merece certamente acabará desesperado; o que é o caso do nosso tempo. 

Digo confiante que o momento em que um homem descobre que não pode conquistar a felicidade pelas suas próprias mãos é o momento em que ele realmente está pronto para começar a ser feliz: é o momento em que ele começará a sorrir para estranhos e olhar para o céu com gratidão, pois é nesse momento que ele encontrou a alegria, e só a encontrou porque alguém lhe mostrou onde ela estava. O cavaleiro deve ter encontrado a alegria antes de atravessar a floresta e antes de combater o dragão, pois assim poderá salvar a princesa e ainda agradecê-la por lhe ter permitido contemplar tamanha beleza após a vitória sobre algo tremendamente horrível. E o verdadeiro cavaleiro não tentará levar a princesa do castelo contra a vontade dela, mesmo que a tenha livrado de grandes perigos. Ele não irá cobrá-la por ter prestado um favor, e talvez ainda se ajoelhe diante dela por sentir-se honrado em ter lutado contra aquele monstro pela vida de alguém que torna o mundo mais belo.

Seria ainda razoável dizer que se o cavaleiro não tivesse encontrado a alegria antes de atravessar a floresta ele nunca tentaria atravessá-la. Um homem triste e deprimido nunca quer sair de casa. A aventura requer uma disposição para aventurar-se. Combater o dragão requer uma filosofia que permita ao cavaleiro encarar o dragão como outra criatura qualquer; uma criatura que é, como ele mesmo, mais frágil que o seu Criador. Refiro-me a uma filosofia em que é Deus quem cria o dragão, mas apenas para que o cavaleiro possa valorizar a princesa; uma filosofia em que é o cavaleiro quem derruba o dragão, mas apenas porque Deus é seu aliado.

E insisto que quando um homem desiste da ideia de que merece as coisas, mesmo as coisas pequenas serão apreciadas como dádivas divinas, e mesmo as grandes dificuldades não serão vistas como obstáculos ao amor divino. É verdadeiramente fácil admitir que devemos lutar por aquilo que amamos, e que o amor é provado nos sacrifícios da batalha. É tão fácil quanto admitir que a vida é difícil, ou nesse caso, um campo de batalha. Mas é um campo que poderia não estar ali, assim como o cavaleiro poderia não estar ali, e também a princesa poderia não estar ali. Me parece, no entanto, uma coisa boa que todos eles estejam ali, assim como pareceu uma coisa boa para Deus que o homem e a mulher estivessem no Jardim, e por isso sou grato. Eu entendo que as pessoas não compreendam por que Deus permitiria o dragão ou a serpente, e eu certamente não poderia explicar a real intenção. Mas para mim está muito claro que Deus quis deixar o homem livre para aventurar-se, livre para amar e combater: e para isso o dragão é realmente uma necessidade.

Gosto de imaginar que no momento em que o primeiro cavaleiro ouviu sobre o primeiro dragão ele pode ter sentido medo, mas então Deus cochichou no seu ouvido que era mais poderoso que o dragão, e lhe entregou uma espada para lembrá-lo de qual lado Ele estava: e essa espada era a alegria. Com ela o cavaleiro derrotou o dragão, salvou a princesa e voltou à Igreja, onde junto a outros cavaleiros agradecia por um presente singular, o próprio presente que tornava a alegria possível e sincera: o dom da vida. Pensei que uma boa frase para resumir a filosofia que tentei brevemente expor aqui seria “a vida é bela”, e de repente me lembrei do sacrifício de Guido Orefice, o cavaleiro que lutou pela coisa amada com uma alegria de outro mundo, e que de fato deve refletir a alegria de outro mundo, pois nem a própria morte é forte o suficiente para assombrá-la.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, Appreciations and Criticisms of the Works of Charles Dickens. Londres: J. M. DENT & SONS, Ltd., 1911, págs. 27-8.

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