18 de novembro de 2012

Alegria na floresta

Em todo romance genuíno há três personagens vivos e comoventes. Para o bem do argumento eles podem ser chamados São Jorge e o Dragão e a Princesa. Em todo romance deve haver os elementos gêmeos de amar e combater. Em todo romance deve haver esses três personagens: deve haver a Princesa, que é coisa a ser amada; deve haver o Dragão, que é a coisa a ser combatida; e deve haver São Jorge, que é a coisa que ao mesmo tempo ama e combate. Tem havido muitos sintomas de cinismo e decadência na nossa civilização moderna. Mas de todos os sinais da debilidade moderna, da falta de compreensão da moral como ela realmente deve ser, não houve nenhum tão bobo e tão perigoso quanto esse: que os filósofos de hoje começaram a separar o amor da luta e a os colocarem em campos opostos. [...] As duas coisas implicam uma à outra; elas implicaram uma à outra no antigo romance e na antiga religião, que eram as duas coisas permanentes da humanidade. Você não pode amar uma coisa sem querer lutar por ela. Você não pode lutar sem ter algo pelo qual se luta [1].

G. K. Chesterton.

Mais e mais tenho a impressão de que as pessoas falam de felicidade como algo que deve ser conquistado, e essa impressão sempre me deixa inquieto. Algumas vezes penso que as pessoas não sabem o que é felicidade; outras vezes sinto como se fosse eu quem não a conhecesse. Mas a razão pela qual fico inquieto não é a possibilidade de eu estar errado, mas as implicações que seguem o erro. Se a felicidade é uma conquista, então eu provavelmente não a conhecerei tão logo, pois eu não tenho me esforçado para conquistá-la. De fato, eu não sei sequer onde está o dragão que devo derrotar para que possa finalmente salvar minha princesa. 

Acredito em dragões e em princesas, e acredito principalmente que os dragões devem ser derrotados e que as princesas devem ser salvas. Minha objeção não está em nada disso. Simplesmente não acredito que a felicidade seja um prêmio ou recompensa pelo esforço do cavaleiro. Em outras palavras, acredito que os contos de fada terminam com a frase “felizes para sempre” porque seus personagens já eram felizes antes de todas as dificuldades, e continuaram felizes após as ter superado. As dificuldades da vida – as bruxas e os dragões – não são motivos de tristeza, e após o triunfo sobre elas a felicidade tem sempre um ar de novidade, como uma surpresa que apesar de conhecida torna ainda a surpreender e revigora os ânimos da vida cotidiana. 

Os cavaleiros são sempre corajosos e estão dispostos ao sacrifício, mas eu não vejo como essa coragem e essa disposição poderiam nascer da tristeza. A fonte dessas virtudes, obviamente, é o amor, e onde há amor há esperança, pois o amor vem sempre acompanhado de um ideal, e nenhum ideal pode ser alcançado sem esperança ou fé. O homem não pode fazer cálculos matemáticos e observações em laboratório para descobrir o dia em que irá se casar, nem com quem. Primeiro ele deve encontrar uma donzela e esperar que ela seja a donzela feita para ele, mas o fato é que ele nunca poderá ter certeza. Depois ele deve se ajoelhar diante dela e esperar ouvir a resposta desejada para a pergunta que ele esboçava desde sua infância, mas ele não terá certeza de que irá ouvi-la. E após atravessar toda uma floresta de monstros e armadilhas ele estará aguardando o momento em que poderá levantar o véu de sua amada, olhar em seus olhos com a pureza de uma criança e selar com um beijo a vitória sobre o dragão. Mas o que é necessário ser notado é que o mesmo caminho feito até a Igreja será novamente percorrido na volta para a casa: é necessário notar que nós estamos sempre atravessando a floresta. 

Os adultos costumam dizer que a vida não é fácil, mas eu dificilmente vejo adultos dizendo que a vida não deve ser vivida, ou que a sua dificuldade rouba-lhe a beleza. Uma coisa não é ruim porque é difícil, mesmo que pareça impossível. De fato, é mais provável que uma coisa seja ruim por ser fácil demais. E eu temo que em pouco tempo não possa mais dizer que os adultos não se entregam diante das dificuldades da vida, exatamente porque as novas gerações querem conquistar a felicidade: querem conquistá-la como se ela fosse um pote mágico de ouro que quando recebido acabará com todos os problemas. Pois é essa a noção de felicidade moderna: viver sem problemas. E porque é impossível não ter problemas algumas pessoas já espalham por aí que a felicidade não existe. 

Mas é claro que a felicidade existe: ela existe no coração confiante e esperançoso, disposto ao sacrifício, cheio de amor e coragem do cavaleiro. Ela pode ser muito bem definida como a soma desses elementos; como uma mistura das virtudes humanas e das virtudes oferecidas ao homem por Deus. E o produto dessa felicidade é a alegria, que não por acaso significa disposição. Já vi muita gente dizendo ser feliz, e ao ouvir algumas delas tive a impressão de que elas se sentiam obrigadas a dizer que eram felizes, como se autodeclarar-se infeliz fosse uma admissão de fracasso. E para elas realmente é, pois elas pensam na felicidade como uma conquista, e parece mesmo haver uma competição para conquistá-la o mais rápido possível e mostrá-la a quem ainda não chegou lá. E para isso posso apenas dizer que as coisas são muito mais fáceis para pessoas como eu, que pensam que a felicidade é um presente. Não é uma recompensa, pois recompensa significa reequilibrar e implica mérito. Mas a felicidade não surge de méritos e o homem que esperar ser feliz porque merece certamente acabará desesperado; o que é o caso do nosso tempo. 

Digo confiante que o momento em que um homem descobre que não pode conquistar a felicidade pelas suas próprias mãos é o momento em que ele realmente está pronto para começar a ser feliz: é o momento em que ele começará a sorrir para estranhos e olhar para o céu com gratidão, pois é nesse momento que ele encontrou a alegria, e só a encontrou porque alguém lhe mostrou onde ela estava. O cavaleiro deve ter encontrado a alegria antes de atravessar a floresta e antes de combater o dragão, pois assim poderá salvar a princesa e ainda agradecê-la por lhe ter permitido contemplar tamanha beleza após a vitória sobre algo tremendamente horrível. E o verdadeiro cavaleiro não tentará levar a princesa do castelo contra a vontade dela, mesmo que a tenha livrado de grandes perigos. Ele não irá cobrá-la por ter prestado um favor, e talvez ainda se ajoelhe diante dela por sentir-se honrado em ter lutado contra aquele monstro pela vida de alguém que torna o mundo mais belo.

Seria ainda razoável dizer que se o cavaleiro não tivesse encontrado a alegria antes de atravessar a floresta ele nunca tentaria atravessá-la. Um homem triste e deprimido nunca quer sair de casa. A aventura requer uma disposição para aventurar-se. Combater o dragão requer uma filosofia que permita ao cavaleiro encarar o dragão como outra criatura qualquer; uma criatura que é, como ele mesmo, mais frágil que o seu Criador. Refiro-me a uma filosofia em que é Deus quem cria o dragão, mas apenas para que o cavaleiro possa valorizar a princesa; uma filosofia em que é o cavaleiro quem derruba o dragão, mas apenas porque Deus é seu aliado.

E insisto que quando um homem desiste da ideia de que merece as coisas, mesmo as coisas pequenas serão apreciadas como dádivas divinas, e mesmo as grandes dificuldades não serão vistas como obstáculos ao amor divino. É verdadeiramente fácil admitir que devemos lutar por aquilo que amamos, e que o amor é provado nos sacrifícios da batalha. É tão fácil quanto admitir que a vida é difícil, ou nesse caso, um campo de batalha. Mas é um campo que poderia não estar ali, assim como o cavaleiro poderia não estar ali, e também a princesa poderia não estar ali. Me parece, no entanto, uma coisa boa que todos eles estejam ali, assim como pareceu uma coisa boa para Deus que o homem e a mulher estivessem no Jardim, e por isso sou grato. Eu entendo que as pessoas não compreendam por que Deus permitiria o dragão ou a serpente, e eu certamente não poderia explicar a real intenção. Mas para mim está muito claro que Deus quis deixar o homem livre para aventurar-se, livre para amar e combater: e para isso o dragão é realmente uma necessidade.

Gosto de imaginar que no momento em que o primeiro cavaleiro ouviu sobre o primeiro dragão ele pode ter sentido medo, mas então Deus cochichou no seu ouvido que era mais poderoso que o dragão, e lhe entregou uma espada para lembrá-lo de qual lado Ele estava: e essa espada era a alegria. Com ela o cavaleiro derrotou o dragão, salvou a princesa e voltou à Igreja, onde junto a outros cavaleiros agradecia por um presente singular, o próprio presente que tornava a alegria possível e sincera: o dom da vida. Pensei que uma boa frase para resumir a filosofia que tentei brevemente expor aqui seria “a vida é bela”, e de repente me lembrei do sacrifício de Guido Orefice, o cavaleiro que lutou pela coisa amada com uma alegria de outro mundo, e que de fato deve refletir a alegria de outro mundo, pois nem a própria morte é forte o suficiente para assombrá-la.


Referências:
  1. G. K. Chesterton, Appreciations and Criticisms of the Works of Charles Dickens. Londres: J. M. DENT & SONS, Ltd., 1911, págs. 27-8.

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